segunda-feira, 6 de agosto de 2012

“Ler ou não ler" é, uma vez mais, a questão

Filipe de Sousa
Texto publicado originalmente no jornal: GAZETA VALEPARAIBANA
Julho/2012

Nas sociedades contemporâneas, a leitura (em contexto escolar, profissional ou de lazer) assume um papel importantíssimo na promoção do desenvolvimento cultural, científico, político e, consequentemente, econômico dos povos e dos indivíduos. Por isso, tanto se tem refletido sobre a forma de incentivar e motivar as pessoas para a leitura, em especial as crianças e os jovens, que ainda não criaram e enraizaram esse hábito tão enriquecedor.

Interlocutor privilegiado, pelo tempo que partilha com os mais novos, a escola pode ajudar a criar e a sedimentar hábitos de leitura quer promovendo e explorando o livro, com temáticas adequadas e atrativas para as correspondentes faixas etárias, quer dinamizando atividades inovadoras e interessantes com livros na biblioteca escolar, quer propondo a navegação em sites diversificados que põem o aluno em contacto com a leitura de diferentes suportes, muitas vezes interativos. Estas são, fundamentalmente, as questões sobre as quais nos debruçaremos no artigo que se segue.

As crianças e os jovens aprendem muito do que sabem acerca do mundo e da vida espontaneamente, em contextos muito diversificados que abrangem o grupo familiar, o círculo de amigos, as micro-sociedades ou grupos em que se inserem e os meios de comunicação social, desde a televisão até à Internet.

Mas é, sem dúvida, na escola e, frequentemente, através do livro, que aprendem de forma mais organizada a sistematizar as informações e os conhecimentos, a pensar, a olhar com espírito crítico a realidade circundante, a problematizar o mundo, a encontrar resposta para os problemas que enfrentam, a respeitar as  diferenças étnicas, sociais e pessoais e, muitas vezes, a interiorizar os seus direitos e deveres, como pessoas e como cidadãos. Enfim, o contacto com o livro enriquece culturalmente o indivíduo e promove a sua autonomia. Para já não falar, especificamente, da importância do livro e da leitura para o melhoramento da competência linguística oral e para a aprendizagem do código escrito da sua própria língua.

De ano para ano vamos tendo cada vez a sensação mais nítida de que aumentam os problemas relacionados com a competência linguística oral e escrita dos jovens em geral, problemas esses denunciados diariamente pela própria família, pelos meios de comunicação social e, claro, amargamente constatados por todos os professores. É visível e constrangedora a dificuldade de certos adolescentes em exporem claramente um raciocínio. No âmbito da escrita já não são só os problemas ortográficos, mas é também o domínio deficiente da pontuação, da acentuação gráfica, da própria construção sintática da frase, bem como o da construção de um simples texto.

Neste contexto, afigura-se-nos óbvia a importância do livro e da leitura como fonte de saber e de cultura e como meio eficaz de aperfeiçoamento linguístico. Todavia, o difícil é ser capaz de conduzir as crianças e os jovens à leitura, quando estão rodeados de tantas e tão diversificadas solicitações e quando, por vezes, até o próprio meio familiar parece avesso a esta atividade e a tudo o que com ela diretamente se relaciona (nomeadamente, consagração efetiva de uma parcela do tempo livre à leitura, discussão de aspectos sobre os quais o livro que lemos nos fez refletir, exteriorização do prazer de ler, visita regular à biblioteca e à livraria e aquisição habitual de livros).

Não pretendemos refletir aqui sobre as razões sociológicas desta falta de tempo familiar para a leitura, senão mesmo falta de vontade, mas é certo que ela não contribui minimamente para a motivação intrínseca para ler que as crianças e os jovens deveriam ter.

Por outro lado, se a própria comunidade escolar (digo, comunidade escolar, e não só professores de Português) não conseguir mostrar aos alunos uma atitude muito positiva em relação ao prazer de ler, quer a finalidade seja informativa ou recreativa, e se não encarar a biblioteca como um espaço de cruzamentos curriculares, de modo a que a sua dinamização seja contínua e feita por todos, dificilmente conseguirá cativar os alunos para a leitura.

Primeiro de Julho dia Mundial das Bibliotecas. Vamos valorizar?

Todos pela dinamização das Bibliotecas Escolares e Públicas.

Fonte: Ofaj

Ler ou não ler? Eis a questão…

Elvis Rocha
Quem testemunha hoje a minha paixão pela comunicação escrita, esse meu prazer explícito em ler e escrever, não imagina como foram difíceis pra mim, os primeiros passos nesse sentido.Aos 7 anos, morando em um sítio, fui matriculado no primeiro ano e, depois de 6 meses, quando morreu a única professora (Dona Genília, que Deus a tenha!), que ensinava do primeiro ao quarto ano (tudo junto), eu não havia aprendido a desenhar uma única letra, sequer.

No ano seguinte fui para a casa de parentes na cidade, matriculado no SESI, permaneci 4 meses, até a morte do meu avô materno e, mais uma vez saí sabendo desenhar o nome da escola e, nada mais.
De volta ao sítio, ainda sem uma professora na escolinha, eu olhava com desgosto para o meu material escolar  e me considerava um incapaz, que queria muito saber, mas, que não conseguiria aprender nada, nunca.

Meu pai, embora soubesse um pouco, achava que era da escola e dos professores a função de  alfabetizar e ensinar, mas, minha mãe, que só sabia (e sabe) o pouco que aprendera no Mobral, arriscou-se a me ensinar e, diferentemente da didática clássica, ela me dava sílabas inteiras para juntar e formar palavras, fugindo de consoantes e vogais separadas: Ba-la, sa-pa-to, ma-ca-ca, quei-jo, pi-po-ca, etc… O resto, eu aprendi errando (muito). Quando eu já sabia formar as palavras, ela ensinou-me os números e as quatro operações básicas, sem que eu aprendesse a contento, contas de dividir (Até hoje eu apanho disso).
Ainda meio atrapalhado e inseguro, como a criança que começa a andar, eu buscava entre as coisas do patrão, no escritório dele, tudo que pudesse ler: Revistas, jornais, livros, gibis, palavras cruzadas, tudo, tudo que me trouxesse informação e assim, eu me senti, de verdade, descobrindo um novo mundo, um novo e mágico universo. Quando não entendia o sentido de uma palavra, perguntava para alguém ou apelava para o dicionário do patrão (Juiz de direito). E o próprio patrão, percebendo que eu gostava de aprender, me ensinava e corrigia, quando eu escrevia ou falava errado, além de me contar muitas histórias do Brasil, da humanidade e, dele próprio, como exemplo.

Como a letra da minha mãe é bonita e ela começou a me ensinar desenhando pontilhados pra eu sobrescrever, a minha letra também nasceu relativamente boa, a ponto de, no ano seguinte, a professora de outra escola, na cidade, duvidar de que eu não tivesse concluído o primeiro ano e insistido para que eu fosse mandado direto para o segundo, o que eu prontamente, recusei. Foi um ano fácil, de notas excelentes e muita satisfação por constatar que eu não era aquele incapaz que me julgava antes. Faltava apenas aquele primeiro empurrão da minha mãe, para que eu pegasse no tranco e seguisse em frente, sozinho.

O segundo ano eu estudei em outro sítio dos mesmos patrões dos meus pais, para onde eles haviam se mudado. A escola ficava a quatro quilômetros da minha casa, mas, era um percurso que eu fazia todos os dias, a pé, com prazer, sem jamais reclamar. Eu me desesperava sim, quando, por algum motivo, não podia ir.

Nesse novo sítio pra onde nos mudamos, morava Luiz, um rapaz de 16 anos, que nunca havia pisado em uma sala de aula e ele, vendo o meu entusiasmo com os estudos, interessou-se em aprender comigo. Do mesmo modo como minha mãe havia me ensinado, ensinei pra ele e, em pouco tempo ele já fazia algumas leituras curtas na igreja, muito orgulhoso. Se hoje ele disser pra alguém que jamais entrou em uma escola, pela maneira como é inteligente e conhecedor de muitos assuntos, poucos acreditarão nele.
Eu, depois de adulto, percebi que um sobrinho estava tendo dificuldades parecidas com as minhas, para aprender na escola. Encerrou o terceiro ano seguido de estudos sem sair do primeiro ano e, brincando, como fez minha mãe comigo, resolvi arriscar com ele e, para minha surpresa, em apenas uma semana, com muita paciência, ele já sabia desenhar, juntar as letras e formar palavras com as vogais, tipo eu, ei, oi, ui, ia, etc… e, daí pra ele sair do primeiro para os outros anos letivos sendo sempre bem aprovado, foi um pulo.

Por fim, eu acho que, independentemente de hoje as crianças já praticamente nascerem em creches e escolinhas, de terem todas as facilidades e incentivos para estudarem e aprenderem, o incentivo inicial em casa é imprescindível para uma decolagem mais fácil, na escola. O pai, a mãe ou outra pessoa que vá ensinar, precisa ter muita paciência, jamais se irritar e nunca chamar a criança de burra, lesada, incapaz… Mesmo quando o aproveitamento não parecer satisfatório, elogiar, incentivar e mostrar que e como dá para melhorar e recomendar aos instrutores de reforço, que ensinem e não façam pelo seu filho, as tarefas que ele não entender na escola; acompanhar o desempenho dele e exigir da escola, qualidade no ensino, não permitindo jamais que ele seja aprovado, sem méritos para isto, porque um boletim forjado poderá lhe abrir muitas portas no futuro, mas não garantirá que ele fique em um emprego ou que cresça como pessoa ou profissional.

Que o diploma seja a campainha que abrirá muitas portas pra ele e o aprendizado, a rodovia sem fim por onde ele seguirá com segurança e sabedoria…

Ler ou não ler: eis a questão

William Grigsby Vergara é Desenhista Gráfico, estudou na UCA, Nicarágua. Veja este artígo completo na revista Envío. Visite: www.envio.org.ni

Artigo publicado originalmente em agosto/2008
Segundo o escritor marroquino-francês Daniel Pennac, o ser humano leitor é sujeito de dez direitos. O primeiro de todos, o direito a não ler. Parece que uma maioria de jovens nicaragüenses, consciente ou inconscientemente, não conseguiram ir além desse primeiro direito. Constituem a maioria quem se concede, diariamente, o direito a não ler. Entre um bom livro e um filme de televisão de má qualidade a oferta televisiva sai ganhando com mais freqüência do que nos agradaria confessar.

Pennac afirma que o dever de "educar" consiste em ensinar meninos e meninas a lerem, em iniciá-los na literatura, em dar-lhes os meios para julgarem se sentem ou não a "necessidade dos livros". E diz também que, embora se possa admitir sem problema que alguém recuse a leitura, torna-se intolerável que qualquer um seja –ou se sinta– recusado por ela. E na Nicarágua, rejeitamos a leitura? Por quê? Estamos perante um fenômeno de apatia generalizado, nacional? Por que estamos como estamos? Porque somos como somos? Como leitor meticuloso quis acercar-me a algumas das causas da não-leitura, quis saber se a juventude na Nicarágua exerce ou não e como os exerce os famosos dez direitos que têm como leitores, segundo Pennac: o direito a não ler, o direito a folhear os livros, o direito a não terminar um livro, o direito a reler, o direito a ler qualquer coisa, o direito a emocionar-se ao ler, o direito a ler em qualquer parte, o direito a somente folhear, o direito a ler em voz alta e o direito a guardar silêncio sobre o que leram.

A UCA: UMA GRANDE MASSA DE ESTUDANTES INCOMUNICADOS COM A LEITURA

Meu primeiro "caso" a ser estudado foi realizado na Universidade onde estudei. Vejamos o que acontece por trás dos muros da bela Biblioteca José Coronel Urtecho (JCU) e em suas antigas prateleiras. Segundo um estudo recente da Universidade Centroamericana (UCA), a média de empréstimos anuais de livros é de 26 por aluno. A cifra é algo escandalosa, considerando que a UCA tem pelo menos 6 mil estudantes em suas salas de aula. Na área de sala, onde não permitem retirar os livros emprestados, a média é de 20 empréstimos anuais por aluno. Isto significa que os universitários da UCA só fazem empréstimo de dois livros em cada quadrimestre, apesar de que em cada quadrimestre têm pelo menos quatro aulas.

Procuro à Coordenadora da Direção de Pesquisa da UCA, Wendy Bellanger. Também está muito surpresa. Explica-me que a Universidade está promovendo "cursos de leitura compreensiva" tentando remediar o escasso hábito de leitura entre os jovens. Também realizam oficinas de redação com estudantes de certas carreiras e nos mestrados e doutorados incluem uma oficina de leitura compreensiva que é dada também aos professores. Wendy faz aulas na Universidade: Introdução à Antropologia. Seus alunos, sociólogos e trabalhadores sociais, são incapazes de fazer referências corretas sobre a bibliografia que empregam. "Em vez de citar o autor, dizem-me: segundo o folheto tal e tal…".

QUANDO "A VERDADE" ESTÁ NA INTERNET

Outro problema é que até chegar ao livro que deseja ler, o estudante deverá passar por toda uma parafernália burocrática de trâmites institucionais. "Um estudante da UCA sempre tem que fazer fila para encontrar seu livro –diz Wendy– e por sua vez, a instituição tem medo de emprestar abertamente os livros, porque existe a idéia de que os estudantes não cuidam deles, estragam-nos". Uma biblioteca que tem medo de que roubem ou estraguem seus livros limita a experiência de pesquisar e interagir amistosamente com os livros. Em outras ocasiões, quando o livro é muito antigo e não há edições novas que evitem a queda das folhas só com o contato das mãos do leitor, o livro resulta tão pouco atraente que o jovem estudante o rejeita.

A experiência docente de Wendy contribui com outro interessante dado ao perfil da crise: "Cria-se a falsa idéia de que "a verdade" está na Internet. Com freqüência meus alunos fazem referências a Wikipedia, a nova autoridade dos estudantes". A inovadora oferta das bibliotecas virtuais está enchendo as salas com uma raça de preguiçosos buscadores. "Não lhes ensinam a serem seletivos com a Internet", queixa-se Wendy. O fato de que os professores se colocam atualmente em ambos pólos piora a situação: aqueles que apostam na riqueza da literatura on-line, pensando que o melhor canal de informação é a Rede; e os que são críticos das novas tecnologias, temem o desaparecimento do formato físico e o plágio da informação acadêmica. Com os professores polarizados, os jovens andam um pouco perdidos, navegando nesse grande oceano de sinais e significados que é a Internet. E o lado escuro que tem toda tecnologia fomenta as rotinas ociosas dos estudantes.

Com estas realidades –uma onipresente cultura da transmissão oral nos professores, uma ausência de crítica perante os meios em massa dos estudantes e a ambigüidade das informações recebidas pela Internet sem o radar da seletividade – o que se colhe são deficiências na formação. O mundo universitário não fomenta a cultura que dá importância à transmissão escrita como veículo de informação e conhecimento. "O oral resulta mais fácil de digerir e de reter. E eu creio que isto não pode ser resolvido somente com cursos de leitura compreensiva. Para superar a apatia em relação aos livros deve-se começar a trabalhar nas escolas", conclui Wendy.

QUANDO PREFEREM A TELEVISÃO E O COMPUTADOR

Reybil Quaresma, 52 anos, motorista do Bibliobus desde o começo, conta-nos que é nos primeiros meses escolares, entre janeiro e abril, quando uma média de 200 meninos e meninas visitam diariamente o Bibliobus à procura de materiais para documentar-se e cumprir com suas tarefas escolares. Vêm das escolas que rodeiam a BAN na região de Las Brisas. Reybil parece preocupado: os moços só chegam para pesquisar temas acadêmicos, procuram textos escolares de Espanhol, Matemática, Física, Biologia e Ciências Naturais, mas não aparecem muitos leitores que procurem prazer e reflexão na leitura, apesar de que a biblioteca conte com um bom fundo bibliográfico (13 mil títulos). "Só procuram leitura-trabalho" . E Elizabeth acrescenta: "Hoje os jovens preferem a televisão e o computador".

O Bibliobus empresta uns 140 livros mensais em cada sistema penitenciário. Segundo Reybil, nos cárceres de Granada, Matagalpa, Chinandega e La Esperanza -único cárcere de mulheres no país- emprestam muitos livros de filosofia, poesia e auto-ajuda. "Cuidam dos livros, temos quatro ou cinco livros danificados durante o ano", afirma satisfeito o velho motorista desta biblioteca ambulante. O lugar onde se emprestam menos livros é no cárcere de mulheres: uns 47 livros em cada visita. "É que nem todas as detentas sabem ler, às vezes sobem ao Bibliobus só para folhear livros com ilustrações".

OS LIVROS DESAPARECERAM ALGUMA VEZ ?

Não se pode subestimar o valor de alguns jovens interessados em ler literatura como necessidade pessoal, que chegam ávidos à livraria, deixam um depósito de 20%, levam o livro que desejam e depois terminam de pagá-lo. Na maioria dos casos, estes jovens não são só leitores, são escritores novatos.

Na América Central os livros são caros em relação ao poder aquisitivo das pessoas. "Um livro que custa 13 dólares (250 córdobas) é um livro caro na Nicarágua, mas nos Estados Unidos ou na Europa não é. Na Europa um livro pode valer até 50 euros e ser acessível para quase qualquer cidadão. Nos Estados Unidos vi livros de autores nicaragüenses a 20, 25 ou 30 dólares que lá não são caros, mas aqui são", aponta Salvadora. Segundo sua experiência, há dois tipos de leitores jovens: aqueles que procuram a qualidade editorial e têm como pagá-la e os que compram na calçada da universidade ou num quiosque bem montado O amor nos tempos do cólera a 50 pesos numa versão empastada manualmente com um xerox pirateado. Consitui a maioria.

Salvadora Navas tem uma visão menos pessimista diante do eventual desaparecimento do livro em formato físico arrasado pelo boom das bibliotecas virtuais. "Eu acredito –diz– que o livro nunca desaparecerá. Desfrutar um livro é também tocá-lo. A Internet pode ser uma ferramenta para ampliar seus conhecimentos, mas é melhor ter um contato mais direto com o livro. A Internet só serve para você se atualizar e nem todos os jovens têm acesso a Internet. Para ler em profundidade um livro é preciso tempo suficiente e esse tempo você não o tem num cyber café. Creio que o livro nunca vai desaparecer. Para nós, que somos ávidos leitores, o maior prazer é que cada livro tenha marcado uma etapa de nossa vida".

O "DISCO RÍGIDO" CEREBRAL: LER COMPREENDENDO O QUE SE LÊ

Imaginando-me o sistema educativo nacional como uma grande escola cheia de professores que deveriam ser alunos, porque arrastam enormes deficiências para desenvolver sua tarefa, quero saber mais do que significa a " compreensão leitora". Como é o processo mental que, nos primeiros anos da educação primária, dá-nos a capacidade para compreender um parágrafo de linguagem escrita, condicionando assim nossa capacidade futura para compreender um livro inteiro?

Existem estudos que medem a capacidade das crianças para ler e escrever. Vanessa Castro me explica: "Este estudo, para medir a capacidade em lecto-escritura, começou a ser aplicado na África e depois no Peru, já em espanhol. Com a ajuda do RTI (Research Triangle Institute) e com fundos de USAID quisemos ver se poderia ser aplicado na Nicarágua. Conseguimos. Ele foi feito na língua mískita e em espanhol, em outubro e novembro de 2007. Visitamos 47 escolas -um dia em cada escola- fazendo uma prova curta e oral em cada uma para ter a certeza de que o aluno a compreendesse. Como projeto piloto, aplicamos esta prova em 2.200 crianças. Depois refizemos a prova com os erros já corrigidos -sempre com o apoio da USAID e RTI-, desta vez em 125 escolas".

" Sobre a prova de espanhol que fizemos em abril e maio de 2008, com 6.700 crianças, comprovamos que quanto mais pobres forem os meninos mais difícil será o domínio da lecto-escritura. Medimos a prova por letras, palavras lidas em um minuto e no final por um ditado. Depois o domínio foi medido através da compreensão leitora, fazendo perguntas sobre o que leram. Segundo o padrão mundial ideal e já fixado –sobretudo com os dados de Cuba e do Chile, que vão à cabeça–, no final do segundo grau o menino deveria estar lendo de 46 a 60 palavras por minuto, porque o processo de aprendizagem que o cérebro segue é este: em 12 segundos o cérebro humano deve processar em sua memória curta uns 7 itens, que são: primeiro as letras, depois as palavras e a seguir as orações".

OS JOVENS NICARAGÜENSES QUE LÊEM E QUE ESCREVEM

Com o que aprendi sobre o processo que se desenvolve no cérebro na compreensão leitora, noto um futuro comprometido. Não estamos à altura das exigências de um mundo competitivo, de países com musculaturas econômicas e culturais baseadas no exercício educativo que oferecem a seus estudantes, muito superior ao nosso. De todas formas, resulta-me paradoxal que um país com tantos escritores e poetas leia tão pouco.

Vou, finalmente, à procura de uma escritora de longa trajetória. Quero conhecer suas reflexões, perguntar-lhe o que fazer para que a juventude se aproxime mais da leitura, indagar por que se tornou quase moda ser escritor sendo um jovem leitor.

Vidaluz Meneses é escritora, bibliotecóloga, membro da ANIDE (Associação Nicaragüense de Escritoras) e vice-presidenta do CEN (Centro Nicaragüense de Escritores). Ela acredita que a juventude lê, mas lê na Internet. No entanto, admite que "um livro inteiro é algo excessivo para ler na Internet". "Por um lado -diz- a juventude se aproxima da Internet porque é uma das exigências do mundo moderno, e por outro lado as universidades mandam seus estudantes pesquisarem na Internet".

Será que o livro sobreviverá ?, pergunto à leitora e escritora. "O livro sempre vai existir -me diz, segura-. Não podemos negar as vantagens da Internet, mas deve-se procurar um balanço. O risco que corremos é que nem sempre há informação qualitativamente verificável na Internet. A Rede é uma excelente fonte de consulta e cada vez mais pessoas se somam à massa de internautas. A Internet tem uma graça que os livros físicos não têm : dá a você a possibilidade de interagir. Existem fóruns onde você coloca sua opinião, blogs com pontos de vista diferentes e informação multimídia de intercâmbio. Para o jovem isso é interessante, essa possibilidade torna o meio mais atraente e de alguma maneira o induz ao hábito da leitura. O que preocupa da Internet é que ela causa problemas na ortografia e empobrece a linguagem. O Chat/Bate-papo se transforma em um canal de mensagens onde a linguagem se deforma. O mesmo ocorre com o celular. Os blogs cumprem uma função interessante na afirmação da identidade juvenil. O jovem encontra ali uma maneira de se projetar para os demais, ajudando-o a se autoafirmar".

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Alguma conclusão? Penso que nem tudo está perdido. Ainda que os jovens mergulhem lenta, mas profundamente nas águas virtuais da Internet, os grupos reduzidos que lêem estão exercendo seus dez direitos como leitores. Não interessa se escolhem literatura contemporânea ou se preferem os clássicos, retirando-os de suas tumbas. Não importa se acreditam que escrevendo bem jovem, influenciados pelas velhas vanguardas, e enchendo as bases de tantos concursos literários, talvez se tornem intelectuais precoces e escritores novatos. O que importa é que, segundo Daniel Pennac, o verbo ler não suporta o imperativo, uma aversão que compartilha com outros verbos: o verbo amar e o verbo sonhar. Ame-me! Sonhe! Não funciona. Leia! Leia! Você vai ter que ler, rapaz! Suba para o seu quarto e leia! Resultado? Nenhum.


Crianças e jovens lerão cada vez mais à medida que nosso sistema educativo dê espaço à literatura de todas as épocas, incluindo a moderna, e melhore as políticas dirigidas às escolas públicas. Na medida em que se levem mais a sério os indicadores dos estudos sobre lecto-escritura haverá mais participação de leitores nas bibliotecas. Se isto acontecer, os jovens encontrarão no mundo dos livros matéria-prima, para imaginar um mundo melhor do que o conhecido atualmente, entenderemos melhor o que nos espera no século 21, nosso século.

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Fonte: Amaivos
Fonte: (Fonte: Agência Brasil)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Os 10 passos para amar livros

Dad Squarisi


Matéria publicada em 24/08/2010

O louco por livros não nasce por geração espontânea. Cultiva-se. Pais, avós, tios, amigos, professores contribuem para a formação e desenvolvimento da habilidade de ler. Como? O Instituto EcoFuturo dá 10 dicas. Ei-las:



1 – Leia em voz alta com as crianças . Explore com elas os livros e outros materiais de leitura – revistas, jornais, folhetos, almanaques, manuais de instruções, cartazes, placas… Todo material impresso pode ocasionar momento de troca centrado na leitura.

2 – Ofereça a elas ambiente rico em termos de letramento : faça atividades com leitura, mesmo com bebês e crianças bem pequenas. Continue fazendo com as crianças e jovens que estão na escola.

3 – Converse com elas e escute-as quando falam . O diálogo ajuda muito no desenvolvimento da linguagem oral.

4 – Peça-lhes que recontem histórias ou informações que você leu em voz alta . Cuidado para que a atividade não acabe virando aula. Não é esse o espírito da proposta. O encontro precisa ser agradável e descontraído.

5 – Incentive-as a desenhar e fazer de conta que escrevem histórias que ouviram . Peça, depois, que "leiam" em voz alta. Parece absurdo? Pois não é. Afinal, elas passam o tempo fazendo de conta que cozinham, que dirigem carros, que lutam com inimigos perigosos, que são médicos e professores. Não se esqueça: a ideia é brincar de ler.

6 – Dê o exemplo : faça que elas vejam você lendo e escrevendo. E, por favor, não faça a bobagem de dizer que elas devem aprender a ser diferentes de você, que não gosta de ler. O que conta não é o que você discursa sobre leitura, escrita, estudo. É o que você oferece como exemplo.

7 – Vá à biblioteca regularmente com as crianças . Se for uma biblioteca de empréstimo, é bom cada uma ter a própria ficha de inscrição.

8 – Crie uma biblioteca em casa e uma biblioteca pessoal para a criança, onde ela se acostume a guardar os livros e a buscá-los . Na hora de comprar presentes para seu filho, lembre-se dos livros. De quebra, ele ganha competência para lidar com o mundo e abertura da imaginação.

9 – Faça mistério para aguçar a curiosidade . Por exemplo: você tem três livros na mão e diz à criança que ela pode escolher entre dois. Ela certamente vai dizer que são três, não dois. Você faz de conta que se enganou e põe um deles de lado. Adivinha qual deles ela vai querer… Use a imaginação. É jogo. O resultado é que a criança ganha sempre – e para toda a vida.

10 – Leve as crianças sempre que houver hora do conto, teatro infantil e atividades similares na comunidade

Fonte: Blog da Dad

Leitura desde cedo: incentive seu filho a ter amor pelos livros

Matéria publicada em 02/02/2012

Maria Tereza Stancioli

A linguagem do afeto: assim é a hora da leitura ou de ouvir histórias.

É sentir, viver e compartilhar a arte da palavra.

Por isso a Trupe Maria Farinha dá uma força para todos aqueles que desejam cultivar este ofício.
 
 
"Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava em um outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro." O relato é de Lygia Bojunga .

Quando criança, ela fazia do livro um brinquedo . Já adulta, transformou-se em uma das principais escritoras brasileiras de livros infantis.

A história de Lygia ilustra e comprova a teoria de que o contato com os livros desde cedo é importante para incentivar o gosto pela literatura.

Os benefícios da leitura são amplamente conhecido: quem lê adquire cultura, passa a escrever melhor, tem mais senso crítico, amplia o vocabulário e tem melhor desempenho escolar, dentre muitas outras vantagens.

Por isso, é importante ler e ter contato com obras literárias desde os primeiros meses de vida.

Mas como fazer com que crianças em fase de alfabetização se interessem pelos livros?

É verdade que, em meio a brinquedos cada vez mais lúdicos e cheios de recursos tecnológicos, essa não é uma tarefa fácil. Mas pequenas ações podem fazer a diferença. O comportamento da família influencia diretamente os hábitos da criança.


 Se os pais leem muito, a tendência natural é que a criança também adquira o gosto pelos livros.


Para seduzir pela leitura, há diversas atividades que os pais e outros familiares podem colocar em prática com a criança e, assim, fazer do ato de ler um momento divertido.


 No período da alfabetização - antes dela e um pouco depois também -, especialistas sugerem que se misture a leitura com brincadeira, fazendo, por exemplo, representações da história lida, incentivando a criança a criar os próprios livros e pedindo a ela que ilustre uma história.
Para encantar as crianças pequenas, é essencial brincar com o livro.
 


Dicas para incentivar o seu filho a ler, e a ser um pequeno grande leitor:

 
1. Respeite o ritmo do seu filho
Não se preocupe se o livro escolhido pelo seu filho parecer infantil demais. Cada criança tem um ritmo diferente. O importante é que o livro esteja sempre presente. A criança costuma dar sinais quando se sente preparada para passar para um próximo nível de leitura. "É preciso estudar o outro, entender o que ele gosta e respeitar as preferências."

 
2. Siga o gosto do seu filho  
Talvez o que o seu filho gosta de ler não seja exatamente o que você gostaria que ele lesse. Mas, para adquirir o hábito a leitura, é preciso sentir prazer.
 
3. Faça passeios que tragam a leitura para o cotidiano
"Os pais precisam dar possibilidades para que as crianças se sintam envolvidas pela leitura". Por isso, no seu tempo livre, procure fazer atividades com o seu filho que você possa relacionar com um livro. Uma ida ao zoológico, por exemplo, torna-se muito mais interessante depois que a criança leu um livro sobre o reino animal. E vice-versa: uma leitura sobre animais é mais bacana depois que a criança teve a oportunidade de ver de perto os bichinhos. E, assim como essa, há muitas outras maneiras de juntar passeios de fim de semana com a leitura: livro de experiências + visita a museu de ciências, livro de história + passeio em local histórico, visita a museu de arte + livro infantil sobre arte... As possibilidades são inúmeras!

 
4. Incentive a leitura antes de dormir
Incentive o seu filho a ler todas as noites. E, se ele ainda não for alfabetizado, conte histórias para ele antes de dormir. Por isso, é importante que ele tenha uma fonte de iluminação direta ao lado da cama, como um abajur. Uma ideia bacana é dar um presente para a criança nos fins de semana: permita que ela fique acordada até um pouco mais tarde para ler na antes de dormir.

 
5. Improvise representações dos livros
"Concluída a leitura de um livro, os pais podem organizar peças de teatro baseadas na obra". Uma boa ideia é convidar outras crianças para participar da atividade. Os adultos podem ajudá-las a elaborar uma espécie de roteiro e pensar nas vestimentas e nos cenários a serem criados. Depois dos ensaios, a peça pode ser apresentada para um grupo de pais ou para toda a família.
  6. "Publique" o livro do seu filho
Proponha para o seu filho que ele faça o próprio livro. "As crianças gostam de criar histórias, viver personagens, imaginar paisagens". Primeiro, peça que ele tire fotos (e imprima-as) ou recorte figuras de revistas antigas. Depois, a partir das imagens, peça que ele escreva uma história. Ajude-o a criar uma capa para o livro e, por fim, coloque-o na estante, junto com outros livros. Que criança não adoraria ter um livro de sua autoria na biblioteca de casa?

 
7. Organize um clube do livro
Convide amigos e colegas de escola do seu filho para uma espécie de festa da leitura. No início, cada criança lê o trecho de um livro que pode até ser escolhido por eles (mas com orientação dos adultos). Depois de lida a obra, organize um debate sobre a história. Tudo isso pode ser feito durante uma tarde de sábado ou domingo, com direito a guloseimas que as crianças adoram, como cachorro-quente e chocolate quente (no fim de semana, pode!). Na infância, a leitura tem de estar ligada a uma atividade divertida.

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8. Ajude-o a ler melhor
Muitas crianças ficam frustradas por ler muito devagar em voz alta. Se é o caso do seu filho, você pode ajudá-lo fazendo exercícios, como cronometrar o tempo que ele leva para ler um texto ou o trecho de um livro em voz alta. A atividade pode ser repetida várias vezes em dias diferentes e, assim, a criança vai poder comprovar o próprio desenvolvimento. Para aprimorar a atividade, peça que ele faça vozes diferentes para cara personagem da história. "A sonoridade fascina as crianças".

 
9. Não pare de ler para ele
Após a alfabetização, é importante incentivar que a criança leia sozinha, mas isso não significa que você deva parar de ler para ela. Quando um adulto lê em voz alta um livro um pouco mais difícil, a criança é capaz de compreendê-lo, o que provavelmente não aconteceria se ela estivesse lendo sozinha. Abuse das vozes diferentes, dos sons, das entonações. Assim, a história fica muito mais emocionante. Parlendas e músicas, por exemplo, são ideais para serem lidas em voz alta. "Histórias lidas em voz alta e com emoção deixam as crianças mais leves, mais soltas".
 

10. Frequente livrarias e bibliotecas  
"Para adquirir o gosto pela leitura, a criança precisa se familiarizar com o ambiente de leitura". E, enquanto o acervo literário de casa é limitado, nas livrarias e nas bibliotecas a criança pode ter contato com uma infinidade de obras diferentes. Transforme as idas a livrarias, bibliotecas e feiras do livro em um programa de fim de semana. Hoje, nas grandes cidades, muitas livrarias e bibliotecas públicas oferecem atividades específicas para as crianças. E esse programa ainda é de graça. Algumas livrarias, inclusive, têm espaços para leitura (sem que os livros precisem ser comprados!).

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Outras dicas da Trupe são os sites de dois grandes escritores de livros infantis:


Ilan Brenman ,  pai do livro - Até as princesas soltam pum- www.ilan.com.br


 
João Marcos , cartunista do Maurício de Sousa, pai do livro - Histórias tão pequenas de nós dois - Mundo Mendelévio  - www.mendelevio.com.br/

Fonte: Dzai