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domingo, 6 de agosto de 2017

E viveram com livros para sempre. Como criar um leitor

Catarina Homem Marques   


De pequenino, torce-se o pepino e também se começa a gostar de livros. Basta que os pais leiam aos bebés – até receitas –, que a leitura se faça em família e que todos se deixem levar pelos livros.

Nem todas as histórias têm de ter um final feliz para serem bonitas, nem sequer as histórias que se contam às crianças, mas o final feliz para os pais que querem que os filhos leiam é que eles comecem mesmo a gostar de livros. E isso, já que não é uma capacidade que nasça com as crianças, é algo que se pode – e deve – trabalhar, como afirmam Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil do New York Times, num artigo cheio de dicas para as famílias.

Não é apenas um capricho – está mais do que comprovado que os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças, e que são também aliados saudáveis para a vida adulta. É por isso que se contar um conto deve mesmo acrescentar um ponto, e mais um ponto, e mais um ponto, até que a leitura seja um elemento de proximidade familiar, uma atividade enriquecedora para todos e, mais importante, um momento feliz.

Os bebés dormem, comem, choram… e gostam de livros


Há aquela imagem dos filmes em que uma mulher grávida embevecida põe os auscultadores em cima da barriga para o filho começar logo a ouvir música. E faz sentido. Os bebés reagem a estímulos sensoriais e esses estímulos contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades. O que significa que – embora o bebé possa não mostrar grande entusiasmo quando está a acontecer – também faz sentido que os pais leiam para os filhos desde as primeiras fraldas.

“Como não se nasce leitor, é necessário guiar e acompanhar a criança, ao longo do percurso, desde a descoberta do pré-leitor até à sedimentação da leitura. O mergulho progressivo nos livros constituirá, decerto, um desafio apetecível porque as crianças são, por natureza, curiosas e a curiosidade é motor das aprendizagens ao longo da vida”, explicam os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura ao Observador.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária." Álvaro Magalhães, autor de livros infantis

Nesta primeira fase, as boas notícias é que os pais nem sequer têm de ler histórias com sentido: podem ler o livro que já estavam a ler antes sobre a II Guerra Mundial, um manual de instruções para alguma máquina que estava a dar trabalho ou a receita de um bolo para o jantar. O importante é o som da voz dos pais, a cadência típica da leitura e que as palavras sejam dirigidas para o bebé.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor – tal como um escritor, ou um artista em geral – descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária. Segundo ela, cada um de nós traz no interior essa caixa de fósforos e, para acendê-los, é necessário um prato apetitoso, uma companhia agradável, uma canção, uma carícia, uma palavra. Mas a chispa varia de pessoa para pessoa, e cada um tem de descobrir os seus detonadores… a tempo, ou a caixa de fósforos humedece e nunca poderá acender um único fósforo”, diz Álvaro Magalhães, autor de dezenas de livros para crianças que já foi integrado na lista de honra do prémio internacional Hans Christian Andersen.

Os outros sentidos também podem ajudar nesta detonação. Mesmo que o bebé interrompa a leitura para puxar as páginas ou comece a fazer sons em resposta aos sons que está a ouvir, não faz mal. Este é o tipo de leitura em que os pais têm de estar disponíveis para a interrupção. E até há livros cheios de texturas que podem ajudar. Tal como ajuda ter tempo e paciência.

“O ouro da literatura sempre foi o tempo, e é cada vez mais isso. Por isso é que a nossa livraria é afastada de um local de passagem. Se é para virem até aqui, é mesmo para escapar à rotina. E se há uma obrigação que os pais têm, desde que os filhos são muito pequenos, é de cuidar da curiosidade dos filhos, e a leitura faz parte disso. Só que a leitura não se faz apenas sentado com um livro na mão. Tecnicamente, temos de transformar a leitura num jogo que se realiza em diferentes dimensões, que é um universo comum em que a palavra abre espaço para dança, música, movimento e tudo o que quisermos”, explica Mafalda Milhões, responsável pela livraria Bichinho de Conto, em Óbidos, a primeira que abriu em Portugal dedicada apenas ao livro infanto-juvenil.


© Getty Images/iStockphoto 

A leitura é para ocupar a casa toda. E a família.



Para criar um leitor é preciso ser um leitor. E isto não implica que o serão da família tenha de incluir sempre um debate profundo sobre literatura russa ou sobre poesia japonesa do século XIX. Acontece apenas que, ao partilhar leituras com as crianças desde cedo, ao tornar-se uma atividade que se faz em conjunto – o que acontece naturalmente quando as crianças ainda não sabem ler sozinhas –, os livros começam a ficar associados à voz dos pais e a um sentimento positivo de proximidade.

“Infelizmente, fala-se muito em leitura sem falar em comunicação. E nisso a família tem um poder que não tem a escola, é a melhor incubadora para um leitor, para abrir horizontes e fazer ligações”, diz Mafalda Milhões.

Há pequenos truques para ir expandindo esta sensação e para a prolongar nas diferentes fases de crescimento da criança: em vez de ler para a criança só à noite, antes de deitar, é importante arranjar tempo para ler em outras alturas do dia – e, milagre, isso vai fazer também com que a criança abrande; transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes – nem tem de ler sempre livros que deteste, nem a criança tem de gostar das caretas que os pais fazem ao ler e pode interromper a qualquer momento; não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria; ter livros espalhados pela casa, em vários sítios, que possam a qualquer momento transformar-se num ponto de interesse e num fator de distração; ir associando os livros e a leitura independente a um ato de maturidade – também dando o exemplo – sem provocar uma quebra abrupta na possibilidade de se continuar a fazer a leitura em conjunto.

“Há quem leia porque aos dez anos teve uma pneumonia e para matar as horas de aborrecimento não lhe ocorreu melhor coisa do que ler Stevenson. Até hoje. O curioso é que todas as pessoas, sejam ou não leitoras, podem falar da sua genealogia como leitores ou não-leitores, sempre com referência a uma contingência ou um mero acaso. Ou seja, o ato de ler não nasceu quase nunca de um ato puro de vontade ou da falta dessa vontade. Foi sempre a resposta a uma situação. Convém então repeti-lo: chega-se à leitura graças a um golpe de dados, quer dizer, a encontros e desencontros ocasionais”, explica Álvaro Magalhães.

Truques para incentivar a leitura nos mais novos

  • Ler em diferentes alturas do dia, para além da hora de deitar;
  • Transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes;
  • Não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria;
  • Ter livros espalhados pela casa.
E se os pais não são leitores, porque perderam o interesse pelos livros ou porque nunca encontraram esse golpe de dados, podem ser as crianças a servir de inspiração. “Há algumas famílias que não sabem mesmo fazer isto, mas podem aproveitar para seguir as crianças. Os pais têm de ter coragem para essa predisposição, para aprender isso com os filhos”, diz Mafalda Milhões. Uma ideia que Álvaro Magalhães completa: “No meu livro O Brincador há uma epígrafe que é todo um programa de vida, dois versos de Carlos Queiroz: ‘Menino que brincas no jardim / Tu sim, podias ser um Mestre de mim.’ Eles afirmam a minha fé numa inteligência infantil ainda não contaminada nem corrompida pelo mundo. Um dia perguntaram a Stanislavsky como se fazia teatro para crianças e ele respondeu: ‘Como se faz teatro para adultos, mas melhor’. É o que tento fazer, pois, tal como a concebo, a literatura para os mais novos é uma arte maior. Para comunicar com eles é preciso elevarmo-nos, e não o contrário – traduzirmo-nos, imbecilizarmo-nos, infantilizarmo-nos, que é o que mais se faz, infelizmente.”

Os livros também fazem coisas


Os livros fazem coisas. E não são só aqueles livros que têm pássaros que saltam em formato pop up, que emitem sons ou que servem, numa pilha, para levantar o monitor de um computador. Os livros são histórias, e são imagens, e levantam questões que se podem associar depois a outras actividades. “Se a criança gostou muito de um livro sobre animais, se calhar era divertido a seguir irem todos ao Jardim Zoológico com o livro”, exemplifica Mafalda Milhões.

Além disso, os livros são também uma desculpa para ir à livraria do bairro, ou para entrar numa biblioteca. Há cada vez mais atividades que se podem encontrar em diferentes livrarias: desde oficinas de ilustração, como aquelas que acontecem regularmente na It’s a Book, em Lisboa, a atividades pelo bairro ou oficinas de leitura entre avós e netos, como são comuns na Baobá, em Campo de Ourique, passando pela simples possibilidade de andar de baloiço ou ouvir uma história no grande quintal da Bichinho de Conto. É importante que a família fique atenta à agenda das livrarias nas proximidades ou tire um tempo para ir a uma que fique mais distante.

Na Bichinho de Conto, por exemplo, Mafalda Milhões sente que muitas vezes o espaço se transforma “no quintal da avó que muitas crianças já não têm isso”. “As crianças vêm aqui para ler, mas também para andar de baloiço, para brincar com as cabras, e isso tem tudo de literatura, não tem? Isto antes era só uma sensação que eu tinha, mas agora já é conhecimento técnico ao fim de muitos anos de trabalho: na leitura, o mais importante é a relação. Nós conhecemos os nossos leitores desde pequenos e agora vejo-os na faculdade e continuamos a fazer parte da vida uns dos outros.” É essa a relação que se pode criar com um livreiro, que pode ser importante a ajudar na escolha dos livros, e que se pode integrar nesta relação que se tem – ou não – com os livros.

“O PNL e outros programas institucionais da leitura só se preocupam com números e estatísticas. Do que precisamos é de leitores que contagiem leitores e sejam capazes de transmitir a sua paixão. Pequenas comunidades, círculos de leitura, clubes de leitores – que estão agora mais ativos com as redes sociais –, pessoas que partilhem e propaguem a sua paixão e a sua felicidade. Só quem verdadeiramente sente esse prazer e essa paixão a pode comunicar aos outros”, diz Álvaro Magalhães.

Outra coisa que os livros podem fazer é transformar-se numa prenda divertida para dar aos amigos que fazem anos, uma prenda que se pode escolher em família e que depois se pode aproveitar em conjunto com o aniversariante. E podem também ser uma coleção: as crianças gostam naturalmente de colecionar, e vão adorar ter uma prateleira ou uma estante só delas para irem arrumando os seus livros.

Quem tem medo dos livros maus?


Quem tem filhos pequenos e não tem uma música como “Despacito” em grande conta artística, já teve de morder a língua algumas vezes por ver como a criança dança ao ritmo do refrão e até já sabe alguns dos versos. Com os livros é um bocado a mesma coisa: se eles gostam de histórias com carrinhas que falam ou estão mais interessados em bandas-desenhadas da Marvel, não faz mal. Que atire a primeira pedra quem não começou com a Turma da Mônica antes de chegar a um Crime e Castigo.

Isto não significa que os pais não devem ir abrindo caminho para leituras diferentes, mostrando outras coisas, e que não devam – devem mesmo – gostar dos livros que estão a ler com os filhos ou a comprar para os filhos, mas também não devem ignorar ou diminuir os gostos da criança. E não devem ficar magoados se os filhos não mostrarem grande interesse por aquele clássico da literatura infantil que mudou a sua vida. Não é nada de pessoal.

“Não se conhece até à data que um livro da Patrulha Pata tenha feito mal a alguma criança. O que faz mal é se só houver isso. Claro que há narrativas mais inteligentes, mas é tudo uma questão de gramática de afetos. Pode ser um livro da Anita ou da Marvel, são livros que já formaram muitos leitores. O que é mesmo um erro é uma criança ler só livros e depois não ler as placas da cidade, não ler o que está no chão, não ler o que está no ar. A leitura tem é de estar em todo o lado e existir para muscular aquilo que é a nossa identidade”, acredita Mafalda Milhões.

Além disso, cada leitor é um leitor – caso contrário, todos os adultos tinham de adorar apenas o Ulisses ou Em Busca do Tempo Perdido. Com as crianças é igual. Algumas vão gostar mais de manga, outras vão preferir novelas gráficas, e há outras que só se vão interessar por não-ficção, ou seja, por aqueles livros sobre curiosidades científicas. E o que é bom é que é possível encontrar livros bons dentro de todos os géneros, e que normalmente essas fases evoluem para outras. Além de haver cada vez mais opções para garantir que se expõe as crianças à diversidade, e não apenas às histórias que confirmam aquilo que ela já sabe.

De acordo com o Plano Nacional de Leitura, esse é um dos trabalhos que cabe a um organismo estatal na altura de sugerir livros às escolas: “A sugestão de leituras do PNL assenta na ideia de que, sendo os gostos dos leitores, por natureza, muito díspares, a variedade de oferta tem de ser garantida. A diversidade permite orientar as escolhas e pautá-las por um grau progressivo de exigência. O PNL está consciente de que o mais importante e desejável é Ler+ e melhor, com competência e fluência, de todas as maneiras, em todos os suportes, tirando o máximo partido dessas leituras.”

Seja como for que se faz a lista, ou como se reúnem as sugestões de leitura, o importante é começar a virar as páginas. O resto vai acontecendo e vai seguindo para outros caminhos, como em qualquer boa história.

Fonte: Observador



quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Leitura deve ser estimulada desde cedo pela família e pela escola

Criado em 10/11/14 09h09 e atualizado em 10/11/14 10h48 
Fonte: Portal EBC
Crianças na escola

A contação de história é um recurso de estímulo recomendado até os 12 anos de idade  (sabrinak/ Creative Commons)

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pela Fundação Pró-Livro, em 2011, o número de leitores e a média anual de livros lidos por habitante vem diminuindo. Uma lei federal, que obriga todas as escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio a terem biblioteca até 2020, pode ser um primeiro passo para mudar essa perspectiva.
Segundo o pedagogo e professor universitário Marcus Garcia, a cultura pela leitura no Brasil nunca foi muito forte. "Comparados com nossos vizinhos latino-americanos, nós estamos no final da fila da cultura de leitura. Nós ficamos ao lado de países que têm um IDH muito inferior ao nosso quando se trata de avaliação de um país", compara. Apesar de a pouca leitura ser um problema cultural, o professor acredita que a aplicação da lei seja um bom começo para alterar este cenário.
Leia também:
Outro ponto importante de estímulo à leitura é a influência da família e da escola desde cedo. "A família tem o papel fundamental de gerar o primeiro exemplo, o primeiro contato com o universo da leitura. Ela é a principal responsável pela inserção da criança na realidade social e no contato com as coisas com as quais ela vai se desenvolver culturalmente. A escola, enquanto co-partícipe do processo de formação da criança, tem também a sua parcela de responsabilidade", opina Marcus, que recomenda a contação de histórias como importante estímulo para crianças até 12 anos.     
Para o pedagogo, a qualidade da informação em tempos tecnológicos, não contribui para o aumento da cultura da leitura. "As pessoas acabam se contaminando pela facilidade que as mídias hoje oferecem de entregar a informação pasteurizada, de entregar a informação através de rótulos. O indivíduo não busca uma leitura mais densa, consistente", acredita. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Leitura - Conselhos às famílias


  Faça da leitura um momento agradável no dia-a-dia da sua família   
 
1 - Incluir os livros no dia-a-dia das crianças
  • À noite quando as crianças já estão na cama, leia-lhes antes de adormecerem. Os livros acalmam e dão serenidade.
  • Aproveite alguns momentos de pausa ou de convívio para ler.
  • O momento do banho pode incluir livros de plástico ou de borracha.
2 - Tornar a leitura uma actividade divertida
  • As crianças pequenas gostam de descobrir as imagens e as histórias dos livros. E começam muito cedo a querer aprender a ler.
  • Faça das imagens e das histórias dos livros uma espécie de brinquedos. As crianças adoram descobrir imagens, letras palavras e adoram ouvir ler histórias.
  • Deixe a criança escolher o livro que quer ler consigo. Pode propor outros livros, mas não force. É importante que leia ou oiça ler com prazer.
3 - Guardar alguns minutos para ler
  • Reserve sempre alguns minutos do dia para ler, observar e conversar sobre os livros que a criança aprecia.
  • Torne os momentos de leitura alegres e carinhosos. O tempo passará a correr.
  • As crianças pequenas não aguentam muito tempo, quando está cansada ou desinteressada, não se deve forçar. À medida que as crianças vão crescendo passam a gostar de ver livros e ouvir ler histórias durante mais tempo.
 4 - Visitar as Bibliotecas
  • No nosso país as bibliotecas públicas são muito acolhedoras e estão cheias de livros interessantes, para todas as idades. Visite a que fica mais perto da sua casa, ou do seu local de trabalho. O atendimento é muito agradável e o empréstimo é gratuito!
  • Experimente ir com os seus filhos. Nas bibliotecas há sempre uma zona própria para crianças.
  • As bibliotecas escolares também emprestam livros para as crianças lerem em casa. Encoraje os seus filhos a usar mais a biblioteca da escola.
  • Requisite livros para ler em casa com os seus filhos. Vai ver que toda a família ficará cliente.
 5 - Oferecer livros às crianças
  • Habitue a criança a escolher um livro para dar aos amigos como presente.
  • Visite livrarias, supermercados e feiras do livro e deixe a criança mexer nos livros expostos. Valorize o livro e a leitura oferecendo livros aos seus filhos.
  • Convide-a a observar, folhear e escolher um ou alguns para levar para casa ou para oferecer.
Fonte: Plano Nacional de Leitura - Portugal

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A ajuda que vem do papel

Matéria publicada em 23/04/2012

E8-9 01 PJ
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para 
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para aliviar o sofrimento dos pequenos, o mercado editorial está investindo agora em livros de autoajuda infantil. Indicados para crianças a partir de 2 anos de idade, os livros do gênero se propõem a ajudar as crianças por meio de orientações sobre como lidar com problemas emocionais e de relacionamento.

Os autores buscam tratar de assuntos complexos, como a perda de um ente querido, a separação dos pais, a timidez, entre outros, de uma forma simples e atrativa. O gênero literário chega agora às salas de aula e causa polêmica.

Para a diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Neide Aquino Noffs, nada deveria superar o convívio e o apoio da família. “A melhor autoajuda infantil é o relacionamento interpessoal saudável. Deve existir uma relação familiar e escolar forte porque a criança está num mundo de 'faz de conta' e é muito complexo transformar essa fantasia em realidade”, ressalta ela.

A escritora e professora da UFG (Universidade Federal de Goiás), Diane Valdez também não vê com bons olhos esse tipo de literatura. Ela analisou a coleção de livros Se Liga em Você, assinada pelo Tio Gaspa que, na verdade, se chama Luiz Gasparetto.

Valdez diz que não gostou do que leu. “O erro começa já na proposta de identificar o autor como um tio. Ele não é tio, ele é autor. Nos livros, ele cria um personagem e diz coisas como 'você é seu melhor amigo' e chega ao ponto de afirmar que 'você não precisa de ninguém'. Na minha opinião, isso é pavoroso!”, considera.

Já Roberta Gazzarolli, coordenadora da Vida e Consciência, editora que publica os títulos do Tio Gaspa, acredita que a mensagem do livro foi mal interpretada pela escritora.
Para ela, o leitor tem que entender a metodologia de Gasparetto que, além de psicólogo, escritor e locutor, também é médium e trabalha com muitas questões ligadas à espiritualidade.
“É tudo voltado para o ser, mas não de modo egoísta, não é isso! É trabalhar primeiro você, ser amigo de você mesmo. Aí você consegue entender melhor os teus problemas e o nível de depressão é muito menor porque você sabe quem você é! Isso começa por você, ninguém pode fazer por você e é essa mensagem que o autor tenta passar. Não é que você não precisa de ninguém”, defende.

Para Roberta, as crianças de hoje tê não só a capacidade de digerir a informação presente nos livros de autoajuda infantil, mas também precisam desse conteúdo.

“Um adulto depressivo começa na infância. Hoje temos crianças também depressivas e precisamos aprender a lidar com essas questões desde cedo. Essa geração de hoje é mais consciente, mais evoluída. As crianças de 6 anos hoje são completamente diferentes das de 50 anos atrás. Hoje elas estão recebendo muito mais comunicação externa e processando isso muito mais rapidamente”, argumenta ela.

A coordenadora destaca também que os livros da coleção não são “educacionais”, mas que isso não impede que eles sejam trabalhados em sala de aula. “Eu acho isso importante porque desde cedo você aprende dentro da escola. O pai vê a escola e o professor como referências e se esse professor consegue ensinar esse tipo de conteúdo, ele está fazendo o seu papel de educador, pois a criança vai crescer bem orientada”, ressalta.
Participação familiar
 
Ainda assim, a escritora Diane Valdez se mostra desanimada com o crescimento nas vendas das publicações do gênero. Como não tem como fugir do boom editorial, o importante, para ela, é a presença do adulto na seleção dessas leituras.

A professora de Literatura do Colégio Anglo de Campinas, Claudine Faleiro Gill, concorda que a escola tem um papel fundamental nessa questão. “Não adianta colocar o livro de autoajuda nas mãos da criança e falar: 'lê e aprende a viver'; tem que haver mediação. E a escola tem um papel importante, especialmente porque há um excesso de lançamentos nessa área”, esclarece Claudine.

A professora alerta também para o fato de que os pais têm imputado a esses livros uma responsabilidade que é deles. “Tem pais que delegam aos livros de autoajuda o papel de conversar com a criança, mas nós vemos isso como um problema, pois sentimos nessa carência de discutir temas polêmicos, que elas têm uma liberdade com os professores da escola que não encontram em casa”.

Claudine ministra aulas para turmas do 6° ao 8° ano do Ensino Fundamental e tem inserido alguns textos de autoajuda em sua disciplina. Para ela, a literatura não tem a função de educar e ela não tem efeito imediato. “Ninguém aprende na primeira lição, é a vivência que ensina. Mas o que foi lido fica no inconsciente da criança e, com o tempo, ela vai incorporando isso no dia a dia”, defende.

Foi assim com a aluna do 6° ano, Mariana Garcia Lacerda, 10. Ela gosta de todo tipo de literatura, mas afirma que aprendeu a se relacionar melhor em casa e na escola a partir do momento em que começou a ler os livros de autoajuda. “Eu aprendi com ele (o livro) que nós não podemos mandar nas pessoas; elas não gostam disso”, explica.

Entrevista
O sofrimento é um bom professor
Para Yvanna Samert, psicóloga clínica da UnB (Universidade de Brasília), os livros de autoajuda somam no desenvolvimento emocional da criança, mas eles devem ser adotados como um recurso complementar, pois o sofrimento está presente em todas as fases da vida e, por isso, não deve ser eliminado, mas apreendido
Qual o papel do sofrimento na infância?
O sofrimento faz parte da vida, não tem como evitar. É ele que nos faz querer avançar, que nos ensina a resolver os problemas, ter motivação para seguir em frente. Ele é uma coisa necessária que faz crianças e adultos evoluírem como pessoas.
Muitos pais e escolas têm adotado livros de autoajuda infantil para tentar amenizar o sofrimento dos pequenos. Para a senhora, essa é uma alternativa válida?
São recursos úteis para trabalhar questões importantes para o desenvolvimento emocional da criança. É relevante como forma de ensinar a criança a lidar com os problemas do dia a dia, com as próprias emoções, mas ela sozinha com o livro não produz tão bem quanto quando está com o adulto que conversa sobre aquilo. Mais importante do que o conteúdo do livro é a forma como ele é utilizado. Então ele não pode ser considerado um recurso isolado, tem que ser associado a muitos outros para favorecer o desenvolvimento da criança.
Antes a literatura, através de metáforas, trabalhava diversas questões emocionais e até morais em sala de aula. Agora, muitas escolas tem inserido na disciplina de literatura os livros de autoajuda que trazem um outro tipo de linguagem, mais simples e direta. Essa mudança é favorável?
Depende muito do caso. Não dá para substituir a psicoterapia pelos livros de autoajuda nem para as crianças nem para os adultos. Os livros sozinhos não trazem o benefício que eles podem trazer sem o olhar do pedagogo. Acho que mesmo essas crianças que não têm nenhum problema emocional diagnosticado podem se beneficiar desse conhecimento. Eu não acho que seja prudente retirar um livro de literatura convencional e substituir por outro de autoajuda. Os livros de autoajuda devem somar e não subtrair.
E de que forma podem somar?
Eles podem somar em situações onde a escola ou os responsáveis pelo aluno identifiquem que algumas crianças estão com dificuldades. Acredito que esses livros trazem conhecimento que somam com o tradicional e por isso acho que podem somar no planejamento pedagógico da escola.
Como a família e a escola podem ajudar a criança a superar o sofrimento?
Elas devem lidar com a situação com todo o respeito que a criança merece. Não seria correto tentar eliminar todo o sofrimento da criança, embora essa seja uma estratégia que vem acontecendo. Hoje ninguém quer mais sofrer; muitos querem tomar remédio ou fazer cirurgia para parar de sofrer, mas isso não vai acontecer porque o sofrimento faz parte da vida.
Como fazer isso na prática?
Nós temos que fornecer apoio para a criança. Temos que explicar para ela o que está acontecendo, conversar sobre quanto tempo isso vai durar, como isso vai passar e o que se aprende a partir desse sofrimento, já que o sofrimento, em si, é impossível de eliminar. O único jeito disso acontecer é morrendo e muitas pessoas acreditam que essa é a saída e por isso buscam o suicídio. Nós não podemos ensinar isso para a criança; temos que ensinar que o sofrimento existe e que, a partir dele, nós aprendemos outras coisas. Então o respeito à dor e ao sofrimento da criança passa a ser um aprendizado diante do sofrimento. Para mim, essa é a maneira mais adequada da escola e do pais lidarem com o sofrimento delas.
E quando é preciso procurar a psicoterapia?
Isso pode ser feito preventivamente, antes de uma coisa mais grave acontecer. Como, por exemplo, quando os pais percebem que vão se separar ou quando tem alguém com alguma doença grave na família. A busca pela psicoterapia vai depender muito da capacidade dos pais e da escola em serem sensíveis às necessidades da criança. Algumas crianças lidam muito bem com esses acontecimentos em suas vidas e não tem grandes mudanças comportamentais. Nesses casos, onde não tem grandes prejuízos observados na vida da criança, não há necessidade de psicoterapia. Mas existem muitos outros casos em que a família fica tão desestabilizada que não consegue dar atenção às necessidades da criança e é nessa hora que a psicoterapia pode ajudar orientando a família, a escola e dando o apoio necessário à própria criança.
Fonte: Suplemento Escola/ Tribuna do Planalto -Thaís Lobo Estagiária convênio Tribuna/PUC-GO

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Papel da famíla enquanto mediadora de leitura



Há algum tempo publiquei uma postagem destacando O Papel do Professor enquanto mediador da leitura. Acontece que não é responsabilidade apenas da escola a formação de leitores. Os pais, ou melhor a família, são ótimos e importantes incentivadores para esta prática, tanto a partir do estímulo, quanto pelo seu exemplo.

Convém aos familiares:

  1. Propiciar o acesso aos livros;
  2. Oferecer o exemplo;
  3. Ter entusiasmo;
  4. Presentear com livros e não apenas com brinquedos;
  5. Buscar contextualizar a leitura;
  6. Estimular visitas a bibliotecas, exposições e projetos sociais que envolvam livros e leitura;
  7. Trabalhar as próprias aptidões de leitor;
  8. Pensar, refletir sobre a escolha dos livros;
  9. Buscar motivação pessoal e motivar os jovens leitores;
  10. Tratar as leituras com progressividade, mostrando novos temas, novas situações e novos estilos;
  11. Ter uma atitude positiva com escritores, educadores e leitores – um comentário negativo a respeito de alguma obra ou autor pode gerar um preconceito;
  12. Não subestimar a capacidade, nem o interesse das crianças para a leitura.

O que é desaconselhável fazer

  1. Reforçar para as crianças o fato delas não gostarem de ler;
  2. Obrigar a ler – não obrigue o gosto do outro, mostre o seu entusiasmo de leitor;
  3. Mandar ler um livro que não agrada – cada idade tem um amadurecimento, um despertar, mesmo sem entrar no critério do gosto;
  4. Exigir que o livro seja lido por inteiro – incentivar a mudar de leitura;
  5. Deixar a criança só com o livro – este pode ser para ela um objeto aparentemente hostil que exige um esforço excessivo;
  6. Contar todos os delhates do livro – deixar o livro falar por si só;
  7. Transformar o livro em dever de casa – o que o vincularia a uma obrigação;
  8. Transformar o livro num instrumento acadêmico – faz com que o livro perca o encantamento e o mistério, tornando-se uma mera ferramenta;
  9. Obrigar a comentar o livro lido – tem que ser espontâneo e prazeiroso;
  10. Utilizar o livro como instrumento de coerção – usá-lo como castigo, ameaça por tarefas não cumpridas.
Aprofunde-se mais em 

SOBRINO, Javier García (org.), et. al. A criança o livro: A aventura de ler, Portugal: Porto Editora, 2000.

Fonte: Livros e Afins

domingo, 26 de dezembro de 2010

Família é fundamental na criação do hábito de ler

Mariana Mandelli - O Estado de S. Paulo
Publicada em 13 de dezembro de 2010

Os educadores afirmam que o segredo para despertar o gosto pelos livros nas crianças e jovens está muito mais no comportamento dos pais que nas orientações da escola.

Foto: Evelson de Freitas/AE
Irmãos. Dora está sempre conectada e Paulo adora ler


“Os pais devem ler junto com os filhos, mantendo o canal de comunicação aberto, sem censurar o que as crianças querem ler”, aconselha José Manuel Moran, diretor de Educação a Distância da Anhanguera Educacional e professor aposentado da ECA-USP.

“Ler mostrando o quanto isso pode ser gostoso deve ser encarado como uma tarefa pelos pais”, opina Teresa Ferreira, psicopedagoga da Unifesp. “É mais fácil despertar o gosto pela leitura no jovem dessa forma do que pela imposição que a escola e os vestibulares fazem.”

A importância de incentivarem a leitura formal em casa decorre principalmente do fato de que, hoje, desde muito cedo, as crianças já têm contato com o computador. “Atualmente, os brinquedos são quase todos eletrônicos. Poucos são pedagógicos”, aponta Sylvia van Enck, psicóloga do Programa de Dependência da Internet do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti) da USP.

Os livros sempre entraram na casa dos irmãos Dora e Paulo Galvão Amaral, de 14 e 11 anos, respectivamente. Dora passa cerca de três horas por dia na internet e gosta de ler, mas acaba tendo mais contato com as obras que a escola indica. “Se não for livro obrigatório, só vou até o fim se a história me cativar”, conta.

Paulo é um aficionado por letras. “Li duas coleções de livros neste ano e muitos gibis. Também gosto de ler jornal, principalmente quando meu pai me mostra alguma matéria legal de ciências”, conta. “Minha mãe sempre incentivou a gente a ler. É só eu comentar que quero tal livro que ela aparece com ele.”

Adaptações. O dilema entre barrar o uso das novas tecnologias – para evitar distrações – e usufruir das possibilidades digitais já assola o cotidiano das escolas. No Colégio Santo Américo, na zona sul paulista, a direção vai proibir o celular na sala de aula em 2011 – antes a orientação era de não usar. “Percebemos alguns abusos”, conta Cesar Pazinatto, coordenador do ensino fundamental II. “É complicado lidar com tudo isso, porque as novas tecnologias têm um potencial enorme para ser explorado em classe.”

Para o professor da área de educação e ciência da computação da Universidade de Stanford,Paulo Blikstein, o grande desafio da escola é a motivação. “É preciso direcionar o aprendizado para coisas interessantes. Aí entra o papel dos pais e professores: apontar obras e criar condições para que os alunos se interessem de forma genuína”, afirma. “Conversar com amigos pelo celular é ótimo, mas isso não vai necessariamente levar ninguém a ler Machado de Assis.”

REALIDADE

“A internet não foi planejada para ajudar na concentração. Mas a solução não é proibir as crianças de usar o chat e o Facebook.” Paulo Bliksten, professor de Stanford

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Leia para seu filho

Essa brincadeira gostosa, que estreita os laços familiares, também ajuda no desenvolvimento pedagógico e psicológico da criança e deve ser encarada com seriedade

Texto: Camila Carvas - 09/08/2010

Ouvir e contar histórias relaxa, aumenta o vocabulário,
melhora a dicção, desenvolve a criatividade
 e o raciocínio lógico nas crianças
"Era uma vez" é o começo de uma história que pode fazer toda a diferença no desenvolvimento infantil. Quando papai e mamãe - professores e até irmãos mais velhos - se sentam com os pequenos para ler um livro ou contar uma historinha, mais do que um mundo encantado de fantasia, eles estão descortinando uma verdadeira experiência de aprendizado. Para completar, essa aula ainda pode ser transformada em momento de intimidade e amor familiar que, muitas vezes, se perde em meio ao caos do dia a dia. Mas, como toda brincadeira de criança, a "contação" é coisa séria.

Ao lado de bonecas e carrinhos, ela funciona como um mediador da relação entre a meninada, os adultos e o mundo. E, apesar da sua importância pedagógica e psicológica, deve ser mantida sempre no campo da arte, e não no do exame, como é comum acontecer na escola. A atividade deve ser lúdica e divertida, sem imposições, cobranças, tarefas ou castigos. "Tudo o que é feito com e para as crianças precisa ser envolvente e realizado com afeto", diz Christine Fontelles, responsável pelo Programa Ler é Preciso, do Instituto Ecofuturo. Não há motivos, então, para ser diferente com as histórias.

Contar e ler um relato deve ser algo prazeroso. É por meio dessas atividades, e do contato com o imaginário e com a ficção, que meninos e meninas descobrem e expressam sentimentos que não conheciam ou ainda não eram capazes de compreender. "Devido ao próprio estágio de desenvolvimento, as crianças não possuem muitos recursos para administrar esse lado emocional", conta a psiquiatra Marisol Montero Sendin, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Como a linguagem verbal ainda é incipiente, a forma natural de expressão são a imagem, o jogo e o faz de conta. "Na falta de outras possibilidades, a dificuldade de lidar com as emoções se manifestará por meio da agressividade, problemas de aprendizado, de sono ou alimentares", diz Marisol. Enquanto os personagens enfrentam coisas estranhas, a garotada tem contato com o medo, o ciúme e o luto. Em um diálogo interno, adquirem conceitos e vivenciam experiências valiosas. Cada conto que a criança conta contribui para a construção de um autorretrato para o qual ela pode olhar, pensar e mudar.

O famoso "senta que lá vem história" não tem momento certo ou idade mínima para começar. A paulistana Laura Volponi Medeiros, de 2 anos e meio, já era uma ouvinte atenta mesmo antes de nascer. "Quando estava grávida de Laura, minha mulher se sentava na cadeira e, enquanto na morava a barriga, lia um monte de livros", conta o pai da menina, o vendedor Wellington Medeiros, de 32 anos. Hoje, mesmo sem ter sido alfabetizada, a menina adora "ler". Nos semáforos, sempre que possível pede para Medeiros pegar jornais gratuitos e propagandas e os folheia do alto de sua cadeirinha de segurança.

Como uma esponja, a criança tende a absorver tudo que os adultos ao seu redor fazem. É assim que ela aprende, por imitação e repetição.

Portanto, se os pais leem, as chances de os filhos se tornarem leitores é enorme. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, uma associação sem fins lucrativos cuja missão é fomentar a leitura e a difusão de livros, revela que um em cada três leitores brasileiros se lembra de ter visto a mãe lendo alguma coisa. O levantamento mostra também que 49% do público adulto considerado leitor, ou seja, que leu pelo menos um livro nos últimos três meses, se refere à figura materna como a pessoa que mais o incentivou. Entre garotos e garotas, esse número sobe para 73%. Mas os pais também têm um papel de destaque nesse cenário. Afinal, 30% dos leitores os consideram como maiores responsáveis por incutir neles o prazer de conjugar o verbo ler.


Por falar em verbos, não importa se se trata de ler ou de contar histórias, ambos desenvolvem a criatividade, a imaginação e o raciocínio lógico da meninada. Estudos indicam, inclusive, que a leitura em voz alta na primeira infância melhora o desempenho escolar. Permitir que os pequenos inventem novos finais deixa a brincadeira ainda mais estimulante. "Aqui no Brasil, onde os livros infantis são muito caros, vale recortar figuras de jornal e revista, fazer colagens, pintar com o dedo e criar sua própria obra", sugere Maria Ângela Barbato Carneiro, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O mais importante é a interação: ao desenhar, modelar ou recontar uma história, a criança põe para fora fatos do seu próprio mundo.
 
Para os pequeninos, comprar livros de plástico, que possam ser usados até no banho, ou mesmo mordidos, é uma boa sugestão. Os de pano, laváveis à máquina, também são interessantes. "Os livros têm que ser de posse", explica Maria Ângela. "Deve-se ensinar à criança que é preciso tomar cuidado com eles, que não se pode rasgá-los, mas sem impor nenhum tipo de obstáculo a seu acesso", explica. Quando ela estiver cansada e dispersa, por exemplo, é possível contar uma história em capítulos, como nas novelas. Assim, no dia seguinte, continuará curiosa e disposta a ouvir um pouco mais.
 
Outra estratégia é guardar os livros junto com os brinquedos. Na casa da Laura, nossa futura leitora, os livros estão todos ao seu alcance. "Ela mesma escolhe e pega a história que quer ouvir", diz Wellington Medeiros. A literatura também pode colaborar no tratamento de traumas, doenças e dificuldades psicoemocionais (veja o quadro à esquerda). No final das contas, isso ajuda a melhorar a imunidade e até a cicatrização. Ler ou ouvir histórias traz benefícios ao corpo e à mente infantis. Fim!
 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Biblioteca investe na parceria da escola com as famílias e conquista leitores

Ao invés de frequentadores passivos, leitores criativos e que vestem a camisa da biblioteca. Esse sonho, embalado aberta ou veladamente por todo bibliotecário escolar, tem sido uma conquista gratificante para a bibliotecária Tânia Garcia, em seu trabalho na Biblioteca Infantil Miriam Mangelli, da escola Professor Jairo Grossi, em Caratinga, Minas Gerais, onde os 360 alunos alcançam uma média anual que supera os 30 mil empréstimos.

“É muito explícita a diferença do que se pode conseguir por meio do carinho, da dedicação e da parceria entre escola e família, realizando um trabalho em sintonia também com a direção da escola”, avalia Tânia, ao descrever sua alegria ao ver “no rostinho de cada criança o prazer de estar em contato com os livros, a magia das novas descobertas, a sede de aprender e principalmente o desenvolvimento delas neste grande laboratório chamado escola”.

Graduada pela Escola de Biblioteconomia de Formiga, Minas Gerais, em 1984, Tânia Garcia (CRB 6 1089) reside em Caratinga desde 1985, onde trabalha também na FUNEC, mantenedora do Centro Universitário de Caratinga (UNEC).

Ela conta que seu primeiro objetivo foi transformar a biblioteca em um lugar agradável, divertido e colorido. “Lembro que o meu primeiro painel dizia 'Biblioteca, lugar de ser feliz'. Isso tinha o intuito de tirar as amarras, pois precisamos parar de impor silêncio. As crianças querem se expressar, perguntar, viver as histórias no teatrinho de fantoches improvisado a cada visita”, relata.

Um dos projetos desenvolvidos por Tânia é o de brindes de materiais reciclados, que consiste em confeccionar e
distribuir brinquedinhos, fazer tatuagens, desenhos, minilivros. “Isso faz com que as crianças sintam que são bemvindas”, afirma. Assim, segundo ela, logo se interessam pelos livros, que a cada dias estão mais atrativos.

O trabalho com os pais dá sequência à tarefa de conquistas os novos leitores. “Através dos empréstimos domiciliares, e com a finalidade resgatar o hábito de contar histórias, desenvolvemos o projeto Leitura em família, um carinho a mais, que consta de uma bolsinha com livro selecionado e uma apostila com atividade de interpretação, desenhos e o ponto que considero o clímax do projeto, que é a pergunta 'O que aprendi com este livro'. O projeto é adaptado para alunos do maternal ao 5º ano”, explica a bibliotecária.

Para continuar motivando a frequência, ela utiliza também os projetos Leitor destaque, Campeões de leitura, Artistas da semana (que consiste em expor desenhos realizados na biblioteca ou mesmo em casa) e Hora do conto, além de teatrinhos de fantoches, teatro improvisado pelos alunos durante a aula de literatura, pesquisas feitas pelos alunos do 3º ao 5º anos. Nesse caso, na hora do recreio, os alunos, usam fantasias para divulgar trabalhos realizados na biblioteca.

Para motivar o respeito e os bons hábitos dentro da biblioteca, Tânia implantou também os projetos Bibliotecário
do dia e Montagem do regulamento da biblioteca. No primeiro, as salas da educação infantil recebem duas viseiras que são usadas pelos alunos são responsáveis por ajudar na organização do acervo após a visita da sala. No Montagem do regulamento da biblioteca, alunos das séries mais adiantadas visitam as salas da educação infantil, também devidamente fantasiados, e fazem duas perguntas básicas: “O que pode e o que não pode fazer na biblioteca?” Com base nas respostas, é montado o regulamento anual.

“Para motivar redação e o gosto pela arte desenvolvemos diversos projetos, como o Utilizando a poesia Convite de José Paulo Paes onde trocamos poesias por pirulitos e também fazemos a exposição dos trabalhos realizados”, conta a bibliotecária, ao citar também o Projeto escritor mirim para alunos do 2º ao 5ª ano – concurso em que o aluno redige um livro com o tema sugerido pela biblioteca, e são selecionados três ganhadores, que recebem cestas de chocolates e publicação dos livros. “Eles também têm direito à promoção da tarde de autógrafos, onde distribuímos os livros gratuitamente para todos os alunos e funcionários da escola, e para os familiares dos escritores. Este ano levaremos a distribuição desses livros gratuitamente para a praça da
cidade, com o objetivo de divulgar o nosso trabalho e motivar a leitura e a escrita na comunidade caratinguense”, diz Tânia Garcia.

O Projeto ilustrador mirim também é um concurso que seleciona os três melhores trabalhos, com direto a prêmios e divulgação dos desenhos. Já o projeto Recadinho do coração tem por objetivo motivar a frequência à biblioteca, bem como a redação ea troca de carinho entre pais, filhos, professores, alunos, funcionários e colegas. “Todos esses são projetos desenvolvidos pela biblioteca, mas temos muitos outros desenvolvidos pelos professores, com a finalidade de motivar a leitura, como o passaporte do leitor, resumo de obras, apresentação teatral, onde eles apresentam para os familiares, geralmente no sábado à tarde, apresentação de obras, jornal literário e indicação de obras”, destaca a bibliotecária.

“Quero deixar registrado que não conheço um método para criar o hábito da leitura, e creio que o verbo 'ler' nunca deve ser usado no imperativo. O que acredito é na motivação e no acompanhamento por parte dos professores, bibliotecários e principalmente da família para despertar esse estímulo. O carinho e o hábito de contar histórias desde muito cedo vai fazer toda a diferença na formação dos futuros leitores”, comenta Tânia Garcia, que destaca seu agradecimento pelo envolvimento da direção da escola onde trabalha. “Nossa principal atividade, como bibliotecários, é o atendimento aos nossos clientes, que são o principal objetivo da existência e sucesso de qualquer empreendimento. Tenho sempre em mente o nosso poeta maior Carlos Drummond de Andrade: 'O leitor é o meu objetivo... para cada leitor existe um livro e para cada livro encontrarei o seu leitor'.“

Matéria publicada em 17/07/2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Leitura - 5 conselhos às famílias

Faça da leitura um momento agradável no dia-a-dia da sua família

1 - Incluir os livros no dia-a-dia das crianças

•À noite quando as crianças já estão na cama, leia-lhes antes de adormecerem. Os livros acalmam e dão serenidade.
•Aproveite alguns momentos de pausa ou de convívio para ler.
•O momento do banho pode incluir livros de plástico ou de borracha.

2 - Tornar a leitura uma atividade divertida

•As crianças pequenas gostam de descobrir as imagens e as histórias dos livros. E começam muito cedo a querer aprender a ler.
•Faça das imagens e das histórias dos livros uma espécie de brinquedos. As crianças adoram descobrir imagens, letras palavras e adoram ouvir ler histórias.
•Deixe a criança escolher o livro que quer ler consigo. Pode propor outros livros, mas não force. É importante que leia ou ouça com prazer.

3 - Guardar alguns minutos para ler

•Reserve sempre alguns minutos do dia para ler, observar e conversar sobre os livros que a criança aprecia.
•Torne os momentos de leitura alegres e carinhosos. O tempo passará a correr.
•As crianças pequenas não aguentam muito tempo, quando está cansada ou desinteressada, não se deve forçar. À medida que as crianças vão crescendo passam a gostar de ver livros e ouvir ler histórias durante mais tempo.

4 - Visitar as Bibliotecas

•No nosso país as bibliotecas públicas são muito acolhedoras e estão cheias de livros interessantes, para todas as idades. Visite a que fica mais perto da sua casa, ou do seu local de trabalho. O atendimento é muito agradável e o empréstimo é gratuito!
•Experimente ir com os seus filhos. Nas bibliotecas há sempre uma área própria para crianças.
•As bibliotecas escolares também emprestam livros para as crianças lerem em casa. Encoraje os seus filhos a usar mais a biblioteca da escola.
•Requisite livros para ler em casa com os seus filhos. Vai ver que toda a família ficará cliente.

5 - Oferecer livros às crianças

•Habitue a criança a escolher um livro para dar aos amigos como presente.
•Visite livrarias, supermercados e feiras do livro e deixe a criança mexer nos livros expostos. Valorize o livro e a leitura oferecendo livros aos seus filhos.
•Convide-a a observar, folhear e escolher um ou alguns para levar para casa ou para oferecer.

terça-feira, 1 de junho de 2010

A prática da leitura começa em casa

Aline B. Simoni Belleboni

Ler é viajar para mundos desconhecidos, descobrir o que antes era mistério, fantasiar, deixar a imaginação aflorar dentro do texto. Enquanto lemos, vivemos uma experiência valiosa. A mente humana, que possui funções importantes como a memória, o raciocínio, e a atenção, permite que possamos experienciar tudo o que o simples prazer de ler proporciona.

Pensando nisso, torna-se importante que pais e familiares permitam o acesso a materiais diversos em casa a fim de propiciar a leitura de filhos pequenos. A família é fundamental na formação de bons leitores. A escola participa, sem dúvida ativamente do processo de leitura, mas quem certamente forma um leitor é a sua própria família. Na família, as relações sociais, são espontâneas, partilhadas de emoções, valores e crenças experimentados por todos que dela fazem parte. Pais, tios, avós, irmãos têm histórias de vida partilhadas em conjunto e exercem forte influência sobre os filhos, desde pequenos, principalmente por suas atitudes e práticas em diferentes situações. A escola atua como coadjuvante, parceira da família, propondo, sugerindo idéias, aconselhando, mas ela não substitui os valores que são passados por cada família.

A forma como a família e a escola, desde o princípio, colaboram para a prática da leitura marcará o futuro intelectual do indivíduo nos demais anos escolares. Residências aonde o jornal chega diariamente, pais que compram livros para seus filhos e discutem sobre o texto lido, com freqüência têm mais chances de ter filhos responsáveis bem sucedidos profissionalmente. Desde muito pequena a criança deve ser estimulada diariamente a prática da leitura. Se a família considerar importante o valor desta prática, vai obter como resultado bons leitores.

Ler para seus filhos é uma prática maravilhosa! Além do prazer de estarem juntos, estarão realizando algo educativo. Opções não faltam para quem se dispõe a contribuir para a formação leitora de seus filhos. Histórias em quadrinhos, poesias, piadas, notícias de jornal, dicionários, cartas, letras de música, livros de receitas, enfim...muitas são as opções!

Cada leitura realizada seja ela de jornais, revistas, livros, cartilhas, embalagens, placas na rua, entre outros, tem a sua importância e contribui para o crescimento intelectual do indivíduo. Ele vai amadurecer, elaborar projetos de estudo/trabalho, interessar-se cada vez mais por diferentes assuntos e vai construindo sua personalidade e formando seu caráter.

Para os pais, propiciar que o filho se torne um bom leitor é pensar no seu futuro, no seu modo de crescer. Quando ele sair da escola, será mais do que nunca um membro efetivo de uma sociedade, que discute, opina, luta. Vai atuar na profissão escolhida, e exercer seus deveres e direitos de cidadão.

Aline B. Simoni Belleboni - Fonoaudióloga graduada pela Ulbra / RS; Especialista em Linguagem ênfase Fonoaudiologia Escolar pelo Ipa / RS; Especializanda em Psicopedagogia Clínica e Institucional pelo La Salle / RS


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Escola e família: parceria na formação de leitores autônomos

Um dos principais objetivos da Escola da Ilha é contribuir para a formação de leitores autônomos. Sabemos que as práticas que geram o gosto pela leitura têm início antes da chegada da criança à escola e vão além do tempo que ela passa na escola. Entretanto, temos clareza da importância das ações desenvolvidas pela instituição escolar com relação ao ensino da leitura e ao gosto pela leitura.
Por isso, listamos algumas das atividades mais presentes no cotidiano dos nossos alunos e outras que poderão ser vivenciadas em casa ou ainda desenvolvidas em parceria entre a escola e a família:

» Garantia de horário de leitura em sala, na biblioteca ou em casa (todos lendo, sem cobrança de atividades relacionadas, mas com espaço para comentar as leituras feitas);

» Ciranda de livros com títulos propostos pelos professores;

» Ciranda de livros com livros trazidos pelos alunos;

» Leitura de livros feita pelo professor ou pelo colega;

*Leitura de livros por capítulos;

*Projetos literários com atividades diferenciadas dentro da temática do livro lido;

*Rodas de conversa sobre um livro lido por todos os alunos;

*Leitura de reportagens interessantes;

*Leitura de textos científicos (relacionados aos projetos ou conforme os interesses dos alunos);

*Oficina de poesia;

*Oficina de escrita e reescrita de textos;

*Leitura na biblioteca da escola;

*Contação de histórias;

*Reconto de histórias;

*Escolha de livro para empréstimo;

*Comentários (propagandas) sobre livros lidos, que estimulem o desejo de ler;

*Fazer um resumo do livro lido;

*Ler para a criança, quando possível, causar suspense, dramatizar, aguçar a curiosidade;

*Ler com a criança fazendo um rodízio (o adulto lê uma página e a criança outra);

*Ler sobre temas estudados;

*Ler notícias de jornais, enfatizando a parte cultural;

*Ouvir a leitura feita por outros leitores;

*Freqüentar bibliotecas, museus e galerias de arte;

*Freqüentar cinemas, teatros, eventos culturais e ler nos jornais notícias e críticas relacionadas;

*Freqüentar livrarias para conferir lançamentos, ler e comprar livros;

*Contar para os alunos/filhos experiências pessoais com a leitura vividas na infância e na adolescência;

*Deixar livros à disposição das crianças (mini-biblioteca);

*Assinar e/ou comprar jornais e revistas adequadas à faixa etária dos filhos;

*Mostrar que a leitura faz parte do seu dia-a-dia.
Concordamos com Jean Hébrard, quando ele afirma que: “... a capacidade de ler ultrapassa consideravelmente a capacidade de decifrar”.

Sendo assim, não é apenas o aprendizado do sistema de representação da língua materna que está em jogo, mas, principalmente, o uso social que os nossos alunos venham a fazer da leitura como ferramenta para conhecer, para se informar, para compartilhar, para apreciar, para se emocionar, para se encantar, para se divertir... enfim, para saber mais.