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quinta-feira, 19 de junho de 2014
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Baratos da Ribeiro lança coletânea 'Clube da Leitura'
Enviado por Miguel Conde
O simpático sebo Baratos da Ribeiro acaba de lançar um livro de contos do seu clube de leitura, que apesar do nome funciona mais como espaço pros habituês do lugar apresentarem e comentarem entre si seus próprios escritos. "Clube da Leitura: Modo de Usar, volume 1" reúne 24 contos escritos por 19 autores de idades e estilos variados. Nesta entrevista ao blog, Maurício Ribeiro, dono do sebo e organizador do volume, fala sobre o livro e conta como o grupo surgiu.
Como se formou o clube de leitura do sebo? Quem são seus integrantes?
No sebo Baratos da Ribeiro, como em todos os outros, existe uma galera que “bate ponto”, aparecendo tanto para conferir as novidades no acervo como para jogar conversa fora. Em geral, moram no bairro, mas nem sempre – tem quem se despenque do Engenho Novo, Santa Teresa ou Leblon, e quem tem na livraria uma escala para, por exemplo, o dentista ou a casa da sogra. Há muito tempo que esse pessoal pedia por um evento literário, já que com música sempre armamos muitas farras. As pulgas atrás da nossa orelha eram duas: primeiro, já existem muitos saraus de poesia na cidade – e sempre achei uma pena esses movimentos se multiplicarem ao invés de juntarem esforços – e, segundo, achava os eventos literários tradicionais muito enfadonhos, e sempre quis que os eventos da loja fossem tão divertidos e descompromissados quanto uma ida ao cinema.
Aos poucos, foi se formando uma idéia, a partir de inúmeros pitacos dados pelos habituês. A FLIP teve uma participação nisso, porque se tornou um dos programas mais esperados do ano por mim e minha esposa, um momento em que esbarrávamos em vários dos clientes da loja, e se acendeu o desejo de mantermos rotineiramente aquele tipo de envolvimento com a literatura. Outra experiência que não nos saía da cabeça era o PeepShow Literário que a escritora Mara Coradello organizou no sebo em 2004, e que conseguiu ser dinâmica e divertida.
Até que, em 2007, vislumbramos no formato do jogo uma maneira de reunirmos um pessoal interessado em literatura, mas nos protegendo daqueles debates pseudo-acadêmicos e solenes que costumam dar o tom desses eventos. A opção pela prosa adveio da percepção de que esse era um gênero pouco explorado nos outros eventos cariocas, e no fato de sermos, eu e Danielle, realmente leitores habituais de romances e contos, e não de poesia.
O Clube da Leitura tem muitos participantes eventuais, e outros estiveram conosco por um tempo e depois sumiram. Cláudia Hertz (artista plástica) e Nelson Meirelles (músico), por exemplo, estiveram nas reuniões que botaram a bola em campo (algumas vezes acompanhados do filho de 14 anos, entusiasta precoce da literatura), mas andam pintando só nos aniversários do Clube. Maíra Fernandes de Melo, jornalista e roteirista, fez um curso que, por alguns meses, a impediu de comparecer. O grupo que assina os contos publicados na antologia que lançamos em julho é o mais assíduo, e a partir deles podemos perceber quão variado é o perfil dos freqüentadores.
Eu e minha esposa acabamos de entrar na casa dos 30 anos. Ela, Danielle Costa, é funcionária pública e advogada de formação. Quando a conheci, tinha muitos contos na gaveta, um livro de haicais e escrevia uns poemas eróticos que nunca me mostrou. Dos nossos contemporâneos, Renato Amado é advogado da Petrobrás e publicou um romance pela Multifoco no ano passado. A psicóloga Vivian Pizzinga teve de ser quase arrastada até o Clube pelo seu namorado de então, o ilustrador Johandson Rezende. Escreve faz tempo, mas das primeiras vezes em que contribuiu pro Clube, foi embora da reunião antes que lessem seu texto, de tão envergonhada que ficava – bobagem, seus contos são ótimos. Ronaldo Brito Roque, formado em Letras, era bancário da Caixa Econômica até há poucos meses, quando resolveu ir atrás de felicidade e pediu demissão – tem um romance pronto que ajudei a revisar, e que teve uma microtiragem vendida para os amigos e no balcão do sebo.
Tem também a galera que viveu o Circo Voador no Arpoador, freqüentou o Crepúsculo de Cubatão e ainda pegou a macrobiótica na crista da onda. Carmen Molinari foi da galera mais bicho-grilo, mas acabou trocando a carreira de atriz pela vida mais mansa de gerente de uma joalheria – mantendo alguma saudável porra-louquice, afinal ama as Artes Plásticas e a poesia performática do Chacal. Júlio Rodrigues é capixaba radicado no Rio desde sua especialização em pneumologia. Foi aqui que o médico deu asas a outro de seus talentos, tornando-se também artista plástico e vídeo-maker. André Tag se alterna entre o jornalismo e a corretagem de imóveis. Márcia Vitari também é jornalista, além de viajante compulsiva – e às vezes uma atividade alimenta a outra. A catarinense Glória Celeste é formada em Letras / Alemão, e depois de uma longa temporada no Rio partiu para Recife, onde recebeu uma proposta de emprego. Guilherme Preger também está sempre em trânsito, por força do seu trabalho como engenheiro da Furnas, mas em paralelo sempre exercitou outras aptidões, sejam atléticas, como a capoeira, ou não, como a poesia – publicou “Capoeiragem”, pela Sette Letras. Mestre em Literatura pela UERJ, se arriscou na prosa depois de freqüentar o Clube da Leitura.
Com mais estrada temos a Deborah Geller, que trabalha como corretora de seguros e é mãe de um talentoso ator, o Eduardo. Sempre escreveu pelo prazer de contar histórias, sem pretensões maiores, e viu no Clube uma oportunidade para descobrir outros autores – dos contemporâneos àqueles com alguns séculos de carreira – e ter conversas estimulantes com outras pessoas interessadas na ficção. Gisela D´Arruda é tradutora, terapeuta holística e pesquisadora de religiões afro-brasileiras. Numa de suas corriqueiras idas ao sebo para trocar e comprar livros, foi surpreendida por aquele grupo lendo livros numa roda. Ficou, gostou e, afinal, publicou com a turma.
A “vanguarda” do grupo, considerando a pouca idade, é formada pela Ágata Sousa (paulista de 20 anos que veio para o Rio estudar tradução na PUC), Daniel Russel Ribas (jornalista que continua ligado à PUC, onde estuda agora Cinema) e Rudá Almeida - técnico de informática que mora no Bairro de Fátima e lê de tudo o que aparece (com um invejável pouco caso para o cânone do que se considera “literatura séria”). Além do Saulo Aride, que tem uma história curiosa: logo após formar-se em Direito, percebeu que o trabalho de advogado não era a sua, e decidiu ter como ganha-pão a escrita. Esse movimento teve inicio na época em que o Clube foi fundado, e de lá para cá Saulo escreveu muitos roteiros para televisão, fez um longo curso em Nova Iorque e deu seus primeiros pulinhos na dramaturgia. Assina a peça humorística “Rádio no Ar” (em cartaz no Teatro dos Grandes Atores, no Shopping Barra Square) e está preparando um monólogo com o ator Duda Ribeiro, inspirado em parte da experiência do ator como professor de teatro em manicômios judiciários. Com apenas 23 anos, conseguiu seu intento de pagar suas contas escrevendo ficção, e juntará suas trouxinhas com a noiva, Bárbara, em março próximo.
Em que momento o clube de leitura virou também um clube de escrita?
Eu sempre tentei dar maior ênfase à rodada de leitura dos autores já estabelecidos na praça. Um motivo é minha própria falta de tempo para ler: o contato breve que tomo com autores diferentes, dos quais me são entregues de bandeja os melhores trechos, me ajuda muito enquanto livreiro, amplia meus horizontes literários. Também temia que a galera fosse mais esforçada do que talentosa. Foi uma imensa felicidade descobrir-me enganado. Desde o inicio prevíamos uma leitura de contos próprios, mas pensava que seriam poucos voluntários. Em poucos meses, a rodada competitiva já havia conquistado colaboradores regulares, entusiasmados com a competição amigável. Hoje em dia é comum termos mais textos para serem lidos na segunda rodada do que na primeira. Com o tempo inventamos novas formas de premiação, tirando proveito da excitação criada pelo jogo. Na verdade a galera espontaneamente tentava, por exemplo, adivinhar quem havia escrito o quê (mantemos a autoria dos textos em segredo até a votação do público), e durante um período distribuímos prêmios para quem acertava mais em seus palpites. Em dezembro de 2007 o volume de contos já era tamanho que criamos o blog dentro do site do Sebo Baratos da Ribeiro: www.baratosdaribeiro.com.br/clubedaleitura
A literatura é geralmente tida como uma atividade solitária. O que muda quando ela se torna uma empreitada coletiva?
Acho que a literatura nunca é uma atividade solitária. Mesmo o mais recluso dos escritores está dialogando e concorrendo, pelo menos, com os outros autores que ele admira. Quem simplesmente está despejando para fora as suas divagações, sem nenhuma intenção de publicação, faz terapia e não literatura. Basta que o sujeito tenha alguma expectativa de ser lido para estar acompanhado, nem que seja do seu leitor imaginário.
Creio inclusive na competição como um método de aperfeiçoamento de qualquer talento. Quando os escritores se encontram e conversam mais, quando eles submetem seus trabalhos à apreciação dos colegas, o desejo de impressionar faz o empenho aumentar. Mesmo que o colega meça suas palavras para não melindrar o companheiro, a falta do elogio já dá o recado de que isso ou aquilo não agradou tanto. Quando o camarada só mostra seus textos para a família ou os amigos, o risco dele se auto-iludir, se deslumbrando com os elogios pouco sinceros desses leitores por demais cúmplices, é muito grande.
Sou muito interessado no Renascimento. Uma das coisas que me encanta nesse período histórico em que a Arte atingiu um patamar de qualidade tão alto é, por exemplo, o reduzido repertório de temas dos quadros. Todo mundo pintava os mesmos motivos, e o esforço do artista para criar uma Pietá melhor do que as outras fazia com que surgissem soluções miraculosas para temas que já haviam sido exaustivamente tratados. Nosso esquema em que os escritores se inspiram no mesmo texto para criarem seus contos segue essa filosofia de que, ao olharmos para o mesmo tema por diversas perspectivas, pensamos com mais profundidade sobre elas, e obtemos resultados mais interessantes. Novamente em sintonia com o Renascimento, é como se aplicássemos na arte uma abordagem parecida com o da ciência, onde milhares de pesquisadores usam sua imaginação para investigar as mesmas questões. E aí, independente de estarem todos nos mesmos lugares, ou trocando e-mail, o esforço realmente se torna coletivo.
Vocês leem seus pares - ou seja, outros autores brasileiros contemporâneos? Quais?
Até hoje foram uns 60 encontros, e, a julgar pela média por rodada, calculo uns quase 500 textos. Tentamos registrar uma espécie de ata, mas nem sempre lembramos de anotar o que acontece. Sei que, dentre os fragmentos eleitos como mote da rodada competitiva, existem algumas figuras extra-literárias (de Fausto Fawcett ao Diogo Mainardi), algumas jovens escritoras consagradas (como Patrícia Mello e Carola Saavedra), novíssimos talentos (Daniel Galera, J.P. Cuenca e Reginaldo Pujol Filho) e até gente que publicou apenas em blogs e fanzines (como a Camila Aguiar, de Niterói, e Ronaldo Brito Roque, que colocou uns 20 exemplares do seu romance para circular na praça).
Os hábitos literários entre os freqüentadores são muito variados. Guilherme é dos medalhões - traz sempre um Proust ou um Dostoiévski -, enquanto no outro extremo está Rudá, volta e meia com algo tirado de um blog nas mãos. Minha esposa já levou pro Clube a Adriana Lisboa, a Ana Beatriz Guerra, a Adriana Lunardi e o Marcelo Moutinho. (Meninas puxam sardinha para as vozes literárias femininas, e os meninos para os seus porta-vozes?) Eu sou fã do Marçal Aquino, mas também já fiz propaganda da Márcia Denser. Mas realmente, advoguei mais pelos “manos”: Mariel Reis, Sérgio Rodrigues, Marcelo Benvenutti, Paulo Scott, Joca Terron e Paulo Roberto Pires, pelo que recordo agora. Ah, teve a Vanessa Barbara, que lançou o “Livro amarelo do terminal”, que adorei.
Como organizador dos encontros, você enxerga pontos em comum na produção dos frequentadores?
A maior dificuldade para quem começa a escrever ficção é abandonar o tom de crônica, já que de início a fonte de inspiração mais à mão é a própria vivência do autor. A escrita de cada um nasce quase como um registro de sua fala, a autoria começa óbvia para quem convive com o sujeito e já o ouviu contar uns causos na mesa do botequim. Com o tempo o autor começa a suar para disfarçar essa “personalidade”. No Clube da Leitura os escritores começaram, num certo ponto, a se divertir escrevendo “disfarçados” uns dos outros. (Principalmente na época em que tínhamos o bolão onde se tentava adivinhar as autorias.) Esses movimentos podem ter criado traços estilísticos comuns no trabalho do pessoal, mas eu não tenho formação teórica em literatura, e não saberia identificar essa transformação. Como o Clube é de leituras, feitas em voz alta, os textos têm em geral uma tendência ao tom mais coloquial. O tamanho deles também está limitado nas regras (é de 3.500 caracteres), o que faz com que a maioria dos contos tenha poucas cenas, retratando em geral momentos, por assim dizer, de “iluminação íntima” dos personagens. Mas tem de tudo: contos angustiados e urbanos e contos memorialistas ambientados no campo, em tom idílico. Contos onde eventos misteriosos e mágicos acontecem, contos desencantados sobre gente durona e mal encarada. Contos sobre amores platônicos, e contos cheios de sacanagem. Em geral os contos mais bem-humorados também recebem mais votos do público... Mas tem autores que não estão nem aí pra isso, então a diversidade permanece... Para nossa sorte.
Fonte: O Globo
terça-feira, 23 de março de 2010
A cultura dos sebos
Criador do portal Estante Virtual diz que os alfarrábios superaram as livrarias como estimuladores de leitura no Brasil e viraram reserva cultural da memória literária brasileira
Luiz Costa Pereira Junior
O administrador André Garcia tinha 26 anos quando abandonou uma promissora carreira na área de inteligência de mercado em operadoras de celular, no Rio. Estava farto do mundo corporativo. Na dúvida do rumo a seguir, buscou a vida acadêmica. Mas, ao procurar livros para um mestrado, notou uma lacuna no mercado que mudaria sua trajetória.
Garcia não achava os títulos que queria em bibliotecas e livrarias, perdia-se nos sebos e na falta de oferta de usados na internet. Veio então o estalo. Em um ano, lançou o Estante Virtual, portal de compra de livros usados, que completa quatro anos com 1.670 sebos, com 22 milhões de obras reunidas.
Aos 31 anos, Garcia comanda um negócio que vende 5 mil livros diários, em 300 mil buscas (12 buscas por segundo em horário de pico). Para ele, os sebos devem ser valorizados como agentes de democratização da leitura. "Ela tem de estimular a imaginação e a reflexão.
Qualquer leitura não é leitura", diz com a autoridade conquistada pelo sucesso da iniciativa inédita de intermediação. Garcia diz ser um erro achar que só à escola cabe estimular a leitura. É desafio do país, afirma, fazê-la vista como prazer. O Estante Virtual quer provar que até uma iniciativa de negócio pode fazer a sua parte.
O brasileiro não gosta de ler ou não compra livros por achar muito caro?
Os dois. Há muita gente que poderia gostar e não gosta, mas há ainda mais gente disponível à leitura se o livro fosse barato. Para quem não gosta de ler, há a razão educacional: a escola ensina a não gostar, usa uma metodologia que tem êxito inverso. Temos uma base pedagógica em que ler é obrigatório e a biblioteca é vista como lugar de castigo. Mas leitura é subjetividade, é ver o que agrada à sensibilidade e se ajusta à sua forma de ser, ao seu momento. A escola nunca me deu esse espaço e duvido que, salvo exceção, garanta isso a muito aluno. Para os que driblam a escola e aprendem a gostar de ler, há um preço alto a ser encarado. Se você considerar só a lista dos dez mais vendidos, a média é de R$ 43 o exemplar. Lê esses livros quem tem mais recurso.
Muitos acham que best-seller estimula a leitura.
Tudo bem, o cara lê 800 páginas de Harry Potter. Mas esse tipo de livro leva mesmo a outra leitura que não seja a mais coisa parecida com Harry Potter? Outro dia, um membro da Câmara Brasileira do Livro disse num evento que se o brasileiro ler bula de remédio, ou revista de fofoca, já está ótimo. Na minha opinião, isso é só tecnicamente leitura. A leitura tem de estimular a imaginação e a reflexão. Qualquer leitura não é leitura.
O livro pode virar fator de exclusão social?
Sem estímulo à escolha, sim. Há essa segmentação, em que uma minoria de livros é bem mais apresentada que todo o resto. A leitura termina aberta a um universo restrito de não mais que uns vinte livros. Uma derrota para a cultura. As pessoas leem só isso? O.K., melhor que não ler. Mas é um quadro de pauperização preocupante. Não basta democratizar a leitura. É preciso democratizar os autores de qualidade.
Daí o papel dos sebos...
Drummond tem uma crônica, O Sebo, em que diz que o sebo é o verdadeiro templo da democracia literária. As livrarias se concentram nos 20% de produtos responsáveis por 80% das vendas. Fazem isso não porque são "malvadas", mas por não haver espaço para tudo. Não há como dar vazão a 1.500 títulos novos todo mês, 52 por dia, fora as reedições. Já o sebo virou uma reserva cultural. Nele, há os de agora, os de antes, os fora de catálogo. Estamos falando da história editorial do país, não só dos livros do momento.
Muitos evitam sebos pela poeira e desordem, não é?
Quem vê o sebo como o lugar de obras raras ou esgotadas deixa de usufruir o que ele tem a oferecer, pois trabalha com livro novo, seminovo ou em edição. À medida que as livrarias priorizaram os mais vendidos, os sebos viram que a demanda por eles cresceu. Boa parte se modernizou, está organizada. Os sebos com bagunça, obras empilhadas, empoeiradas, hoje são minoria.
Mas esse "preconceito" não impediu o avanço...
Se livro não fosse tão caro, sebos não teriam o papel que têm no Brasil. Em Portugal, os alfarrábios são só para obras raras e esgotadas, mesmo. Não se vai a um sebo português para comprar um novo Lobo Antunes ou Saramago, pois a loja não terá. Terá o exemplar raro, o autografado, a edição há muito esgotada. Aqui não, o sebo tem tudo, e o que a livraria de novos não tem mais, pois se concentrou nos mais vendidos e nos lançamentos recentes.
Qual o tamanho real desse mercado?
O Brasil tem hoje 1.800 livrarias em meio a 2.300 pontos de venda de livros. A estimativa de sebos é de 2 mil pontos de livros usados no país, 1.670 dos quais estão no Estante Virtual. Deste número, metade é de lojas de rua e a outra metade, de virtuais.
Quem toca esses virtuais?
Em geral, ex-professores, intelectuais aposentados, com muitos livros em casa, que ampliam o acervo e vendem. A gênese desse mercado ocorreu conosco. Antes, ia-se ao Mercado Livre ou montavam um blog, mas sem movimentação, pois ficavam perdidos na rede.
E aí surgiu o Estante.
Atuava na área de inteligência em operadoras de celular, mapeando mercados, mas cansei da hipercompetição, dos valores focados em maximizar lucros, das relações pessoais pouco saudáveis nas empresas e de brigar com concorrentes por um produto que era, de fato, igual ao deles. Chutei o balde, queria virar professor e me preparei para um mestrado em Psicologia Social na PUC-SP. Procurei livros para estudar quando veio o estalo.
Criar o lugar dos sebos...
Eu ia a bibliotecas e livrarias, e não achava o que queria. Nos sebos, vi uma forma de busca elementar. Olhava as lombadas, umas com as letras subindo; outras, descendo; mesmo com paciência, não achava. Vi, então, que o sebo era mais um lugar para deixar o livro encontrar você do que encontrar o livro que de antemão se deseja. É lugar de garimpagem, não busca. Fui à internet e só achei uns seis sites de sebos. Todos caros. Aquilo me chamou a atenção. Pelo desperdício de um acervo inalcançável - o cliente não conseguia uma mera busca. Eu me perguntei porque só uma elite de sebos estava na rede. Mas sabia a resposta: montar um site com acervo e sistema de busca não é barato, uns R$ 5 mil à época. Minha ideia era resolver a procura e criar uma vitrine para sebos sem visibilidade.
O início foi difícil?
No um ano que levou para preparar o site, mapeei o mercado. No final de 2005, quando lancei o Estante, contávamos com 68 sebos. Hoje temos 600 mil clientes a quem vendemos 5 mil livros ao dia. É mais do que as lojas de rua da Travessa, rede tradicional do Rio, ou do serviço on-line da Cultura, de São Paulo. Não vendemos o livro diretamente, fazemos a intermediação entre o livreiro e o comprador. A cada mil livros on-line, cada sebo fatura em média R$ 600 mensais.
Que livro é procurado?
Literatura estrangeira e brasileira, uns 20% e uns 15% da procura cada, o resto é pulverizado. O livro mais vendido é Vidas Secas, do Graciliano Ramos, que não chega a 900 cópias vendidos. É pouco, claro. No Estante, a venda é pulverizada, não há a discrepância das livrarias, em que um livro dispara milhares de cópias e o 50º mais vendido não passa de dezenas de exemplares. Nos sebos, não. O consumo é bem mais equilibrado. Considero isso uma vitória deles, que têm acervos diversificados e servem a todo gosto, não a um ou outro autor, editora ou tipo de leitura.
Tecnologias como kindle tornarão o sebo obsoleto?
Se livro impresso é caro, imagine depender de um intermediário de leitura que custa bem mais. Sebos atuam em nicho inverso, o de pessoas que querem uma leitura mais barata.
Para além da venda, a internet estimula a leitura?
Autores que não conseguem editora escoam sua produção em blogs. Nessa hora, a internet ajuda a ler e a criar. Mas o gênero mais lido da rede é o jornalístico, leitura informacional, utilitária, não uma ordem de leitura, digamos, mais preciosa. A internet atrapalha, de fato, quando a ênfase da leitura é nos simulacros de interação, como orkut, MSN, Twitter. Eu me pergunto se essas são reais formas de interação, se as comunidades interagem como comunidade. No Orkut, são muito usadas como decalque para a pessoa inserir em seu perfil. Não há convivência genuína.
Não é julgamento severo?
Não podemos apenas rejeitar essa interação, mas não se deve só endossá-la. Pois podemos virar a civilização dos simulacros de interação e dos protótipos de leitura. A escola precisa mostrar que ler dá prazer e nem tudo é interação genuína. Dizem que, como os tempos são dinâmicos, as pessoas não param para ler, daí ser preciso coisas mais dinâmicas, com jogos e tal. É desistir cedo demais. É preciso opor alguma resistência a essa temporalidade imediata.
O problema é a educação.
Não é só a educação. Há um grau de precarização da vida contemporânea, da mente ocupada o tempo inteiro, o dia todo tomado, sem tantas zonas de pausa, tudo se junta para o sujeito chegar em casa e não ter energia para ler. Exercitar a imaginação dá trabalho. O sistema de vida que levamos não facilita. A leitura está condicionada a fatores que talvez não consigamos de fato mudar. Não será só a escola a ser obstáculo, mas mudá-la é um começo.
Como estimular a leitura, nesse contexto?
De cara, a escolha do que ler, o processo da leitura, deve dizer algo ao leitor. Damos um sinal errado ao aluno ou filho quando o fazemos ler só para fazer prova. Quando perguntamos o que o personagem falou ou fez, só para saber se houve leitura por parte do garoto. Ler não é isso. Tem de haver prazer envolvido. Devemos nos opor a certos dogmas intelectuais, de que os clássicos devem ser venerados sem restrições, os livros precisam ser lidos até o final etc. Por mim, começaria as primeiras séries proibindo provas sobre não didáticos. Se o garoto não ler, pior pra ele. Mas não se deve puni-lo. Senão, começa a odiar. A ver o tempo na biblioteca como castigo. Isso não forma leitores, só os afasta.
Fonte: Revista Língua Portuguesa
Fonte: Revista Língua Portuguesa
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