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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O Prazer de Ler por Ler: Leitura Lazer na Biblioteca Universitária


Por Cátia Cristina Souza



No decorrer de um curso superior, uma das etapas mais significativas do aprendizado acadêmico é a pesquisa, para desenvolver essa atividade com louvor é preciso que o aluno frequente a biblioteca, é nessa hora que o bibliotecário percebe que muitos usuários não possuem intimidade com o ambiente biblioteca observando sinais que vão desde o aspecto comportamental – tom de voz por exemplo, até a total falta de habilidade na pesquisa.

Grande parte da população brasileira ainda não tem acesso à leitura, consequentemente não desenvolve seus direitos de cidadão por simples ignorância. Sabe-se que a prática da leitura é comumente e estimulada na escola, onde as atividades em geral são focadas para isso, em contramão, a teoria na realidade é que a maioria das instituições de ensino escolar não possui biblioteca, tampouco profissional bibliotecário habilitado para incentivar e promover a leitura entre os pequenos.

Os programas do governo de ampliação de acesso ao ensino superior têm permitido que jovens de baixa renda tenham acesso à faculdade e, consequentemente, à biblioteca. Seria uma falácia afirmar que apenas jovens de baixa renda não conhecem a biblioteca, infelizmente, muitos jovens de alto poder aquisitivo por falta de interesse ou até mesmo por falta de incentivo não possuem o hábito de frequentar biblioteca, existem ainda aqueles que mesmo sem condições socioeconômicas favoráveis descobriram o prazer de se aventurar no mundo da leitura.

A biblioteca deve ser ocupada segundo as necessidades de sua comunidade oferecendo um clima agradável para a pesquisa, cultura e lazer independente das limitações de ordem financeira e social. A biblioteca universitária pode ir além dos livros condizentes ao currículo proposto pela instituição e assim, ajudar a promover uma sociedade leitora. É de conhecimento geral que a leitura desenvolve um papel importante no acúmulo de conhecimentos e habilidades, dessa forma o usuário que frequenta a biblioteca com o intuito de ler por ler, pode tornar-se um exímio pesquisador.

O bibliotecário de instituição de ensino superior pode desenvolver seu papel social de incentivo e promoção à leitura em nosso país, reservando espaço em seu acervo para a “leitura lazer” aquela leitura descomprometida com o conteúdo acadêmico, mas que contribui para a formação do indivíduo. Muitas são as formas de formar um acervo descomprometido com o conteúdo acadêmico, em geral as instituições utilizam o espaço reservado para a literatura, outras vão além reservando salas com poltronas e almofadas dando mais conforto a essa prática. Nessa hora entra em prática a criatividade e habilidade do bibliotecário para formar seu ambiente de “leitura lazer”, desenvolvendo parcerias com editoras para doação de livros quiçá lançamentos cobiçados ou até mesmo campanhas entre os usuários da biblioteca, o que vale é transformar as ideias em ação de incentivo e promoção da leitura.

A missão do bibliotecário é facilitar o acesso a informação, esse profissional deve estar consciente que é um agente de mudanças. Despertar o hábito da leitura nos usuários da biblioteca universitária é ingrediente importante para o envaidecimento do ego profissional e pessoal. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O resgate dos bibliotecários

Matéria Publicada 10/09/2011 

A mediação de leitura, entendida como ato de ler para o outro de forma a despertar seu gosto pela narrativa, é uma estratégia chave na formação de novos leitores 

Mariza Russo
 Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em São Paulo: 
uma das poucas redes que têm bibliotecários de ofício

Para os especialistas da área da mediação de leitura, a prática dessa atividade busca, primordialmente, introduzir o livro como rotina na vida do leitor, permitindo-lhe amplo acesso ao material impresso, para que ele se sinta atraído não só pelo seu conteúdo, como também pelo seu formato. Dessa maneira, espera-se incentivar o hábito de ler e ampliar o gosto pela leitura em si.

A atividade de mediação de leitura consiste em um ato de ler para crianças, jovens ou adultos, de uma maneira livre e prazerosa, que não exige do mediador grandes habilidades artísticas. O importante é que esse mediador demonstre um verdadeiro entusiasmo por essa atividade e compartilhe com os leitores a troca de experiências por ela ensejada.

Essa ação pode ser praticada em diversos locais, mas as bibliotecas públicas e escolares, frequentadas, predominantemente, por pessoas cujo poder aquisitivo não permite adquirir livros com frequência, são as mais adequadas para a realização dessa atividade. Com isso, seriam garantidas oportunidades de transmissão cultural entre as gerações e ampliadas as condições de desenvolvimento social dos leitores. No entanto, inúmeros estudos já realizados ao longo da história dessas bibliotecas apontam que a situação real está longe da ideal.

A área de mediação de leitura - quando devidamente praticada - torna-se, então, um espaço rico para muitos atores, mas são os familiares, os professores e os educadores os que mais se destacam nesse mister. Os familiares deveriam ser os primeiros a estabelecer o elo entre a criança e o mundo, usando a leitura como canal para levá-los a desenvolver valores morais, que servirão de base para suas atitudes no futuro; mas a situação econômica de grande parte das famílias brasileiras impede esse exercício pleno. Daí, a importância dos educadores em aproximar o estudante da leitura, que deve ocorrer de maneira a mostrar o texto de forma lúdica, evitando cobranças que podem servir como instrumento negativo do incentivo à leitura. Igualmente, se espera do bibliotecário a atuação positiva nessa área, até porque - diferentemente do professor - ele não está preso a currículos e avaliações, tendo portanto maior liberdade para dialogar com o leitor e fazer proposições sem que este se sinta pressionado a apresentar resultados. Cabe ressaltar que, na biblioteca escolar, as atividades desenvolvidas pelo bibliotecário devem estar em consonância com as atividades curriculares.

Para garantir maior sucesso nas iniciativas de mediação de leitura, recomenda-se a busca de uma sinergia entre os "saberes" dos educadores e dos bibliotecários, tanto no que diz respeito às práticas pedagógicas quanto às questões de organização de bibliotecas e leitura técnica de livros. Caso essa inter-relação se configure, a formação de novos mediadores ocorrerá com maior sucesso, podendo ser ampliada em diferentes eventos, tais como cursos, palestras e oficinas, os quais devem ser oferecidos, regularmente, a todos os públicos interessados, com o compromisso de formar outros agentes multiplicadores da atividade.

O apoio do governo a esses empreendimentos é de grande relevância, pois novas iniciativas, somadas às já existentes, poderão trazer benefícios mais amplos para a sociedade brasileira. O Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), lançado pelo governo, em 13 de março de 2006, sob a responsabilidade dos Ministérios da Cultura e da Educação, se configura como um projeto com perspectivas vitoriosas, face às suas características próprias e por se tratar de um programa de Estado, e não do governo atual, não estando dessa forma sujeito a descontinuidades devido a eventuais mudanças na política do país. Por outro lado, é preciso que sejam investidos esforços e recursos substanciais nestes e em outros projetos, que com certeza levarão a resultados positivos para a população brasileira.

Ao longo desses três anos, essa iniciativa tem se configurado como "um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, da leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbitos federal, estadual e municipal) e pela sociedade".

A missão desse programa apresenta como prioridade transformar a qualidade da capacidade leitora do Brasil, trazendo a leitura para o dia a dia do brasileiro. Com esse escopo, o PNLL está dividido em quatro eixos temáticos: Democratização do acesso; Fomento à leitura e à formação de leitores; Valorização do livro e da leitura e Desenvolvimento à economia do livro.

Em agosto de 2009, o Programa arrola 488 ações, das quais 43% são desenvolvidas no eixo 1 (212); 36% no eixo 2 (177); 11% no eixo 3 (51) e 10% no eixo 4 (48). Essas ações são desenvolvidas pelas instâncias governamentais e pela sociedade civil, o que demonstra um comprometimento desses setores com os objetivos do programa. Espera-se com esse empreendimento modificar o cenário de leitura no país, elevando-o a ocupar patamares mais relevantes no contexto internacional.

A mediação de leitura e a biblioteconomia

A leitura está presente no processo de ensino dos cursos de graduação, na maioria das áreas acadêmicas. No caso específico da área de biblioteconomia, o livro é considerado um dos seus insumos básicos e a sua leitura técnica é vista como uma das ferramentas indispensáveis para a atuação profissional do bibliotecário. Dessa forma, a capacidade de interpretar a leitura, adequadamente, é fundamental para que esse profissional tenha sucesso em parte de suas tarefas.

Os primeiros cursos de Biblioteconomia foram criados, na França e nos Estados Unidos, no século 19 (na École des Chartes, em 1821, e no Columbia College, em 1887), mas somente no início do século 20 é que se tem informação da utilização da leitura como foco de disciplinas da área, na medida em que a partir de 1904 a biblioterapia passa a ser considerada um ramo da biblioteconomia. A biblioterapia é uma técnica que utiliza a leitura e outras atividades lúdicas como coadjuvantes no tratamento de pessoas acometidas por alguma doença física ou mental, sendo aplicada como educação e reabilitação em indivíduos de diversas faixas etárias.

A partir de então, os bibliotecários assumiram a biblioterapia como atividade recreacional e ocupacional, antes utilizada como atividade terapêutica por médicos americanos no tratamento de seus pacientes. Ao longo dos anos, os currículos dos cursos foram deixando de contemplar esse tema, para a formação dos graduandos. Um levantamento realizado no sítio de internet da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (Abecin), que relaciona 43 cursos na área de biblioteconomia e afins, aponta que menos de 30% do universo total dos cursos incluem disciplinas relacionadas à prática da leitura.

Em face desse cenário, os bibliotecários também se afastaram dessa atividade, o que, com certeza, está prejudicando sua atuação profissional no campo, visto que a leitura para eles não representa parte dos seus "fazeres". Diante da visão de que o incentivo ao hábito de ler é indispensável nos espaços das bibliotecas públicas e escolares, esses profissionais precisam estar capacitados para desenvolver essa ação com competência.

Nesse sentido, uma formação que evidencie o caráter relevante da leitura na formação do bibliotecário tornará o perfil desse profissional mais condizente com as necessidades da sociedade brasileira, tão caracterizada pelas desigualdades de oportunidades.

A mediação de leitura e o curso de biblioteconomia da UFRJ

A ideia da criação de um curso de biblioteconomia, na UFRJ, vem desde a inauguração da Biblioteca Central da Universidade, em 1950, quando se pensou em construir um prédio de oito andares - que abrigasse a biblioteca - cujo último piso seria dedicado ao curso de biblioteconomia.

Em outubro de 2001, por iniciativa da Coordenação do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI), foi criada uma comissão de trabalho, composta por bibliotecários - mestres e especialistas na área - com a assessoria de docentes da UFRJ, para desenvolver a Proposta Político-pedagógica do Curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG), encaminhada em novembro de 2003, às instâncias competentes da Universidade, para fins de análise e aprovação.

A grade curricular do curso foi planejada com um enfoque diferenciado dos demais cursos do país, contemplando igualmente as áreas de biblioteconomia e de gestão, na medida em que os bibliotecários do século 21 precisam estar capacitados para administrar todos os recursos que integram as Unidades de Informação - quer financeiros, materiais, tecnológicos, informacionais, bem como as pessoas, que constituem o seu principal ativo. Sendo assim, a Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC), da UFRJ, foi escolhida para abrigar o curso, em virtude de sua concentração na área de gestão.

Em junho de 2005, o curso foi aprovado pelo Conselho de Ensino de Graduação (CEG) e, em julho, pelo Conselho Universitário (Consuni), para ser incorporado à grade de cursos de graduação oferecidos pela UFRJ.

A Comissão de Implantação do CBG, ao preparar a proposta pedagógica do curso, julgou de extrema importância a integração do referido curso ao PNLL, visto que este programa tem por base a necessidade de formar uma sociedade leitora como condição essencial para promover a inclusão social de brasileiros, no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável.

A decisão da equipe do CBG fun­da­men­tou-se na importância de fazer cumprir a missão prioritária da universidade, que é a de geração de ações que resultem em benefícios para a sociedade, conforme argumenta Luis Milanesi, professor de biblioteconomia.

"A universidade é um instrumento criado pela sociedade para que dê respostas a seus problemas, que ela própria detecta e antecipa. Para isso, pesquisa e descobre as soluções imediatas ou que poderão ser úteis a longo prazo; transfere os conhecimentos aos alunos, conduzindo-os ao domínio de uma área que permita a eles o exercício de uma atividade profissional; estende à sociedade esse conhecimento ..."

Nesse contexto, a disciplina mediação de leitura é oferecida na grade curricular do CBG, no 1º período, tendo - até o presente momento - formado cerca de 120 alunos como mediadores de leitura. Essa iniciativa já criou outras oportunidades para esses alunos, como a participação em projeto de extensão aplicado no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), de 2007 a 2008, no qual duas bolsistas mediavam leitura para enfermos como forma de ajudar a promover sua inserção social. A partir de 2009, outro projeto de extensão está sendo apoiado pela UFRJ - Embarcando na leitura para a Ilha de Paquetá - com vistas a levar para os visitantes da Ilha a oportunidade de acesso a livros e à leitura, despertando nos mesmos o prazer dessa atividade.

Ainda como desdobramento dessa ação, está sendo preparado o projeto de um curso de extensão sobre mediação de leitura, que será oferecido, para bibliotecários e alunos de outras universidades do Rio de Janeiro, com o objetivo de ampliar as oportunidades de resgatar esse espaço de atuação para os bibliotecários.

Considerações finais

As iniciativas aqui apresentadas não são, ainda, suficientes para transformar - em curto prazo - a situação de acesso ao livro e à leitura no país. Analisando-se, na página virtual da Abecin, o cenário dos demais cursos de biblioteconomia ministrados no país, encontrou-se a oferta de disciplinas, tais como Leitura e Sociedade (UFG); Literatura Infanto-juvenil (UFPE); Leitura, Biblioteca e Inclusão Social (UFRGS); Biblioterapia (UFSC); Leitura, Acervos e Ação Cultural e Orientação de Leitura (UFF); Leitura e Biblioteca (UFAL); História da Leitura (FURG); Leitura e Literatura Infanto-juvenil (Udesc) e Processos de Leitura e Ação Cultural (Fatea).

Essas ações, mesmo que em pequeno número, demonstram a preocupação dos organizadores dos currículos em preparar os bibliotecários para desenvolver essa tarefa, a fim de garantir um lugar nesse tão nobre nicho da formação dos brasileiros.

Espera-se que outras reflexões, como as apresentadas neste artigo, possam servir de motivação para inclusão de disciplinas com os objetivos descritos, nos cursos de biblioteconomia do país, que em sinergia com as ações emanadas do Estado venham modificar o cenário apresentado pela última pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2008. A pesquisa aponta, entre outros resultados, que o brasileiro lê em média 5 livros por ano (caso sejam considerados os livros didáticos nesse cômputo), o que coloca o país muito distante dos índices ideais para chegar ao crescimento tão almejado.

Conclama-se que bibliotecários, educadores, políticos e demais interessados se unam para transformar o Brasil em um país de leitores.

Mariza Russo é professora do Curso de Bibliotecomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG/FACC/UFRJ). 

segunda-feira, 21 de março de 2011

Biblioteca: seja bem-vindo

Marcus Tadeu
Matéria publicada em 20/03/2011

“O papel do bibliotecário é acima de tudo incentivar as práticas de trabalho voltadas para a formação do público leitor, lutando para transformar o aluno em um adolescente/adulto leitor. Ele é um mediador de leitura, já que instiga no aluno o desejo pelo livro, e ajuda a desenvolver a capacidade informacional do aluno dentro do ambiente escolar”, destaca Marília Dias


Marília Dias adora livros. O gosto é tão grande que ela trabalha diretamente como eles. Seguiu a carreira de biblioteconomia e desde então resolveu trabalhar em bibliotecas escolares. Sua paixão é uma só: conquistar a atenção de professores e alunos e incutir-lhes o gosto pela leitura e, consequentemente, pela escrita.

Para isso, ela não para de pensar e redigir projetos. Acredita que a sua função soma-se à do professor no sentido de oportunizar aos estudantes a entrada no mundo da leitura. Em entrevista à revistapontocom, Marília ressalta a importância dos bibliotecários, da tecnologia no dia a dia e da democratização dos espaços.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é a função da biblioteca escolar?
Marília Dias – A biblioteca escolar tem algumas funções, todas importantes: acompanhar o aluno e o professor durante o processo educacional fornecendo material complementar e, permitir que eles tenham, dentro do ambiente escolar, um local para ler e fazer trabalhos, oferecendo farto material para pesquisa, à disposição em tempo integral. Além disso, é também papel da biblioteca trabalhar no aluno o gosto pela leitura, o prazer pelo conhecimento e pela arte. A biblioteca escolar é a terceira grande oportunidade de o ser humano se familiarizar com o conhecimento, esteja ele em qualquer suporte. A primeira é a família, por ser a primeira fonte de informação que todos nós temos. É na família que começamos a coletar histórias, explicações sobre o mundo à nossa volta e, se for uma família onde a leitura seja valorizada, ela será a semente que vai germinar um futuro leitor. A segunda oportunidade é a escola. No momento em que o aluno começa sua vida acadêmica, ele une duas oportunidades numa só. Infelizmente, ainda é comum no Brasil a biblioteca escolar funcionar como único meio de contato do aluno com os livros. Se forem bem aproveitadas e fizerem um bom trabalho de acompanhamento dos alunos, as bibliotecas podem realmente vir a fazer a diferença na vida intelectual da criança.

revistapontocom – Mas num mundo midiático, ainda há espaço para a biblioteca?
Marília Dias – Não somente há espaço, como um desejo muito grande dos bibliotecários de que a tecnologia venha a fazer parte do dia a dia das bibliotecas de todo o país. É inegável que toda biblioteca que conta com investimento maciço em modernização oferece um trabalho muito melhor ao seu público, que tem acesso a dados atualizados e pode acompanhar pesquisas em andamento. Para os alunos, o computador é um diferencial muito grande, pois além do uso para digitação ele pode levar para a realidade escolar o blog mantido por ele, o site de pesquisas que ele conhece ou mesmo montar projetos de estudo baseados em material colhido na internet. Para o bibliotecário, a internet é inexplicável. Esta se mostrou ser para nós, eternos pesquisadores, uma ferramenta de trabalho extremamente rica. Hoje os bibliotecários trabalham conectados, através das listas de discussão e dos sites especializados em biblioteconomia. As bibliotecas que pertencem a organizações e que conseguem se conectar umas às outras facilitam muito a pesquisa do usuário. Um exemplo muito bem sucedido desta conexão é o trabalho da Universidade Cândido Mendes. Todas as bibliotecas da instituição estão conectadas e têm link direto para pesquisa no acervo no site da universidade. O aluno que mora na Baixada Fluminense, por exemplo, pode acessar, de casa, o link da biblioteca e verificar em qual unidade tem o material que ele precisa, bem como a disponibilidade para empréstimo. Isso antes da era digital era impensável. Já trabalhei em bibliotecas tradicionais: sem computador, só com máquina de escrever (que eu usei, em 2004!) e fichinhas de papel. Assim que saí dali fui para outra totalmente informatizada, não tinha uma ficha sequer, tinha setor reservado para pesquisas na internet e muitos materiais multimídia. Era outro mundo. Ninguém acreditava como era o meu cotidiano anterior, achavam que eu estava brincando. Quando você tem acesso à tecnologia todo o trabalho se torna mais fácil e rápido: se for um usuário, você encontra material mais rápido. Se for um funcionário, você tem a possibilidade de alimentar e corrigir a base de dados durante todo seu expediente. Ainda consegue esclarecer dúvidas sobre catalogação no site da Biblioteca Nacional, o que para nós é essencial.

revistapontocom – Como a escola pode e deve promover o bom uso da biblioteca por parte dos alunos/estudantes?
Marília Dias – Para a promoção do uso da biblioteca é essencial que a biblioteca trabalhe aliada à equipe docente e pedagógica. O professor nesse momento é o maior aliado do bibliotecário: cabe a ele incentivar o aluno em sala de aula para que ele vá à biblioteca ler, pesquisar, navegar na internet da forma correta, sem perder tempo em sites ruins. Na escola em que trabalho, o Instituto Elo de Educação, as professoras têm uma parceria muito boa com a biblioteca: incentivam os alunos a ler e todas as semanas. Os alunos – da Educação Infantil ao 5º ano – têm que ir à biblioteca para pegar algum livro e levar para casa. Faço muitas atividades com os alunos também: só para este ano tenho 15 programadas. Com o apoio das professoras e da coordenação, realizo oficinas de restauração de livros danificados com os alunos, contação de histórias, confeccionamos livros de acordo com a vontade do estudante, fazemos sessões de leitura e brincadeiras educativas, bem como uma exposição literária com livros e músicas criados pelos alunos na Semana Literária da escola. Levar o aluno para a biblioteca em horários vagos também é muito importante, faz com que ele ande pelo acervo sem obrigação nenhuma, lendo o que quer, navegando na internet, fazendo desenhos no paint ou simplesmente sentado nas almofadas, deitado no meio dos livros. Este contato é muito bom para eles.

revistapontocom – Mas como fazer isso se, de acordo com algumas pesquisa, o Brasil possui poucas livrarias, poucas bibliotecas?
Marília Dias – Realmente, faltam livrarias, sebos, projetos de incentivo à leitura e à escrita e pior: faltam bibliotecas, assim com bibliotecários. Muitas bibliotecas estão dentro de organismos fechados (como escolas, empresas e instituições), disponíveis somente para quem faz parte destes organismos. E elas se tornam invisíveis à população. Mas percebo que ultimamente vêm aumentando muito o número de projetos relacionados à expansão da leitura no Brasil. Pesquisa do MEC realizada na rede pública de Ensino Fundamental, em 2003, destacou que de 149.968 escolas públicas, somente 34.307 tinham biblioteca. E pouquíssimas com bibliotecário, pois o mais comum é um professor readaptado (deslocado de função em virtude de aposentadoria ou incapacitado para dar aulas) assumir a função. Mesmo nas bibliotecas existentes, com raras exceções, as condições de trabalho e do acervo são péssimas. Para este ano, o governo resolveu destinar mais verbas para os municípios com bibliotecas, mas mesmo assim o número de bibliotecas ainda é muito baixo. Tentando mudar esta situação, o governo vem investindo em projetos de valorização da leitura nas escolas, como o Plano Nacional Biblioteca na Escola, que visa enviar livros para a biblioteca escolar. Há outros programas também, como o PROLER. Só falta agora capacitar os profissionais da educação para dar continuidade ao processo de uso dos materiais. Na iniciativa privada existem projetos incríveis. Acredito que o Rio de Janeiro seja o maior incentivador da leitura em comunidades carentes.Um bom exemplo é a história de vida do pedreiro sergipano Evandro dos Santos. Ele só aprendeu a ler com 19 anos de idade. Mas hoje tem uma biblioteca – com projeto arquitetônico cedido gratuitamente pelo Oscar Niemeyer – com 40 mil volumes. Ele dá palestras até em faculdade sobre a importância da leitura e já mandou mais de 7 mil livros para o nordeste. Em Niterói, há um projeto de distribuição de livros dentro do terminal João Goulart, chamado Espaço Livro em Movimento, onde você pode entrar, pegar o livro que quiser, ou doar o livro que quiser. Existem muitos projetos pelo Brasil, o que falta é incentivo para que se estendam. O brasileiro lê pouco na maior parte das vezes por absoluta falta de acesso à leitura.

revistapontocom – Qual é o papel da bibliotecária(o) nos dias de hoje? Parece-me que é cada vez mais de mediador, de provocador, de instigador? Seria o mesmo papel do professor?
Marília Dias – O papel do bibliotecário é um e o do professor é outro. Um professor não substitui um bibliotecário e vice-versa. Eles devem trabalhar em conjunto. Hoje, o papel do bibliotecário é acima de tudo incentivar as práticas de trabalho voltadas para a formação do público leitor, lutando para transformar o aluno em um adolescente/adulto leitor. Ele é um mediador de leitura, já que instiga no aluno o desejo pelo livro, e ajuda a desenvolver a capacidade informacional do aluno dentro do ambiente escolar. Cabe também a este profissional equipar a biblioteca com a maior variedade possível de materiais no acervo e cuidar para que todo o corpo docente e discente o utilizem. O bibliotecário conhece sites, jornais, documentários e muitos outros materiais que facilitam o trabalho de ensino do professor.

revistapontocom – Na sua biblioteca, o que mais é lido pelas crianças e jovens?
Marília Dias – Crianças têm fases de leitura, se é que se pode falar assim. Quando são muito pequenas, por volta dos 2/3 anos, adoram livros de pano com desenhos simples. Quando alcançam os 4 anos, começam a demonstrar mais interesse por livros com historinhas cujas imagens lhes chamem a atenção. Por isso é essencial dar a elas livros com pouco texto e muitas figuras. Contos de fadas que elas já tenham ouvido são ótimos para incentivar a leitura. Aos 6 anos, elas começam a procurar livros cuja história, conteúdo lhes chame atenção. Por mais incrível que possa parecer, as minhas demonstram uma certa preferência por histórias com bruxas, fantasmas e que brinquem de forma bem humorada com o medo. Os jovens seguem uma tendência mundial: adoram Harry Potter e livros como os da Thalita Rebouças. Mas algo parece ser comum neles todos: gostam de bons livros. E cada aluno tem que ser observado e acompanhado para que o bibliotecário saiba valer duas leis da biblioteconomia: a cada livro o seu leitor e a cada leitor o seu livro. Começamos no ano passado um trabalho intenso de incentivo à leitura aqui na escola, com os alunos da Educação Infantil ao 5° ano.

revistapontocom – Neste ano, que projeto você vai desenvolver?
Marília Dias – No Instituto Elo de Educação, será implantado um projeto de incentivo à leitura e à escrita, chamado “Exercendo o Talento”, que visa incentivar os alunos a desenvolverem seus talentos, seja escrevendo, desenhando ou compondo. Temos alunos que escrevem muito bem e têm o desejo de publicar seus textos, mas alguns não sabem como desenvolver seus talentos muito bem, nem conhecem o processo de criação e edição do livro. Para isto, teremos esclarecimentos de autores como Pedro Bandeira, João Carlos Marinho, Rogério Andrade Barbosa e Thalita Rebouças. Temos palestras planejadas como o autor niteroiense Emerson Rios e o dono da editora NitPress, Luiz Augusto Erthal. Já para esclarecer os alunos participantes do projeto sobre inspiração e criação teremos alguns músicos ajudando, como o Hyldon que me deu várias ideias para o projeto e se propôs até a dar um depoimento filmado para mostrar aos alunos. Este projeto vai durar o ano todo e culminará com a impressão na escola do material produzido pelos alunos e irá aproximá-los mais ainda do universo da cultura, através da biblioteca. Tenho sorte de trabalhar numa escola que incentiva as artes, a música e a permanência dos alunos na biblioteca.

revistapontocom – E ao mesmo tempo você desenvolve duas pesquisas sobre o papel da biblioteca?
Marília Dias – Sim. Faço duas pesquisas diferentes: pesquiso sobre a realidade das bibliotecas escolares no Brasil junto a uma aluna da UFF, Natalia Caetano, que também se interessa pelo tema, e pesquiso sobre a influência nos leitores dos trabalhos realizados nas bibliotecas. Infelizmente, mais de 15 milhões de alunos estão excluídos do uso das bibliotecas. Descobri, por exemplo, que o estado de Sergipe não tem o cargo de bibliotecário no quadro de profissões do governo. Resultado: as bibliotecas do governo de lá não tem bibliotecários, só auxiliares e professores. Aí fica difícil… Os profissionais envolvidos com projetos educacionais têm lutado muito pela contratação de bibliotecários. São essas situações que encontramos no Brasil. Enquanto outros países investem em capacitação e infraestrutura, o Brasil ainda pensa como fazer sua população ler! Mas creio que isto mude nos próximos anos. Em 2010, foi sancionada a Lei 12.244, que obriga todos os estabelecimentos de ensino público e privado do país a terem bibliotecas com bibliotecários formados, administrando-as num prazo máximo de 10 anos. Isto levou a uma melhora significativa no quadro de trabalho dos bibliotecários, pois as escolas estão tendo que se adaptar à lei contratando-os. Se cada um fizer sua parte: escola, cidadãos e governo, os próximos anos terão uma realidade nova. Vi hoje um cartaz de incentivo à leitura destinada às crianças conclamando os pais a incentivá-las. É deste tipo de ação que o Brasil precisa.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Acender o fósforo repetidas vezes

Li e gostei da crônica do Ignácio. Compartilho com vocês a minha leitura.
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Ignácio Loyola Brandão - O Estado de S.Paulo - 19/11/2010

Depois da colisão com Monteiro Lobato, veio a escorregadela do Enem. Esse ministério não aprende que errar uma vez é humano, errar duas é burrice. Vem também o ministro dizer que os critérios para avaliação internacional do ensino brasileiro, abaixo do da Cochinchina, estão errados e que temos um alto nível. De onde será que o ministério olha? Como avalia? O que salva o ensino brasileiro são atitudes isoladas que, felizmente, existem aos borbotões. Tenho andando, sentido e testemunhado. Como esquecer as professoras que fazem da Casa Meio Norte, em Teresinha, um exemplo esplendoroso (palavra boa, sonora) de como ensinar contra todas as adversidades?

Dia desses, estive em Santo André, convidado pela Luciana Tavares, bibliotecária da Escola 221 do Sesi. Foi uma alegria chegar e ser recebido com um tapete vermelho feito de papel pardo com tiras coloridas. Símbolo afetuoso que os alunos montaram atravessando todo o pátio até a biblioteca. Comoveu ver alunos do ensino médio com o meu romance Não Verás País Nenhum - que não é fácil de ler - nas mãos, porque o livro está sendo trabalhado ali. Algum tempo atrás, quem compareceu foi o Rubem Alves, um parceiro meu em viagens deste tipo. Falar do Brasil, da literatura, da educação, abrir cabeças, abrir mundos, iluminar caminhos. Em momentos assim, tanto Rubem como eu fazemos a mala, esquecemos cachês e trabalhamos por amor. Compensa, alegra.

Há por essa imensidão do Brasil, sim, há, centenas de professores e bibliotecários idealistas lutando para realizar alguma coisa contra currículos esquisitos, diretores obsoletos, normas mal formuladas, entraves burocráticos, kafkianos, incompreensões. Porém, eles vão em frente. Comovente ver os alunos da 221 interessados em literatura, apaixonados por um livro que, tendo sido escrito há 30 anos e sendo meu livro mais traduzido, acabou mostrando a realidade que chegou à nossa porta: o aquecimento global, a angústia da falta d"água, as cidades superpovoadas, a violência, os congestionamentos, as doenças indiagnosticáveis, a miséria. Os professores que estão estudando o Não Verás avançam nas propostas, fazem uma análise abrangente, o que se vê é a própria história do Brasil e as consequências de políticas obsoletas.

Quinze dias depois, eu estava em Sorocaba, diante dos alunos do Objetivo que, orientados pela professora Marisa Telo, tinham virado de cabeça para baixo o livro de contos Cadeiras Proibidas. Metáfora do tempo da ditadura que, mais do que nunca, vem sendo adotado e lido por jovens, dado seu tom fantástico, que excita a imaginação. Ora, em lugar de uma palestra, o que se viu? Um concurso de contos. A partir da inspiração do Cadeiras, que mostra como o absurdo não existe, a realidade é mais absurda que ele, os alunos escreveram 67 contos incríveis. Disse a eles que eu assinaria qualquer um deles. Foi feito um volume, Carteiras Proibidas, que será editado como livro normal. Farei o prefácio.

Faço esta crônica para meus leitores normais, mas principalmente para professores, para dar coragem e dizer: tentem, mudem, avancem, acreditem na fantasia e na imaginação dos jovens, incentivem, arranquem o que eles têm dentro pronto a explodir. Eliminar repreensões, barreiras, cerceamentos. Na sequência, em Sorocaba, os alunos me entrevistaram, perguntaram tudo, inclusive passando pela ridícula "proibição" de Monteiro Lobato e pela polêmica que se estabeleceu em torno de meu conto Obscenidades Para Uma Dona de Casa, que está na antologia Os Cem Melhores Contos do Brasil, organizada por Ítalo Moriconi. Disse - como já tinha dito em Santo André, onde o conto encontrou resistência em uma parcela de professores e pais - que é lamentável que mentalidades inquisitoriais ainda subsistam em pleno 2010. O homem já foi à Lua, corações são transplantados, a vida humana vem sendo prolongada, a longevidade é cada dia mais extensa, a pílula anticoncepcional já existe, camisinhas são vendidas na caixa do supermercado, o mundo é globalizado, a internet está aí, o celular, o iPhone, o iPad, o iPod, o twitter, e há gente parada no tempo do ponto de vista da moral. Por que ainda há palavras que incomodam, sendo palavras da linguagem coloquial? Por que muitos pais não dialogam com os filhos para saber o que se passa em matéria de sexualidade? Por que os pais não dialogam com professores e autores? Por que atitudes hipócritas de censura, esta que foi o braço direito da ditadura, a arma de qualquer sistema totalitário de esquerda ou direita?

Nesses momentos me lembro de Érico Veríssimo em Solo de Clarineta, suas memórias: "Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto."

É bom quando a literatura é dada com liberdade, espontaneidade, amor, sem preconceitos. Assim ela será recebida. É triste quando se faz da literatura, mesmo que poética, falando da solidão, do tédio e da angústia, algo feio, sujo, pecaminoso, condenação ao fogo do inferno. E os prazeres onde ficam? Ainda bem que existem Lucianas e Marisas no Brasil e existem aos montes. Uso sem medo o lugar-comum: por meio delas, homenageio todos os professores e bibliotecários deste País.



quarta-feira, 23 de junho de 2010

O bibliotecário e a mediação

Ezequiel Theodoro da Silva

Por várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar, necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos bibliotecários.

Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas comunidades existentes nas regiões brasileiras.

As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro, publicadas com o nome "Retratos da Leitura" (ver http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48), mostram que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à cultura escrita.

Inexistentes ou anacrônicas

Tais "retratos", em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando que as comunidades "se virem" no que se refere aos suportes profissionais que facilitem a convivência com livros e outros veículos da escrita.

Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca comunitária. Contou-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham "catado" livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas, quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.

Essa experiência com a "biblioteca catada" não é muito diferente de outras que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca, peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc., enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade pelas esferas governamentais.

"Melhor isto do que nada", dirão as más línguas. E talvez a minha própria língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades. Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O queijo e os vermes - o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido, de Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª idade,etc.) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área de biblioteconomia.

Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista, catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua "dispensa" no momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.

A briga de Darcy Ribeiro

Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro, trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse estereótipo está servindo realmente... No meu ponto de vista, ele também serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!

Para não colocar o bibliotecário como "vítima" de uma história meio ao contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações, são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para "tomar conta da biblioteca".

Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental. Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e alunos tinham muito interesse nos meus escritos.

Um navio à deriva

Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um episódio desta comédia tragicômica chamada "biblioteca brasileira". Sei, também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de volta.

Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, "haja paciência" para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo. Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo brasileiro.