Texto em homenagem aos Bibliotecários (as), pela passagem do dia 12 de março, "Dia do Bibliotecário"
Parabéns!
A proposta do blog é reunir trabalhos e ideias que fomentem o incentivo a leitura.
quarta-feira, 13 de março de 2013
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Sempre leia o original
O artigo é de 2003, faz uma reflexão sobre bibliotecas, escolas, professores, alunos, livros e leitura. O tema é sempre atual. Coisas que presenciamos no cotidiano de escolas, faculdades e universidades. Boa leitura!
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Stephen Kanitz*
*Stephen Kanitz é administrador por Harvard (http://ww.kanitz.com.br)
"Na próxima aula em que seu professor fizer o resumo de um livro só, ou lhe entregar uma apostila mal escrita, levante-se discretamente e vá direto para a biblioteca"
Uma greve geral dos professores
alguns anos atrás teve uma conseqüência interessante. Reintroduziu, para
milhares de estudantes, o valor esquecido das bibliotecas. Os melhores
alunos readquiriram uma competência essencial para o mundo moderno –
voltaram a aprender sozinhos, como antigamente. Muitos descobriram que
alguns professores nem fazem tanta falta assim. Descobriram também que
nas bibliotecas estão os livros originais, as obras que seus professores
usavam para dar as aulas, os grandes clássicos, os autores que fizeram
suas ciências famosas.
Muitos professores se limitam a
elaborar resumos malfeitos dos grandes livros. Quantas vezes você já
assistiu a uma aula em que o professor parecia estar lendo o material?
Seria bem mais motivador e eficiente deixar que os próprios alunos
lessem os livros. Os professores serviriam para tirar as dúvidas, que
fatalmente surgiriam.
Hoje, muitas bibliotecas vivem
vazias. Pergunte a seu filho quantos livros ele tomou emprestado da
biblioteca neste ano. Alguns nem saberão onde ela fica. Talvez
devêssemos pensar em construir mais bibliotecas antes de contratar mais
professores. Um professor universitário, ganhando 4.000 reais por mês ao
longo de trinta anos (mais os cerca de vinte da aposentadoria),
permitiria ao Estado comprar em torno de 130.000 livros, o suficiente
para criar 130 bibliotecas. Seiscentos professores poderiam financiar
5.000 bibliotecas de 10.000 livros cada uma, uma por município do país.
Universidades são, por definição,
elitistas, para a alegria dos cursinhos. Bibliotecas são democráticas,
aceitam todas as classes sociais e etnias. Aceitam curiosos de todas as
idades, sete dias por semana, doze meses por ano. Bibliotecas permitem
ao aluno depender menos do professor e o ajudam a confiar mais em si.
Nunca esqueço minha primeira
visita a uma grande biblioteca, e a sensação de pegar nas mãos um livro
escrito pelo próprio Einstein, e logo em seguida o de cálculo de Newton.
Na época, eu queria ser físico nuclear.
Infelizmente, livros nunca entram
em greve para alertar sobre o total abandono em que se encontram nem
protestam contra a enorme falta de bibliotecas no Brasil. Visitei no ano
passado uma escola secundária de Phillips Exeter, numa cidade americana
de 30.000 habitantes, no desconhecido Estado de New Hampshire. Os
alunos me mostraram com orgulho a biblioteca da escola, de NOVE andares,
com mais de 145.000 obras. A Biblioteca Mário de Andrade, da cidade de
São Paulo, tem 350.000. A bibliotecária americana ganhava mais do que
alguns dos professores, ao contrário do que ocorre no Brasil, o que
demonstra o enorme valor que se dá às bibliotecas nos Estados Unidos.
Não quero parecer injusto com os
milhares de professores que incentivam os alunos a ler livros e a
freqüentar bibliotecas. Nem quero que sejam substituídos, pois são na
realidade facilitadores do aprendizado, motivam e estimulam os alunos a
estudar, como acontece com a maioria dos professores do primário e do
colegial. Mas estes estão ficando cada vez mais raros, a ponto de se
tornarem assunto de filme, como ocorre em Sociedade dos Poetas Mortos, com Robin Williams.
Na próxima aula em que seu
professor fizer o resumo de um livro só, ou lhe entregar uma apostila
mal escrita, levante-se discretamente e vá direto para a biblioteca.
Pegue um livro original de qualquer área, sente-se numa cadeira
confortável e leia, como se fazia 500 anos atrás. Você terá um relato
apaixonado, aguçado, com os melhores argumentos possíveis, de um
brilhante pensador. Você vai ler alguém que tinha de convencer toda a
humanidade a mudar uma forma de pensar.
Um autor destemido e corajoso que
estava colocando sua reputação, e muitas vezes seu pescoço, em risco.
Alguém que estava escrevendo apaixonadamente para convencer uma pessoa
bastante especial: você.
Fonte: Veja , São Paulo, ano 36, n. 19, p. 20, 14 maio 2003.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
O livro é uma opção
Pesquisa aponta diminuição do índice de leitura no país. Para parte da população, seria impensável, no tempo livre, ler uma obra em vez de ver TV ou navegar na internet. Confira entrevista no ‘Alô, Professor’ com coordenadora do estudo.
Publicado em 04/10/2012
|
Atualizado em 04/10/2012
Como fazer com que mais pessoas se interessem pela leitura? A socióloga Zoara Failla, coordenadora da pesquisa, responde ao 'Alô, Professor'. (foto: Georg Mayer/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
Os números não deixam espaço para o otimismo. É a conclusão a que se chega quando se toma conhecimento dos dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pela Fundação Pró-Livro e pelo Ibope Inteligência. O estudo, que está na sua terceira edição e envolveu 5.012 pessoas em 315 municípios do país, traçou um panorama preocupante: houve uma queda de 9% de leitores em comparação a 2007, o último ano em que a pesquisa foi feita.
Estatisticamente, seria possível afirmar que 50% da população do país, ou 88 milhões de pessoas, não leem sequer um livro por ano. Ao mesmo tempo, aumentou o número de pessoas que afirmaram passar o tempo de lazer na internet ou vendo televisão – para esses entrevistados, a leitura não seria uma opção de passatempo.
Nesse cenário pessimista, conquistar novos e jovens leitores seria essencial. Mas como? É uma das perguntas que a socióloga Zoara Failla, coordenadora do estudo, tenta responder em entrevista abaixo ao ‘Alô, Professor’.
- A socióloga Zoara Failla com sua pesquisa, Retratos de Leitura no Brasil, em mãos: o estudo virou livro e foi lançado na Bienal deste ano em São Paulo. (foto: divulgação)
‘Alô, Professor’: A pesquisa aponta que o número de pessoas que preferem ver TV e navegar na internet nas horas de lazer vem aumentando. Como fazer para o livro ser também uma forma de entretenimento?
Zoara Failla: Primeiro, entendo que a internet e a TV não roubam leitores. As pessoas que vão navegar na internet ou ver TV não desenvolveram o hábito de ler por prazer. E isso, sem dúvida, começa na escola. As escolas em geral não desenvolvem práticas de leitura. Na verdade, o que se faz é apresentar a leitura como tarefa, como a obrigação que o estudante terá quando sair da escola. Toda a questão começa com o despertar do interesse pela leitura.
Já que aumenta o número de pessoas navegando na internet, não seria o caso de incentivar a leitura nessa plataforma? Livros digitais, por exemplo, poderiam ajudar a aumentar o número de leitores?Quem não gosta de ler não vai procurar livros digitais. A pessoa só vai fazer isso se gostar de ler. Do contrário, vai para as redes sociais ou para alguma plataforma de interação. Em geral, o que se lê na internet? Recados, mensagens cifradas e sem conteúdo. As pessoas se comunicam, disso eu não tenho dúvida. Mas existe uma diferença grande entre informação e conhecimento. Quem usa a internet dessa forma não desenvolve conhecimento.
E como se desenvolve o conhecimento?É importante acessar conteúdos mais complexos, de maior qualidade, que leve a pessoa a desenvolver capacidade crítica e de concentração. O livro é um conteúdo mais complexo. Este é o grande problema da informação pasteurizada: ela não dá vazão ao pensamento crítico. Rouba o tempo da pessoa.
Qual seria a importância da leitura num sentido prático e mais funcional?A leitura é importante na vida social e profissional. Na prática profissional, por exemplo, quem tem capacidade crítica se diferencia, consegue ter um pensamento mais estratégico, faz relação entre as coisas e tem aptidão para usar aquilo que aprendeu. Essas qualidades podem ser levadas para a vida pessoal também.
Como você avalia as campanhas de leitura promovidas pelo Estado?Toda campanha de leitura é importante. Há essa tendência de seguir modismos, e é inegável que uma celebridade dizer que o livro é importante traz leitores. Você percebe que as pessoas que são formadoras de opinião têm influência. É legal fazer o livro entrar na moda. Além de ter bijuteria da celebridade, a pessoa passa a querer ler a obra que a celebridade está lendo. É como torcer por um time de futebol: ninguém nasce com um time, ninguém nasce gostando de futebol. Mas o pai incentiva a criança o tempo todo, estimula-o a gostar de futebol. Dá bola, camisa – o pai valoriza o esporte, a família valoriza. De algum jeito é passado para a criança que gostar de futebol é bom. Isso deveria acontecer com o livro e com questões culturais como um todo.
De que maneira?É importante ler na frente da criança, presenteá-la com livros, criar jogos de perguntas sobre o livro que ela está lendo. É importante criar esse espaço da leitura na vida da criança.
A pesquisa aponta o professor como a pessoa que mais influencia a pessoa a ler. Qual seria o papel da escola na promoção da leitura?A escola é um espaço privilegiado. E o professor deve saber ler bem, gostar de ler. Senão, ele não saberá fazer o marketing correto. Os clássicos são maravilhosos, mas você tem que ter compreensão do que está lendo para poder ensinar. E os clássicos exigem conhecimento. Machado de Assis é maravilhoso, mas é complexo. Pode ser difícil para o aluno ler Machado de Assis. O importante é tentar identificar do que o adolescente gosta, o que ele quer ler.
O importante é desenvolver o hábito da leitura, divulgar que há pessoas que não conseguem dormir sem ler!
E há ‘o livro certo’?
Não! Pode ser Harry Potter, Crepúsculo... Pode ser gibi! O importante é desenvolver o hábito da leitura, divulgar que há pessoas que não conseguem dormir sem ler! Com o tempo, o jovem acha o seu caminho, desenvolve o seu gosto.
Como o professor deve lidar com a diferença de gostos em sala de aula na hora de passar uma obra para ser lida no semestre?O professor deve conhecer a sua sala de aula. É preciso escolher o livro que contemple a maioria. Ou, quem sabe, dar algumas opções, apresentar cinco ou seis livros. As crianças não são tão diferentes assim. A maioria tem gosto e interesse parecidos.
A pesquisa aponta que o índice de leitura aumentou no Nordeste e caiu no Sul e no Sudeste. A que a senhora atribui esse fato?A principal explicação é o envelhecimento da população no Sul e no Sudeste em comparação ao Nordeste. No Nordeste, há mais jovens nas escolas. E é justamente no período escolar, dos 5 aos 17 anos, em que mais se lê. Por outro lado, na pesquisa, notamos que se lê mais espontaneamente – sem incentivos externos, como o do professor – no Sul e no Sudeste.
Você é mais otimista ou pessimista quanto ao cenário de leitura no país?Não dá para ficar otimista com os números que temos. O ponto positivo é que esses números podem gerar inquietação nos governantes, incentivar ações mais efetivas. Não só nos governantes, mas também nos pais e nos educadores. São importantes também essas ações individuais: o pai dar livros de presente para o filho, o professor desenvolver atividades em torno da leitura, indicar livros na biblioteca... São ações muito simples que geram enorme resultado.
Fonte: Ciência Hoje
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Um papo sobre o processo de leitura
A leitura é mais do que uma atividade e traz grandes benefícios ao
ser humano. Leitura é lazer, prazer, conhecer, viajar, sociabilizar e
enriquecer culturalmente. Ler contribui para o sucesso da criança na
formação escolar.
Então, vamos bater um papo sobre o processo de leitura?
Como iniciar o processo de leitura?
Ler é decodificar símbolos, é compreender a expressão escrita. A
melhor maneira de se começar o processo de leitura é através do próprio
livro. Uma criança, desde a primeira infância, tem que estar rodeada por
livros. E não é só isso: Os bebês devem pegar apertar, morder,
experimentar, devolver, pegar de volta, olhar, abrir e fechar. Não tem
problema se vai estragar, ficar babado, virar a página de um jeito
brusco ou se está de cabeça para baixo: o importante é que este livro,
que chamamos de ‘livro-brinquedo’, faça parte das primeiras descobertas
do seu filho. Eles podem ser de travesseiro, de banho, cartonados, o que
importa é que farão parte da vida da criança e certamente ele se
lembrará disso na vida adulta.
Quando iniciar o processo de leitura?
Certo dia, li uma matéria com a grande escritora Russa Tatiana
Belinky, que tem livros espetaculares para crianças em fase de processo
de leitura. Tatiana contava que, quando sua filha estava com três meses
de idade, perguntou a um psicólogo:
Quando iniciar o processo de leitura?
E ele respondeu: Já deveria ter começado!
Então, mãos a obra!
Quando iniciar o processo de leitura?
E ele respondeu: Já deveria ter começado!
Então, mãos a obra!
E na escola?
O ato de aprender a ler é, sem dúvida, o maior desafio que todas as
crianças enfrentam nas fases iniciais da escolarização. Como desenvolver
a capacidade leitora?
Vejo na leitura um salto para a formação de cidadãos e esse é um dos
papéis essenciais da escola. Alguns modelos e métodos de ensino
favorecem menos ou mais a criança, no entanto existem desenvolvimentos
em todos eles. O desenvolvimento ocorre através do estímulo, das cores,
das ilustrações. Um professor, acima de tudo, deve envolver o seu aluno
em um “campo literário”, onde a imaginação e a curiosidade devem ser uma
grande janela aberta e é lá onde o livro deve estar!
E o processo vai ocorrer naturalmente…
E o processo vai ocorrer naturalmente…
Vocês conhecem “O menino que aprendeu a ver”, da escritora Ruth
Rocha? É uma belíssima demonstração de como a criança pré-leitora vê o
mundo, um livro que vale a pena ser entendido pelos adultos.
Como os pais devem incentivar a leitura?
- A primeira coisa que você, como pai ou mãe, deve fazer para estimular a leitura nas crianças “é ler”! Os pequenos refletem muito do que nós somos.
- Os livros ilustrados e com poucas palavras podem ser usados porque chamam a atenção das crianças. Ela aprenderá sobre a estrutura da linguagem!
- Conte histórias! Questione seus filhos, dê espaço para que ele também coloque suas questões, você vai se surpreender com o resultado da leitura compartilhada. É também uma ótima maneira de você estar perto do seu filho, conhecê-lo e entendê-lo.
- Existem ótimos programas de leitura nas bibliotecas, espaços públicos e livrarias. Acompanhe seu filho em um desses. Pesquise!
- Tenha sempre disponíveis materiais como lápis coloridos e papéis. Faça com que a criança se expresse através deles.
- Que tal a aquisição de um dicionário infantil? Comece a procurar os de imagens, use a descoberta de significados!
Então, compartilhamos aqui no Bloguito uma das fases mais lindas que a
criança pode ter. Você pode incentivar, estimular e crescer junto com o
seu pequeno. Lembre-se que nesse processo, todos nós saímos campeões.
Aproveitem!
Um grande beijo de livro,
Cris Quintas
www.cristianequintas.com
Fonte: Bloguito
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Há cada vez mais livros a viajar nos transportes públicos
Publicado em 23/09/2012
Foto: José Fernandes
Marta Portocarrero
Numa sociedade cada vez mais apressada, a leitura nos transportes
públicos é uma forma de se aproveitar o tempo gasto nas deslocações
entre casa e o trabalho. E, pela comodidade, o comboio é onde mais se
lê.
Falta pouco para chegar a S. Pedro do Estoril, mais duas páginas talvez. Nesta viagem, é Gabriel García Marquez — com Os Funerais da Mamã Grande — que atenua os solavancos do comboio da Linha de Cascais e faz Palmira de Almeida desligar-se da realidade.
Aos 67 anos, Palmira já perdeu a conta aos livros que leu. Começou com as histórias das princesas numa vila de Angola colonial, onde não era fácil comprar livros. Por influência dos irmãos, passou para a banda desenhada e, mais tarde, deixou-se encantar pelos romances em fascículos. Em 1974, veio para Portugal, onde trabalha como empregada doméstica, e trouxe o gosto da leitura para os comboios.
Vive em Almada e até chegar a S. Pedro apanha três comboios e dois metros. Com o cabelo curto, as hastes dos óculos vermelhas e uma camisola branca, vai olhando para as flores da capa do livro enquanto fala. “Leio em todas as viagens. O meu trabalho é muito manual — sempre a limpar, a limpar — também preciso de exercitar o cérebro”, conta. “Aproveito as viagens porque em casa não tenho tempo. Chego tarde e vou logo dormir e aos fins-de-semana tomo conta dos meus netos”, acrescenta.
Em 2009, o barómetro da opinião pública do Plano Nacional de Leitura realizou um inquérito a 1045 pessoas e encontrou 96% como Palmira de Almeida, que considera a leitura muito importante. Para os inquiridos, a leitura é especialmente importante no ensino e a formação (97%), na utilidade para a profissão (94%) e no exercício da cidadania (93%).
Com os olhos fixos numa das últimas páginas, Vera Brandão, de 29 anos, é uma campeã da leitura. “Leio, em média, nove livros por mês e também tenho um blogue de literatura”, conta a professora de uma sala de estudo em Carcavelos. Tira os óculos e acrescenta: “Gosto mesmo muito de ler e o comboio não me incomoda, é muito estável. É como estar sentada à secretária”. Põe os óculos e volta a mergulhar nas páginas de um livro já gasto, A Mutação, de Robin Cook.
Para o comissário do Plano Nacional de Leitura, Fernando Pinto do Amaral, o comboio — pela sua estabilidade — é um dos melhores meios de transportes a utilizar numa altura em que a leitura é cada vez mais fragmentária. “Actualmente, andamos sempre a saltitar de texto para texto. Mas [este tipo de leitura] não substitui uma leitura extensiva em que conseguimos mergulhar numa história”, refere Pinto do Amaral. “E isto pode ser feito nos transportes, sobretudo nos comboios, em que as viagens são mais estáveis”, defende.
Duas carruagens atrás, Maíra Silva trocou há cinco anos a agitação de São Paulo pela tranquilidade da Marginal. Trabalha numa loja na Parede e interessa-se particularmente por livros científicos. Está a ler O Campo de Batalha da Mente, de Joyce Meyer. “Gosto muito deste tipo de livros”, diz, justificando a escolha pelo curso de Psicologia que vai começar no próximo mês. “Só comecei a interessar-me por livros há cerca de três anos, mas ler é muito bom, faz-me viajar com a imaginação”, conta olhando para o livro.
Viajam no mesmo comboio quase todas as manhãs e não se conhecem, mas se Maíra lesse o título do livro de João Soares, provavelmente iria gostar: A Psicologia do Amor. “O título pode parecer estranho”, admite João, envergonhado, sentado junto à janela três lugares atrás da rapariga. “Mas eu sou terapeuta”, justifica, sorrindo. Aos 29 anos, decidiu começar a utilizar o comboio há pouco mais de um ano. A partir de então, os livros são a sua principal companhia. “Assim as viagens são menos aborrecidas. Se, por acaso, me esquecer, compro um jornal”, explica João Soares, enquanto se prepara para sair.
Segundo Teresa Sampaio, coordenadora do programa Ler +, Ler Melhor, da RTP Informação, muitos adeptos da leitura nos transportes fazem-no por uma questão de comodidade. “Em tempo de crise, com o preço da gasolina a aumentar, também é uma opção procurada, sobretudo em viagens de longo curso”, afirma.
No “regresso” a Lisboa
São 8h57 na estação de Cascais. Na gare, não há pessoas sentadas a ler, nem jornais deixados nos bancos. As portas fecham-se no comboio com destino ao Cais do Sodré. A bordo, os calções de banho e os chapéus de palha são substituídos por camisas, gravatas e roupas formais. A maioria dos passageiros vai trabalhar para Lisboa. A aventura pela literatura em viagem faz-se sobretudo neste sentido e só acaba no fim da linha.
Hugo Santos também está a ler, mas de forma diferente. “Uso este tablet, é mais prático”, diz, mostrando no ecrã do aparelho as pequenas letras brancas de um conto que encontrou na Internet. Trabalha como consultor informático numa empresa no Parque das Nações e, por isso, está habituado a andar de comboio e a tratar a tecnologia por tu. “A viagem demora cerca de uma hora e meia. Costumo ler artigos relacionados com o meu trabalho ou textos que encontro na Internet”, conta. “É mais fácil, depois é só fechar, guardar isto na bolsa e sair. E a página ficou marcada”, diz, exemplificando o processo. Os livros em papel também lhe agradam, mas só em casa.
De acordo com o barómetro de opinião pública do Plano Nacional de Leitura de 2009, a leitura associada às novas tecnologias está a tornar-se uma tendência. Cerca de 93% dos 1045 inquiridos consideram que a leitura aumentou principalmente com recurso a mensagens de telemóvel, computadores e Internet; 40% pensam que nos últimos dez anos a leitura, em geral, se manteve; e 39% consideram que se registou um aumento, embora nos meios tradicionais — livros, jornais, revistas — este não seja tão acentuado.
Fernando Pinto do Amaral diz que a leitura associada às novas tecnologias será uma tendência natural. “Para interpretarmos o mundo, temos sempre de ler”, afirma Pinto do Amaral. “Os suportes é que estão a mudar, sobretudo junto das gerações mais jovens, mas a leitura deve ser sempre valorizada”, acrescenta.
Menos jornais gratuitos
Hélder Almeida, que viaja entre Oeiras e o Cais do Sodré há vários anos, tem reparado que os jornais gratuitos que se deixavam nos bancos agora raramente se vêem. Olhando para a informação estatística, tem razão. Segundo dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação, a circulação — o número de exemplares que chegam aos pontos de venda, incluindo assinaturas e ofertas — dos dois jornais gratuitos portugueses (Destak e Metro) diminuiu.
A média da circulação do Destak entre Janeiro e Abril de 2012 foi de 71.090 exemplares, abaixo dos 94.944 exemplares em 2011. Em relação ao Metro, este numero passou de 92.798, em 2011, para 70.580 em 2012. Ambos os jornais são maioritariamente lidos por homens e nas áreas da Grande Lisboa e Grande Porto.
Segundo a directora do Destak, Isabel Stilwell, o facto de as pessoas sentirem falta dos exemplares nos transportes públicos é algo gratificante, “embora preferíssemos ter capacidade para ir ao encontro de toda a procura”. Não obstante as estratégias definidas para a distribuição do jornal, Isabel Stilwell afirma que não deixaram “de sofrer as consequências de uma gravíssima crise económica, o que tem obrigado a alguma redução na circulação”.
Junto à janela, já longe de conseguir ver o mar, Hélder Almeida diz que não há tantos jornais a bordo, mas há mais livros. “Agora a literacia é barata, só não lê quem não quer”, afirma. Um destes exemplos é a livraria que existe na estação de Cais do Sodré com livros a partir de 1,5 euros. “E há livros que parecem ter sido escritos a pensar em viagens, com capítulos mais curtos”, acrescenta. Gostava de ler jornais, sobretudo nos dias em que traziam suplementos, mas, nos últimos anos, tem ficado decepcionado. “E via-se muita gente como eu, mas agora nem todos podem gastar 30 euros por mês em jornais. E como a qualidade das reportagens diminuiu muito, já não se justifica [comprá-los]”
No entanto, Luís Pauzinho, de 39 anos, nesse dia comprou um jornal. Excepcionalmente, a capa de um desportivo fê-lo atrasar a paixão pelas bases de dados e guardar o livro que andava a ler. Mais adepto dos livros, durante a semana, no comboio, espreita o jornal das pessoas ao lado. “Não leio grande coisa, mas apanho as [letras] gordas”. Ri-se. Neste dia, porém, se tentar espreitar os jornais à sua volta, não terá grande sorte. São todos desportivos, como o seu.
Cais do Sodré. À volta, a passo acelerado, guardam-se os livros e as revistas ou enfiam-se os jornais debaixo do braço. Há mais comboios a partir, mas como já é hora de trabalho, poucos leitores seguirão lá dentro.
Aos 67 anos, Palmira já perdeu a conta aos livros que leu. Começou com as histórias das princesas numa vila de Angola colonial, onde não era fácil comprar livros. Por influência dos irmãos, passou para a banda desenhada e, mais tarde, deixou-se encantar pelos romances em fascículos. Em 1974, veio para Portugal, onde trabalha como empregada doméstica, e trouxe o gosto da leitura para os comboios.
Vive em Almada e até chegar a S. Pedro apanha três comboios e dois metros. Com o cabelo curto, as hastes dos óculos vermelhas e uma camisola branca, vai olhando para as flores da capa do livro enquanto fala. “Leio em todas as viagens. O meu trabalho é muito manual — sempre a limpar, a limpar — também preciso de exercitar o cérebro”, conta. “Aproveito as viagens porque em casa não tenho tempo. Chego tarde e vou logo dormir e aos fins-de-semana tomo conta dos meus netos”, acrescenta.
Em 2009, o barómetro da opinião pública do Plano Nacional de Leitura realizou um inquérito a 1045 pessoas e encontrou 96% como Palmira de Almeida, que considera a leitura muito importante. Para os inquiridos, a leitura é especialmente importante no ensino e a formação (97%), na utilidade para a profissão (94%) e no exercício da cidadania (93%).
Com os olhos fixos numa das últimas páginas, Vera Brandão, de 29 anos, é uma campeã da leitura. “Leio, em média, nove livros por mês e também tenho um blogue de literatura”, conta a professora de uma sala de estudo em Carcavelos. Tira os óculos e acrescenta: “Gosto mesmo muito de ler e o comboio não me incomoda, é muito estável. É como estar sentada à secretária”. Põe os óculos e volta a mergulhar nas páginas de um livro já gasto, A Mutação, de Robin Cook.
Para o comissário do Plano Nacional de Leitura, Fernando Pinto do Amaral, o comboio — pela sua estabilidade — é um dos melhores meios de transportes a utilizar numa altura em que a leitura é cada vez mais fragmentária. “Actualmente, andamos sempre a saltitar de texto para texto. Mas [este tipo de leitura] não substitui uma leitura extensiva em que conseguimos mergulhar numa história”, refere Pinto do Amaral. “E isto pode ser feito nos transportes, sobretudo nos comboios, em que as viagens são mais estáveis”, defende.
Duas carruagens atrás, Maíra Silva trocou há cinco anos a agitação de São Paulo pela tranquilidade da Marginal. Trabalha numa loja na Parede e interessa-se particularmente por livros científicos. Está a ler O Campo de Batalha da Mente, de Joyce Meyer. “Gosto muito deste tipo de livros”, diz, justificando a escolha pelo curso de Psicologia que vai começar no próximo mês. “Só comecei a interessar-me por livros há cerca de três anos, mas ler é muito bom, faz-me viajar com a imaginação”, conta olhando para o livro.
Viajam no mesmo comboio quase todas as manhãs e não se conhecem, mas se Maíra lesse o título do livro de João Soares, provavelmente iria gostar: A Psicologia do Amor. “O título pode parecer estranho”, admite João, envergonhado, sentado junto à janela três lugares atrás da rapariga. “Mas eu sou terapeuta”, justifica, sorrindo. Aos 29 anos, decidiu começar a utilizar o comboio há pouco mais de um ano. A partir de então, os livros são a sua principal companhia. “Assim as viagens são menos aborrecidas. Se, por acaso, me esquecer, compro um jornal”, explica João Soares, enquanto se prepara para sair.
Segundo Teresa Sampaio, coordenadora do programa Ler +, Ler Melhor, da RTP Informação, muitos adeptos da leitura nos transportes fazem-no por uma questão de comodidade. “Em tempo de crise, com o preço da gasolina a aumentar, também é uma opção procurada, sobretudo em viagens de longo curso”, afirma.
No “regresso” a Lisboa
São 8h57 na estação de Cascais. Na gare, não há pessoas sentadas a ler, nem jornais deixados nos bancos. As portas fecham-se no comboio com destino ao Cais do Sodré. A bordo, os calções de banho e os chapéus de palha são substituídos por camisas, gravatas e roupas formais. A maioria dos passageiros vai trabalhar para Lisboa. A aventura pela literatura em viagem faz-se sobretudo neste sentido e só acaba no fim da linha.
Hugo Santos também está a ler, mas de forma diferente. “Uso este tablet, é mais prático”, diz, mostrando no ecrã do aparelho as pequenas letras brancas de um conto que encontrou na Internet. Trabalha como consultor informático numa empresa no Parque das Nações e, por isso, está habituado a andar de comboio e a tratar a tecnologia por tu. “A viagem demora cerca de uma hora e meia. Costumo ler artigos relacionados com o meu trabalho ou textos que encontro na Internet”, conta. “É mais fácil, depois é só fechar, guardar isto na bolsa e sair. E a página ficou marcada”, diz, exemplificando o processo. Os livros em papel também lhe agradam, mas só em casa.
De acordo com o barómetro de opinião pública do Plano Nacional de Leitura de 2009, a leitura associada às novas tecnologias está a tornar-se uma tendência. Cerca de 93% dos 1045 inquiridos consideram que a leitura aumentou principalmente com recurso a mensagens de telemóvel, computadores e Internet; 40% pensam que nos últimos dez anos a leitura, em geral, se manteve; e 39% consideram que se registou um aumento, embora nos meios tradicionais — livros, jornais, revistas — este não seja tão acentuado.
Fernando Pinto do Amaral diz que a leitura associada às novas tecnologias será uma tendência natural. “Para interpretarmos o mundo, temos sempre de ler”, afirma Pinto do Amaral. “Os suportes é que estão a mudar, sobretudo junto das gerações mais jovens, mas a leitura deve ser sempre valorizada”, acrescenta.
Menos jornais gratuitos
Hélder Almeida, que viaja entre Oeiras e o Cais do Sodré há vários anos, tem reparado que os jornais gratuitos que se deixavam nos bancos agora raramente se vêem. Olhando para a informação estatística, tem razão. Segundo dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação, a circulação — o número de exemplares que chegam aos pontos de venda, incluindo assinaturas e ofertas — dos dois jornais gratuitos portugueses (Destak e Metro) diminuiu.
A média da circulação do Destak entre Janeiro e Abril de 2012 foi de 71.090 exemplares, abaixo dos 94.944 exemplares em 2011. Em relação ao Metro, este numero passou de 92.798, em 2011, para 70.580 em 2012. Ambos os jornais são maioritariamente lidos por homens e nas áreas da Grande Lisboa e Grande Porto.
Segundo a directora do Destak, Isabel Stilwell, o facto de as pessoas sentirem falta dos exemplares nos transportes públicos é algo gratificante, “embora preferíssemos ter capacidade para ir ao encontro de toda a procura”. Não obstante as estratégias definidas para a distribuição do jornal, Isabel Stilwell afirma que não deixaram “de sofrer as consequências de uma gravíssima crise económica, o que tem obrigado a alguma redução na circulação”.
Junto à janela, já longe de conseguir ver o mar, Hélder Almeida diz que não há tantos jornais a bordo, mas há mais livros. “Agora a literacia é barata, só não lê quem não quer”, afirma. Um destes exemplos é a livraria que existe na estação de Cais do Sodré com livros a partir de 1,5 euros. “E há livros que parecem ter sido escritos a pensar em viagens, com capítulos mais curtos”, acrescenta. Gostava de ler jornais, sobretudo nos dias em que traziam suplementos, mas, nos últimos anos, tem ficado decepcionado. “E via-se muita gente como eu, mas agora nem todos podem gastar 30 euros por mês em jornais. E como a qualidade das reportagens diminuiu muito, já não se justifica [comprá-los]”
No entanto, Luís Pauzinho, de 39 anos, nesse dia comprou um jornal. Excepcionalmente, a capa de um desportivo fê-lo atrasar a paixão pelas bases de dados e guardar o livro que andava a ler. Mais adepto dos livros, durante a semana, no comboio, espreita o jornal das pessoas ao lado. “Não leio grande coisa, mas apanho as [letras] gordas”. Ri-se. Neste dia, porém, se tentar espreitar os jornais à sua volta, não terá grande sorte. São todos desportivos, como o seu.
Cais do Sodré. À volta, a passo acelerado, guardam-se os livros e as revistas ou enfiam-se os jornais debaixo do braço. Há mais comboios a partir, mas como já é hora de trabalho, poucos leitores seguirão lá dentro.
Fonte: Portugal
Assinar:
Postagens (Atom)

