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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Papel da famíla enquanto mediadora de leitura



Há algum tempo publiquei uma postagem destacando O Papel do Professor enquanto mediador da leitura. Acontece que não é responsabilidade apenas da escola a formação de leitores. Os pais, ou melhor a família, são ótimos e importantes incentivadores para esta prática, tanto a partir do estímulo, quanto pelo seu exemplo.

Convém aos familiares:

  1. Propiciar o acesso aos livros;
  2. Oferecer o exemplo;
  3. Ter entusiasmo;
  4. Presentear com livros e não apenas com brinquedos;
  5. Buscar contextualizar a leitura;
  6. Estimular visitas a bibliotecas, exposições e projetos sociais que envolvam livros e leitura;
  7. Trabalhar as próprias aptidões de leitor;
  8. Pensar, refletir sobre a escolha dos livros;
  9. Buscar motivação pessoal e motivar os jovens leitores;
  10. Tratar as leituras com progressividade, mostrando novos temas, novas situações e novos estilos;
  11. Ter uma atitude positiva com escritores, educadores e leitores – um comentário negativo a respeito de alguma obra ou autor pode gerar um preconceito;
  12. Não subestimar a capacidade, nem o interesse das crianças para a leitura.

O que é desaconselhável fazer

  1. Reforçar para as crianças o fato delas não gostarem de ler;
  2. Obrigar a ler – não obrigue o gosto do outro, mostre o seu entusiasmo de leitor;
  3. Mandar ler um livro que não agrada – cada idade tem um amadurecimento, um despertar, mesmo sem entrar no critério do gosto;
  4. Exigir que o livro seja lido por inteiro – incentivar a mudar de leitura;
  5. Deixar a criança só com o livro – este pode ser para ela um objeto aparentemente hostil que exige um esforço excessivo;
  6. Contar todos os delhates do livro – deixar o livro falar por si só;
  7. Transformar o livro em dever de casa – o que o vincularia a uma obrigação;
  8. Transformar o livro num instrumento acadêmico – faz com que o livro perca o encantamento e o mistério, tornando-se uma mera ferramenta;
  9. Obrigar a comentar o livro lido – tem que ser espontâneo e prazeiroso;
  10. Utilizar o livro como instrumento de coerção – usá-lo como castigo, ameaça por tarefas não cumpridas.
Aprofunde-se mais em 

SOBRINO, Javier García (org.), et. al. A criança o livro: A aventura de ler, Portugal: Porto Editora, 2000.

Fonte: Livros e Afins

quinta-feira, 22 de março de 2012

Papel do professor enquanto mediador da leitura

Por Roberta Fraga

Crédito da imagem: The teacher - Mary Ellen Page Sr. (Murnie), 1967 (from the family archives)

A leitura em seus momentos iniciais ou, posteriormente, por razões diversas será mediada. Mediar leitura tem um aspecto amplo. Pode significar o simples papel de ledor, o que acontence com deficientes visuais que não dominam o Braille ou pessoas ainda não alfabetizadas; mas, também, pode significar a interpretação do texto escrito, o canal de acesso à informação e à fantasia, no caso dos textos literários.
Assim, muitas pessoas podem ser referência de mediação: os pais, professores, orientadores, bibliotecários, um amigo, um voluntário…

Quanto ao professor convém:

  1. Ter aptidão para escolher a obra apropriada, tanto em termos de adequação etária, quanto em relação às preferências do grupo;
  2. Emprego eficaz de recurso metodológico – para saber dar ritmo, reconhecer momentos de avanços ou de recuos na aprendizagem e na formação do leitor;
  3. Suscitar a verbalização acerca da compreensão da obra;
  4. Domínio acerca do conteúdo a ser ministrado;
  5. Senso de oportunidade – o mediador deve saber avançar e recuar, testar novas abordagens. O modo de construção do leitor é um processo lento e gradativo;
  6. Seleção de material  – conhecer o interesse dos alunos, o universo deles, contextualizar;
  7. Conhecimento da produção literária para crianças;
  8. Conhecimento de lançamentos recentes, ser atualizado;
  9. Atender aos princípios da Filosofia e Educação contemporâneas – “aprender a aprender e aprender a ser”;
  10. Atendimento às qualidades estéticas da literatura sem preconceito e sem moralismos – literatura é arte;
  11. Dar preferência a textos inovadores e emancipatórios – estimular o pensamento independente e o senso crítico;
  12. Cuidar pela qualidade do material – estimular esse respeito;
  13. Cuidar pela qualidade da linguagem  – por mais que a língua evolua, é bom falar e escrever corretamente;
  14. Cuidar pela variedade de temas;
  15. Ter um tratamento questionador.
Fique atento, muitas vezes, o professor precisa trabalhar nele mesmo as aptidões de leitor. Certas resistências podem advir de desconhecimento e pouco preparo.
Aprofunde-se mais em
COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O resgate dos bibliotecários

Matéria Publicada 10/09/2011 

A mediação de leitura, entendida como ato de ler para o outro de forma a despertar seu gosto pela narrativa, é uma estratégia chave na formação de novos leitores 

Mariza Russo
 Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em São Paulo: 
uma das poucas redes que têm bibliotecários de ofício

Para os especialistas da área da mediação de leitura, a prática dessa atividade busca, primordialmente, introduzir o livro como rotina na vida do leitor, permitindo-lhe amplo acesso ao material impresso, para que ele se sinta atraído não só pelo seu conteúdo, como também pelo seu formato. Dessa maneira, espera-se incentivar o hábito de ler e ampliar o gosto pela leitura em si.

A atividade de mediação de leitura consiste em um ato de ler para crianças, jovens ou adultos, de uma maneira livre e prazerosa, que não exige do mediador grandes habilidades artísticas. O importante é que esse mediador demonstre um verdadeiro entusiasmo por essa atividade e compartilhe com os leitores a troca de experiências por ela ensejada.

Essa ação pode ser praticada em diversos locais, mas as bibliotecas públicas e escolares, frequentadas, predominantemente, por pessoas cujo poder aquisitivo não permite adquirir livros com frequência, são as mais adequadas para a realização dessa atividade. Com isso, seriam garantidas oportunidades de transmissão cultural entre as gerações e ampliadas as condições de desenvolvimento social dos leitores. No entanto, inúmeros estudos já realizados ao longo da história dessas bibliotecas apontam que a situação real está longe da ideal.

A área de mediação de leitura - quando devidamente praticada - torna-se, então, um espaço rico para muitos atores, mas são os familiares, os professores e os educadores os que mais se destacam nesse mister. Os familiares deveriam ser os primeiros a estabelecer o elo entre a criança e o mundo, usando a leitura como canal para levá-los a desenvolver valores morais, que servirão de base para suas atitudes no futuro; mas a situação econômica de grande parte das famílias brasileiras impede esse exercício pleno. Daí, a importância dos educadores em aproximar o estudante da leitura, que deve ocorrer de maneira a mostrar o texto de forma lúdica, evitando cobranças que podem servir como instrumento negativo do incentivo à leitura. Igualmente, se espera do bibliotecário a atuação positiva nessa área, até porque - diferentemente do professor - ele não está preso a currículos e avaliações, tendo portanto maior liberdade para dialogar com o leitor e fazer proposições sem que este se sinta pressionado a apresentar resultados. Cabe ressaltar que, na biblioteca escolar, as atividades desenvolvidas pelo bibliotecário devem estar em consonância com as atividades curriculares.

Para garantir maior sucesso nas iniciativas de mediação de leitura, recomenda-se a busca de uma sinergia entre os "saberes" dos educadores e dos bibliotecários, tanto no que diz respeito às práticas pedagógicas quanto às questões de organização de bibliotecas e leitura técnica de livros. Caso essa inter-relação se configure, a formação de novos mediadores ocorrerá com maior sucesso, podendo ser ampliada em diferentes eventos, tais como cursos, palestras e oficinas, os quais devem ser oferecidos, regularmente, a todos os públicos interessados, com o compromisso de formar outros agentes multiplicadores da atividade.

O apoio do governo a esses empreendimentos é de grande relevância, pois novas iniciativas, somadas às já existentes, poderão trazer benefícios mais amplos para a sociedade brasileira. O Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), lançado pelo governo, em 13 de março de 2006, sob a responsabilidade dos Ministérios da Cultura e da Educação, se configura como um projeto com perspectivas vitoriosas, face às suas características próprias e por se tratar de um programa de Estado, e não do governo atual, não estando dessa forma sujeito a descontinuidades devido a eventuais mudanças na política do país. Por outro lado, é preciso que sejam investidos esforços e recursos substanciais nestes e em outros projetos, que com certeza levarão a resultados positivos para a população brasileira.

Ao longo desses três anos, essa iniciativa tem se configurado como "um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, da leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbitos federal, estadual e municipal) e pela sociedade".

A missão desse programa apresenta como prioridade transformar a qualidade da capacidade leitora do Brasil, trazendo a leitura para o dia a dia do brasileiro. Com esse escopo, o PNLL está dividido em quatro eixos temáticos: Democratização do acesso; Fomento à leitura e à formação de leitores; Valorização do livro e da leitura e Desenvolvimento à economia do livro.

Em agosto de 2009, o Programa arrola 488 ações, das quais 43% são desenvolvidas no eixo 1 (212); 36% no eixo 2 (177); 11% no eixo 3 (51) e 10% no eixo 4 (48). Essas ações são desenvolvidas pelas instâncias governamentais e pela sociedade civil, o que demonstra um comprometimento desses setores com os objetivos do programa. Espera-se com esse empreendimento modificar o cenário de leitura no país, elevando-o a ocupar patamares mais relevantes no contexto internacional.

A mediação de leitura e a biblioteconomia

A leitura está presente no processo de ensino dos cursos de graduação, na maioria das áreas acadêmicas. No caso específico da área de biblioteconomia, o livro é considerado um dos seus insumos básicos e a sua leitura técnica é vista como uma das ferramentas indispensáveis para a atuação profissional do bibliotecário. Dessa forma, a capacidade de interpretar a leitura, adequadamente, é fundamental para que esse profissional tenha sucesso em parte de suas tarefas.

Os primeiros cursos de Biblioteconomia foram criados, na França e nos Estados Unidos, no século 19 (na École des Chartes, em 1821, e no Columbia College, em 1887), mas somente no início do século 20 é que se tem informação da utilização da leitura como foco de disciplinas da área, na medida em que a partir de 1904 a biblioterapia passa a ser considerada um ramo da biblioteconomia. A biblioterapia é uma técnica que utiliza a leitura e outras atividades lúdicas como coadjuvantes no tratamento de pessoas acometidas por alguma doença física ou mental, sendo aplicada como educação e reabilitação em indivíduos de diversas faixas etárias.

A partir de então, os bibliotecários assumiram a biblioterapia como atividade recreacional e ocupacional, antes utilizada como atividade terapêutica por médicos americanos no tratamento de seus pacientes. Ao longo dos anos, os currículos dos cursos foram deixando de contemplar esse tema, para a formação dos graduandos. Um levantamento realizado no sítio de internet da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (Abecin), que relaciona 43 cursos na área de biblioteconomia e afins, aponta que menos de 30% do universo total dos cursos incluem disciplinas relacionadas à prática da leitura.

Em face desse cenário, os bibliotecários também se afastaram dessa atividade, o que, com certeza, está prejudicando sua atuação profissional no campo, visto que a leitura para eles não representa parte dos seus "fazeres". Diante da visão de que o incentivo ao hábito de ler é indispensável nos espaços das bibliotecas públicas e escolares, esses profissionais precisam estar capacitados para desenvolver essa ação com competência.

Nesse sentido, uma formação que evidencie o caráter relevante da leitura na formação do bibliotecário tornará o perfil desse profissional mais condizente com as necessidades da sociedade brasileira, tão caracterizada pelas desigualdades de oportunidades.

A mediação de leitura e o curso de biblioteconomia da UFRJ

A ideia da criação de um curso de biblioteconomia, na UFRJ, vem desde a inauguração da Biblioteca Central da Universidade, em 1950, quando se pensou em construir um prédio de oito andares - que abrigasse a biblioteca - cujo último piso seria dedicado ao curso de biblioteconomia.

Em outubro de 2001, por iniciativa da Coordenação do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI), foi criada uma comissão de trabalho, composta por bibliotecários - mestres e especialistas na área - com a assessoria de docentes da UFRJ, para desenvolver a Proposta Político-pedagógica do Curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG), encaminhada em novembro de 2003, às instâncias competentes da Universidade, para fins de análise e aprovação.

A grade curricular do curso foi planejada com um enfoque diferenciado dos demais cursos do país, contemplando igualmente as áreas de biblioteconomia e de gestão, na medida em que os bibliotecários do século 21 precisam estar capacitados para administrar todos os recursos que integram as Unidades de Informação - quer financeiros, materiais, tecnológicos, informacionais, bem como as pessoas, que constituem o seu principal ativo. Sendo assim, a Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC), da UFRJ, foi escolhida para abrigar o curso, em virtude de sua concentração na área de gestão.

Em junho de 2005, o curso foi aprovado pelo Conselho de Ensino de Graduação (CEG) e, em julho, pelo Conselho Universitário (Consuni), para ser incorporado à grade de cursos de graduação oferecidos pela UFRJ.

A Comissão de Implantação do CBG, ao preparar a proposta pedagógica do curso, julgou de extrema importância a integração do referido curso ao PNLL, visto que este programa tem por base a necessidade de formar uma sociedade leitora como condição essencial para promover a inclusão social de brasileiros, no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável.

A decisão da equipe do CBG fun­da­men­tou-se na importância de fazer cumprir a missão prioritária da universidade, que é a de geração de ações que resultem em benefícios para a sociedade, conforme argumenta Luis Milanesi, professor de biblioteconomia.

"A universidade é um instrumento criado pela sociedade para que dê respostas a seus problemas, que ela própria detecta e antecipa. Para isso, pesquisa e descobre as soluções imediatas ou que poderão ser úteis a longo prazo; transfere os conhecimentos aos alunos, conduzindo-os ao domínio de uma área que permita a eles o exercício de uma atividade profissional; estende à sociedade esse conhecimento ..."

Nesse contexto, a disciplina mediação de leitura é oferecida na grade curricular do CBG, no 1º período, tendo - até o presente momento - formado cerca de 120 alunos como mediadores de leitura. Essa iniciativa já criou outras oportunidades para esses alunos, como a participação em projeto de extensão aplicado no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), de 2007 a 2008, no qual duas bolsistas mediavam leitura para enfermos como forma de ajudar a promover sua inserção social. A partir de 2009, outro projeto de extensão está sendo apoiado pela UFRJ - Embarcando na leitura para a Ilha de Paquetá - com vistas a levar para os visitantes da Ilha a oportunidade de acesso a livros e à leitura, despertando nos mesmos o prazer dessa atividade.

Ainda como desdobramento dessa ação, está sendo preparado o projeto de um curso de extensão sobre mediação de leitura, que será oferecido, para bibliotecários e alunos de outras universidades do Rio de Janeiro, com o objetivo de ampliar as oportunidades de resgatar esse espaço de atuação para os bibliotecários.

Considerações finais

As iniciativas aqui apresentadas não são, ainda, suficientes para transformar - em curto prazo - a situação de acesso ao livro e à leitura no país. Analisando-se, na página virtual da Abecin, o cenário dos demais cursos de biblioteconomia ministrados no país, encontrou-se a oferta de disciplinas, tais como Leitura e Sociedade (UFG); Literatura Infanto-juvenil (UFPE); Leitura, Biblioteca e Inclusão Social (UFRGS); Biblioterapia (UFSC); Leitura, Acervos e Ação Cultural e Orientação de Leitura (UFF); Leitura e Biblioteca (UFAL); História da Leitura (FURG); Leitura e Literatura Infanto-juvenil (Udesc) e Processos de Leitura e Ação Cultural (Fatea).

Essas ações, mesmo que em pequeno número, demonstram a preocupação dos organizadores dos currículos em preparar os bibliotecários para desenvolver essa tarefa, a fim de garantir um lugar nesse tão nobre nicho da formação dos brasileiros.

Espera-se que outras reflexões, como as apresentadas neste artigo, possam servir de motivação para inclusão de disciplinas com os objetivos descritos, nos cursos de biblioteconomia do país, que em sinergia com as ações emanadas do Estado venham modificar o cenário apresentado pela última pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2008. A pesquisa aponta, entre outros resultados, que o brasileiro lê em média 5 livros por ano (caso sejam considerados os livros didáticos nesse cômputo), o que coloca o país muito distante dos índices ideais para chegar ao crescimento tão almejado.

Conclama-se que bibliotecários, educadores, políticos e demais interessados se unam para transformar o Brasil em um país de leitores.

Mariza Russo é professora do Curso de Bibliotecomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG/FACC/UFRJ). 

sábado, 21 de agosto de 2010

Projeto Mudando a História - Mediadores de Leitura

O Projeto
O Projeto Mudando a História faz parte do programa mundial Make a Connection, promovido pela Nokia International Youth Foundation ( IYF ) e, no Brasil, é uma parceria com a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. O projeto nasceu do interesse comum dos envolvidos em contribuir para a ampliação da participação juvenil na sociedade.
O Projeto Mudando a História forma jovens de 13 a 25 anos para atuarem como mediadores de leitura e multiplicadores dessa ação. Esses jovens, estudantes de escolas públicas e particulares, universitários, participantes de projetos e organizações não-governamentais vão mediar a leitura para crianças que freqüentam creches, escolas de educação infantil ou instituições de atendimento direto à infância em situação de risco.
Para ser mediador de leitura, o jovem participa de uma formação de 40 horas e de supervisões mensais. Dessa forma, ele aprende a planejar sua ação com um grupo de crianças e passa a ler semanalmente para elas, acompanhando o seu desenvolvimento.
O multiplicador é o jovem que já tem experiência como mediador de leitura e deseja formar novos mediadores. O Projeto Mudando a História oferece a esse jovem uma formação específica para que se torne multiplicador. Depois de formado, o multiplicador elabora um projeto de formação e de acompanhamento e planeja as ações necessárias para mobilizar outros jovens e instituições.

Participando do projeto, o jovem contribui para a formação de crianças leitoras e ampliar seu universo cultural. Atuando solidariamente, o jovem poderá redefinir sua participação na comunidade, contribuindo para a sua formação.
Objetivos
O projeto tem como objetivo fortalecer e disseminar a concepção de jovem como agente de intervenções e transformações sociais positivas. Através dos seguintes objetivos específicos:  

  • Aprofundar o conhecimento dos jovens e organizações parceiras sobre a formação de grupos de mediadores de leitura.

  • Fortalecer a relação entre os jovens, suas organizações e sua comunidade.

  • Promover intercâmbio e a identificação entre grupos de jovens de diferentes contextos sociais.

  • Contribuir com conhecimento para a formação de políticas e propostas na área da juventude.

  • Oferecer oportunidade de engajamento aos jovens;

  • Integrar indivíduos de diferentes contextos sociais e culturais;

  • Ampliar o acesso à leitura e ao livro de qualidade; mobilizar a sociedade para as questões da juventude.
 Instituições parceiras 
Em 2002 a Prefeitura Municipal de Manaus, através da Secretaria Municipal da Infância e Juventude - SEMINF, assinou um termo de compromisso com a Fundação Abrinq, tornando-se parceira do Projeto Mudando a História. Em março de 2005 a Fundação Abrinq inaugurou em Manaus o primeiro Pólo do Projeto Mudando a História em parceria com a SEMINF tendo sua sede localizada no CIACA Centro Sul, Av Darcy Vargas nº 378, Cep: 69050-020.  

O Pólo visa articular diferentes instituições parceiras para realizar as atividades formadoras de jovens voluntários nas situações de leitura para crianças da comunidade, ser um pólo de discussão e construção de conhecimento sobre o trabalho com a juventude, ser um centro de informações sobre o projeto, inclusão dos jovens nos processos de discussão do projeto, entre outras atribuições.
Em janeiro de 2005, já formou 46 jovens voluntários de Manaus como multiplicadores desta ação e são das seguintes instituições parceiras: 
  • SEMINF - Secretaria Municipal da Infância e Juventude 
  • Escola Estadual Professora Diana Pinheiro 
  • Escola Estadual Desembargador André Vidal de Araújo 
  • Fundação Nokia de Ensino 
  • Cia de Teatro Metamorfose 
  • INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia 
  • Biblioteca Pública do Amazonas 
  • FEPI ? Fundação Estadual de Políticas Indigenistas 
O pólo já realizou uma nova capacitação de mediadores de leitura, tem mantido o acompanhamento dos grupos de jovens mediadores formados, organizou reuniões com a comissão organizadora do Projeto em Manaus (com representantes de todas as instituições); num trabalho conjunto tem sido uma representante para a organização dos eventos promovidos pelo projeto.
Nesta visita, também acompanhou as atividades o prof. Élie Bajard , que ficou muito bem impressionado e fez as seguintes observações:
O grupo de jovens apresenta uma capacidade de análise grupal sobre o trabalho, como por exemplo:  

  • Diante das dificuldades encontradas apresentam uma preocupação em articular as diversas instituições, criam soluções diante da escassez do material.

  • A capacidade de elaborar novas propostas para ampliação do projeto no futuro. 

  • O entusiasmo manifestado em participar do projeto. 

  • O contato realizado com as crianças 

  • A construção do vídeo sobre o projeto em Manaus ? que pode servir para sensibilização de outros jovens, a capacitação e para informar os políticos pela ação desenvolvida.

  • A preocupação de relacionar o projeto com todas instituições. 
O Pólo vem desenvolvendo as atividades que consideramos necessárias para a construção mais sólida e crescente do Projeto Mudando a História.
Élie Bajard, doutor em lingüistica, professor convidado da Universidade de São Paulo, construiu uma experiência internacional de formação de professores no campo da aprendizagem da escrita através de vários países como a França, Argélia e Marrocos. No Brasil, como adido lingüistico da Embaixada da França, criou com o Ministério da Educação o Projeto Pró-Leitura. Élie está desenvolvendo uma abordagem da escrita enraizada na prática da literatura infantil e juvenil que está detalhada nos seus livros: Ler e dizer (Cortez Editora) e Caminhos da Escrita (Cortez Editora). Esta experiência entrou em convergência com o Projeto Mudando a História, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, para a construção da avaliação das aprendizagens da escrita construídas pelas crianças e jovens beneficiados neste projeto.
Mediadores de Leitura  
A Secretaria Municipal da Infância e da Juventude Seminf, tornou-se parceira do Projeto Mudando a História em junho de 2002. 270 agentes jovens foram capacitados a mediadores de leitura sendo que 43 tornaram-se multiplicadores do projeto. A Seminf beneficia através das mediações de leitura realizado pelos agentes jovens mediadores as seguintes instituições:  
Onde estamos mediando?  

  • Escola Municipal Amine Daou Lindoso ( Zona Sul ) ás quintas-feiras

  • Centro Educacional Francisca Gomes Mendes ( Zona Oeste ) ás quartas e quintas-feiras

  • Escola Estadual Machado de Assis( Zona Sul ) ás terças e quintas-feiras

  • Escola Municipal Maria Fernandes ( Zona Oeste ) ás quartas-feiras

  • Centro Municipal de Educação Infantil. Padre Cláudio Dalbon ( Zona Norte ) ás quintas-feiras

  • Escola Estadual Roxanna Pereira ( Zona Sul ) ás terças-feiras

  • CEMEI - Centro Municipal de Infantil Humberto Calderaro Filho ( Zona Leste ) ás segundas e terças-feiras

  • CEMECRE - Centro Educacional Maria Edna Cantoário Reis ( Zona Oeste ) ás quartas-feiras

  • Centro Municipal de Educação Infantil Tancredo Neves ( Zona Leste ) ás terças e quintas-feiras

  • Escola Municipal Beatriz Swerner ( Zona Leste ) ás quartas-feiras

  • Pastoral da Criança Menino Jesus Praga ( Zona Centro Sul ) aos 3º sábados de cada mês

  • Secretaria Municipal de Educação ? SEMED / Parintins aos sábados

  • Largo São Sebastião (atividade Pólo) aos domingos

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O bibliotecário e a mediação

Ezequiel Theodoro da Silva

Por várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar, necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos bibliotecários.

Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas comunidades existentes nas regiões brasileiras.

As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro, publicadas com o nome "Retratos da Leitura" (ver http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48), mostram que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à cultura escrita.

Inexistentes ou anacrônicas

Tais "retratos", em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando que as comunidades "se virem" no que se refere aos suportes profissionais que facilitem a convivência com livros e outros veículos da escrita.

Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca comunitária. Contou-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham "catado" livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas, quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.

Essa experiência com a "biblioteca catada" não é muito diferente de outras que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca, peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc., enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade pelas esferas governamentais.

"Melhor isto do que nada", dirão as más línguas. E talvez a minha própria língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades. Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O queijo e os vermes - o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido, de Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª idade,etc.) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área de biblioteconomia.

Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista, catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua "dispensa" no momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.

A briga de Darcy Ribeiro

Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro, trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse estereótipo está servindo realmente... No meu ponto de vista, ele também serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!

Para não colocar o bibliotecário como "vítima" de uma história meio ao contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações, são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para "tomar conta da biblioteca".

Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental. Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e alunos tinham muito interesse nos meus escritos.

Um navio à deriva

Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um episódio desta comédia tragicômica chamada "biblioteca brasileira". Sei, também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de volta.

Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, "haja paciência" para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo. Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo brasileiro.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Por que ler?

Poeta questiona e discorre em artigo sobre os benefícios da leitura

Por Frederico Barbosa

Muitas campanhas são feitas, no Brasil, para incentivar a leitura. No entanto, antes de nos perguntarmos como fazer os brasileiros, principalmente os mais jovens, lerem mais, temos que nos questionar sobre o significado da leitura em si. Se indicamos a leitura aos nossos jovens, é porque queremos que a tomem como hábito. Logo, consideramos o ato de ler uma prática salutar e recomendável. Até aí, isso pode parecer óbvio. Mas vejamos como começamos a patinar quando nos perguntam: mas afinal, por que ler é saudável? Por que ler faz bem? Alguns professores e muitos defensores da leitura terão respondido, seguindo a ideologia romântica de Castro Alves ("Bendito o que semeia ideias a mancheias e manda o povo pensar"): porque, lendo, o jovem adquire conhecimento e pode almejar um futuro melhor na vida, quiçá até ascender socialmente... Será?

Como incentivar a leitura numa sociedade que não lhe dá, na prática, o menor valor? Certo, o Brasil não é um país de leitores. Nunca o foi. Poucos foram os momentos em que a literatura conseguiu atingir, entre nós, um público mais amplo do que um pequeno grupo intelectualizado e fechado. Mesmo os nossos mais celebrados e consagrados escritores, como Gonçalves Dias, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade, foram e continuam sendo lidos apenas por uma pequena elite mais interessada e informada.

A maior parte dos leitores dos clássicos da nossa literatura parece estar reduzida, hoje, a colegiais que apenas os leem para cumprir uma enfadonha tarefa escolar. Leem obrigados, pela nota, e não pelo prazer da leitura. Grandes criadores de ficção, como Machado de Assis, José de Alencar ou mesmo o próprio Monteiro Lobato, transformam-se, na escola, em verdadeiros monstros, ainda que sagrados. Viram sinônimo de tortura, de chatice, de leitura imposta e cobrada. Um monstro é sempre um monstro: assustador. Um ser sagrado não deve ser tocado, curtido, lido. Deve ser reverenciado à distância, no altar ou na estante — intocado e fechado.

Perde-se de vista que um Machado ou um Alencar, que sempre procuraram deleitar e divertir os seus leitores, escreviam para serem consumidos, não para serem reverenciados. Para que o leitor se aproxime de um clássico, sem medo e sem reservas, é preciso que saiba que nem sempre foi um clássico. Muitas vezes foi um livro revolucionário e polêmico. Alguns foram até obras extremamente populares no seu tempo, como as peças de Shakespeare, que chegou a ser acusado, por seus contemporâneos, de ser um escritor apelativo e popularesco. Aquele que, ainda que muito bem intencionado, procura estimular a leitura de clássicos afirmando que são “fundamentais para se adquirir cultura” não tem, ele mesmo, qualquer prazer na leitura. Como pode querer estimular alguém a ler? Nas palavras do professor Sírio Possenti: "Na escola, praga mesmo é o professor que não lê. Quem não lê não sabe o que está perdendo, e, portanto, não tem por que aconselhar ou criar oportunidades para que outros leiam." (1)

Transformar os clássicos em “monstros sagrados”, em “altares do saber”, só pode afastar os jovens. Ler Camões para se fazer análise sintática, ou, como o fazem os destruidores de leitores mais modernos, Machado de Assis para analisar a conjuntura capitalista de sua época, só pode “enojar” qualquer leitor. No entanto, a sociedade brasileira substituiu, nas últimas décadas, a leitura enfadonha e autoritária (porque mal dirigida) dos clássicos pela leitura superficial e inconsequente da literatura infantojuvenil ou dos best-sellers acéfalos que dominam o mercado. Foi de mal a pior. Ainda segundo Possenti, “Os livros infantis em geral oferecem menos do que a criança já tem, numa forma menos interessante do que os próprios leitores já conhecem. A linguagem repetitiva e supostamente clara e simplificada só pode merecer dos leitores mirins o desprezo." (2)

De que adianta formar leitores de subliteratura, dos manuais de autoajuda, das narrativas lineares e moralistas ditas “espíritas” e de tantas outras formas apelativas e fáceis de sedução do leitor inocente? A leitura de tais obras em nada acrescenta aos seus leitores. A leitura por si só não faz alguém crescer ou pensar. Basta lembrar do quanto lemos exatamente para não pensar: para passar o tempo, para reforçar nossas ideias, para nos distrairmos. Boa parte do sucesso de escritores como Paulo Coelho se dá exatamente porque eles apenas reafirmam, com ares de grande descoberta, o óbvio mais ululante, o lugar-comum que, de tão evidente, torna-se mesmo incontestável e, portanto, cria um elo imediato entre os leitores e o autor, já que os primeiros concordam totalmente com as colocações, irrefutáveis de tão evidentes, do autor.

É uma total ilusão crer que os leitores de Paulo Coelho irão se transformar, um dia, em admiradores de Machado de Assis ou James Joyce. Sem provocação, sem estímulo, nunca irão. Não basta ler muito para ler bem ou para sofisticar o gosto. É possível sim, com a imensa oferta que há no mercado, passar toda a vida lendo apenas a literatura mais apelativa e indulgente. Sem uma mediação eficiente que estimule a passar de um tipo de leitura a outros, este passo simplesmente inexistirá.

Deveríamos voltar aos clássicos sim, mas fazendo deles uma leitura alegre, criativa e estimulante. Será tão difícil ler Sófocles? Que adolescente não há de se fascinar pelo drama de mistério que é Édipo Rei? Que adolescente de hoje não se identificará com os conflitos familiares de Antígona? Que adolescente não entenderá as oscilações de humor de Hamlet, ou rirá com A Megera Domada? É preciso lembrar, de novo, que Shakespeare foi um poeta popular, assim como Sófocles, o Goethe do Werther, Alexandre Dumas, Victor Hugo, José de Alencar...

Creio que o mediador de leitura, deve, em primeiro lugar, procurar conhecer bem seu público, observar o seu grau de maturidade para a leitura, seus interesses, seus preconceitos etc. A partir dessas informações, deve escolher obras que possam estimular o interesse e a curiosidade dos envolvidos. Nunca recomendar um livro apenas “por ser um clássico”, mas porque esse “clássico” pode contribuir para que os leitores se tornem mais maduros, mais interessados, menos preconceituosos; em suma, melhores. Não creio que existam livros “impossíveis”, há aqueles que são, de fato, muito difíceis para leitores muito jovens, por requererem, além da maturidade de leitura, conhecimentos de mundo e da própria literatura que eles ainda não têm. Por outro lado, um livro “difícil” pode sempre, dependendo muito de como for trabalhado por um mediador eficiente, tornar-se um estímulo para que o jovem procure aprender mais.

Assim, não parece existir uma idade certa para ler um clássico. Não podemos fazer generalizações neste campo, já que tudo depende somente da individualidade do leitor. Generalizações nesse (e em qualquer) campo são muito perigosas e tendem a ser um tanto autoritárias. Podem, e frequentemente o fazem, afastar o leitor jovem de livros que lhe poderiam ser fundamentais. Não acredito que a questão seja exatamente de idade, e sim de maturidade para a leitura. Digo maturidade para a leitura e não “do leitor” porque tendem a ser coisas diferentes, embora muitas vezes correlatas. Por maturidade para a leitura, entendo a capacidade de observar os jogos e as sutilezas de um texto e, portanto, sentir prazer na leitura. A capacidade de observação e o prazer, por sua vez, em muito dependem da curiosidade, do interesse do leitor, criança ou adulto. É isso que os mediadores deveriam estimular nos jovens leitores, e não tentar estimular a leitura através da reverência aos clássicos.

Dito isso, fica claro que a escola ou a biblioteca ideais trabalhariam com a leitura de cada indivíduo, caso a caso, já que a experiência pessoal conta muito para a fruição literária. Conta, mas não é tudo. Só quem se transformou em inseto pode ler Kafka? A criança que não quer levantar da cama para ir à escola não pode entender muito bem como se sente Gregor Samsa? Claro que pode. Ou estaríamos irremediavelmente condenados ao que chamo de “reality books”, praga análoga à dos “reality shows” televisivos. Um leitor de 15 anos, bem estimulado e interessado, pode, sim, entender qualquer livro de Thomas Mann muito bem. O fascínio de Aschenbach pelo jovem Tadzio... será tão distante assim dos adolescentes de hoje? Não poderia nos ajudar a entender Michael Jackson? Ou ajudar os adolescentes quando confrontados com situações análogas? É claro que, ao reler Morte em Veneza aos 20 lerá outro livro, e aos 30, aos 40... Ler é uma forma de viver outras vidas. A leitura pode e deve estimular a percepção de outras realidades, ajudar os jovens a sair da casca do egocentrismo que lhes é natural. O adolescente que está na fase do “ficar” tem muito a aprender e se deleitar com a tragédia sentimental de Emma Bovary.

É importante salientar, também, que, com frequência, o que o leitor encontra na leitura é um mundo bem diferente do seu. O que o atrai, muitas vezes, é exatamente o estranhamento, a possibilidade de, por meio dos livros, conhecer realidades (ou irrealidades) distantes. E assim, voltamos à questão do início: por que ler? Certamente há inúmeras respostas a esta questão. Mas quase todas são variações sutis de um denominador comum: para sentir. O grande romancista francês Marcel Proust nos ensina que “talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido.” Já a nossa Clarice Lispector aproxima o ato da leitura de uma “Felicidade Clandestina”, conto que se encerra com a constatação de que, ao conseguir o seu sonhado livro de Monteiro Lobato, a jovem e ávida leitora “não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.”

Se o poeta escreve para fazer os leitores sentirem a dor “que eles não têm”, como já o disse Fernando Pessoa, o leitor busca não apenas reconhecer no texto lido seus próprios sentimentos, mas também vivenciar, por meio da leitura, sentimentos por vezes desconhecidos, que, com frequência, projeta nas palavras ou mesmo na figura do poeta, ou do famoso “eu lírico”. Assim, a leitura amplia não só a bagagem cultural, mas, melhor ainda, até o repertório emocional e a experiência sentimental do leitor. Lendo uma obra realmente significativa, aprende-se a sentir mais e melhor, refina-se o gosto, o prazer, o sexo e até o amor.

1 - Sírio Possenti. Pragas da Leitura. Série Ideias, n.13. São Paulo: FDE, 1994.
2 - Idem.

Frederico Barbosa é poeta e diretor executivo da POIESIS - Organização Social de Cultura / Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura - http://www.fredericobarbosa.com.br/  e http://www.poiesis.org.br/

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Livro digital pode democratizar a leitura, mas muda a indústria do livro

Especialistas atribuem papel fundamental aos professores para incrementar a leitura e vêem no livro digital uma oportunidade de disseminação do conhecimento, mas que traz impactos para a cadeira produtiva

Os universitários estão lendo menos? Como estimular a leitura? O livro digital ameaça as editoras e sugere o desaparecimento do livro tradicional? Ou há novas possibilidades de negócios na cadeia do livro? Estas foram apenas algumas das questões discutidas durante a XXIII Reunião Anual da Abeu (Associação Brasileira das Editoras Universitárias) que reuniu, na sede da Fundação Editora da Unesp, em São Paulo, entre os dias 7 e 10 de junho, profissionais do mercado editorial e acadêmicos para reflexão sobre a leitura na universidade e o livro digital.

Segundo Eliane Yunes, da Cátedra Unesco de Leitura (PUC-RJ), pesquisa realizada com universitários revela que os índices de leitura dos estudantes é baixíssimo ao ingressarem na universidade, mas, ao saírem, há uma melhoria significativa, da ordem de 20%. Um aspecto fundamental levantado pela especialista é o papel dos professores como mediadores da leitura, "ensinando os alunos a lerem os textos, destrinchando-os, articulando-os, correlacionando os conhecimentos".

Outro fator identificado como estimulante é o acesso aos bens. Nesse sentido, "a internet configura-se como um instrumento facilitador", afirma Yunes, ressalvando, entretanto, que não é neste espaço que se forma um leitor. "A universidade pode formar novos e perenes leitores, mas cabe ao professor perceber e trabalhar a heterogeneidade de seus alunos", referendou João Luiz Ceccantini, professor do curso de Letras da Unesp, câmpus de Assis e vencedor do Prêmio Jabuti 2009, com o livro Monteiro Lobato: livro a livro. Carlos Erivany Fantinati, docente no mesmo câmpus, reiterou a importância de o professor exercitar a explicação de texto que, para ele, "não se trata de apenas elencar seus elementos constitutivos, mas sim de identificar os elos e liames entre esses elementos", tornando a leitura um desafio permanente.

Para o filósofo Pablo Ortellado, professor da USP, a digitalização do livro tem um impacto fundamental na difusão do conhecimento entre classes sociais, que antes não conseguiriam adquirir os livros. A renda familiar de muitos estudantes é inferior ao valor da bibliografia solicitada em cursos universitários. Sem a digitalização deste conteúdo, eles não teriam uma formação adequada, como explica Ortellado, que também é coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Publicas para o Acesso à Informação (GPOPAI). "Podemos fazer um comparativo com a indústria fonográfica, que precisou se reinventar após a digitalização da música. Eles utilizam a disseminação de arquivos em MP3 para divulgar o produto. E seu modelo de negócio passou por reestruturações", diz Ortellado, para quem as editoras deverão repensar seus modelos de negócios.

Segundo dados do Observatório do Livro e da Leitura, pelo menos 3% dos leitores brasileiros são adeptos de mídias digitais (dados de 2008). "O livro digital veio para ficar", afirmou o diretor da entidade, Galeno Amorim. Nesse sentido, Flávia Garcia Rosa, presidente da Abeu, foi enfática ao afirmar que "os professores universitários devem estar atentos aos desafios e possibilidades deste novo cenário".

Ainda não há números oficiais sobre a venda de conteúdo digital no Brasil, mas estima-se que cerca de 7 milhões de habitantes baixem livros diariamente pela internet e, destes, a maioria é jovens de 14 a 17 anos. Segundo o secretário Municipal de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil, há um esvaziamento nas bibliotecas de universidades, pois "os alunos preferem pesquisar na internet a buscar livros na biblioteca".

Mudanças no mercado editorial - Se de um lado há uma perspectiva de ampliação de acesso aos bens culturais, o livro digital impõe novos desafios para a indústria livreira. Durante a reunião, alguns participantes expuseram suas primeiras experiências com o livro digital. No caso da Imprensa Oficial de São Paulo, Hubert Alquéres, presidente da entidade, diz ter ficado muito surpreso com a quantidade de downloads e revelou que "algumas pessoas que baixam o livro, depois de ler, procuram o exemplar em papel, o que vai na contramão da ideia de que o digital substitua o tradicional".

Já o editor executivo da Editora Unesp, Jézio Hernani Bomfim Gutierre, contemporiza: "O e-book não deve ser considerado uma salvação para a difusão e tampouco o fim das editoras."

Experiência espanhola - Dentre os estrangeiros, Antonio Ávila Álvarez, diretor executivo da Federación de Grêmios de Editores de España, e Inés Miret, diretora da Neturity/Madri, apresentaram uma pesquisa sobre o impacto da digitalização no catálogo, canais de distribuição e vendas e políticas de preços na Espanha. Algumas constatações: por lá, os editores já admitem uma queda no preço de capa, para o formato virtual, entre 30% e 50%. E a aposta é que em oito anos a receita com a venda de livros digitais ultrapasse o volume de vendas de livros impressos em papel.

Dados da Fundação Germán Sánchez Ruipérez apontam que, naquele país, dos 50 primeiros livros mais visitados da Biblioteca Hispânica Digital, 40 são novos. "Até o fim de 2010, esperamos disponibilizar na rede cinco mil títulos", diz Álvarez.

Para o diretor presidente da Editora Unesp, José Castilho Marques Neto, o encontro representou um marco para que as editoras universitárias se situem em relação ao que está acontecendo."Ninguém tem certeza do que virá daqui para frente, mas essa é uma discussão substantiva que nos dá maior tranquilidade para buscar novos caminhos", disse. A Editora Unesp lançou, neste ano, uma primeira coleção de livros digitais, com acesso totalmente gratuito e disponível para download em http://www.culturaacademica.com.br/. Mais de 35 mil downloads foram feitos em menos de três meses.

Fonte: Pluricom

terça-feira, 23 de março de 2010

Excesso de prazer

António Prole fala sobre o incentivo à prática leitora
Renato Mendes, de Lisboa

Há quatro anos, ao aceitar o desafio proposto pela Fundação Calouste Gulbenkian, António Prole, filósofo e assessor da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas - órgão do Ministério da Cultura português - concebeu o projeto Casa da Leitura. Portugal começava então a ter consciência sobre a importância do letramento para o desenvolvimento da sociedade. Para o "arquiteto" da Casa os projetos similares pecam pela ênfase excessiva no prazer da leitura, em lugar do próprio ato de ler.

Como explicar o atraso de Portugal em questões ligadas à leitura?
Não só Portugal julgou que o problema da leitura estava resolvido, mas a Europa, porque os níveis de analfabetismo nos anos 60, após a 2ª Guerra Mundial, eram residuais. Os países do norte do continente tinham de 2% a 3% de analfabetos; a própria França tinha estes níveis. Eram países católicos que tinham problemas de analfabetismo e isso tem a ver com questões religiosas. Enquanto o protestantismo assentava a religião na leitura da bíblia, o catolicismo assentava a sua religiosidade na oralidade. Os altos níveis de analfabetismo aconteciam em Portugal, na Espanha e na Grécia.

Quais as principais deficiências na formação dos mediadores?
Existe um problema grave em Portugal, que é o dos bibliotecários públicos. Eles pertencem a uma rede importante de bibliotecas com grande qualidade do ponto de vista de seus acervos, de sua arquitetura e espaços. Mas continuam a ser aquilo que denomino "Docti": entendem muito de documentação e das tecnologias da informação, mas não têm nenhuma cadeira na sua formação sobre literatura infantil, sobre processos cognitivos de leitura e recepção leitora. Não possuem formação adequada para exercer a mediação de leitura.

Qual o propósito da Casa da Leitura?
A formação dos mediadores de leitura é uma questão central do projeto. Não é um curso de formação, é uma plataforma de informação que se dirige aos mediadores de leitura, aos bibliotecários, professores, estudantes universitários e todos aqueles que vão lidar com as crianças. A nossa função não é entrar na questão da formação, nosso objetivo é dar um contributo nesse sentido.

De que forma isso acontece?
Repare no próprio desenho arquitetônico da Casa. Na maior parte dos portais, até mesmo nos europeus, acontece o seguinte: ou divulgam a literatura infantil e depois sugerem algumas atividades que se podem fazer à volta, como por exemplo o dia mundial do livro, ou então são organizados nas questões sobre os processos cognitivos da leitura. O que é específico na Casa da Leitura é juntar esses dois mundos.

A convergência de informações torna o projeto inovador?
É inovador inclusive do ponto de vista da investigação teórica. No país há uma tendência para haver a separação entre a investigação sobre a literatura infantil e aquela sobre os processos cognitivos da leitura, que levam à compreensão.

Qual a semelhança entre esse conceito e o de uma biblioteca itinerante?
Idealmente, gostaríamos que esse projeto fosse uma biblioteca itinerante virtual adaptada às exigências do século 21.

Qual o principal erro cometido nos projetos de incentivo à leitura?
Há um excesso na tônica do prazer da leitura e na animação: a leitura como um êxtase, algo que nos transporta para um mundo ideal, que nos dá felicidade, enfim, como uma festa. É essa falta de sustentabilidade teórica que transforma muitos projetos num amontoado de atividades pontuais, mais ou menos lúdicas, em que sobra animação e falta atividade leitora.

sábado, 20 de março de 2010

No meio do caminho tinha um livro

Ideias inovadoras promovem a leitura, provando que com o estímulo certo cidadãos de todas as idades e classes sociais podem se tornar amantes das letras
 
Ele segura um livro de noções de eletricidade e explica que o volume foi o primeiro de sua coleção. Achada na famosa esquina das avenidas São João com Ipiranga, no centro de São Paulo, a obra foi salva de um destino que, para o catador de papel Severino Manoel de Souza, seria um “crime”: o reuso do papel. “Se um livro desses for para a reciclagem, quando ele for picotado, vai dar meio quilo”, avalia. “Isso vai render 10 centavos, não dá para comprar nem um pãozinho. Foi quando eu senti que era um crime.” Severino conta que assim iniciou uma coleção de livros, todos achados na rua. “Quando eu tinha uma faixa de 450, 500 livros, tive a ideia de montar a biblioteca.”

Hoje, no número 711 da avenida Prestes Maia, região central da capital, funciona a Biblioteca Comunitária Prestes Maia, dentro de um prédio ocupado pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro de São Paulo (MSTC). “Não foi tanto por mim, foi pelo carinho que eu tenho pelo pessoal aqui dentro, pelo carinho que eu tenho pelas famílias daqui, pelo carinho que eu tenho pelas crianças.” E elas, juntamente com os jovens e adolescentes, formam um contingente de 600 pessoas, parte das 468 famílias que moram no local. Ao todo, são dois mil moradores.

Essa história foi apresentada no vídeo Um Abrigo entre os Livros, de 2006 – produzido pelas Edições SM, com direção de Luaa Gabanini e roteiro e pesquisa de Fabio Weintraub. Como ela existem muitas outras, mas não se sabe o número. Segundo a doutora em ciência da informação ?Elisa Machado, não existe um levantamento sobre o assunto. No entanto, para sua tese de doutorado “Bibliotecas Comunitárias Como Prática Social no Brasil”, defendida em 2008, a pesquisadora levantou 350 dessas experiências e estudou, detidamente, 29 casos. “Encontrei de tudo [entre os criadores dessas iniciativas]. Professores, pedreiros, catadores de lixo, ex-seminaristas, enfim, pessoas das mais diversas formações – ou sem nenhuma formação”, diz. Em comum, segundo Elisa, apenas a vontade de difundir a informação e o conhecimento.


Cultura e lazer

A tese de Elisa Machado relata algumas dessas iniciativas, como a Biblioteca Solidária, criada em São José dos Campos, interior de São Paulo, pelo bibliotecário Sidnei P. Rosa. “Sidnei propôs à Secretaria de Cultura daquele município a criação de uma biblioteca pública no seu distrito”, escreve a pesquisadora no trabalho. “Tendo em vista a recusa da proposta, decidiu montar uma biblioteca comunitária em sua casa.” Outro caso exposto é do ex-seminarista Devanir Amâncio, que montou, na cidade de São Paulo, a Biblioteca dos Garis. Há também a Biblioteca Comunitária T-Bone, que o açougueiro Luiz Amorim criou, em Brasília, dentro de seu estabelecimento. “Essa situação perdurou até que a Vigilância Sanitária fechou o açougue por causa da ‘convivência’ indevida entre livros e carnes”, comenta a pesquisadora na tese. “Foi a partir desse incidente que a biblioteca foi transferida para uma casa próxima.”

Para o antropólogo Felipe José Lindoso, também editor e estudioso do mercado editorial e das políticas públicas para o livro no Brasil, um dos aspectos mais interessantes sobre essas iniciativas populares é a posição que ocupam. “Elas borram totalmente a distinção entre ‘cultura’ e ‘lazer’”, afirma. “Ali se encontram os livros didáticos e de referência, que ajudam ?alunos de todos os níveis de escolarização a fazer seus trabalhos, romances de todos os tipos, livros de autoajuda, manuais técnicos, revistas e jornais.”

Letras e pneus


É esse o caso da Borrachalioteca, criada pelo borracheiro Marcos Túlio Damascena, no município de Sabará, em Minas Gerais. Desde 2002, quando ele levou os primeiros livros para a borracharia onde trabalha com o pai, o seu Joaquim, a biblioteca não parou mais de crescer. “A comunidade vinha aqui todos os dias para ler jornal”, conta Marcos Túlio. “Aí, eu, que sou um amante dos livros, pensei: por que não colocar alguns livros também?” Foi com essa ideia na cabeça que Marcos foi até a biblioteca pública da cidade solicitar ajuda. “Fui até lá e pedi alguns livros”, diz. “Eles doaram 70. Em 2004, nós já tínhamos mais de 500.” Com sete anos de vida, a Borrachalioteca possui dez mil volumes em seu acervo na borracharia e mais cinco mil disponíveis numa segunda unidade, a Sala São Salvador – além de fama nacional, sobretudo depois de um destaque no programa Globo Repórter, da Rede Globo, em 2005. “Quando a gente saiu na imprensa, imagine no que resultou”, diz o borracheiro, que hoje estuda letras, com meia bolsa paga pela universidade graças à notoriedade conferida por sua iniciativa. A Borrachalioteca também organiza ações de incentivo à leitura. “A biblioteca tem de ser viva, não adianta você só deixar os livros lá”, diz Marco Túlio.

Mediação


As atividades complementares que Marcos Túlio realiza consistem, segundo os especialistas, num ponto fundamental do trabalho que toda biblioteca deveria desenvolver: a mediação de leitura. Ou seja, ir além da oferta de obras, garantindo que os leitores, ou futuros leitores, estabeleçam sua própria relação com o livro. “A maioria das pessoas conhece pouco as narrativas literárias”, explica a coordenadora do instituto A Cor da Letra, Márcia Wada. O instituto, fundado em 1998, realiza ações socioeducacionais e culturais. Para Márcia, existe um longo caminho até que as pessoas adquiram gosto pelos livros. “Uma vez presenciei uma situação muito curiosa”, relata. “Um grupo de jovens que a gente formou num dos projetos foi até o Parque do Ibirapuera para fazer umas leituras para crianças. Fui lá visitá-los e, quando cheguei, havia um guarda do parque de pé ao lado deles, e os meninos todos assustados. O guarda estava dizendo que não entendia o que eles estavam fazendo ali. Ou seja, num parque enorme, aonde as pessoas vão para andar de patins, de bicicleta, para brincar e fazer as mais diversas coisas, os meninos não podiam estender um tapete, colocar uns livros e ler para as crianças.” Segundo Márcia, a situação se resolveu, mas só depois de todos serem levados até a administração para conseguir uma autorização para... Ler.

Livros na bike


O projeto de Robinson Padial, o Binho Poeta, não tem nada de convencional. O comerciante criou a Bicicloteca que, como o nome denuncia, leva os livros para “passearem” sobre duas rodas pelas ruas do Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. “Eu tinha vontade de sair emprestando livros”, afirma Binho, que desde 1997 promove em seu bar o sarau Noite da Vela, ao qual os frequentadores vão para ouvir música, declamar poesias e ler trechos de obras. “Aí eu pensei numa bicicleta.” A ideia nasceu anos atrás, durante uma das edições da Expedición Donde Miras, uma caminhada que reúne pessoas em itinerâncias por todo o país. Numa dessas andanças, Binho comprou uma bicicleta velha por R$ 39 e a encheu de livros. “E aí a gente foi trocando livros com as pessoas. Foi bem interessante esse processo.”
Em 2008, a iniciativa passou por uma requalificação. Isso graças ao dinheiro conseguido com o Prêmio Vivaleitura, iniciativa do Ministério da Educação (MEC), do Ministério da Cultura (MinC), da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), e que faz parte do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) do governo brasileiro. Com a verba, Binho adquiriu duas bicicletas novinhas em folha e mais 250 títulos para seu acervo, hoje com quatro mil volumes.

Desde então, foram testados diferentes formatos para o funcionamento da Bicicloteca. Até que, há dois meses, Binho achou o jeito ideal. “Agora a gente decidiu ficar em dois pontos de ônibus, locais de grande circulação aqui. A gente enche os dois cestos de cada uma e estaciona lá.” O horário de funcionamento da Bicicloteca é das 10h às 17h, e a receptividade dos moradores, segundo Binho, é a melhor possível. “Não acontece, por exemplo, de as pessoas não devolverem o livro”, diz. “É incrível porque, como o nosso projeto é para desburocratizar o acesso, a pessoa não precisa dar nada além do nome, mesmo assim, todos os livros são devolvidos.” 
Estação biblioteca
Um outro exemplo de cuidado dos usuários com os livros pode ser conferido no projeto Embarque na Leitura, idealizado pelo Instituto Brasil Leitor (IBL) e desenvolvido pela Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) desde 2004. O trabalho consiste na criação de bibliotecas nas estações. A primeira surgiu em 1º de setembro de 2004, na estação Paraíso. Hoje, fazem parte do projeto as estações Tatuapé, Luz, Largo Treze e Santa Cecília, além de uma unidade na estação Brás da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Juntas, as seis unidades disponibilizam um acervo de 22.569 livros a 31 mil sócios. Ao todo, já foram feitos 270 mil empréstimos. O maior exemplo do êxito do projeto é o índice de não-devoluções das obras: 0,24%, o que equivale a um livro não devolvido a cada 400 emprestados. “Contrariando todos os pessimistas e confirmando nossas expectativas, o brasileiro respeita muito os livros e as bibliotecas”, informa a assessoria do Metrô. O projeto também oferece uma agenda de atividades ligadas à literatura, como tarde de autógrafos, conversas com escritores e contação de histórias. As bibliotecas funcionam de segunda a sexta-feira, das 11h às 20h.

Mundo de histórias


Programa BiblioSesc chega ao Sesc São Paulo com acervo de mais de sete mil volumes e atendimento nas zonas Leste e Sul da capital.
Há cinco anos rodando o país, por meio de iniciativas de outros departamentos do Sesc no Brasil, o programa BiblioSesc, há dois meses, faz parte das atividades do departamento regional de São Paulo. São dois caminhões com 3.800 livros cada um, para empréstimo sem a cobrança de nenhuma taxa. Nessa primeira fase de implantação podem ser encontrados em oito pontos da cidade, quatro locais na Zona Leste e quatro na Zona Sul. “O BiblioSesc é considerado pelo Sesc um programa porque tem uma ação contínua”, explica Francis Manzoni, assistente da Gerência de Ação Cultural (Geac) na área de literatura. “Ele começou como uma experiência no Sesc Pernambuco, levando livros para comunidades carentes, lugares onde não há bibliotecas disponíveis.” Esse foi o critério utilizado também pela experiência do Sesc São Paulo. “Foram escolhidas unidades que têm um entorno formado por bairros afastados e onde não há bibliotecas”, afirma Francis. “Interlagos e Itaquera são regiões distantes do centro e foram lugares onde o Sesc teve forte demanda de comunidades interessadas em receber esse tipo de serviço.”


O caminhão chega aos pontos onde fica estacionado – incluindo as duas unidades que sediam o programa – uma vez por semana, e o horário de atendimento é das 10h às 15h30. Segundo Francis, as equipes de implantação ainda estão trabalhando para que o programa atinja a plenitude de seu potencial de atendimento. “No começo, como estamos em período de implantação, o BiblioSesc está atendendo semanalmente”, explica o assistente. “Então, por exemplo, toda quinta-feira o caminhão estará na Praça Trabalhadores do Comércio. Mas a meta é atingir dez pontos com atendimento quinzenal. Assim, as comunidades vão se acostumar com os empréstimos e devoluções a cada quinze dias.” De acordo com Francis, está em andamento a aquisição de mais títulos infantis, pois esses primeiros meses revelaram que as crianças são as que mais procuram os caminhões cheios de livros. Segundo Francis, já se percebeu que esse é um “público em expansão no BiblioSesc de São Paulo.” “Mas isso não exclui, de maneira nenhuma, a terceira idade, adultos, famílias etc., que vão encontrar romances, clássicos e literatura contemporânea, e poderão compartilhar isso com filhos, netos e amigos”, diz. Além das estantes cheias de livros e do atendimento de pessoal treinado, o BiblioSesc oferece também um ambiente que convida à leitura. “Nós pensamos no início que, como as pessoas podem retirar o livro e levá-lo para casa, sem nenhum custo, elas não fossem ficar no caminhão. Mas, ao contrário, elas ficam, principalmente as crianças, que brincam e leem em torno do caminhão. Por isso, do lado de fora [de cada caminhão], há mesas para a consulta local, para leitura de revistas e jornais. As pessoas estão percebendo a biblioteca volante como um novo ponto de encontro nas comunidades.”
No que diz respeito aos títulos que podem ser encontrados no BiblioSesc, a diversidade mais uma vez marcará a ação do Sesc. Embora haja uma especial preocupação em oferecer e apresentar aos usuários clássicos e contemporâneos da literatura mundial, outros gêneros também poderão ser encontrados. “O BiblioSesc oferece livros diversos e que possam interessar a quaisquer pessoas, em diálogo com o repertório de leitura dos usuários nos bairros atendidos. Nosso objetivo é que comecem a ler e que tomem gosto pela leitura”, diz Francis. “Não pretendemos dizer o que é boa literatura, excluindo outros tipos de leitura. É claro que vamos oferecer a produção que consideramos importante, mas teremos um pouco de tudo.”

Outro serviço que o BiblioSesc irá oferecer é uma programação de Literatura que irá enriquecer o atendimento, contemplando, além do empréstimo de obras sem combrança de nenhum tipo de taxa, também o incentivo à leitura. “Esse será um diferencial do regional de São Paulo”, adianta Francis. “Já na programação de lançamento, de 16 de outubro a 15 de novembro (veja mais informações no site http://www.sescsp.org.br/), o BiblioSesc oferece contação de histórias, encontros com escritores, intervenções artísticas, apresentações musicais, rodas de leitura, brincadeiras, oficinas e toda uma programação que irá propor a mediação da leitura, o que é muito útil porque, junto à oferta de livros, damos importância para a mediação entre livros e leitores, entre os conteúdos dos livros e o repertório e campos de interesse do leitor.

Conhecimento ambulante


Iniciada com o escritor Mário de Andrade, nos anos 1930, ideia de biblioteca circulante é retomada pela prefeitura de São Paulo.

Durante a gestão do prefeito Fábio da Silva Prado, entre 1934 e 1938, a cidade de São Paulo, mais especificamente o centro, viu rodar por suas ruas uma curiosa novidade: uma biblioteca circulante que “passeava” pela cidade a emprestar livros para quem se interessasse. A ideia era simples, mas ao mesmo tempo genial. Se nem todos podem ir até os livros, eles iriam até as pessoas. Quem teve o insight? O escritor Mário de Andrade, criador e primeiro diretor do Departamento de Cultura da cidade –, um órgão que pode ser chamado de avô da Secretaria Municipal de Cultura.
O acervo ambulante começou a rodar em 1935, mas com o passar dos anos, e das gestões, a iniciativa não se manteve exatamente na pauta do dia. No entanto, 70 anos depois, os paulistanos voltam a conviver com a antiga criação de Mário, reformulada, e instalada em ônibus. Ônibus-bibliotecas. “A gente pode dizer que o ônibus-biblioteca foi criado pelo Mário de Andrade”, comenta Marta Nose Ferreira, coordenadora dos serviços de extensão da prefeitura. “Ao longo de todos esses anos, a iniciativa foi sendo mantida de maneira bastante tímida, até que teve um ápice na década de 1990, quando havia dez desses veículos, que cobriam 40 roteiros da cidade.” Porém, os ônibus foram quebrando, os livros se deteriorando e o serviço mais uma vez quase cai no esquecimento. “Mas agora, desde 2007, nós estamos nos esforçando para requalificar esse projeto”, explica Marta. “Hoje temos quatro veículos que rodam de segunda a domingo, em diferentes pontos da cidade.” Cada um dos ônibus percorre 28 bairros, todos localizados em regiões afastadas do centro expandido da cidade. “O Mário começou com veículos rodando pelo centro, mas é óbvio que, em 1935, não existia essa periferia que temos hoje”, retoma a coordenadora. “Por isso a gente agora faz o contrário, vai para todas essas outras regiões e não abrange mais o centro, já que há mais opções de acesso à informação na região central do que nessas outras localidades.”

Os veículos ficam estacionados nos bairros das 10h às 15h, período em que os quatro funcionários de cada ônibus, segundo Marta, veem o acervo de quatro mil livros sofrer uma circulação vertiginosa. “Nós temos uma média diária de 250 visitantes”, revela a coordenadora. “Se você fizer as contas, tendo em vista que o ônibus fica cinco horas no local, dá uma média de uma pessoa a cada um minuto e meio.” Marta conta que, por mês, a biblioteca ambulante empresta livros para uma média de 25 mil pessoas.
Quanto ao acervo, a coordenadora ressalta que, nos ônibus, não há o que chama de “preconceito literário”. Ou seja, encontra-se de tudo: do autor russo Dostoievski às aventuras do bruxo inglês Harry Potter, passando pelo best seller vampiresco Crepúsculo e também por livros que ensinam artesanato ou que dão dicas de economia doméstica. “A gente tem tentado se manter sempre muito antenado com o que as pessoas procuram”, conta Marta. “Se alguém chega querendo um livro que não tem no ônibus, nós mandamos como dica para o departamento que faz as aquisições. A ideia é sempre ir ao encontro do que o leitor quer.” E uma surpresa: embora bruxos, guerreiros e vampiros façam um tremendo sucesso com as crianças e jovens – público predominante dos ônibus-biblioteca – um livro que, segundo Marta, “não para na estante” é o clássico A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. “Temos demandas muito interessantes”, complementa. “Poesias de Mário Quintana e obras de Dostoievski, por exemplo, que não é um escritor popular e tão fácil de ser lido.” Marta relata ainda que, diante do que é presenciado a cada visita dos ônibus, a equipe começou a questionar mitos como os de que o brasileiro não lê ou o jovem ou as pessoas de classes sociais mais baixas ou mesmo os moradores da periferia. “Eles não leem ou não tem acesso à leitura?”, pergunta.

Incentivo à leitura


Unidades do Sesc realizam projetos e mantêm programas que difundem a importância do livro

Não é de hoje que o livro e a leitura estão entre os focos de atuação do Sesc São Paulo. São projetos pontuais, programas de caráter permanente e bibliotecas que, juntos, representam mais uma ação da instituição voltada à educação não formal. “O Sesc já tem um trabalho de incentivo à leitura em curso há muito tempo”, enfatiza Francis Manzoni, assistente da Gerência de Ação Cultural (Geac) na área de literatura. “São oito bibliotecas funcionando nas unidades Santo André, Campinas, Carmo, Ribeirão Preto, Piracicaba, Pinheiros, Araraquara e Pompeia. Todas oferecem empréstimo domiciliar, como o BiblioSesc, e nas demais unidades existem espaços de leitura com revistas, jornais e alguns livros para consulta local.”
Entre os exemplos dessa atuação encontra-se o programa Meus Livros de Viagem (foto), realizado pelo Sesc Consolação desde fevereiro de 2009. Trata-se de uma ação conjunta das equipes da biblioteca e o departamento de turismo social da unidade, que oferece uma seleção de obras literárias para serem consultadas e emprestadas ao viajante durante as excursões.

Outra atividade que merece destaque é o projeto Tertúlia, idealizado por Tiago Novaes. Descrita por Francis como “uma abordagem mais especializada sobre literatura”, a ação, desenvolvida de outubro a dezembro nas unidades Pinheiros, Ipiranga, Araraquara e São Carlos, consiste em encontros com escritores como Antonio Cícero e Ferreira Gullar comentando a obra de Fernando Pessoa, por exemplo, ou Cláudio Willer falando sobre Hilda Hilst ou ainda Bernardo Ajzenberg falando sobre Philip Roth. No Sesc Pompeia, a versão do projeto Tertúlia tem reunido tradutores de grandes escritores estrangeiros como Kafka, Virginia Woolf, Miguel de Cervantes, Fiódor Dostoiévski, Charles Baudelaire, Leon Tolstói, Gabriel Garcia Marques, entre outros. “Tradutores não são autores, mas participam de um modo indispensável na inserção de uma obra literária e do universo de um autor em uma língua, em outro universo linguístico, no modo mais particular de comunicação de um povo. Já publicaram, são em geral também autores, mas têm um estudo tão profundo, por meio da tradução, que podem falar sobre os escritores que traduziram com uma propriedade incomparável.” Em novembro, no Sesc Ipiranga, o projeto trará a escritora e professora de teoria da literatura e de literatura comparada da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Maria Esther Maciel para falar sobre o autor argentino Jorge Luis Borges, no dia 12, e o escritor e dramaturgo Márcio Souza para analisar a obra do paraense Inglês de Souza, introdutor do naturalismo na literatura brasileira.

No Sesc Araraquara, a literatura se destaca no projeto De Quem É Essa História, realizado desde 2007, cujo objetivo é estimular o hábito da leitura. O formato é o de contação de histórias. “A equipe aborda a produção literária infanto-juvenil por década. Neste ano, eles estão na década de 1980”, comenta Francis.

Com curadoria de Elizabeth D’Angelo Serra e direção artística de Márcio Pontes, o projeto, este ano, irá mostrar as inovações na produção desse gênero literário.

Na unidade Carmo, o livro vai até as empresas por meio do programa Baú de Letras. São caixas que se transformam em estantes e ficam disponíveis por dois meses nas empresas que se cadastram no programa. “Essa ação tem dado resultados há muitos anos no Sesc de todo o país, revela Francis. “Ela continua viva porque tem uma eficácia muito grande. Dentro de uma empresa, imagine, as pessoas não têm muito tempo de ir até uma biblioteca, de explorar títulos e conhecer autores.”

Já na terceira edição, o projeto Versões, criado e desenvolvido no Sesc Campinas, se volta para a literatura contemporânea brasileira e propõe encontros entre autores. “Um escritor escolhe o trabalho de outro para comentar e ambos se encontram. As escolhas se interligam de forma a criar um panorama da produção literária atual, comenta Heloísa Pisani, técnica da área de literatura da unidade. “Em outubro, Marcelino Freire comentou Santiago Nazarian, que indicou Ana Paula Maia como tema. Esta, por sua vez, preferiu a escritora Índigo, que falou sobre Rodrigo Lacerda. Fazem parte do programa workshops com os escritores, saraus e oficinas de produção de texto. Já o Sesc Ipiranga realiza o Versatilidades, desde março, com o objetivo de misturar várias linguagens artísticas para discutir literatura. Passaram pela unidade, em 2009, Marcelino Freire, Adriana Lisboa e João Anzanello Carrascoza. Shows, murais, espetáculos de teatro, filmes, leituras e saraus compõem a versatilidade da Literatura e dos autores.

Projetos como o Literatura Plural, que esteve na pauta de outubro do Sesc Osasco, têm experimentado diferentes vivências com a palavra e com a literatura, em permanente diálogo com zonas de interesse e territórios de leitura identificados na região.

No entrecruzamento com outras linguagens artísticas, a literatura está sempre presente na programação do Sesc. A exposição Quem Quiser que Conte Outra, em destaque no Sesc Santana durante os meses de outubro de 2009 a fevereiro de 2010, é um projeto que tem como objetivo discutir a importância dos contos de fada e da tradição oral. Por meio de uma grande instalação cenográfica são apresentadas histórias coletadas e recontadas dos Irmãos Grimm, das quais destacam-se Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, Branca de Neve, Cinderela, entre outras.

Para saber detalhes sobre os programas e mais informações sobre os projetos basta consultar o Em Cartaz.

Fonte: Revista E SESCSP