quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Pediatra dá dicas de como exercitar a leitura em cada fase da infância

Por Dr. Mário Roberto Hirshheimer - Presidente da SPSP Fonte:Pediatra Orienta - SPSP


As experiências vivenciadas pelas crianças têm grande influência no seu desenvolvimento. Tudo o que as crianças experimentam no mundo externo (vivências e estímulos cognitivos, sensoriais e afetivos) desempenham um papel em sua constituição como indivíduos. Uma importante vivência é ler para elas. A leitura é tão importante, que “receitar livros” se tornou uma recomendação médica.
receite_um_livro
A campanha Receite um livro é uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Pediatria, em parceria com a Fundação Itaú Social e a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal.
Benefícios da leitura na primeira infância:
• Fortalece o vínculo com quem lê para ela (pais, familiares ou cuidadores).
• Desenvolve a atenção, a concentração, o vocabulário, a memória e o raciocínio.
• Estimula a curiosidade, a imaginação e a criatividade.
• Ajuda a criança a perceber e a lidar com os sentimentos e as emoções.
• Auxilia no desenvolvimento da empatia (a capacidade de colocar-se no lugar do outro).
• Ajuda a minimizar problemas comportamentais, como agressividade, hiperatividade e comportamento arredio.
• Auxilia na boa qualidade do sono.
• Desenvolve a linguagem oral.

Como ler para crianças de 0 a 6 anos
A partir da 25ª semana de gravidez, o bebê já consegue “sentir” o som e ouvir a voz da mãe. Por isso ele reage quando escuta canções e a voz dela e se mexe dentro da barriga. Isso que significa que ele escuta e já está, de certa forma, em comunicação com a mãe. Assim ele nasce com essa memória. O bebê é muito sensível à entonação da voz e é graças a ela que começa a construir significado. A vida cotidiana está cheia de ordens (“não mexa”, “escove os dentes” etc.). Por isso, é necessário oferecer às crianças outro linguajar, isto é, a da escuta, da leitura em voz alta.
Contar histórias é uma prática importante, pois caracteriza um momento de extrema conexão entre a criança e o cuidador, já que, além do conteúdo que está sendo passado, há troca de olhares e contato afetivo, que são muito importantes para a criança desde os primeiros meses de vida. Mesmo que a criança não compreenda ainda o significado das palavras, ela compreende as expressões faciais, o gesto de carinho e a suavidade do tom de voz. Por isso, esses momentos são de interação muito significativos.
A leitura tem papel fundamental no desenvolvimento da linguagem. Por isso, os livros devem fazer parte do universo do bebê desde o nascimento. Quando os cuidadores estão lendo, eles descobrem a estrutura da linguagem e, pouco a pouco, percebem que são as imagens e as letras que fazem os pais contarem as histórias. Assim, a criança vai descobrindo, aos poucos, que as letras são símbolos e que os textos contêm significados.
A leitura deve ser um momento prazeroso, tanto para as crianças quanto para os adultos. Por isso, é importante que os pais escolham livros, histórias, canções, jogos e brincadeiras de que eles também gostem e que remetam às experiências agradáveis que eles tiveram na sua infância. O foco aqui é ser espontâneo e expressar afetividade pelo bebê e não iniciar um processo precoce de alfabetização ou realizar atividade com finalidade pedagógica.
Para que a leitura se torne hábito e contribua efetivamente para o desenvolvimento, ela deve fazer parte da rotina de cuidados do bebê, assim como a alimentação e os rituais da hora de dormir. Então, é preferível ler pequenos textos todos os dias a ler um livro inteiro em um único dia e depois esperar uma semana até a próxima leitura.
Do nascimento até por volta dos 3 anos, os bebês costumam manipular o livro para ganhar familiaridade com ele. Aos poucos vão compreendendo que esse objeto tem significado. Então, é bom ter livros de borracha, de plástico, de tecido e com texturas para o bebê manusear livremente e outros para a leitura propriamente dita.
De 0 a 5 meses
Os bebês começam a prestar atenção nos gestos dos pais e a imitar os sons. Aos quatro meses, já podem olhar as imagens de um livro, como a pessoa que lê para ele. Afinal, a palavra “cavalo” não dá a forma do cavalo. Então é necessário mostrar-lhe a imagem do cavalo para que ele possa interiorizá-la. Então, os pais podem:
• Apontar as figuras que estão no livro e dizer em voz alta o nome daquilo para o qual o bebê estiver olhando;
• Virar as páginas de acordo com o interesse do bebê;
• Representar com gestos ou com a voz a figura que estiver mostrando para o bebê;
• Imitar os sons que o bebê faz e observar sua reação.

De 6 meses a 1 ano
Nessa fase, a leitura já é bem interativa e os pais devem conversar com a criança sobre as figuras, as formas, as palavras e os sentimentos, relacionando-os com a vida cotidiana. Os bebês, quando conseguem se sentar, já conseguem segurar os livros e também colocá-los na boca. Nessa fase, os pais podem:
• Nomear as figuras que o bebê aponta no livro ou aquelas em que ele fica interessado;
• Ajudar o bebê a virar as páginas do livro;
• Transmitir o clima da história por meio da entonação da voz, de gestos e de expressões faciais;
• Conversar com o bebê e fazer perguntas sobre as coisas que ele está ouvindo ou fazendo. Por exemplo: “Olha o cachorrinho. O cachorrinho faz au-au”;
• Seguir as indicações do bebê para ler mais, repetir ou parar.

É bom ter livros de borracha, de plástico, de tecido e com texturas para o bebê manusear livremente e outros para a leitura propriamente dita
É bom ter livros de borracha, de plástico, de tecido e com texturas para o bebê manusear livremente e outros para a leitura propriamente dita
De 1 ano a 2 anos
Nessa fase, a criança consegue escolher um livro e entrega-lo aos pais para que o leiam. Também aponta as figuras e copia as expressões e os gestos do adulto que está lendo para ela. Assim, os pais podem:
• Usar diferentes vozes para representar os diversos personagens das histórias;
• Fazer perguntas para que a criança responda apontando. Por exemplo: “Onde está o gato? ”, “Quem faz miau? ”;
• Incentivar que ela faça o som de determinado animal. Por exemplo: “Como a vaca faz? Mu!”;
• Sorrir e responder quando a criança falar ou apontar;
• Deixar a criança virar as páginas do livro;
• Ler a mesma história várias vezes, se a criança quiser;
• Acrescentar mais palavras quando a criança apontar uma imagem. Por exemplo: “Menina. Essa menina é bonita”;
• Fazer outras perguntas sobre as figuras que ela apontar. Por exemplo: “Cadê o cabelo da menina? ”, “E o cabelo da mamãe? ”, “E o seu cabelo? ”;
• Nomear e demonstrar ações e emoções nas histórias. Por exemplo: “A menina está rindo”. E então rir para o bebê;
• Levar sempre um livro quando sair com o bebê e ler para acalmá-lo ou distraí-lo.

De 2 a 4 anos
Essa é a fase em que as crianças mais gostam de exercer a previsibilidade e, por isso, gostam que os pais leiam as mesmas histórias várias vezes. Também repetem palavras e frases e participam mais da leitura. Os pais podem:
• Fazer perguntas sobre as imagens do livro para que a criança responda. Por exemplo: “O que é isto? ”;
• Ler livros que apresentem ações que as crianças já entendem como inusitadas. Por exemplo, “Os três lobinhos e o porco mau”, ou “O cachorro que faz miau”;
• Valorizar todas as perguntas e comentários que a criança faz, pois são boas oportunidades para começar uma conversa;
• Dar espaço para que a criança faça comentários sobre alguma figura ou palavra;
• Incentivar a criança a contar sua história favorita, de sua própria maneira;
• Levar a criança a bibliotecas ou livrarias para escolher livros ou ouvir histórias;
• Mostrar para a criança como as coisas que acontecem com os personagens são parecidas com algo que ela mesma já fez ou viu;
• Falar sobre os sentimentos dos personagens e perguntar se ela já sentiu a mesma coisa;
• Deixar que a criança conte o que acontece em seguida ao ler histórias já conhecidas.

De 4 a 6 anos
Nessa fase, as crianças escolhem os livros que querem que os pais leiam e fazem perguntas sobre as coisas que acontecem neles. Também corrigem os pais quando eles pulam uma parte de um livro já familiar e conseguem contar uma história conhecida com as próprias palavras. Os pais podem:
• Conversar de forma espontânea sobre os assuntos do livro;
• Responder com interesse às perguntas e os comentários da criança;
• Mostrar para a criança que você está lendo as palavras do livro;
• Ler a história do jeito que o autor escreveu, sem alterar as palavras estranhas e diferentes que ampliam o vocabulário da criança.

A importância do texto escrito
• Apresenta frases completas, sem omissões típicas da fala;
• Respeita a concordância de tempo e, dessa forma, ajuda a compreender a ordem natural dos eventos;
• Utiliza algumas categorias gramaticais com maior frequência do que a fala, especialmente advérbios, preposições, conjunções e pronomes;
• Estimula e permite à criança memorizar, decorar, repetir palavras e frases, antecipar cenas e, dessa forma, ampliar seu repertório semântico e sintático. Isso contribui para:
o Trabalhar a pronúncia das palavras
o Promover maior consciência fonológica
o Conhecer e apropriar-se do universo discursivo;
• Introduz personagens diversos, que permitem à criança sair de si e estabelecer relações de previsibilidade de comportamentos, sentimentos e ações. Isso contribui para:
o O desenvolvimento das habilidades como falar e escutar e das relações sociais
o A criança sentir-se parte da comunidade a que ela pertence.

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Relator:
Dr. Mário Roberto Hirshheimer

Presidente da SPSP.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A importância de ler para crianças

Pais que têm o hábito de ler para os filhos contribuem para um bom desempenho escolar, aponta estudo. Segundo especialistas, crianças também se tornam mais ativas, confiantes e sociáveis. 

Na Alemanha, pelo menos um em cada três casais de pais lê, mais de uma vez por semana, para crianças que ainda não sabem ler e escrever. É o que aponta o estudo da fundação Lesen (Ler, em português) divulgado nesta semana. Segundo o estudo, mais que um simples ritual antes de dormir, ler para os filhos regularmente tem um efeito positivo sobre o desempenho escolar deles.

Dos entrevistados, 18% leem um livro por dia para seus filhos. Outros 15% leem menos de uma vez por semana, e 15% simplesmente nunca leem. Já em 2014, o estudo constatou que aproximadamente 30% de todos os pais raramente ou nunca leem para seus filhos na Alemanha.

No Brasil, uma pesquisa de 2012, encomenda pela Fundação Itaú Social ao Datafolha, constatou que 96% dos adultos acreditam que ler para as crianças é importante, mas apenas 37% deles colocam isso em prática. Dos mais de 2 mil entrevistados, 63% não leem para crianças, enquanto apenas 7% leem todos ou quase todos os dias da semana.

Desempenho escolar

De acordo com o estudo da Lesen, a nota média na disciplina Alemão para crianças de oito a 12 anos cujos pais liam diariamente foi sete décimos mais elevada do que entre as crianças cujos pais raramente ou nunca liam. Também em outras disciplinas, como Biologia e Artes, o desempenho do primeiro grupo foi melhor.
Dos adultos leitores assíduos, 84%afirmaram que o filho ia bem na escola. Entre os raros ou não leitores, esse número foi de apenas 33%. Um em cada dois filhos de "pais leitores" considerou seu desempenho na escola bom, contra apenas 12% das crianças que não tinham esse hábito.

As diferenças nas notas não dependem do nível de educação dos filhos, segundo o estudo. As proporções de crianças com notas boas ou muito boas em alemão foram semelhantes em todos os níveis de ensino dos pais. De acordo com as conclusões do estudo, todas as correlações entre leitura e comportamento das crianças nada têm a ver com o grau de formação dos pais.

Responsabilidade

Os livros podem preparar as crianças desde cedo para "o lado sério" da vida. Entre as crianças de oito a 12 anos alfabetizadas, 80% acreditam que seus colegas as consideram "muito confiáveis" ou como alguém que "normalmente nunca se atrasa". "Essas crianças são vigorosas e ativas", diz Simone Ehmig, diretora do Instituto de Pesquisa para Leitura e Mídia, na Alemanha.

"Essas crianças estão mais dispostas, no futuro, a assumir responsabilidades na vida profissional e realizar as coisas de forma criativa", afirma. Entre as crianças que não recebem o estímulo da leitura pelos pais, nem metade se considera confiável e pontual.

Vida social

Além disso, a leitura também tem um efeito positivo sobre a vida social da criança, segundo a avaliação de pais e filhos. Cerca de 90% dos leitores frequentes disseram que o filho "gosta de brincar com outras crianças" e "constrói rapidamente novas amizades". Os pais não leitores disseram que isso é mais raro entre seus filhos.

Os pesquisadores cruzaram dados para verificar se as características positivas são mesmo efeito da leitura. Eles determinaram as experiências sociais das crianças que poderiam ter influenciado de forma similarmente positiva o seu comportamento. O resultado: mesmo as crianças mais isoladas socialmente mostraram características positivas quando tiveram muito contato com a leitura.

O estudo não especificou um conteúdo específico de leitura para cada faixa etária. "Acredito que não dependa tanto do conteúdo", diz Jörg Maas, chefe da fundação Lesen. No ano anterior, a equipe explorou se o tipo de livro importava, e o resultado foi que o tipo de mídia não tem um papel significativo. Pode ser um livro infantil clássico, mas também um tablet ou computador – bom para os pais fãs de tecnologia.
AF/dpa

Fonte: Deutsche Welle

sábado, 7 de novembro de 2015

Como despertar o amor pela leitura

O incentivo pela leitura deve começar de forma natural, pelo contato do aluno com o livro, pela curiosidade e pelas oportunidades que escola e família oferecem 

Folha Vitória 

Era uma vez uma criança que tinha como melhor amigo um livro. Essa amizade nasceu de forma espontânea, mas contou com duas ajudas muito especais: a família e a escola.

Teresa Spinassé, coordenadora pedagógica da Escola da Ilha, afirma que a escola é indispensável no processo de despertamento da criança pelo prazer da leitura, porém é preciso conhecer e respeitar as preferências de literatura do aluno. “A primeira coisa é não obrigar a criança a ler. O incentivo à leitura começa pelo contato que ela tem com livros, é viver o livro, entendê-lo. O começo do gosto pela leitura começa pelo aspecto emocional, pelo gostar do livro”, explica a especialista.

Algumas medidas na escola são interessantes para fomentar o gosto pela leitura. Ler em voz alta, deixar que a criança pegue o livro sem intervenção de um adulto, ter uma biblioteca com livros atualizados e conservados, e deixar que os alunos levem os livros para casa são medidas que aproximam os pequenos da paixão para ler.

Já a família entra com o exemplo. Se a leitura é um hábito dentro de casa, se a criança vê o pai, a mãe e os irmãos lendo e gostando de ler, ela se sentirá mais à vontade para participar desse processo. 

Tudo no seu tempo

A maioria dos pais traz consigo a ansiedade de ver o filho lendo seu primeiro livro. Mas isso é um processo que tem etapas que precisam ser respeitadas. Segundo Teresa, já está comprovado que a idade que a criança aprende a ler não quer dizer inteligência. “Precocidade não é sinônimo de inteligência, essa pressa excessiva é até pior. Estimular é diferente de forçar”, orienta.

A coordenadora pedagógica explica que a faixa média de leitura é de sete anos, mas algumas chegam a aprender com quatro. O mais importante, segundo Teresa, é instigar a curiosidade pelo livro, o contato com ele, e, assim, a leitura virá naturalmente. O pisca-alerta precisa ser ligado se a criança já estiver com cerca de 10 anos e, ainda assim, apresentar dificuldades na leitura.

Entrevista com Rosely Sayão: a leitura ensina as crianças a criarem narrativas sobre a vida

Educadora, autora de livros sobre educação infantil, reforça a importância dos pais mergulharem na “grande aventura” que é a leitura
Que a leitura transforma, todo mundo sabe. Mas para a educadora paulistana Rosely Sayão, que há 40 anos trabalha ajudando os pais a educarem seus filhos, a literatura tem uma missão ainda mais importante na vida das crianças: inseri-las na sociedade e ensinar, em palavras simples, sobre a grandiosidade da vida.
Escritora, blogueira e comentarista de veículos como Folha de S. Paulo, UOL e Band News FM, Rosely aposta na leitura como prática para que as crianças exercitem não apenas a educação, mas também o letramento, ou seja, a capacidade de se colocar no mundo por meio da linguagem.
Rosely, que cresceu roubando a chave da biblioteca de seu pai para ler Monteiro Lobato, teve um papo super gostoso com a gente sobre livros e sobre os vínculos familiares que se formam com a leitura. Confira ;-)
Ler para as crianças é importante para a educação formal, ou para o aprofundamento de laços entre pais e filhos? Ou para ambos?
Primeiramente, é o estabelecimento e a manutenção o de vínculos. Porque quando uma pessoa traz os filhos ao mundo, a grande missão dela é apresentar o mundo para essa criança. E nada melhor que a literatura para apresentar esse mundo.
É dizer para a criança que estou aqui para isso: contar histórias sobre esse mundo em que você vai viver. Para a educação formal, a leitura traz efeitos colaterais: na relação com os pais, na curiosidade, na escuta atenta, com a criança sentindo que aquele tempo da leitura é um tempo dedicado só para ela…
Tudo isso reflete na formação, na cultura e na imaginação dos filhos.
Ao longo de seu amplo contato com pais e filhos, a senhora pode dizer que ler para os filhos é uma preocupação que as maiorias dos pais têm?
O que há é um estímulo muito grande da sociedade para que os pais pensem no futuro dos filhos. E, ao se pensar só no futuro, o presente fica muito prejudicado. As crianças perdem grande parte da infância em nome de um futuro que não há garantia alguma que vá ter o caminho que a gente imagina, oferecendo o que a gente oferece.
Os pais estão muito preocupados com a alfabetização, mas é a leitura de histórias para os filhos que introduz a questão do letramento, que é mais importante que a alfabetização.
O QUE É LETRAMENTO? “De maneira resumida, é a compreensão que a linguagem é um meio de comunicação. Por que se aprende a ler e escrever? Para tirar nota na escola apenas? Se as crianças têm a compreensão de que a linguagem escrita pode comunicar o que ela pensa e sente, a motivação é totalmente diferente.
Os livros devem ser tratados desde cedo como um lazer, ou como um hábito — algo como uma “lição” importante?
Eu não gosto da palavra hábito. Eu gosto mais da palavra ritual, acho que o ritual de leitura pode ser estabelecido. Porque o ritual, diferentemente do hábito e da rotina, pode ser mudado.
Por exemplo, se a mãe costuma contar histórias antes do filho dormir, e um dia ela estiver muito cansada, ela pode não contar aquele dia mas o ritual não fica afetado, muda-se a hora e o jeito. Quando é rotina, aí afeta. É um momento que deve ser gostoso, não é mesmo?
Eu conheço muitas famílias que têm esse costume de contar história pro filho antes de dormir, algo que termina quando se completa 5 ou 6 anos. Mas seria justamente nessa idade a hora de pedir pros filhos contarem as histórias para os pais, para ver o que sai, que narrativas são essas que eles aprenderam a criar ouvindo todas as histórias que contamos a eles.
Acho bonito as famílias que diversificam a maneira de contar: a dramatização no tom de voz, o uso de objetos, deixar o filho contar pelas imagens… O letramento, alias, não se dá apenas através da linguagem escrita ou oral — tudo é linguagem.
Quando a criança vê um livro ilustrado, é uma linguagem. Há um filme nacional antigo, que me escapa o nome, em que numa cena um dos personagem tira sarro do irmão mais novo que está lendo um livro ao contrário. Aí o irmão pequeno responde dizendo — “E daí? Mesmo assim eu estou lendo!”. É disso que estou falando.
Foto: Ana Shiokawa
Às vezes é difícil para alguns pais atuarem com criatividade e desenvoltura na leitura de histórias. A senhora acha que isso é reflexo de sermos um país onde lê-se pouco?
A leitura é um mergulho numa grande aventura. Por exemplo, perceber como uma palavra vem antes da outra, e combinar as duas de uma maneira inimaginável — jogar-se no texto. Nossa maior dificuldade é essa, pois há muitos anos nós entramos na era do texto objetivo, que é ir logo aosfinalmentes, quando a beleza da leitura não são os finalmentes.
Os livros são boas táticas para os pais responderem a perguntas como “de onde vem os bebês?”
Sim, eu adoro isso. Porque há conversas que são constrangedoras, temas como sexualidade e morte. E há livros maravilhosos que são capazes de abordar esses assuntos supercomplexos de maneiras poéticas e acessíveis.
Eu vejo o livro como mediador da relação dos dois. Algo como, no fundo da sinceridade, o pai querendo dizer “olha me filho, se eu tivesse condição, eu lhe explicaria essa questão assim como está escrito nesse livro”.
Por fim, quais suas lembranças de leitura infantil? Que livros passaram por sua infância?
Meu pai foi um filho de imigrantes árabes que não pode estudar. Ele fez só o primário e teve que sair, pois era muito pobre. Mas com o tempo ele teve vontade de chegar até o conhecimento, então uma parte de seu salário ele usava para comprava livros. E para poder ter mais livros, comprávamos em sebos. Então nós tínhamos uma biblioteca maravilhosa que ele fechava à chave, e a gente morria de curiosidade!
O primeiro livro que leram para mim foi “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato. E mais crescida, aos 10 anos, eu aprendi a roubar a chave da biblioteca para ler os livros (risos). Nessa idade eu li “Urupês”, que eu não fazia a menor ideia do que ele falava, mas eu li! Então a minha grande lembrança da infância foi Monteiro Lobato, eu imaginava muito o sítio (do pica-pau amarelo).
Fonte: Itaú