sábado, 10 de março de 2012

Leitura Literária - Entrevista

Sábado, 10 de março de 2012


Há quanto tempo realiza pesquisas sobre a formação de leitores? O que motivou-o (a) a isso?


Minha decisão ou motivação voltada a estudos sobre a leitura se iniciou quando eu fazia o curso de letras, no final da década de 1960, a partir da consciência de que a leitura é a porta para o conhecimento e para a construção de experiências, além de possibilitar o refinamento das ações e decisões de uma pessoa. Essa motivação permaneceu comigo ao longo de toda a minha vida, principalmente porque o nosso país necessita de muitas pesquisas para apontar soluções, resolver os graves problemas que afligem a área da leitura. Isto considerado, acredito que somo 45 anos de preocupação com vários aspectos das práticas de leitura; em que pese todos esses anos de trabalho, percebo que a nossa evolução foi muito pequena, para não dizer exígua em razão da quantidade de necessidades que estão relacionadas à problemática da leitura.

O que apontam suas pesquisas quando o objeto é a formação literária do professor brasileiro? Em que medida a Universidade tem contribuído (positiva ou negativamente) com o desenvolvimento desse hábito?

Mostram que, ao iniciar a universidade ou curso superior, a formação literária dos estudantes (não somente os futuros professores) tende a diminuir ou a se estreitar por uma série de razões, mas a principal é que a leitura literária é sufocada por outros tipos de leitura, pela preponderância de outros textos, que não o de natureza literária. Nestes termos, salvo raríssimas exceções, a universidade parece agir em sentido contrário a essa formação, não oferecendo, não dispondo um bom cardápio de sugestões para alimentar a fruição literária dos estudantes durante a sua formação. São raras as bibliotecas universitárias que possuem acervos de literatura para incentivar a leitura e alimentar os interesses dos estudantes. Nestes termos, ao longo da escolarização de uma pessoa, a literatura fica quase sempre marginalizada do processo de formação, quase nunca fazendo parte de um projeto pedagógico sólido, bem estruturado e fundamentado em termos da importância da literatura na vida dos cidadãos. Neste caso, as exceções apenas confirmam a regra geral, infelizmente.

Qual a importância e benefícios do incentivo à leitura literária para a formação de um indivíduo, especialmente se este for um educador?

Retomo Antônio Cândido, quando diz, num de seus textos, que a literatura – e consequente a sua leitura – atende às necessidades de fabulação dos seres humanos, colocando-se como um direito de todos. São múltiplos os benefícios da leitura literária, e o seu valor maior está no refinamento das nossas retinas para perceber e compreender o mundo através das aberturas permitidas pelos olhos dos escritores. Acredito que a literatura pode permitir o desenvolvimento de sensibilidades únicas para um educador, abrindo seus olhos para relações inusitadas entre aquilo que ele ensina e o mundo criado pelos escritores.

O que se espera do professor enquanto um mediador de leitura?

Que ele tenha paixão pela leitura e escrita, perceba o texto como fundamento da ensinagem-aprendizagem, seja um informante de leitura, um entusiasta-incentivador, saiba diferenciar os textos, estabeleça unidades coerentes de leitura conforme o perfil dos estudantes que ensina, responda objetivamente às vontades de leitura das crianças, conheça adequadamente a história da leitura em nosso país, sendo sabedor das injustiças que sempre permearam as relações entre a grande maioria dos brasileiros e os textos escritos.
É possível formar leitores se o próprio professor não tem o hábito de ler?

Se o contexto escolar (ou educacional) como um todo constituir um ambiente rico para a leitura, acredito que os leitores podem se desenvolver com autonomia e podem se salvar ou se safar dos professores não-leitores. Como os contextos escolares brasileiros, principalmente os das escolas públicas, são pobres nesse aspecto, tendo a acreditar na impossibilidade de formar leitores com professores distanciados das práticas de leitura.

Há alguma consideração final que o (a) senhor (a) queira fazer?

A dívida social dos governos brasileiros para com o desenvolvimento da leitura é imensa, com contornos de uma grande vergonha que se reproduz de ano para ano e fica cada vez mais medonha. Sabemos quais são os problemas, pois que já evidenciados por várias investigações. Entretanto, os governos olham de esguelha, dão de ombros e repetem as mesmas ações de ano para ano, sem que as melhorias em direção às estruturas permanentes (bibliotecas, por exemplo) venham a acontecer de fato. Por outro lado, tornaram-se comum no Brasil as tentativas de resolver o complexo problema da leitura com programas homeopáticos, assistencialistas, efêmeros, descontínuos, etc. que no mais das vezes atendem aos lucros das editoras, mas não geram efeitos na formação de leitores. Sem quebrar o círculo vicioso e inócuo desses processos, sem colocar no lugar deles as ações globais com altos investimentos (de recursos humanos, de inteligência, de estruturas), continuaremos a patinar no mesmo lugar ou então andar para trás, como vem acontecendo nos últimos anos.

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