sexta-feira, 7 de junho de 2013

Quem lê, escreve e fala bem

Valeska de Araújo Guedes - Graduada em Administração e Direito
Matéria publicada em 15/03/2012
Nos tempos em que a interação interpessoal pelos meios virtuais se tornou um costume, com o ‘curtir’ no Facebook e o RT no Twitter começo a ver que as pessoas estão desaprendendo o hábito de escrever e de construir ideias. Não que estas não sejam formas de comunicação - são sinais, digamos assim - mas é preciso atentar ao seu uso contínuo que acaba por minar o hábito da escrita.

Saber ler e escrever é um requisito de alfabetização, mas é muito mais que isso. Saber ler e escrever é uma exigência das sociedades modernas que requerem, face ao mundo globalizado, aperfeiçoamento profissional interdisciplinar e conhecimento linguístico. Há, contudo, uma diferença entre saber ler e a prática efetiva da leitura, entre ações movidas pelo senso comum e outras formadas a partir de um embasamento teórico construído por meio da leitura.

Se a habilidade com as letras é uma necessidade e permite a realização de atividades básicas, como identificar uma linha de ônibus, a prática da leitura é importante instrumento para o exercício da cidadania e a participação social. Razão que justifica as repetitivas discussões sobre a necessidade de estimular crianças e jovens ao hábito da leitura, transformando-se numa meta que envolve destinação de verbas dos governos municipal, estadual e federal.

Lendo e acompanhando as notícias, percebo que os discursos políticos se voltam sempre para os pilares essenciais - saúde e educação. Mas com relação a este, o que vejo são ocasionais obras de fachada, como a construção de escolas com teto desmoronando sobre as crianças, além do descaso dos gestores com os professores que, sendo mal remunerados, buscam o reconhecimento de seu árduo e indispensável labor por meio de greve.

Sendo assim, a educação é política essencial aonde? Como os professores poderão promover o hábito da leitura se lhes falta o essencial que estimule as crianças a ir para a escola? Como podem os professores dedicar-se com mais afinco se são mal remunerados? Como incentivar a criação literária se as bibliotecas são precárias e o acervo acumula-se entre traças e ácaros que mais atrai doenças respiratórias do que pretensos leitores?

Posso estar exagerando na minha crítica, mas ainda que assim esteja não haverei de dizer que é de todo excessivo o meu desabafo questionador. Existe um fundo de realidade no meu comentário, basta chegar mais perto, visitar in loco uma escola, uma biblioteca e conversar com alguns professores da rede pública para perceber o fundamento do que exponho. Falta estrutura adequada, professores comprometidos, livros atualizados e incentivo, de modo geral.

E eu me arrisco a dizer que esta temática não fica adstrita à rede pública, apenas. Percebo também o esforço dos pais que querem livrar os filhos da falência das escolas públicas e, mesmo com sacrifícios, matriculam seus pupilos em escolas particulares, achando que estarão livrando-os de uma péssima formação educacional. Mas a situação da formação pedagógica no Brasil é tão precária, que tanto faz o ensino público ou não.

Fato é que todo o conhecimento acadêmico da humanidade está nos livros, sejam eles físicos ou virtuais. É preciso ler, e saber ler. Porque quem sabe ler, sabe expor ideias, desenvolver suas opiniões, sem a necessidade - ou comodidade - de utilizar o ‘curtir’ do Facebook ou o RT do Twitter. Em tempos de internet, todos têm um mundo de informações nas mãos, mas falta desenvolver o hábito da leitura.

É difícil tornar um adulto não leitor em leitor, mas é muito fácil tornar uma criança em leitora. As crianças costumam adorar livros, histórias, ilustrações. Elas têm sede de descobertas, estão em fase de formação e de adquirir os hábitos que as acompanharão por toda a vida, então, por que não introduzir em todos os currículos escolares a matéria leitura, não só interpretação de textos, mas a criação artístico-literária também?

Acho que seria uma matéria agradável. Bastaria instruir os professores a lerem com as crianças, todos os dias, e a estimular os pais a lerem, também, com seus filhos em casa. Sei que não basta gostar, é preciso ter o hábito da leitura. E as crianças poderão desenvolvê-lo se forem estimuladas e verem seus professores, seus pais e colegas lendo diariamente. Simples, aplicável, de resultado certo, eu penso que sim.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Ler é difícil, segundo Luiz Percival Britto

 
De acordo com o linguista, ler é uma atividade que exige esforço, isolamento e disposição para vivenciar a dor do existir
 
Por Julia Priolli

O professor Luiz Percival Britto escreve livros mas não se define como escritor. Para ele, esse é o ofício de quem faz literatura. Percival é lingüista. Pensa, pesquisa e publica livros sobre os diversos usos possíveis da linguagem. Acredita, antes de mais nada, que ler é difícil. Presente no 14º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, em um ciclo de debates promovido pelo Movimento por um Brasil Literário, ele falou sobre a dor de ler. Partiu de uma visão heideggeriana do ócio e do lazer para chegar à seguinte conclusão: "ler não é entretenimento, ou uma experiência lúdica, como preferem os pedagogos. Ler é uma atividade que exige esforço, isolamento e disposição para vivenciar a dor do existir."

O professor não discorda da dimensão do prazer no desenvolvimento cognitivo da criança. Ela é fundamental. Mas ele atenta para o fato de que vivemos em uma sociedade em que o prazer é buscado a todo momento. E nesse contexto, o entretenimento é mercadoria. Ele deve ser de consumo fácil, ligado ao tempo ocioso, que não exige esforço ou determinação. “O tempo da diversão é o tempo do esquecimento, de não pensar em nada. Tem hora para começar e acabar. Não gera futuro e nem conseqüência", afirma. Todo tempo livre do cidadão é suprimido com conteúdos de acesso imediato. Isso explica as televisões nos metrôs e elevadores, os rádios nos carros, os ipods, ipads e todas as variações de mídias portáteis destinadas a entreter o passageiro em trânsito.

De acordo com o linguista, o entretenimento é vendido como contraponto do trabalho, que é sinônimo de desgaste e produção. O convite ao entretenimento é um convite a uma viagem, a uma jornada, a uma experiência diferente da real, como se o real fosse sinônimo de sofrimento. “O problema dessa lógica é que ela impede que o momento do lazer seja também um momento de exercício da inteligência. Eu não vou me divertir assistindo “O Estrangeiro”, peça teatral adaptada do livro de Albert Camus, mas vou ter a importante sensação de experimentar a dor da vida”, diz ele. Quando o mesmo conceito se aplica à literatura faz-se um convite a uma “aventura” literária. Quando se busca o “prazer de ler”, exclui-se a possibilidade da leitura ser algo difícil, que demanda esforço e engajamento. E as melhores leituras são aquelas que pedem esforço. Quando indagado sobre Harry Potter e sua ação sobre o comportamento leitor de uma geração inteira, Percival Britto é categórico: “Nem toda leitura vale a pena!”.

Fonte: Movimento Brasil Literário

terça-feira, 4 de junho de 2013

O brasileiro não lê

A história de uma frase feita, e uma sugestão para quem insiste em repeti-la
DANILO VENTICINQUE

DANILO VENTICINQUE é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso (Foto: Sidinei Lopes/ÉPOCA)

O brasileiro não lê. Ao menos é isso que eu tenho escutado. Por obrigação profissional e por obsessão nas horas vagas, costumo conversar muito sobre livros. Com uma frequência incômoda, não importa qual é a formação de quem fala comigo, essa frase se repete. Amigos, taxistas, colegas jornalistas, escritores e até executivos de editoras já me disseram que o brasileiro não lê.

Quando temos dificuldade para entender uma frase, uma boa técnica de aprendizado é repeti-la várias vezes. Um dos meus primeiros professores de inglês me ensinou isso. Nunca pensei que fosse usar esse truque com uma frase em português. Mas, depois de ouvir tantas vezes que o brasileiro não lê, e de discordar tanto dos que dizem isso, resolvi tentar fazer esse exercício. Talvez enfim eu os entenda. Ou talvez eu me faça entender.

O brasileiro não lê, mas a quantidade de livros produzidos no Brasil só cresceu nos últimos anos. Na pesquisa mais recente da Câmara Brasileira do Livro, a produção anual se aproximava dos 500 milhões de exemplares. Seriam aproximadamente 2,5 livros para cada brasileiro, se o brasileiro lesse.

O brasileiro não lê, mas o país é o nono maior mercado editorial do mundo, com um faturamento de R$ 6,2 bilhões. Editoras estrangeiras têm desembarcado no país para investir na publicação de livros para os brasileiros que não leem. Uma das primeiras foi a gigante espanhola Planeta, em 2003. Naquela época, imagino, os brasileiros já não liam. Outras editoras vieram depois, no mesmo movimento incompreensível.

O brasileiro não lê, mas desde 2004 o preço médio do livro caiu 40%, descontada a inflação. Entre os motivos para a queda estão o aumento nas tiragens, o lançamento de edições mais populares e a chegada dos livros a um novo público. Um mistério, já que o brasileiro não lê.

O brasileiro não lê – e os poucos que leem, é claro, são os brasileiros ricos. Mas a coleção de livros de bolso da L&PM, conhecida por suas edições baratas de clássicos da literatura, vendeu mais de 30 milhões de exemplares desde 2002. Com seu sucesso, os livros conquistaram pontos de venda alternativos, como padarias, lojas de conveniência, farmácias e até açougues. As editoras têm feito um esforço irracional para levar seu acervo a mais brasileiros que não leem. Algumas já incluíram livros nos catálogos de venda porta-a-porta de grandes empresas de cosméticos. Não é preciso nem sair de casa para praticar o hábito de não ler.

O brasileiro não lê, mas vez ou outra aparecem best-sellers por aqui. Esse é o nome dado aos autores cujos livros muitos brasileiros compram e, evidentemente, não leem. Uma delas, a carioca Thalita Rebouças, já vendeu mais de um milhão de exemplares. Seus textos são escritos para crianças e adolescentes – que, como todos sabemos, trocaram os livros pelos tablets e só querem saber de games. Outro exemplo é Eduardo Spohr, que se tornou um fenômeno editorial com seus romances de fantasia. Ele é o símbolo de uma geração de novos autores do gênero, que escrevem para centenas de milhares de jovens brasileiros que não leem.

O brasileiro não lê – e, mesmo se lesse, só leria bobagens. Mas, há poucos meses, um poeta estava entre os mais vendidos do país. Em algumas livrarias, a antologia Toda poesia, de Paulo Leminski (1944-1989), chegou ao primeiro lugar. Ultrapassou a trilogia Cinquenta tons de cinza, até então a favorita dos brasileiros (e brasileiras) que não leem.

Na semana passada, mais de 40 mil brasileiros (que não leem) eram esperados no Fórum das Letras de Ouro Preto. Eu estava lá. Nas mesas de debates, editores discutiam maneiras de tornar o livro mais barato e autores conversavam sobre a melhor forma de chamar a atenção dos leitores. Um debate inútil, já que o brasileiro não lê. A partir desta semana, entre 6 e 16 de junho, a Feira do Livro de Ribeirão Preto (SP) deve receber mais de 500 mil pessoas. Na próxima segunda-feira (10), começa a venda de ingressos para a cultuada Festa Literária Internacional de Paraty, que inspirou festivais semelhantes em várias outras cidades do país. Haja eventos literários para os brasileiros que não leem.

Na pesquisa Retratos da Leitura, divulgada no ano passado, metade dos brasileiros com mais de 5 anos disse não ter lido nenhum livro nos últimos três meses. É compreensível, num país em que há poucas livrarias, as bibliotecas públicas estão abandonadas e 20% das pessoas entre 15 e 49 anos são analfabetas funcionais. Mas há outra metade. São 88,2 milhões de leitores. Alguns se dedicam mais à leitura; outros, provavelmente a maior parte deles, são leitores ocasionais. Há um enorme potencial para crescimento, mas já é um número animador.

Os brasileiros começaram a ler. Falta começar a mudar o discurso. Em vez de reclamar dos brasileiros que não leem, os brasileiros que leem deveriam se esforçar para espalhar o hábito da leitura. Espalhar clichês pessimistas não vai fazer ninguém abrir um livro.

Eu poderia ter repetido tudo isso para cada pessoa de quem ouvi a mesma frase feita. Mas resolvi escrever, porque acredito que o brasileiro lê.

Fonte: Época

domingo, 2 de junho de 2013

Dez motivos pelos quais você deveria ler todos os dias

Se você acha que a leitura é uma prática entediante, talvez seja hora de rever seus conceitos. Conheça 10 bons motivos para ler todos os dias e transformar isso em um hábito 

10 motivos pelos quais você deveria ler todos os dias
Crédito: Shutterstock.com
Livros com histórias envolventes são capazes de desligar você do mundo ao redor, fazendo com que sua atenção esteja inteiramente voltada para o que acontece na trama
 
Uma das práticas que os jovens consideram mais entediantes é a leitura. Não é raro ouvir reclamações sobre a obrigatoriedade da leitura, mesmo que algumas histórias surpreendam por atrair o interesse. Contudo, estabelecer o hábito da leitura pode trazer diversos benefícios para a vida, tanto no mundo acadêmico quanto na carreira. Confira a seguir 10 motivos pelos quais você deveria ler todos os dias:

1. Estímulo mental

O cérebro necessita treinamento para se manter forte e saudável e a leitura é uma ótima maneira de estimular a mente e mantê-la ativa. Além disso, estudos mostram que os estímulos mentais desaceleram o progresso de doenças como demência e Alzheimer. 

2. Redução do estresse

Quando você se insere em uma nova história diferente da sua, os níveis de estresse que você viveu no dia são diminuídos radicalmente. Uma história bem escrita pode transportá-lo para uma nova realidade, o que vai distraí-lo dos problemas do momento. 

3. Aumento do conhecimento

Tudo o que você lê é enviado para o seu cérebro com uma etiqueta de “novas informações”. Mesmo que elas não pareçam tão essenciais para você agora, em algum momento elas podem ajudá-lo, como em uma entrevista de emprego ou mesmo durante um debate em sala de aula. 

4. Expansão de vocabulário

A leitura expõe você a novas palavras que inevitavelmente elas serão incluídas no seu vocabulário. Conhecer um número grande de palavras é importante porque permite que você seja mais articulado em seus discursos, de maneira que até mesmo a sua confiança será impulsionada. 

5. Desenvolvimento da memória

Quando você lê um livro (especialmente os grandes) precisa se lembrar de todos os personagens, seus pontos de vista, o contexto em que cada um está inserido e todos os desvios que a história sofreu. A boa notícia é que você pode utilizar isso a seu favor, fazendo dos livros um treino para a sua memória. Guardar essa quantidade de informações faz com que você esteja mais apto para se lembrar de eventos cotidianos.
 
 
Ler Cervantes é bom para o cérebro
 

6. Habilidade de pensamento crítico

Já leu um livro que prometia um mistério confuso e acabou por desvendá-lo antes mesmo do meio da história? Isso mostra a sua agilidade de pensamento e suas habilidades de pensamento crítico. Esse tipo de talento também é desenvolvido por meio da leitura. Portanto, quanto mais você lê, mais aumenta sua habilidade de estabelecer conexões. 

7. Aumento de foco e concentração

O mundo agitado de hoje faz com que sua atenção seja dividida em várias partes, de modo que manter-se concentrado em apenas uma tarefa torna-se um desafio. Contudo, livros com histórias envolventes são capazes de desligar você do mundo ao redor, fazendo com que sua atenção esteja inteiramente voltada para o que acontece na trama. Embora você não perceba, esse tipo de exercício ajuda você a se concentrar em outras ocasiões, como quando precisa finalizar um projeto urgente. 

8. Habilidades de escrita

Esse tipo de habilidade anda lado a lado com a expansão do seu vocabulário. Assim como a leitura permite a você ser alguém mais articulado na fala, também vai ajuda-lo a colocar com mais clareza os seus pensamentos no papel. Isso vai dar a você a chance de produzir textos com mais qualidade, não apenas de vocabulário, como também correção gramatical e ideias mais ricas. 

9. Tranquilidade

O fato de envolver você em uma história e livrá-lo do estresse cotidiano faz do livro uma ótima ferramenta para alcançar a paz interior. Nos momentos de estresse, procure se distrair do que acontece com uma história que atrai seu interesse. Isso vai acalmá-lo e ajudá-lo a melhorar seu humor. 

10. Entretenimento a baixo custo

Muitas pessoas acreditam que o conceito de diversão está diretamente ligado aos altos custos de uma viagem ou mesmo de uma festa. Contudo, se você encontrar um livro que chame a sua atenção, poderá viajar sem sair da sua casa. E se você acha que os preços cobrados por um livro também são abusivos, pode baixar aqui mais de 1.000 títulos gratuitamente.
 
 

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O desafio da leitura



Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, a escritora e palestrante fluminense Luzia de Maria dedica-se há mais de três décadas ao tema leitura – com 15 livros publicados, é uma das maiores especialistas do país no assunto. Nesta entrevista, Luzia, que está lançando O clube do livro: Ser leitor – que diferença faz (Globo), aborda as experiências de seu clube de leitura no Rio de Janeiro, nos anos 1980, e mostra como fisgar os jovens para a leitura. Sua forma informal de tratar o assunto conquista as platéias – inclusive por aqui, na Revista Superpedido, tanto que, na próxima edição, a professora voltará para falar um pouco mais sobre a dupla livraria e leitura. A primeira parte começa aqui...


Na formação de um leitor, é indispensável preservar o prazer da leitura. E para se preservar esse prazer, a liberdade de escolha é um dos pontos primordiais

Em seu clube do livro, alunos chegavam a ler cinquenta, setenta livros em um ano escolar. Como fazer desabrochar essa descoberta da leitura nos jovens?

O ideal é que os livros e as histórias sejam apresentados às crianças muito antes do convívio escolar. Minhas filhas e, agora, minha neta ganharam os primeiros livros junto com os primeiros brinquedos. Costumo dizer: o bebê já sabe pegar chocalho? Está na hora de pegar aqueles livros miudinhos, feitos em papel cartonado, que estão cada vez mais lindos, com bichinhos de pelúcia nas capas, olhos que mexem, rabos que balançam, etc. Mas na escola brasileira, infelizmente, muitos estudantes chegam ao ensino médio sem nunca ter experimentado o prazer da leitura de um bom livro. E alguns trazem marcas de desprazer: receberam a obrigação de ler livros para os quais não tinham interesse nem maturidade de leitor para apreciar a leitura. Na formação de um leitor, é indispensável preservar o prazer da leitura. E para se preservar esse prazer, a liberdade de escolha é um dos pontos primordiais.

Como a escola pode apresentá-lo a esse prazer?

Para que um jovem seja cativado para o mundo dos livros, a escola precisa estimulá-lo a explorar esse mundo, a perambular por ele, a começar a leitura de um livro, dois, três, e se não gostar, largar pra lá, até encontrar um que o arrebate sem ele nem perceber e, quando ele menos esperar, o impacto final da história bate em seu rosto, ele vira a página e percebe que o livro chegou ao fim... e ele sente pena de ter acabado. Assim, ele sai da leitura com desejo de ler outro livro e mais outro e outro, perde a vergonha de entrar na biblioteca ou na livraria e caminhar a esmo, em busca nem sabe bem do quê. É essa fome, esse desejo de uma boa história, de um bom livro, que forma público para a literatura. E isso precisa ser exercitado nas escolas. Assim como elas têm incentivado os esportes, tornado frequentes os campeonatos escolares (permitindo que cada um tenha sua preferência, vôlei, basquete, futebol, etc. ou escolha a sua posição nos jogos e formando esse público que lota os estádios brasileiros), assim também a escola precisa acordar e formar público para teatros, cinemas, museus e, evidentemente, para as livrarias e bibliotecas.

Você acha que deixar aos alunos a liberdade de escolha é suficiente para se formar leitores?

Não, principalmente quando são alunos dos anos finais do ensino fundamental ou do ensino médio. Como já se depararam com livros cuja leitura não os encantou, simplesmente cobrados em provas, muitos estudantes generalizam e passam a crer que qualquer leitura é chata. A experiência que relatei em O clube do livro, em que estudantes do ensino médio chegaram a ler 70 títulos em um ano, era uma proposta de trabalho, com avaliação da qualidade da leitura e da quantidade de leitura. Deviam ler um mínimo de 5 livros por bimestre. Quem os seduziu para que lessem além de minha expectativa foi a literatura. Penso que muitas pessoas que não são leitoras nunca tiveram, em casa ou na escola, a experiência de ler um bom livro. Para gostar, é preciso experimentar. Alguns dos ex-alunos que escreveram depoimentos sobre aquela imersão na leitura – hoje profissionais bem sucedidos, com 37, 38 anos –  confessam que, no início, foram obrigados a ler. Assim como tinham que estudar matemática ou geografia. Mas ninguém foi obrigado a ler um determinado livro.

Quais eram, então, as regras do clube?

Eles podiam ler um livro sugerido por mim ou sugerido por um colega, porque eu afirmei que ele era ótimo ou porque o colega leu e gostou. Podiam começar a ler vários e abandonar, até encontrar um de seu agrado. E quando eu defendo que cada aluno compre um livro diferente do outro, autores, editores e livreiros podem não ficar muito satisfeitos e desconfiar que terão prejuízo já que em vez de venderem 40 livros para a turma, ou 400 para toda a escola, terão uma venda avulsa. Mas em setembro daquele ano, quando deveria haver 40 livros circulando na classe, sendo lidos por eles em sistema de troca, havia 165 livros em uma de minhas turmas, 119 em outra e em torno de 100 na terceira turma. Isso em uma escola pública. E agora, 22 anos depois, ao reencontrar esses ex-alunos, pude perceber que todos são leitores, continuam comprando livros para eles e para os filhos. São pessoas cultas e interessantes, o que se pode constatar pelos seus depoimentos no livro. Isso sem falar na formidável ascensão social que todos tiveram, graças ao estudo, aos livros, à leitura.

Quais as principais diferenças dos leitores de 20 anos atrás para os leitores de hoje? Quais os novos desafios e oportunidades surgidos nesse intervalo de duas décadas?

O que move o homem em direção ao conhecimento é a curiosidade. Em relação à leitura também. Neste sentido, vejo minha neta, de apenas dois anos, repetir atitudes que testemunhei em minhas filhas, vejo o mesmo brilho em seus olhos e o mesmo encantamento diante de livros maravilhosos. Com pouco mais de um ano de idade e ainda poucos recursos para se expressar, em passeios pelo bairro, ao chegar à calçada da Livraria Gutenberg, em Niterói, exigia: “Tira! Tira!”, para que abríssemos as fivelas do cinto e a deixássemos sair do carrinho. Objetivo: entrar e ir decidida até o fundo da livraria, sentar na cadeirinha em torno da pequena mesa e se deliciar com os inúmeros livros de historias postos ao seu alcance. Mudam os tempos, os livros hoje são muito mais sofisticados que há duas ou três décadas, mas a essência do ser humano é a mesma. E se cuidamos para não matar a curiosidade de nossas crianças, certamente elas se tornarão adultos para sempre enamorados do conhecimento, das descobertas, do prazer de aprender.

Mesmo que elas não sejam fisgadas quando crianças, ainda será possível apresentar a leitura um tanto mais tarde, correto?

Sem dúvida. Em palestras a estudantes, em escolas da rede privada ou pública, também tenho testemunhado brilho nos olhos quando consigo unir a excelência da literatura à minha paixão por ela, e isso me faz crer que os jovens de hoje são tal e qual os de ontem. São capazes de se encantar, são capazes de sentir empatia em relação ao outro e é isso que a literatura oferece: ela nos aproxima de outros seres humanos, nos ajuda a enxergar pelos olhos do outro, cria laços entre leitor e autor; cria laços entre leitores de uma mesma obra, de um mesmo autor. E quanto à leitura, de um modo geral, o grande desafio é que temos hoje mais ofertas de lazer, mais opções do que fazer e por isso precisamos ser seletivos e administrar o tempo. Mas o computador, hoje, tem nos levado a ler mais. E, infelizmente, quem não é leitor, pouco se beneficia do amplo universo que o computador nos oferece. É um equívoco achar que o brasileiro estará inserido na era da informática sem antes ter-se apoderado dos benefícios da era da imprensa, sem antes se locomover com desenvoltura no universo letrado. É preciso cuidar para termos um país leitor, só assim ele poderá verdadeiramente explorar e usufruir, em termos de crescimento social e econômico, o que as novas tecnologias oferecem. 

Fonte: Revista SuperPedido Tecmedd