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quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Pelos caminhos da leitura

A postagem é de 02/07/2013, vale a pena ler

foto: Divulgação
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Projetos de incentivo ao contato com o universo dos livros permitem o acesso de um público variado, incluindo estudantes, viajantes, trabalhadores e comunidades carentes, ao acervo de bibliotecas

O incentivo ao hábito de leitura é uma ação consolidada no cotidiano do Sesc. As unidades Araraquara, Belenzinho, Bertioga, Bom Retiro, Campinas, Carmo, Pompeia, Ribeirão Preto, Rio Preto, São Carlos, Santo Amaro, Santo André e Sorocaba possuem bibliotecas e as demais geralmente contam com salas de leitura ou espaços alternativos onde são disponibilizados periódicos e livros para consulta.

Para realizar o empréstimo, é necessário que a pessoa interessada faça um cadastro, apresentando documento de identidade (ou cartão de matrícula) e comprovante de residência atualizado. As bibliotecas ainda “promovem atividades voltadas à mediação de leitura, contação de histórias, encontros com escritores, oficinas e workshops, intervenções e atividades que envolvem outras mídias e suportes, sempre com o objetivo de mediar o acervo, aproximando livros e leitores”, explica a técnica de Literatura e Bibliotecas da Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo, Ana Luisa Sirota.

O acervo diversificado permite ao leitor ter acesso a obras nacionais, estrangeiras, clássicas e contemporâneas, que abarcam os gêneros romance, poesia, crônicas, contos, novelas e quadrinhos, além de periódicos, tendo por objetivo atender a todas as faixas etárias. Tendo isso em vista, Sirota explica que busca equilibrar a oferta das unidades com expectativas e indicações do público. “A partir de 2014, algumas unidades estudam a inserção de e-readers e tablets para acesso a e-livros e outros conteúdos nos espaços das bibliotecas”, afirma.

BiblioSesc

Buscando oferecer o acesso à literatura além das fronteiras de suas unidades, o Sesc criou bibliotecas móveis, como é o caso do projeto BiblioSesc. A iniciativa do Departamento Nacional do Sesc, criada em 2001, em parceria com os departamentos regionais da instituição, “destina-se a promover a leitura através da ampliação e facilitação das condições de acesso ao livro nas localidades periféricas onde o Sesc atua, encurtando a distância entre o leitor e o livro, principalmente para o segmento da população carente de acesso aos bens culturais”, explica a técnica responsável pela coordenação nacional do Projeto BiblioSesc, da Gerência de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, Lisyane Wanderley.

Para a realização desse trabalho, cada biblioteca volante conta com um bibliotecário, um auxiliar de biblioteca e um motorista, que atuam como mediadores do acervo. Os bairros atendidos são selecionados conforme a carência de bibliotecas ou de outros equipamentos culturais e recebem visitas quinzenais, sempre no mesmo dia da semana. O intervalo entre as visitas corresponde ao prazo do empréstimo dos livros que, para ser realizado, necessita da apresentação do documento de identidade e um comprovante de residência.

O projeto, que tem atendimento gratuito, é direcionado ao público jovem, e suas 54 unidades volantes já atingiram Pernambuco, Acre, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, entre outros estados, totalizando 250 localidades em todo o Brasil. “São três mil publicações ¿diferentes, cuidadosamente escolhidas e atualizadas em: literatura brasileira e estrangeira traduzida, de ficção e não ficção, para crianças, jovens e adultos; livros de complementação escolar e de interesse geral; jornais, revistas e gibis”, esclarece Lisyane. Segundo ela, o índice de extravio é menor do que 1% do total de empréstimos.

Mala do autor

Outra iniciativa de apoio à leitura organizada pela instituição é o Mala do Autor, projeto iniciado em 2013 que faz ponte entre bibliotecas e escolas localizadas principalmente no entorno do Sesc Interlagos. A programação propõe “rechear” uma mala com obras de um autor escolhido para a atividade, além de livros de escritores consagrados que o influenciaram, somando 30 volumes. “Além do incentivo à leitura, o projeto visa divulgar as atividades da biblioteca móvel da unidade Interlagos e possibilitar o acesso de forma mais ampla para os escolares e seus familiares”, explica o bibliotecário do Sesc Interlagos João Doescher.

Desde o início do projeto, as malas montadas por dois autores (Marcelo Maluf e Ferréz – nome artístico de Reginaldo Ferreira da Silva) já foram entregues em oito escolas – entre elas, a Presidente João Goulart, a Ibrahim Nobre e a Professor Vicente Rao, que receberam a mala do escritor Marcelo Maluf, em março de 2013 –, junto com um manual de possibilidades de utilização para nortear os professores. Após o uso do material por um período médio de um mês, é organizado um encontro com o autor selecionado. Para setembro deste ano, já é cotada a participação da dupla literária Lalau e Laura Beatriz (escritor e ilustradora). Apesar das sugestões do Sesc, cada escola tem a opção de explorar as obras da maneira que lhe convém. “A proposta é que seja uma utilização livre de obrigações. Assim, o projeto pode ser incorporado às necessidades da escola”, esclarece Doescher.

Baú de Letras

Com o objetivo de aproximar e ampliar o universo literário dos trabalhadores do comércio surgiu o projeto Baú de Letras, que começou há mais de cinco anos. Acervos móveis compostos por 80 a 100 livros ficam à disposição dos profissionais interessados por romances, contos, crônicas, poesias, biografias, entre outros gêneros, e em alguns casos, títulos infanto-juvenis, destinados às famílias dos funcionários, contemplando escritores brasileiros e estrangeiros, clássicos e contemporâneos.

“A ideia surgiu da possibilidade da extensão deste atendimento às empresas do comércio da região devido à proximidade física destes locais, e pelo foco no atendimento a comerciários, premissa da missão do Sesc”, conta a bibliotecária do Sesc Carmo Luciana Florindo. A interação literária com os estabelecimentos comerciais se dá nas unidades Bom Retiro, Carmo, Bauru, Araraquara, Catanduva e Ribeirão Preto.

Meus Livros de Viagens

O Sesc mostra que é possível viajar por meio da leitura com o projeto iniciado em 2008 no Sesc Consolação, chamado Meus Livros de Viagens. Por meio da oferta de pequenos acervos depositados em quatro “malas viajantes” nos transportes com destino aos roteiros preparados pelo Programa de Turismo Social, os viajantes são convidados a acessar conteúdos em formato de livros que podem estar relacionados ao lugar de destino – como guias de viagens, obras literárias e outras publicações que abordam os aspectos culturais, a gastronomia, os patrimônios históricos e as personalidades dos locais visitados –, variando de tamanho conforme a duração da viagem.

Ao longo do trajeto, o guia de turismo tem a missão de incentivar o conhecimento do projeto. Os volumes “também abordam as peculiaridades das regiões a serem visitadas e seus ecossistemas, como a região pantaneira, as obras de Machado de Assis inspiradas na cidade do Rio de Janeiro e as poesias de Mario Quintana baseadas no ato de viajar. Mas as obras literárias e publicações diversas podem ou não estar ligadas aos destinos visitados, com o objetivo de simplesmente enriquecer a experiência da viagem”, afirma a técnica da área de Turismo Social do Sesc Consolação Ana Cristina de Souza. Ela ainda esclarece que os viajantes têm uma ótima adesão ao projeto e, no momento do embarque, a mala é logo reconhecida e desperta o interesse pela leitura.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ler além das palavras

Junto com os meios tradicionais, as novas tecnologias estimulam a iniciação à leitura

Desde a popularização da internet, a circulação de textos e imagens alcançaram um patamar inimaginável. Com o surgimento dos tablets, novas formas de leitura e relação com o texto escrito estão se configurando. Diante desses novos suportes e tecnologias, a introdução ao hábito da leitura acontece hoje de forma muito diferente. Desde muito pequenas, as crianças têm que lidar com estímulos diversos de leitura, o que torna a interpretação e hierarquização de informações algo primordial na educação.

A chave de um bom processo de alfabetização, de acordo com o professor de literatura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do grupo de pesquisa Leitura e Literatura na Escola, João Ceccantini, é não se limitar a nenhum recurso específico e explorar diversas atividades de leitura e interpretação. “A alfabetização não se dá só nos livros, se dá em tudo, quando a criança vê o letreiro do ônibus, uma propaganda, uma placa”, diz. De acordo com ele, o maior desafio que a escola está vivendo é mudar sua antiga função de transmitir conteúdo para a de concentrar esforços na formação do senso crítico dos alunos, a fim de que eles sejam capazes de hierarquizar a grande quantidade de informação que têm ao alcance o tempo todo. “O papel da escola é ensinar como as crianças podem lidar com essa informação toda que está disponível nesses suportes e linguagens de uma maneira exigente, saber transitar, saber separar o que é importante do que é descartável, saber pensar, estabelecer relações, saber ser sujeito e se posicionar, porque aquele mundo de conteúdo não faz mais sentido para a escola”, destaca.

O projeto pedagógico de leitura do colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana, em São Paulo, tem como fundamento o conceito amplo de leitura do educador Paulo Freire, que consiste na ideia de que a leitura de mundo precede a leitura da palavra e que a compreensão de um texto implica a percepção das relações entre texto e contexto. Uma das práticas pedagógicas desenvolvidas nesse sentido é o exercício do olhar e a leitura. Realizada com alunos do 1º ano do Ensino Fundamental, é baseada na premissa de que ler também é ver.

O livro O Menino que Aprendeu a Ver, de Ruth Rocha, sobre uma criança em fase de alfabetização que observa seu entorno e contexto de mundo, é o ponto de partida da atividade. Após a leitura compartilhada e discussão das situações que o protagonista vivencia, a professora propõe que os alunos fotografem com máquinas digitais textos verbais e não verbais que chamarem sua atenção no quarteirão em volta da escola. “Uma fotografia de uma caixinha de suco largada no muro é um texto que revela uma certa relação do cidadão com a cidade. Ou seja, é um projeto que desperta nas crianças essa outra possibilidade de compreensão do espaço que os rodeia e do espaço da leitura”, analisa a professora do 1º ano do Ensino Fundamental do Arquidiocesano e doutora em Linguística aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Cláudia Gil Ryckebusch.

Depois, na sala, há um debate a respeito da leitura e da relação entre o sujeito e a cidade, presente nas fotografias produzidas pelos alunos. No laboratório de informática, eles escolhem juntos as melhores fotos, que serão expostas na mostra de trabalhos no final do ano. “Tem relatos de pais que dizem que, depois do projeto, as crianças começaram a ler todas as placas de rua”, diz Cláudia.
As atividades pedagógicas que envolvem imagem e leitura diferem de acordo com a fase da escolarização. Os livros exclusivos de palavras e imagens, que constituem um gênero na literatura infantil, são indicados no início da Educação Infantil, na fase de decodificação dos signos. “Sem dúvida as imagens ajudam no processo de introdução do hábito de leitura nas crianças. Nesses livros para crianças pequenas, as ilustrações trazem certos objetos que serão o cerne da história, elas acabam servindo como um suporte para a criança, estimulando à concentração, à focalização daquele signo, à atenção e à associação daquele signo a determinada palavra”, afirma Ceccantini.

Durante a alfabetização, é interessante que as ilustrações nos livros sejam trabalhadas como um texto não verbal, como uma expansão do conteúdo para o mundo das imagens, da estética, que serve para apoiar a compreensão e o interesse, mas que não pode funcionar separadamente. “A imagem atrai pela fruição estética. Quando a ilustração compõe o sentido do texto, a criança faz um esforço para interpretar. Na história em quadrinhos, por exemplo, a narrativa se faz muito pela imagem, ela vai interpretando essa imagem, pois ela tem essa capacidade de interagir tanto com textos verbais como com não verbais”, diz a professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL), Telma Ferraz Leal. 
 
Leitura digital

Quando usadas a serviço de propósitos pedagógicos, as novas tecnologias e suportes também servem como aliados no processo de introdução do hábito de leitura. “Hoje, o modo de as crianças consumirem cultura passa por essa complexidade, pois elas gostam de ler o livro, depois ver o filme, ouvir a música, visitar a página, jogar o game daquele personagem. Elas fazem esse trânsito entre as linguagens e suportes todos, sem achar que um é melhor que o outro”, afirma Ceccantini. Segundo ele, atividades na internet, como a leitura de resenhas sobre obras, a busca de informações sobre o autor, entre outras referências suscitadas pela leitura, já fazem parte do cotidiano dos alunos e são enriquecedoras do ponto de vista da formação de leitor. “Se os alunos estão lendo uma releitura de Alice, por exemplo, é interessante sugerir uma pesquisa sobre como era a Alice verdadeira, como era a primeira edição do livro ou como as crianças liam Alice naquela época”, propõe.

Com a popularização dos tablets e livros digitais, a diretora pedagógica da Escola Castanheiras, em Santana do Parnaíba, Débora Vaz de Almeida acredita que eles devem ser usados em classe apenas se fizerem parte do contexto tanto dos alunos quanto dos professores. “Algumas famílias sustentam gerações de leitores só com uma boa biblioteca de papel, mas, se essas ?novas tecnologias e suportes fazem parte do contexto local, da experiência da escola e da dos pais, por que não?”, questiona. “Atualmente, podemos ler no livro, no jornal, nas livrarias, nas bibliotecas, podemos comprar ou não comprar, podemos ler nos IPads e podemos ouvir ler nos audiolivros. A tecnologia é um suporte, o que importa é a qualidade do livro.” De acordo com a pedagoga, a escola deve avaliar em quais situações o uso da tecnologia faz sentido e sempre variar os suportes e modos de uso. “Quando o aluno vai produzir um texto, é muito mais inteligente escrever em meio digital do que em papel, porque a edição é mais bem feita, posso recortar e colar, ver as várias versões. Em outros momentos, quando é só tomar nota, o bom e velho caderno dá conta”, acrescenta.

Durante um ano, os alunos do 3º ano do Ensino Fundamental do colégio Porto Seguro, na unidade Panamby, em São Paulo, dedicam-se a um projeto de elaboração de um livros digitais. Como atividade preparatória, a professora lê o livro Pergunte ao Dr. Bicudo sobre Animais, de Claire Llewellyn, para os alunos, que podem acompanhá-la por meio da projeção da obra na lousa. O livro é sobre um conselheiro sentimental que recebe cartas de diversos animais com problemas. Em seguida, há uma discussão sobre o gênero da carta e sobre características dos animais. Dividida em duplas, a turma começa a se preparar para apresentar uma miniaula sobre um animal que escolheram. Em casa, eles pesquisam, em livros e na internet, informações para preencher uma ficha técnica que auxilia a elaboração da aula. “Os alunos aprendem a pesquisar nas aulas de informática da escola. Ao buscar diferentes fontes de informação, as crianças também se exercitam para diferenciar o essencial do secundário”, afirma a coordenadora pedagógica e professora do 3º ano, Luciana Centini.

Após o planejamento e apresentação da miniaula, que deve contemplar aspectos básicos dos hábitos alimentares dos animais, os demais alunos da classe sugerem perguntas que poderiam ser feitas ao Dr. Bicudo a partir das informações pesquisadas. As sugestões são entregues à dupla, que pode utilizá-las na elaboração do texto do livros digitais. A obra consiste em uma carta com a pergunta de um animal endereçada ao Dr. Bicudo. No laboratório de informática, os alunos digitam as cartas e fazem, no programa de desenho Paint, as ilustrações para compor o livro digital. A atividade é encerrada com uma manhã de autógrafos, com a presença dos pais, para o lançamento do livro da classe. Os livros digitais estão disponíveis nos IPads e no blog do colégio para as famílias fazerem o download.

Formação do leitor

Pais que leem histórias antes de a criança dormir, professores que trabalham a leitura como prazer em vez de obrigação ou amigos que indicam títulos são fundamentais para estimular o hábito de leitura nas crianças. “É importantíssimo estabelecer o quanto antes uma relação afetiva entre a criança e o livro”, afirma Ceccantini. “Isso não significa que muita gente não se torne leitora sem esse estímulo inicial, mas ele pode significar uma relação mais duradoura com os livros ao longo da vida.”

Na escola, as práticas pedagógicas que podem ser utilizadas para introduzir o hábito são diversas, mas acima de tudo devem ser iniciadas desde antes da alfabetização. “A língua é muito mais do que um código. Antes de eu ensinar para as crianças o que a gente chama de aspectos notacionais, que são as características da representação gráfica da linguagem, ela precisa participar de situações em que essa língua esteja em uso”, afirma Débora.

A leitura compartilhada, em que os alunos acompanham o professor em seus próprios exemplares ou em cópias do texto, e as rodas de leitura, em que o professor lê parte de uma obra e em seguida promove uma discussão em classe sobre o que foi lido, são atividades centrais nessa fase. “Em função de fazer a leitura compartilhada de forma regular, as crianças começam a ajustar o que está sendo lido com o que está escrito e esta é uma situação alfabetizadora. Elas começam a perceber que nos poemas quase sempre há a presença de rimas, que os contos clássicos começam com ‘era uma vez’, ‘há muito tempo’, ‘em algum lugar’”, diz Débora. “Elas começam a conhecer a organização da linguagem escrita e perceber que tem regras, convenções e regularidades que elas quase sempre podem observar.” Segundo Telma, quando o professor realiza atividades de leitura em voz alta e conversa sobre o que foi lido, ele está ajudando a criança a desenvolver habilidades de compreensão de texto, como elaborar inferências, apreender sentidos gerais e relacionar um texto com outro, que vão ajudá-la na fase de alfabetização.

De acordo com Ceccantini, é importante que essa leitura não esteja vinculada a cumprir determinada tarefa escolar e sim que o foco da atividade seja o prazer, a vivência de emoções. “Um adulto cheio de afetividade fazendo da leitura um gesto de carinho, de alegria, de brincadeira é uma aproximação prazerosa que deixa marcas no inconsciente. Esse envolvimento afetivo é central e está muito ligado ao prazer que o homem de todas as épocas tem de ouvir histórias”, diz. “Não tem gesto mais ancestral que isso na humanidade, alguém que vai contar histórias para todos ouvirem.”

Outro aspecto importante é a escolha dos títulos. Apresentar textos muito fáceis, com poucas palavras e leque reduzido de fonemas é subestimar as crianças. “As pessoas costumam achar que elas vão gostar mais de histórias com linguagem simplificada e esquemática e isso não é verdade”, diz Telma. Segundo Débora, deve-se, independentemente da idade, ler textos de verdade, literariamente ricos, bem escritos e de gêneros variados e todos esses repertórios devem estar disponíveis na sala de aula, na biblioteca e em várias situações.

No Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, São Paulo, a leitura compartilhada e a roda de leitura fazem parte da rotina semanal dos alunos desde a Educação Infantil até os primeiros anos do Ensino Fundamental. No 2º ano, por exemplo, a professora lê em voz alta um capítulo de O Saci, de Monteiro Lobato, a cada dia. A ideia é que ela seja a mediadora entre os alunos e os “textos difíceis”, lendo títulos que eles teriam dificuldade de ler sozinhos. “O Saci é uma leitura bastante exigente para leitores de 7 ou 8 anos, pois tem um vocabulário distante do deles, as construções são pouco usuais na fala cotidiana, além do texto ser mais extenso”, afirma a coordenadora pedagógica do Santa Cruz, Miriam Louise Sequerra. “Por meio da leitura da professora, eles também passam por dificuldades, mas, como contam com esse apoio, vão entrando na leitura, se envolvendo e, de repente, está todo mundo cativado pelo clima do livro.”

Já na atividade Aula de Leituras, os alunos retiram um livro do acervo que se encontra na sala de leitura (pequena biblioteca utilizada pelos alunos de um mesmo ciclo escolar), têm uma semana para lê-lo em casa e, depois, em classe, são estimulados a comentar a obra e indicá-la aos colegas, com a orientação da professora. “O intuito, neste caso, é desenvolver outros comportamentos associados à leitura, tais como indicar, comentar ou escolher um livro, de acordo com critérios que cada um constrói a partir de sua vivência como leitor”, comenta Miriam. “Como essa atividade ocorre desde a Educação Infantil até o 5º ano, é perceptível como os alunos vão refinando sua capacidade de escolher livros de acordo com preferências que também vão se construindo”, diz. “No início, a capa ou o colorido das imagens são os critérios. Depois, o motivo da seleção vai se transformando: o assunto, o autor, o gênero ou mesmo a indicação do colega.”

BOXE 1 – Lição de casa

É tarefa dos pais estimular uma relação ?afetiva dos filhos com a literatura em casa

Os pais desempenham papel fundamental no processo de formação do gosto pela leitura dos filhos. O ideal é que eles sejam modelos de leitores para os filhos e que a introdução do hábito de ler comece em casa e continue no colégio. “O maior incentivo à leitura em casa é ter pais efetivamente leitores, porque uma coisa é o pai que diz que ler é importante, que você tem que ler, que ler faz subir na vida, e outra é o pai que, quando tem um problema, está mexendo no jardim e não sabe o que fazer, por exemplo, vai recorrer a um livro”, diz o professor de literatura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e coordenador do grupo de pesquisa Leitura e Literatura na Escola, João Ceccantini. No caso da população de baixa renda, em que os pais não se tornaram leitores por falta de acesso, a valoração do hábito de ler também tem efeito na formação das crianças. “É importante que as crianças tenham acesso a obras em casa, mas às vezes as famílias não têm condições de comprar. No entanto, se você for pensar, livros custam o mesmo que um brinquedo. É importante que os pais encarem o livro como brinquedo e presenteiem os filhos com livros”, afirma a professora do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e coordenadora do Centro de Estudos em Educação e Linguagem (CEEL), Telma Ferraz Leal.

Outros hábitos indicados são comprar livros junto com os filhos, ou ir a bibliotecas ou espaços comunitários de leitura, ler frequentemente para eles, ter livros em todos os cômodos da casa, incentivar as crianças a fazerem sua pequena biblioteca, de forma que o livro faça parte do cotidiano da casa. Segundo a diretora pedagógica da Escola Castanheiras, Débora Vaz de Almeida, os pais devem tentar identificar livros que fazem parte do interesse das crianças para ir construindo um acervo e uma história de leitura a partir daquilo que se tem em casa. “Tem que ter um lugar no quarto das crianças pra uma história de leitor, o livro preferido, o livro que a escola indicou, que a avó deu, mas não só ter o livro, ter e ler o livro”, diz.

BOXE 2 – Primeiros passos da leitura

O Sesc realiza várias ações direcionadas ao incentivo à leitura para crianças

O Sesc tem diversas atividades em prol da difusão do livro e formação de leitores. Na unidade Pompeia, os pais podem levar seus filhos, de 0 a 3 anos, para o Espaço de Leitura, uma sala adaptada com livros voltados para a faixa etária e com a mediação de educadores, que orientam atividades lúdicas, jogos e brincadeiras literárias. As unidades Bom Retiro, Santo Amaro e Ribeirão Preto também contam com salas de leitura para crianças. “Em várias atividades de contação de histórias, o pai é convidado a fazer ele próprio a narrativa de uma história para a criança. Esperamos que a presença de pais e filhos nesse espaço e a vivência dessa experiência estimule práticas similares em casa”, afirma o Assistente de Literatura na Gerência de Ação Cultural (GEAC) Francis Manzoni.

Já no Espaço Ler na Escola, dez malas com 85 livros da literatura infantil e juvenil e 15 publicações de história em quadrinhos circulam por escolas do ciclo 2 da Rede Estadual de Ensino de São Carlos. Antes de receberem o material, os professores e diretores passam por um treinamento que explora as possibilidades de atividades com os livros, como rodas de leitura, contação de histórias e oficinas de texto. A mala, que fica uma semana em cada sala, acompanha também uma apostila com propostas pedagógicas.  

Também na linha de projetos de difusão do livro, existe o BiblioSesc, programa que leva bibliotecas volantes, transportadas por caminhões, a 26 pontos de Itaquera, Interlagos, Osasco e São Caetano. Segundo Manzoni, a procura pelos livros é muito grande. Em um único dia, centenas de crianças retiram títulos em cada bairro visitado. Escolas, ONGs e creches realizam atividades vinculadas ao BiblioSesc. “Os professores levam as crianças para pegar livros que muitas vezes são trabalhados no contexto escolar ou são para interesse próprio. Então, o caminhão passa a se integrar à realidade cultural desses bairros atendidos”, afirma ele.

As bibliotecas das unidades Belenzinho, Bom Retiro e Santo Amaro dispõem de três equipamentos para a leitura de livros e periódicos do acervo para cegos e pessoas com baixa visão. O videoampliador possibilita às pessoas com baixa visão aumentar texto e imagem de um livro. Já o Poet Compact é um scanner que reconhece textos e os narra em português. O terceiro equipamento é a linha braile, uma espécie de régua que se acopla ao computador e ao scanner que gera eletronicamente pontos em relevo, permitindo aos cegos que leiam pelo tato. A unidade Belenzinho também conta com 240 audiolivros.

Até agosto, acontece no Sesc Pinheiros a segunda edição do seminário Conversas ao Pé da Página, que tem o objetivo de promover o intercâmbio de experiências e conhecimentos relacionados a literatura, leitura, formação de leitores e livros para crianças e jovens. Profissionais e intelectuais do Brasil e do exterior debatem sobre saraus de poesia, leituras no século 21, salas de leitura, entre outros temas. A curadoria do evento é do Centro de Estudos em Leitura, Literatura e Juventude A Cor da Letra e da Revista Emília, publicação sobre leitura, literatura e formação de leitores.

Fonte: Revista E

sábado, 21 de agosto de 2010

Bibliotecas circulantes levam livros até aos locais mais remotos de SP

15/08/2010

Hoje, a cidade conta com quatros ônibus biblioteca. Todos os dias, cada um deles sai da garagem com acervo de aproximadamente cinco mil livros. O ponto final tem endereço: 20 bairros da periferia.



Fonte: Antena Paulista

sábado, 20 de março de 2010

No meio do caminho tinha um livro

Ideias inovadoras promovem a leitura, provando que com o estímulo certo cidadãos de todas as idades e classes sociais podem se tornar amantes das letras
 
Ele segura um livro de noções de eletricidade e explica que o volume foi o primeiro de sua coleção. Achada na famosa esquina das avenidas São João com Ipiranga, no centro de São Paulo, a obra foi salva de um destino que, para o catador de papel Severino Manoel de Souza, seria um “crime”: o reuso do papel. “Se um livro desses for para a reciclagem, quando ele for picotado, vai dar meio quilo”, avalia. “Isso vai render 10 centavos, não dá para comprar nem um pãozinho. Foi quando eu senti que era um crime.” Severino conta que assim iniciou uma coleção de livros, todos achados na rua. “Quando eu tinha uma faixa de 450, 500 livros, tive a ideia de montar a biblioteca.”

Hoje, no número 711 da avenida Prestes Maia, região central da capital, funciona a Biblioteca Comunitária Prestes Maia, dentro de um prédio ocupado pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro de São Paulo (MSTC). “Não foi tanto por mim, foi pelo carinho que eu tenho pelo pessoal aqui dentro, pelo carinho que eu tenho pelas famílias daqui, pelo carinho que eu tenho pelas crianças.” E elas, juntamente com os jovens e adolescentes, formam um contingente de 600 pessoas, parte das 468 famílias que moram no local. Ao todo, são dois mil moradores.

Essa história foi apresentada no vídeo Um Abrigo entre os Livros, de 2006 – produzido pelas Edições SM, com direção de Luaa Gabanini e roteiro e pesquisa de Fabio Weintraub. Como ela existem muitas outras, mas não se sabe o número. Segundo a doutora em ciência da informação ?Elisa Machado, não existe um levantamento sobre o assunto. No entanto, para sua tese de doutorado “Bibliotecas Comunitárias Como Prática Social no Brasil”, defendida em 2008, a pesquisadora levantou 350 dessas experiências e estudou, detidamente, 29 casos. “Encontrei de tudo [entre os criadores dessas iniciativas]. Professores, pedreiros, catadores de lixo, ex-seminaristas, enfim, pessoas das mais diversas formações – ou sem nenhuma formação”, diz. Em comum, segundo Elisa, apenas a vontade de difundir a informação e o conhecimento.


Cultura e lazer

A tese de Elisa Machado relata algumas dessas iniciativas, como a Biblioteca Solidária, criada em São José dos Campos, interior de São Paulo, pelo bibliotecário Sidnei P. Rosa. “Sidnei propôs à Secretaria de Cultura daquele município a criação de uma biblioteca pública no seu distrito”, escreve a pesquisadora no trabalho. “Tendo em vista a recusa da proposta, decidiu montar uma biblioteca comunitária em sua casa.” Outro caso exposto é do ex-seminarista Devanir Amâncio, que montou, na cidade de São Paulo, a Biblioteca dos Garis. Há também a Biblioteca Comunitária T-Bone, que o açougueiro Luiz Amorim criou, em Brasília, dentro de seu estabelecimento. “Essa situação perdurou até que a Vigilância Sanitária fechou o açougue por causa da ‘convivência’ indevida entre livros e carnes”, comenta a pesquisadora na tese. “Foi a partir desse incidente que a biblioteca foi transferida para uma casa próxima.”

Para o antropólogo Felipe José Lindoso, também editor e estudioso do mercado editorial e das políticas públicas para o livro no Brasil, um dos aspectos mais interessantes sobre essas iniciativas populares é a posição que ocupam. “Elas borram totalmente a distinção entre ‘cultura’ e ‘lazer’”, afirma. “Ali se encontram os livros didáticos e de referência, que ajudam ?alunos de todos os níveis de escolarização a fazer seus trabalhos, romances de todos os tipos, livros de autoajuda, manuais técnicos, revistas e jornais.”

Letras e pneus


É esse o caso da Borrachalioteca, criada pelo borracheiro Marcos Túlio Damascena, no município de Sabará, em Minas Gerais. Desde 2002, quando ele levou os primeiros livros para a borracharia onde trabalha com o pai, o seu Joaquim, a biblioteca não parou mais de crescer. “A comunidade vinha aqui todos os dias para ler jornal”, conta Marcos Túlio. “Aí, eu, que sou um amante dos livros, pensei: por que não colocar alguns livros também?” Foi com essa ideia na cabeça que Marcos foi até a biblioteca pública da cidade solicitar ajuda. “Fui até lá e pedi alguns livros”, diz. “Eles doaram 70. Em 2004, nós já tínhamos mais de 500.” Com sete anos de vida, a Borrachalioteca possui dez mil volumes em seu acervo na borracharia e mais cinco mil disponíveis numa segunda unidade, a Sala São Salvador – além de fama nacional, sobretudo depois de um destaque no programa Globo Repórter, da Rede Globo, em 2005. “Quando a gente saiu na imprensa, imagine no que resultou”, diz o borracheiro, que hoje estuda letras, com meia bolsa paga pela universidade graças à notoriedade conferida por sua iniciativa. A Borrachalioteca também organiza ações de incentivo à leitura. “A biblioteca tem de ser viva, não adianta você só deixar os livros lá”, diz Marco Túlio.

Mediação


As atividades complementares que Marcos Túlio realiza consistem, segundo os especialistas, num ponto fundamental do trabalho que toda biblioteca deveria desenvolver: a mediação de leitura. Ou seja, ir além da oferta de obras, garantindo que os leitores, ou futuros leitores, estabeleçam sua própria relação com o livro. “A maioria das pessoas conhece pouco as narrativas literárias”, explica a coordenadora do instituto A Cor da Letra, Márcia Wada. O instituto, fundado em 1998, realiza ações socioeducacionais e culturais. Para Márcia, existe um longo caminho até que as pessoas adquiram gosto pelos livros. “Uma vez presenciei uma situação muito curiosa”, relata. “Um grupo de jovens que a gente formou num dos projetos foi até o Parque do Ibirapuera para fazer umas leituras para crianças. Fui lá visitá-los e, quando cheguei, havia um guarda do parque de pé ao lado deles, e os meninos todos assustados. O guarda estava dizendo que não entendia o que eles estavam fazendo ali. Ou seja, num parque enorme, aonde as pessoas vão para andar de patins, de bicicleta, para brincar e fazer as mais diversas coisas, os meninos não podiam estender um tapete, colocar uns livros e ler para as crianças.” Segundo Márcia, a situação se resolveu, mas só depois de todos serem levados até a administração para conseguir uma autorização para... Ler.

Livros na bike


O projeto de Robinson Padial, o Binho Poeta, não tem nada de convencional. O comerciante criou a Bicicloteca que, como o nome denuncia, leva os livros para “passearem” sobre duas rodas pelas ruas do Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. “Eu tinha vontade de sair emprestando livros”, afirma Binho, que desde 1997 promove em seu bar o sarau Noite da Vela, ao qual os frequentadores vão para ouvir música, declamar poesias e ler trechos de obras. “Aí eu pensei numa bicicleta.” A ideia nasceu anos atrás, durante uma das edições da Expedición Donde Miras, uma caminhada que reúne pessoas em itinerâncias por todo o país. Numa dessas andanças, Binho comprou uma bicicleta velha por R$ 39 e a encheu de livros. “E aí a gente foi trocando livros com as pessoas. Foi bem interessante esse processo.”
Em 2008, a iniciativa passou por uma requalificação. Isso graças ao dinheiro conseguido com o Prêmio Vivaleitura, iniciativa do Ministério da Educação (MEC), do Ministério da Cultura (MinC), da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), e que faz parte do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) do governo brasileiro. Com a verba, Binho adquiriu duas bicicletas novinhas em folha e mais 250 títulos para seu acervo, hoje com quatro mil volumes.

Desde então, foram testados diferentes formatos para o funcionamento da Bicicloteca. Até que, há dois meses, Binho achou o jeito ideal. “Agora a gente decidiu ficar em dois pontos de ônibus, locais de grande circulação aqui. A gente enche os dois cestos de cada uma e estaciona lá.” O horário de funcionamento da Bicicloteca é das 10h às 17h, e a receptividade dos moradores, segundo Binho, é a melhor possível. “Não acontece, por exemplo, de as pessoas não devolverem o livro”, diz. “É incrível porque, como o nosso projeto é para desburocratizar o acesso, a pessoa não precisa dar nada além do nome, mesmo assim, todos os livros são devolvidos.” 
Estação biblioteca
Um outro exemplo de cuidado dos usuários com os livros pode ser conferido no projeto Embarque na Leitura, idealizado pelo Instituto Brasil Leitor (IBL) e desenvolvido pela Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) desde 2004. O trabalho consiste na criação de bibliotecas nas estações. A primeira surgiu em 1º de setembro de 2004, na estação Paraíso. Hoje, fazem parte do projeto as estações Tatuapé, Luz, Largo Treze e Santa Cecília, além de uma unidade na estação Brás da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Juntas, as seis unidades disponibilizam um acervo de 22.569 livros a 31 mil sócios. Ao todo, já foram feitos 270 mil empréstimos. O maior exemplo do êxito do projeto é o índice de não-devoluções das obras: 0,24%, o que equivale a um livro não devolvido a cada 400 emprestados. “Contrariando todos os pessimistas e confirmando nossas expectativas, o brasileiro respeita muito os livros e as bibliotecas”, informa a assessoria do Metrô. O projeto também oferece uma agenda de atividades ligadas à literatura, como tarde de autógrafos, conversas com escritores e contação de histórias. As bibliotecas funcionam de segunda a sexta-feira, das 11h às 20h.

Mundo de histórias


Programa BiblioSesc chega ao Sesc São Paulo com acervo de mais de sete mil volumes e atendimento nas zonas Leste e Sul da capital.
Há cinco anos rodando o país, por meio de iniciativas de outros departamentos do Sesc no Brasil, o programa BiblioSesc, há dois meses, faz parte das atividades do departamento regional de São Paulo. São dois caminhões com 3.800 livros cada um, para empréstimo sem a cobrança de nenhuma taxa. Nessa primeira fase de implantação podem ser encontrados em oito pontos da cidade, quatro locais na Zona Leste e quatro na Zona Sul. “O BiblioSesc é considerado pelo Sesc um programa porque tem uma ação contínua”, explica Francis Manzoni, assistente da Gerência de Ação Cultural (Geac) na área de literatura. “Ele começou como uma experiência no Sesc Pernambuco, levando livros para comunidades carentes, lugares onde não há bibliotecas disponíveis.” Esse foi o critério utilizado também pela experiência do Sesc São Paulo. “Foram escolhidas unidades que têm um entorno formado por bairros afastados e onde não há bibliotecas”, afirma Francis. “Interlagos e Itaquera são regiões distantes do centro e foram lugares onde o Sesc teve forte demanda de comunidades interessadas em receber esse tipo de serviço.”


O caminhão chega aos pontos onde fica estacionado – incluindo as duas unidades que sediam o programa – uma vez por semana, e o horário de atendimento é das 10h às 15h30. Segundo Francis, as equipes de implantação ainda estão trabalhando para que o programa atinja a plenitude de seu potencial de atendimento. “No começo, como estamos em período de implantação, o BiblioSesc está atendendo semanalmente”, explica o assistente. “Então, por exemplo, toda quinta-feira o caminhão estará na Praça Trabalhadores do Comércio. Mas a meta é atingir dez pontos com atendimento quinzenal. Assim, as comunidades vão se acostumar com os empréstimos e devoluções a cada quinze dias.” De acordo com Francis, está em andamento a aquisição de mais títulos infantis, pois esses primeiros meses revelaram que as crianças são as que mais procuram os caminhões cheios de livros. Segundo Francis, já se percebeu que esse é um “público em expansão no BiblioSesc de São Paulo.” “Mas isso não exclui, de maneira nenhuma, a terceira idade, adultos, famílias etc., que vão encontrar romances, clássicos e literatura contemporânea, e poderão compartilhar isso com filhos, netos e amigos”, diz. Além das estantes cheias de livros e do atendimento de pessoal treinado, o BiblioSesc oferece também um ambiente que convida à leitura. “Nós pensamos no início que, como as pessoas podem retirar o livro e levá-lo para casa, sem nenhum custo, elas não fossem ficar no caminhão. Mas, ao contrário, elas ficam, principalmente as crianças, que brincam e leem em torno do caminhão. Por isso, do lado de fora [de cada caminhão], há mesas para a consulta local, para leitura de revistas e jornais. As pessoas estão percebendo a biblioteca volante como um novo ponto de encontro nas comunidades.”
No que diz respeito aos títulos que podem ser encontrados no BiblioSesc, a diversidade mais uma vez marcará a ação do Sesc. Embora haja uma especial preocupação em oferecer e apresentar aos usuários clássicos e contemporâneos da literatura mundial, outros gêneros também poderão ser encontrados. “O BiblioSesc oferece livros diversos e que possam interessar a quaisquer pessoas, em diálogo com o repertório de leitura dos usuários nos bairros atendidos. Nosso objetivo é que comecem a ler e que tomem gosto pela leitura”, diz Francis. “Não pretendemos dizer o que é boa literatura, excluindo outros tipos de leitura. É claro que vamos oferecer a produção que consideramos importante, mas teremos um pouco de tudo.”

Outro serviço que o BiblioSesc irá oferecer é uma programação de Literatura que irá enriquecer o atendimento, contemplando, além do empréstimo de obras sem combrança de nenhum tipo de taxa, também o incentivo à leitura. “Esse será um diferencial do regional de São Paulo”, adianta Francis. “Já na programação de lançamento, de 16 de outubro a 15 de novembro (veja mais informações no site http://www.sescsp.org.br/), o BiblioSesc oferece contação de histórias, encontros com escritores, intervenções artísticas, apresentações musicais, rodas de leitura, brincadeiras, oficinas e toda uma programação que irá propor a mediação da leitura, o que é muito útil porque, junto à oferta de livros, damos importância para a mediação entre livros e leitores, entre os conteúdos dos livros e o repertório e campos de interesse do leitor.

Conhecimento ambulante


Iniciada com o escritor Mário de Andrade, nos anos 1930, ideia de biblioteca circulante é retomada pela prefeitura de São Paulo.

Durante a gestão do prefeito Fábio da Silva Prado, entre 1934 e 1938, a cidade de São Paulo, mais especificamente o centro, viu rodar por suas ruas uma curiosa novidade: uma biblioteca circulante que “passeava” pela cidade a emprestar livros para quem se interessasse. A ideia era simples, mas ao mesmo tempo genial. Se nem todos podem ir até os livros, eles iriam até as pessoas. Quem teve o insight? O escritor Mário de Andrade, criador e primeiro diretor do Departamento de Cultura da cidade –, um órgão que pode ser chamado de avô da Secretaria Municipal de Cultura.
O acervo ambulante começou a rodar em 1935, mas com o passar dos anos, e das gestões, a iniciativa não se manteve exatamente na pauta do dia. No entanto, 70 anos depois, os paulistanos voltam a conviver com a antiga criação de Mário, reformulada, e instalada em ônibus. Ônibus-bibliotecas. “A gente pode dizer que o ônibus-biblioteca foi criado pelo Mário de Andrade”, comenta Marta Nose Ferreira, coordenadora dos serviços de extensão da prefeitura. “Ao longo de todos esses anos, a iniciativa foi sendo mantida de maneira bastante tímida, até que teve um ápice na década de 1990, quando havia dez desses veículos, que cobriam 40 roteiros da cidade.” Porém, os ônibus foram quebrando, os livros se deteriorando e o serviço mais uma vez quase cai no esquecimento. “Mas agora, desde 2007, nós estamos nos esforçando para requalificar esse projeto”, explica Marta. “Hoje temos quatro veículos que rodam de segunda a domingo, em diferentes pontos da cidade.” Cada um dos ônibus percorre 28 bairros, todos localizados em regiões afastadas do centro expandido da cidade. “O Mário começou com veículos rodando pelo centro, mas é óbvio que, em 1935, não existia essa periferia que temos hoje”, retoma a coordenadora. “Por isso a gente agora faz o contrário, vai para todas essas outras regiões e não abrange mais o centro, já que há mais opções de acesso à informação na região central do que nessas outras localidades.”

Os veículos ficam estacionados nos bairros das 10h às 15h, período em que os quatro funcionários de cada ônibus, segundo Marta, veem o acervo de quatro mil livros sofrer uma circulação vertiginosa. “Nós temos uma média diária de 250 visitantes”, revela a coordenadora. “Se você fizer as contas, tendo em vista que o ônibus fica cinco horas no local, dá uma média de uma pessoa a cada um minuto e meio.” Marta conta que, por mês, a biblioteca ambulante empresta livros para uma média de 25 mil pessoas.
Quanto ao acervo, a coordenadora ressalta que, nos ônibus, não há o que chama de “preconceito literário”. Ou seja, encontra-se de tudo: do autor russo Dostoievski às aventuras do bruxo inglês Harry Potter, passando pelo best seller vampiresco Crepúsculo e também por livros que ensinam artesanato ou que dão dicas de economia doméstica. “A gente tem tentado se manter sempre muito antenado com o que as pessoas procuram”, conta Marta. “Se alguém chega querendo um livro que não tem no ônibus, nós mandamos como dica para o departamento que faz as aquisições. A ideia é sempre ir ao encontro do que o leitor quer.” E uma surpresa: embora bruxos, guerreiros e vampiros façam um tremendo sucesso com as crianças e jovens – público predominante dos ônibus-biblioteca – um livro que, segundo Marta, “não para na estante” é o clássico A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. “Temos demandas muito interessantes”, complementa. “Poesias de Mário Quintana e obras de Dostoievski, por exemplo, que não é um escritor popular e tão fácil de ser lido.” Marta relata ainda que, diante do que é presenciado a cada visita dos ônibus, a equipe começou a questionar mitos como os de que o brasileiro não lê ou o jovem ou as pessoas de classes sociais mais baixas ou mesmo os moradores da periferia. “Eles não leem ou não tem acesso à leitura?”, pergunta.

Incentivo à leitura


Unidades do Sesc realizam projetos e mantêm programas que difundem a importância do livro

Não é de hoje que o livro e a leitura estão entre os focos de atuação do Sesc São Paulo. São projetos pontuais, programas de caráter permanente e bibliotecas que, juntos, representam mais uma ação da instituição voltada à educação não formal. “O Sesc já tem um trabalho de incentivo à leitura em curso há muito tempo”, enfatiza Francis Manzoni, assistente da Gerência de Ação Cultural (Geac) na área de literatura. “São oito bibliotecas funcionando nas unidades Santo André, Campinas, Carmo, Ribeirão Preto, Piracicaba, Pinheiros, Araraquara e Pompeia. Todas oferecem empréstimo domiciliar, como o BiblioSesc, e nas demais unidades existem espaços de leitura com revistas, jornais e alguns livros para consulta local.”
Entre os exemplos dessa atuação encontra-se o programa Meus Livros de Viagem (foto), realizado pelo Sesc Consolação desde fevereiro de 2009. Trata-se de uma ação conjunta das equipes da biblioteca e o departamento de turismo social da unidade, que oferece uma seleção de obras literárias para serem consultadas e emprestadas ao viajante durante as excursões.

Outra atividade que merece destaque é o projeto Tertúlia, idealizado por Tiago Novaes. Descrita por Francis como “uma abordagem mais especializada sobre literatura”, a ação, desenvolvida de outubro a dezembro nas unidades Pinheiros, Ipiranga, Araraquara e São Carlos, consiste em encontros com escritores como Antonio Cícero e Ferreira Gullar comentando a obra de Fernando Pessoa, por exemplo, ou Cláudio Willer falando sobre Hilda Hilst ou ainda Bernardo Ajzenberg falando sobre Philip Roth. No Sesc Pompeia, a versão do projeto Tertúlia tem reunido tradutores de grandes escritores estrangeiros como Kafka, Virginia Woolf, Miguel de Cervantes, Fiódor Dostoiévski, Charles Baudelaire, Leon Tolstói, Gabriel Garcia Marques, entre outros. “Tradutores não são autores, mas participam de um modo indispensável na inserção de uma obra literária e do universo de um autor em uma língua, em outro universo linguístico, no modo mais particular de comunicação de um povo. Já publicaram, são em geral também autores, mas têm um estudo tão profundo, por meio da tradução, que podem falar sobre os escritores que traduziram com uma propriedade incomparável.” Em novembro, no Sesc Ipiranga, o projeto trará a escritora e professora de teoria da literatura e de literatura comparada da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria Esther Maciel para falar sobre o autor argentino Jorge Luis Borges, no dia 12, e o escritor e dramaturgo Márcio Souza para analisar a obra do paraense Inglês de Souza, introdutor do naturalismo na literatura brasileira.

No Sesc Araraquara, a literatura se destaca no projeto De Quem É Essa História, realizado desde 2007, cujo objetivo é estimular o hábito da leitura. O formato é o de contação de histórias. “A equipe aborda a produção literária infanto-juvenil por década. Neste ano, eles estão na década de 1980”, comenta Francis.

Com curadoria de Elizabeth D’Angelo Serra e direção artística de Márcio Pontes, o projeto, este ano, irá mostrar as inovações na produção desse gênero literário.

Na unidade Carmo, o livro vai até as empresas por meio do programa Baú de Letras. São caixas que se transformam em estantes e ficam disponíveis por dois meses nas empresas que se cadastram no programa. “Essa ação tem dado resultados há muitos anos no Sesc de todo o país, revela Francis. “Ela continua viva porque tem uma eficácia muito grande. Dentro de uma empresa, imagine, as pessoas não têm muito tempo de ir até uma biblioteca, de explorar títulos e conhecer autores.”

Já na terceira edição, o projeto Versões, criado e desenvolvido no Sesc Campinas, se volta para a literatura contemporânea brasileira e propõe encontros entre autores. “Um escritor escolhe o trabalho de outro para comentar e ambos se encontram. As escolhas se interligam de forma a criar um panorama da produção literária atual, comenta Heloísa Pisani, técnica da área de literatura da unidade. “Em outubro, Marcelino Freire comentou Santiago Nazarian, que indicou Ana Paula Maia como tema. Esta, por sua vez, preferiu a escritora Índigo, que falou sobre Rodrigo Lacerda. Fazem parte do programa workshops com os escritores, saraus e oficinas de produção de texto. Já o Sesc Ipiranga realiza o Versatilidades, desde março, com o objetivo de misturar várias linguagens artísticas para discutir literatura. Passaram pela unidade, em 2009, Marcelino Freire, Adriana Lisboa e João Anzanello Carrascoza. Shows, murais, espetáculos de teatro, filmes, leituras e saraus compõem a versatilidade da Literatura e dos autores.

Projetos como o Literatura Plural, que esteve na pauta de outubro do Sesc Osasco, têm experimentado diferentes vivências com a palavra e com a literatura, em permanente diálogo com zonas de interesse e territórios de leitura identificados na região.

No entrecruzamento com outras linguagens artísticas, a literatura está sempre presente na programação do Sesc. A exposição Quem Quiser que Conte Outra, em destaque no Sesc Santana durante os meses de outubro de 2009 a fevereiro de 2010, é um projeto que tem como objetivo discutir a importância dos contos de fada e da tradição oral. Por meio de uma grande instalação cenográfica são apresentadas histórias coletadas e recontadas dos Irmãos Grimm, das quais destacam-se Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, Branca de Neve, Cinderela, entre outras.

Para saber detalhes sobre os programas e mais informações sobre os projetos basta consultar o Em Cartaz.

Fonte: Revista E SESCSP

sábado, 13 de março de 2010

BiblioSESC: Serviço de biblioteca móvel montada sobre um caminhão

BiblioSESC é uma biblioteca móvel, montada sobre um caminhão, que vai levar mais de 3 mil livros para cidades e bairros que não possuem uma biblioteca.



Serviço disponível em diversas cidades brasileiras de Norte a Sul do Brasil. Serviço mantido pelo Serviço Social  do Comércio.


Interior do caminhão
Leitura já

O SESC possui mais de 200 bibliotecas pelo país, de acesso irrestrito à população. A entidade estimula a leitura permanentemente: além da criação da rede de bibliotecas, nos estados ocorrem projetos inovadores como sacolas ambulantes e caixas-estantes, de serviço de empréstimo de livros em escolas, empresas e até hospitais, além das Feiras Literárias, que já são reconhecidas pela população. O BiblioSESC foi criado em março pelo SESC Nacional, como mais uma iniciativa de formação de leitores em território nacional./

BiblioSESC




BiblioSesc


BIBLIOSESC SESC PI


BiblioSesc


Fonte: SESC