sexta-feira, 13 de julho de 2012

Geladeira quebrada vira biblioteca pública em praça de Araraquara, SP

Felipe Turioni 
Do G1 Araraquara e Região

"Geladeiroteca" customizada tem livros de diversos autores e assuntos. População pode realizar trocas e levar obras para casa.

Geladeiroteca em Araraquara (Foto: Felipe Turioni/G1) 
Geladeira customizada possui acervo com livros e revistas (Foto: Felipe Turioni/G1)
 
Uma geladeira quebrada passou a ter um destino diferente em uma praça na região central de Araraquara (SP). Nas prateleiras do antigo refrigerador, ao invés de condimentos e comida, estão livros. A ‘Geladeiroteca’ ganhou uma customização de um artista plástico local e chama atenção de quem passa pela Praça das Bandeiras, na Rua Voluntários da Pátria (Rua 5).

“A ideia pode parecer estranha, mas foi uma alternativa encontrada para conseguir deixar os livros ao ar livre, sem se preocupar com a chuva, por exemplo”, explica a atriz Fabiana Virgílio, idealizadora do projeto. “Poderia ser uma caixa de acrílico, mas não teria a mesma graça, além disso, a gente sempre abre uma geladeira quando está com fome e por que não abrir uma para alimentar a alma?”, acrescenta.

Dentro do refrigerador há obras de diversos autores e diferentes temas, desde literatura infantil até livros específicos de administração, economia e política. O ‘abastecimento’ inicial da geladeira foi feita pelos idealizadores, mas a proposta é que as pessoas também façam doações no local e troquem as obras. “Não queremos manter nenhuma amarra e a ideia é que os livros fiquem livres, as pessoas possam pegar, ler ali na praça, levar pra casa, trocar por algum outro livro”.

Customizada pelo desenhista Hugo Elias, a ‘Geladeiroteca’ pretende transmitir a ideia de coletividade do projeto. “Os desenhos lembram isso, essa troca, e é o que queremos manter”, diz a atriz. Algumas livrarias, sebos e centros espíritas doaram algumas obras para o acervo.

Geladeiroteca em Araraquara (Foto: Felipe Turioni/G1) 
Livros podem ser lidos no local ou levados para casa (Foto: Felipe Turioni/G1)
 
Para o porteiro Anderson Deodato, de 26 anos, a ideia é criativa. “Chamou a minha atenção e eu abri a geladeira, sem saber se poderia pegar algum livro. Depois perguntei ao pessoal que estava no bar e disseram que podia pegar e levei o ‘Pequeno Príncipe’ para casa”, comenta. “Hoje vim de novo para ver se a geladeira estava lotada para eu trazer alguns que minha mãe não tem interesse em guardar mais”, completa.

Amigos da praça

A idealizadora da ‘Geladeiroteca’ é integrante da Associação dos Amigos da Praça das Bandeiras, formada em 2010 para revitalizar o espaço, que vinha sendo utilizado para consumo e tráfico de drogas. “A praça era considerada a ‘cracolândia’ da cidade, e não havia melhor maneira de mudar a situação investindo na transformação do ser humano com cultura”, observa.

A associação será formalizada em breve. Na terça-feira (19), às 22h, haverá uma assembleia de fundação dos Amigos da Praça das Bandeiras para acertar os detalhes da oficialização. “Precisamos nos formalizar para obter mais apoio”, explica Virgílio. A proposta da associação é fazer eventos culturais no local. Atualmente, a praça recebe shows e games nos finais de semana.

Fonte: G1

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Para aumentar número de leitores é preciso criar elo entre internet e literatura, diz professora

Publicado em 10/07/2012 Da Agência Brasil

Para a docente, os jovens também se dedicam à leitura e à escrita no ambiente virtual
 
A ampliação do hábito da leitura entre estudantes brasileiros requer a existência de mediadores preparados que entendam as novas ferramentas tecnológicas para levá-los a fazer a ligação com o mundo em que vivem por meio da literatura. Isso é o que defende a diretora adjunta da Cátedra Unesco de Leitura da PUC-RJ (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro), Eliana Yunes.

— Nós temos poucos mediadores aptos a entrar nesse diálogo, nesses suportes, nessas novas linguagens e que tragam uma herança cultural vastíssima.

Na avaliação de Eliana, os estudantes, mesmo no uso da internet, podem dedicar mais tempo à escrita e à leitura do que teriam as pessoas há cerca de 20 anos. 
— Eles são obrigados a ler, a escrever, a se comunicar.

Eliane admitiu, contudo, que sem uma mediação adequada, “existe uma simplificação do uso da língua”. A leitura dos estudantes que estão conectados às redes sociais acaba circunscrita a um universo muito estreito ao qual eles têm acesso com facilidade.

— Está na onda, está na moda. Tem a coisa da tribo, do grupo.

A professora disse que essa leitura, porém, não possui a densidade necessária para levar os alunos à formação de um pensamento crítico. Para ela, falta a esses estudantes um trabalho de ligação com a leitura criativa ( presente na literatura, por exemplo), algo que pode ser feito pelas escolas e até pelas famílias.

— Falta uma mediação que permita que esses meninos tenham acesso, mesmo via internet, a sites muito bons de poesia, de blogs, pequenas histórias, de museus, que discutem música, história.

Para ela, essa páginas na internet permitem que os alunos saiam desse “chão raso” e possam ser levados para uma experiência criativa da linguagem. 
 
— Quem não lê tem muita dificuldade de escrever, de ampliar o seu universo de escrita, de virar efetivamente um escritor. Como eles têm pouca familiaridade com a língua viva, seria necessário que os adultos se preparassem melhor, buscando conhecer essa nova tecnologia para que a mediação, tanto pela escola como pela família, pudesse ser exercida de forma a partilhar com os alunos leituras de boa qualidade.

A professora defende também que a mediação restaura o fio que liga o passado ao futuro no presente desses estudantes. Ela reiterou que a falta de conhecimento de professores e pais desses suportes modernos de comunicação e a falta de habilidade de envolver alunos em uma discussão de um universo mais rico impedem meninos e meninas de desfrutarem uma herança cultural, “da qual eles são legítimos herdeiros”.

— Acho que a questão da escola passa pelo problema da mediação. Se nós não formos leitores de várias linguagens, de vários suportes, nós perderemos realmente o passo com essa geração, que está velozmente à nossa frente, buscando outras linguagens, outras formas de comunicação. É preciso que os estudantes percebam que a literatura não é um peso ou uma obrigação. Literatura é vida.

Para Eliana, a literatura faz falta porque desloca o olhar das pessoas de uma coisa “líquida e certa”, para um lugar de reflexão, de discussão sobre o mundo e a vida humana. Isso pode ser encontrado não só no livro impresso, em papel, como também no livro digital.

— Esse jogo contemporâneo é muito rico. Quanto mais suportes a gente tiver para a palavra escrita e para abrigar a reflexão sobre a condição do ser humano, melhor a gente vai poder abraçar as várias modalidades, que estão vivas, da palavra. 
Pesquisa

De acordo com pesquisa do Instituto Mapear para a Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro com 4 mil estudantes e 1,2 mil responsáveis, 93% dos alunos do ensino médio da rede pública do estado tinham celulares em dezembro de 2011 e 78% possuíam computador, sendo que 92% tinham acesso frequente à internet.

Em contrapartida, 14% dos alunos declararam não ter lido nenhum livro nos últimos cinco anos. Entre os que não leram nada, 17% residiam no interior e 12% na região metropolitana. Um livro foi lido no período por 11% dos estudantes; dois ou três livros por 26% e quatro ou cinco livros por 17%.

Entre os alunos que leram mais que um livro em média nos últimos cinco anos, a pesquisa registrou que 14% leram entre seis e dez livros, 8% entre 11 e 20 e 10% leram mais que 20 livros em cinco anos.
 
Fonte: R7

quarta-feira, 11 de julho de 2012

É preciso construir pontes entre sala de aula e biblioteca'

09 de julho de 2012  

Educadora acredita que o professor deve sugerir leituras desafiadoras, mas não impor filtros aos best-sellers

OCIMARA BALMANT - O Estado de S.Paulo
 
"É preciso acabar com as dicotomias e estimular a leitura sem preconceito, tanto na infância como na adolescência. Esse desafio deve instigar o trabalho do professor", afirma a argentina Cecilia Bonjur. 

Formada em Letras e especialista em literatura infantil e juvenil, Cecilia é crítica de livros para crianças e adolescentes, com atuação na formação de professores e mediadores de leitura. Ela esteve no Brasil para participar do seminário Conversas ao Pé da Página, onde conversou com o Estado.

Como a senhora avalia o trabalho de fomento à leitura que os docentes fazem em sala de aula? Eles estão preparados para a tarefa? 

Acredito que toda formação dirigida a professores precisa partir do princípio de que eles são leitores e acreditar, de fato, que são capazes de fazer. Se pensarmos no que não sabem, no que não têm, apenas os desvalorizamos. E não se pode subestimá-los. Isso não significa tirar deles a responsabilidade sobre sua formação, mas ter confiança no que podem realizar e lhes dar ferramentas para isso.
Quais tipos de ferramentas?

É importante criar dispositivos de formação contínua que deem conta da carência de formação de base dos docentes, porque jornadas e cursos curtos são insuficientes. Pode ser custoso e demorado, mas vale a pena se pensarmos que a atitude do professor pode determinar se uma criança vai ou não gostar de ler.
Mesmo porque esse estímulo tem diminuído dentro das famílias, não é?

Isso é fato. Há muitas casas sem livros e sem leitores. Por isso, é tão importante que as bibliotecas escolares cresçam, que seus acervos sejam mais profundos, que se aproveitem todas as oportunidades de construir pontes entre o conteúdo das salas de aula e a biblioteca. E estamos em um momento bom para pensar nessas pontes.

Por quê?

Porque o problema da leitura sempre foi menos grave nos países com mais possibilidade de acesso a bens culturais. Mas hoje temos um momento migratório muito grande e, além disso, o primeiro mundo está vivendo uma crise econômica que parecia que só pertencia a países pobres. A desigualdade está repartida e isso é bom para pensar estratégias mundiais de aumento do acesso aos livros. 

Não parece difícil conquistar leitores de material impresso na era da internet?

Devemos fazer com que os leitores tenham acesso aos múltiplos suportes e deixar claro que no mundo das tecnologias não está todo o conhecimento estabelecido. Há algumas limitações que só deixam de existir quando a aprendizagem é vinculada aos livros. Quando os alunos começam a encontrar os tesouros e desafios dos livros, eles se deixam seduzir. 

Daí, a importância do mediador bem formado...

Sim, porque a criança se deixa seduzir quando os mediadores são sedutores, transmitem essa paixão. Por isso, a importância do bibliotecário, que é o profissional que conhece tanto os livros quanto os alunos. Porque o professor conhece os alunos de seu curso. O bibliotecário vai além. Ele abre o jogo da descoberta e acompanha o crescimento dos leitores dia após dia. Se houver um trabalho em parceria com o professor, é o cenário ideal para o nascimento de leitores potentes que podem influenciar a família toda.

Com a participação da escola?

Isso. Porque há pais realmente omissos em relação à leitura e incentivo aos filhos. Mas muitos deles não o fazem porque realmente não têm condições materiais ou por achar que não têm capacidade, que os bens culturais não são para eles. É aí que a escola entra na história, e as bibliotecas são lugares excelentes para essa manifestação contracultural que gere confiança e hospitalidade.
E como fica a seleção dessa literatura a ser apresentada? 

Eu não subestimaria nenhum tipo de leitura. Acredito que as escolas e as bibliotecas devem receber os leitores com o mundo que eles trazem, com as leituras que têm e, a partir daí, ampliar os horizontes, sugerir aprofundamentos. Se você opõe o best-seller à cultura culta, gera outra falsa dicotomia. Me parece muito mais interessante a convivência de cultura, a mestiçagem, as hibridações.
E, no caso das crianças, vale desafiá-las? 

Sim. Entre adultos, há uma falsa impressão de que a leitura infantil deveria ser simples e representar coisas próximas às crianças. Essa visão é equivocada e tem a ver com preconceitos e versões simplistas de teorias psicopedagógicas. O professor não pode agir assim. Ele precisa saber quem são seus leitores e pensar em didáticas mais profundas e flexíveis, em vez de simplesmente ignorar o tipo de leitura que, previamente, ele pode considerar inadequada.

O que é adequado?

Qualquer coisa. Desde que se considere o leitor como poderoso, potente. Não se pode esquecer, nunca, que a valorização dos leitores passa por colocar à disposição deles textos desafiantes, que comovem e colocam para funcionar a inteligência e o coração ao mesmo tempo. Quando se faz isso, fica clara a constatação: as crianças são ávidas leitoras de mundos estranhos, distantes e metafóricos, e se sentem muito agradecidas quando os adultos as tratam como gente que pode, que consegue. Todo pai e todo professor deveria ter isso em mente.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Leitura na aurora da globalização

Especialista em História da Literatura e ganhadora do Prêmio Jabuti, Márcia Abreu fala da popularização do livro no século XIX
Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: coleção abordará trajeto internacional do livro no período oitocentista, com 37 estudiosos de vários países

Por Oscar D’Ambrosio

Pelo livro Impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros, que organizou com Aníbal Bragança, Márcia Abreu recebeu o Prêmio Jabuti, o mais importante da área editorial brasileira, em 2011, na categoria Comunicação. Licenciada em Letras e doutora pela Unicamp em Teoria e História Literária, fez pós-doutorado em História Cultural na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Livre-docente em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, coordena o projeto temático da Fapesp “A circulação transatlântica dos impressos – a globalização da cultura no século XIX”. O conteúdo do livro e o acervo histórico da Editora Unesp foram a base da exposição itinerante “Impresso no Brasil”, que percorre os Câmpus da Universidade, com painéis organizados pela Editora em comemoração aos seus 25 anos de existência. O início da jornada ocorreu em abril, no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo, com palestra de Márcia sobre a obra premiada.

 
Márcia: atenção ao romance

Jornal Unesp: Como foi a organização deste projeto que recebeu o Prêmio Jabuti?

Márcia Abreu: A ideia original era comemorar os 200 anos da primeira tipografia oficial instalada no Brasil, em 2008, mas tivemos alguns percalços na elaboração do livro, que saiu apenas em 2011, mas teve a honra de receber o Prêmio Jabuti. A organização foi muito complexa. São 40 autores de um livro dividido em duas partes: a primeira é sobre editores, tipógrafos, livreiros e instituições responsáveis pela divulgação do livro no Brasil; e a segunda, sobre os leitores. Esta segunda parte foi a mais desafiadora, pois é mais difícil ter informações sobre os leitores da época.

JU: Por quê?

Márcia: Geralmente, os editores e tipógrafos deixam registros, documentos, enquanto o leitor não deixa nada oficial sobre quem é e como lê. Nossas informações são baseadas nos comentários que os leitores fizeram no canto das páginas ou na margem dos livros. 

JU: Quais motivos levaram a senhora a se especializar em história da leitura?

Márcia: Ela associa duas paixões particulares: literatura e história. Trabalho, por exemplo, com os registros de censura. Pensa-se que esses registros só servem para vetar determinados textos e publicações, mas nem sempre foi assim. Os censores, nos séculos XVIII e XIX, eram pessoas que avaliavam a adequação das obras para a sociedade e escreviam longamente para aprovar os textos, inclusive para dizer que eram ótimos. Eram pareceres enviados para uma banca de homens cultos, que avaliavam e tomavam decisões sobre aquelas obras. Eu me especializei nas leituras que eles faziam sobre
os romances.

JU: Como era visto o romance nesses séculos?

Márcia: As escolas proibiam os romances, pois eram direcionados para o grande público, para as mulheres e para os jovens. Os homens sérios tinham que ler poesias. A grande literatura da época eram os poemas épicos como Os Lusíadas e Odisseia. Apenas no final do século XIX, os autores de romance conseguiram legitimar o gênero, argumentando que existiam obras difíceis e bem elaboradas, diferentes dos romances populares que apopulação consumia. Hoje, as escolas incentivam a leitura de romances, mas ainda existe uma resistência aos best-sellers, como a saga de Harry Potter. O aluno gosta daquilo, mas o professor quer que ele leia outros romances mais elaborados.

JU: Em que consiste o projeto “A circulação transatlântica dos impressos: a globalização da cultura no século XIX”, que a senhora coordena?

Márcia: A proposta é fazer uma história do livro no século XIX em escala internacional. Reunimos 37 pesquisadores num projeto com docentes de Inglaterra, Portugal, França e Brasil. Vamos pesquisar a interação literária entre essas nações.

JU: Como surgiu a sua aproximação com a Editora Unesp?

Márcia: Começou com a publicação pela Editora Unesp, principal editora acadêmica do país, de Cultura letrada, em 2006, livro que teve grande aceitação e sobre o qual ainda sou convidada a dar palestras. Impresso no Brasil, de 2011, foi muito bem divulgado e já teveuma grande repercussão entre os leitores, mesmo antes da premiação do Jabuti.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

E-books ajudam editoras a entender hábitos do leitor

O leitor típico leva apenas sete horas para ler o último livro da trilogia "Jogos Vorazes" no leitor digital Kobo — cerca de 57 páginas por hora. Quase 18.000 leitores que usaram o Kindle, da Amazon.com, marcaram a seguinte frase do segundo tomo da série de Suzanne Collins: "Porque, às vezes, acontecem coisas com as pessoas com as quais elas não estão preparadas para lidar". Já no Nook, o leitor digital da Barnes & Noble, a maior rede americana de livrarias, a primeira coisa que a maioria dos leitores faz ao terminar o primeiro volume da trilogia é baixar o segundo.

Antigamente, nem editora nem autor tinham como saber o que acontece quando um leitor senta para ler um livro. Desiste depois de três páginas? Ou termina o livro em uma sentada? A maioria pula a introdução? Ou a lê com interesse, sublinhando trechos e fazendo anotações nas margens?

Isso mudou. O livro eletrônico — o "e-book" — abriu uma janela para a história por trás das cifras de vendas, revelando não só quanta gente compra um determinado livro, mas com que intensidade a obra foi lida.

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Durante séculos, a leitura foi, basicamente, um ato solitário e privado, uma troca íntima entre o leitor e as palavras impressas no papel. Mas a popularização do livro digital provocou uma profunda mudança na modo como se lê, transformando a atividade em algo mensurável — e de caráter quase público.

Os principais nomes no setor de e-books — Amazon, Apple e Google — podem facilmente saber o quanto um leitor já avançou no livro, quanto tempo dedica à leitura e que palavras usou na pesquisa para encontrar a obra. Aplicativos de leitura para tablets como iPad, Kindle Fire e Nook registram quantas vezes o leitor abre o aplicativo e quanto tempo passa lendo. Varejistas, e certas editoras, começam agora a digerir esses dados, que renderão uma visão sem precedentes da relação do público com livros.

O meio editorial sempre perdeu para o resto da indústria de entretenimento na hora de determinar gostos e hábitos do consumidor. Na televisão, produtores testam incessantemente novos programas em grupos de discussão; estúdios de cinema submetem filmes a uma bateria de testes e alteram o produto final com base na reação do público. Já no mundo editorial, a satisfação do leitor até aqui era avaliada com dados de vendas e resenhas — o que dá uma medida "post mortem" do êxito, mas não ajuda a influenciar ou a prever o sucesso. Isso começa a mudar à medida que editoras e livreiros vasculham a montanha de dados a seu dispor e que mais firmas tecnológicas entram no negócio.

A Barnes & Noble, dona do leitor digital Nook e de 25% a 30% do mercado de livros eletrônicos nos Estados Unidos, começou há pouco a estudar os hábitos de leitura digital do público. Dados colhidos via Nook revelam, por exemplo, até onde o leitor chega em um determinado livro e qual a relação de leitores deste ou daquele gênero com o livro. Jim Hilt, diretor de e-books da empresa, diz que a Barnes & Noble já começa a dividir suas descobertas com editoras para ajudá-las a criar livros que prendam mais a atenção das pessoas.

Para a empresa, que busca uma fatia ainda maior do mercado eletrônico, há muito em jogo. No último ano fiscal, as vendas do Nook subiram 45% e a de livros digitais para o aparelho, 119%. No todo, a Barnes & Nobble faturou US$ 1,3 bilhão com Nooks e e-books, em comparação com US$ 880 milhões no ano anterior. A Microsoft há pouco pagou US$ 300 milhões por uma fatia de 17,6% do Nook.

Hilt, diz que a empresa ainda está "nos estágios iniciais de um profundo [processo] de análise" e está vasculhando "mais dados do que poderia usar". Mas toda essa informação — reunida por grupos de leitores, não individualmente — já rendeu dados úteis. Algumas simplesmente confirmam o que o varejo já sabia só de examinar listas de best-sellers. Um exemplo: quem usa o Nook para ler o primeiro livro de uma série infanto-juvenil popular como a "Divergente", da escritora Veronica Roth (que a Rocco lança no Brasil em novembro), tende a emendar a leitura de um tomo com a do seguinte, quase como se estivesse lendo um único romance.

Graças à análise de dados gerados pelo Nook, a Barnes & Noble já descobriu que se o livro é de não ficção a leitura tende a ser intermitente, que um romance costuma ser lido de uma só vez e que livros de não ficção tendem a ser abandonados antes. Fãs de ficção científica, romances populares e policiais costumam ler mais obras, e mais depressa, do que leitores de ficção literária.

São revelações que já estão influenciando o tipo de obra que a Barnes & Noble vende no Nook. Hilt diz que quando os dados mostraram que o leitor volta e meia não chega ao fim de longas obras de não ficção, a empresa buscou maneiras de envolver mais o leitor de não ficção e longos ensaios jornalísticos. Daí veio a ideia de lançar a coleção "Nook Snaps", com obras curtas sobre temas variados como religião e o movimento Ocupe Wall Street.

Saber exatamente em que ponto o leitor se cansa também poderia ajudar editoras a criar edições digitais com mais firulas — um vídeo, um link ou algum outro recurso multimídia, diz Hilt. Daria para saber, por exemplo, que o interesse em uma série de ficção está caindo se leitores que compraram e devoraram os dois primeiros volumes de repente perdem o pique para ler novos tomos da série, ou simplesmente desistam.

"A maior tendência que estamos tentando descobrir é em que ponto ocorre esse abandono com determinados tipos de livro e o que daria para fazer com as editoras para evitá-lo", explica Hilt. "Se pudermos ajudar escritores a criar livros ainda melhores do que hoje, todo mundo ganha".

Tem escritor que adora a ideia. O romancista Scott Turow diz que sempre achou frustrante a incapacidade do setor de estudar a base de clientes. "Quando reclamei a um dos meus editores que, depois de tanto tempo publicando, ele ainda não sabia quem comprava meus livros, ele respondeu: 'E aí? Ninguém no meio editorial sabe.'". Turow, que é presidente da associação dos escritores dos EUA, a Authors Guild, acrescenta: "Se der para saber que um livro é longo demais e que é preciso ser mais rigoroso no corte, eu, pessoalmente, adoraria ter essa informação".

Outros temem que esse apego a dados acabe impedindo o escritor de assumir o risco da criação — risco que produz a grande literatura. Um livro "pode ser excêntrico, do tamanho que tiver de ser e, nesse quesito, o leitor não devia meter o bedelho", diz Jonathan Galassi, diretor de operações da editora Farrar, Straus & Giroux. "Não vamos encurtar 'Guerra e Paz' só porque alguém não conseguiu chegar ao fim".

A Amazon, em particular, tem uma vantagem na arena: por ser, ao mesmo tempo, varejista e editora, tem condições únicas de usar dados que coleta sobre os hábitos de leitura de clientes. Não é segredo que a Amazon e outras lojas de livros digitais coletam e guardam informações sobre o consumidor — que livros comprou, que livros leu. Usuários do Kindle assinam um termo que autoriza a empresa a armazenar dados gerados pelo aparelho — incluindo a última página lida pelo usuário, além de seus marcadores, observações e anotações — em servidores da empresa.

A Amazon consegue saber que trechos de livros digitais são populares com o público leitor — e exibe parte dessa informação publicamente em seu site.

"Vemos isso como a inteligência coletiva de todas as pessoas que leem pelo Kindle", diz Kinley Pearsall, porta-voz da Amazon. 

Certos defensores da privacidade acham que quem lê um livro eletrônico devia ter a garantia de que seus hábitos de leitura digitais não serão registrados. "Há um ideal na sociedade de que o que alguém lê não é da conta de ninguém", diz Cindy Cohn, diretora jurídica da Electronic Frontier Foundation, uma ONG que defende direitos e a privacidade do consumidor. "Hoje, não há nenhuma maneira de dizer à Amazon que eu quero comprar um livro [no site], mas não quero que xeretem o que estou lendo".

A Amazon não quis comentar a análise e o uso que faz de dados coletados via Kindle.

A migração para o livro digital deflagrou uma verdadeira corrida entre novas empresas de tecnologia interessadas em faturar com a montanha de dados reunida por leitores digitais e aplicativos de leitura. A Kobo, que fabrica leitores, tem um serviço que armazena 2,5 milhões de livros e conta com mais de oito milhões de usuários, verifica quantas horas os leitores dedicam a este ou àquele título e até onde avançam na leitura.

Certas editoras já estão começando a testar digitalmente livros antes de lançar a versão impressa. Mas poucas foram tão longe quanto a Coliloquy. A editora digital, que vende pelo Kindle, pelo Nook e em leitores com sistema Android, tem um formato — o "escolha sua própria aventura" — que permite ao leitor alterar personagens e tramas. Engenheiros da empresa consolidam os dados obtidos de seleções feitas por leitores e mandam o resultado para o autor, que pode ajustar a trama dos próximos livros para refletir a opinião do público.

"Queríamos criar um mecanismo de feedback que até então não existia entre escritor e leitor", diz Waynn Lue, engenheiro da computação que é um dos fundadores da Coliloquy.