sábado, 30 de agosto de 2014

Leitura na infância favorece a inteligência

Roberta Machado
Publicação: 27/08/2014 

Estudo que acompanhou diversos gêmeos idênticos por anos mostra que uma boa relação com a literatura no início da vida afeta positivamente diversas habilidades cognitivas na adolescência.
 


Um estudo realizado com gêmeos idênticos no Reino Unido mostra que ler bem no início da infância pode afetar positivamente a inteligência da pessoa para o resto da vida. A pesquisa, conduzida pela Universidade de Edimburgo e pela King’s College de Londres, comparou o nível de leitura de 1.890 pares de irmãos por nove anos e constatou que os indivíduos que se davam bem com os livros a partir da fase de alfabetização desenvolveram habilidades cognitivas superiores na adolescência. A vantagem intelectual dos leitores, aponta o estudo, não foi restrita ao jeito com as palavras e se estendia também à capacidade de raciocínio em testes não relacionados com a literatura. Os resultados podem influenciar na forma como especialistas lidam com a educação infantil.

As crianças acompanhadas foram submetidas a exames de leitura e de inteligência aos 7, 9, 10, 12 e 16 anos. Eles passavam por testes de vocabulário e compreensão de texto, além de terem o conhecimento sobre autores populares sabatinado. A desenvoltura não verbal também foi testada em atividades que mediam o pensamento abstrato e a lógica dos pequenos. Como resultado, aqueles que liam melhor que seus irmãos também tinham desempenho superior em testes de inteligência em cada fase da vida.

“Podemos apenas especular as causas”, ressalta Stuart Ritchie, pesquisador de psicologia na Universidade de Edimburgo e principal autor do trabalho, publicado recentemente em Child Development. Ele aponta que há duas causas principais que podem ligar a leitura ao desenvolvimento da inteligência: “Primeiro, ler permite que as crianças pratiquem habilidades de pensamento, como imaginar outras pessoas, momentos, lugares e objetos que não estão diretamente na frente delas. Essas habilidades abstratas podem ser úteis em testes de inteligência e na performance intelectual de forma geral. Segundo, ler pode levar crianças a praticarem a concentração e o tipo de habilidades necessárias em situações nas quais testes de QI são feitos.”
Crianças em escola francesa: relação com a leitura começa muito antes do processo de alfabetização, dizem especialistas

Influência genética
A participação de gêmeos idênticos no estudo permite que os pesquisadores minimizem a influência de diferenças genéticas ou de criação no desenvolvimento das crianças. “Nunca dá para se excluir fatores genéticos, e acho que os pesquisadores não pretendem fazer isso. Por isso usaram gêmeos. Mas a questão é que a leitura é um fator determinante, com certeza, pois as crianças que não tinham essa habilidade tão desenvolvida ficaram um pouco para trás, mesmo sendo gêmeos”, analisa Augusto Buchweitz, pesquisador do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul. “Eles trabalharam com crianças que estavam num ponto inicial com o mesmo nível de inteligência, mas que, depois da aprendizagem da leitura, manifestaram diferenças”, ressalta o especialista.

As desigualdades de inteligência e de talento para a leitura testadas resultariam, portanto, das experiências que os gêmeos não partilharam, como um professor ou um grupo de amigos. De acordo com o estudo, as influências positivas fazem a diferença desde os 7 anos de idade, quando o destaque na leitura já resulta em melhor desenvolvimento cognitivo.

Para Buchweitz, o segredo está na plasticidade do cérebro infantil. No início da vida, a mente é especialmente receptiva a novos estímulos e tem uma grande capacidade de adaptação. “Nosso cérebro não está programado para ler. Ele não aprende naturalmente como a gente aprende a falar”, explica o brasileiro. “A criança tem de se adaptar a algo que não é natural a ela, ou seja, a leitura, e isso faz com que o cérebro dela se adapte e desenvolva outras habilidades.”

Para os autores do trabalho, a descoberta pode ser uma importante ferramenta para pais e educadores. Como a leitura é um talento que pode ser aprendido e desenvolvido, investir nessa atividade desde o início da infância poderia influenciar a inteligência de forma positiva até a vida adulta. Alunos que não recebem incentivo à leitura desde cedo poderiam sofrer não somente no processo de alfabetização, como também teriam a inteligência prejudicada de forma geral.

Educadores ressaltam que o contato com a leitura, dentro e fora da escola, é fundamental. E esse contato se dá de muitas formas além da de ter um livro nas mãos. A relação com as palavras começa muito antes da alfabetização, como quando o pequeno vê os pais lendo algo ou ouve uma história contada por um adulto. “A atividade de leitura fica carregada de sentido. Se alguém lê um livro para mim, um dia eu poderei ler sozinha. Não é o objeto em si que faz a mágica. O que faz sentido é aquilo que muda a relação que o ser humano tem com esse objeto”, afirma Maria do Rosário Longo Mortatti, presidente da Associação Brasileira de Alfabetização (ABAlf) no biênio 2012-2014.

Nunca é tarde
 
Embora o estudo reforce a importância da leitura desde cedo, os resultados não apontam claramente para uma idade ideal de alfabetização. “Podemos dizer que, ao menos nos termos das variáveis que analisamos, nós não encontramos nenhum efeito negativo na leitura em idade precoce”, ressalta o pesquisador Stuart Ritchie. A vantagem na inteligência foi constatada, inclusive, em crianças que se destacaram em fases posteriores da infância, mostrando que o investimento na literatura também gera frutos em crianças que receberam o estímulo um pouco mais tarde.

No Brasil, o Ministério da Educação estipula que as crianças sejam alfabetizadas até os 8 anos, mas não especifica em que idade esse processo deva ser iniciado. A especialista Maria do Rosário Mortatti, que também é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Marília, acredita que o estímulo da leitura deva ser reforçado desde a primeira infância, muito antes de o processo formal de alfabetização ser iniciado. “A idade tem função para certos marcos escolares, rituais escolares. E muitas vezes não tem fundamentação científica nenhuma. Muitas vezes, é uma questão simples, são vagas que estão disponíveis”, alerta a educadora. “A oportunidade de a criança ler ou ouvir textos é imprescindível, e isso é desde bebê.”

Comparação de gêmeos

O Estudo do Desenvolvimento Precoce dos Gêmeos (Teds, na sigla em inglês) é um grande levantamento feito com gêmeos idênticos nascidos no Reino Unido entre 1994 e 1996. Originalmente, a amostra incluía dados de 8.163 famílias, acompanhadas em 1 momentos diferentes da vida dessas crianças. Os dados colhidos servem de base para uma série de pesquisas até hoje e são uma importante fonte para a comparação de desenvolvimento de crianças com similaridades genéticas e de criação. 

Fonte: em.com.br

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Estudo comprova que leitura modifica a estrutura do cérebro

Se você é um ávido leitor, saiba que esse hábito pode mudar a estrutura do seu cérebro. Entenda como isso funciona

 
Fonte: Shutterstock
 O hábito de ler diferentes tipos de obras desenvolve 
uma alta conectividade no córtex temporal esquerdo

A maioria das pessoas já sabe os benefícios que a leitura traz para o cérebro: aumento da capacidade de manter a atenção, aumento do vocabulário, entre outras coisas. Entretanto, um estudo recente realizado pela Emory University, nos Estados Unidos, chegou a um resultado surpreendente: ler muito pode mudar a estrutura cerebral.

Estudos passados mostraram como cérebro se comporta durante a leitura. Agora, os pesquisadores Gregory S. Berns, Kristina Blaine, Michael J. Prietula e Brandon E. Pye quiseram entender se o hábito de ler pode trazer modificações mais permanentes ao cérebro. Eles desenvolveram um processo de leitura com estudantes da Emory University: um grupo misturou romances com livros relacionados aos seus cursos, e o outro grupo leu somente estudos e obras acadêmicas.

Após o fim da pesquisa, o resultado foi maior do que eles imaginavam. Os alunos que criaram o hábito de ler diferentes tipos de obras desenvolveram uma alta conectividade no córtex temporal esquerdo, área responsável pela assimilação da linguagem. Isso significa que eles conseguiam compreender e processar o que estava escrito de maneira mais rápida e completa do que pessoas que não possuíam o hábito de ler.

Além disso, as conectividades do córtex temporal esquerdo fazem com que o cérebro consiga conectar ideias (palavras) com as sensações que elas representam. Ou seja: ao lerem a palavra “correr”, os participantes que liam mais conseguiam sentir as sensações de uma corrida de maneira mais eficaz do que os outros.
A conclusão que os pesquisadores chegaram é que pessoas que possuem o hábito de ler conseguem sentir uma empatia maior com os personagens dos livros e, por isso, vivenciar uma experiência mais forte com a leitura. Que tal um bom livro? Aqui você pode baixar mais de 1.000 livros grátis. Confira a lista e boa leitura!

Fonte: Universia

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Bibliotecas têm papel essencial para estimular leitura no país

Christine Castilho Fontelles

Especial para o UOL

"Não entendi nada!". Um número expressivo de pessoas, jovens e adultos, vive cotidianamente este tormento de efeito paralisante diante de uma bula de remédio, de um trecho de texto jornalístico, do assunto de uma prova, de uma mensagem qualquer, uma opinião, um poema.

Não nascemos sabendo e nem gostando de ler, por isso é preciso educar para ler desde a primeira infância, ler gêneros diversificados, ler literatura. E, sim, a biblioteca é a casa do leitor e suas portas devem estar escancaradas para ele!

Afinal, pra que serve a biblioteca? A biblioteca pública aberta à comunidade é o lugar por excelência para termos acesso gratuito aos recursos e atendimento  para que possamos fazer nossas consultas, empréstimos, pesquisas e nos tornarmos leitores.

Educar para ler é uma missão que requer esforço, concentração e criatividade, principalmente em uma época com excesso de informações midiáticas e escassez de tempo, como a nossa. Logo, é fundamental que a biblioteca seja viva e se prepare para atrair e reter usuários com estratégias pensadas e sistematicamente ofertadas aos seus vários públicos: bebês, crianças, jovens, adultos.

Se alguém entra para ler jornal, por exemplo, pode ser cuidadosamente envolvido e convencido a testar outras leituras. Bibliotecas bacanas ficam subutilizadas muitas vezes porque falta este tipo de atendimento - conheci uma belíssima biblioteca-parque em Bogotá que passava os dias da semana praticamente vazia de público para tudo.

Como acontecia nas boas locadoras de "antigamente": tinha sempre um funcionário que nos apresentava aquele novo filme com aquele ator e aquele tema do nosso interesse e, dias depois, nos convencia a testar aquele filme com aquele ator que daquela vez fazia outro papel.

E lá íamos nós, saltitando entre comédia, drama, romance, ficção científica, cult, film noir. Testando palpites do cúmplice e aliado desta aventura cinematográfica.

Não nascemos sabendo e nem gostando de ler, por isso é preciso educar para ler desde a primeira infância Christine Fontelles, socióloga e diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, sobre a importância da orientação para a leitura

Divulgação


Minha convicção é de que não há jornada leitora sem o apoio de um leitor, no caso, um bibliotecário leitor. Os humanos precisam uns dos outros para aprender e neste caso não é diferente, mas essencial. E isso está dito em qualquer pesquisa já realizada sobre comportamento leitor.

Deve ficar ao gosto e às possibilidades do leitor se será em suporte impresso ou digital: na Biblioteca de São Paulo (zona Norte da cidade), por exemplo, leitores digitais estão disponíveis para os usuários, mas por enquanto só podem ser usados dentro da própria biblioteca.

Em países da Europa e nos EUA já existem empresas como a Public Library Online, que disponibilizam acervo digital aos usuários de bibliotecas públicas, que podem baixá-los em seus próprios dispositivos eletrônicos.

O que precisamos é ler, ler, ler, como dizia Castro Alves: "Bendito o que semeia livros à mão cheia. E manda o povo pensar! O livro, caindo n'alma. É germe – que faz a palma, É chuva – que faz o mar!".

Infraestrutura

Acervo atraente e permanentemente atualizado, conforto térmico, iluminação adequada, atendimento cotidiano, incluindo à noite e em feriados são outros fatores determinantes para o seu bom desempenho.
A capacidade das bibliotecas de promover a leitura depende diretamente do uso que se faz delas. E o uso será cada vez mais intenso quanto melhor for a qualidade dos serviços prestados. E daí derivarão outros impactos.

A criação de uma rede de conectividade (internet banda larga) entre as bibliotecas é mais uma forma de promoção do intercâmbio de experiência e renovação do conhecimento. Sobretudo em um país como o nosso, com as proporções territoriais e diversidades, de modo a romper a defasagem que o isolamento geográfico inevitavelmente gera.

Até 2020 todas as escolas do país, públicas e privadas, devem ter uma biblioteca Christine Fontelles, socióloga e diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, sobre a lei 12244/10
E, sim, bibliotecas em escola, comprometidas com seu projeto pedagógico e preferencialmente abertas à comunidade, pois há rincões neste país, mesmo em centros urbanos como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde a escola é a única possibilidade de contato com a educação e a cultura.

Além do que, é uma estratégia importante para aproximar as famílias na construção de cultura leitora, que é tarefa pra toda uma vida, e deve começar em casa já na primeira infância, quando as crianças ainda não sabem falar.

O professor leitor, auxiliado por uma bela biblioteca na escola, pode muito. Agora é lei, número 12.244/10: até 2020 todas as escolas do país, públicas e privadas, devem ter uma biblioteca.

É preciso reconhecer que a biblioteca é um espaço organizado para a convivência cotidiana com a leiturae que não existe um usuário ou leitor típico, e sim uma multiplicidade de usuários e leitores agindo em nome de necessidades, valores, hábitos e expectativas variáveis.

E a boa biblioteca é aquela que atende e surpreende seu público com ofertas de leituras igualmente variáveis e reveladoras, que coloca à sua disposição todos os recursos para permitir o desenvolvimento de uma leitura de mundo apurada, sensível, inovadora, que contribua para que aprenda a aprender como atuar, ser sujeito, cidadão e solidário num mundo em permanente transformação.

Fonte:  UOL Notícias