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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Professores e promoção da leitura: dez ideias

POR Ana Garralón
Ana GarralónAna Garralón trabalha com livros infantis desde finais dos anos 80. Colaborou como leitora para muitas editoras, trabalhou dando oficinas sobre temas de formação e incentivo à leitura e livros informativos nas mais importantes instituições. Escreve regularmente na imprensa. Publicou Historia portátil de la literatura infantil (Anaya, 2001), a antologia de poesia: Si ves un monte de espumas (Anaya, 2002) e uma seleção bibliográfica para mediadores: 150 libros infantiles para leer y releer (CEGAL, Club Kirico, 2012).  Saiba mais sobre ela em anatarambana.blogspot.com.



Você é professor? Então, certamente, voce deve estar muito ocupado em cumprir o programa e sem tempo nenhum para fazer atividades especiais. No entanto, é muito valiosa a influência que você tem sobre seus alunos no que se refere à leitura. Conseguir alunos leitores ajuda muito no entendimento de muitas disciplinas e os transforma em pessoas curiosas e cheias de vitalidade. E o melhor é que não precisa fazer muito. Basta ter consciencia do trabalho e fazer pequenas ações diárias.
Aqui vão algumas ideias:
1. Todos os professores podem promover a leitura. Não importa se a sua disciplina é ciências ou literatura. Pensa-se em geral que as atividades de leitura são de conteúdo exclusivo dos professores de línguas, mas não é assim. Em todas as disciplinas se lê e em todas elas existem livros maravilhosos a serem descobertos.
2. Amplie sua ideia de leitor. Leitor é aquele que lê um romance, mas também aquele que lê um texto científico, um gibi ou um jornal.
3. Pergunte a seus alunos, todos os dias, se eles estão lendo alguma coisa. Talvez no começo eles não se envolvam muito, mas se você repetir a pergunta e aceitar as respostas, não importa o que digam que estão lendo, em breve você terá um grupo discutindo suas leituras. Não faça isto como se fosse uma atividade, mas como algo rápido e espontâneo.
4. Não julgue o que eles leem. Valorize o  esforço e, acima de tudo, conheça e reconheça os interesses. Talvez você até mesmo se anime a ler alguma coisa que eles estejam gostando nesse momento.
5. Compartilhe as suas leituras. Se você está lendo um livro que lhe agrada,  fale brevemente sobre isso. Compartilhar é uma das bases da promoção da leitura. Você pode dar alguma explicação sobre os autores, o estilo ou o tema. Com isso você estará fornecendo pistas para que eles façam seus próprios comentários.
6. Leia em voz alta em sala de aula. Um fragmento, um recorte de jornal, uma notícia relacionada à sua disciplina. Tudo é válido para despertar o gosto pela leitura. Incluir livros na prática diária significa que a leitura é algo natural, necessário e uma parte normal do dia.
7. Indique livros. Se suas aulas são de ciências, filosofia ou educação artística, procure de vez em quando um livro direcionado à idade de seus alunos. Uma biografia, um ensaio de divulgação, uma revista, um artigo.

8. Comente. Se gradualmente eles vão tomando coragem para discutir suas leituras, por que não escolher, de tempos em tempos, um livro entre aqueles que estão interessados em compartilhar?
9. Aconselhe. Com seus conselhos e com o interesse que você demonstra pelas leituras de seus alunos,  eles se sentirão apreciados e você será mais do que o "professor" que ensina. Eles vão lhe ver como alguém diferente e excepcional.
10. Incentive. Em cada promoção, seus alunos vão lembrar de você como uma pessoa dedicada e cheia de interesse. Não é isso também um objetivo da educação? Incentive-os a viver com paixão e entusiasmo. Será uma lição para a vida toda e eles a relacionarão diretamente com os livros.
 ***
Na home, a imagem em destaque é The Baron in the Trees (2011), da artista Su Blackwell, a quem a Emília agradece. Conheça mais sobre o trabalho de Blackwell em www.sublackwell.co.uk

Imagem que ilustra a abertura é de Su Blackwell, The Baron in the Trees, 2011.

Fonte: Revista Emilia

quinta-feira, 22 de março de 2012

Papel do professor enquanto mediador da leitura

Por Roberta Fraga

Crédito da imagem: The teacher - Mary Ellen Page Sr. (Murnie), 1967 (from the family archives)

A leitura em seus momentos iniciais ou, posteriormente, por razões diversas será mediada. Mediar leitura tem um aspecto amplo. Pode significar o simples papel de ledor, o que acontence com deficientes visuais que não dominam o Braille ou pessoas ainda não alfabetizadas; mas, também, pode significar a interpretação do texto escrito, o canal de acesso à informação e à fantasia, no caso dos textos literários.
Assim, muitas pessoas podem ser referência de mediação: os pais, professores, orientadores, bibliotecários, um amigo, um voluntário…

Quanto ao professor convém:

  1. Ter aptidão para escolher a obra apropriada, tanto em termos de adequação etária, quanto em relação às preferências do grupo;
  2. Emprego eficaz de recurso metodológico – para saber dar ritmo, reconhecer momentos de avanços ou de recuos na aprendizagem e na formação do leitor;
  3. Suscitar a verbalização acerca da compreensão da obra;
  4. Domínio acerca do conteúdo a ser ministrado;
  5. Senso de oportunidade – o mediador deve saber avançar e recuar, testar novas abordagens. O modo de construção do leitor é um processo lento e gradativo;
  6. Seleção de material  – conhecer o interesse dos alunos, o universo deles, contextualizar;
  7. Conhecimento da produção literária para crianças;
  8. Conhecimento de lançamentos recentes, ser atualizado;
  9. Atender aos princípios da Filosofia e Educação contemporâneas – “aprender a aprender e aprender a ser”;
  10. Atendimento às qualidades estéticas da literatura sem preconceito e sem moralismos – literatura é arte;
  11. Dar preferência a textos inovadores e emancipatórios – estimular o pensamento independente e o senso crítico;
  12. Cuidar pela qualidade do material – estimular esse respeito;
  13. Cuidar pela qualidade da linguagem  – por mais que a língua evolua, é bom falar e escrever corretamente;
  14. Cuidar pela variedade de temas;
  15. Ter um tratamento questionador.
Fique atento, muitas vezes, o professor precisa trabalhar nele mesmo as aptidões de leitor. Certas resistências podem advir de desconhecimento e pouco preparo.
Aprofunde-se mais em
COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Por que professor não gosta de ler?

Matéria publicada em 10/09/2011

Ensino brasileiro ainda reproduz uma pedagogia ineficaz na valorização da leitura

Aloísio Milani

Institutos de pesquisa, entidades de classe e editoras até hoje não conseguiram aferir, mas, nos bastidores, todos sabem: professor não gosta de ler. Como toda nota vermelha no boletim, essa também chega com muitas justificativas e desculpas. As explicações vão desde a formação educacional até o preço dos livros, passando pela indefectível falta de tempo.

O baixo poder aquisitivo é uma das explicações para o pequeno volume de leitura do professorado. Em estudo de 2001, divulgado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), 41% dos docentes afirmaram ler ao menos um livro por mês, 34% deles eventualmente lêem e 25% não responderam ou não costumam ler.

O problema da leitura no Brasil - denunciado ano após ano pelos índices de aprovação em exames e vestibulares - não é novo. Alunos são massacrados pelos pais e pela escola por apresentarem péssimos rendimentos em interpretação de textos, por não compreender o que lêem, por não gostar de ler.

Segundo pesquisa publicada no livro letramento no Brasil, realizada em 2001, com 2 mil pessoas de 15 a 64 anos, 69% dos brasileiros dizem que nunca vão a bibliotecas. Quando indagados sobre as pessoas que mais influenciaram o gosto pela leitura, 37% dos entrevistados creditaram o hábito a um professor, 36%, às mães. Os dados, levantados pelo Instituto Paulo Montenegro - entidade ligada ao Ibope - e pela ONG Ação Educativa, dão uma amostra da importância do educador nesse processo.

Por mais que haja empenho em se melhorar os índices brasileiros de leitura, nenhuma campanha terá sucesso se não levar em conta que os próprios professores também não cultivam o hábito de ler por prazer - o que não inclui livros técnicos e material didático, cujas leituras são tidas como obrigação da profissão.

Poucos se dão conta de que os mestres que, hoje, apregoam a importância do hábito de ler, quando alunos, não guardaram boas lembranças dos livros e também sofreram com a leitura imposta, tratada como obrigação e treinamento.

O professor repete para o aluno a mesma visão de ensino que teve em sua formação. Muitos dos atuais mestres também tiveram de fazer os ineficazes resumos de obras clássicas; vários nunca foram sensibilizados para o prazer da leitura; outro tanto não tinha condições financeiras para comprar livros. Fica o dilema: como um professor que não gosta de ler pode estimular esse prazer em seus alunos?

"Grande parte do professorado realmente lê pouco, mas não podemos sentenciá-la como culpada. Essa parcela faz parte do contexto de aprendizagem que não coloca a leitura como categoria fundamental", expõe Edmir Perrotti, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP. Para ele, essa situação reflete uma falha profunda nas políticas educacionais.

Na prática, há uma desvalorização do livro como meio básico de educação desde o ensino fundamental. "É um círculo vicioso para o professor: estuda numa escola que não usa direito o livro; forma-se educador sem saber lidar com a biblioteca; e retorna para o ensino reproduzindo isso", explica Elizabeth Serra, diretora das bibliotecas públicas do Rio de Janeiro.
Por que os professores não lêem mais? Entre os especialistas, é consenso dizer que a questão da leitura está muito mais ligada às condições de acesso ao livro e à informação do que ao interesse das pessoas. Essa tese coloca que ler é um hábito mais próximo das camadas sociais mais ricas, em que a presença da cultura letrada é mais forte.

Luiz Percival Britto, presidente da Associação de Leitura do Brasil, explica que "ler para estar bem informado depende das condições de vida". Para Britto, o discurso que acusa o professor chega a ser preconceituoso e inocente: "Essa discussão é político-social; a leitura depende de uma política de Estado. Os professores são apenas agentes visíveis do processo."
No primeiro semestre deste ano, a CNTE divulgou um estudo feito em dez estados brasileiros que mostra que a maioria dos professores está na rede pública, tem uma experiência entre 12 e 18 anos de trabalho e ganha entre R$ 500 e R$ 1 mil.

É nesse contexto que se discute a política de incentivo da leitura do professor. Mas ler o quê? E para quê? Logicamente, os professores já lêem cotidianamente para seus planejamentos de aula. Antônio Augusto Gomes, do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coloca que o professor "tem pouca familiaridade de utilizar textos mais literários e acadêmicos", só que está treinado e "especializado no seu método de ensino". Mais ainda. "Existe uma tensão entre o que o professor gostaria de ler e ser como profissional e como realmente é", observa Gomes.

Literatura e trabalho - A professora Deise Capitani tem 36 anos e faz dupla jornada de trabalho em São Paulo (SP). Pela manhã, ela dá aulas no ensino fundamental na Escola Estadual Walter Belian e, à tarde, na Escola Municipal Ataulfo Alves, ambas na zona leste da cidade. Deise concluiu, no ano passado, o Programa de Educação Continuada (PEC) de professores de primeira a quarta séries, que lhe deu diploma de nível superior.
No curso - uma adequação à Lei de Diretrizes e Bases que impõe a necessidade de graduação para os docentes do ensino básico -, Deise estudou as linhas pedagógicas de vários educadores, como Paulo Freire, Piaget e Perrenoud. "Nós dávamos aula, mas não sabíamos classificar e nortear a prática do ensino de acordo com os pensadores", explica.
Deise admite a dificuldade em arranjar tempo para a leitura: "No trabalho, somos cientistas, professores e psicólogos. Nem sempre sobra tempo para ler e se atualizar." Por exemplo, nas horas de trabalho pedagógico - horários pagos para o professor se aprimorar -, muitas vezes se discutem apenas problemas pontuais de sala de aula. Não há orientação de especialistas no período.

A professora lembra que, fora as exigências do PEC, os últimos livros que leu foram duas biografias: Anjo Pornográfico, de Ruy Castro, e uma biografia de Monteiro Lobato. A leitura das obras, segundo a professora, foi importante para sua didática. "Acho que o professor deveria ser mais valorizado pelas políticas públicas. Se pudéssemos ter um salário para lecionar em apenas uma escola, a situação seria diferente", analisa.
Segundo Deise, uma maneira de se estimular a leitura dos professores é o governo e as secretarias de educação investirem na assinatura de periódicos: "As revistas Época e Veja, por exemplo, trazem informações históricas com explicações atuais. São textos prazerosos. Acho imprescindível que o professor também leia por prazer."

Salários baixos - Em sintonia com o discurso da professora está a própria presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Juçara Vieira, que reconhece a escassez de tempo para investir na leitura. "Com a internet, se multiplicaram as formas de acúmulo de conhecimento, mas os trabalhadores da educação são absorvidos pelo volume de trabalho que assumem para ganhar um salário razoável", pondera.
Um levantamento feito pela Unesco em 1998 evidenciou que o salário médio inicial dos professores da rede pública brasileira chegava a ser até seis vezes menor do que na Alemanha, na Espanha e nos Estados Unidos. Na comparação, a média brasileira era menor até que os índices do Uruguai, da Malásia e da Tailândia.

Mas há vozes dissonantes. "Não há como dizer que o professor realmente lê muito mal. Sabemos que ele é intelectualizado, apesar de, como os brasileiros em geral, não ter acesso à maioria das publicações", analisa Wander Soares, presidente da Associação Brasileira de Editores de Livros (Abrelivros). "Há uma demanda reprimida da leitura no país. Se houvesse melhora econômica, haveria mais consumo de livros", acredita Soares.

Entre os livreiros, os descontos também não são a estratégia unânime. "Os descontos são mais uma forma de propaganda do que um incentivo à leitura. Há, muitas vezes, alunos de pedagogia que passam quatro anos estudando e não chegam a ler seis livros inteiros", dispara Ednilson Xavier, da Associação Nacional das Livrarias e gerente da Livraria Cortez.
Xavier coloca que, dos dez livros da área mais vendidos pela Cortez, em julho deste ano, estão quatro do pedagogo Paulo Freire e um do educador Edgar Morin. Alguns deles chegam a custar menos de R$ 11. "Depende mais do incentivo à leitura do que dos preços. Livro precisa de valor prático."

Clarisse da Silva leciona matemática na escola estadual Sérgio Leça Teixeira, em Franca, interior de São Paulo. Graduada em matemática com licenciatura plena, a professora se candidatou a uma vaga em concurso aberto pela Secretaria Estadual de Educação para lecionar no ensino básico.

Com a bibliografia do concurso em mãos, Clarisse procura estudar e ler o máximo que pode nos meses que antecedem o teste. Mesmo tendo formação universitária, a professora diz que o estudo na faculdade "não lhe deu base suficiente para concurso". Para ela, "o nível superior não cobra muita leitura e, devido à falta de tempo, os alunos só lêem o que é cobrado". Ela ainda completa: "Há muito desinteresse dos alunos e dos professores."
Antônio Augusto Gomes, do Ceale, explica que o problema da formação do professor surgiu no recrutamento em massa de professores, desde a década de 70. "No perfil social, a maioria faz parte da primeira geração, alfabetizada na família. Isso impõe um desafio enorme para a estrutura de formação", aponta.

Clarisse avalia que "nunca existiu tanto livro na escola para os professores, mas poucas vezes se usa bem o que se ganha". Sua escola, como todas as outras 3.126 do estado de São Paulo, receberá da Secretaria da Educação um pacote do programa Biblioteca do Professor com mais 219 títulos.

Mas só comprar livros não tem resolvido a questão. Nesse ponto, o professor Edmir Perrotti lembra os resultados de uma pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que apontam que o maior problema das bibliotecas não está nos recursos financeiros e, sim, no isolamento e na falta de comunicação entre acervos e salas de aula (leia mais à pág. 44).

Segundo Elizabeth Serra, diretora das bibliotecas públicas do Rio de Janeiro, o professor precisa ser formado para descobrir a literatura e com isso mudar seu ensino.
"Eu acho que a obra de Monteiro Lobato, por exemplo, pode ser usada como projeto pedagógico. Os livros são didáticos, trabalham a diversidade e são verdadeiros clássicos." Elizabeth faz questão de reforçar: "Leitura não deve ser apenas o 'fim', mas o 'meio' da educação", acredita.

A biblioteca pessoal

Leituras educadoras | Edição 177
Matéria publicada em 20/12/2011
 
Os professores precisam de quem os ensine a ensinar: os livros

Gabriel Perissé*


A leitura variada e profunda é vital para a formação docente. A educação brasileira precisa de professores que sejam leitores constantes, com repertório amplo, com linguagem atraente/convincente, com visão de mundo fortalecida pela reflexão, com sensibilidade para não prender disciplina alguma em rotinas burocráticas, em fórmulas apáticas, em métodos repetitivos.

Que em cada escola, pública ou particular, houvesse uma excelente biblioteca destinada exclusivamente aos professores. Não só com os livros de pedagogia, essenciais, e os documentos oficiais, os referenciais, as diretrizes nacionais e internacionais, e a legislação, os parâmetros, os projetos, as estatísticas. Mas também com abarrotadas estantes de história, filosofia, antropologia, literatura, arte em geral, sociologia, ciência, tecnologia e outros tantos temas e "logias" necessários para a vida intelectual.

E que na sala dos professores tivéssemos a vontade natural de superarmos as questões epidérmicas e cosméticas. Que tivéssemos tempo e espaço, estímulo e ânimo para conversar sobre temas de fundo, não apenas os (interessantes, sem dúvida) assuntos propostos ou impostos pelas revistas semanais (algumas caras, outras baratas), pelos telejornais que nos globalizam, ou pelas urgentes pautas sindicais. Podemos sempre mais!

A biblioteca professoral

Além da biblioteca coletiva da escola (iniciativa que demonstraria os verdadeiros méritos de uma prefeitura, de uma secretaria de educação, de uma diretoria), é igualmente vital para os professores terem sua biblioteca particular, com seus clássicos pessoais, com seus livros de consulta, para estudo cotidiano e também para momentos de entretenimento cultural.

De novo, não seria biblioteca restrita aos temas, às abordagens, aos autores que todos conhecemos como importantes na formação docente. Que estejam presentes Paulo Freire e John Dewey, Freinet e Piaget, Claparède e Lourenço Filho, Wallon e Morin, Anísio Teixeira e Montessori, Makarenko e Comênio, entre tantos outros. Mas que outros tantos autores, mesmo não rotulados de educadores, tenham o seu lugar assegurado na fila das nossas futuras leituras.

Autores brasileiros e estrangeiros, contemporâneos ou de muitos séculos atrás, mais racionais ou mais emocionais, materialistas ou espiritualistas, prolixos ou concisos, contundentes ou conciliadores... É praticamente infinito o espaço das escolhas. E é também o momento de saber se sabemos escolher. Montar uma biblioteca exige interesse, pesquisa, curiosidade. E a coragem de optar.

Os clássicos (claro!) são sempre referência incontestável. Devemos conhecer Dante, Homero, Balzac, Cervantes, Shakespeare, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, nem que seja para dizer que preferimos outros clássicos. Entra aqui a capacidade de escolher nossos clássicos pessoais, como dizia Italo Calvino. E esses clássicos podem ser nomes menos conhecidos, menos elogiados, desprezados, ou até mesmo odiados pela crítica dominante. Mas nada disso é importante. Os clássicos pessoais serão legitimados pela pessoa que os classifica como algo que valha a pena ler, reler e recomendar!

As consequências práticas e didáticas são óbvias. Um professor que tenha escolhido os seus clássicos pessoais, e que os frequente com interesse, torna-se, perante seus colegas e dirigentes, perante seus alunos, na classe, na hora da aula, um professor com personalidade intelectual, com perfil definido. Não é mero repetidor de conteúdos livrescos ou apostilescos, não é simples educador de giz e quadro-negro, de retroprojetor, flip chart, lousa eletrônica, power-point, laptop ou tablet. Sua visão e sua voz estão fundamentadas numa tecnologia antiga e insuperável - na leitura livre. Livre das modas e muletas de todo gênero!

De livro em livro

Não se cria uma biblioteca em um dia, em um ano. Biblioteca é projeto para a vida inteira. E requer amor aos livros. É uma contradição ser professor de pouca leitura. Se uma casa sem livros é uma casa sem janelas (frase atribuída a vários pensadores), uma existência de professor sem leitura é vida fechada para o aprendizado.

A biblioteca pessoal é construída livro a livro, uma aquisição hoje, outra amanhã, é feita de visitas à livraria, ao sebo. Trata-se de investimento pessoal. Não é despesa, ainda que pese no bolso. Mais pesada, porém, é uma vida sem a leveza das ideias, sem a beleza das imagens, sem a força das metáforas e dos argumentos que um livro traz.

Não pode haver maior incoerência que um professor não ler ou, até, não gostar de ler. Mas também sabemos que essa incoerência se explica pelas limitações da profissão docente no Brasil. Quando reivindicamos melhores condições de trabalho, incluímos (imagino eu) possibilidade para comprar livros e tempo livre para ler.

A poeta Adélia Prado diz... "escrevo um livro para ver se me livro". Podemos parafrasear: "eu compro um livro para ver se me livro". Para ver se nos livramos da superficialidade, dos preconceitos, dos lugares-comuns, de tudo aquilo que não condiz com a arte de ensinar.

De livro em livro a biblioteca preenche a alma. Não se trata de estabelecer quantidades para o acervo, mas serve aqui de inspiração lembrar as metáforas usadas por leitores apaixonados. Os livros são chamados de amigos constantes, sábios conselheiros, de flores perfumadas, de remédios eficazes, de alimento saudável, de amantes, de orientadores, de asas, de navios e, de modo especial, são vistos como professores.

Nós, professores, precisamos de professores que nos ensinem a ensinar. Os livros têm essa capacidade. Um poema nos ensina a ver para além das coisas opacas. Um romance nos ensina a redimensionar os dramas pessoais. Um ensaio filosófico nos torna mais reflexivos, mais ponderados. Uma biografia nos leva a compreender o valor inestimável de uma única vida. Um livro de história nos dá acesso à memória humana. Enfim, não tem fim a capacidade de um livro nos ensinar.

De livro em livro, construímos uma biblioteca. Que reflete nossos gostos, preferências e, sobretudo, aponta para o nosso futuro. Na biblioteca pessoal de um professor, vemos o futuro desse profissional.

E o futuro da educação nacional.

*Gabriel Perissé (www.perisse.com.br) é doutor em Filosofia da Educação (USP), pesquisador do NPC - Núcleo Pensamento e Criatividade

sábado, 2 de abril de 2011

O prazer de ler

Dôra Monnerat
Escritora e membro da Academia de Letras de Viçosa
Publicado em 09 de setembro de 2008


Este artigo pretende apresentar a importância da leitura para o desenvolvimento do indivíduo e a importância de promover o gosto pela leitura. Fala da magia, da paixão pela leitura, pelas histórias e pelos livros. Leitura... Palavra mágica que proporciona informação, formação, crescimento, atualização do individuo e, sobretudo, prazer.

Sou totalmente a favor da leitura em sala de aula, em biblioteca, sentada na calçada, no pátio, em qualquer lugar! O momento da leitura é um momento especial, acalma, relaxa... É um momento da afetividade, de aproximação, de magia! Uma oportunidade que o professor pode criar não só para ensinar seus alunos a ouvir como também para escutá-los. Mas para alcançar o objetivo de transformar alunos em indivíduos leitores é preciso descobrir o interesse da turma.

É importante começar com um tema de interesse comum. Textos pequenos, para não provocar inquietação naqueles que não estão acostumados a ouvir histórias bem como nos mais falantes, que ainda não estão treinados ao silencio. Isso fará com que fiquem mais atentos.

Se a criança não teve a sorte de nascer e crescer em uma família ou vizinhança que tenha tido ao menos um contador de histórias, cabe ao professor fazê-la despertar para essa prática, ou seja, querer ouvir ou ler e, por fim, gostar de histórias. A sala de aula pode ser o início de um belo trabalho de promoção da leitura.

Não há nada melhor do que começar uma aula com uma boa história bem contada ou lida com atenção pelo professor, com entonação e dicção perfeitas, como se ele fosse parte da própria história..

Um professor leitor apaixonado pela leitura transmite essa paixão. Quando conta ou lê uma história para seus alunos transmite esse sentimento, proporcionando prazer àqueles que o escutam, porque lê com mais emoção. Esse professor educa com mais afetividade, pois a leitura promove esse momento afetivo, de proximidade, faz aflorar a emoção.

Uma pequena discussão entre os alunos sobre o assunto, sobre o autor, ou coisas relacionadas ao texto, caracterizando a leitura social, provocando interação, reflexão e troca de ideias, dará a esses alunos a oportunidade de desenvolver a oralidade e a comunicação. Esse tipo trabalho, como um círculo ou roda de leitura, descontraída, sem cobranças, como uma conversa animada, mas com regras, para que cada um tenha seu momento de falar e todos tenham oportunidade de se expressar, pode tornar-se bastante produtiva.

Precisamos de alunos leitores, para promoção do desenvolvimento intelectual, psicológico e social deles. Queremos formar indivíduos capazes de entender o mundo e de se fazer entender dentro e fora da escola. A leitura possibilitará isso, uma vez transformada a escola em um veículo para a descoberta do prazer de ler. Mas a escola pode ir além, convidando os pais ou outros membros da família para participar do projeto.

Estudos de sociólogos, psicólogos e de outros especialistas no assunto têm mostrado as mudanças que vêm acontecendo na sociedade, principalmente nos papéis exercidos pelas pessoas no que diz respeito ao mercado de trabalho, às famílias, à educação...

A preocupação com o fortalecimento da família passa pela educação dos filhos. Se a escola conseguir atrair a família a dedicar, por exemplo, uma hora por mês para uma leitura social e a partilhar com seus filhos e amigos desse momento agradável e de muito prazer, com certeza estaremos próximos do êxito de nosso objetivo: o aluno leitor e, porque não, família leitora!

Esse trabalho de leitura na escola deve ser atrativo e os textos devem ser adequados. Como ferramentas para atrair o aluno à leitura, podem ser usadas atividades, como o teatro. Para tal, a turma teria que fazer “diversas leituras” de variados livros, sem cobrança, sem o “único” objetivo de fazer o teatro.

A busca de textos em livros da biblioteca da escola ou em livros trazidos pelos próprios alunos poderá levá-los a ler sem perceber que estão praticando a leitura.

Importante também é ter um lugar diferente, porém adequado, fora da sala de aula, onde possam ser propostos alguns encontros mensais ou bimestrais, além das leituras diárias em sala de aula. Se a escola tem biblioteca, ela seria o local ideal para essa saída para o momento da leitura, da afetividade, da aproximação, do ouvir e ser ouvido. Será mais marcante na vida do aluno se for aberto à sua família. Mas a biblioteca escolar tem que ser adequada, aconchegante, um lugar gostoso de ir. Não um lugar frio, com cheiro de poeira ou mofo, cheio de prateleiras apinhadas de livros desordenados e inadequados.

Outro trabalho de promoção da leitura que pode ser proposto é o seminário de leitura, mas este deve se iniciar somente entre os pares, ou seja, na própria turma. Depois pode se propor um intercâmbio entre turmas da mesma escola, de escolas do bairro, de escolas de outros bairros e tudo mais que surgir e for válido, desde que combinado cautelosamente com todos os alunos.

O seminário pode ser organizado de forma simples. Cada aluno faz o empréstimo de um livro por determinado tempo e, combinada uma data, cada um apresentará oralmente o livro que leu. Alguns poderão sentir muita dificuldade no início, mas dificilmente ficarão de fora. Todos irão apresentar, se as regras não forem muito rígidas.

A apresentação deve ser simples, constando do titulo, do autor, do formato do livro, das ilustrações, do tema etc. Como conclusão, detalhes que chamaram a atenção do aluno e a informação e se gostou ou não do livro e o motivo.

Criações e produções de textos maravilhosos certamente surgirão por parte dos alunos, depois de trabalhos como esses. O professor deve ler todos os livros que os alunos estiverem lendo. Está claro que a educação se dá pelo exemplo; não adianta querer que nossos alunos sejam leitores se não o somos. Portanto, temos que dar exemplo, falar dos livros que lemos e comentar trechos com paixão, entusiasmo, levantar curiosidade...

Em hipótese alguma o aluno deve ver a leitura como um artigo de cobrança. A prática da leitura diária não deve ter de preferência, implicação com o conteúdo que se vai trabalhar em sala de aula. Se tiver, pode ser mencionado de forma sutil, como se tivesse sido uma descoberta do momento na leitura, para não caracterizar que se deu aquele texto só para ensinar o que estava previsto para a aula.

Ler é descoberta. Ler é prazer, ler é pura gostosura, como diz nossa querida escritora Fanny Abramovich. Ler é brincar com palavras e situações, como faziam a nossa querida Sylvia Orthof e muitos outros escritores como Ruth Rocha, Neusa Sorrent... São tantos... E, nas poesias, quantas brincadeiras se podem fazer com as rimas, como fazem escritores como Leo Cunha, Pedro Bandeira, Elias José... A magia, omistério, a emoção, tão bem apresentados através de histórias como as de Monteiro Lobato, Marina Colasanti. Álvaro Ottoni, Pedro Bloch... São tantos não dá para citar todos. O Brasil é riquíssimo quando se trata de autores de excelentes histórias, bem escritas, com temas variados... É só sentar, se aconchegar e ler. E as histórias do Andersen... Quem nunca ouviu O Patinho Feio?, A pequena vendedora de fósforo e tantas outras maravilhas criadas por ele, o grande inspirador?

Um professor pode e deve ser um propagador desse hábito do gosto pela leitura. Mas antes é preciso que ele descubra esse prazer e acredite na importância do gostar de ler. É preciso que ele tenha consciência do que a leitura representa em sua vida, assim como na vida de seus alunos ou de qualquer cidadão.

É através das leituras que o aluno cresce, descobre, conhece um mundo muito mais amplo e cheio de coisas diferentes – ou iguais, porém sobre uma ótica diferente. A leitura abre a mente, trabalha a emoção e promove a sabedoria e o raciocínio e... muito mais. Vale a pena essa descoberta! A recompensa maior é levar outras pessoas a descobrir que ler faz muito bem à alma, ao coração e ao ser como um todo, pois melhora a qualidade de nosso viver.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Conversas com leitores

Publicado em 17/08/2010

Cyana Leahy-Dios
Professora universitária (UFF e UGF), escritora, tradutora, PhD em Educação Literária pela Universidade de Londres

O que eu queria aprender de verdade não passava nem perto do quadro-negro. O que me interessava – e me interessa até hoje – eram as relações humanas, e tudo de mágico e de trágico que elas representavam numa vida. No caso, a minha vida... A escola era como um país estrangeiro. Martha Medeiros

Inserida no discurso da democracia social, a leitura tem nos professores-leitores seus agentes preferenciais. Ler de modo consciente e analítico implica o exercício cotidiano da cidadania, responsabilidade sociocultural primordial da escola. As trilhas até a leitura letrada e consciente são árduas, exigindo a transformação de crenças e olhares. Com frequência, na arena pública os próprios atores e espaços de construção do letramento e da leitura dificultam o processo: escolas são mal equipadas, professores não gostam de ler, alunos são desinteressados, suas famílias são indiferentes, o sistema educacional público se encontra permanentemente em estado pré-falimentar. Nada disso é dissociado das discussões sociais e políticas (como a reforma universitária, o sistema de cotas, o processo eleitoral brasileiro, as políticas de proteção ao meio ambiente), que exigem argumentação construída através de leitura, reflexão, análise, interpretação. Raros são os adolescentes e jovens adultos conscientes de sua participação ativa na escrita da história nacional.

Pela lógica cartesiana, o propalado decréscimo do analfabetismo no Brasil deveria corresponder a índices de leitura mais elevados, ao menos nos centros urbanos, onde há livrarias e bibliotecas públicas. Infelizmente, o diálogo com dezenove jovens leitores, abaixo detalhado, não confirma essa premissa. Diversas instituições que exercem papel relevante na disseminação do livro e da leitura oferecem e/ou abrigam congressos, cursos, oficinas, projetos e programas voltados para a área da leitura. Esses encontros são marcados por debates e discussões políticas, com denúncias e apelos, queixas, exigências, atribuições unânimes de culpa (ao aluno, à família, ao Estado, ao sistema).

Em meio a tantas críticas, o processo evolui bem, até que algum palestrante ou coordenador de oficina bem intencionado peça a leitura de textos, documentos ou livros para fundamentar a argumentação, os debates e trabalhos, tentando atingir questões menos superficiais acerca dos dilemas e descaminhos das ações pedagógicas em torno da leitura. Parte considerável do corpo docente envolvido com projetos de leitura efetivamente não lê: sua disponibilidade para a leitura é mínima, e a resistência, máxima. Costuma tratar como leitura a preparação de aulas, através de manuais didáticos pré-prontos, optando frequentemente por ações de caráter prático, técnicas, estratégias, receitas prontas, dicas facilitadoras para copiar e usar em seus espaços de trabalho. Peça-lhe tudo, menos leitura, análise e discussão reflexiva de textos – um exercício cansativo, soporífico, difícil e inadequado. Há escolas cujos professores sequer leram as coleções infantis e/ou juvenis enviadas pelo Governo Federal para distribuição nas escolas. Por motivos e dificuldades diversas, estão mais interessados nos fragmentos e retalhos de informação disfarçados como leitura literária.

Atuando como palestrante e coordenadora de oficinas no interior do país, através do Proler, percebi não se tratar de resistência eletiva à leitura: muitos docentes se sentem desconfortáveis, inseguros quanto à própria competência de ler. Formados precariamente, sem domínio teórico nem metodológico dos fundamentos da análise de textos, falta-lhes o pensamento independente e dialético, a divergência crítica no tratamento do lido (letramento). Carentes de bibliotecas, sem motivos específicos que os incentivem à leitura real e cotidiana, sobrevivendo ao dia a dia pedagógico com experiência de leitura parca e escassa, não podem atuar como vetores genuínos de transformação sócio-histórica e político-cultural através da palavra escrita, criando jovens leitores em suas salas de aula, em seus círculos sociais, em suas regiões. Como, então, estar a par das últimas produções editoriais da literatura juvenil? O que nos resta fazer e o que devemos esperar? A capacidade de ler e refletir sobre o lido é que permite ao indivíduo engajar-se de modo ativo e responsável nas atividades culturais e políticas do grupo, tornando-se mais apto ao desempenho ótimo de suas funções sociais, em condições de opinar e, como dizia Gramsci, de governar – e não apenas obedecer.

Dados obtidos em entrevistas anteriores com adolescentes e jovens adultos de escolas públicas no Rio de Janeiro revelaram que a maioria afirmava “não gostar de ler”; com o fluir da conversa, mais adiante – e mais à vontade – diziam ler gibis, jornais esportivos, revistas femininas, folhetins românticos e até mesmo “alguns livros” (obviamente, best-sellers traduzidos ou livros de autoajuda, não referendados pela crítica acadêmica). Diante da contradição, percebiam a associação mental entre ler e obra indicada pela escola: leitura de fato seriam as obras pré-aprovadas pelos professores como objeto de estudo para prova ou trabalho escolar.

Anos depois, usei como campo de pesquisa a Biblioteca Estadual de Niterói, prédio histórico situado em praça central da cidade. Dado o investimento em programas de leitura, em propaganda nos meios de comunicação, com frequentes doações de coleções literárias às escolas, quis atualizar os dados, verificando a ocorrência de mudanças na relação de jovens do meio urbano com o livro e a leitura: quem estaria lendo na biblioteca, o que lia e por que, a mando da escola ou por diletantismo. Ansiava encontrar uma história de maior competência escolar/docente na mediação de leituras.

A amostragem não foi quantitativamente representativa, mas deu margem a algumas reflexões: 19 jovens foram encontrados na biblioteca em situação de leitura, 16 dos quais se ocupavam de “pesquisa escolar” ou em estudo independente. Os três jovens restantes ali aguardavam um ensaio de teatro amador, com grupo “criado na biblioteca”. Todos concordaram em relatar suas leituras eletivas em processo, seus passatempos prediletos, definindo, por fim, o papel da leitura em suas vidas. Ninguém afirmou ler literatura juvenil, infantil ou adulta; estavam todos na biblioteca a trabalho, e não por prazer/lazer. Ratificaram o discurso oficial acerca da importância da leitura, embora apenas seis tenham se revelado de fato leitores. Era clara a sensação de que leitura, escola e biblioteca pertencem a um mesmo campo semântico, como obrigação, dever, tarefa avaliável.

As falas registraram que a maioria dos jovens esperava contar com o estímulo da escola ou dos professores para ler. “Ler é chato”, “ler seria minha última opção de lazer”, “só leio obrigado/a pela escola” são expressões encontradas entre os jovens, confirmando achados de investigações anteriores. Novamente se confirmou a contradição, não percebida pelos entrevistados: vários têm hábitos de leitura consolidados, embora neguem essa prática. Gilcimar, Renan, André, Luiz Ricardo, Jorge e Natália, autoalegados não leitores, leem com frequência jornais, revistas e/ou mangás (gibis japoneses). Tatiana e Iara leem romances em casa, vão à biblioteca com frequência “buscar conhecimento”, abrir “a visão da vida” (ou seja, estudar, “pesquisar”). Amanda e Pámela veem a leitura apenas como instrumento de pesquisa, “a melhor forma de aprender”, mas “não serve para o lazer”. Marcele e Ana Carolina leem sem gostar, apenas por obrigação escolar/acadêmica. Rosane, por sua vez, leitora assídua na biblioteca e em casa, vê a possibilidade de “viajar pela leitura”, ao passado, ao futuro, ao desconhecido. Também Milena considera ler uma viagem, desde que se tenha a “disponibilidade para viajar”: leu somente dois livros até hoje, apenas para “descarregar a consciência”, pois “não tem disponibilidade” para a viagem da leitura. Paulla é a leitora ideal: apaixonada por livros como lazer, prazer, fonte central de aquisição de conhecimento, a se tornar brevemente seu objeto de estudo e interesse acadêmico-profissional: acabara de ser aprovada no vestibular para Biblioteconomia na UFF. Oriunda de uma família de leitores, Paulla declarou ler cinco livros simultaneamente; afirmou que, para ela, “a leitura é quase tudo: é informação, passatempo, meu meio de comunicação com os outros e com o mundo”.

André, leitor e apreciador do potencial da leitura (“ler abre um novo universo, estimula a mente a pensar, a ter opiniões sobre o mundo e a vida”), lamenta o distanciamento da escola, que raramente orienta a leitura ou manda ler. Luiz Ricardo vai à biblioteca estudar e pesquisar, mas a leitura não entra na sua lista de prioridades ou de prazeres. Renan e Jorge, leitores de gibis e livros que nunca leram uma obra literária, revelam curiosidade por textos literários, uma leitura até então jamais exigida, orientada ou motivada pela escola. Embora suas famílias não possuam livros, intuem ou repetem o chavão de que leitura é aprendizado, estímulo à imaginação, ensinamento moral e solução de problemas existenciais. Natália, uma declarada não-leitora, lê revistas femininas e de fofocas televisivas, já tendo lido na escola livros escolhidos pelos professores, sem significado especial para sua experiência de vida e de leitura. Afirmando “sentir falta de livros e de leitura em família”, pretende “ler para os filhos” que tiver um dia, instaurando o hábito de ler em seu futuro núcleo familiar. Luana frequenta a biblioteca, adora ler e lê de tudo; atribui esse hábito prazeroso ao fato de vir de uma família de leitores, já que a escola nunca pediu, indicou ou orientou leituras. Afirma que ler ajuda a desligar dos problemas, é o melhor lazer. E o recém-chegado Mário, cidadão da Guiné-Bissau, estava na Biblioteca Estadual por conta própria, estudando para prestar exame vestibular no Brasil. Apesar da guerra em seu país, diz-se bom leitor de poesia, ficção e temas culturais em geral, que lê por prazer. Segundo ele, não há bibliotecas públicas nem escolares na Guiné-Bissau; livros são disponíveis apenas nas bibliotecas das Embaixadas de Portugal e do Brasil. Vê a leitura como fonte de alegria e tristeza, aprendizado, informação, crítica.

Melhores futuros para todos?

Não houve a pretensão de originalidade aqui. As respostas informam a inserção socioeconômica dos jovens (bairros e zonas de residência e estudo), a frequência e objetivos ao procurar a biblioteca pública e a relação pessoal com livros e leitura. Opinativos e participativos, pertencem às camadas populares: moram em áreas de baixa renda, estudam (ou estudaram) em colégios públicos de periferia. A relação série-idade está na faixa ideal, indicando serem estudantes no mínimo medianos. A biblioteca é usada preferencialmente como local de “pesquisa” escolar e, em menor escala, de estudo independente. Descontando as poucas exceções citadas, esses jovens não relacionam leitura a prazer e/ou lazer e têm pouca intimidade com a literatura: são episódicos seus eventos de leitura de livros. Há exceções por motivação familiar, inegavelmente o melhor, mais raro e eficaz exemplo para o desenvolvimento do hábito prazeroso de ler.

Pelo visto, a escola continua falhando no cumprimento de sua tarefa mais importante, que é desenvolver a habilidade de ler textos, ler nas entrelinhas, ler eventos, situações, mensagens, de forma literal e literária, até porque falta educação literária na própria formação dos docentes, principais agentes desse processo.

Professores que não leem, alunos que nunca leram na escola são as pontas visíveis das artimanhas que inibem a emancipação e reproduzem “propostas imbecilizantes” (Demo, 2001, p. 74). O medo do argumento também faz parte dessas artimanhas, cerceando diferenças de opinião e divergências conceituais por temê-las, como a toda forma de exercício crítico. Ler, analisar e interpretar em profundidade são instrumentos de contestação da própria leitura, uma intervenção nas circunstâncias de produção dos textos em si. Ler literatura faz parte de uma agenda sociocultural determinada por compromissos ideológicos, papéis e expectativas político-culturais. O texto se esvazia se estiver a serviço da produtividade, com resultados mensuráveis – e não como campo de desenvolvimento de sensibilidades e competências literárias.

As obras literárias mencionadas pelos jovens entrevistados na Biblioteca Estadual de Niterói foram Harry Potter (Tatiana, em casa); Macunaíma e Triste fim de Policarpo Quaresma (Iara, na escola) e O iluminado (em casa); As viagens de Gulliver (Marcele, na biblioteca da escola) e Oliver Twist (em casa); Gota d’água (Ana Carolina, na biblioteca da UniRio); O Guarani (Rosane, na escola); Anjos e demônios, Quem tem medo do escuro, As brumas de Avalon 3, O físico, e Da chibata à terra-mãe (Paulla, em casa); Relato de um náufrago e Robin Hood (Luiz Ricardo, em casa); Dom Casmurro e Lolita (Milena, em casa); Porto dos Milagres (Luana, em casa).

Dessa listagem, constituíram indicações de leitura escolar Macunaíma, Triste Fim de Policarpo Quaresma e O Guarani, obras canônicas clássicas, assíduas nos finados livros didáticos de literatura e que dificilmente seriam classificadas como “literatura juvenil”. A escassez de materiais de leitura é de tal monta que alguns títulos são lidos, relidos, e lidos novamente. A maioria dos professores e os bibliotecários desconhecem as novidades editoriais do país. À escola não chegam notícias da literatura juvenil.

A realidade fica do lado de fora; porém, do lado de dentro falta não apenas leitura, mas também espaço para análise, discussão, confronto, transformação, divergências, emancipação. Se a educação literária – educar para a cidadania através da literatura – é metafórica, uma representação cultural das sociedades, a situação brasileira é preocupante. Permanece a tradição que reza que bibliotecas sejam para as escolas dos abastados e oficinas (quando muito) para as escolas das classes populares, um triste quadro do presente educacional do país.

Todo autor gostaria de fechar seu texto com um toque otimista, ajudando a manter a esperança em melhores futuros para todos. Porém, o quadro da leitura em geral – e da literária em particular – em nosso país continental não permite conclusões utópicas e ufanistas. Não há notícia de movimentação ampla e eficaz no letramento e na educação literária dos jovens das classes populares – ouvimos falar em uma ou outra iniciativa heroica, particular, de sucesso limitado. Não há “perguntas galantes” em nossos jornais e revistas, na televisão ou na internet. Há anos que a avaliação internacional da competência de leitura de nossas crianças e jovens rasteja nos últimos lugares.

Sem querer adotar uma posição extremada ou sectária, acredito que seja urgente rever todo o sistema, desde a formação escolar, acadêmica e continuada de professores-leitores até as políticas livreiras e de leitura literária, lembrando que certos significados e posições não são articulados dentro do discurso oficial. É urgente construir leitores de todas as idades, nas diversas classes socioeconômicas. Dentro e fora desse país estrangeiro, a escola.

Referências bibliográficas

BOAL, Augusto. O arco-íris do desejo: Método Boal de Teatro e Terapia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

DEJEAN, Joan. Antigos contra modernos: as guerras culturais e a construção de um fin de siècle. Trad. Zaida Maldonado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1993.

LEAHY-DIOS, Cyana. Educação Literária como Metáfora Social. Niterói: EdUFF, 2000. 2a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Acender o fósforo repetidas vezes

Li e gostei da crônica do Ignácio. Compartilho com vocês a minha leitura.
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Ignácio Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo - 19/11/2010

Depois da colisão com Monteiro Lobato, veio a escorregadela do Enem. Esse ministério não aprende que errar uma vez é humano, errar duas é burrice. Vem também o ministro dizer que os critérios para avaliação internacional do ensino brasileiro, abaixo do da Cochinchina, estão errados e que temos um alto nível. De onde será que o ministério olha? Como avalia? O que salva o ensino brasileiro são atitudes isoladas que, felizmente, existem aos borbotões. Tenho andando, sentido e testemunhado. Como esquecer as professoras que fazem da Casa Meio Norte, em Teresinha, um exemplo esplendoroso (palavra boa, sonora) de como ensinar contra todas as adversidades?

Dia desses, estive em Santo André, convidado pela Luciana Tavares, bibliotecária da Escola 221 do Sesi. Foi uma alegria chegar e ser recebido com um tapete vermelho feito de papel pardo com tiras coloridas. Símbolo afetuoso que os alunos montaram atravessando todo o pátio até a biblioteca. Comoveu ver alunos do ensino médio com o meu romance Não Verás País Nenhum - que não é fácil de ler - nas mãos, porque o livro está sendo trabalhado ali. Algum tempo atrás, quem compareceu foi o Rubem Alves, um parceiro meu em viagens deste tipo. Falar do Brasil, da literatura, da educação, abrir cabeças, abrir mundos, iluminar caminhos. Em momentos assim, tanto Rubem como eu fazemos a mala, esquecemos cachês e trabalhamos por amor. Compensa, alegra.

Há por essa imensidão do Brasil, sim, há, centenas de professores e bibliotecários idealistas lutando para realizar alguma coisa contra currículos esquisitos, diretores obsoletos, normas mal formuladas, entraves burocráticos, kafkianos, incompreensões. Porém, eles vão em frente. Comovente ver os alunos da 221 interessados em literatura, apaixonados por um livro que, tendo sido escrito há 30 anos e sendo meu livro mais traduzido, acabou mostrando a realidade que chegou à nossa porta: o aquecimento global, a angústia da falta d"água, as cidades superpovoadas, a violência, os congestionamentos, as doenças indiagnosticáveis, a miséria. Os professores que estão estudando o Não Verás avançam nas propostas, fazem uma análise abrangente, o que se vê é a própria história do Brasil e as consequências de políticas obsoletas.

Quinze dias depois, eu estava em Sorocaba, diante dos alunos do Objetivo que, orientados pela professora Marisa Telo, tinham virado de cabeça para baixo o livro de contos Cadeiras Proibidas. Metáfora do tempo da ditadura que, mais do que nunca, vem sendo adotado e lido por jovens, dado seu tom fantástico, que excita a imaginação. Ora, em lugar de uma palestra, o que se viu? Um concurso de contos. A partir da inspiração do Cadeiras, que mostra como o absurdo não existe, a realidade é mais absurda que ele, os alunos escreveram 67 contos incríveis. Disse a eles que eu assinaria qualquer um deles. Foi feito um volume, Carteiras Proibidas, que será editado como livro normal. Farei o prefácio.

Faço esta crônica para meus leitores normais, mas principalmente para professores, para dar coragem e dizer: tentem, mudem, avancem, acreditem na fantasia e na imaginação dos jovens, incentivem, arranquem o que eles têm dentro pronto a explodir. Eliminar repreensões, barreiras, cerceamentos. Na sequência, em Sorocaba, os alunos me entrevistaram, perguntaram tudo, inclusive passando pela ridícula "proibição" de Monteiro Lobato e pela polêmica que se estabeleceu em torno de meu conto Obscenidades Para Uma Dona de Casa, que está na antologia Os Cem Melhores Contos do Brasil, organizada por Ítalo Moriconi. Disse - como já tinha dito em Santo André, onde o conto encontrou resistência em uma parcela de professores e pais - que é lamentável que mentalidades inquisitoriais ainda subsistam em pleno 2010. O homem já foi à Lua, corações são transplantados, a vida humana vem sendo prolongada, a longevidade é cada dia mais extensa, a pílula anticoncepcional já existe, camisinhas são vendidas na caixa do supermercado, o mundo é globalizado, a internet está aí, o celular, o iPhone, o iPad, o iPod, o twitter, e há gente parada no tempo do ponto de vista da moral. Por que ainda há palavras que incomodam, sendo palavras da linguagem coloquial? Por que muitos pais não dialogam com os filhos para saber o que se passa em matéria de sexualidade? Por que os pais não dialogam com professores e autores? Por que atitudes hipócritas de censura, esta que foi o braço direito da ditadura, a arma de qualquer sistema totalitário de esquerda ou direita?

Nesses momentos me lembro de Érico Veríssimo em Solo de Clarineta, suas memórias: "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."

É bom quando a literatura é dada com liberdade, espontaneidade, amor, sem preconceitos. Assim ela será recebida. É triste quando se faz da literatura, mesmo que poética, falando da solidão, do tédio e da angústia, algo feio, sujo, pecaminoso, condenação ao fogo do inferno. E os prazeres onde ficam? Ainda bem que existem Lucianas e Marisas no Brasil e existem aos montes. Uso sem medo o lugar-comum: por meio delas, homenageio todos os professores e bibliotecários deste País.