quarta-feira, 2 de maio de 2012

A relação entre leitura e memória

Iván Izquierdo


A memória é fortemente estimulada pelo uso, como tudo o que depende de sinapses (conexões nervosas), e a atividade que mais a estimula é a leitura. Ela requer o emprego simultâneo e em rápida sequência de memórias visuais e de linguagens, estimula paralelamente as memórias visuais (quando pensamos em uma árvore, “vemos” uma árvore), as vias dos sentimentos e emoções: não existem, no ser humano, memórias “não emocionais”; em todos os momentos de nossa vida, estamos sob a influência de alguma emoção, grande ou pequena, e de algum estado de ânimo. Toda memória, quando é criada ou evocada, requer a ativação das vias moduladoras, que dependem das emoções e dos sentimentos. 

Não há nenhuma atividade nervosa que exija tanto em tão pouco tempo do cérebro – e particularmente da memória – como a leitura. De fato, ela inclui memória visual, verbal e de imagens, entre outras. Estudos demonstram que as pessoas que mais leem costumam conservar por mais tempo sua memória sadia. Atores, professores e escritores costumam estar entre as profissões em que mais se lê. Todos os demais
“exercícios para a memória” recomendados pelas revistas e por outros órgãos leigos (palavras cruzadas, movimentos repetitivos, jogos, etc.) são muito inferiores à leitura para realmente exercitar a memória. Vários estudos também indicam que a leitura de música é tão efetiva para preservar a memória como a de palavras.

Para os deficientes visuais, a alternativa mais válida é conseguir que outros leiam para eles. Isso gerou grandes escritores, como Borges e, antes dele, Homero e Milton. Os três foram escritores geniais, mas cegos, que se “alimentavam” do que seus seres queridos liam para eles. Tal situação também ocorreu com grandes músicos, como Ray Charles, Joaquín Rodrigo, Stevie Wonder ou Andrea Boccelli, os quais alimentam nossa alma.

Sem leitura não se desenvolve a memória, e sem memória não é possível aceder ao mundo do conhecimento. Nesse mundo, existem os que cultivam e detêm conhecimentos, produzem ciência e tecnologia, criam, decidem e impõem – às vezes, também invadem e castigam. Esse é o chamado Primeiro Mundo. Os do Terceiro Mundo obedecem, comunicam-se, transportam, divertem-se, até curam ou matam com procedimentos, objetos, remédios ou armas produzidas pelo Primeiro Mundo. Para ser parte do Primeiro Mundo, é preciso, em primeiro lugar, adquirir e gerar conhecimento, o que só se consegue cultivando a memória. Para melhorar a memória, é preciso ler. Tal relação é simples.

Há um aspecto dramático para os que não têm conhecimentos: se tentamos explicar-lhes esse fato, simplesmente não entendem. Resulta-lhes fácil compreender quando faltam alimentos, mas não quando lhes falta saber como e por quê. Pensam que progrediram porque asfaltaram sua rua, não porque houve planejadores, engenheiros e operários especializados em quantidade suficiente para executar essa ação. Não entendem que, para produzir esses profissionais em quantidade suficiente, são necessárias boas escolas e faculdades, bem-equipadas, por meio de um processo que leva longos anos.

Falta esse entendimento à maioria dos brasileiros. O crescimento econômico, sem ser sustentado pelo conhecimento, dura pouco e acaba nas mãos daqueles que o detém. De pouco adianta que este ou os sucessivos governos invistam em ciência se os que deveriam gerá-la e dela usufruir não sabem criar, porque sua memória não é suficientemente estimulada... porque ler “é chato”.

2 comentários:

  1. muito interessante esse texto é bem mas popular do que em outros textos muito resumido amei!

    ResponderExcluir