terça-feira, 22 de junho de 2010

O jovem brasileiro e a leitura

Graciema Pires Therezo

Para dizer da importância da leitura para o jovem hoje, lembro as palavras de Ezequiel Teodoro da Silva, ao afirmar a natureza transcendental da palavra. Por ter o ser humano uma inteligência lingüística, o ato de ler é que lhe permite conhecer palavras para exprimir seus sentimentos, suas emoções, suas idéias. Permite-lhe estar no mundo como pessoa; pôr-se em contato, pelo poder da escrita, com as idéias dos grandes homens, mesmo que distantes no espaço ou mortos já há séculos. Permite-lhe fruir do belo literário, alcançando, em suas fontes, a expressão do que não pode ser expresso pela oralidade nem exposto pela linguagem denotativa. Por aí se deduz que ler não só propicia o crescimento intelectual do jovem, como o desenvolvimento de sua sensibilidade, sua formação como ser humano. Mas ele não sabe disso.

Contardo Calligaris, em artigo publicado na Folha de São Paulo, conta da alegria de trabalhadores imigrantes italianos, em um curso de alfabetização de adultos, ao conseguirem ler pequenos parágrafos de grandes obras literárias e reconhecer, em situações de vida, conflitos vivenciados por personagens dos grandes clássicos. E não eram crianças em busca de fantasias, nem adolescentes em busca das emoções trazidas por livros de aventuras. Eram homens maduros penetrando nos grandes mistérios da vida humana em suas trágicas dimensões.

Como professora de Leitura e Produção de Textos na Universidade, sinto-me à vontade para fazer algumas reflexões nascidas da experiência e da observação. A resposta de uma aluna sobre suas leituras das férias de julho (“— Eu só li torpedos”), em um primeiro momento extremamente impactante, é a prova de que os jovens modernos, mesmo tendo ingressado em uma Faculdade, continuam a roubar-se das possibilidades de crescimento intelectual pelo desprezo pela leitura. Preferem as mensagens do celular, as conversinhas pelo MSN, os e-mails em linguagem cifrada à página de um livro. Modernidades à parte, idiossincrasias de professora de Português descontadas, o que fica é uma indagação sobre as razões da famosa “falta de hábito de leitura” tão amplamente discutida nos COLES e nas salas dos professores de todas as escolas que se prezam. Por que o brasileiro lê tão pouco?

A justificativa corrente é a de que o nosso é um país pobre, de que as pessoas não têm dinheiro nem mesmo para comprar jornal, quanto mais para gastar em livro; que este é caro, artigo de luxo para a esmagadora maioria da população. Estatísticas mostram que, no Brasil, foram vendidos, em 2005, menos livros que em Buenos Aires, apenas uma cidade da Argentina, país recém-saído de crise econômica, de moeda fraca e política ainda em reestruturação. Será mesmo que o brasileiro não tem condições financeiras que lhe permitam o hábito de ler? Entretanto, as mesmas estatísticas revelam que, no shopping-list dos Estados Unidos, o livro está entre os primeiros dez itens de consumo, enquanto, no Brasil, entre os dez primeiros aparecem cosméticos e produtos para cachorro (veja-se o número de pet shops nas grandes cidades brasileiras...) Será que isso não leva a crer que a questão é cultural e, não, econômica?

Há exemplos maravilhosos de pessoas que freqüentam sebos, tomam livros emprestados de bibliotecas, de parentes, e, até mesmo, exemplos de catadores de papel que lêem livros jogados no lixo. Recentemente os jornais publicaram a notícia de uma biblioteca formada com mais de mil desses exemplares e disponibilizada aos amigos por um morador de favela. E há exemplos de uma elite endinheirada que tem televisão de plasma, computadores de última geração, celulares substituídos a cada novo modelo no mercado, mas que não lê.

O Brasil tem uma cultura da oralidade e, não, da escrita. A criança brasileira fica poucas horas na escola e o resto do dia vê televisão, fala e ouve. A própria escola é oralizante, pois o professor prefere dar aula expositiva, “facilitando” para o aluno, em linguagem coloquial, as explicações que, no manual didático, estão em texto escrito de coesão mais “difícil” e vocabulário “mais complicado”. Até mesmo em cursinhos pré-vestibulares, nota-se que alguns professores acreditam, ingenuamente, que, ao aproximar sua linguagem da do jovem, suas explanações ficam mais claras . E o aluno é imaturo para perceber que a facilitação, até mesmo com o uso de expressões populares e gírias mais comuns, contribui para afastá-lo não só da norma culta das obras que deve ler para suas provas de ingresso na universidade, mas do nível padrão que deve adotar em seus textos escritos. Repertório insuficiente para a expressão escrita clara de suas idéias sobre questões propostas nos vestibulares e pobreza vocabular na hora da redação revelam, claramente, essa falta de leitura.

Graciema Pires Therezo é professora de Leitura e Produção Textual na PUC-Campinas

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