Matéria publicada em 23/04/2012
O sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e angústias. Mas para
O
sofrimento é algo universal. Até mesmo as crianças passam por dores e
angústias. Mas para aliviar o sofrimento dos pequenos, o mercado
editorial está investindo agora em livros de autoajuda infantil.
Indicados para crianças a partir de 2 anos de idade, os livros do gênero
se propõem a ajudar as crianças por meio de orientações sobre como
lidar com problemas emocionais e de relacionamento.
Os autores buscam tratar de assuntos complexos, como a perda de um ente
querido, a separação dos pais, a timidez, entre outros, de uma forma
simples e atrativa. O gênero literário chega agora às salas de aula e
causa polêmica.
Para a diretora da Faculdade de Educação da PUC-SP, Neide Aquino Noffs,
nada deveria superar o convívio e o apoio da família. “A melhor
autoajuda infantil é o relacionamento interpessoal saudável. Deve
existir uma relação familiar e escolar forte porque a criança está num
mundo de 'faz de conta' e é muito complexo transformar essa fantasia em
realidade”, ressalta ela.
A escritora e professora da UFG (Universidade Federal de Goiás), Diane
Valdez também não vê com bons olhos esse tipo de literatura. Ela
analisou a coleção de livros Se Liga em Você, assinada pelo Tio Gaspa
que, na verdade, se chama Luiz Gasparetto.
Valdez diz que não gostou do que leu. “O erro começa já na proposta de
identificar o autor como um tio. Ele não é tio, ele é autor. Nos livros,
ele cria um personagem e diz coisas como 'você é seu melhor amigo' e
chega ao ponto de afirmar que 'você não precisa de ninguém'. Na minha
opinião, isso é pavoroso!”, considera.
Já Roberta Gazzarolli, coordenadora da Vida e Consciência, editora que
publica os títulos do Tio Gaspa, acredita que a mensagem do livro foi
mal interpretada pela escritora.
Para ela, o leitor tem que entender a metodologia de Gasparetto que,
além de psicólogo, escritor e locutor, também é médium e trabalha com
muitas questões ligadas à espiritualidade.
“É tudo voltado para o ser, mas não de modo egoísta, não é isso! É
trabalhar primeiro você, ser amigo de você mesmo. Aí você consegue
entender melhor os teus problemas e o nível de depressão é muito menor
porque você sabe quem você é! Isso começa por você, ninguém pode fazer
por você e é essa mensagem que o autor tenta passar. Não é que você não
precisa de ninguém”, defende.
Para Roberta, as crianças de hoje tê não só a capacidade de digerir a
informação presente nos livros de autoajuda infantil, mas também
precisam desse conteúdo.
“Um adulto depressivo começa na infância. Hoje temos crianças também
depressivas e precisamos aprender a lidar com essas questões desde cedo.
Essa geração de hoje é mais consciente, mais evoluída. As crianças de 6
anos hoje são completamente diferentes das de 50 anos atrás. Hoje elas
estão recebendo muito mais comunicação externa e processando isso muito
mais rapidamente”, argumenta ela.
A coordenadora destaca também que os livros da coleção não são
“educacionais”, mas que isso não impede que eles sejam trabalhados em
sala de aula. “Eu acho isso importante porque desde cedo você aprende
dentro da escola. O pai vê a escola e o professor como referências e se
esse professor consegue ensinar esse tipo de conteúdo, ele está fazendo o
seu papel de educador, pois a criança vai crescer bem orientada”,
ressalta.
Participação familiar
Ainda assim, a escritora Diane Valdez se mostra desanimada com o
crescimento nas vendas das publicações do gênero. Como não tem como
fugir do boom editorial, o importante, para ela, é a presença do adulto
na seleção dessas leituras.
A professora de Literatura do Colégio Anglo de Campinas, Claudine
Faleiro Gill, concorda que a escola tem um papel fundamental nessa
questão. “Não adianta colocar o livro de autoajuda nas mãos da criança e
falar: 'lê e aprende a viver'; tem que haver mediação. E a escola tem
um papel importante, especialmente porque há um excesso de lançamentos
nessa área”, esclarece Claudine.
A professora alerta também para o fato de que os pais têm imputado a
esses livros uma responsabilidade que é deles. “Tem pais que delegam aos
livros de autoajuda o papel de conversar com a criança, mas nós vemos
isso como um problema, pois sentimos nessa carência de discutir temas
polêmicos, que elas têm uma liberdade com os professores da escola que
não encontram em casa”.
Claudine ministra aulas para turmas do 6° ao 8° ano do Ensino
Fundamental e tem inserido alguns textos de autoajuda em sua disciplina.
Para ela, a literatura não tem a função de educar e ela não tem efeito
imediato. “Ninguém aprende na primeira lição, é a vivência que ensina.
Mas o que foi lido fica no inconsciente da criança e, com o tempo, ela
vai incorporando isso no dia a dia”, defende.
Foi assim com a aluna do 6° ano, Mariana Garcia Lacerda, 10. Ela gosta
de todo tipo de literatura, mas afirma que aprendeu a se relacionar
melhor em casa e na escola a partir do momento em que começou a ler os
livros de autoajuda. “Eu aprendi com ele (o livro) que nós não podemos
mandar nas pessoas; elas não gostam disso”, explica.
Entrevista
O sofrimento é um bom professor
Para
Yvanna Samert, psicóloga clínica da UnB (Universidade de Brasília), os
livros de autoajuda somam no desenvolvimento emocional da criança, mas
eles devem ser adotados como um recurso complementar, pois o sofrimento
está presente em todas as fases da vida e, por isso, não deve ser
eliminado, mas apreendido
Qual o papel do sofrimento na infância?
O sofrimento faz parte da vida, não tem como evitar. É ele que nos faz
querer avançar, que nos ensina a resolver os problemas, ter motivação
para seguir em frente. Ele é uma coisa necessária que faz crianças e
adultos evoluírem como pessoas.
Muitos
pais e escolas têm adotado livros de autoajuda infantil para tentar
amenizar o sofrimento dos pequenos. Para a senhora, essa é uma
alternativa válida?
São recursos úteis para trabalhar questões importantes para o
desenvolvimento emocional da criança. É relevante como forma de ensinar a
criança a lidar com os problemas do dia a dia, com as próprias emoções,
mas ela sozinha com o livro não produz tão bem quanto quando está com o
adulto que conversa sobre aquilo. Mais importante do que o conteúdo do
livro é a forma como ele é utilizado. Então ele não pode ser considerado
um recurso isolado, tem que ser associado a muitos outros para
favorecer o desenvolvimento da criança.
Antes
a literatura, através de metáforas, trabalhava diversas questões
emocionais e até morais em sala de aula. Agora, muitas escolas tem
inserido na disciplina de literatura os livros de autoajuda que trazem
um outro tipo de linguagem, mais simples e direta. Essa mudança é
favorável?
Depende muito do caso. Não dá para substituir a psicoterapia pelos
livros de autoajuda nem para as crianças nem para os adultos. Os livros
sozinhos não trazem o benefício que eles podem trazer sem o olhar do
pedagogo. Acho que mesmo essas crianças que não têm nenhum problema
emocional diagnosticado podem se beneficiar desse conhecimento. Eu não
acho que seja prudente retirar um livro de literatura convencional e
substituir por outro de autoajuda. Os livros de autoajuda devem somar e
não subtrair.
E de que forma podem somar?
Eles podem somar em situações onde a escola ou os responsáveis pelo
aluno identifiquem que algumas crianças estão com dificuldades. Acredito
que esses livros trazem conhecimento que somam com o tradicional e por
isso acho que podem somar no planejamento pedagógico da escola.
Como a família e a escola podem ajudar a criança a superar o sofrimento?
Elas devem lidar com a situação com todo o respeito que a criança
merece. Não seria correto tentar eliminar todo o sofrimento da criança,
embora essa seja uma estratégia que vem acontecendo. Hoje ninguém quer
mais sofrer; muitos querem tomar remédio ou fazer cirurgia para parar de
sofrer, mas isso não vai acontecer porque o sofrimento faz parte da
vida.
Como fazer isso na prática?
Nós temos que fornecer apoio para a criança. Temos que explicar para ela
o que está acontecendo, conversar sobre quanto tempo isso vai durar,
como isso vai passar e o que se aprende a partir desse sofrimento, já
que o sofrimento, em si, é impossível de eliminar. O único jeito disso
acontecer é morrendo e muitas pessoas acreditam que essa é a saída e por
isso buscam o suicídio. Nós não podemos ensinar isso para a criança;
temos que ensinar que o sofrimento existe e que, a partir dele, nós
aprendemos outras coisas. Então o respeito à dor e ao sofrimento da
criança passa a ser um aprendizado diante do sofrimento. Para mim, essa é
a maneira mais adequada da escola e do pais lidarem com o sofrimento
delas.
E quando é preciso procurar a psicoterapia?
Isso pode ser feito preventivamente, antes de uma coisa mais grave
acontecer. Como, por exemplo, quando os pais percebem que vão se separar
ou quando tem alguém com alguma doença grave na família. A busca pela
psicoterapia vai depender muito da capacidade dos pais e da escola em
serem sensíveis às necessidades da criança. Algumas crianças lidam muito
bem com esses acontecimentos em suas vidas e não tem grandes mudanças
comportamentais. Nesses casos, onde não tem grandes prejuízos observados
na vida da criança, não há necessidade de psicoterapia. Mas existem
muitos outros casos em que a família fica tão desestabilizada que não
consegue dar atenção às necessidades da criança e é nessa hora que a
psicoterapia pode ajudar orientando a família, a escola e dando o apoio
necessário à própria criança.
Fonte: Suplemento Escola/ Tribuna do Planalto -Thaís Lobo Estagiária convênio Tribuna/PUC-GO