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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Leitura e qualidade do ensino

Matéria publicada em setembro/2011

Um itinerário possível para a formação de leitores

POR María Beatriz Medina

María Beatriz Medina nasceu na Venezuela. Formada em letras, autora, mediadora, pesquisadora na área de leitura y literatura infantil, professora, e consultora. Atualmente participa da Comissão Executiva do Banco del Libro, é presidente da filial venezuelana do IBBY e membro do Conselho de Sinergia, uma rede de associações da sociedade civil venezuelana.

Quando recebi o convite para refletir sobre leitura e qualidade de ensino, me posicionei a partir do ponto de vista de meu trabalho como promotora de leitura. E desse lugar me aproximei do tema, agradecendo o convite, pois tais reflexões nos permitem tomar distância e pensar sobre o que fazemos e como fazemos.

O engate inicial com essa temática começou a se delinear a partir do que já trazíamos dentro dos alforjes, como mediadores preocupados em formar um sujeito leitor independente, crítico e cidadão responsável. Isto é, o desideratum implícito – ainda que no discurso – presente em todos os espaços de promoção de leitura e, principalmente, na escola.

Parecia fácil. Comecei fazendo um balanço das possibilidades que a leitura oferece por e para a formação, mas no caminho comecei a perceber – uma vez mais – que aproximar-se da leitura e do trabalho de formar leitores é uma tarefa árdua, se avaliada pelas dimensões da busca e pelo fio da evolução de um conceito sempre em reformulação.

I. Do que estamos falando quando falamos em leitura?

Não podemos dizer que compartilhamos do mesmo conceito de leitura revisto e transformado por motivações ideológicas e pedagógicas e matizado por contribuições de concepções sociolinguísticas e socioculturais de diferentes naturezas. Hoje em dia, inclusive, se cai muitas vezes no erro de considerar que ler é simplesmente a habilidade de decifrar signos, quando o ato de ler vai muito além deste deciframento.

A leitura é acumulativa e propõe sempre um diálogo entre o leitor e os códigos verbais e não verbais, que se transforma em um espaço de elaboração e de construção de um ser social e individual. A leitura é, antes de tudo, um ato comunicacional e – por isso – uma prática social que entrelaça o texto escrito e o uso da linguagem. Quando nos aproximamos com atenção da prática leitora, ou do uso da leitura dos textos escritos, podemos percebê-la como uma prática social vital, situada na interação pessoal.

David Barton e Mary Hamilton, no texto “La literacidad entendida como práctica social”, consideram que a leitura é capaz de “dar sentido às vidas por meio das práticas cotidianas”.

Não se trata de uma referência casual, pois aqueles que como eu trabalham em projetos de promoção de leitura podem constatar que a leitura dá sentido à vida, não apenas nas práticas cotidianas, mas em situações difíceis, em que a ficção ou a metáfora se transformam em ferramentas de exceção “para ler o entorno e interpretar a realidade”. Por isso é necessário formar leitores como habitantes do mundo, parafraseando Daniel Goldin.

Mas a leitura funciona também como uma estratégia para o ensino, ainda que tenhamos que evitar o perigo de cair no reducionismo instrumental ao considerá-la apenas uma ferramenta para o desenvolvimento de competências que se identificam com a compreensão das estruturas lógicas para apreender de qualquer maneira um texto proposto.

II. Para que formar leitores?

O tema da formação de leitores está relacionado ao tipo de cidadão que queremos. Sem sombra de dúvidas, aspiramos a um leitor crítico, capaz de se posicionar no mundo, um leitor que transcenda o mero deciframento e seja capaz de abordar a leitura informativa e estética, enfrentando o texto, questionando-o, sentindo-o.

A palavra escrita e a leitura nos ajudam a criar espaços para o desenvolvimento e a transformação individual e social, uma vez que a experiência estética abarca a vastidão de nossa contraditória condição humana e estabelece pontes com a realidade na qual estamos submersos. Ela faz isto, claro está, de maneira metafórica e abstrata, para possibilitar o desenvolvimento do ser social.

III. Quem é o responsável pela formação de leitores?

O Estado, sem dúvida. Ele é o centro decisivo na hora da formulação, orientação e coordenação das políticas públicas de leitura. Formar leitores exige o compromisso do Estado e uma sólida articulação de distintas esferas da vida social: em primeiro lugar a escola, a biblioteca, as organizações sociais que trabalham com a leitura e a indústria do livro.

A formação de leitores, cabe frisar, é uma pratica ancorada em solidas premissas sobre a leitura, tais como:
  • Constitui-se num elemento inevitável na hora de educar para a vida democrática e participativa.
  • É um espaço para a formação do cidadão responsável.
  • Transforma-se na “ferramenta” do desenvolvimento de seres autônomos e críticos.
  • É uma bússola que orienta no campo da informação e leva ao conhecimento.
Somos obrigados a levar em conta as necessidades do contexto. Pois é justamente quando o contexto se faz presente, o momento em que começam a sucumbir as certezas destas e de outras premissas; isto porque a prática nos demonstra a saciedade da condição modificadora da realidade.

Como aponta Anne-Marie Chartier, ao longo do tempo a urgência de educar respondeu a um desafio social urgente (salvar sua alma, construir a República, inserir-se no mundo do trabalho). Hoje a urgência se articula em torno da formação de cidadãos.

III. Voltando ao tema que nos interessa: Leitura e qualidade do ensino.

Em uma primeira aproximação, vemos uma equação direta que deveria nos levar a fechar questões acerca do trabalho contínuo e sustentado de formação de leitores em todos os espaços que assumem esta tarefa. Obviamente, a escola não é uma exceção.

No entanto, para que essa equação se faça realidade, é necessário assumir a leitura como um elemento vital de desenvolvimento humano e promover, ao mesmo tempo, a internacionalização de uma verdadeira valorização dessa prática.

É tarefa dos docentes articular caminhos que deixem inequívoca a condição essencial da leitura para o ser humano e abram as comportas para a multiplicidade de possibilidades que oferece ao leitor como ferramenta para a comunicação e a experiência docentes.

IV. Como conseguir isso na prática?

1. Em primeiro lugar, repetirei uma máxima: criando dentro da escola espaços e tempos de leitura de uma grande variedade de textos. Isto é, propiciando em espaços leitores e bibliotecas escolares o encontro com textos de diferentes formatos, alinhados com os objetivos escolares e assumindo a leitura como condição essencial para o desenvolvimento pessoal e social, como centro das práticas educativas (no plural) e como eixo transversal.

Uma prática que implique na intenção de construir um marco do fazer educativo em afinidade com as correntes contemporâneas teóricas e práticas, por meio de um leque de opções leitoras que se transforma no ponto de encontro de inclinações e preferências temáticas.

2. Cabe-nos, portanto, reverter o lema da descolarizacão que nós, promotores de leitura, temos defendido, uma vez que boa parte das práticas escolares tinham desterrado a condição prazerosa que as primeiras aproximações com a leitura exigem, isto em nome do “trabalhoso prazer de ler”, que promove esse tropeçar com a linguagem escrita, “com as suas ambiguidades e entonações”. Hoje em dia não é mais suficiente escutar a narração do conto, é preciso “tê-lo lido, isto é olhá-lo como uma forma e transitá-lo, palmo a palmo, como quem percorre um terreno minado” – como afirma María Fernanda Palácios. A literatura é, dentre todos os textos escritos, um recurso de exceção para o desenvolvimento da leitura. María Eugenia Dubois afirma que o “Sistema educativo em geral nunca levou em conta a transcendência de ler desde uma postura estética: evocando imagens, recordações, sentimentos, emoções. A leitura se estuda na escola como algo à margem, que está fora de nós mesmos para ser carregado, levado, recordado, mas não vivido, sentido.”

E é assim porque a literatura põe à prova nossa visão ordinária das coisas, e questiona nossos preconceitos. Permite ao homem, pegando emprestadas as palavras de Stevenson “chegar a compreender que não tem sistematicamente razão, e que aqueles de quem discorda não estão sempre absolutamente equivocados.”

3. Reivindicar a literatura dentro da escola. O que implica a “criação de um itinerário de leitura por parte dos docentes que permita às novas gerações transitar para as possibilidades de compreensão do mundo e desfrutar para a vida que a literatura abre”, como diz Teresa Colomer na introdução de Andar entre livros.1

Traçar, então, um itinerário de leitura, que depurado, decantado, maduro, permite uma experiência de mudança pessoal e social na qual cada um pode se reconhecer ou não. A escola não pode se isolar do contexto social no momento de estabelecer os objetivos de ensino, seus conteúdos e a maneira de transmiti-los.

Nessa aceitação transversal da leitura é preciso sustentar, em primeiro lugar, a leitura estética que nos leva a enfrentar os desafios das estruturas mentais e abre brechas na consciência do leitor, o que pode nos distanciar da literariedade.

Com isso não se quer dizer excluir a leitura informativa, apenas que o itinerário do leitor se afirma desde uma aproximação estética para abrir as comportas da compreensão textual que deriva de outros tipos de texto que dinamizam o aprendizado.

4. Criar as condições para um verdadeiro trabalho em rede, que tem se limitado a ser apenas anunciado, como podemos comprovar na prática com frequência. Um trabalho no contexto de políticas de leitura e escrita educativas, em torno das quais se articulam as estratégias interdisciplinares que fomentam a competência discursiva na aula.

5. Formar o docente como leitor, como conhecedor das propostas textuais estéticas e informativas e envolver a família no processo. Essas ações se dirigem, principalmente, às crianças e jovens em processo de formação. É precisamente para esse destinatário que a articulação se faz necessária. A escola e a família constituem instituições básicas de qualquer formulação de planos integrais de leitura; daí o trabalho de sensibilização e capacitação de pais e professores se convertem em etapas inevitáveis em programas dessa natureza.

Enfim, estamos diante de um itinerário possível, que ganha sentido apenas a partir de uma verdadeira valorização da leitura que nos conecte com a realidade através da palavra que tudo contém e que é, principalmente, uma forma de interagir com a realidade, de reinterpretá-la. Assim, a leitura se constitui – tomando emprestada uma expressão dos pescadores da costa oriental da Venezuela – num cabo de terra.


TRADUÇÃO: DOLORES PRADES


* Texto apresentado no Encontro de Leitura e Qualidade do ensino, organizado pela OEI e a Fundação SM, em Bogotá, novembro de 2009.
1 Colomer, Teresa. Andar entre livros. São Paulo: Global, 2007.


Bibliografia citada:
Agenda de políticas públicas sobre o livro e a edição, CERLALC.
Caraballo, Darwin; Pífano Clementina; Medina, María Beatriz. Consultora: María Elena Zapata. Libros para niños y jóvenes. Documentos de trabajo de Desarrollo Social – Educación. Caracas: Corporación Andina de Fomento, 2005.
Chartier, Anne-Marie. Enseñar a leer y escribir: una aproximación histórica. Espacios para la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2004.
Larrosa, Jorge. La experiência de la lectura: espacios para la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2003.
Palácios, Maria Fernanda. Cuentos para volar: 10 relatos venezolanos para celebrar un doble aniversario. Caracas: Producto, 2002.
Rosenblatt, Louise M. La experiencia de la lectura: espacios para la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2002.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Ensino e aprendizagem da leitura - Ensino Fundamental

Como sabemos, ensinar os alunos a ler e escrever é uma das principais tarefas da escola. A leitura e a escrita são muito importantes para que as pessoas exerçam seus direitos, possam trabalhar e participar da sociedade com cidadania, se informar e aprender coisas novas ao longo de toda a vida.

Na escola, crianças e adolescentes precisam ter contato com diferentes textos, ouvir histórias, observar adultos lendo e escrevendo. Precisam participar de uma rotina de trabalho variada e estimulante e, além disso, receber muito incentivo dos professores e da família para que, na idade adequada, aprendam a ler e escrever.

Para garantir que todos os alunos aprendam, a escola precisa ter uma proposta pedagógica com orientações claras para a alfabetização inicial. É na proposta pedagógica que ficam definidos quais os objetivos para cada etapa, que tipo de atividade precisa ser realizado na sala de aula e na escola, como será a avaliação. Orientados por essa proposta é que os professores planejam suas aulas. É muito importante também que os pais conheçam essa proposta e recebam orientações sobre  a melhor forma de acompanhar o aprendizado dos seus filhos.

A leitura e a escrita são fundamentais para o aprendizado de todas as matérias escolares. Por isso, em cada ano/série, o aluno precisa desenvolver mais e mais sua capacidade de ler e escrever. Em sua proposta pedagógica, a escola precisa estabelecer claramente o que os alunos devem aprender em cada etapa, até a conclusão do ensino fundamental. Dessa forma, todos os professores podem coordenar seus esforços para conseguir os melhores resultados. Todas as crianças são capazes de aprender. Por isso, a escola precisa organizar suas aulas e suas atividades pensando em todos os alunos, garantindo que todos eles possam se desenvolver na leitura e na escrita. Esse compromisso com a aprendizagem de todos os estudantes deve ser assumido como uma das principais responsabilidades da equipe de gestão da escola, formada pela direção e pela coordenação pedagógica ou supervisão de ensino. A equipe de gestão deve ajudar os professores em seu trabalho, avaliar o processo de aprendizagem dos estudantes, inclusive comparando os resultados de sua escola com os resultados das escolas do entorno, do município ou Estado, além de sempre conversar com as famílias sobre o desenvolvimento de seus filhos em relação à leitura e à escrita. Os gestores da escola e os professores podem dar dicas para os pais sobre como ajudar seus filhos nesse desenvolvimento, e o Conselho Escolar pode ser um bom aliado nesse sentido.

A existência de uma boa biblioteca e seu bom uso por alunos e professores colabora com o processo de aprendizado dos alunos. Por essa razão, é muito importante que a escola tenha a preocupação de cuidar e melhorar seu acervo, de ter um profissional para atender o público e, principalmente de que a biblioteca ou sala de leitura seja de fato usada pelos alunos no horário das aulas e fora dele. Mas, se uma escola ainda não tem sua biblioteca, enquanto luta para consegui-la, pode fazer uso de salas ou cantos de leitura. Não podemos esperar a situação ideal para, somente a partir daí, permitirmos o acesso dos alunos aos livros.

Nos últimos anos, a informática se tornou central tanto para o trabalho quanto para o acesso à informação, à cultura e ao lazer. A grande maioria dos brasileiros ainda não tem acesso aos computadores, muito menos à Internet. Mas sabemos que hoje em dia muito do que as pessoas lêem e escrevem é por meio de um computador. Por isso, a escola precisa se equipar com computadores e acesso à Internet e, desse modo, possibilitar a crianças e adolescentes que participem de projetos educativos usando a informática, especialmente no que diz respeito à aprendizagem da leitura e da escrita.

Nesta dimensão, os indicadores de qualidade referem-se a todos esses aspectos, que, no conjunto, favorecem a alfabetização inicial e a ampliação da capacidade de leitura e escrita de todas as crianças e adolescentes ao longo do ensino fundamental.


Indicadores e perguntas

Os familiares (pais, mães ou outros responsáveis) recebem orientações dos professores sobre como incentivar as crianças a ler e escrever?

Exemplos de como pais, mães, irmãos, amigos e avós podem exercer sua responsabilidade de incentivar as crianças a ler e escrever: 
  • ler para e com as crianças; 
  • prestar atenção (mesmo!) quando os filhos mostram algo que fizeram;
  • ler com as crianças os textos que fazem parte do dia-a-dia da família (bulas de remédio, pedaços de jornal, receitas de culinária, etc);
  • ter livros infantis em casa estimula o interesse. Livros são caros, mas de vez em quando se compra um presentinho. Esse presente pode ser também um livro infantil;
  • levar os filhos na biblioteca pública se houver alguma na região onde você mora;
  • incentivar os filhos a emprestar livros da biblioteca e levá-los para casa.
Fonte: Dimensão 3 - Ensino e aprendizagem da leitura e da escrita - Indicadores da Qualidade na Educação

terça-feira, 23 de março de 2010

Leitura, o grande desafio do ensino

Domínio da linguagem escrita, muito precário na escola e na sociedade em geral, é o grande desafio da educação brasileira
Rubem Barros
Dora é professora aposentada. Vive sozinha em um pequeno apartamento de classe média no Rio de Janeiro. Como o dinheiro é insuficiente, escreve cartas para analfabetos na estação Central do Brasil. Cobra R$ 1 pela redação e mais R$ 1 pelo envio. Via de regra, as histórias de vida que leva ao papel traduzem o desassossego e as esperanças de pessoas apartadas de suas famílias e de sua terra. E não resultam em comunicação, pois quase sempre terminam na lata do lixo.

Ponto de partida de Central do Brasil (1998), filme de Walter Salles ganhador do Urso de Ouro em Berlim, a história de Dora (Fernanda Montenegro) e do menino Josué (Vinicius de Oliveira), a quem ela acorre na busca pelo pai que ele não conhece, espelha algumas das questões centrais do acesso à leitura e ao letramento no Brasil. Mostra um enorme contingente de adultos que não dominam a escrita, as limitações de suas vidas em função disso, o pouco reconhecimento social destinado aos professores e o lugar ocupado pelas religiões para a construção de sentidos entre a população menos letrada.

A esses fatores somam-se outros que fazem do precário domínio da escrita e do parco entendimento da leitura problemas centrais da educação brasileira. Segundo dados de 2003 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apenas uma em cada 289 cidades do país tem uma população que, na média, permaneceu por oito anos ou mais na escola, tempo necessário, segundo a Unesco, para se atingir o alfabetismo funcional. E mais: 1.796 municípios (32,6% do total) apresentam população acima de 15 anos com escolarização média inferior a quatro séries concluídas.

Principal lócus promotor do aprendizado, a escola falha por não dialogar com o universo de origem dos alunos, invalidando suas experiências e expressões. Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas divulgada em abril, 20% dos jovens entre 15 e 17 anos estão fora da escola, 42% deles por desinteresse. Os resultados das avaliações de habilidades de leitura daqueles que permanecem são insatisfatórios. No Pisa 2000, prova internacional promovida pelos países-membro da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os 5 mil alunos brasileiros participantes ficaram em último lugar entre estudantes de 22 países, atingindo apenas o nível 1 de proficiência (de cinco possíveis). Na Prova Brasil de 2005, os alunos de 8ª série tiveram desempenho médio de 222,6 pontos em 500 possíveis, cinco a menos do que o aferido no Saeb de 2003, quando comparado o mesmo universo de participantes.

Já o Índice Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), levantamento que avalia, em anos alternados, ora as habilidades de leitura e escrita, ora as matemáticas, mostrou em sua edição de 2005 que os alfabetizados plenos - aqueles que lêem textos mais longos e conseguem fazer relações e inferências - constituem 26% do total da população entre 15 e 64 anos, número idêntico ao aferido na primeira amostragem (2001).

Mas, se o problema é de proporções preocupantes, há variáveis novas, algumas alentadoras. Os anos 90 representaram um segundo momento de universalização do acesso à educação iniciado na década de 60. "Agora estamos convivendo com um aluno que antes se evadia depois de um ano de escola. E a educação tem de trazer respostas para isso", lembra o lingüista Paulo Mendes, consultor do Plano Nacional do Livro Didático (PNLD).

Analfabetos

7% dos entrevistados pelo inaf*
64% do sexo masculino
77% têm mais de 35 anos
81% pertencem às classes D e E
60% completaram de um a três
anos de estudo

Entre as políticas públicas para o setor, uma das principais apostas é a instituição do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), articulado pelos ministérios da Educação e da Cultura em conjunto com diversos organismos da sociedade civil com vistas a integrar diversas iniciativas já existentes (veja texto na página 42). Uma das metas iniciais do PNLL é reduzir a zero, até o final de 2008, a cota de municípios brasileiros que não contam com nenhuma biblioteca. Hoje eles são 595.

Alfabetizados com nível rudimentar
Lêem apenas títulos e frases; localizam informações bem explícitas

30% dos entrevistados
39% têm entre 15 e 34 anos
64% pertencem às classes D e E
49% têm de 4 a 7 anos de estudo

Letramento entra em cena

Houve também uma significativa mudança conceitual com a entrada em cena da idéia de letramento ou níveis de alfabetismo, a partir da década de 80. Trocando em miúdos, deixou-se de lado a divisão entre indivíduos alfabetizados (capacitados para codificar e decodificar os elementos lingüísticos) e analfabetos. O letramento implica associar escrita e leitura a práticas sociais que tenham sentido para aqueles que as utilizam, além de pressupor níveis de domínio das práticas que exigem essas habilidades.

Experiências que investiram na alfabetização apenas visando dotar os indivíduos do domínio dos códigos, deixando-os depois à própria sorte, naufragaram. No Brasil, o grande exemplo foi o Mobral, programa de alfabetização de adultos levado a cabo nos governos militares, que teve alto grau de reversão do processo de alfabetização dos participantes. Recentemente, a China anunciou fracasso similar em programa desenvolvido entre 2000 e 2005. Os quase 10 milhões de beneficiários da ação viram as escolas fecharem após serem dados como alfabetizados. Acabaram por esquecer o que haviam aprendido.

A professora Magda Soares, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da UFMG, lembra que a entrada no mundo da escrita se dá por meio de dois passaportes. "Um é a tecnologia, que é aprender a codificar e decodificar, saber que a escrita representa os sons da língua, as relações de fonemas e grafemas etc. O outro é o uso dessa tecnologia. Apenas com um desses passaportes não se entra no mundo da escrita."

Subjacentes à idéia de letramento, existem no campo da educação duas correntes distintas, a liberal e a radical. A primeira adota o conceito de letramento funcional, voltado à integração do indivíduo à sociedade e ao mundo do trabalho, por meio dos desenvolvimentos cognitivo e econômico. A segunda, fortemente influenciada pelo educador Paulo Freire, acredita que leitura e escrita são meios de conscientização e transformação das realidades sociais.

Reflexo disso está presente no cruzamento dos resultados da prova do Pisa com as entrevistas. Há países em que a leitura é pragmática, mas os leitores declaram não gostar de ler, como na Coréia do Sul, que ficou em 7º lugar na prova. Já os brasileiros, apesar da sofrível capacidade leitora, estão entre os que declaram maior gosto pela leitura. "Ainda que se minta sobre o fato de gostar de ler ou de ganhar um livro de presente, a leitura é um valor de reconhecimento social, o que pode ser um ponto de partida", diz Vera Masagão, coordenadora de projetos da ONG Ação Educativa.

Hoje, não são poucos aqueles que, mesmo mais afeitos à idéia radical, consideram o modelo funcional como um avanço. "Chegar ao modelo adaptativo, para funcionar bem com uma sociedade global, não é uma conquista pequena, se for bem feita", acredita Roxane Rojo, lingüista da Unicamp. Mas alerta que a escola está distante das culturas locais e juvenis. "Há uma cisão radical entre o que é da escola e o que é da vida", diz.

O problema, no entanto, tem uma face mais complexa e não se restringe ao Brasil ou a países em desenvolvimento. "Vivemos uma crise da linguagem escrita. No final dos anos 80, estive no Centro de Estudo da Leitura, na Universidade de Urbana-Champaign, nos EUA, e verifiquei que as deficiências na leitura eram uma grande preocupação para os americanos e que havia programas de intervenção e pesquisa", diz a educadora portuguesa Isabel Alarcão.

Novas métricas

A própria existência do Inaf, realizado em conjunto pela Ação Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro, é reflexo dessas mudanças no campo teórico. O Inaf é o primeiro instrumento voltado a medir o uso social da leitura em contexto não escolar. Como lembra Magda Soares, avaliações como o Saeb medem apenas o letramento escolar, avaliando os alunos por meio de questões de múltipla escolha. Já o Inaf vê, por meio de entrevistas, como o indivíduo se relaciona com o texto de uma revista - se e como busca as informações, como as relaciona etc.

Alfabetizados com nível básico
Lêem textos curtos, localizam informações explícitas ou que exijam pouca inferência

38% do total
53% são mulheres
40% pertencem à classe C
40% têm de 4 a 7 anos de estudo

Mesmo assim, ainda é um instrumento com limitações, alerta Vera Masagão. "O Inaf mede a dimensão cognitiva da leitura, e não a capacidade de leitura literária, por exemplo." Ou seja, para um diagnóstico mais preciso, seria necessário pesquisar mais a fundo as habilidades daqueles que hoje são considerados leitores plenos.

Para Magda Soares, da UFMG, três aspectos são centrais para desaguar nos baixos índices: ambiente familiar com escasso acesso ao livro, concorrência dos meios audiovisuais e formação inadequada dos professores. Quanto à influência familiar e dos meios audiovisuais, a escola pouco pode fazer, a não ser ampliar a noção de letramento, incorporando novos tipos de alfabetização (digital, audiovisual etc.). "A interferência que se pode fazer imediata e diretamente é a mudança na formação do professor. É difícil entender por que se faz isso tão lentamente ou não se faz", diz Magda.

Para outro militante histórico, Ezequiel Theodoro da Silva, presidente da Associação de Leitura do Brasil e ex-secretário de Educação de Campinas, o país avançou nos planos teórico, epistemológico e acadêmico desde o primeiro Congresso de Leitura (Cole), em 1980. "Há muitas obras e grupos de pesquisa dedicados à reflexão. O que não muda é a falta de infra-estrutura física e humana. A metade da rede escolar pública não tem biblioteca", afirma.

Leitura e literatura

Um fator histórico que distorce a noção de leitura no país é a identificação do leitor apenas como leitor literário, letrado, na acepção original da palavra. A identificação dos gêneros textuais de uso social - aqueles que o cidadão comum lê cotidianamente, como jornais, revistas, letreiros, legendas de filmes etc. - e sua introdução no universo escolar nas últimas décadas são essenciais para dar sentido social às práticas de leitura e escrita.

Alfabetizados com nível pleno
Lêem textos mais longos, localizam e relacionam mais de uma informação, comparam textos, identificam fontes

26% do total
53% são mulheres
70% têm até 34 anos
60% têm pelo menos o ensino médio completo
Mais de 1/3 são das classes A e B

"Ler é mais do que ler literatura, é inserir o indivíduo na sociedade. A literatura tem exigências que outras esferas não têm. É preciso identificar o que alunos trazem de seu ambiente para ensiná-los a narrar, expor, argumentar. Isso é dever da escola", defende Paulo Mendes, consultor do PNLD.

Magda Soares lembra que os aprendizados de leitura e escrita, apesar de paralelos, são diferentes, seja do ponto de vista lingüístico, psicológico ou social. E que a leitura é mais presente e exigida do que a escrita. Cita como momento mais crítico de vazio conceitual, na época em que se começava a adotar a idéia de letramento, que muitas escolas exageraram na dose da diversidade de gêneros textuais. "Andaram botando as crianças na escola para escrever rótulo e bula de remédio. São gêneros que têm de ser lidos, mas não se tem de aprender a escrever isso na escola", pondera.

Outro equívoco que a introdução de novos gêneros trouxe é o de deixar o texto literário para quando os alunos estiverem maduros. O melhor caminho é o de diversificar as experiências. "Colocar a literatura no meio de outras produções é muito bom. É preciso dessacrilizar certos produtos em relação a outros. Idolatrias, às vezes, mais afastam do que ajudam", pondera Regina Zilberman, professora de literatura, pesquisadora do CNPq e autora de A Literatura Infantil na Escola (Global, 2006).

Em meio a outras produções, a literatura pode criar diálogos importantes, diz a autora. "Apesar de termos todas as marcas da diversidade, sempre pensamos a partir de uma perspectiva homogeneizadora, a partir do centro, uma coisa meio narcísica. A literatura dá a possibilidade de lidar com a idéia do outro, com o pensamento do outro, com a alteridade."

A caminho de Bom Jesus do Norte, a Dora, de Central do Brasil, usa uma metáfora sobre os meios de transporte e as relações amorosas para responder a Josué que, cansado, diz preferir viajar de táxi: "Melhor o ônibus. O ônibus tem um caminho certo. O táxi, não. Toma um rumo qualquer e depois se perde", fala em alusão aos que trocam de amores. No caso dos caminhos da leitura no Brasil, a melhor solução parece ser percorrer os caminhos do táxi. Porém, ofertando os lugares dos ônibus.

Para saber mais
Letramento, um Tema em Três Gêneros, de Magda Soares (Autêntica/Ceale, 1998)
Letramento no Brasil, org. Vera Masagão Ribeiro (Global Editora, 2004)
Literatura e Educação, de Gabriel Perissé (Autêntica, 2006)
Fim do livro, fim dos leitores?, de Regina Zilberman (Senac, 2001)