segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ler ajuda a criança a entender o mundo; conheça maneiras de incentivar seu filho

Simone Sayegh
Do UOL, em São Paulo

 Ler para seu filho que ainda não se alfabetizou
fará com que ele tome gosto pela leitura

O livro infantil, antigamente limitado a raras e pouco atraentes edições, tem ganhado cada vez mais espaço nas grandes livrarias. Os lançamentos se multiplicam e as publicações tornam-se cada vez mais sofisticadas. Livro infantil virou até presente de aniversário, coisa impensada há 30 anos, quando muitas crianças só tinham acesso às histórias na escola.

Apenas uma coisa não mudou nesses anos todos: a importância da leitura na formação da criança.  De acordo com a pedagoga Clélia Cortez, orientadora da educação infantil da Escola Vera Cruz, de São Paulo, e coordenadora do programa Formar em Rede, do Instituto Avisa Lá (ONG de formação continuada de educadores), independentemente da época, os livros inserem as crianças pequenas em um mundo de sentidos e de significados que permite a ampliação e a construção da cultura. 

Dicas para formar leitores
  • Sempre que possível leia para seus filhos: mesmo crianças pequenas podem participar de situações de leitura;
  • Evite comprar o livro pela beleza da edição. Invista na escolha de narrativas que tragam questões que ajudem a lidar com sentimentos e ampliem a relação com a cultura;
  • Descubra se a escola do seu filho considera a leitura uma modalidade de ensino e procure colaborar  com as práticas de leitura desenvolvidas lá;
  • Crie o hábito de levar os filhos, desde pequenos, para passearem em livrarias;
  • Leve as crianças a eventos de contação de histórias;
  • Não restrinja as escolhas de títulos ao sexo do seu filho. Meninos e meninas podem ler os mesmos livros.
“As boas narrativas podem ajudar as crianças a pensarem muito sobre si mesmas e sobre os outros. É um ponto de encontro com a expressão humana”, afirma Clélia. Segundo a pedagoga, os valores surgem nas relações que as próprias crianças estabelecem entre essas histórias, sua cultura, casa e escola. 
 
De acordo com a psicóloga Débora Rana, coordenadora pedagógica da escola socioconstrutivista Projeto Vida, e também formadora do Instituto Avisa lá, a criança precisa ter o material escrito à disposição, assim como tem brinquedos, para entrar em contato sempre que desejar.

Os pais devem proporcionar opções de leitura variadas e evitar divisões por gênero. Assim como não existe brinquedo de menino e de menina, não existe livro para um sexo ou outro. Não ofereça à sua filha apenas histórias de princesas e a seu filho só as de piratas. “Crianças que só leem o mesmo tipo de livro acabam ficando sem repertório”, fala Débora. A variedade de assuntos contribui para o crescimento da rede de relações da criança e para o entendimento de seu próprio mundo.

Dentre os temas apresentados às crianças na literatura infantil, os contos maravilhosos –como as histórias dos Irmãos Grimm, na Alemanha, de Hans Cristian Andersen, na Dinamarca, ou de Garret e Herculano, em Portugal– sempre foram uma das narrativas mais importantes. Segundo a professora Cristiane Madanêlo de Oliveira, mestre em literatura brasileira e especialista em literatura infantil e juvenil pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), essas histórias fantasiosas exploram situações que ocorrem em locais indeterminados e apresentam fenômenos que não obedecem às leis naturais que regem o planeta.

Os clássicos originais, além de possuírem riqueza de linguagem, ajudam as crianças a pensarem sobre questões da existência humana desde muito cedo.
  
Um livro para cada criança

Faixa etária Como deve ser o texto Ilustrações Tipos de livro e formas de contar
De 1 a 2 anos As histórias devem ser rápidas e curtas Uma gravura em cada página, mostrando coisas simples e atrativas Prefira os livros de pano, madeira e de plástico. É recomendado o uso de fantoches
De 2 a 3 anos As histórias devem ser rápidas, com textos curtos que se aproximem das vivências da criança Gravuras grandes e com poucos detalhes Os fantoches continuam sendo o material mais adequado. Música exerce fascínio e pode ajudar a envolver a criança no enredo
De 3 a 6 anos Os livros devem propor vivências do cotidiano familiar. É a fase do “mãe (pai), conta outra vez” Predomínio absoluto da imagem, com textos brevíssimos Livros com dobraduras simples. O contador pode usar roupas e objetos característicos. A criança acredita que ele se transforma no personagem
A partir de 6 ou 7 anos (fase de alfabetização) Trabalho com figuras de linguagem que explorem o som das palavras. Construções enxutas. Personagens da coletividade, favorecendo a socialização. Inserção de poesia Ilustração integrada ao texto. Uso de letras ilustradas, de tamanhos e formatos diferentes O contador e a criança podem recriar passagens da história usando instrumentos musicais, massinha, tintas, lápis de cor, entre outros materiais 


“Os simbolismos ocultos nesse tipo de literatura ajudam a criança a defender suas vontades e a afirmar sua independência em relação ao poder dos pais ou à rivalidade com os irmãos ou amigos”, explica Cristiane. É nesse sentido que a literatura infantil e, principalmente, os contos de fadas podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta.

Segundo a professora, a própria psicanálise se apropriou dos contos maravilhosos e seus significados simbólicos para explicar e resolver os eternos dilemas que o homem enfrenta ao longo de seu amadurecimento emocional.

De um modo geral, essas histórias apresentam personagens bons ou maus, belos ou feios, poderosos ou fracos, de maneira maniqueísta, o que facilita para a criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana. “Os contos de fadas trazem categorias de valor que são perenes e, segundo a psicanálise, a criança é levada a se identificar com o herói não devido à sua bondade ou à sua beleza, mas por sentir nele seu inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e de proteção.”

No entanto, como as histórias fantasiosas são ricas em possibilidades, mas, ao mesmo tempo duais, é muito comum que sejam usadas por pais e educadores como pretexto para moralizar as crianças. “Muitos adultos simplesmente concluem pelas crianças e não permitem a elaboração do entendimento individual do texto, que é diferente para cada ser humano”, diz Débora.

A intenção de ensinar as crianças a se comportarem pela literatura é uma distorção do significado da formação de valores. Um exemplo disso são as provas de literatura aplicadas há algum tempo nos colégios, onde o mais importante era a criança responder de acordo com a interpretação pessoal do professor sobre o livro e não com a sua própria.  “Esse é o uso equivocado da leitura. Isso amedronta e ensina as crianças a odiarem a leitura, porque não podem participar efetivamente dela”, diz Débora.

Ambas as educadoras do Instituto Avisá Lá reforçam que o compromisso da escola deve ser o de dar sentido à experiência leitora e não padronizar comportamentos ou destruir textos, que, em sua maioria, foram escritos para ajudar as crianças a construírem por si mesmas seus pensamentos e valores.   “A escola é a grande responsável pela formação do leitor, para tanto deve ter clareza desse propósito em seu projeto educativo”, afirma Clélia.

Contar a história

A maioria das pessoas acredita que ler é uma ação para quem sabe ou consegue. Esse pensamento exclui dessa importante atividade todas as crianças abaixo de 6 anos, os analfabetos e as pessoas com deficiência visual.

“Ter contato com o texto escrito, via o próprio olhar, ou o olhar do outro, é ler”, fala Débora. Com base nesse conceito ampliado, a psicóloga ensina que a primeira inserção das pessoas no mundo da cultura é pela leitura, porta que deve ser aberta desde o momento que o bebê nasce. “Quando os pais ou cuidadores leem histórias para as crianças, eles estão fazendo com que elas leiam.”

Por fim, é importante também que o adulto demonstre prazer ao ler, porque o hábito da leitura é transmitido pelo exemplo. Adultos que leem continuamente na frente das crianças, com certeza, serão imitados no futuro. “O modelo de leitor é passado, é mais provável que, em uma família de leitores, a criança também se torne leitora”, afirma Débora.

Papel da escola

Quem quer que tenha o hábito de leitura já percebeu que o modo de ler um livro é diferente da maneira como se lê um jornal. “São comportamentos leitores distintos”, explica Débora. Enquanto a família dá o exemplo da leitura, a escola deve ensinar a criança a desenvolver os diferentes comportamentos leitores.

“Quando a escola toma para si que a leitura é uma das modalidades de ensino, as crianças podem aprender diferentes repertórios estruturantes de leitura”, fala. Para a coordenadora pedagógica, os principais erros das escolas com relação ao assunto é tratar a leitura como tapa-buraco da grade escolar e não considerá-la um valor. “Essa posição pode ser identificada em escolas que não têm um bom acervo de livros ou nem se preocupam em atualizá-lo.”

 Fonte: UOL Mulher

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A leitura é um esporte

Matéria publicada em 24/09/2012
Escritor português José Jorge Letria 
reitera necessidade de treino e ambiente propício
para a formação de leitores para a vida. 
Foto: Amanda Perobelli 
 
Para ser leitor, assim como no caso de um atleta de alta performance, é preciso mais do que talento ou simples vocação. Antes, são necessárias condições de treino e desenvolvimento para que a tarefa se desenvolva por completo. Esta é a tese do português José Jorge Letria para a manutenção do hábito de leitura entre crianças e jovens. “É bom que se perceba que são os autores dessa área (infantojuvenis) que formam os leitores para os livros de Clarice Lispector, José Saramago, Jorge Amado ou António Lobo Antunes. Quem não começa por um lado dificilmente chega ao outro”, afirma o presidente da Sociedade Portuguesa de Autores.

No Brasil para a 22° Bienal Internacional do Livro de São Paulo e o lançamento de Brincar com as Palavras, o autor, vencedor do prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil de melhor livro de literatura em língua portuguesa com Avô, Conta Outra Vez, revela a Carta Fundamental como ter filhos e netos o impulsionou para o gênero e do papel fundamental da família na manutenção e incentivo dos hábitos de leitura.

Carta Fundamental: O senhor afirma, em Brincar com as Palavras, que as palavras foram seus “primeiros brinquedos, os mais maleáveis e versáteis, os mais sedutores e indestrutíveis”. Essa paixão refere-se mais à língua portuguesa ou à literatura?

José Jorge Letria: Refere-se às palavras em geral, o que significa que a afirmação envolve, sobretudo, a língua portuguesa enquanto base de comunicação e descoberta, e também a própria criação literária, que só veio mais tarde, mas que já estava presente pelo modo como me afeiçoava às palavras e as colecionava, pela sua sonoridade e raridade.

CF: O senhor tem livros publicados de diversos gêneros. De onde vem seu interesse pelo infantojuvenil? Que diferenças há em produzir livros para crianças?

JJL: Comecei por publicar em livro de poesia para adultos, em janeiro de 1973. Mas depois veio o interesse pela literatura para crianças, em 1979, porque tinha filhos pequenos, que também eram o meu público, e porque o meu percurso musical como cantor-autor também passou pelas canções para crianças, que foram, em larga medida, a porta que se abriu para eu começar a escrever para os mais novos.

CF: É recente o reconhecimento, no Brasil, da literatura infantojuvenil como gênero no meio acadêmico. O mesmo ocorre em Portugal? Qual a sua visão sobre esse debate? Em sua opinião, o gênero já tem seu lugar consagrado?

JJL: A literatura para os mais novos tem hoje mais reconhecimento no Brasil, designadamente em nível acadêmico, do que em Portugal, onde é um segmento importante da produção literária, plástica e editorial, mas ainda é visto com desconfiança pelo mundo da investigação acadêmica. O ideal seria considerarem-na de forma plena, sem reservas ou preconceitos, mas enquanto tal não acontecer, justifica-se o seu estudo autônomo. É bom que se perceba que são os autores dessa área que formam os leitores para os livros de Clarice Lispector, José Saramago, Jorge Amado ou António Lobo Antunes. Quem não começa por um lado dificilmente chega ao outro. Para isso não basta aprender a ler jornais esportivos.

CF: O mesmo se dá entre os escritores? Ou ainda é corrente a ideia de que se trata de um gênero “mais fácil”, “ingênuo”, que qualquer um pode escrever livros para crianças?

JJL: O fundamental num livro para crianças e jovens é que seja inteligível, sem trair a beleza poética da palavra. Há, porém, essa noção enganadora de que ela é uma literatura simples. A Cecília Meireles enfrentou certo estranhamento quando publicou Ou Isto ou Aquilo, por ser uma poetisa com obra consagrada a publicar para crianças. Perguntaram-lhe, então, como era escrever para crianças, ao que ela respondeu: “É o mesmo que escrever para adultos, só que melhor”. Portanto, acho que exige um grande investimento, mas um esforço de simplicidade, que exige muito trabalho de bastidor.

CF: O senhor já afirmou que, como autor, escreve para ser lido, para tocar de alguma forma seu público leitor. Nesse sentido, a figura do mediador tem papel essencial, por ser quem faz a ligação entre as duas pontas desse processo. Que medidas são essenciais para que essa mediação seja bemsucedida? Que tipo de formação ou qualidades são essenciais a um bom mediador?

JJL: Um bom mediador tem de ser, antes de tudo, alguém que goste verdadeiramente do que está a fazer e que acredite no que faz. Por isso tem de gostar de livros e de ler, tem de gostar de partilhar esse amor e de perceber que essa partilha com os mais novos contribui para combater o analfabetismo, para formar leitores e até escritores.

CF: Que papéis desempenham a família e o mediador ou a escola?

JJL: Acredito que a mediação se baseia em três pilares: a família, a escola e o bibliotecário. A família porque, se há livros em casa, se há hábitos de leitura, estamos meio caminho andado. Depois, o professor e o bibliotecário, que são complementares. O grande problema é que, se nas guerras a primeira vítima é a verdade, nas crises a primeira vítima é a cultura. E, num momento como o que vive Portugal, ninguém compra livros e isso dificulta muito as coisas. Assim, a escolha de obras tem de ser mais criteriosa, mesmo que isso signifique editar menos. Todavia, sempre que me encontro com professores e mediadores, tento reforçar neles o sentido de confiança e na estratégia de responsabilidade pelo que fazem. Há que ser um trabalho de paixão, e não burocrático, pois são eles que devem mostrar às crianças que é possível, mesmo com as cargas horárias que têm hoje, que as absorvem muito, há sempre espaço para a leitura. A criança chega em casa cansada e tem o computador, os cursos, o jazz, os esportes, e é importante demonstrar a eles e aos pais que a leitura tem seu espaço e que é mais estruturante que a maior parte dessas coisas.

CF: Numa pesquisa sobre os hábitos dos brasileiros, a Retratos da Leitura no Brasil, aferiu-se que, no País, são lidas quatro obras por ano, apenas metade delas na íntegra. O professor é listado como o principal motivador do hábito, porém, o número de obras lidas cai sensivelmente após a saída da escola. Como evitar esse fenômeno? A escola é suficiente para formar leitores para toda a vida? 

JJL: É natural que as crianças nas escolas leiam mais livros que os adultos. Por várias razões: são obrigadas a fazê-lo, têm mais tempo e a leitura faz parte do seu plano de formação. Os adultos têm menos tempo e a vida mais atarefada com o trabalho e as preocupações profissionais, familiares e sociais. Mas compete depois à família e à comunidade não deixarem morrer o interesse pelo livro e pela leitura. Se os pequenos leitores ficarem desenquadrados e sem estímulo, dificilmente se tornarão grandes leitores, e é do núcleo dos grandes leitores que saem os grandes escritores. É um pouco como o esporte de alta competição: não basta ter talento e vocação, é preciso ter condições de treino e desenvolvimento.

CF: Como costumam ser seus encontros com jovens leitores, como ocorreu recentemente na Bienal do Livro de São Paulo? Que impacto esses megaeventos têm para atrair e formar leitores?

JJL: Estive diversas vezes na Bienal do Livro de São Paulo e acho positivo que sempre haja muitos jovens. Nessa passagem pelo Brasil, pedi para visitar algumas escolas e me surpreendi com o envolvimento das crianças. As perguntas eram espontâneas, e denotavam que eles haviam de fato lido o livro e que aquelas eram curiosidades delas. Alguns tinham curiosidades sobre o processo de escrita próprias de uma criança que está ela mesma envolvida com o ato de escrever. Essa relação com os leitores é um complemento muito importante ao nosso trabalho e hoje se está a perder. As editoras estão muito tecnocratas e distantes, e aqui no Brasil há uma relação mais humanizada entre autor e leitor. Já tenho títulos programados para os próximos anos, e quero muito aprofundar essa minha relação com o Brasil.

CF: Autores lusófonos como Couto, José Luandino Vieira e José Eduardo Agualusa tiveram suas obras difundidas no Brasil graças ao incentivo do governo português. Apenas agora o brasileiro ensaia uma contrapartida. Como avalia o intercâmbio de autores entre países de língua portuguesa?

JJL: O apoio à internacionalização da produção cultural de um país é fundamental, tenha a forma que tiver, e deve ser assegurado sem discriminações ou ao sabor do interesse de grupos editoriais ou outros. Também acredito muito no apoio oficial à tradução, pois é uma via essencial para que livros de autores lusófonos sejam editados e lidos noutros idiomas. Conheço mal o que se passa no Brasil a este nível, mas conheço o enorme potencial da cultura brasileira e a sua capacidade de se afirmar no mundo. Veja-se, a título de exemplo, o que se passa com a música, com as novelas da televisão ou com o cinema. Estou a falar de uma verdadeira potência cultural em nível global. Compete a quem decide e a quem legisla criar condições para que esse patrimônio se mundialize, o que é bom para o Brasil e para todo o universo lusófono. E eu acredito cada vez no potencial cultural, econômico, social e até político da lusofonia. Esta língua que nos une há séculos tem de marcar de forma clara o seu lugar neste mundo em transformação profunda e acelerada.

Dia Nacional da Leitura - Vamos ajudar "Eu Quero Minha Biblioteca"



12 passos para que seus filhos se tornem bons leitores

Publicado em 10/10/2012
Leia em voz alta com eles. Explore com eles os livros e outros materiais de leitura – revistas, jornais, folhetos, almanaques, manuais de instruções, cartazes, placas… Todo material impresso pode ser útil e ocasionar um momento de troca centrado na leitura.
Ofereça a eles um ambiente rico em termos de letramento: faça atividades com leitura mesmo com os bebês e crianças bem pequenas, e continue fazendo com as crianças e jovens que já estão na escola.
Converse com eles e escute-os quando falam. Isso ajuda muito no desenvolvimento da linguagem oral.
Peça para recontarem histórias ou informações que você leu em voz alta para eles. (Cuidado para que isso não acabe virando aula! Não é esse o espírito da proposta. Precisa ser algo agradável e descontraído).
Incentive-os a desenhar e fazer de conta que escrevem histórias que ouviram, e peça, depois, que “leiam” em voz alta. Parece absurdo? Pois não é! Afinal, eles passam o tempo fazendo de conta que cozinham, que dirigem carros, que lutam com inimigos perigosos, que são médicos e professores… Não esqueça: a ideia é brincar de ler.
Dê o exemplo: faça com que eles vejam você lendo e escrevendo. E, por favor, não faça a bobagem de dizer que eles devem aprender a ser diferentes de você, que não gosta de ler! O que conta não é o que você discursa sobre leitura, escrita, estudo: é o que você oferece como exemplo.
Vá à biblioteca regularmente com seus filhos. Se for uma biblioteca de empréstimo, é bom cada um ter sua própria ficha de inscrição.
Crie uma biblioteca em casa, e uma biblioteca pessoal para a criança, onde ela se acostume a guardar os livros e a buscá-los. Na hora de comprar presentes para seu filho, lembre-se dos livros! De quebra, ele ganha competência para lidar com o mundo e abertura da imaginação.
Não deixe de fazer um pouco de mistério, para aguçar a curiosidade. Por exemplo: você tem três livros na mão e diz à criança que ela pode escolher entre dois livros. Ela certamente vai dizer que são três, e não dois. Você faz de conta que se enganou, e põe um deles de lado.  Adivinha qual deles ela vai querer… Use sua imaginação. Tudo isso é jogo, mas o resultado é que seu filho ganha sempre, e para toda a vida.
10 Leve seus filhos sempre que houver hora do conto, teatro infantil e atividades similares na comunidade.
11 Se tiver varanda em casa, você já tem um dos melhores recursos que existem para instalar um lugarzinho para ler. Tem coisa mais gostosa que sentar para ler vendo o mundo passar? Às vezes, até dá para deixar um estoque de leitura permanente na varanda, que se renova volta e meia.
12 Crianças ou adolescentes juntos fazem uma ocasião das melhores para ler (em acampamento, em viagem de férias, recebendo amigo pra passar a noite ou o fim de semana…). Deixe materiais variados à disposição, para escolha livre.
Fonte: Ecofuturo

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Ler e contar: a formação do leitor como um triângulo amoroso

Matéria publicada em 08/08/2012
Fonte: Ecofuturo Blog

“As histórias são bálsamos medicinais. Achei as histórias interessantes desde que ouvi minha primeira. Elas têm uma força! Não exigem que se faça nada, que se seja nada, que se aja de nenhum modo – basta que prestemos atenção”.

Esta afirmação da psicanalista norte-americana Clarissa Pinkola Estés, claro, não é nenhuma novidade. Mas vale pela precisão e beleza com que nos recorda de uma atitude que a humanidade reconhece pelo menos desde que nos humanizamos. Se, como diz o filósofo espanhol Fernando Saváter, não nascemos humanos, “nos tornamos humanos por convívio e por contato”, essa sofisticada metamorfose jamais se manteria em pé, não fosse nossa capacidade de ouvir e de narrar histórias. Na mínima melodia articulada pela voz humana se identifica o DNA dos homens e mulheres que somos ou que haveremos de ser. É por isso que a imagem de nossos ancestrais em volta do fogo contando “causos” de terror ou de glória será sempre atual – ainda que a atualizemos munidos de livros, celulares e tablets.

Mas desde esse feito extraordinário e decisivo que foi a invenção da linguagem, muitas tecnologias foram desenvolvidas em favor da nossa necessidade ancestral de narrar. De todas elas, nenhuma foi tão decisiva, irreversível e transformadora da nossa relação com a palavra como a invenção da escrita. Não cabe desenvolver aqui a reviravolta que isso ocasionou na mentalidade humana, e sobre isso são escritas até hoje milhares de teses em todo o mundo. Para a nossa abordagem, entretanto, basta destacar que uma técnica (a leitura) não veio substituir a outra (contar histórias) – mas atentar para as diferenças entre uma outra é fundamental, quando queremos promover de fato a formação de leitores.


De ler e de contar

Contar história é uma maneira antiquíssima e eficaz de fortificar e perpetuar a cultura, através da transmissão de valores éticos ou morais, de técnicas essenciais à manutenção da comunidade, de ritos de passagem inerentes aos ciclos da vida, etc. Passadas de geração para geração, de boca em boca, se ajustam e se transformam conforme as necessidades. Como a palavra também cura, é “bálsamo medicinal” – pode alegrar, comover, acalentar, entreter, fazer rir, consolar –, contar histórias tem muito de improviso e adaptação ao contexto e à função a que se destina, dependendo muito da impressão que se quer imprimir na alma daquele que ouve. “Quem conta um conto aumenta um ponto”, já dizia um antigo antepassado nosso cujo nome se perdeu na história, mas que com certeza foi um grande narrador. E isso vale mesmo para histórias que foram escritas. No ato de contar, o material escrito não precisa estar presente, pois o que interessa é o enredo, a narrativa. Sendo assim, além da própria voz, podemos usar recursos diversos, como fantoches, técnicas teatrais, caracterizações de personagens, objetos, música, etc.

Agora, ler é outra história. Na leitura de um conto, mesmo o ponto permanece onde está. Até porque a função da escrita é preservar tanto a história quanto a forma como ela está registrada. Portanto, se é para acrescentar alguma coisa, isso corre por conta de quem ouve: vai depender de como a história se acomoda no espírito de quem a recebe, que é livre para interpretar. Mas àquele que se comprometeu a ler para os outros cabe respeitar cado ponto, cada vírgula e a inteireza da frase.


Ler em voz alta: um triângulo amoroso entre você, o livro e o pequeno leitor

Vale enfatizar: não se trata de substituir uma prática pela outra, nem de estabelecer que esta seja melhor do que aquela – enfim, não se trata de hierarquizar. Ambas as práticas são importantes para a aquisição da linguagem e o desenvolvimento da escrita. Mas, em se tratando de promoção de leitura e formação efetiva de leitores, a presença do livro e o respeito às particularidades da leitura são indispensáveis, e aí precisamos ficar atentos entre as diferenças entre ler e contar. Comparada à narrativa oral, a leitura é algo muito recente e ainda estamos aprendendo como é que se faz. Grandes leitores e autores, como Goethe, advertem que aprender a ler é algo que não paramos de aprender durante uma vida inteira!

Em abril de 2010, veiculamos em nosso antigo blog uma excelente entrevista com a fonoaudióloga e assessora em leitura pública Lucila Pastorello. Vale a pena reproduzir abaixo alguns trechos preciosos que nos ajudam a pensar e aperfeiçoar nossas práticas de mediadores de leitura. Vejamos.

Com a leitura a coisa é um pouco diferente. Um professor e pesquisador da USP, o Claudemir Belintane, que orientou meus estudos de doutorado, costuma dizer que na leitura há uma lei-dura. Não dá para adaptar, inventar; o leitor deve ler aquilo que está escrito, já que uma das funções da escrita é registrar um texto, em seu conteúdo e sua forma.

Se a ideia é promoção de leitura, é claro que ler em voz alta é a prática mais indicada, pois a presença do escrito (do livro, por exemplo) na atividade faz com que aqueles que ouvem e veem (crianças, normalmente, mas funciona com adultos também) fiquem interessados em saber de onde vêm as palavras, a história que envolvem a todos na voz do leitor. A criança vê o leitor vendo o escrito. O leitor, por sua vez, tem um compromisso com o texto escrito e com os ouvintes: ele testemunha a língua, está sujeito às leis da escrita, mas ao mesmo tempo pode deixar sua marca interpretativa com sua voz, fazendo o texto passar por seu corpo e atingir o corpo dos outros.

Ao lermos em voz alta, o texto escrito está presente, o que cria uma triangulação na situação: a escrita, o leitor e aquele que escuta e observa a leitura. Esta triangulação é essencial para trabalharmos o desejo pela leitura e pela escrita. A transição, falando especificamente em pessoas em processo de alfabetização, se dá naturalmente quando há desejo pelo escrito, quando o não-leitor inveja o leitor e se lança no árduo caminho de ser letrado. Está aí um bom sentido para o termo "mediador de leitura". A leitura em voz alta é uma oferta, um presente para o futuro. Ler para o outro é sempre importante, ainda mais tratando-se de um leitor em formação. Devemos lembrar que a alfabetização é o domínio de uma técnica, mas a formação de um leitor leva anos. Quantos anos? Provavelmente a vida!

Feitos esses esclarecimentos preciosos, uma pergunta não quer calar: por que ainda somos resistentes em admitir essas diferenças e por que, sempre que podemos, colocamos a contação de histórias no lugar da leitura em voz alta? Lucila esclarece.

Contar histórias tem sido uma prática mais intensa justamente por conta de suas características: liberdade para criar, resgate de elementos da cultura popular e arrebatamento do espectador através de uma cena dramática, muito próxima do teatro. Além disso, no Brasil, quando falamos aos professores sobre leitura em voz alta, é comum percebermos a associação ao controle, com a avaliação e não com a fruição do texto e a criação de sentidos interpretativos. Esta associação pode ser motivada pelo uso autoritário e normativo da leitura. Se pensarmos que ler é transformar o material gráfico em material sonoro, aí pensamos que existe uma “leitura certa” e uma “errada”. Mas, se considerarmos que ler é produzir sentidos, a leitura em voz alta passa também a ser uma forma de singularizar o discurso, de oferecer aos outros a sua leitura particular.

Se ler é algo que se exercita e se aprende pela vida toda, podemos e devemos oferecer leitura sempre e em todos os lugares, inclusive para pessoas plenamente alfabetizadas. Segundo Lucila:

Podemos ler com as crianças desde muito cedo; antes de serem alfabetizadas, elas podem “ler as imagens” enquanto você lê o escrito (a leitura imagética é uma forma interessante e importante de acesso ao sentido de um texto). Aos poucos, à medida que a criança caminha em seu processo de alfabetização, podemos variar os papéis, inventar outros. Ler para o outro é uma expressão de afeto e cuidado. E para pensar: até que idade queremos ser cuidados? Alberto Manguel, um importante escritor e pesquisador argentino, descobriu a potência da leitura em voz alta lendo para um grande escritor argentino, Jorge Luis Borges, que estava perdendo a visão. A partir daí Manguel passou a incorporar a leitura em voz alta como uma prática interativa: passou a ler em voz alta em casa, com sua companheira. Em alguns países como França e Portugal, atualmente existem sessões de leitura em voz alta abertas ao público: a leitura em voz alta é uma oferta e não necessariamente uma alternativa a cegos e analfabetos. Não se trata de suprir, mas de ofertar.


Um presente pra você, leitor

Dissemos parágrafos acima que, na contação de histórias, o que importa é a narrativa, o conteúdo que é contado – o enredo da história. Mas, quando se trata de leitura de literatura, interessa não só o que se conta, mas também a forma como o autor narra. Por exemplo, qualquer um de nós pode dizer que, do alto de um voo de avião, as coisas aqui embaixo parecem tão minúsculas que um homem, um cavalo e um boi se tornam verdadeiras formiguinhas. Mas existe um jeito de dizer isso que só pode ser dito por Guimarães Rosa. Do conto “As margens da alegria”, extraímos a seguinte pérola: “Se homens, meninos, cavalos e bois – assim insetos?”.

E não para por aí o deslumbramento desse conto. Ele inteiro é construído com pérolas, para o nosso “milmaravilhamento”. Um menino vê pela primeira vez um peru no quintal e de repente não é mais um peru, é a coisa mais deslumbrante do mundo, é uma experiência arrebatadora, é a iluminação de uma vida inteira:
“O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão – brusco, rijo, – se proclamara. Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de azul-claro, raro, de céu de sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto – o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para passeio”.

Não é maravilhoso?! É aquele tipo de leitura para ser relida. Relida, não: translida. Não, ainda não é isso, é aquele tipo de coisa que exige ser: pro-cla-ma-da! É daqueles trechos pelos quais passamos e imediatamente queremos chamar todo o mundo para ver-ouvir-ler-se-maravilhar. Exige ser compartilhado!
Tudo bem, vocês já perceberam com toda razão que Guimarães Rosa é no mínimo o escritor de cabeceira de certas pessoas aqui no Ecofuturo... Mas, experimente ler o trecho acima em voz alta. Leu? Então, tem mais: experimente a sensação de movimentar bem os lábios, sentindo cada movimento, abrindo bem a boca, articulando cada palavra vagarosamente, sentindo o movimento da língua, conforme a exigência de cada sílaba, atento à delícia da pronúncia e à sonoridade – especialmente em: “empáfia”, “torneado”, “redondoso”, “entufou”, “ríspida grandeza tonitruante” e “abotoado grosso de bagas rubras”... Aposto que você sentiu um negócio estranho e maravilhoso no próprio corpo.
Sentiu? Então, corre e anuncie aos outros a boa nova!