terça-feira, 10 de julho de 2012

Leitura na aurora da globalização

Especialista em História da Literatura e ganhadora do Prêmio Jabuti, Márcia Abreu fala da popularização do livro no século XIX
Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro: coleção abordará trajeto internacional do livro no período oitocentista, com 37 estudiosos de vários países

Por Oscar D’Ambrosio

Pelo livro Impresso no Brasil: dois séculos de livros brasileiros, que organizou com Aníbal Bragança, Márcia Abreu recebeu o Prêmio Jabuti, o mais importante da área editorial brasileira, em 2011, na categoria Comunicação. Licenciada em Letras e doutora pela Unicamp em Teoria e História Literária, fez pós-doutorado em História Cultural na École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Livre-docente em Literatura Brasileira pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, coordena o projeto temático da Fapesp “A circulação transatlântica dos impressos – a globalização da cultura no século XIX”. O conteúdo do livro e o acervo histórico da Editora Unesp foram a base da exposição itinerante “Impresso no Brasil”, que percorre os Câmpus da Universidade, com painéis organizados pela Editora em comemoração aos seus 25 anos de existência. O início da jornada ocorreu em abril, no Instituto de Artes da Unesp, em São Paulo, com palestra de Márcia sobre a obra premiada.

 
Márcia: atenção ao romance

Jornal Unesp: Como foi a organização deste projeto que recebeu o Prêmio Jabuti?

Márcia Abreu: A ideia original era comemorar os 200 anos da primeira tipografia oficial instalada no Brasil, em 2008, mas tivemos alguns percalços na elaboração do livro, que saiu apenas em 2011, mas teve a honra de receber o Prêmio Jabuti. A organização foi muito complexa. São 40 autores de um livro dividido em duas partes: a primeira é sobre editores, tipógrafos, livreiros e instituições responsáveis pela divulgação do livro no Brasil; e a segunda, sobre os leitores. Esta segunda parte foi a mais desafiadora, pois é mais difícil ter informações sobre os leitores da época.

JU: Por quê?

Márcia: Geralmente, os editores e tipógrafos deixam registros, documentos, enquanto o leitor não deixa nada oficial sobre quem é e como lê. Nossas informações são baseadas nos comentários que os leitores fizeram no canto das páginas ou na margem dos livros. 

JU: Quais motivos levaram a senhora a se especializar em história da leitura?

Márcia: Ela associa duas paixões particulares: literatura e história. Trabalho, por exemplo, com os registros de censura. Pensa-se que esses registros só servem para vetar determinados textos e publicações, mas nem sempre foi assim. Os censores, nos séculos XVIII e XIX, eram pessoas que avaliavam a adequação das obras para a sociedade e escreviam longamente para aprovar os textos, inclusive para dizer que eram ótimos. Eram pareceres enviados para uma banca de homens cultos, que avaliavam e tomavam decisões sobre aquelas obras. Eu me especializei nas leituras que eles faziam sobre
os romances.

JU: Como era visto o romance nesses séculos?

Márcia: As escolas proibiam os romances, pois eram direcionados para o grande público, para as mulheres e para os jovens. Os homens sérios tinham que ler poesias. A grande literatura da época eram os poemas épicos como Os Lusíadas e Odisseia. Apenas no final do século XIX, os autores de romance conseguiram legitimar o gênero, argumentando que existiam obras difíceis e bem elaboradas, diferentes dos romances populares que apopulação consumia. Hoje, as escolas incentivam a leitura de romances, mas ainda existe uma resistência aos best-sellers, como a saga de Harry Potter. O aluno gosta daquilo, mas o professor quer que ele leia outros romances mais elaborados.

JU: Em que consiste o projeto “A circulação transatlântica dos impressos: a globalização da cultura no século XIX”, que a senhora coordena?

Márcia: A proposta é fazer uma história do livro no século XIX em escala internacional. Reunimos 37 pesquisadores num projeto com docentes de Inglaterra, Portugal, França e Brasil. Vamos pesquisar a interação literária entre essas nações.

JU: Como surgiu a sua aproximação com a Editora Unesp?

Márcia: Começou com a publicação pela Editora Unesp, principal editora acadêmica do país, de Cultura letrada, em 2006, livro que teve grande aceitação e sobre o qual ainda sou convidada a dar palestras. Impresso no Brasil, de 2011, foi muito bem divulgado e já teveuma grande repercussão entre os leitores, mesmo antes da premiação do Jabuti.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

E-books ajudam editoras a entender hábitos do leitor

O leitor típico leva apenas sete horas para ler o último livro da trilogia "Jogos Vorazes" no leitor digital Kobo — cerca de 57 páginas por hora. Quase 18.000 leitores que usaram o Kindle, da Amazon.com, marcaram a seguinte frase do segundo tomo da série de Suzanne Collins: "Porque, às vezes, acontecem coisas com as pessoas com as quais elas não estão preparadas para lidar". Já no Nook, o leitor digital da Barnes & Noble, a maior rede americana de livrarias, a primeira coisa que a maioria dos leitores faz ao terminar o primeiro volume da trilogia é baixar o segundo.

Antigamente, nem editora nem autor tinham como saber o que acontece quando um leitor senta para ler um livro. Desiste depois de três páginas? Ou termina o livro em uma sentada? A maioria pula a introdução? Ou a lê com interesse, sublinhando trechos e fazendo anotações nas margens?

Isso mudou. O livro eletrônico — o "e-book" — abriu uma janela para a história por trás das cifras de vendas, revelando não só quanta gente compra um determinado livro, mas com que intensidade a obra foi lida.

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Durante séculos, a leitura foi, basicamente, um ato solitário e privado, uma troca íntima entre o leitor e as palavras impressas no papel. Mas a popularização do livro digital provocou uma profunda mudança na modo como se lê, transformando a atividade em algo mensurável — e de caráter quase público.

Os principais nomes no setor de e-books — Amazon, Apple e Google — podem facilmente saber o quanto um leitor já avançou no livro, quanto tempo dedica à leitura e que palavras usou na pesquisa para encontrar a obra. Aplicativos de leitura para tablets como iPad, Kindle Fire e Nook registram quantas vezes o leitor abre o aplicativo e quanto tempo passa lendo. Varejistas, e certas editoras, começam agora a digerir esses dados, que renderão uma visão sem precedentes da relação do público com livros.

O meio editorial sempre perdeu para o resto da indústria de entretenimento na hora de determinar gostos e hábitos do consumidor. Na televisão, produtores testam incessantemente novos programas em grupos de discussão; estúdios de cinema submetem filmes a uma bateria de testes e alteram o produto final com base na reação do público. Já no mundo editorial, a satisfação do leitor até aqui era avaliada com dados de vendas e resenhas — o que dá uma medida "post mortem" do êxito, mas não ajuda a influenciar ou a prever o sucesso. Isso começa a mudar à medida que editoras e livreiros vasculham a montanha de dados a seu dispor e que mais firmas tecnológicas entram no negócio.

A Barnes & Noble, dona do leitor digital Nook e de 25% a 30% do mercado de livros eletrônicos nos Estados Unidos, começou há pouco a estudar os hábitos de leitura digital do público. Dados colhidos via Nook revelam, por exemplo, até onde o leitor chega em um determinado livro e qual a relação de leitores deste ou daquele gênero com o livro. Jim Hilt, diretor de e-books da empresa, diz que a Barnes & Noble já começa a dividir suas descobertas com editoras para ajudá-las a criar livros que prendam mais a atenção das pessoas.

Para a empresa, que busca uma fatia ainda maior do mercado eletrônico, há muito em jogo. No último ano fiscal, as vendas do Nook subiram 45% e a de livros digitais para o aparelho, 119%. No todo, a Barnes & Nobble faturou US$ 1,3 bilhão com Nooks e e-books, em comparação com US$ 880 milhões no ano anterior. A Microsoft há pouco pagou US$ 300 milhões por uma fatia de 17,6% do Nook.

Hilt, diz que a empresa ainda está "nos estágios iniciais de um profundo [processo] de análise" e está vasculhando "mais dados do que poderia usar". Mas toda essa informação — reunida por grupos de leitores, não individualmente — já rendeu dados úteis. Algumas simplesmente confirmam o que o varejo já sabia só de examinar listas de best-sellers. Um exemplo: quem usa o Nook para ler o primeiro livro de uma série infanto-juvenil popular como a "Divergente", da escritora Veronica Roth (que a Rocco lança no Brasil em novembro), tende a emendar a leitura de um tomo com a do seguinte, quase como se estivesse lendo um único romance.

Graças à análise de dados gerados pelo Nook, a Barnes & Noble já descobriu que se o livro é de não ficção a leitura tende a ser intermitente, que um romance costuma ser lido de uma só vez e que livros de não ficção tendem a ser abandonados antes. Fãs de ficção científica, romances populares e policiais costumam ler mais obras, e mais depressa, do que leitores de ficção literária.

São revelações que já estão influenciando o tipo de obra que a Barnes & Noble vende no Nook. Hilt diz que quando os dados mostraram que o leitor volta e meia não chega ao fim de longas obras de não ficção, a empresa buscou maneiras de envolver mais o leitor de não ficção e longos ensaios jornalísticos. Daí veio a ideia de lançar a coleção "Nook Snaps", com obras curtas sobre temas variados como religião e o movimento Ocupe Wall Street.

Saber exatamente em que ponto o leitor se cansa também poderia ajudar editoras a criar edições digitais com mais firulas — um vídeo, um link ou algum outro recurso multimídia, diz Hilt. Daria para saber, por exemplo, que o interesse em uma série de ficção está caindo se leitores que compraram e devoraram os dois primeiros volumes de repente perdem o pique para ler novos tomos da série, ou simplesmente desistam.

"A maior tendência que estamos tentando descobrir é em que ponto ocorre esse abandono com determinados tipos de livro e o que daria para fazer com as editoras para evitá-lo", explica Hilt. "Se pudermos ajudar escritores a criar livros ainda melhores do que hoje, todo mundo ganha".

Tem escritor que adora a ideia. O romancista Scott Turow diz que sempre achou frustrante a incapacidade do setor de estudar a base de clientes. "Quando reclamei a um dos meus editores que, depois de tanto tempo publicando, ele ainda não sabia quem comprava meus livros, ele respondeu: 'E aí? Ninguém no meio editorial sabe.'". Turow, que é presidente da associação dos escritores dos EUA, a Authors Guild, acrescenta: "Se der para saber que um livro é longo demais e que é preciso ser mais rigoroso no corte, eu, pessoalmente, adoraria ter essa informação".

Outros temem que esse apego a dados acabe impedindo o escritor de assumir o risco da criação — risco que produz a grande literatura. Um livro "pode ser excêntrico, do tamanho que tiver de ser e, nesse quesito, o leitor não devia meter o bedelho", diz Jonathan Galassi, diretor de operações da editora Farrar, Straus & Giroux. "Não vamos encurtar 'Guerra e Paz' só porque alguém não conseguiu chegar ao fim".

A Amazon, em particular, tem uma vantagem na arena: por ser, ao mesmo tempo, varejista e editora, tem condições únicas de usar dados que coleta sobre os hábitos de leitura de clientes. Não é segredo que a Amazon e outras lojas de livros digitais coletam e guardam informações sobre o consumidor — que livros comprou, que livros leu. Usuários do Kindle assinam um termo que autoriza a empresa a armazenar dados gerados pelo aparelho — incluindo a última página lida pelo usuário, além de seus marcadores, observações e anotações — em servidores da empresa.

A Amazon consegue saber que trechos de livros digitais são populares com o público leitor — e exibe parte dessa informação publicamente em seu site.

"Vemos isso como a inteligência coletiva de todas as pessoas que leem pelo Kindle", diz Kinley Pearsall, porta-voz da Amazon. 

Certos defensores da privacidade acham que quem lê um livro eletrônico devia ter a garantia de que seus hábitos de leitura digitais não serão registrados. "Há um ideal na sociedade de que o que alguém lê não é da conta de ninguém", diz Cindy Cohn, diretora jurídica da Electronic Frontier Foundation, uma ONG que defende direitos e a privacidade do consumidor. "Hoje, não há nenhuma maneira de dizer à Amazon que eu quero comprar um livro [no site], mas não quero que xeretem o que estou lendo".

A Amazon não quis comentar a análise e o uso que faz de dados coletados via Kindle.

A migração para o livro digital deflagrou uma verdadeira corrida entre novas empresas de tecnologia interessadas em faturar com a montanha de dados reunida por leitores digitais e aplicativos de leitura. A Kobo, que fabrica leitores, tem um serviço que armazena 2,5 milhões de livros e conta com mais de oito milhões de usuários, verifica quantas horas os leitores dedicam a este ou àquele título e até onde avançam na leitura.

Certas editoras já estão começando a testar digitalmente livros antes de lançar a versão impressa. Mas poucas foram tão longe quanto a Coliloquy. A editora digital, que vende pelo Kindle, pelo Nook e em leitores com sistema Android, tem um formato — o "escolha sua própria aventura" — que permite ao leitor alterar personagens e tramas. Engenheiros da empresa consolidam os dados obtidos de seleções feitas por leitores e mandam o resultado para o autor, que pode ajustar a trama dos próximos livros para refletir a opinião do público.

"Queríamos criar um mecanismo de feedback que até então não existia entre escritor e leitor", diz Waynn Lue, engenheiro da computação que é um dos fundadores da Coliloquy.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Professores e promoção da leitura: dez ideias

POR Ana Garralón
Ana GarralónAna Garralón trabalha com livros infantis desde finais dos anos 80. Colaborou como leitora para muitas editoras, trabalhou dando oficinas sobre temas de formação e incentivo à leitura e livros informativos nas mais importantes instituições. Escreve regularmente na imprensa. Publicou Historia portátil de la literatura infantil (Anaya, 2001), a antologia de poesia: Si ves un monte de espumas (Anaya, 2002) e uma seleção bibliográfica para mediadores: 150 libros infantiles para leer y releer (CEGAL, Club Kirico, 2012).  Saiba mais sobre ela em anatarambana.blogspot.com.



Você é professor? Então, certamente, voce deve estar muito ocupado em cumprir o programa e sem tempo nenhum para fazer atividades especiais. No entanto, é muito valiosa a influência que você tem sobre seus alunos no que se refere à leitura. Conseguir alunos leitores ajuda muito no entendimento de muitas disciplinas e os transforma em pessoas curiosas e cheias de vitalidade. E o melhor é que não precisa fazer muito. Basta ter consciencia do trabalho e fazer pequenas ações diárias.
Aqui vão algumas ideias:
1. Todos os professores podem promover a leitura. Não importa se a sua disciplina é ciências ou literatura. Pensa-se em geral que as atividades de leitura são de conteúdo exclusivo dos professores de línguas, mas não é assim. Em todas as disciplinas se lê e em todas elas existem livros maravilhosos a serem descobertos.
2. Amplie sua ideia de leitor. Leitor é aquele que lê um romance, mas também aquele que lê um texto científico, um gibi ou um jornal.
3. Pergunte a seus alunos, todos os dias, se eles estão lendo alguma coisa. Talvez no começo eles não se envolvam muito, mas se você repetir a pergunta e aceitar as respostas, não importa o que digam que estão lendo, em breve você terá um grupo discutindo suas leituras. Não faça isto como se fosse uma atividade, mas como algo rápido e espontâneo.
4. Não julgue o que eles leem. Valorize o  esforço e, acima de tudo, conheça e reconheça os interesses. Talvez você até mesmo se anime a ler alguma coisa que eles estejam gostando nesse momento.
5. Compartilhe as suas leituras. Se você está lendo um livro que lhe agrada,  fale brevemente sobre isso. Compartilhar é uma das bases da promoção da leitura. Você pode dar alguma explicação sobre os autores, o estilo ou o tema. Com isso você estará fornecendo pistas para que eles façam seus próprios comentários.
6. Leia em voz alta em sala de aula. Um fragmento, um recorte de jornal, uma notícia relacionada à sua disciplina. Tudo é válido para despertar o gosto pela leitura. Incluir livros na prática diária significa que a leitura é algo natural, necessário e uma parte normal do dia.
7. Indique livros. Se suas aulas são de ciências, filosofia ou educação artística, procure de vez em quando um livro direcionado à idade de seus alunos. Uma biografia, um ensaio de divulgação, uma revista, um artigo.

8. Comente. Se gradualmente eles vão tomando coragem para discutir suas leituras, por que não escolher, de tempos em tempos, um livro entre aqueles que estão interessados em compartilhar?
9. Aconselhe. Com seus conselhos e com o interesse que você demonstra pelas leituras de seus alunos,  eles se sentirão apreciados e você será mais do que o "professor" que ensina. Eles vão lhe ver como alguém diferente e excepcional.
10. Incentive. Em cada promoção, seus alunos vão lembrar de você como uma pessoa dedicada e cheia de interesse. Não é isso também um objetivo da educação? Incentive-os a viver com paixão e entusiasmo. Será uma lição para a vida toda e eles a relacionarão diretamente com os livros.
 ***
Na home, a imagem em destaque é The Baron in the Trees (2011), da artista Su Blackwell, a quem a Emília agradece. Conheça mais sobre o trabalho de Blackwell em www.sublackwell.co.uk

Imagem que ilustra a abertura é de Su Blackwell, The Baron in the Trees, 2011.

Fonte: Revista Emilia

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Hábito de ler está além dos livros, diz um dos maiores especialistas em leitura do mundo

Francês Roger Chartier esteve no Brasil para participar de evento realizado pela UEM

Um dos maiores especialistas em leitura do mundo, o francês Roger Chartier destaca que o hábito de ler está muito além dos livros impressos e defende que os governos têm papel importante na promoção de uma sociedade mais leitora.

O historiador esteve no Brasil para participar do 2º Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literários, realizado pela UEM (Universidade Estadual de Maringá). Em entrevista à Agência Brasil, o professor e historiador avaliou que os meios digitais ampliam as possibilidades de leitura, mas ressaltou que parte da sociedade ainda está excluída dessa realidade.

— O analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital.

Agência Brasil: Uma pesquisa divulgada recentemente indicou que o brasileiro lê em média quatro livros por ano (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada pelo Instituto Pró-Livro em abril). Podemos considerar essa quantidade grande ou pequena em relação a outros países?
Roger Chartier: Em primeiro lugar, me parece que o ato de ler não se trata necessariamente de ler livros. Essas pesquisas que peguntam às pessoas se elas leem livros estão sempre ignorando que a leitura é muito mais do que ler livros. Basta ver em todos os comportamentos da sociedade que a leitura é uma prática fundamental e disseminada. Isso inclui a leitura dos livros, mas muita gente diz que não lê livros e de fato está lendo objetos impressos que poderiam ser considerados [jornais, revistas, revistas em quadrinhos, entre outras publicações]. Não devemos ser pessimistas, o que se deve pensar é que a prática da leitura é mais frequente, importante e necessária do que poderia indicar uma pesquisa sobre o número de livros lidos.

ABr: Hoje a leitura está em diferentes plataformas?
Chartier: Absolutamente, quando há a entrada no mundo digital abre-se uma possibilidade de leitura mais importante que antes. Não posso comparar imediatamente, mas nos últimos anos houve um recuo do número de livros lidos, mas não necessariamente porque as pessoas estão lendo pouco. É mais uma transformação das práticas culturais. É gente que tinha o costume de comprar e ler muitos livros e agora talvez gaste o mesmo dinheiro com outras formas de diversão.

ABr: A mesma pesquisa que trouxe a média de livro lidos pelos brasileiros aponta que a população prefere outras atividade à leitura, como ver televisão ou acessar a internet.
Chartier: Isso não seria próprio do brasileiro. Penso que em qualquer sociedade do mundo [a pesquisa] teria o mesmo resultado. Talvez com porcentagens diferentes. Uma pesquisa francesa do Ministério da Cultura mostrou que houve uma redistribuição dos gastos culturais para o teatro, o turismo, a viagem e o próprio meio digital.

ABr: Na sua avaliação, essa evolução tecnológica da leitura do impresso para os meios digitais tem o papel de ampliar ou reduzir o número de leitores?
Chartier: Representa uma possibilidade de leitura mais forte do que antes. Quantas vezes nós somos obrigados a preencher formulários para comprar algo, ler e-mails. Tudo isso está num mundo digital que é construído pela leitura e a escrita. Mas também há fronteiras, não se pode pensar que cada um tem um acesso imediato [ao meio digital]. É totalmente um mundo que impõe mais leitura e escrita. Por outro lado, é um mundo onde a leitura tradicional dos textos que são considerados livros, de ver uma obra que tem uma coerência, uma singularidade, aqui [nos meios digitais] se confronta com uma prática de leitura que é mais descontínua. A percepção da obra intelectual ou estética no mundo digital é um processo muito mais complicado porque há fragmentos e trechos de textos aparecendo na tela.

ABr: Na sua opinião, a responsabilidade de promover o hábito da leitura em uma sociedade é da escola?
Chartier: Os sociólogos mostram que, evidentemente, a escola pode corrigir desigualdades que nascem na sociedade mesmo [para o acesso à leitura]. Mas ao mesmo tempo a escola reflete as desigualdades de uma sociedade. Então me parece que, também, é um desafio fundamental que as crianças possam ter incorporados instrumentos de relação com a cultura escrita e que essa desigualdade social deveria ser considerada e corrigida pela escola que normalmente pode dar aos que estão desprovidos os instrumento de conhecimento ou de compreensão da cultura escrita. É uma relação complexa entre a escola e o mundo social. E é claro que a escola não pode fazer tudo.

ABr: Esse é um papel também dos governos?
Chartier: Os governos têm um papel múltiplo. Ele pode ajudar por meio de campanhas de incentivo à leitura, de recursos às famílias mais desprovidas de capital cultural e pode ajudar pela atenção ao sistema escolar. São três maneira de interação que me parecem fundamentais.

ABr: No Brasil ainda temos quase 14 milhões de analfabetos e boa parte da população tem pouco domínio da leitura e escrita – são as pessoas consideradas analfabetas funcionais. Isso não é um entrave ao estímulo da leitura?
Chartier: É preciso diferenciar o analfabetismo radical, que é quando a pessoa está realmente fora da possibilidade de ler e escrever da outra forma que seria uma dificuldade para uma leitura. Há ainda uma outra forma de analfabetismo que seria da historialidade no mundo digital, uma nova fronteira entre os que estão dentro desse mundo e outros que, por razões econômicas e culturais, ficam de fora. O conceito de analfabetismo pode ser o radical, o funcional ou o digital. Cada um precisa de uma forma de aculturação, de pedagogia e didática diferente, mas os três também são tarefas importantes não só para os governos, mas para a sociedade inteira.

ABr: Na sua avaliação, a exclusão dos meios digitais poderia ser considerada uma nova forma de analfabetismo?
Chartier: Me parece que isso é importante e há uma ilusão que vem de quem escreve sobre o mundo digital, porque já está nele e pensa que a sociedade inteira está digitalizada, mas não é o caso. Evidente há muitos obstáculos e fronteiras para entrar nesse mundo. Começando pela própria compra dos instrumentos e terminando com a capacidade de fazer um bom uso dessas novas técnicas. Essa é uma outra tarefa dada à escola de permitir a aprendizagem dessa nova técnica, mas não somente de aprender a ler e escrever, mas como fazer isso na tela do computador.

Fonte: Estadão

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A transição da leitura

 Márcia Lorca
 21/06/2012

Vamos dar aqui luz à antiga questão sobre o distanciamento da leitura que ocorre na transição das séries iniciais para as posteriores. E, levando em conta o papel da literatura infantil e juvenil, entendo que há algumas considerações que precisam ser discutidas: o nível da interferência da escola, do professor e do mercado editorial para a (de)formação do leitor.

É visível que o mercado editorial direciona a produção dos livros, tanto infantil como juvenil, para temas e assuntos de peso comercial. Os escritores são obrigados, muitas vezes, a escrever aquilo que vende mais. Nesse sentido, a liberdade de escrita que permeia a arte literária fica comprometida e é deixada em último plano

Por outro lado, a escola tem-se prendido a um cronograma de conteúdos endurecido, avesso às novidades da própria sociedade e dos alunos enquanto indivíduos distintos em gostos e interesses. Parte-se da obrigação de ensinar determinadas matérias e inculcar certos valores morais para escolher o livro de leitura obrigatória de cada bimestre. Poderia ser essa atitude de incentivo à formação do leitor ideal?

Finalmente atenta-se ao árduo trabalho do professor em sala de aula. Com alunos alheios aos conhecimentos que lhes são oferecidos, cabe ao professor a difícil tarefa de criar o belo hábito da leitura nos alunos. Entretanto, como se processa a escolha do professor pelo livro que os alunos terão de ler? 

Restringe-se aos velhos livros conhecidos ou àqueles que ensinem as moralidades do mundo acima de todas as coisas.

E a estética? E a arte literária? Em sala, vale trabalhar com níveis simples da estrutura narrativa: quem são as personagens, o que fazem ao longo do enredo, qual a moral da história e dos ensinamentos que nos passa? 

Se o nível do livro fosse expressivamente artístico, o estudo se voltaria à construção do texto literário, o que certamente abriria novas noções da escritura textual e das possibilidades que a linguagem verbal oferece ao leitor, a fim de instigá-lo a voos mais desafiadores e intensos pelo extraordinário mundo da leitura.

Márcia Lorca é mestre pela Unesp de Assis, pesquisadora da área de Literatura Infantil e Juvenil e professora de Literatura do ensino médio em Araçatuba