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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mães costuram leitura para os filhos

Matéria publicada em 24/04/2011


Projeto-piloto em Arapiraca incentiva mulheres a produzir livros de pano para alunos de escolas públicas e creche

David Salsa
Repórter

Arapiraca (Sucursal) – O gosto pela leitura é incentivado cada vez mais cedo em Arapiraca. Um projeto-piloto está despertando nas mães dos alunos o amor pela leitura através de um ofício que a maior parte delas aprendeu com suas avós, a arte de costurar.

A iniciativa tem o objetivo de envolver as mães dos alunos com a produção de livros de panos e de materiais acessíveis às crianças que estudam nas escolas da rede municipal de ensino e, também das creches mantidas pela prefeitura.

As oficinas tiveram inicio no último mês de março, com a participação de 33 mães de alunos que estudam na Escola de Tempo Integral Zélia Barbosa Rocha, localizada no bairro Nova Esperança, na periferia da cidade.

No estabelecimento estudam cerca de 500 alunos e a idéia é que as mães das crianças aprendam a produzir os próprios livros.

ETAPAS

Nessa primeira etapa do projeto, duas educadoras-monitoras repassam os conhecimentos nas oficinas técnicas, enquanto uma contadora de estórias estimula a criatividade das alunas.

Como parte do trabalho, a prefeitura adquiriu três máquinas de costura e todo material, incluindo tecidos, linhas, agulhas e outros produtos necessários para a viabilização do projeto.

“Nossa proposta é incentivar a prática da leitura entre mães e alunos, com muita criatividade e imaginação, além, de , num futuro próximo, estimular a criação de uma cooperativa para a geração de renda com as mães que residem na comunidade”, revela a bibliotecária Wilma Nóbrega.

Ela também adianta que o projeto inclui a instalação de bebetecas em cada escola e nas creches, com o objetivo de estimular o gosto pela leitura em crianças de até cinco anos de idade.

Para Wilma Nóbrega, o projeto vai além do ato de costurar e produzir livros.

“ Essa iniciativa permite que as mães possam interagir com a educação de seus filhos e os filhos de outras pessoas, fortalecendo ainda mais o gosto pela leitura e, conseqüentemente, a qualidade do ensino e do aprendizado”, acrescenta.

À MÁQUINA

Arte da costura já está mudando histórias de vida em Arapiraca

A dona-de-casa Cicera Souza Moraes, 28, casada e mãe de um filho menor de nove anos, acredita que o projeto pode mudar a sua própria história.

Ela conta que, antes de fazer parte do projeto, sabia pouco da arte da costura. Cicera Souza Moraes também revela que os afazeres domésticos tomavam todo o seu tempo e não sobrava tempo para ler livros ou ouvir estórias.

“Agora, resolvi mudar a minha história. Estou aprendendo novidades e quero aproveitar essa oportunidade para fazer mais coisas e ganhar algum dinheiro com a arte da costura em livros e ajudar no sustento de minha família”, comenta a dona-de-casa.

Toda a produção de livros de pano, confeccionada pelas 33 mães da Escola Zélia Barbosa Rocha, será apresentada à sociedade de Arapiraca, no próximo sábado(30), em solenidade marcada para a Praça Luiz Pereira Lima, no centro da cidade.

Após o lançamento oficial do projeto, a idéia é levar a iniciativa para as outras sete escolas de tempo integral que funcionam na área urbana e, também, na zona rural do município.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A leitura pelas mãos da mãe

Pesquisa: estudo com 92% da população brasileira confirma que as mães são as grandes incentivadoras das crianças no processo de ler por prazer

Sammya Araújo
Desde muito se debate na mídia, na academia e nos governos políticas de fomento à leitura no Brasil, onde a média de aquisição de livros por pessoa ainda é pífia: apenas um exemplar por ano. Mas quem seria capaz de melhor incutir nas crianças e nos jovens tão proveitoso hábito? A solução é caseira: as mães. Um em cada três leitores brasileiros tem lembrança de suas mães lendo e 49% declararam que foram elas suas grandes incentivadoras no processo de ler por prazer. Entre os menores, de 5 a 10 anos de idade, o índice salta para 73%.

A importância da influência materna foi uma das conclusões da segunda edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pelo Instituto Pró-Livro, entidade fundada pelo setor livreiro, ao Ibope Inteligência. No final de 2007, foram estudados 92% da população, o equivalente a 172,7 milhões de pessoas.

Divulgado no ano passado, este é o maior levantamento sobre o assunto já feito por aqui: na primeira versão, em 2001/2002, foram ouvidos 49% dos brasileiros. Agora, Retratos... envolveu 34,7 milhões de crianças entre 5 e 13 anos e 51,5 milhões de pessoas com menos de três anos de escolaridade, faixas que ficaram de fora no levantamento anterior.

A socióloga Zoara Failla, gerente de Projetos do Pró-Livro e consultora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), participou da equipe técnica da pesquisa. É dela o capítulo “Os jovens, leitura e inclusão” da publicação em que foi organizada a Retratos da Leitura no Brasil. Zoara esteve em Campinas como uma das representantes da entidade durante o 17o Congresso de Leitura no Brasil (Cole).

Metrópole - Apesar dos índices ainda baixos e da ampliação do universo estudado, a pesquisa concluiu que houve aumento de leitores no Brasil.

Zoara Failla - Sim. Os leitores, considerados os que declararam ter lido ao menos um livro nos últimos três meses, passaram de 1,8% para 3,7% da população. Com todos os cuidados na análise proporcional, percebemos que houve, sim, um aumento importante.

E o que explicaria esse incremento positivo?

Nesse período, houve melhoria na escolaridade do brasileiro, o que está diretamente relacionado à frequência da leitura. Além, é claro, da política de incentivo a bibliotecas e distribuição de livros para o Ensino Médio. O melhor padrão de renda também pode estar contribuindo para isso. Mas o que percebemos é que os grandes motivadores não estão na escola. A mãe foi a figura mais citada e o pai ficou em terceiro. É dentro de casa que as crianças passam a gostar de livros.

Independentemente da escola?

A escola está em segundo lugar. Por um lado, isso preocupa, porque parece que a escola não está cumprindo seu papel de fomentar a leitura por prazer.

O papel das mães é primordial, então?

E precisa ser estimulado. Dizer às mães, “olha como é importante a sua participação, ler em casa, contar histórias para os seus filhos, presentear com livros.” Aliás, esse foi outro dado revelador: 80% dos leitores foram presenteados com livros na infância, contra 15% dos não-leitores.

Quando a senhora fala em apresentar livros para as crianças, não está se referindo a livros didáticos. Como a mãe pode categorizar que tipo de leitura é importante para formar o hábito?

A leitura nunca pode ser obrigatória. E o livro didático aparece, com exceção de alguns educadores que conseguem trabalhar isso de forma diferenciada, como tarefa. Então precisamos, principalmente, descobrir o que a criança e o adolescente gostam. Eles têm que ter livre escolha.

Como conduzir esse processo?

Você cativa alguém para algo mostrando como é gostoso, interessante. Há livros infantis maravilhosos, que a criançada adora folhear. Devemos possibilitar que elas lidem com aquelas imagens e mostrar que ali tem uma história, uma descoberta, que pode levar a um sonho, a uma fantasia. Se a mãe consegue entrar nesse mundo, com certeza vai fazer com que o filho sinta curiosidade para abrir aquele livro por si mesmo.

De que forma essa facilitação ocorre na frase pré-escolar? Pelo ato de contar histórias, pelo próprio exemplo dos pais manuseando livros...

Tudo isso. Contar histórias, porque a criança entra num reino de fantasia. Como referência, porque filhos imitam os pais. Tendo livros em casa, mostrando que são importantes. E criando jogos: pedir para a criança tentar descobrir o final da história, criar a sua versão. Introduzir aquilo em seu mundinho de brincadeiras.

Algumas obras infantis são muito caras. Há o crescimento das bibliotecas, mas o livro para a criança, como a senhora citou, é um companheiro de brincadeiras, que ela sente prazer em possuir. Como superar esse impasse?

Na verdade, as bibliotecas têm poucos livros infantis com riqueza de imagens. Mas hoje há livrarias que são verdadeiros shoppings e possibilitam que se manuseie os livros, que se leia... O desejo de ter o livro talvez até seja uma estratégia interessante para fazer com que a criança o valorize. Mas o mais importante é cativar pela história. E compre um que o seu poder aquisitivo permita.

Uma pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) apresentou recentemente uma tese defendendo o valor dos gibis na formação de leitores. Qual sua opinião?

Eu mesma aprendi a ler com gibis. Como disse antes, é importante cativar a criança com aquilo que ela gosta, e o gibi é uma forma mais lúdica de contar histórias. Possibilita principalmente que a criança perceba que é prazeroso ficar sozinha, lendo. Porque hoje elas têm muitas atividades e perderam momentos de introspecção, fundamentais para desenvolver a criatividade e despertar-lhes outras competências.

Por que a escola não consegue formar leitores perenes, que foi outra das conclusões da pesquisa?

É a obrigação, o desconsiderar a fase de leitura da criança. Você dá um Machado de Assis num momento errado. Pega uma obra belíssima e a transforma numa tarefa com questionários, em vez de permitir não só que o aluno escolha, mas interprete à sua maneira. Afinal, ele não é um crítico literário e tem que aprender a gostar primeiro. A escola peca nesse sentido. Mas já há discussão e vários cursos de formação nessa linha.

Por que ler é importante?

Além de pensar na literatura como um mundo de fantasia, de descoberta de outras culturas, de entrar no subjetivo de outras pessoas, não podemos esquecer que a leitura nos permite também acessar todo o conhecimento humano. É um mundo a ser revelado a partir de um protagonismo próprio.