quinta-feira, 17 de maio de 2012

Brasileiro ainda não descobriu o prazer de ler


*João José Forni

O Instituto Pró-Livro divulgou a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita em 2011. O objetivo foi levantar perfil do leitor e do não leitor brasileiro, preferências e barreiras à penetração da leitura no país. É um retrato bastante denso dos nossos hábitos de leitura. A surpresa foi que andamos para trás. 

Nada inesperado, para um país onde a televisão tem a preferência de 85% dos entrevistados, ao responderem "o que gostam de fazer em seu tempo livre". Se alguém esperava respostas como descansar (51%), sair com amigos (34%) ou praticar esportes (23%), errou. O hábito de ler agrada apenas a 28% da amostra. 

Talvez o mais chocante foi descobrir na pesquisa que 76% dos entrevistados, em amostra de 5.012 pessoas, em 315 municípios, nunca pisaram numa biblioteca. Embora 71% admitam que existe esse tipo de ambiente e o acesso é fácil. Para eles, a biblioteca é um lugar para "estudar". Somente 8% dos brasileiros vão à biblioteca regularmente. 17% vão de vez em quando. Ou seja, quase nunca. Só 16% sabem que a biblioteca existe "para emprestar livros".Não foi coincidência, mas para comemorar o Dia Mundial do Livro, o Ministério da Cultura anunciou investimentos de R$ 374 milhões no Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) para 2012. Mais recursos são bem-vindos. Mas talvez o problema não seja apenas esse. 

Por que o brasileiro pouco frequenta as cerca de 1.000 bibliotecas existentes no país? A maioria alega falta de tempo como o principal empecilho. 12% acreditam ser um lugar para "lazer". A pesquisa ainda mostrou que a maior parte dos brasileiros que vai à biblioteca está na vida escolar (64%), utilizando os espaços nas escolas ou universidades. 

Curioso não aparecer na pesquisa a alegação de não frequentar, porque não existe biblioteca. Até porque, entre países do mesmo nível de desenvolvimento, o Brasil é um dos que possui o menor índice de bibliotecas e livrarias por habitante. 

Para a presidente do IPL, Karine Pansa, os dados colhidos pelo Ibope Inteligência mostram que o trabalho não é mais possibilitar o acesso ao equipamento, mas fazer com que as pessoas o utilizem. "O maior desafio é transformar as bibliotecas em locais agradáveis, onde as pessoas gostem de estar, com prazer. Não só para estudar." Ninguém vai atrás de um produto, no caso o livro, para o qual não foi estimulado pelos pais, professores, amigos. 

Quando a pesquisa pergunta aos entrevistados, que já cultivam o hábito de ler, quem foram seus "influenciadores", o professor desponta primeiro com 45% das indicações, seguido da mãe, com 43%. Ou seja, o hábito da leitura começa em casa e se consolida na escola. Filhos de pais leitores têm muito mais probabilidade de também serem leitores na idade adulta.
As mulheres leem mais do que os homens e, assim como o número de leitores caiu de 55 milhões em 2007, para 50 milhões na pesquisa 2011, a média de livros lidos pelos chamados "leitores" caiu também de 4,7 para 4,0 no mesmo período. Isso poderia indicar que a internet e outras atividades audiovisuais estão seduzindo mais a juventude do que a leitura. A média dos livros lidos também caiu, de 2,07 para 1,85 livro por ano, em 2011. Índice baixíssimo para os padrões internacionais. Esse é um fenômeno que ocorre em todas as regiões do país.A pesquisa do Instituto Pró-Livro deveria ser apresentada e em todos os estabelecimentos de ensino do Brasil. Tanto superiores quanto de nível médio e fundamental. Se professores e alunos tomassem conhecimento dos detalhes, poderiam sugerir ideias para estimular a leitura no ambiente escolar e em casa. Descobririam onde estão as falhas. 

Mais do que recursos, extremamente importantes, talvez esteja faltando no Brasil uma cultura da leitura. Vemos pouca colaboração dos meios de comunicação, principalmente a televisão. Os jornais, tão importantes no passado para estimular a leitura, com suplementos literários emblemáticos, hoje preferem os de gastronomia, tecnologia, esportes, turismo. Os literários ficaram na história. 

Por que o brasileiro não gosta de ler? Ou por que universitários, até em cursos de pós-graduação, ficam esperando os professores fornecerem os links da internet de todos os textos para leitura, em vez de irem atrás das publicações? Preferem tirar cópias de capítulos de livros, atividade ilegal, do que comprá-los ou utilizar exemplares disponíveis nas bibliotecas. 

Talvez porque pais e professores estejam falhando desde os primeiros momentos em que a criança começa a descobrir o mundo das letras. Se eles, quase sempre adotados como exemplos, não leem, nem se preocupam em facilitar o acesso das crianças aos livros, como irão estimulá-las para um hábito que está sendo atropelado pelos apelos e seduções tecnológicas do computador e dos smartphones? 

Quem tiver interesse em ler ou discutir a pesquisa do Instituto Pró-Livro, o relatório completo está disponível em http://bit.ly/HeJUFy.*Jornalista, Consultor de Comunicação. Editor do site www.comunicacaoecrise.com.

Fonte:  Folha do Sul Gaúcho

O leitor, onde está o leitor?

O Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Ilustração: Ricardo Humberto

Os editores brasileiros revelam que estão publicando livros “demais”. Isso é uma verdade ou um mal-entendido? Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, disse que publica 280 títulos por ano e que “não dá para crescer mais com obras de mercado, até porque o mercado está muito competitivo. (…). Há editoras que hoje não conseguem entrar em redes de livrarias com um exemplar de algum título. Há uma superprodução. De livros, escritores, editores, um número de editoras grande surgindo”.

Sérgio Machado, da Record, informa que em 2010 o Brasil editou 55 mil títulos, numa média de 210 obras por dia útil. Só a Record coloca no mercado 80 títulos por mês. Seu proprietário revela que tem 2 milhões de livros em galpões que lhe custam uma despesa alta.

Há uma crise no ar. Uma crise paradoxal. De excesso e de carência. Excesso de livros ou carência de leitores? Assim como um copo com metade de água pode ser visto como um espaço metade cheio ou metade vazio, permitam-me examinar a questão por outro ângulo, fazendo uma correção: o Brasil não produz livros “demais”, o Brasil produz leitores de menos. Há que “produzir” o leitor. E não estou falando de alfabetização. Essa cadeia do livro não existe sem o destinatário: o leitor. Não há excesso de livros, há falta de bibliotecas, de livrarias e de leitores. Há, por outro lado, centenas de iniciativas governamentais e particulares tentando corrigir isso. Todos, não só os editores, temos que modificar o conceito de livro, livraria, biblioteca, leitor e leitura, pois na verdade todo esse sistema em torno do livro está em crise (ou metamorfose).

Mas que crise é essa? Quantas crises há dentro desta crise?

CRISE EDITORIAL

1. Atualmente os editores estão disputando um mercado de eleitos, um mercado mínino de consumidores. Ninguém sabe quantos são. Há quem ache que leitores de livro no país não cheguem a 20 milhões. Se fossem 30 milhões seria igualmente vergonhoso que haja tão poucos leitores. E mais: um lastimável desperdício econômico e cultural. E os outros 170 ou 180 milhões, onde estão? Estão anestesiados pela sociedade do espetáculo?

2. Segundo a Fundação Getúlio Vargas as classes A e B constituem 11% do país. Será que essas classes consomem realmente bens culturais como o livro, teatro, museus, etc.? Diz o vice-presidente do Ibope, Nelson Marangoni, que “o Mercado de luxo tem previsão de crescimento de 30% no próximo ano (2012) e isto é uma oportunidade dentro das classes A e B e não da C[1]”. Há aí duas coisas que nos inquietam: 1) esse crescimento dos mais ricos se reflete em número maior de leitores e consumo de livros? 2) por que a classe C emergente não aparece como consumidora de bens culturais?

Por outro lado, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) informa que em 2009 “foram lançados 52 mil livros convencionais e vendidos 386 mil exemplares” [2]. Imagina-se que os livros comprados pelo governo estejam fora dessa lista. Donde se deduz que 386 mil exemplares não são nada em relação aos 20 milhões de pessoas das classes A e B (sem contar os de outras classes que eventualmente compram livros).

3. As estatísticas sobre leitura no Brasil variam muito. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) considera que “o brasileiro lê, por ano, 4,7 livros. Mas se contarmos somente livros lidos espontaneamente, o número cai para 1,3 por habitante”[3]. Portanto, a conclusão é óbvia: numa estatística que considera que o brasileiro lê 4,7 livros por ano, se em 2009 foram vendidos 386 mil exemplares, então se conclui que apenas cerca de 100 mil pessoas são leitoras. Na outra opção estatística, cerca de 386 mil indivíduos seriam leitores. Ou seja, as editoras estariam disputando cerca de 386 mil pessoas (1,3 livro por pessoa), numa população de quase 200 milhões habitantes.

4. Dizem as estatísticas que as editoras produziram em 2010 23% mais livros que em 2009. Mas a perplexidade continua: tirante os best-sellers, que têm uma dinâmica específica, as edições dos livros “normais” continuam em torno de 2 mil a 3 mil exemplares. Se lembrarmos que quando o país tinha 30 milhões de habitantes (lá por 1920) as edições eram de 500 exemplares, veremos que há algo errado no nosso “progresso”. Naquele tempo cerca de 60% da população eram de analfabetos, hoje se diz que são 9%. Façam a conta com os quase 200 milhões de habitantes hoje. Portanto, há algo errado não apenas com a produção de livros mas com a “produção” de leitores.

5. A indústria editorial tem algumas características:

a) disputa um reduzidíssimo mercado de leitores;

b) algumas editoras vivem em grande parte de vender para o governo. Isso não é necessariamente ruim. Sempre se diz que nos países mais desenvolvidos as bibliotecas públicas são grandes compradoras de livros;

c) recentemente, no entanto, grupos multinacionais adquiriram editoras brasileiras e lançam aqui autores e títulos estrangeiros que competem e/ou reprimem o consumo de autores nacionais. Não se trata de ser contra ou a favor, mas uma constatação. É o preço da globalização. E o Brasil, grande exportador em outras áreas, é um grande importador de obras estrangeiras. Basta ver as listas dos mais vendidos hoje comparada com a de algumas décadas atrás e como os cadernos culturais abrem largos espaços para autores estrangeiros;

d) nossos editores e agentes literários, em geral, vão a Frankfurt e outras feiras para comprar, não para vender. Será que nossa literatura é tão precária que não é competitiva?

e) A CBL informa que na 62a Feira de Frankfurt foram vendidos US$ 1,06 milhão em direitos autorais. Ótimo. Mas quando se vai a qualquer grande livraria européia não há livro brasileiro. Em geral, só Jorge Amado traduzido em espanhol e na estante de autores latino-americanos. Quando, em Paris, se pergunta aos livreiros da “Ecume des pages” e “La Hune” sobre a ausência de uma prateleira de autores brasileiros, alegam que não há suficientes autores brasileiros.

6. Estatísticas recentes da Câmara Brasileira do Livro dizem que o número de livros vendidos no país aumentou 13,12%. Ótimo. Mas isso se insere dentro do contexto de disputa do mesmo público leitor. Começa agora uma luta pela conquista da classe C. Isso levanta outra questão: que tipo de livro está sendo vendido? O que é o “fast reading” (tipo sanduíche, “fast food”) e o que é livro com importância modificadora para a cultura? Diz Nelson Marangoni, vice-presidente do Ibope na citada entrevista, considerando a ascensão da classe C, que está havendo mobilidade financeira, não mobilidade social. Ou se poderia dizer de outro modo: as pessoas entram na sociedade de consumo e são consumidas como objeto.

7. Há alguns anos, li que o mercado do livro movimentou R$ 4,2 bilhões em 2009. Maravilha! Mas é curioso que este era então o montante da indústria de cerveja. É intrigante que se veja tanto anúncio de cerveja e quase não se veja anúncio de livro. Claro, o governo não compra cerveja, mas compra livro. E isso, se é uma solução para alguns editores, só é um elemento complicador na relação paternalista de nossa tradição.

8. No esforço para reverter a síndrome da importação cultural indiscriminada, o governo federal através da Fundação Biblioteca Nacional criou na administração de 1990/1996 programa de bolsas de tradução de obras brasileiras, trouxe ao Brasil agentes literários estrangeiros e diretores de suplementos literários dos principais jornais do mundo para divulgar nossa literatura, e começou a participar e organizar feiras internacionais de livros e a dar suporte a uma política nacional do livro, da biblioteca e da leitura[4].

Isso não é suficiente, tem que ser ampliado e melhorado.

CRISE NAS LIVRARIAS

1. O censo da Associação Nacional de Livrarias diz que em 2009 havia 2.980 livrarias no país, ou seja, uma livraria para cada 64.255 habitantes. Segundo a Unesco, deveria haver uma livraria para cada 10 mil habitantes. Façam a conta e vejam nosso débito. As livrarias, a exemplo das mega livrarias, continuam concentradas nos bairros mais prósperos das grandes cidades. Os subúrbios e maioria das cidades brasileiras não conhecem esse comércio. Em 25 de novembro de 2006, o jornal O Estado de S. Paulo informava que segundo o IBGE 69,07% das cidades não têm livraria e que as outras 30% têm livrarias misturadas com papelaria.

2. Paradoxalmente quem entra em uma das raras livrarias hoje se escandaliza com a enorme quantidade de títulos que se revezam nas estantes, livros que surgem e morrem rapidamente. Diz-se que hoje o tempo de vida útil de um livro é de três meses. Se não vendeu, desaparece. Algumas editoras até pagam ou fazem alguma forma de barganha para ter seus livros expostos em lugares privilegiados nas livrarias.

3. O chamado “excesso” e/ou “rotatividade” de livros faz com que os funcionários das livrarias não consigam informar com segurança o que há nas estantes, nos estoques ou o que está esgotado. Muitos livros procurados estão no imponderável “estoque” ou, às vezes, nem aparecem na tela do computador. O editor José Mario Pereira já relatou como isso ocorre[5].

4. Com isso, os “sebos” e “estantes virtuais” passaram a ser o lugar para se encontrar obras mais duradouras e ganharam maior espaço com a internet.

5. Com a ascensão da classe C e devido à inexistência de livrarias na maioria das cidades, a venda dos livros porta a porta aumentou. Informa a Associação Brasileira de Difusão de Livros que em 2010 os editores desse setor faturaram R$ 1,2 bilhão e que só a Editora Escala vende por mês 350 mil livros. A média de preço das coleções é de R$ 122,74. A Avon — empresa de cosméticos —, neste negócio há 18 anos, tem 1,1 milhão de revendedoras, liderando o mercado.

A questão que se levanta: que tipo de livro predomina nesse mercado?

CRISE NO ENSINO

1. Nos anos 1960 a reforma de ensino introduziu o sistema de créditos, seguindo modelo americano, e acabaram, por exemplo, os cursos de línguas neolatinas, anglo germânicas e clássicas. Um aluno de neolatinas antes estudava a literatura e a língua francesa, a espanhola, a hispano-americana, a portuguesa, a brasileira e a italiana. Escrevia trabalhos nessas línguas. Com a reforma que imitava o sistema americano, ao invés de o aluno estudar várias literaturas e escrever trabalhos em várias línguas, passou a se “especializar” só em português e em outra língua e literatura.

2. Concomitantemente, também nos anos 60, no ensino médio se substituíram o português e a literatura pela “comunicação e expressão”. Iniciou-se um processo de desprestígio da leitura e da literatura. Contaminados pela ideologia da “comunicação” que entrou na moda nesta época, chegou-se a eliminar a palavra “literatura” dos currículos. Como mostrou Luís Augusto Fischer em ensaio recente, estuda-se letra de música no lugar de poesia, e mais recorte de jornal e história em quadrinho que romance. Daí que Jim Davis (do Garfield) e Bob Thaves (da tira “Frank e Ernest”) apareçam mais que Graciliano Ramos e João Cabral[6].

3. Ao lado disso criou-se o “vestibular unificado” e uma massificação do ensino, que se generalizou a partir dos anos 70, teve duas conseqüências. Aumentou enormemente o número de alunos na universidade. O vestibular unificado acabou elegendo a “múltipla escolha” com o conseqüente desprestígio da leitura e da redação. Isso contribuiu para que o nível dos estudantes fosse mais baixo[7].

CRISE DO ESCRITOR

1. Houve sim um aumento do número de escritores nas últimas décadas, pois a sociedade da comunicação facilita a publicação. Todos querem ser lidos e vistos.

2. A partir dos anos 70 surgiu uma geração de escritores viajantes que percorrem todo o país indo ao encontro do público. Diferenciam-se das gerações anteriores, mais sedentárias, nas quais os escritores eram sobretudo funcionários públicos localizados no Rio de Janeiro que se encontravam à tarde no “Amarelinho” ou na “porta da livrara” (José Olympio, São José).

3. Há uma ligação entre os cursos de criação literária aqui e ali e o aumento do número de escritores. Às experiências feitas nos anos 60 e 70 na UNB, na UFRJ e na PUC/Rio sucederam cursos e oficinas já fora da universidade. Surgiram, ainda que timidamente, as bolsas para os escritores na tentativa de profissionalizá-los. Mas as livrarias não cresceram proporcionalmente e as bibliotecas muito pouco.

4. Nessa crise (que é de todo sistema em torno do livro), o autor está muito inconfortável. Ele passa grande tempo elaborando um livro, se o livro não dá certo, ele é o primeiro a ser prejudicado. Lá se vão três, cinco ou mais anos de trabalho pelo ralo. Já o editor, como lançou dezenas de livros, vai se safar, se compensar com os outros. Se o livreiro não vende um livro, vende outros. Não é assim com o autor.


CRISE DAS BIBLIOTECAS

1. Nos anos 90 a Fundação Biblioteca Nacional constatou que havia cerca de 3 mil municípios sem biblioteca. Foi lançada na ocasião a campanha “uma biblioteca em cada município”. Somente 15 anos depois, com Gilberto Gil/Juca Ferreira no Ministério da Cultura, conseguiu-se implantar uma biblioteca em cada município (excetuando uma meia dúzia de prefeitos que acham que biblioteca é dispensável[8]).
Dispensa lembrar que países mais desenvolvidos têm bibliotecas não apenas nos municípios, mas também nos bairros.

2. Criou-se nos anos 90 o Sistema Nacional de Bibliotecas realizando encontros e seminários nacionais, estaduais e municipais na tentativa de mudar a mentalidade de bibliotecárias e bibliotecários. Na sociedade informatizada a biblioteca e seu funcionário teriam outro papel: servidor de informação e não apenas de catalogador ou guardião de livros.

A Fundação da Biblioteca Nacional nos anos 90, tendo criado o SNB, fez uma aproximação com as bibliotecas universitárias, reuniões com o Conselho de Reitores, tentando dar organicidade a cerca de 900 bibliotecas universitárias abrindo-as também ao grande público.

3. As bibliotecas escolares constituem, por sua vez, um problema. De acordo com o Ministério da Educação “68% das escolas públicas do país não possuem bibliotecas, evidenciando a dimensão do desafio para cumprir o que determina a Lei Federal 12.244, de 24 de maio de 2010, que dispõe sobre a universalização em até dez anos, das bibliotecas nas instituições de ensino públicas e privadas do país”[9].

CRISE DO LIVRO

Crise que pode se entendida como metamorfose. Ao contrário do que os mais alarmados pensam, o livro não vai deixar de existir, apenas está assumindo outras formas, outros suportes. O livro de papel continuará a ter sua função como aliás já o demonstraram Umberto Eco e Jean-Claude Carrière[10].

Por outro lado discutir a “crise do livro” sem considerar todos os setores já aqui referidos é marchar para uma solução equivocada do problema. Estamos tratando desta questão em todo este ensaio.

CRISE, LEITURA E O PRÉ-SAL

1. Urge outra compreensão, não apenas do que seja livro, livraria, biblioteca, editor, mas sobretudo do que é leitura e leitor.

2. Leitura não se limita à “alfabetização”.

3. Leitura não se limita à escola: trata-se de formar uma sociedade leitora, condição sine qua non para o país enfrentar os desafios do século 21.

4. Por isso, é urgente uma POLÍTICA NACIONAL DE LEITURA que atravesse não só todos os ministérios, mas seja uma determinação da Presidência da República. Como se poderia dizer: LEITURA é uma questão de segurança nacional[11].

5. Considerada a leitura como algo além da escola, algo além da alfabetização, algo que vai lidar com o “analfabetismo funcional” e com o “analfabetismo tecnológico”, haverá (como já começa a haver) programas de leitura em hospitais, quartéis, fábricas, sindicatos, empresas, tribos indígenas, igrejas, condomínios, acampamentos agrários, comunidades quilombolas, favelas, programas para aposentados, para cegos, surdos, mudos e outros deficientes físicos, etc.[12]

6. Nos últimos anos, “agentes de leitura” e “mediadores de leitura” se espalharam pelo Brasil. A experiência positiva dos agentes de leitura no Ceará foi levada para o Ministério da Cultura e expande-se em vários estados. No Acre foram criadas mais de cem Casas da Leitura interagindo com uma nova maneira de ler a cultura e a natureza. Os agentes ou mediadores de leitura devem chegar a 15 mil brevemente e têm sido treinados por instituições como a Cátedra de Leitura da PUC/RJ. O ideal é que se mesclem com os “agentes de saúde” e os “médicos da família”.

7. Nessa redescoberta da leitura, onde havia apenas o Instituto Nacional do Livro, espera-se a criação do Instituto do Livro, da Leitura e da Biblioteca e a nova administração da Fundação Biblioteca Nacional planeja construir 25 mil bibliotecas populares com livro de qualidade a R$ 10.

8. Enfim, a leitura é o verdadeiro pré-sal. O petróleo em si não resolve os problemas básicos de um país. Há países que têm petróleo e têm terríveis desigualdades sociais e opressão política. Há países que não têm petróleo e estão na ponta do processo civilizatório. E todos os países que realmente se desenvolveram passaram pela leitura. A leitura torna os livros vivos e desenvolve os países.

LEITURA: EQUÍVOCOS E ACERTOS

É recente a emergência da LEITURA e do LEITOR no panorama brasileiro. O LEITOR e a LEITURA até há pouco foram elos invisíveis, não falados, diria até reprimidos ou esquecidos dentro de um sistema que parece pouco sistêmico.

Cito casos sintomáticos de como nossa elite vê a questão da leitura:

1. Edson Nery da Fonseca, conhecido bibliotecário, narra que, nos anos 50, ao questionar Lúcio Costa por que não havia projetado uma biblioteca pública para Brasília ouviu a seguinte resposta: “Esse negócio de biblioteca pública nunca deu certo no Brasil”[13].

2. Quando apresentei publicamente os projetos de leitura da Fundação Biblioteca Nacional, nos anos 90, numa reunião do MinC, ouvi do ministro Antonio Houaiss esta frase: “Leitura não é um assunto prioritário no meu ministério”.

3. Após ouvir uma conferência de Eliana Yunes — uma das maiores especialista em leitura no país —, um editor e alto dirigente da Câmara Brasileira do Livro me disse: “Quanto mais ouço a Eliana, menos entendo o que ela quer”.

4. Não estranha que o ex-ministro da Cultura Francisco Weffort (ex-genro de Paulo Freire), secundado por Eduardo Portela, tenha sabotado o Proler e os projetos de leitura em curso no país (1996) e que somente dez anos depois (em 2006) na administração Lula/Gil/Juca Ferreira a leitura voltasse a ser prioritária[14].

Contrastando com esse tipo de incompreensão, a reação de pessoas do povo é mais sábia. Há centenas, milhares de exemplos. Só o projeto “Viva Leitura”, patrocinado pela Organização dos Estados Ibero-americanos e a Fundação Santillana, listou cerca de 10 mil projetos, dos quais destaco três:

1. Luiz Amorim, dono de um açougue em Brasília, decidiu fazer dentro de seu estabelecimento uma biblioteca. Chegou a ser condenado pela Saúde Pública. Resistiu. Hoje seu projeto cresceu, a população da cidade participa do que se transformou num grande centro cultural. Além de expandir seu negócio, começou a pôr bibliotecas nos pontos de ônibus.

2. Em Sabará, Marco Túlio Damasceno criou a Borrachoteca dentro da borracharia que era de seu pai e já tem três filiais.

3. No Complexo do Alemão (Rio de Janeiro), enquanto zuniam as balas entre os traficantes e a policia, Otávio Santanna, que já era um agente de leitura e tinha uma biblioteca móvel, começou projetos para construir uma Barracoteca.

Quem quiser ir mais fundo neste assunto basta ver como funcionam os milhares de projetos de leitura em todo o país.

LEITURA: DESCOBERTA RECENTE
 
A evolução semântica e social da questão do livro no Brasil passou por algumas fases bem sintomáticas no último século:

1. Em 1918 com a experiência da edição popular do Saci, Monteiro Lobato, colaborando com o jornal O Estado de S. Paulo, cria a indústria editorial brasileira. Até então os livros eram publicados por editoras estrangeiras (Garnier e Lammert) e atendiam a 30 pontos de venda. As edições eram de 500 exemplares. Lobato levou o livro a todo o país e chegou a vender 11.500 exemplares de um único livro em um ano[15].

2. Em 1935 Rubem Borba de Moraes reinventa a biblioteca pública ao estruturar a biblioteca municipal de São Paulo, criando (com Mário de Andrade) novas seções abertas à cultura popular. Descentraliza ações programando dez bibliotecas nos diversos bairros, além de bibliotecas móveis[16].

3. Em 1937 o governo federal cria o Instituto Nacional do Livro, dirigido por Augusto Meyer, com colaboração de Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda, com o objetivo de fazer uma enciclopédia brasileira. Posteriormente o INL começou a fazer co-edições de livros que eram mandados para bibliotecas públicas[17].

4. Em 1961 Paulo Freire — diretor do Departamento de Educação, no Recife — põe em prática seu método de alfabetização — “Método Paulo Freire” —, ensinando plantadores de cana a ler em 45 dias. Essa experiência de “ler o mundo” foi interrompida pelo golpe de 64. Entre 1989 e 1991 Paulo Freire foi secretário da Educação de São Paulo e criou o programa para “Educação de Jovens e Adultos”.

5. Em torno de 1980 a universidade redescobre a leitura. Em 1981 surge a ALB (Associação Brasileira de Leitura do Brasil) e o Cole (Congresso de Leitura do Brasil), através de Ezequiel Theodoro. Cria-se a Jornada Nacional de Literatura (Universidade de Passo Fundo), coordenada pela professora Tânia Rösing. A “teoria da recepção” criada na Alemanha por Wolfgang Iser e Hans R. Jauss chega ao Brasil interessando-se academicamente pelo receptor/leitor. Mas restringe-se aos intramuros universitários.

6. A criação do Proler (1992), coordenado por Eliana Yunes e Francisco Gregório Filho, dentro da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), é o início de uma “política do livro e da leitura”. A leitura vira uma questão de estado. Já não se trata apenas de editar livros, já não se trata da alfabetização ou de uma visão acadêmica da leitura. A palavra leitura/leitor se amplia, desentranha-se do livro, da biblioteca, da alfabetização, da universidade e ganha amplitude social. Com a criação da Cátedra da Leitura PUC/Unesco (2006), a universidade leva socialmente para fora de seus muros a questão da leitura.

7. Por outro lado, em 2006 o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL) aparece formatado com José Castilho. Une sociedade civil e governo, começa articular a criação de um Instituto do Livro, da Leitura e das Bibliotecas. O Ministério da Cultura, por outro lado, propõe o “vale cultura”. E em 2011, Galeno Amorim, na FBN, retoma o PNLL e se empenha na construção de 25 mil bibliotecas populares.

INCLUSÃO DIGITAL E A LEITURA

Tem-se falado muito de “inclusão digital”. O Ministério das Comunicações informa que já existem 13.379 “telecentros” implantados em 5.564 municípios brasileiros. Eles podem ter o papel que as bibliotecas convencionais deveriam ter tido. Nesse contexto os “promotores de inclusão digital” deveriam ser encarados como irmãos gêmeos dos recentes “agentes de leitura” ou “agentes de cultura”. Os telecentros ofereceram 6.200 kits do Ministério às prefeituras. O telefone portátil, o Ipad, o Google são uma realidade. Os 200 milhões de telefones portáteis são 200 milhões de bibliotecas em potencial à espera de nossa criatividade. Assim como um viajante do século 18 tinha uma maleta de viagem em que carregava algumas dezenas de livros para ler, hoje pela internet todos podem ter uma biblioteca em suas mãos, seja nas margens do Tocantins ou nas cochilas do Sul.

Se não conseguimos em 500 anos colocar uma biblioteca em cada canto do país, por outro lado, cada cidadão hoje está se convertendo, à revelia de nossa incompetência histórica, em um “consumidor” de informação através da informática, do Google, da internet. Se temos apenas 2.600 livrarias e 2.500 cinemas, é bom que nos espantemos e rejubilemo-nos com o fato de que temos 109 mil lan houses; e que uma favela como a da Rocinha (que tem apenas uma biblioteca heroicamente construída e seguramente não tem nenhuma livraria) tem, por outro lado, 200 lan houses.

O que não foi feito em 500 anos, hoje graças ao universo digital, pode constituir-se em uma conquista rápida e numa reparação. Isso não significa que não se deva construir bibliotecas e comprar livros, apenas que há meios de acelerar o consumo de livros e promover a leitura.

Mas aqui se torna irrecusável contar uma história que narrei na recente Jornada Literária de Passo Fundo (agosto/2011) quando Alberto Manguel e Kate Wilson debatiam equivocamente sobre esse tema. Diz-se que o Marechal Rondon, no princípio do século passado, foi designado para conquistar grande parte do território brasileiro levando a comunicação através de postes e fios que conduziam mensagens telegráficas. Depois de ter instalado praticamente em todo o país esse sistema de comunicação, ao colocar o último poste na fronteira com a Bolívia, foi surpreendido com a notícia de que Marconi havia acabado de descobrir o telégrafo sem fio.

Cem anos depois a situação se repete. Conseguiremos fazer na era do livro eletrônico o que não conseguimos fazer na era do livro impresso?

O Brasil está vivenciando três fatos novos:

1. Primeiro a invasão da eletrônica em nossa vida cotidiana, nos jogando em outra era.

2. Em segundo lugar, o surgimento de outras gerações chamadas de X, Y, Z pelos especialistas em marketing: jovens que vivem zapeando. São “dispersivos”, fazem várias coisas ao mesmo tempo, não têm o sentido de “concentração” unidirecional. Nós os achamos superficiais. Mas, e se estivermos realmente diante de um fenômeno de mutação não exatamente genética, mas cultural? Um daqueles momentos de “point of no return” que remete para a metáfora que Marshall McLuhan usou: a lagarta assustada olhando uma borboleta em seu esplendor dizia: eu nunca me transformarei num monstro daqueles…

3. Em terceiro lugar, a ascensão das classes C, D e E que até agora estavam fora do mercado, da comunicação e da cultura livresca. A todo instante nos dizem de estratégias de marketing à procura desses novos “índios” que a sociedade de consumo quer incorporar, catequizando-os com o “evangelho” da sociedade do espetáculo. Os meios de comunicação certamente se preocupam com isso. Mas Fabio Mariano, da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), afirma que os jornais não conseguiram chegar a 60% das classes C, D e E, constituídas por pessoas com menos de 30 anos. “Os jornais brasileiros não entendem essa classe C, estão distantes. Quando a gente fala de classe C, falamos de um século de exclusão, sem saúde, sem saber o que é política.”

Some-se a isso o fato de haver hoje 200 milhões de celulares. São 200 milhões de bibliotecas volantes à espera de nossa criatividade. Um jovem na margem esquerda de um afluente do Amazonas pode ter, de graça, acesso aos clássicos brasileiros e estrangeiros sem precisar sair de casa.

Lembremos: o aprendizado já foi oral — o essencial era o uso da memória. Com a evolução o saber passou a ser escrito. Hoje retorna e passa pelo visual. Ou pode-se dizer: o aprendizado é oral, é escrito e também visual. O oral, o escrito e o visual se complementam.

O livro está se metamorfoseando. O leitor também tem que se metamorfosear. Como têm que se modificar o editor, o livreiro, o jornalista, o publicitário e todo o sistema da escrita e de representação simbólica. De certa maneira somos todos neo-analfabetos.

Quero dizer que os “leitores virtuais” se adiantaram. A indústria fonográfica está caçando avidamente seu público, as lojas virtuais estão pululando. Por que a indústria da produção do livro tarda tanto em descobrir a indústria da leitura? Por que disputar os mesmos minguados leitores entulhando toneladas de livros que serão rapidamente destruídos antes de serem lidos?

É como se os habitantes da Somália e da Etiópia, famintos, tivessem que assistir no seu acampamento de refugiados a alguns se banqueteando e jogando comida na lata de lixo enquanto eles morrem à mingua.

E O BRASIL NISSO?

Fomos envoltos por uma tsunami. Só que a onda (terceira, quarta, quinta?) envolve todo mundo, dá volta ao globo e causa modificações de acordo com a natureza ou acidentes geográficos e culturais de cada região.

Em tempos de feroz globalização, é bom lembrar que a antropofagia é própria dos seres vivos, e que Darwin tem razão ao falar da seleção das espécies. Temo, porém, que as espécies mais ferozes, não necessariamente as mais inteligentes, sobrevivam.

Quando me refiro à leitura, estou me referindo também à liberdade. A verdadeira leitura liberta e problematiza a própria leitura e a própria liberdade. O livro em si, ou a leitura fanática de uma única obra ou pensamento, não amadurece o indivíduo e a sociedade. Há sociedades que deram o livro ao povo, mas não deram liberdade de pensamento. Quando estive na Rússia, exatamente na semana em que o comunismo acabou, há 20 anos, naquele mês de agosto de 1991, reuni-me com editores soviéticos e soube para meu espanto que tinham mais de 200 mil bibliotecas. E nem por isso… Também as edições dos autores oficiais do partido, mesmo poesia, chegavam a milhões de exemplares. E nem por isso…
Em algumas ocasiões tenho dito que provavelmente somos a última geração letrada. Gostaria de estar equivocado, que o futuro me desmentisse. Ou que descobrisse, descobríssemos formas novas de ler. Se olharmos a história do Brasil, podemos detectar três momentos culturais e econômicos relevantes que nos forçam a uma decisão crucial no presente:

1. A febre do ouro e das pedras preciosas ocorreu aqui quando éramos colônia e essa riqueza escoou para os cofres dos dominadores. Isso foi diferente do que sucedeu com os Estados Unidos, que já eram independentes quando a “corrida do ouro” iniciou-se na costa leste.

2. Tendo perdido essa chance, perdemos também a chance da revolução industrial nos séculos 18 e 19, porque aqui predominavam a escravidão e a cultura agrária; e a coroa brasileira era apenas cliente dos produtos industrializados europeus.

3. Estamos diante da revolução digital. Se perdemos as duas revoluções anteriores, hoje há algumas coincidências: a revolução digital chega com a avassaladora globalização, no momento em que o Brasil auto-suficiente de petróleo incorpora outras classes e descobre o pré-sal.
Repito, para terminar: o verdadeiro pré-sal é a cultura e/ou a leitura. Os animais, os peixes, as árvores e até as bactérias lêem constantemente o mundo antes de tomarem qualquer decisão. Por que o ser humano insiste em andar às cegas no universo da comunicação?


[1] Revista da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) – julho/agosto 2011. Entrevista de Nelson Marangoni a Francisco Gracioso.

[2] Panorama Editorial. Câmara Brasileira do Livro, # 60, 2011.

[3] Idem, p. 37 e 38.

[4] Ver do autor deste ensaio: “Ler o Mundo”, Ed. Global, 2011.

[5] “Depois que inventaram o computador, as livrarias nem sempre compram os lançamentos, mas ficham tudo que está sendo publicado. Usam os cadernos literários para fazer o registro das novidades no computador. Então é comum acontecer o seguinte: o cliente passa numa livraria e pede um exemplar, por exemplo, de Curral de peixes: “O vendedor vai ao computador, digita o nome do autor, e em segundos tem as informações necessárias. O cliente quer o livro, mas aí o balconista diz que acabou de vender o último, e pergunta: “Quer esse livro para quando? Se mandar buscar amanhã, eu arranjo”. O cliente faz a encomenda, e só então esse funcionário telefona para a editora, ou passa um e-mail: “Mandar urgente. Se não for entregue em 24 horas, considerar anulado o pedido”. Ou seja, só nos pedem o livro com comprador certo”. Mesa redonda “A situação do livro no Brasil”, 21.11.2001, na Academia Brasileira de Letras.

[6] Em 2002 correu pela internet um manifesto de professores “contra a exclusão da literatura no Ensino Médio” no Rio de Janeiro. Na ocasião escrevi uma crônica (“Acabar com a literatura?”) que está em “Ler o mundo”, Ed. Global, 2011.

[7] Ler “Como se faz a indústria do vestibular”. Sonia Guimarães, Ed. Vozes, 1984, p. 13: “no período 1964-68 cresceu em 120% o número de inscritos nos exames vestibulares, taxa muito superior ao aumento do número de vagas oferecidas nesse mesmo período, que foi de 56%. Criou-se então o impasse e, com ele, o drama dos excedentes que cresceram 212% entre 64 e 68, 125 mil alunos, em todo o país, que passaram não conseguiram entrar na universidade por falta de vagas”.

[8] Ver “Ler o mundo”, ob cit: “Bibliotecas, alguns prefeitos são contra”.

[9] A leitura literária na Escola Pública Potiguar – IDE – Natal, 2011, p. 21.

[10] Entre tantos que escreveram sobre isto destaque-se o livro de Umberto Eco e Carrière: “Não contem com o fim do livro”. Ed. Record, Rio, 2010.

[11] No Seminário Nacional de Mediadores de Leitura, realizado em São Paulo em 2010, e que reuniu autoridades do MEC, MINC e de outros ministérios, me foi pedido que redigisse o seguinte documento aprovado pelos colegas: CARTA DO SEMINÁRIO NACIONAL DE MEDIADORES DE LEITURA
Os abaixo-assinados, escritores, professores, contadores de histórias, bibliotecários, membros de entidades ligadas à promoção da leitura, e representantes de vários ministérios, presentes no Seminário Nacional de Mediadores da Leitura, realizado em São Paulo de 12 a13 de março, discutindo questões relativas à realidade brasileira achamos por bem encaminhar às autoridades competentes as seguintes considerações:
  1. nas últimas décadas, a questão da leitura como instrumento de desenvolvimento não apenas pessoal, mas econômico e social tornou-se de tal modo evidente que vários países incrementaram estratégias para debelar tanto o analfabetismo quanto o analfabetismo funcional;
  2. no Brasil, também nas últimas décadas, foram criados inúmeros programas de promoção da leitura, que têm modificado a vida de milhares de pessoas no campo e nas cidades. A leitura deixou de ser uma preocupação apenas escolar e transformou-se em instrumento de cidadania e inclusão social sendo um agente eficaz na prevenção ao crime e à miséria;
  3. é possível realizar, e já existem, programas de leitura em quartéis, hospitais, presídios e comunidades marginalizadas. Seja entre camponeses, quilombolas e indígenas e em muitas cidades é possível se institucionalizar o ‘agente de cultura’, como quem vai topicamente desencadear ações modificadoras em todo o país;
  4. assim como o governo entende que a estabilidade do valor da moeda é uma questão de estado que transcende os governos passageiros, a leitura é a moeda, é o valor que credencia o indivíduo a ser um cidadão permitindo ao país se desenvolver. Com efeito, na modernidade, não existe nenhum pais próspero que não tenha passado pela revolução silenciosa do livro e da leitura. E a leitura, como gesto de comunicação, tornou-se a chave para o ingresso no século 21.
  5. chegou, por isso, o momento em que essa malha de manifestações existentes, pelo seu natural amadurecimento, requer uma outra dimensão na sua estratégia e na sua execução. É fundamental e recomendável que, reconhecendo a importância dessa questão, a promoção da leitura deixe de ser apenas uma preocupação do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, para se transformar também numa ação interministerial priorizada pela Presidência da República.
[12] Em 17 de março de 2009, por exemplo, Cleide Soares, do Ministério de Desenvolvimento Agrário, informava por carta: “Ficamos muito gratas pela lembrança do Programa Arca das Letras (…) Esta semana estamos levando mais bibliotecas áreas rurais, indígenas e quilombolas de Sergipe (40), Pernambuco (13), Ceará (16) e Mato Grosso (8). 77 novas comunidades terão acesso à leitura e isso nos agrada bastante (…) Já são mais de 13 mil agentes de leitura atuando no meio rural”.

[13] “Brasília foi outra oportunidade perdia pela biblioteconomia brasileira para afirmar-se como força social. Na memória do Plano Piloto, Lúcio Costa fala vagamente de uma biblioteca no setor cultural da cidade. Perguntei uma vez ao genial urbanista e arquiteto por que as unidades de vizinhança tinham tudo — escolas, clubes, igrejas, ruas de comercio local, cinemas, bancas de revistas, postos de gasolina, supermercados, menos bibliotecas. Ele me confessou que se esquecera (sic), ‘porque esse negócio de biblioteca popular nunca funcionou no Brasil”. (in “Acertos e desacertos da biblioteconomia no Brasil”, Recife, Flamboyant, 1993). Citado também em “Ler o Mundo”.

[14] Sobre isso, para mais detalhes, ver meu depoimento em “Ler o Mundo”. Ed. Global, SP, 2011.

[15] Ver Monteiro Lobato: a recriação do livro no Brasil, Apostolo Neto – Revista Espaço Acadêmico, # 28, set 2003, citando Edgar Cavalheiro:

“É quando surge Monteiro Lobato. Tendo impresso por sua conta, nas oficinas d’O Estado de São Paulo, mil exemplares de Urupês, verificara, ao ter os volumes prontos para venda, que em todo o território nacional existiam somente trinta e poucas casas capazes de receber o livro. Não era possível, por tão poucos canais, o escoamento daquilo que se lhe afigurava um despropósito de volumes. Dirige-se, então, ao Departamento dos Correios, solicita uma agenda e constata a existência de mil e tantas agências postais espalhadas pelo Brasil. Escreve delicada carta-circular a cada agente, pedindo a indicação de firmas ou casas que pudessem receber certa mercadoria chamada ‘livro’. Com surpresa recebe respostas de quase todas as localidades. De posse de nomes e endereços assim obtidos, procura entrar em contacto com os possíveis clientes, escrevendo-lhes longa circular, portadora de original proposta: ‘Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada livro? V. Sª não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro, batata, querosene ou bacalhau. E como V. Sª receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais ‘livros’, terá uma comissão de 30%; se não vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa’.

Segundo Edgar Cavalheiro, o expediente lobatiano funciona perfeitamente, pois: Quase todos toparam, e Lobato passou dos trinta e poucos vendedores anteriores, que eram as livrarias, para mil e tantos postos de vendas, entre os quais havia lojas de ferragens, farmácias, bazares, bancas de jornal, papelarias. O comércio de livros, que modorravam numa rotina galega, ganha impulso insuspeitado. As edições, que antes não ultrapassavam 400 ou 500 exemplares, e assim mesmo muito espacejadas, pulam imediatamente para três mil exemplares, e começam a surgir quatro, cinco, seis e até mais livros por mês.

[16] Borba de Moraes em “Testemunha ocular”. Briquet de Lemos, Brasília, 2010, diz na p. 218: “A leitura seria feita e os estudantes seriam atendidos nos bairros, onde existiriam, para começar, dez bibliotecas localizadas de acordo com a densidade de população”.

[17] Quando assumi a Fundação da Biblioteca Nacional (1990) encontrei em Brasília 200 mil exemplares do INL encalhados, que distribuí imediatamente para as bibliotecas.
 
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
É poeta, cronista e ensaísta. Autor de Que país é este?, entre outros. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

Do que as crianças gostam de ler de acordo com a idade

09/05/12 por Roberta Fraga  

Quando vocês escolhe ou ganha um livro infantil, pode pensar: “puxa, mas eles só falam em fadas, ou princesas, ou aventuras”… É um pensamento lógico, mas não pode ser tomado como uma crítica. O fato é que cada idade, ou cada faixa etária, funciona mais ou menos como um marco de temas. Cada idade, resguardadas as devidas proporções de vivência e maturidade intelectual, tem suas áreas de interesse. Você, talvez, não saiba disso, mas editoras, escritores e ilustradores devem ter isso na ponta do lápis e na ponta das ideias.


O exemplo de hoje para falar do tema é “Você sabe tudo sobre dinossauros?”, de Lila Prap com tradução de Elisa Zametti. O livro é um exemplo para o encaixe diante dos temas de interesses das crianças. E o teste para os leitores é encaixá-lo, de acordo com as proposições de temas abaixo.
Assim vamos ao TEMAS

Temas relacionados a:

6 a 8 anos

  • extensão da experiência da vida;
  • humor.

Autores brasileiro que propõe o humor e a paródia como princípios inseparáveis:

  • Eva Furnari;
  • Ziraldo;
  • Ângela Lago;
  • Ricardo Azevedo;
  • Sylvia Osthof.

8 a 10 anos

  • livros ligados à experiência de vida da criança (maior autonomia, ela começa a integrar outros grupos);
  • preferência por ação
  • natureza ganham interesse;
  • como funcionam as cosias.

10 a 12 anos

  • aventura, humor, mundo dos animais, mistério;
  • romance de aventura, relato histórico, relato mitológico, relato heroico (sobre o princípio da vida dos povos, viagens).

A partir dos 13 anos

  • problemática social, confronto entre grupos étnicos ou sociais diferentes, guerras, violência, situações de marginalidade, abandono;
  • literatura romântica – heróis;
  • Romance policial/mistério;
  • Histórias de terror;
  • Realismo familiar;
  • Realismo social.

Tendências atuais (considere-se que o livro é de 2000):

Fantasia como tendência

  • Conto maravilhoso – em que os animais falam;
  • Narrativa fantástica;
  •  “Nos sense” – caracterizado por jogos de linguagens, paradoxos, hiper-realismo, surrealismo;
  • Ficção científica – atencipação  científica, robótica, cibernética, viagens espaciais.

Realidade como tendência

  • Romances de viagens e aventuras;
  • Romances históricos;
  • Romance de humor.

Tendências transversais (perpendiculares ou oblíquos aos acima expostos):

  • Educação ambiental;
  • Paz;
  • Saúde;
  • Consumo;
  • Combate à discriminação sexual;
  • Direitos humanos;
  • Solidariedade;
  • Democracia.


Agora você tem um bom norte para dar um livro para uma criança, ou você, aspirante a escritor, uma boa ideia de onde começar sua história.
E então, e o livro sobre dinossauros, onde se encaixa?

Fontes

COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes, Literatura infantil Teoria e Prática, São Paulo: Editora Ática, 18ed, 1999.
SOBRINO, Javier García (org.), et. al. A criança e o livro: A aventura de ler, Portugal: Porto Editora, 2000.

Fonte: Livros e Afins

Livros: um Brasil de poucos leitores

23/04/2012
Especialistas analisam o desafio de incentivar e leitura em país onde a maior parte da população prefere assistir à televisão nas horas livres


O resultado da última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil trouxe uma triste notícia: a de que os brasileiros estão lendo menos. Muito embora o mercado editorial tenha registrado, em 2010, um crescimento de 8,3% nas vendas de livros, entre todos os entrevistados da pesquisa, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope Inteligência, a média de livros lidos nos últimos três meses é de 1,85 (uma queda em relação à última edição, em 2007, cuja média era de 2,4). E o que mais chama a atenção no novo resultado é que a maioria dos brasileiros não lê um livro inteiro dentro desse período.
foto: Divulgação
Monteiro Lobato, escritor - Editoria: Caderno Dois - Foto: Divulgação
Monteiro Lobato aparece em primeiro lugar nas pesquisas de 2007 e 2011  como o escritor brasileiro mais admirado pelo público
Como critério, a pesquisa definiu como leitores apenas aqueles que leram, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses. Com isso, registrou-se que, em 2011, cerca 50% da população brasileira são de leitores, o que equivale a 88,2 milhõres de pessoas. Na pesquisa realizada em 2007, o percentual era de 55% (95,6 milhões de pessoas).

Outro aspecto que chamou a atenção referiu-se aos hábitos dos entrevistados: a maioria (85%) prefere assistir à televisão durante o tempo livre. A segunda atividade fevorita é escutar música ou rádio. A leitura (de jornais, revistas, livros e textos na internet) surge apenas na sétima posição, com apenas 25% dos entrevistados (uma queda expressiva em relação a 2007, quando esse número era de 35%).

Entre as principais barreiras para a leitura, muitos entrevistados afirmaram que leem muito devagar ou não tem paciência para ler. Perguntados sobre a razão para não ter lido mais nos últimos três meses falta de tempo e falta de interesse ou de gosto pela leitura lideram.

Coordenadora da Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, de Vitória, e mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Eugênia Magna Broseguini-Keys aponta como razões para o baixo índice de leitura o fracasso da escola como formadora de leitoes, o preço alto dos livros, a existência de poucos espaços de bibliotecas e os parcos investimentos em bibliotecas públicos e escolares (onde os acervos estão desatualizados e há poucos profissionais especializados).

Ela acrescenta que a corrupção no país é um grande entrave para o fomento da leitura, uma vez que o dinheiro que poderia ser aplicado para melhorar a qualidade da educação e investir em mais acesso aos livros e às bibliotecas acaba sendo desviado. “O livro, a leitura e a biblioteca estão no discurso político em geral, mas não na prática”, lamenta ela.

foto: Divulgação
Monteiro Lobato, escritor - Editoria: Caderno Dois - Foto: Divulgação
O best-seller “A Cabana”, do escritor William P. Young (acima),
aparece em segundo lugar, como livro mais marcante,
ficando atrás somente da Bíblia

História

O psicólogo e escritor Gerson Abarca remete à história do Brasil para explicar um problema que é crônico: “Fomos colonizados dentro de uma perspectiva exploratória e não de construção, e livro é elemento de construção. Tivemos ainda um longo período escravagista. Hoje, 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Um cenário nada favorável à leitura”.

De acordo com ele, o maior desafio para a formação de leitores é fazer a escola entender que a melhor tarefa educacional é incentivar o estudante a ler, no mínimo, dois livros por mês, tendo como base um bom projeto pedagógico. “Assim, em nove meses de ano letivo, nossas crianças poderão atingir a média de 18 livros por ano, como na França.”

Gerson lamenta, contudo, o fato de professores preferirem passar tarefas de disciplinas que não têm ajudado crianças e adolescentes tomar gosto pela leitura. “Lógico que teríamos de ter bibliotecas dinâmicas. O governo está comprando muito livro para as escolas, que estão mofando. Por isso aumentou a produção e venda de livros, por que o governo comprou mais, e não por que as pessoas se interessaram pelos livros. Precisamos levar a leitura aos pais e aos professores, que leem muito pouco. Professor bom é aquele que já leu todos os livros que indica aos alunos. Tenho a impressão que estamos brincando de fazer educação neste país.”

Segundo Eugênia, para conseguir mudar o panorama atual, é preciso investir na democratização do acesso ao livro, à leitura e à biblioteca, bem como realizar continuamente ações que favoreçam a inclusão de não leitores por meio de atividades que são realizadas nas bibliotecas públicas, a fim de promover ações permanentes para que a leitura faça parte do cotidiano das pessoas.

A pesquisadora e doutoranda em Linguagem e Educação pela USP Gabriela Rodella reforça a importância do papel da escola na formação dos leitores e, por isso mesmo, é fundamental investir com rigor na formação inicial dos professores e em cursos de formação continuada bem estruturados e sérios, que tenham como objetivo levar à reflexão, e não simplesmente “treinar” o professor. “Tornar a carreira docente atrativa é fundamental para a imagem da leitura e do estudo em nossa sociedade”, acrescenta.

Políticas

Quanto às políticas públicas e programas de fomento à leitura, o Brasil parece manter uma boa imagem no exterior. Ao menos foi a impressão que passou o vice-ministro de Educação da Colômbia, Mauricio Perfetti, na última quinta-feira, dia 19, durante a 25ª Feira Internacional do Livro de Bogotá. No encontro, ele afirmou que, ao se falar de inovação, um modelo a imitar é do Brasil. “A experiência de levar escritores às aulas é excepcional, e o tema das bibliotecas para setores rurais nos parece essencial para fomentar igualdade de oportunidades”, apontou.

Gabriela Rodella observa que as políticas de distribuição de livros didáticos e de literatura desenvolvidas pelo Ministério da Educação são extremamente bem-sucedidas, o problema, analisa, é que não basta distribuir livros: é preciso desenvolver as condições necessárias para que eles sejam efetivamente lidos. Ou seja: as condições para que práticas de leitura diversas possam ser desenvolvidas por professores e alunos.

“Em várias escolas públicas do Estado de São Paulo, por exemplo, os livros ainda são mantidos em salas fechadas, pois não há profissionais que possam trabalhar na organização e na administração de bibliotecas, consideradas, muitas vezes, ‘coisa’ dos professores de português. Dessa forma, torna-se muito difícil que os livros ocupem um espaço importante na vida dos estudantes e, em última análise, da população em geral.”

Entre as políticas públicas, Eugênia Broseguini Broseguini cita as ações do Ministério da Educação (MEC), que vem se ocupando apenas da distribuição de acervos por meio do Programa Nacional Biblioteca na Escola. “Se a maioria das escolas que recebem o acervo não possui biblioteca nem bibliotecários, como está sendo dinamizado este acervo?”, questiona, ressaltando que a ausência de bibliotecas escolares ainda é um dos maiores problemas no sistema educacional.

“De outro lado, temos a Lei 12.244, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do país até 2020. Se consideramos urgente a democratização do acesso, deveríamos ter priorizado a implantação em menor tempo. Isso me preocupa, pois deixou  brecha para os estados e municípios implantarem à revelia quando o prazo se esgotar.”

As críticas de Gerson Abarca às políticas de fomento à leitura são mais contundentes. Para ele, essas ações não existem. Para ele, o Brasil entrou em uma bolha de crescimento econômico e criou uma ilusão no povo. “Como haverá livros, se os escritores não possuem estímulo para escrever e publicar. Um governo que permite a produção de livros na China, para serem vendidos a preço de banana no Brasil, só vai dificultar a vida dos editores e da indústria do livro no país. E, pior, só vende livro ao governo quem for ‘amigo do rei’ ou tiver um bom trânsito de influências políticas. No dia em que entendermos que estamos subdesenvolvidos e reconhecermos ainda que nosso povo não foi sequer bem alfabetizado, aí sim poderemos pensar a partir da realidade e não da fantasia.”

Números
50% - A leitura está presente na vida de apenas metade da população (88,2 milhões de pessoas, em 2011). Houve uma queda de 5%, em relação a 2007, quando o país tinha 95,6 milhões de leitores.

57% - As mulheres são maioria entre o público considerado leitor pela pesquisa. Apenas 43% dos homens entrevistados são leitores. Entre os entrevistados, 25% gosta muito de ler, 37% gosta um pouco e 30% não gosta de ler.

85% - Esse é o percentual dos entrevistados pela pesquisa que prefere assistir à televisão. Em 2007, esse número era de 77%. A leitura (de jornais, revistas, livros e textos na internet) vem em sétimo lugar e registrou uma queda de 26%, em 2007, para 28% no ano passado.

64% - A maior parte dos entrevistados afirma que a leitura é uma “fonte de conhecimento para a vida”. Apenas 18% consideram ler uma atividade prazerosa, enquanto 12% dizem que ocupa muito tempo.

Bíblia
Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a Bíblia aparece em primeiro lugar na lista dos livros preferidos. Houve, no entanto, uma redução de 45% para 42% de leitores, de 2007 para 2011. Os livros didáticos vêm em segundo lugar, com 32%, e romances ocupam a terceira posição, com 31%.

Análise
O maior desafio é formar professores
A leitura é uma prática cultural. Sendo assim, é preciso aprendê-la. Não se trata de algo que se desenvolve “naturalmente”. Como grande parte de nossa população não desenvolve a prática da leitura de livros no começo de sua vida – e não se trata apenas de acesso ao objeto livro –, as novas gerações continuam crescendo sem ler. O maior desafio é, certamente, a formação de professores. Sem acesso à prática da leitura em casa, a maioria dos alunos da rede pública depende do engajamento de seus professores para que se formem leitores. A questão, no entanto, é que muitas vezes os próprios professores são leitores, digamos, rarefeitos. Eles não desenvolvem práticas de leitura que vão além das que necessitam para exercer a profissão de docente, o que tem consequências negativas na formação dos estudantes.

Gabriela Rodella, pesquisadora e doutoranda em Linguagem e Educação pela USP
Fonte: Gazeta online

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Você sabe (mesmo) ler?

30/04/12 por Roberta Fraga


Foto: Casey David

A pergunta parece simplória ou sarcástica, posto que, ao responder à pergunta formulada no título, já ficou claro que você sabe ler; ou, pelo menos, acha que sabe. Há algum tempo eu vinha me questionando se sabia ler. Eu lia, compreendia, interpretava, mas sentia que faltava algo. Achava a minha leitura pouco produtiva. E fui pesquisar…

A primeira observação que faço, a partir do que estou vendo:
“Leitura não está relacionada à rapidez ou quantidade, mas à qualidade”.
Pesquisando, descobri o livro “A arte de ler” e nele fiquei absolutamente admirada de como ler é um processo ativo e de porque não nos ensinam o que este livro mostra, na escola, muito menos em nível acadêmico. Em outras palavras: o livro não ensina a ler, mas como ler.

Acredito que alguns dos leitores tiveram a oportunidade de ler este livro. Mas, acredito, também, que a grande maioria, assim como eu, nunca teve a oportunidade deste acesso. E é com estes que divido a descoberta. É de suma importância dividir essa minha aventura com os leitores do Livros e Afins e, por isso, farei postagens que resumem as minhas impressões e o conteúdo do livro, incentivando-os e a ler mais e a ler melhor.

Vamos às premissas:

Principais desculpas que daqueles que leem pouco

  • Pintura – fotografia, a informação apreendida pela imagem;
  • Leitura – informação por meio das mídias de massa, sendo mais fácil receber a iformação que a processar ou buscar;
  • Desculpa da falta de tempo – o grande problema do homem moderno.
A Leitura é ativa – toda e qualquer espécie de leitura é uma atividade. Leitura completamente passiva é impraticável. Não se pode ler com os olhos imobilizados e a mente adormecida. Quanto mais ativa a leitura, melhor. A relação escritor x leitor estabelece uma cooperação no sentido de gerar uma comunicação.

O que é uma leitura ativa?

Maior ou menor grau de apreensão do que o código escrito comunica:
  1. Identificar se a nossa mente se alinha à mente do texto, caso contrário, momento em que não compreendemos tudo, não ocorre esse alinhamento;
  2. O leitor deve se desconformar com o desconhecimento;
  3. As técnicas que envolvem essa maior ou menor aptidão constituem o aprimoramento da leitura;
  4. Ler para se informar é diferente de ler para alcançar entendimento.

Qual a meta a ser alcançada a partir da leitura?

Palavras que se deve ter em mente: recreação, informação, entendimento.
  1. Leitura informativa;
  2. Leitura por prazer;
  3. Leitura extensiva;
  4. Aprender por instrução x aprender por descoberta;
  5. Estar informado x estar esclarecido. “Só nos ilustramos quando, além de sabermos o que um autor diz, sabemos o que ele tem em mira e porque o diz”;
  6. Ler muito é diferente de ler bem;
  7. Descoberta com ou sem ajuda: o processo de aprender por meio de pesquisa, investigação ou reflexão, sem ser ensinado;
  8. Pensar é apenas uma parte da atividade de aprender;
  9. A arte da descoberta desajudada abrange: acuidade de observação; memória pronta; amplitude de imaginação; intelecto afeito à análise e reflexão.

Professores presentes versus professores ausentes

Um livro é como a natureza ou o mundo – um professor ausente. Se temos dúvida, perguntamos ao professor presente; se estamos diante de um livro, temos que responder sozinhos. Ir além do que o livro propõe é o segundo desafio, o primeiro é ir até o livro.

Níveis de leitura

Há quatro níveis de leitura:
  1. Leitura elementar;
  2. Leitura inspecional;
  3. Leitura analítica;
  4. Leitura sinóptica.
Dentro de cada um desses níveis, observa-se os respectivos estágios para seguir e se tornar um bom leitor. Oportunamente, falarei de cada um deles isoladamente para ajudar os leitores do Livros a lerem mais e cada vez melhor.

Fonte:

ADLER, Mortimer Jerome; DOREN, Charles Van. A arte de ler. [How to Read a Book.] Trad. José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: AGIR, 1974. 400p.

O livro que estou lendo é de 1902, com primeira publicação em 1940. A tradução que tenho em mãos é de 1974. Fiz questão de ler essa versão para observar quão atual (ou não) ela seria, contudo, você encontra essas versões, nos dias de hoje, como How to read a book (em inglês) e Como ler um livro (versão em Português).