Publicado em 23/09/2012
Foto: José Fernandes
Marta Portocarrero
Numa sociedade cada vez mais apressada, a leitura nos transportes
públicos é uma forma de se aproveitar o tempo gasto nas deslocações
entre casa e o trabalho. E, pela comodidade, o comboio é onde mais se
lê.
Falta pouco para chegar a S. Pedro do Estoril, mais duas páginas talvez. Nesta viagem, é Gabriel García Marquez — com Os Funerais da Mamã Grande — que atenua os solavancos do comboio da Linha de Cascais e faz Palmira de Almeida desligar-se da realidade.
Aos 67 anos, Palmira já perdeu a conta aos livros que leu. Começou com
as histórias das princesas numa vila de Angola colonial, onde não era
fácil comprar livros. Por influência dos irmãos, passou para a banda
desenhada e, mais tarde, deixou-se encantar pelos romances em
fascículos. Em 1974, veio para Portugal, onde trabalha como empregada
doméstica, e trouxe o gosto da leitura para os comboios.
Vive em Almada e até chegar a S. Pedro apanha três comboios e dois
metros. Com o cabelo curto, as hastes dos óculos vermelhas e uma
camisola branca, vai olhando para as flores da capa do livro enquanto
fala. “Leio em todas as viagens. O meu trabalho é muito manual — sempre a
limpar, a limpar — também preciso de exercitar o cérebro”, conta.
“Aproveito as viagens porque em casa não tenho tempo. Chego tarde e vou
logo dormir e aos fins-de-semana tomo conta dos meus netos”, acrescenta.
Em 2009, o barómetro da opinião pública do Plano Nacional de Leitura
realizou um inquérito a 1045 pessoas e encontrou 96% como Palmira de
Almeida, que considera a leitura muito importante. Para os inquiridos, a
leitura é especialmente importante no ensino e a formação (97%), na
utilidade para a profissão (94%) e no exercício da cidadania (93%).
Com os olhos fixos numa das últimas páginas, Vera Brandão, de 29 anos, é
uma campeã da leitura. “Leio, em média, nove livros por mês e também
tenho um blogue de literatura”, conta a professora de uma sala de estudo
em Carcavelos. Tira os óculos e acrescenta: “Gosto mesmo muito de ler e
o comboio não me incomoda, é muito estável. É como estar sentada à
secretária”. Põe os óculos e volta a mergulhar nas páginas de um livro
já gasto, A Mutação, de Robin Cook.
Para o comissário do Plano Nacional de Leitura, Fernando Pinto do
Amaral, o comboio — pela sua estabilidade — é um dos melhores meios de
transportes a utilizar numa altura em que a leitura é cada vez mais
fragmentária. “Actualmente, andamos sempre a saltitar de texto para
texto. Mas [este tipo de leitura] não substitui uma leitura extensiva em
que conseguimos mergulhar numa história”, refere Pinto do Amaral. “E
isto pode ser feito nos transportes, sobretudo nos comboios, em que as
viagens são mais estáveis”, defende.
Duas carruagens atrás, Maíra Silva trocou há cinco anos a agitação de
São Paulo pela tranquilidade da Marginal. Trabalha numa loja na Parede e
interessa-se particularmente por livros científicos. Está a ler O Campo de Batalha da Mente,
de Joyce Meyer. “Gosto muito deste tipo de livros”, diz, justificando a
escolha pelo curso de Psicologia que vai começar no próximo mês. “Só
comecei a interessar-me por livros há cerca de três anos, mas ler é
muito bom, faz-me viajar com a imaginação”, conta olhando para o livro.
Viajam no mesmo comboio quase todas as manhãs e não se conhecem, mas se
Maíra lesse o título do livro de João Soares, provavelmente iria
gostar: A Psicologia do Amor. “O título pode parecer estranho”,
admite João, envergonhado, sentado junto à janela três lugares atrás da
rapariga. “Mas eu sou terapeuta”, justifica, sorrindo. Aos 29 anos,
decidiu começar a utilizar o comboio há pouco mais de um ano. A partir
de então, os livros são a sua principal companhia. “Assim as viagens são
menos aborrecidas. Se, por acaso, me esquecer, compro um jornal”,
explica João Soares, enquanto se prepara para sair.
Segundo Teresa Sampaio, coordenadora do programa Ler +, Ler Melhor, da
RTP Informação, muitos adeptos da leitura nos transportes fazem-no por
uma questão de comodidade. “Em tempo de crise, com o preço da gasolina a
aumentar, também é uma opção procurada, sobretudo em viagens de longo
curso”, afirma.
No “regresso” a Lisboa
São 8h57 na estação de Cascais. Na gare, não há pessoas sentadas a ler,
nem jornais deixados nos bancos. As portas fecham-se no comboio com
destino ao Cais do Sodré. A bordo, os calções de banho e os chapéus de
palha são substituídos por camisas, gravatas e roupas formais. A maioria
dos passageiros vai trabalhar para Lisboa. A aventura pela literatura
em viagem faz-se sobretudo neste sentido e só acaba no fim da linha.
Hugo Santos também está a ler, mas de forma diferente. “Uso este
tablet, é mais prático”, diz, mostrando no ecrã do aparelho as pequenas
letras brancas de um conto que encontrou na Internet. Trabalha como
consultor informático numa empresa no Parque das Nações e, por isso,
está habituado a andar de comboio e a tratar a tecnologia por tu. “A
viagem demora cerca de uma hora e meia. Costumo ler artigos relacionados
com o meu trabalho ou textos que encontro na Internet”, conta. “É mais
fácil, depois é só fechar, guardar isto na bolsa e sair. E a página
ficou marcada”, diz, exemplificando o processo. Os livros em papel
também lhe agradam, mas só em casa.
De acordo com o barómetro de opinião pública do Plano Nacional de
Leitura de 2009, a leitura associada às novas tecnologias está a
tornar-se uma tendência. Cerca de 93% dos 1045 inquiridos consideram que
a leitura aumentou principalmente com recurso a mensagens de telemóvel,
computadores e Internet; 40% pensam que nos últimos dez anos a leitura,
em geral, se manteve; e 39% consideram que se registou um aumento,
embora nos meios tradicionais — livros, jornais, revistas — este não
seja tão acentuado.
Fernando Pinto do Amaral diz que a leitura associada às novas
tecnologias será uma tendência natural. “Para interpretarmos o mundo,
temos sempre de ler”, afirma Pinto do Amaral. “Os suportes é que estão a
mudar, sobretudo junto das gerações mais jovens, mas a leitura deve ser
sempre valorizada”, acrescenta.
Menos jornais gratuitos
Hélder Almeida, que viaja entre Oeiras e o Cais do Sodré há vários
anos, tem reparado que os jornais gratuitos que se deixavam nos bancos
agora raramente se vêem. Olhando para a informação estatística, tem
razão. Segundo dados da Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem
e Circulação, a circulação — o número de exemplares que chegam aos
pontos de venda, incluindo assinaturas e ofertas — dos dois jornais
gratuitos portugueses (Destak e Metro) diminuiu.
A média da circulação do Destak entre Janeiro e Abril de 2012 foi de 71.090 exemplares, abaixo dos 94.944 exemplares em 2011. Em relação ao Metro,
este numero passou de 92.798, em 2011, para 70.580 em 2012. Ambos os
jornais são maioritariamente lidos por homens e nas áreas da Grande
Lisboa e Grande Porto.
Segundo a directora do Destak, Isabel Stilwell, o facto de as
pessoas sentirem falta dos exemplares nos transportes públicos é algo
gratificante, “embora preferíssemos ter capacidade para ir ao encontro
de toda a procura”. Não obstante as estratégias definidas para a
distribuição do jornal, Isabel Stilwell afirma que não deixaram “de
sofrer as consequências de uma gravíssima crise económica, o que tem
obrigado a alguma redução na circulação”.
Junto à janela, já longe de conseguir ver o mar, Hélder Almeida diz que
não há tantos jornais a bordo, mas há mais livros. “Agora a literacia é
barata, só não lê quem não quer”, afirma. Um destes exemplos é a
livraria que existe na estação de Cais do Sodré com livros a partir de
1,5 euros. “E há livros que parecem ter sido escritos a pensar em
viagens, com capítulos mais curtos”, acrescenta. Gostava de ler jornais,
sobretudo nos dias em que traziam suplementos, mas, nos últimos anos,
tem ficado decepcionado. “E via-se muita gente como eu, mas agora nem
todos podem gastar 30 euros por mês em jornais. E como a qualidade das
reportagens diminuiu muito, já não se justifica [comprá-los]”
No entanto, Luís Pauzinho, de 39 anos, nesse dia comprou um jornal.
Excepcionalmente, a capa de um desportivo fê-lo atrasar a paixão pelas
bases de dados e guardar o livro que andava a ler. Mais adepto dos
livros, durante a semana, no comboio, espreita o jornal das pessoas ao
lado. “Não leio grande coisa, mas apanho as [letras] gordas”. Ri-se.
Neste dia, porém, se tentar espreitar os jornais à sua volta, não terá
grande sorte. São todos desportivos, como o seu.
Cais do Sodré. À volta, a passo acelerado, guardam-se os livros e as
revistas ou enfiam-se os jornais debaixo do braço. Há mais comboios a
partir, mas como já é hora de trabalho, poucos leitores seguirão lá
dentro.