quinta-feira, 17 de maio de 2012

Do que as crianças gostam de ler de acordo com a idade

09/05/12 por Roberta Fraga  

Quando vocês escolhe ou ganha um livro infantil, pode pensar: “puxa, mas eles só falam em fadas, ou princesas, ou aventuras”… É um pensamento lógico, mas não pode ser tomado como uma crítica. O fato é que cada idade, ou cada faixa etária, funciona mais ou menos como um marco de temas. Cada idade, resguardadas as devidas proporções de vivência e maturidade intelectual, tem suas áreas de interesse. Você, talvez, não saiba disso, mas editoras, escritores e ilustradores devem ter isso na ponta do lápis e na ponta das ideias.


O exemplo de hoje para falar do tema é “Você sabe tudo sobre dinossauros?”, de Lila Prap com tradução de Elisa Zametti. O livro é um exemplo para o encaixe diante dos temas de interesses das crianças. E o teste para os leitores é encaixá-lo, de acordo com as proposições de temas abaixo.
Assim vamos ao TEMAS

Temas relacionados a:

6 a 8 anos

  • extensão da experiência da vida;
  • humor.

Autores brasileiro que propõe o humor e a paródia como princípios inseparáveis:

  • Eva Furnari;
  • Ziraldo;
  • Ângela Lago;
  • Ricardo Azevedo;
  • Sylvia Osthof.

8 a 10 anos

  • livros ligados à experiência de vida da criança (maior autonomia, ela começa a integrar outros grupos);
  • preferência por ação
  • natureza ganham interesse;
  • como funcionam as cosias.

10 a 12 anos

  • aventura, humor, mundo dos animais, mistério;
  • romance de aventura, relato histórico, relato mitológico, relato heroico (sobre o princípio da vida dos povos, viagens).

A partir dos 13 anos

  • problemática social, confronto entre grupos étnicos ou sociais diferentes, guerras, violência, situações de marginalidade, abandono;
  • literatura romântica – heróis;
  • Romance policial/mistério;
  • Histórias de terror;
  • Realismo familiar;
  • Realismo social.

Tendências atuais (considere-se que o livro é de 2000):

Fantasia como tendência

  • Conto maravilhoso – em que os animais falam;
  • Narrativa fantástica;
  •  “Nos sense” – caracterizado por jogos de linguagens, paradoxos, hiper-realismo, surrealismo;
  • Ficção científica – atencipação  científica, robótica, cibernética, viagens espaciais.

Realidade como tendência

  • Romances de viagens e aventuras;
  • Romances históricos;
  • Romance de humor.

Tendências transversais (perpendiculares ou oblíquos aos acima expostos):

  • Educação ambiental;
  • Paz;
  • Saúde;
  • Consumo;
  • Combate à discriminação sexual;
  • Direitos humanos;
  • Solidariedade;
  • Democracia.


Agora você tem um bom norte para dar um livro para uma criança, ou você, aspirante a escritor, uma boa ideia de onde começar sua história.
E então, e o livro sobre dinossauros, onde se encaixa?

Fontes

COSTA, Marta Morais da, Metodologia do ensino da literatura infantil, Curitiba: Ibpex, 2007.
CUNHA, Maria Antonieta Antunes, Literatura infantil Teoria e Prática, São Paulo: Editora Ática, 18ed, 1999.
SOBRINO, Javier García (org.), et. al. A criança e o livro: A aventura de ler, Portugal: Porto Editora, 2000.

Fonte: Livros e Afins

Livros: um Brasil de poucos leitores

23/04/2012
Especialistas analisam o desafio de incentivar e leitura em país onde a maior parte da população prefere assistir à televisão nas horas livres


O resultado da última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil trouxe uma triste notícia: a de que os brasileiros estão lendo menos. Muito embora o mercado editorial tenha registrado, em 2010, um crescimento de 8,3% nas vendas de livros, entre todos os entrevistados da pesquisa, realizada pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ibope Inteligência, a média de livros lidos nos últimos três meses é de 1,85 (uma queda em relação à última edição, em 2007, cuja média era de 2,4). E o que mais chama a atenção no novo resultado é que a maioria dos brasileiros não lê um livro inteiro dentro desse período.
foto: Divulgação
Monteiro Lobato, escritor - Editoria: Caderno Dois - Foto: Divulgação
Monteiro Lobato aparece em primeiro lugar nas pesquisas de 2007 e 2011  como o escritor brasileiro mais admirado pelo público
Como critério, a pesquisa definiu como leitores apenas aqueles que leram, inteiro ou em partes, pelo menos um livro nos últimos três meses. Com isso, registrou-se que, em 2011, cerca 50% da população brasileira são de leitores, o que equivale a 88,2 milhõres de pessoas. Na pesquisa realizada em 2007, o percentual era de 55% (95,6 milhões de pessoas).

Outro aspecto que chamou a atenção referiu-se aos hábitos dos entrevistados: a maioria (85%) prefere assistir à televisão durante o tempo livre. A segunda atividade fevorita é escutar música ou rádio. A leitura (de jornais, revistas, livros e textos na internet) surge apenas na sétima posição, com apenas 25% dos entrevistados (uma queda expressiva em relação a 2007, quando esse número era de 35%).

Entre as principais barreiras para a leitura, muitos entrevistados afirmaram que leem muito devagar ou não tem paciência para ler. Perguntados sobre a razão para não ter lido mais nos últimos três meses falta de tempo e falta de interesse ou de gosto pela leitura lideram.

Coordenadora da Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim, de Vitória, e mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Eugênia Magna Broseguini-Keys aponta como razões para o baixo índice de leitura o fracasso da escola como formadora de leitoes, o preço alto dos livros, a existência de poucos espaços de bibliotecas e os parcos investimentos em bibliotecas públicos e escolares (onde os acervos estão desatualizados e há poucos profissionais especializados).

Ela acrescenta que a corrupção no país é um grande entrave para o fomento da leitura, uma vez que o dinheiro que poderia ser aplicado para melhorar a qualidade da educação e investir em mais acesso aos livros e às bibliotecas acaba sendo desviado. “O livro, a leitura e a biblioteca estão no discurso político em geral, mas não na prática”, lamenta ela.

foto: Divulgação
Monteiro Lobato, escritor - Editoria: Caderno Dois - Foto: Divulgação
O best-seller “A Cabana”, do escritor William P. Young (acima),
aparece em segundo lugar, como livro mais marcante,
ficando atrás somente da Bíblia

História

O psicólogo e escritor Gerson Abarca remete à história do Brasil para explicar um problema que é crônico: “Fomos colonizados dentro de uma perspectiva exploratória e não de construção, e livro é elemento de construção. Tivemos ainda um longo período escravagista. Hoje, 70% dos brasileiros são analfabetos funcionais. Um cenário nada favorável à leitura”.

De acordo com ele, o maior desafio para a formação de leitores é fazer a escola entender que a melhor tarefa educacional é incentivar o estudante a ler, no mínimo, dois livros por mês, tendo como base um bom projeto pedagógico. “Assim, em nove meses de ano letivo, nossas crianças poderão atingir a média de 18 livros por ano, como na França.”

Gerson lamenta, contudo, o fato de professores preferirem passar tarefas de disciplinas que não têm ajudado crianças e adolescentes tomar gosto pela leitura. “Lógico que teríamos de ter bibliotecas dinâmicas. O governo está comprando muito livro para as escolas, que estão mofando. Por isso aumentou a produção e venda de livros, por que o governo comprou mais, e não por que as pessoas se interessaram pelos livros. Precisamos levar a leitura aos pais e aos professores, que leem muito pouco. Professor bom é aquele que já leu todos os livros que indica aos alunos. Tenho a impressão que estamos brincando de fazer educação neste país.”

Segundo Eugênia, para conseguir mudar o panorama atual, é preciso investir na democratização do acesso ao livro, à leitura e à biblioteca, bem como realizar continuamente ações que favoreçam a inclusão de não leitores por meio de atividades que são realizadas nas bibliotecas públicas, a fim de promover ações permanentes para que a leitura faça parte do cotidiano das pessoas.

A pesquisadora e doutoranda em Linguagem e Educação pela USP Gabriela Rodella reforça a importância do papel da escola na formação dos leitores e, por isso mesmo, é fundamental investir com rigor na formação inicial dos professores e em cursos de formação continuada bem estruturados e sérios, que tenham como objetivo levar à reflexão, e não simplesmente “treinar” o professor. “Tornar a carreira docente atrativa é fundamental para a imagem da leitura e do estudo em nossa sociedade”, acrescenta.

Políticas

Quanto às políticas públicas e programas de fomento à leitura, o Brasil parece manter uma boa imagem no exterior. Ao menos foi a impressão que passou o vice-ministro de Educação da Colômbia, Mauricio Perfetti, na última quinta-feira, dia 19, durante a 25ª Feira Internacional do Livro de Bogotá. No encontro, ele afirmou que, ao se falar de inovação, um modelo a imitar é do Brasil. “A experiência de levar escritores às aulas é excepcional, e o tema das bibliotecas para setores rurais nos parece essencial para fomentar igualdade de oportunidades”, apontou.

Gabriela Rodella observa que as políticas de distribuição de livros didáticos e de literatura desenvolvidas pelo Ministério da Educação são extremamente bem-sucedidas, o problema, analisa, é que não basta distribuir livros: é preciso desenvolver as condições necessárias para que eles sejam efetivamente lidos. Ou seja: as condições para que práticas de leitura diversas possam ser desenvolvidas por professores e alunos.

“Em várias escolas públicas do Estado de São Paulo, por exemplo, os livros ainda são mantidos em salas fechadas, pois não há profissionais que possam trabalhar na organização e na administração de bibliotecas, consideradas, muitas vezes, ‘coisa’ dos professores de português. Dessa forma, torna-se muito difícil que os livros ocupem um espaço importante na vida dos estudantes e, em última análise, da população em geral.”

Entre as políticas públicas, Eugênia Broseguini Broseguini cita as ações do Ministério da Educação (MEC), que vem se ocupando apenas da distribuição de acervos por meio do Programa Nacional Biblioteca na Escola. “Se a maioria das escolas que recebem o acervo não possui biblioteca nem bibliotecários, como está sendo dinamizado este acervo?”, questiona, ressaltando que a ausência de bibliotecas escolares ainda é um dos maiores problemas no sistema educacional.

“De outro lado, temos a Lei 12.244, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do país até 2020. Se consideramos urgente a democratização do acesso, deveríamos ter priorizado a implantação em menor tempo. Isso me preocupa, pois deixou  brecha para os estados e municípios implantarem à revelia quando o prazo se esgotar.”

As críticas de Gerson Abarca às políticas de fomento à leitura são mais contundentes. Para ele, essas ações não existem. Para ele, o Brasil entrou em uma bolha de crescimento econômico e criou uma ilusão no povo. “Como haverá livros, se os escritores não possuem estímulo para escrever e publicar. Um governo que permite a produção de livros na China, para serem vendidos a preço de banana no Brasil, só vai dificultar a vida dos editores e da indústria do livro no país. E, pior, só vende livro ao governo quem for ‘amigo do rei’ ou tiver um bom trânsito de influências políticas. No dia em que entendermos que estamos subdesenvolvidos e reconhecermos ainda que nosso povo não foi sequer bem alfabetizado, aí sim poderemos pensar a partir da realidade e não da fantasia.”

Números
50% - A leitura está presente na vida de apenas metade da população (88,2 milhões de pessoas, em 2011). Houve uma queda de 5%, em relação a 2007, quando o país tinha 95,6 milhões de leitores.

57% - As mulheres são maioria entre o público considerado leitor pela pesquisa. Apenas 43% dos homens entrevistados são leitores. Entre os entrevistados, 25% gosta muito de ler, 37% gosta um pouco e 30% não gosta de ler.

85% - Esse é o percentual dos entrevistados pela pesquisa que prefere assistir à televisão. Em 2007, esse número era de 77%. A leitura (de jornais, revistas, livros e textos na internet) vem em sétimo lugar e registrou uma queda de 26%, em 2007, para 28% no ano passado.

64% - A maior parte dos entrevistados afirma que a leitura é uma “fonte de conhecimento para a vida”. Apenas 18% consideram ler uma atividade prazerosa, enquanto 12% dizem que ocupa muito tempo.

Bíblia
Na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, a Bíblia aparece em primeiro lugar na lista dos livros preferidos. Houve, no entanto, uma redução de 45% para 42% de leitores, de 2007 para 2011. Os livros didáticos vêm em segundo lugar, com 32%, e romances ocupam a terceira posição, com 31%.

Análise
O maior desafio é formar professores
A leitura é uma prática cultural. Sendo assim, é preciso aprendê-la. Não se trata de algo que se desenvolve “naturalmente”. Como grande parte de nossa população não desenvolve a prática da leitura de livros no começo de sua vida – e não se trata apenas de acesso ao objeto livro –, as novas gerações continuam crescendo sem ler. O maior desafio é, certamente, a formação de professores. Sem acesso à prática da leitura em casa, a maioria dos alunos da rede pública depende do engajamento de seus professores para que se formem leitores. A questão, no entanto, é que muitas vezes os próprios professores são leitores, digamos, rarefeitos. Eles não desenvolvem práticas de leitura que vão além das que necessitam para exercer a profissão de docente, o que tem consequências negativas na formação dos estudantes.

Gabriela Rodella, pesquisadora e doutoranda em Linguagem e Educação pela USP
Fonte: Gazeta online

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Você sabe (mesmo) ler?

30/04/12 por Roberta Fraga


Foto: Casey David

A pergunta parece simplória ou sarcástica, posto que, ao responder à pergunta formulada no título, já ficou claro que você sabe ler; ou, pelo menos, acha que sabe. Há algum tempo eu vinha me questionando se sabia ler. Eu lia, compreendia, interpretava, mas sentia que faltava algo. Achava a minha leitura pouco produtiva. E fui pesquisar…

A primeira observação que faço, a partir do que estou vendo:
“Leitura não está relacionada à rapidez ou quantidade, mas à qualidade”.
Pesquisando, descobri o livro “A arte de ler” e nele fiquei absolutamente admirada de como ler é um processo ativo e de porque não nos ensinam o que este livro mostra, na escola, muito menos em nível acadêmico. Em outras palavras: o livro não ensina a ler, mas como ler.

Acredito que alguns dos leitores tiveram a oportunidade de ler este livro. Mas, acredito, também, que a grande maioria, assim como eu, nunca teve a oportunidade deste acesso. E é com estes que divido a descoberta. É de suma importância dividir essa minha aventura com os leitores do Livros e Afins e, por isso, farei postagens que resumem as minhas impressões e o conteúdo do livro, incentivando-os e a ler mais e a ler melhor.

Vamos às premissas:

Principais desculpas que daqueles que leem pouco

  • Pintura – fotografia, a informação apreendida pela imagem;
  • Leitura – informação por meio das mídias de massa, sendo mais fácil receber a iformação que a processar ou buscar;
  • Desculpa da falta de tempo – o grande problema do homem moderno.
A Leitura é ativa – toda e qualquer espécie de leitura é uma atividade. Leitura completamente passiva é impraticável. Não se pode ler com os olhos imobilizados e a mente adormecida. Quanto mais ativa a leitura, melhor. A relação escritor x leitor estabelece uma cooperação no sentido de gerar uma comunicação.

O que é uma leitura ativa?

Maior ou menor grau de apreensão do que o código escrito comunica:
  1. Identificar se a nossa mente se alinha à mente do texto, caso contrário, momento em que não compreendemos tudo, não ocorre esse alinhamento;
  2. O leitor deve se desconformar com o desconhecimento;
  3. As técnicas que envolvem essa maior ou menor aptidão constituem o aprimoramento da leitura;
  4. Ler para se informar é diferente de ler para alcançar entendimento.

Qual a meta a ser alcançada a partir da leitura?

Palavras que se deve ter em mente: recreação, informação, entendimento.
  1. Leitura informativa;
  2. Leitura por prazer;
  3. Leitura extensiva;
  4. Aprender por instrução x aprender por descoberta;
  5. Estar informado x estar esclarecido. “Só nos ilustramos quando, além de sabermos o que um autor diz, sabemos o que ele tem em mira e porque o diz”;
  6. Ler muito é diferente de ler bem;
  7. Descoberta com ou sem ajuda: o processo de aprender por meio de pesquisa, investigação ou reflexão, sem ser ensinado;
  8. Pensar é apenas uma parte da atividade de aprender;
  9. A arte da descoberta desajudada abrange: acuidade de observação; memória pronta; amplitude de imaginação; intelecto afeito à análise e reflexão.

Professores presentes versus professores ausentes

Um livro é como a natureza ou o mundo – um professor ausente. Se temos dúvida, perguntamos ao professor presente; se estamos diante de um livro, temos que responder sozinhos. Ir além do que o livro propõe é o segundo desafio, o primeiro é ir até o livro.

Níveis de leitura

Há quatro níveis de leitura:
  1. Leitura elementar;
  2. Leitura inspecional;
  3. Leitura analítica;
  4. Leitura sinóptica.
Dentro de cada um desses níveis, observa-se os respectivos estágios para seguir e se tornar um bom leitor. Oportunamente, falarei de cada um deles isoladamente para ajudar os leitores do Livros a lerem mais e cada vez melhor.

Fonte:

ADLER, Mortimer Jerome; DOREN, Charles Van. A arte de ler. [How to Read a Book.] Trad. José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: AGIR, 1974. 400p.

O livro que estou lendo é de 1902, com primeira publicação em 1940. A tradução que tenho em mãos é de 1974. Fiz questão de ler essa versão para observar quão atual (ou não) ela seria, contudo, você encontra essas versões, nos dias de hoje, como How to read a book (em inglês) e Como ler um livro (versão em Português).

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A relação entre leitura e memória

Iván Izquierdo


A memória é fortemente estimulada pelo uso, como tudo o que depende de sinapses (conexões nervosas), e a atividade que mais a estimula é a leitura. Ela requer o emprego simultâneo e em rápida sequência de memórias visuais e de linguagens, estimula paralelamente as memórias visuais (quando pensamos em uma árvore, “vemos” uma árvore), as vias dos sentimentos e emoções: não existem, no ser humano, memórias “não emocionais”; em todos os momentos de nossa vida, estamos sob a influência de alguma emoção, grande ou pequena, e de algum estado de ânimo. Toda memória, quando é criada ou evocada, requer a ativação das vias moduladoras, que dependem das emoções e dos sentimentos. 

Não há nenhuma atividade nervosa que exija tanto em tão pouco tempo do cérebro – e particularmente da memória – como a leitura. De fato, ela inclui memória visual, verbal e de imagens, entre outras. Estudos demonstram que as pessoas que mais leem costumam conservar por mais tempo sua memória sadia. Atores, professores e escritores costumam estar entre as profissões em que mais se lê. Todos os demais
“exercícios para a memória” recomendados pelas revistas e por outros órgãos leigos (palavras cruzadas, movimentos repetitivos, jogos, etc.) são muito inferiores à leitura para realmente exercitar a memória. Vários estudos também indicam que a leitura de música é tão efetiva para preservar a memória como a de palavras.

Para os deficientes visuais, a alternativa mais válida é conseguir que outros leiam para eles. Isso gerou grandes escritores, como Borges e, antes dele, Homero e Milton. Os três foram escritores geniais, mas cegos, que se “alimentavam” do que seus seres queridos liam para eles. Tal situação também ocorreu com grandes músicos, como Ray Charles, Joaquín Rodrigo, Stevie Wonder ou Andrea Boccelli, os quais alimentam nossa alma.

Sem leitura não se desenvolve a memória, e sem memória não é possível aceder ao mundo do conhecimento. Nesse mundo, existem os que cultivam e detêm conhecimentos, produzem ciência e tecnologia, criam, decidem e impõem – às vezes, também invadem e castigam. Esse é o chamado Primeiro Mundo. Os do Terceiro Mundo obedecem, comunicam-se, transportam, divertem-se, até curam ou matam com procedimentos, objetos, remédios ou armas produzidas pelo Primeiro Mundo. Para ser parte do Primeiro Mundo, é preciso, em primeiro lugar, adquirir e gerar conhecimento, o que só se consegue cultivando a memória. Para melhorar a memória, é preciso ler. Tal relação é simples.

Há um aspecto dramático para os que não têm conhecimentos: se tentamos explicar-lhes esse fato, simplesmente não entendem. Resulta-lhes fácil compreender quando faltam alimentos, mas não quando lhes falta saber como e por quê. Pensam que progrediram porque asfaltaram sua rua, não porque houve planejadores, engenheiros e operários especializados em quantidade suficiente para executar essa ação. Não entendem que, para produzir esses profissionais em quantidade suficiente, são necessárias boas escolas e faculdades, bem-equipadas, por meio de um processo que leva longos anos.

Falta esse entendimento à maioria dos brasileiros. O crescimento econômico, sem ser sustentado pelo conhecimento, dura pouco e acaba nas mãos daqueles que o detém. De pouco adianta que este ou os sucessivos governos invistam em ciência se os que deveriam gerá-la e dela usufruir não sabem criar, porque sua memória não é suficientemente estimulada... porque ler “é chato”.

A ajuda que vem do papel

Matéria publicada em 23/04/2012

E8-9 01 PJ
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para 
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para aliviar o sofrimento dos pequenos, o mercado editorial está investindo agora em livros de autoajuda infantil. Indicados para crianças a partir de 2 anos de idade, os livros do gênero se propõem a ajudar as crianças por meio de orientações sobre como lidar com problemas emocionais e de relacionamento.

Os autores buscam tratar de assuntos complexos, como a perda de um ente querido, a separação dos pais, a timidez, entre outros, de uma forma simples e atrativa. O gênero literário chega agora às salas de aula e causa polêmica.

Para a diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Neide Aquino Noffs, nada deveria superar o convívio e o apoio da família. “A melhor autoajuda infantil é o relacionamento interpessoal saudável. Deve existir uma relação familiar e escolar forte porque a criança está num mundo de 'faz de conta' e é muito complexo transformar essa fantasia em realidade”, ressalta ela.

A escritora e professora da UFG (Universidade Federal de Goiás), Diane Valdez também não vê com bons olhos esse tipo de literatura. Ela analisou a coleção de livros Se Liga em Você, assinada pelo Tio Gaspa que, na verdade, se chama Luiz Gasparetto.

Valdez diz que não gostou do que leu. “O erro começa já na proposta de identificar o autor como um tio. Ele não é tio, ele é autor. Nos livros, ele cria um personagem e diz coisas como 'você é seu melhor amigo' e chega ao ponto de afirmar que 'você não precisa de ninguém'. Na minha opinião, isso é pavoroso!”, considera.

Já Roberta Gazzarolli, coordenadora da Vida e Consciência, editora que publica os títulos do Tio Gaspa, acredita que a mensagem do livro foi mal interpretada pela escritora.
Para ela, o leitor tem que entender a metodologia de Gasparetto que, além de psicólogo, escritor e locutor, também é médium e trabalha com muitas questões ligadas à espiritualidade.
“É tudo voltado para o ser, mas não de modo egoísta, não é isso! É trabalhar primeiro você, ser amigo de você mesmo. Aí você consegue entender melhor os teus problemas e o nível de depressão é muito menor porque você sabe quem você é! Isso começa por você, ninguém pode fazer por você e é essa mensagem que o autor tenta passar. Não é que você não precisa de ninguém”, defende.

Para Roberta, as crianças de hoje tê não só a capacidade de digerir a informação presente nos livros de autoajuda infantil, mas também precisam desse conteúdo.

“Um adulto depressivo começa na infância. Hoje temos crianças também depressivas e precisamos aprender a lidar com essas questões desde cedo. Essa geração de hoje é mais consciente, mais evoluída. As crianças de 6 anos hoje são completamente diferentes das de 50 anos atrás. Hoje elas estão recebendo muito mais comunicação externa e processando isso muito mais rapidamente”, argumenta ela.

A coordenadora destaca também que os livros da coleção não são “educacionais”, mas que isso não impede que eles sejam trabalhados em sala de aula. “Eu acho isso importante porque desde cedo você aprende dentro da escola. O pai vê a escola e o professor como referências e se esse professor consegue ensinar esse tipo de conteúdo, ele está fazendo o seu papel de educador, pois a criança vai crescer bem orientada”, ressalta.
Participação familiar
 
Ainda assim, a escritora Diane Valdez se mostra desanimada com o crescimento nas vendas das publicações do gênero. Como não tem como fugir do boom editorial, o importante, para ela, é a presença do adulto na seleção dessas leituras.

A professora de Literatura do Colégio Anglo de Campinas, Claudine Faleiro Gill, concorda que a escola tem um papel fundamental nessa questão. “Não adianta colocar o livro de autoajuda nas mãos da criança e falar: 'lê e aprende a viver'; tem que haver mediação. E a escola tem um papel importante, especialmente porque há um excesso de lançamentos nessa área”, esclarece Claudine.

A professora alerta também para o fato de que os pais têm imputado a esses livros uma responsabilidade que é deles. “Tem pais que delegam aos livros de autoajuda o papel de conversar com a criança, mas nós vemos isso como um problema, pois sentimos nessa carência de discutir temas polêmicos, que elas têm uma liberdade com os professores da escola que não encontram em casa”.

Claudine ministra aulas para turmas do 6° ao 8° ano do Ensino Fundamental e tem inserido alguns textos de autoajuda em sua disciplina. Para ela, a literatura não tem a função de educar e ela não tem efeito imediato. “Ninguém aprende na primeira lição, é a vivência que ensina. Mas o que foi lido fica no inconsciente da criança e, com o tempo, ela vai incorporando isso no dia a dia”, defende.

Foi assim com a aluna do 6° ano, Mariana Garcia Lacerda, 10. Ela gosta de todo tipo de literatura, mas afirma que aprendeu a se relacionar melhor em casa e na escola a partir do momento em que começou a ler os livros de autoajuda. “Eu aprendi com ele (o livro) que nós não podemos mandar nas pessoas; elas não gostam disso”, explica.

Entrevista
O sofrimento é um bom professor
Para Yvanna Samert, psicóloga clínica da UnB (Universidade de Brasília), os livros de autoajuda somam no desenvolvimento emocional da criança, mas eles devem ser adotados como um recurso complementar, pois o sofrimento está presente em todas as fases da vida e, por isso, não deve ser eliminado, mas apreendido
Qual o papel do sofrimento na infância?
O sofrimento faz parte da vida, não tem como evitar. É ele que nos faz querer avançar, que nos ensina a resolver os problemas, ter motivação para seguir em frente. Ele é uma coisa necessária que faz crianças e adultos evoluírem como pessoas.
Muitos pais e escolas têm adotado livros de autoajuda infantil para tentar amenizar o sofrimento dos pequenos. Para a senhora, essa é uma alternativa válida?
São recursos úteis para trabalhar questões importantes para o desenvolvimento emocional da criança. É relevante como forma de ensinar a criança a lidar com os problemas do dia a dia, com as próprias emoções, mas ela sozinha com o livro não produz tão bem quanto quando está com o adulto que conversa sobre aquilo. Mais importante do que o conteúdo do livro é a forma como ele é utilizado. Então ele não pode ser considerado um recurso isolado, tem que ser associado a muitos outros para favorecer o desenvolvimento da criança.
Antes a literatura, através de metáforas, trabalhava diversas questões emocionais e até morais em sala de aula. Agora, muitas escolas tem inserido na disciplina de literatura os livros de autoajuda que trazem um outro tipo de linguagem, mais simples e direta. Essa mudança é favorável?
Depende muito do caso. Não dá para substituir a psicoterapia pelos livros de autoajuda nem para as crianças nem para os adultos. Os livros sozinhos não trazem o benefício que eles podem trazer sem o olhar do pedagogo. Acho que mesmo essas crianças que não têm nenhum problema emocional diagnosticado podem se beneficiar desse conhecimento. Eu não acho que seja prudente retirar um livro de literatura convencional e substituir por outro de autoajuda. Os livros de autoajuda devem somar e não subtrair.
E de que forma podem somar?
Eles podem somar em situações onde a escola ou os responsáveis pelo aluno identifiquem que algumas crianças estão com dificuldades. Acredito que esses livros trazem conhecimento que somam com o tradicional e por isso acho que podem somar no planejamento pedagógico da escola.
Como a família e a escola podem ajudar a criança a superar o sofrimento?
Elas devem lidar com a situação com todo o respeito que a criança merece. Não seria correto tentar eliminar todo o sofrimento da criança, embora essa seja uma estratégia que vem acontecendo. Hoje ninguém quer mais sofrer; muitos querem tomar remédio ou fazer cirurgia para parar de sofrer, mas isso não vai acontecer porque o sofrimento faz parte da vida.
Como fazer isso na prática?
Nós temos que fornecer apoio para a criança. Temos que explicar para ela o que está acontecendo, conversar sobre quanto tempo isso vai durar, como isso vai passar e o que se aprende a partir desse sofrimento, já que o sofrimento, em si, é impossível de eliminar. O único jeito disso acontecer é morrendo e muitas pessoas acreditam que essa é a saída e por isso buscam o suicídio. Nós não podemos ensinar isso para a criança; temos que ensinar que o sofrimento existe e que, a partir dele, nós aprendemos outras coisas. Então o respeito à dor e ao sofrimento da criança passa a ser um aprendizado diante do sofrimento. Para mim, essa é a maneira mais adequada da escola e do pais lidarem com o sofrimento delas.
E quando é preciso procurar a psicoterapia?
Isso pode ser feito preventivamente, antes de uma coisa mais grave acontecer. Como, por exemplo, quando os pais percebem que vão se separar ou quando tem alguém com alguma doença grave na família. A busca pela psicoterapia vai depender muito da capacidade dos pais e da escola em serem sensíveis às necessidades da criança. Algumas crianças lidam muito bem com esses acontecimentos em suas vidas e não tem grandes mudanças comportamentais. Nesses casos, onde não tem grandes prejuízos observados na vida da criança, não há necessidade de psicoterapia. Mas existem muitos outros casos em que a família fica tão desestabilizada que não consegue dar atenção às necessidades da criança e é nessa hora que a psicoterapia pode ajudar orientando a família, a escola e dando o apoio necessário à própria criança.
Fonte: Suplemento Escola/ Tribuna do Planalto -Thaís Lobo Estagiária convênio Tribuna/PUC-GO