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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Prática de leitura mantém cérebro ativo ao longo da vida

por Elisandra Vilella G. Sé

"Práticas de leitura ajudam a manter a funcionalidade intelectual ao longo da vida, mantendo a mente ativa e prevenindo déficits de memória e declínios das funções cognitivas - capacidade de adquirir e reter conhecimento" Imagina-se que as pessoas mais velhas passem mais tempo lendo do que as pessoas mais jovens, pelo fato da leitura ser uma atividade que não exige tanto esforço físico e a maior parte das pessoas mais velhas ser aposentada e com tempo mais livre para sua prática. Mas não é bem assim. Geralmente as pessoas mais velhas depois de se aposentarem não leem mais.
Os adultos mais velhos que leem muito são os que geralmente foram quase leitores vorazes quando jovens. Se considerarmos apenas os adultos mais velhos, que são leitores ativos, então existem certas diferenças intrigantes entre eles e seus pares mais jovens.

Os leitores mais velhos ativos passam mais tempo lendo, mas significativamente a maior parte do tempo é reservada à leitura de jornais e revistas. Isso significa que a prática de leitura dos mais velhos não é tão intensa a ponto de desenvolver e manter a habilidade da leitura, porque o conteúdo dos jornais pode ser fácil comparado às exigências de um romance de peso, por exemplo. Da mesma maneira que a falta de treino intenso reduz o desempenho de um atleta, a falta de leitura de textos, livros de ficção, romance, biografias, documentários, pode provocar um declínio nas habilidades de leitura. Não se sabe por que ocorre essa mudança nos hábitos de leitura ao longo da vida.

Muitas pessoas quando chegam à velhice sentem que já leram quase toda ficção que gostariam de ler e não querem reler obras das quais já conhecem os enredos. Os adultos jovens talvez leiam obras mais “pesadas” para aperfeiçoar-se. Os mais velhos já não têm esse impulso competitivo. Seja qual for a razão, eles escolhem leituras fáceis, tipo periódicos, jornais ou ficção leve na maior parte do tempo. Além disso, eles parecem se divertir tanto com suas leituras quanto os adultos mais jovens.

A leitura é uma “atividade interativa complexa de produção de sentidos”, ou seja, quando lemos um texto estamos captando ideias do autor, interagindo com ele, mobilizando saberes. A capacidade do uso da linguagem, que diferencia o homem de outros animais, é uma admirável capacidade de formar ideias no cérebro dos demais. Portanto, a leitura é uma atividade na qual se levam em conta as experiências e os conhecimentos do leitor, exigindo dele um conhecimento dos sistemas da linguagem (conhecimento gramatical), o conhecimento de mundo ou enciclopédico (vocabulário, conceitos, representações) e o conhecimento sociointeracional (conhecimento sobre as ações verbais, formas de inter-ação através da linguagem). Tais conhecimentos envolve, também, o saber sobre as práticas peculiares ao meio social e histórico em que vivem os leitores para que possa existir o devido reconhecimento do que está sendo lido.

Quando lemos um texto não somos simplesmente um decodificador de textos, um receptor passivo, e sim sujeitos com conhecimentos em processo de interação com o conteúdo que gostamos ou que nos interessamos em ler. Dessa forma a leitura é o processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecimento pelo assunto, sobre o autor e de tudo que sabe sobre a linguagem. É uma atividade que implica estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação, para haver a devida compreensão. As práticas de leitura ajudam a manter a funcionalidade intelectual ao longo da vida, mantendo a mente ativa e prevenindo de déficits de memória e declínios das funções cognitivas.

Estilo de vida e letramento

As práticas de leitura estão relacionadas ao estilo de vida das pessoas e ao seu grau de letramento. 

Letramento se define por um “conjunto de práticas de comunicação social” relacionadas com o uso de materiais escritos, que envolvem ações de natureza não só física, mental e linguístico/discursiva como também social e político/ideológica. Letramento não é o mesmo que alfabetização ou nível educacional, ou seja, não corresponde ao aprendizado do código escrito. O letramento se refere ao contexto e práticas sócioculturais determinadas. Tem a ver mais com o conhecimento e os usos que o sujeito tem da língua e realiza com ela, do que com a formalização do aprendizado do código escrito que a pessoa apresenta. O letramento é a habilidade de se colocar em prática todos os comportamentos necessários para desempenhar adequadamente todas as demandas de leitura. 

A deficiência visual também é um fator que prejudica a manutenção dos hábitos de leitura na velhice. A visão da maioria das pessoas mais velhas piora e a acuidade visual diminui. Estudos estimam que 23% das pessoas mais velhas são incapazes de ler textos em impressão normal. Uma solução para isso é imprimir livros com caracteres maiores. A impressão maior facilita a leitura para as pessoas com dificuldade visual. 

O importante é que se mantenham as habilidades de leitura ao longo da vida, a prática da leitura aumenta a *densidade sináptica no cérebro, aumentando o número de conexões neuronais. E a ação reflexiva dos indivíduos sobre a língua, além de possibilitar o bom funcionamento intelectual, auxilia na manutenção das competências na velhice devido ao enriquecimento de estratégias sóciocognitivas acumuladas ao longo do curso de vida, na qual se inclui a leitura e a escrita.

*Densidade sináptica: refere-se ao número de neurônios e consequentemente maior comunicação entre as células nervosas.

Elisandra Vilella G. Sé
é Fonoaudióloga, Mestre em Gerontologia e Doutoranda em Lingüística

Fonte: Vya Estelar

sábado, 19 de junho de 2010

Apenas 3% da população com mais de 60 anos têm o hábito da leitura

O incentivo à leitura no Brasil vem recebendo cada vez mais atenção do governo, de empresas e de instituições que acreditam na construção de um país mais desenvolvido por meio do hábito da leitura. Porém, o quadro de brasileiros que leem com frequência não é muito animador, principalmente entre pessoas com mais de 60 anos, que, apesar de estarem com a vida mais tranquila, em sua grande maioria, não ocupam o tempo livre com a leitura.

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro, a maior parcela de não-leitores está entre os adultos de 30 a 39 anos, somando 15% dos entrevistados. De 40 a 49, também 15%; 50 a 59, 13%, e 60 a 69, 11%. Esse número diminui de acordo com a renda familiar e classe social, o que reforça que o poder aquisitivo é significativo para a constituição de leitores assíduos.

A pesquisa foi realizada com 92% da população, a partir dos 5 anos de idade. Desse número, apenas 3% de leitores têm mais de 60 anos, e a maioria da população leitora do país é de mulheres: 55%. A dona de casa Reni de Souza Cardoso faz parte dessas estatísticas. Aos 64 anos, ela afirma que não tem muita paciência para a leitura. “Eu recebo revistas na minha casa, abro dou uma lidinha e já perco a paciência, então deixo para lá”, explica. Apesar de saber a importância da leitura, Reni atribui a falta de interesse ao dia tumultuado e aos afazeres domésticos. “Não leio por falta de tempo, mesmo porque livro tem bastante aqui. Eu faço o serviço de casa, lavo e passo, cuido dos netos. Como a gente levanta bem de manhã e trabalha o dia todo, à noite não tem ânimo de ler, deita no sofá e já cochila”, diz.

Já para Geni Cerviglieri Valêncio, de 65 anos, ler não é uma das atividades preferidas. “Leio só meus livros de igreja. Quando vou na ‘Via Sacra’, ajudo na leitura, mas ler outras coisas é bem raro. No meu tempo livre, prefiro assistir minha novela, ou ir para casa das minhas filhas. Quando a idade vai chegando, a gente vai ficando sem paciência, sem concentração. Quando a gente envelhece tudo muda”, afirma.

Mudando a história - Foi pela da vontade de levar o prazer da leitura até a terceira idade que surgiu o projeto Leitura na Melhor Idade, com objetivo de desenvolver e exercitar a mente, viajar, sonhar e até mesmo relembrar a infância e a juventude por meio das palavras. “Lemos para eles poesias, contos, provérbios, parábolas, trechos bíblicos, letras de músicas, que até cantamos juntos. Intercalamos diversos tipos de leitura e usamos várias metodologias, inclusive as mesmas que utilizamos com crianças, e conseguimos atingir os mesmos resultados através de risos e alegria demonstrada por eles”, conta a professora Maria Edilma Travensoli Silveira, fundadora do projeto.

Este projeto vem sendo desenvolvido desde março de 2006 no Lar das Vovozinhas Balbina Branco, em Ponta Grossa, no Paraná. A entidade abriga 52 idosas e um idoso com mais de 50 anos, entre eles alguns com dificuldades auditivas, visuais e de locomoção. Segundo Maria Edilma, com o decorrer do tempo pode-se notar o desenvolvimento mental através da participação em interpretação e entendimento da leitura ouvida pelos idosos, que, no início, eram apáticos e quase nunca correspondiam às expectativas. “Atualmente sentimos uma participação de pelos menos 80% dos presentes nos debates feitos. Conseguem se concentrar e ouvir atentamente as leituras e entender, até mesmo interpretar, exemplificar e fazer relações com suas experiências de vida”, relata.

O sentimento, de acordo com a professora, é de muita gratificação. “Sentimos que este trabalho tem sido muito importante para estes idosos, porque eles estão exercitando a mente de maneira prazerosa. Essa atividade permite que eles saiam da monotonia e assim ocupem o tempo de maneira agradável.

Outro projeto que vem ajudando a difundir a leitura entre a terceira idade é o Leitura não tem Idade, idealizado pelo escritor Laé de Souza, aplicado em parceria com grupos de terceira idade. De acordo com o escritor, os grupos informam o número de participantes e então é enviado um exemplar da obra Nos Bastidores do Cotidiano, de Laé de Souza, e um questionário para cada participante. Quem responde recebe outra obra. O projeto é gratuito, não tem patrocínio e é destinado a grupos de terceira idade de todo o país.

“Em 2008 participaram 37 grupos. A resposta tem sido excelente e temos recebido manifestação dos participantes sobre a satisfação de ter participado do projeto”, comemora. Um dos grupos que fazem parte do projeto de Laé de Souza desde 2008 fica em Jaguariúna-SP. Os alunos integram o projeto Bem Me Quer, da Faculdade de Jaguariúna, onde é desenvolvido o projeto, juntamente com aulas de informática, de idiomas, dança e outras atividades.

Segundo a bibliotecária Maria Regina Trevisan Bacarelli, responsável pelo projeto, o principal objetivo desse trabalho é desenvolver as habilidades por meio da leitura de livros específicos e de entretenimento e desenvolver a oratória, além do enriquecimento intelectual. “Esperamos que através da leitura possamos proporcionar aos participantes o resgate de suas próprias experiências e necessidades. Uma terapia ocupacional através da leitura”, diz.

Gláucio Jair Russo, de 62 anos, que participa ativamente do projeto, elogia. “Os organizadores foram geniais em apresentar um projeto inédito em nossa cidade e principalmente em nossa faculdade. Com isso, poderemos apreciar a leitura de mais livros, já que hoje a terceira idade não tem acesso com muita facilidade. O livro fornecido pelo projeto do autor Laé de Souza foi o primeiro que eu tive o prazer de ler e gostaria de receber mais alguns”, solicita. Benedito Oscar Medeia, de 72 anos, também está satisfeito com os rumos do projeto. “Se os brasileiros se dedicassem mais à leitura, principalmente os jovens, não teríamos tantas desventuras”, afirma.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Leitura para idosos estimula que eles contem suas próprias histórias


Por Valéria Dias - valdias@usp.br

Uma atividade de humanização hospitalar implantada no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) desde abril deste ano tem estimulado os pacientes com mais de 60 anos internados no Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT). Trata-se da contação de histórias e do incentivo à leitura, iniciativas que, muitas vezes, acabam por levar os pacientes a relembrarem as suas próprias histórias, sua juventude e vivências.

A idéia é da Equipe da Brinquedoteca do IOT, com apoio do Comitê de Humanização do Instituto, coordenado pela terapeuta ocupacional Thais dos Reis Olher. Ela teve a idéia de implantar o projeto e orientou uma das recreacionistas do Instituto, Alexandra Cavalcanti, para que ela fizesse o curso Biblioteca Viva. Trata-se de um programa desenvolvido desde 1995 pela Fundação Abrinq em parceria com o Citigroup, com apoio do Ministério da Saúde, que tem o objetivo de fazer a “mediação” de histórias para o público infantil. “Mas logo em seguida, o grupo Viva e Deixe Viver, voltado para a infância e adolescência, começou a trabalhar com as crianças do Hospital. Então, para não repetir a mesma atividade, pensamos que poderíamos adaptar os conhecimentos adquiridos no curso Biblioteca Viva para o público da terceira idade”, conta Thaís. Segundo ela, existia uma demanda no sentido de oferecer alguma atividade recreativa aos internos desta faixa etária.

Uma vez por semana, Alexandra visita as enfermarias do IOT e se apresenta aos pacientes com mais de 60 anos, explicando como funciona o trabalho. Então ela pergunta se eles querem ouvir alguma história. Em caso positivo, o paciente escolhe se quer que ela conte ou se prefere ele mesmo ler o livro. “Em alguns casos, deixamos o livro com o paciente, que na semana seguinte faz comentários sobre a história”, afirma Thais. A atividade é voltada especificamente para o público da terceira idade, mas muitas vezes há um paciente mais jovem no quarto. Nesse caso, ele também é convidado a participar.

Segundo Thais, o resultado é muito bom, pois estimula muito o paciente idoso. Muitas vezes ao ouvir as histórias, ele acaba lembrando de acontecimentos que viveu na juventude, ou de hobbies que exerceu ou acaba associando com algo muito próximo e familiar. Então, é comum que eles não apenas ouçam, mas também contem suas próprias histórias de vida. Há ainda aqueles que acabam percebendo que já leram aquele livro. “Muitos deles acabam retomando o hábito da leitura, por vezes abandonado há alguns anos”, aponta.

A terapeuta ocupacional lembra que a terceira idade é a faixa etária mais suscetível a quedas e fraturas, motivos que ocasionam a maioria dos internamentos no IOT. “Então essa atividade ajuda os pacientes a amenizarem a internação, já que eles não conseguem esquecer que estão internados, e a tristeza que muitos sentem por estarem com problemas de saúde. Ao relembrar sua própria história, o paciente idoso, apesar de estar fragilizado, muitas vezes com fraturas, percebe que tem um lado saudável ligado a suas memórias de vida”, afirma Thais.

Livros, revistas e bíblia

Os livros utilizados na atividade vão desde “O Pequeno Príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry, passando por “Marcelo, Marmelo, Martelo”, de Ruth Rocha, até obras de grandes autores, como Érico Veríssimo. Thais explica que a proposta original é usar livros menores, de 20 a 30 páginas, com muitas ilustrações. Se o paciente gostar, o grupo oferece outra obra com um número maior de páginas para que ele leia até a semana seguinte. Há livros sobre os grandes mestres da pintura (que trazem muitas ilustrações) e sobre personagens de Walt Disney.

“Já tivemos pacientes que perguntaram se tínhamos a Bíblia. Havia um exemplar conosco e deixamos com eles”, conta. O grupo também dispõe de revistas de assuntos diversos, desde carros, semanais, de informação, para o público adolescente e até revistas de fofoca. Todo o material é fruto de doação de pacientes e funcionários. São realizados, segundo Thaís, cerca de 50 atendimentos por mês.

Thais comenta que essa atividade fez com que um paciente contasse toda a sua trajetória de internação dentro do Hospital das Clínicas. “Ele falou sobre todos os setores que já havia passado no HC e os motivos das internações. Por fim, disse que o melhor lugar que havia ficado tinha sido o IOT”, afirma. Segundo ela, uma das idéias do grupo, para o futuro, é passar a anotar essas histórias para publicá-las, seja interna ou externamente. “Mas por enquanto ainda estamos estudando essa possibilidade, firmando mais o projeto, para empreender a iniciativa”, finaliza a terapeuta ocupacional.

Mais informações: (11) 9602-0652 ou email humanizacao.iot@hcnet.usp.br, com Thais dos Reis Olher

Fonte: Agência USP