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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Brasileiro ainda não descobriu o prazer de ler


*João José Forni

O Instituto Pró-Livro divulgou a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita em 2011. O objetivo foi levantar perfil do leitor e do não leitor brasileiro, preferências e barreiras à penetração da leitura no país. É um retrato bastante denso dos nossos hábitos de leitura. A surpresa foi que andamos para trás. 

Nada inesperado, para um país onde a televisão tem a preferência de 85% dos entrevistados, ao responderem "o que gostam de fazer em seu tempo livre". Se alguém esperava respostas como descansar (51%), sair com amigos (34%) ou praticar esportes (23%), errou. O hábito de ler agrada apenas a 28% da amostra. 

Talvez o mais chocante foi descobrir na pesquisa que 76% dos entrevistados, em amostra de 5.012 pessoas, em 315 municípios, nunca pisaram numa biblioteca. Embora 71% admitam que existe esse tipo de ambiente e o acesso é fácil. Para eles, a biblioteca é um lugar para "estudar". Somente 8% dos brasileiros vão à biblioteca regularmente. 17% vão de vez em quando. Ou seja, quase nunca. Só 16% sabem que a biblioteca existe "para emprestar livros".Não foi coincidência, mas para comemorar o Dia Mundial do Livro, o Ministério da Cultura anunciou investimentos de R$ 374 milhões no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) para 2012. Mais recursos são bem-vindos. Mas talvez o problema não seja apenas esse. 

Por que o brasileiro pouco frequenta as cerca de 1.000 bibliotecas existentes no país? A maioria alega falta de tempo como o principal empecilho. 12% acreditam ser um lugar para "lazer". A pesquisa ainda mostrou que a maior parte dos brasileiros que vai à biblioteca está na vida escolar (64%), utilizando os espaços nas escolas ou universidades. 

Curioso não aparecer na pesquisa a alegação de não frequentar, porque não existe biblioteca. Até porque, entre países do mesmo nível de desenvolvimento, o Brasil é um dos que possui o menor índice de bibliotecas e livrarias por habitante. 

Para a presidente do IPL, Karine Pansa, os dados colhidos pelo Ibope Inteligência mostram que o trabalho não é mais possibilitar o acesso ao equipamento, mas fazer com que as pessoas o utilizem. "O maior desafio é transformar as bibliotecas em locais agradáveis, onde as pessoas gostem de estar, com prazer. Não só para estudar." Ninguém vai atrás de um produto, no caso o livro, para o qual não foi estimulado pelos pais, professores, amigos. 

Quando a pesquisa pergunta aos entrevistados, que já cultivam o hábito de ler, quem foram seus "influenciadores", o professor desponta primeiro com 45% das indicações, seguido da mãe, com 43%. Ou seja, o hábito da leitura começa em casa e se consolida na escola. Filhos de pais leitores têm muito mais probabilidade de também serem leitores na idade adulta.
As mulheres leem mais do que os homens e, assim como o número de leitores caiu de 55 milhões em 2007, para 50 milhões na pesquisa 2011, a média de livros lidos pelos chamados "leitores" caiu também de 4,7 para 4,0 no mesmo período. Isso poderia indicar que a internet e outras atividades audiovisuais estão seduzindo mais a juventude do que a leitura. A média dos livros lidos também caiu, de 2,07 para 1,85 livro por ano, em 2011. Índice baixíssimo para os padrões internacionais. Esse é um fenômeno que ocorre em todas as regiões do país.A pesquisa do Instituto Pró-Livro deveria ser apresentada e em todos os estabelecimentos de ensino do Brasil. Tanto superiores quanto de nível médio e fundamental. Se professores e alunos tomassem conhecimento dos detalhes, poderiam sugerir ideias para estimular a leitura no ambiente escolar e em casa. Descobririam onde estão as falhas. 

Mais do que recursos, extremamente importantes, talvez esteja faltando no Brasil uma cultura da leitura. Vemos pouca colaboração dos meios de comunicação, principalmente a televisão. Os jornais, tão importantes no passado para estimular a leitura, com suplementos literários emblemáticos, hoje preferem os de gastronomia, tecnologia, esportes, turismo. Os literários ficaram na história. 

Por que o brasileiro não gosta de ler? Ou por que universitários, até em cursos de pós-graduação, ficam esperando os professores fornecerem os links da internet de todos os textos para leitura, em vez de irem atrás das publicações? Preferem tirar cópias de capítulos de livros, atividade ilegal, do que comprá-los ou utilizar exemplares disponíveis nas bibliotecas. 

Talvez porque pais e professores estejam falhando desde os primeiros momentos em que a criança começa a descobrir o mundo das letras. Se eles, quase sempre adotados como exemplos, não leem, nem se preocupam em facilitar o acesso das crianças aos livros, como irão estimulá-las para um hábito que está sendo atropelado pelos apelos e seduções tecnológicas do computador e dos smartphones? 

Quem tiver interesse em ler ou discutir a pesquisa do Instituto Pró-Livro, o relatório completo está disponível em http://bit.ly/HeJUFy.*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com.

Fonte:  Folha do Sul Gaúcho

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Brasileiro lê menos que há dois anos

Pesquisa realizada pela Fecomércio-RJ revela que aumentou a parcela de pessoas desinteressadas em atividades culturais
Ubiratan Brasil















HÁBITO CONDENADO - Maioria das pessoas (60%) respondeu não ter o costume de ler, enquanto 22% confessam não gostar: assistir à TV é o passatempo preferido dos brasileiros


O brasileiro hoje lê menos livros, visita menos exposições de arte e assiste a menos espetáculos de dança que em 2007. A queda foi detectada em uma pesquisa realizada pela Fecomércio do Rio de Janeiro, cujo objetivo é o de mensurar os hábitos de lazer relacionados à cultura. Em compensação, as pessoas aumentaram sua ida ao cinema e mantiveram o mesmo índice de visita ao teatro e aos shows de música.
O levantamento teve alcance nacional e foi realizado em mil domicílios situados em 70 cidades, incluindo 9 regiões metropolitanas. As apurações, realizadas em dezembro tanto no ano passado como em 2007, buscavam entender a visão da população sobre atividades culturais de lazer e os motivos que a levam a procurar por essas atividades. Também interessou descobrir a avaliação dos consumidores sobre sua participação no ambiente cultural.

As conclusões não foram animadoras. Para a questão a respeito do hábito cultural, como ler um livro, assistir a um filme no cinema, visitar exposições, ir ao teatro e a espetáculos de dança, 60% das pessoas responderam não ter praticado nenhuma daquelas atividades (em 2007, a cifra era de 55%). Motivo: falta de hábito ou gosto.

Já entre aqueles que desfrutaram ao menos um dos hábitos, a maioria (ou seja, 23%) disse ter lido um livro. A leitura, porém, parece estar cada vez mais em desuso pois, dois anos antes, a mesma atividade era confirmada por 31% das pessoas consultadas. A partir dessas cifras, a pesquisa buscou dissecar os motivos daquela queda: 60% das pessoas responderam não ter o hábito da leitura, enquanto 22% foi direta, afirmando não gostar de ler. A restrição econômica não aparece como determinante, uma vez que apenas 6% confessaram não ter como pagar pelos livros.

O teatro enfrenta situação semelhante, pois 38% das pessoas disseram não ter o hábito de frequentar as salas de espetáculo, enquanto 27% garantiram não gostar de assistir a uma peça teatral.

Quais seriam, então, os hábitos culturais dessas pessoas? As respostas não foram surpreendentes - 68% dos entrevistados declararam-se espectadores da TV, enquanto 14% preferem ir à Igreja ou a algum culto religioso. Encontrar amigos e parentes em um churrasco ou em um almoço é o hábito de 12%. Ir a barzinhos foi a resposta de 9%, enquanto futebol é a preferência de 8% dos entrevistados. Finalmente, ir a restaurantes foi a resposta dada por 4%.

Se pudessem escolher entre as atividades apresentadas, a maioria das pessoas (22%) preferiria ir ao cinema, acompanhada de perto por aqueles que ambicionam ir a um show musical (21%). Curiosamente, 17% dos consultados revelaram desinteresse por todas as opções. Depois de analisar os dados, Orlando Diniz, presidente do Sistema Fecomércio-RJ, respondeu às seguintes questões.

Para resolver o problema do baixo índice de leitura no País seria preciso uma política pública ampla, que ataque várias questões relacionadas ao tema? Ou seja, mais incentivos do governo na educação e na construção de mais bibliotecas?
A opção "ler um livro" aparece no topo do ranking de preferências dentre a minoria que usufruiu pelo menos uma das atividades culturais listadas na pesquisa. A preferência pelo livro encontra justificativa pelo fato de ele estar mais ao alcance da população e ter o benefício de permitir uma ampla circulação de um mesmo produto. Pelo levantamento da Fecomércio-RJ, se compararmos a parcela de brasileiros que leem com os que vão ao teatro, ao cinema, a um espetáculo de dança, uma exposição ou a um show é possível observar que, apesar de baixo, o brasileiro opta pela leitura dentre todas atividades de lazer cultural citadas na pesquisa. A pesquisa nos inclina a pensar que as ações devem ser desenvolvidas no sentido de criar o hábito e desenvolver o gosto das próximas gerações por atividades culturais. Segundo o IBGE, 89,1% dos municípios brasileiros possuem bibliotecas públicas. A meta é repensar o papel da cultura numa sociedade moderna que não considera lazer cultural como uma forma de entretenimento.

Sobre o preço, a reclamação do leitor reflete a tese de que o livro não ocupa um papel fundamental na nossa cultura e economia?

O levantamento mostra que há uma inércia em relação à cultura que não passa necessariamente pela questão do preço, mas pela falta de hábito. Tanto que o porcentual de brasileiros que não leem porque é caro (2%) aparece como o quinto motivo, bem depois de "não tenho o hábito" e "porque não gosto". Isso nos leva a crer que a questão é intergeracional - em geral, os pais não têm o hábito de frequentar "ambientes culturais", como museus, cinema ou teatro, e, por isso, não estimulam os filhos.
Se um trabalho coerente e de eficácia garantida fosse iniciado hoje, é possível prever quando o índice atingiria números aceitáveis?
Não é possível fazer uma previsão desse tipo porque a eficácia vai depender da recepção do público que, como já vimos, passar por uma questão intergeracional. É preciso uma ruptura com os paradigmas, um esforço nacional de longo prazo para interromper a inércia da falta de incentivo aos hábitos de cultura, nesse caso de leitura. Afinal, para gostar, é preciso conhecer, e a valorização de hábitos culturais tem de começar cedo.

Em Números
LEU ALGUM LIVRO
23% (2009) contra 31% (2007)

ASSISTIU A ALGUMA PEÇA OU ESPETÁCULO DE TEATRO
6% (2009) ante 6% (2007)

VISITOU ALGUM TIPO DE EXPOSIÇÃO DE ARTE
4% (2009) contra 8% (2007)
FOI AO CINEMA
18% (2009) contra 17% (2007)

FOI A ALGUM TIPO DE SHOW DE MÚSICA
20% (2009) ante 20% (2007)

ASSISTIU A ALGUM ESPETÁCULO DE DANÇA
4% (2009) contra 7% (2007)

Fonte: Estadao.com.br