quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ler é inventar problemas

Leituras Educadoras - Edição 175
Matéria publicada em 31/10/2011
 
A leitura acontece como um jogo de tetris: cada texto construído se dissolve aos poucos diante do leitor, para dar espaço a novas linhas que serão criadas

Gabriel Perissé*

A leitura é ato criativo, o que significa pensar nos diferentes modos de ler e nos mais surpreendentes objetivos por parte do leitor. Posso praticar a leitura como distração ou como tarefa vinculada a uma pesquisa acadêmica, como forma de aprender a escrever, como busca de soluções profissionais ou existenciais, ou como inspiração para conhecer a mim mesmo, ou como forma de preencher a solidão, ou como caminho de solidariedade.

Uma outra maneira de ler é a filosófica. Ler filosoficamente é ler para pensar. Não um pensar qualquer, exercício mental apenas. Filosofar é um pensar responsável, em busca de tudo aquilo que nos torne mais humanos.

A leitura com espírito filosófico não teme inventar problemas. Tudo o que não inventamos é falso, repetindo o poeta Manoel de Barros. O encontro com as verdades humanas depende de nossa abertura para o inesperado. Ir ao encontro dessas verdades é um modo radical de estudar.

Leitura como encontro

A leitura inventiva não inventa do nada. O encontro filosófico com as palavras requer o cumprimento de algumas exigências. Uma delas é deixar que o texto de um autor entre pelos olhos e ouvidos. O trecho de um texto maior será saboreado sem desgastar-se. Vejamos, por exemplo, o primeiro parágrafo de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do escritor moçambicano Mia Couto:

A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência. A bordo do barco que me leva à Ilha de Luar-do-Chão não é senão a morte que me vai ditando suas ordens. Por motivo de falecimento, abandono a cidade e faço a viagem: vou ao enterro de meu Avô Dito Mariano.

Primeiramente, deixar-se impregnar pelas palavras - sonoridade, sentidos, as imagens que evocam. O parágrafo a ser contemplado possui três períodos.

No primeiro período, a imagem do umbigo. O umbigo é uma cicatriz. Nasce de um corte. Antes do corte, o parto. Associando parto e morte, Mia Couto inicia sua história, uma viagem ao centro da vida. A morte, como o umbigo, lembra uma existência anterior. Na cicatriz, a ausência de algo diz tudo, nas entrelinhas. A morte, mais do que ausência de vida, é sinal de que houve vida. Estamos diante de uma permanência disfarçada de ausência.

Ler e reler o primeiro período faz a comparação cada vez mais nítida. A morte é como o umbigo. A cicatriz é lembrança da vida. Filosofar, como diziam os antigos, é aprender a morrer, o que nos ensina a viver melhor. A lembrança de uma existência anterior ao parto, associada à de uma existência anterior à morte, insinua um pós-morte em equivalência a um pós-parto.

Aprender a morrer é, então, um aprender a nascer? Eis um problema inventado pela leitura filosófica.

O segundo período fala da morte como algo que atua e direciona os vivos. A morte vai ditando suas ordens. É um capitão - ou melhor, é capitã comandando o barco dos vivos. O narrador está a bordo do barco. Seu destino é uma ilha. A ilha, um lugar à parte, leva a pensar no além. Para além da terra firme, uma outra terra firme. Mas é preciso fazer a travessia, sob o comando da morte.

Para onde, então, a morte nos leva? Este é mais um problema inventado.

A morte volta a ser mencionada no terceiro período. O que não incomoda o espírito filosófico. Filosofar é abandonar a cidade, fazer a viagem, sair de si. O que há de habitual na cidade deve ser abandonado. O que há de conhecido e seguro na cidade deve ser substituído pela viagem. O enterro do avô é o motivo da viagem. O corpo ainda não foi enterrado. A viagem tem um destino. O viajante vai em direção ao morto, ao encontro do mistério. Se o enterro é ato sagrado, a viagem também.

Outro problema inventado - quando começarei a fazer a viagem decisiva?

Leitura como jogo

Outra exigência da leitura filosófica é entrar no jogo, e jogar até o fim. O poeta brasileiro Felipe Fortuna escreveu um poema intitulado "Tetris":

A vida aparece aos poucos:
sua construção de acaso
não decifra o dia seguinte.
Bloco sobre bloco se executa
a obra que corrói o corpo.
Nós somos pouco.

Um dos mais antigos (e até hoje um dos mais viciantes) jogos eletrônicos, o Tetris nasceu em 1984, na União Soviética. Na tela, tetraminós (blocos formados por quatro quadrados iguais) vão descendo sem parar. O objetivo é empilhá-los de modo a formar linhas horizontais perfeitas. Cada linha que se forma, desintegra-se, e as camadas superiores descem um pouco mais. Ganham-se pontos. O jogador que em dado momento já não consegue criar linhas horizontais é vencido pelos tetraminós.

A vida é como os tetraminós: fatos, pessoas, formas variadas vão surgindo sem parar. Cada vez que conseguimos completar uma obra, construir alguma coisa, essa coisa deixa de existir como desafio. E novos fatos, outras pessoas, outras formas continuam surgindo.

Mas há um momento em que não conseguimos dar conta do recado. E o jogo termina. Somos incapazes de vencer o tempo todo. O que não impede que inventemos um novo problema: seria possível jogar para sempre? Em tese, sim, seria possível. Contudo, por mais entusiasmante que seja o jogo da vida, a evidência é que "somos pouco".

Ler é jogo viciante. Cada linha horizontal que construímos como leitores dissolve-se diante de nossos olhos. E outras linhas vão sendo criadas. E somos sempre pouco. Dentro em pouco, seremos superados. Somos pouco para tantos livros, tantos autores. Somos pouco para tanta vida.

O poeta afirma que ele é pouco, e que somos pouco. A leitura filosófica admite essa verdade. No entanto, o paradoxo persiste. Ao mesmo tempo que afirmamos sermos pouco, algo em nós resiste. O poema se refere ao "dia seguinte" não decifrado. Hoje, somos limitados. Hoje, perdemos o jogo. Mas (outro problema inventado) quem disse que o dia seguinte não virá?

*Gabriel Perissé (www.perisse.com.br) é doutor em Filosofia da Educação (USP), pesquisador do NPC - Núcleo Pensamento e Criatividade

A biblioteca pessoal

Leituras educadoras | Edição 177
Matéria publicada em 20/12/2011
 
Os professores precisam de quem os ensine a ensinar: os livros

Gabriel Perissé*


A leitura variada e profunda é vital para a formação docente. A educação brasileira precisa de professores que sejam leitores constantes, com repertório amplo, com linguagem atraente/convincente, com visão de mundo fortalecida pela reflexão, com sensibilidade para não prender disciplina alguma em rotinas burocráticas, em fórmulas apáticas, em métodos repetitivos.

Que em cada escola, pública ou particular, houvesse uma excelente biblioteca destinada exclusivamente aos professores. Não só com os livros de pedagogia, essenciais, e os documentos oficiais, os referenciais, as diretrizes nacionais e internacionais, e a legislação, os parâmetros, os projetos, as estatísticas. Mas também com abarrotadas estantes de história, filosofia, antropologia, literatura, arte em geral, sociologia, ciência, tecnologia e outros tantos temas e "logias" necessários para a vida intelectual.

E que na sala dos professores tivéssemos a vontade natural de superarmos as questões epidérmicas e cosméticas. Que tivéssemos tempo e espaço, estímulo e ânimo para conversar sobre temas de fundo, não apenas os (interessantes, sem dúvida) assuntos propostos ou impostos pelas revistas semanais (algumas caras, outras baratas), pelos telejornais que nos globalizam, ou pelas urgentes pautas sindicais. Podemos sempre mais!

A biblioteca professoral

Além da biblioteca coletiva da escola (iniciativa que demonstraria os verdadeiros méritos de uma prefeitura, de uma secretaria de educação, de uma diretoria), é igualmente vital para os professores terem sua biblioteca particular, com seus clássicos pessoais, com seus livros de consulta, para estudo cotidiano e também para momentos de entretenimento cultural.

De novo, não seria biblioteca restrita aos temas, às abordagens, aos autores que todos conhecemos como importantes na formação docente. Que estejam presentes Paulo Freire e John Dewey, Freinet e Piaget, Claparède e Lourenço Filho, Wallon e Morin, Anísio Teixeira e Montessori, Makarenko e Comênio, entre tantos outros. Mas que outros tantos autores, mesmo não rotulados de educadores, tenham o seu lugar assegurado na fila das nossas futuras leituras.

Autores brasileiros e estrangeiros, contemporâneos ou de muitos séculos atrás, mais racionais ou mais emocionais, materialistas ou espiritualistas, prolixos ou concisos, contundentes ou conciliadores... É praticamente infinito o espaço das escolhas. E é também o momento de saber se sabemos escolher. Montar uma biblioteca exige interesse, pesquisa, curiosidade. E a coragem de optar.

Os clássicos (claro!) são sempre referência incontestável. Devemos conhecer Dante, Homero, Balzac, Cervantes, Shakespeare, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, nem que seja para dizer que preferimos outros clássicos. Entra aqui a capacidade de escolher nossos clássicos pessoais, como dizia Italo Calvino. E esses clássicos podem ser nomes menos conhecidos, menos elogiados, desprezados, ou até mesmo odiados pela crítica dominante. Mas nada disso é importante. Os clássicos pessoais serão legitimados pela pessoa que os classifica como algo que valha a pena ler, reler e recomendar!

As consequências práticas e didáticas são óbvias. Um professor que tenha escolhido os seus clássicos pessoais, e que os frequente com interesse, torna-se, perante seus colegas e dirigentes, perante seus alunos, na classe, na hora da aula, um professor com personalidade intelectual, com perfil definido. Não é mero repetidor de conteúdos livrescos ou apostilescos, não é simples educador de giz e quadro-negro, de retroprojetor, flip chart, lousa eletrônica, power-point, laptop ou tablet. Sua visão e sua voz estão fundamentadas numa tecnologia antiga e insuperável - na leitura livre. Livre das modas e muletas de todo gênero!

De livro em livro

Não se cria uma biblioteca em um dia, em um ano. Biblioteca é projeto para a vida inteira. E requer amor aos livros. É uma contradição ser professor de pouca leitura. Se uma casa sem livros é uma casa sem janelas (frase atribuída a vários pensadores), uma existência de professor sem leitura é vida fechada para o aprendizado.

A biblioteca pessoal é construída livro a livro, uma aquisição hoje, outra amanhã, é feita de visitas à livraria, ao sebo. Trata-se de investimento pessoal. Não é despesa, ainda que pese no bolso. Mais pesada, porém, é uma vida sem a leveza das ideias, sem a beleza das imagens, sem a força das metáforas e dos argumentos que um livro traz.

Não pode haver maior incoerência que um professor não ler ou, até, não gostar de ler. Mas também sabemos que essa incoerência se explica pelas limitações da profissão docente no Brasil. Quando reivindicamos melhores condições de trabalho, incluímos (imagino eu) possibilidade para comprar livros e tempo livre para ler.

A poeta Adélia Prado diz... "escrevo um livro para ver se me livro". Podemos parafrasear: "eu compro um livro para ver se me livro". Para ver se nos livramos da superficialidade, dos preconceitos, dos lugares-comuns, de tudo aquilo que não condiz com a arte de ensinar.

De livro em livro a biblioteca preenche a alma. Não se trata de estabelecer quantidades para o acervo, mas serve aqui de inspiração lembrar as metáforas usadas por leitores apaixonados. Os livros são chamados de amigos constantes, sábios conselheiros, de flores perfumadas, de remédios eficazes, de alimento saudável, de amantes, de orientadores, de asas, de navios e, de modo especial, são vistos como professores.

Nós, professores, precisamos de professores que nos ensinem a ensinar. Os livros têm essa capacidade. Um poema nos ensina a ver para além das coisas opacas. Um romance nos ensina a redimensionar os dramas pessoais. Um ensaio filosófico nos torna mais reflexivos, mais ponderados. Uma biografia nos leva a compreender o valor inestimável de uma única vida. Um livro de história nos dá acesso à memória humana. Enfim, não tem fim a capacidade de um livro nos ensinar.

De livro em livro, construímos uma biblioteca. Que reflete nossos gostos, preferências e, sobretudo, aponta para o nosso futuro. Na biblioteca pessoal de um professor, vemos o futuro desse profissional.

E o futuro da educação nacional.

*Gabriel Perissé (www.perisse.com.br) é doutor em Filosofia da Educação (USP), pesquisador do NPC - Núcleo Pensamento e Criatividade

O resgate dos bibliotecários

Matéria Publicada 10/09/2011 

A mediação de leitura, entendida como ato de ler para o outro de forma a despertar seu gosto pela narrativa, é uma estratégia chave na formação de novos leitores 

Mariza Russo
 Biblioteca Municipal Monteiro Lobato, em São Paulo: 
uma das poucas redes que têm bibliotecários de ofício

Para os especialistas da área da mediação de leitura, a prática dessa atividade busca, primordialmente, introduzir o livro como rotina na vida do leitor, permitindo-lhe amplo acesso ao material impresso, para que ele se sinta atraído não só pelo seu conteúdo, como também pelo seu formato. Dessa maneira, espera-se incentivar o hábito de ler e ampliar o gosto pela leitura em si.

A atividade de mediação de leitura consiste em um ato de ler para crianças, jovens ou adultos, de uma maneira livre e prazerosa, que não exige do mediador grandes habilidades artísticas. O importante é que esse mediador demonstre um verdadeiro entusiasmo por essa atividade e compartilhe com os leitores a troca de experiências por ela ensejada.

Essa ação pode ser praticada em diversos locais, mas as bibliotecas públicas e escolares, frequentadas, predominantemente, por pessoas cujo poder aquisitivo não permite adquirir livros com frequência, são as mais adequadas para a realização dessa atividade. Com isso, seriam garantidas oportunidades de transmissão cultural entre as gerações e ampliadas as condições de desenvolvimento social dos leitores. No entanto, inúmeros estudos já realizados ao longo da história dessas bibliotecas apontam que a situação real está longe da ideal.

A área de mediação de leitura - quando devidamente praticada - torna-se, então, um espaço rico para muitos atores, mas são os familiares, os professores e os educadores os que mais se destacam nesse mister. Os familiares deveriam ser os primeiros a estabelecer o elo entre a criança e o mundo, usando a leitura como canal para levá-los a desenvolver valores morais, que servirão de base para suas atitudes no futuro; mas a situação econômica de grande parte das famílias brasileiras impede esse exercício pleno. Daí, a importância dos educadores em aproximar o estudante da leitura, que deve ocorrer de maneira a mostrar o texto de forma lúdica, evitando cobranças que podem servir como instrumento negativo do incentivo à leitura. Igualmente, se espera do bibliotecário a atuação positiva nessa área, até porque - diferentemente do professor - ele não está preso a currículos e avaliações, tendo portanto maior liberdade para dialogar com o leitor e fazer proposições sem que este se sinta pressionado a apresentar resultados. Cabe ressaltar que, na biblioteca escolar, as atividades desenvolvidas pelo bibliotecário devem estar em consonância com as atividades curriculares.

Para garantir maior sucesso nas iniciativas de mediação de leitura, recomenda-se a busca de uma sinergia entre os "saberes" dos educadores e dos bibliotecários, tanto no que diz respeito às práticas pedagógicas quanto às questões de organização de bibliotecas e leitura técnica de livros. Caso essa inter-relação se configure, a formação de novos mediadores ocorrerá com maior sucesso, podendo ser ampliada em diferentes eventos, tais como cursos, palestras e oficinas, os quais devem ser oferecidos, regularmente, a todos os públicos interessados, com o compromisso de formar outros agentes multiplicadores da atividade.

O apoio do governo a esses empreendimentos é de grande relevância, pois novas iniciativas, somadas às já existentes, poderão trazer benefícios mais amplos para a sociedade brasileira. O Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), lançado pelo governo, em 13 de março de 2006, sob a responsabilidade dos Ministérios da Cultura e da Educação, se configura como um projeto com perspectivas vitoriosas, face às suas características próprias e por se tratar de um programa de Estado, e não do governo atual, não estando dessa forma sujeito a descontinuidades devido a eventuais mudanças na política do país. Por outro lado, é preciso que sejam investidos esforços e recursos substanciais nestes e em outros projetos, que com certeza levarão a resultados positivos para a população brasileira.

Ao longo desses três anos, essa iniciativa tem se configurado como "um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, da leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbitos federal, estadual e municipal) e pela sociedade".

A missão desse programa apresenta como prioridade transformar a qualidade da capacidade leitora do Brasil, trazendo a leitura para o dia a dia do brasileiro. Com esse escopo, o PNLL está dividido em quatro eixos temáticos: Democratização do acesso; Fomento à leitura e à formação de leitores; Valorização do livro e da leitura e Desenvolvimento à economia do livro.

Em agosto de 2009, o Programa arrola 488 ações, das quais 43% são desenvolvidas no eixo 1 (212); 36% no eixo 2 (177); 11% no eixo 3 (51) e 10% no eixo 4 (48). Essas ações são desenvolvidas pelas instâncias governamentais e pela sociedade civil, o que demonstra um comprometimento desses setores com os objetivos do programa. Espera-se com esse empreendimento modificar o cenário de leitura no país, elevando-o a ocupar patamares mais relevantes no contexto internacional.

A mediação de leitura e a biblioteconomia

A leitura está presente no processo de ensino dos cursos de graduação, na maioria das áreas acadêmicas. No caso específico da área de biblioteconomia, o livro é considerado um dos seus insumos básicos e a sua leitura técnica é vista como uma das ferramentas indispensáveis para a atuação profissional do bibliotecário. Dessa forma, a capacidade de interpretar a leitura, adequadamente, é fundamental para que esse profissional tenha sucesso em parte de suas tarefas.

Os primeiros cursos de Biblioteconomia foram criados, na França e nos Estados Unidos, no século 19 (na École des Chartes, em 1821, e no Columbia College, em 1887), mas somente no início do século 20 é que se tem informação da utilização da leitura como foco de disciplinas da área, na medida em que a partir de 1904 a biblioterapia passa a ser considerada um ramo da biblioteconomia. A biblioterapia é uma técnica que utiliza a leitura e outras atividades lúdicas como coadjuvantes no tratamento de pessoas acometidas por alguma doença física ou mental, sendo aplicada como educação e reabilitação em indivíduos de diversas faixas etárias.

A partir de então, os bibliotecários assumiram a biblioterapia como atividade recreacional e ocupacional, antes utilizada como atividade terapêutica por médicos americanos no tratamento de seus pacientes. Ao longo dos anos, os currículos dos cursos foram deixando de contemplar esse tema, para a formação dos graduandos. Um levantamento realizado no sítio de internet da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (Abecin), que relaciona 43 cursos na área de biblioteconomia e afins, aponta que menos de 30% do universo total dos cursos incluem disciplinas relacionadas à prática da leitura.

Em face desse cenário, os bibliotecários também se afastaram dessa atividade, o que, com certeza, está prejudicando sua atuação profissional no campo, visto que a leitura para eles não representa parte dos seus "fazeres". Diante da visão de que o incentivo ao hábito de ler é indispensável nos espaços das bibliotecas públicas e escolares, esses profissionais precisam estar capacitados para desenvolver essa ação com competência.

Nesse sentido, uma formação que evidencie o caráter relevante da leitura na formação do bibliotecário tornará o perfil desse profissional mais condizente com as necessidades da sociedade brasileira, tão caracterizada pelas desigualdades de oportunidades.

A mediação de leitura e o curso de biblioteconomia da UFRJ

A ideia da criação de um curso de biblioteconomia, na UFRJ, vem desde a inauguração da Biblioteca Central da Universidade, em 1950, quando se pensou em construir um prédio de oito andares - que abrigasse a biblioteca - cujo último piso seria dedicado ao curso de biblioteconomia.

Em outubro de 2001, por iniciativa da Coordenação do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI), foi criada uma comissão de trabalho, composta por bibliotecários - mestres e especialistas na área - com a assessoria de docentes da UFRJ, para desenvolver a Proposta Político-pedagógica do Curso de Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG), encaminhada em novembro de 2003, às instâncias competentes da Universidade, para fins de análise e aprovação.

A grade curricular do curso foi planejada com um enfoque diferenciado dos demais cursos do país, contemplando igualmente as áreas de biblioteconomia e de gestão, na medida em que os bibliotecários do século 21 precisam estar capacitados para administrar todos os recursos que integram as Unidades de Informação - quer financeiros, materiais, tecnológicos, informacionais, bem como as pessoas, que constituem o seu principal ativo. Sendo assim, a Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC), da UFRJ, foi escolhida para abrigar o curso, em virtude de sua concentração na área de gestão.

Em junho de 2005, o curso foi aprovado pelo Conselho de Ensino de Graduação (CEG) e, em julho, pelo Conselho Universitário (Consuni), para ser incorporado à grade de cursos de graduação oferecidos pela UFRJ.

A Comissão de Implantação do CBG, ao preparar a proposta pedagógica do curso, julgou de extrema importância a integração do referido curso ao PNLL, visto que este programa tem por base a necessidade de formar uma sociedade leitora como condição essencial para promover a inclusão social de brasileiros, no que diz respeito a bens, serviços e cultura, garantindo-lhes uma vida digna e a estruturação de um país economicamente viável.

A decisão da equipe do CBG fun­da­men­tou-se na importância de fazer cumprir a missão prioritária da universidade, que é a de geração de ações que resultem em benefícios para a sociedade, conforme argumenta Luis Milanesi, professor de biblioteconomia.

"A universidade é um instrumento criado pela sociedade para que dê respostas a seus problemas, que ela própria detecta e antecipa. Para isso, pesquisa e descobre as soluções imediatas ou que poderão ser úteis a longo prazo; transfere os conhecimentos aos alunos, conduzindo-os ao domínio de uma área que permita a eles o exercício de uma atividade profissional; estende à sociedade esse conhecimento ..."

Nesse contexto, a disciplina mediação de leitura é oferecida na grade curricular do CBG, no 1º período, tendo - até o presente momento - formado cerca de 120 alunos como mediadores de leitura. Essa iniciativa já criou outras oportunidades para esses alunos, como a participação em projeto de extensão aplicado no Instituto de Neurologia Deolindo Couto (INDC/UFRJ), de 2007 a 2008, no qual duas bolsistas mediavam leitura para enfermos como forma de ajudar a promover sua inserção social. A partir de 2009, outro projeto de extensão está sendo apoiado pela UFRJ - Embarcando na leitura para a Ilha de Paquetá - com vistas a levar para os visitantes da Ilha a oportunidade de acesso a livros e à leitura, despertando nos mesmos o prazer dessa atividade.

Ainda como desdobramento dessa ação, está sendo preparado o projeto de um curso de extensão sobre mediação de leitura, que será oferecido, para bibliotecários e alunos de outras universidades do Rio de Janeiro, com o objetivo de ampliar as oportunidades de resgatar esse espaço de atuação para os bibliotecários.

Considerações finais

As iniciativas aqui apresentadas não são, ainda, suficientes para transformar - em curto prazo - a situação de acesso ao livro e à leitura no país. Analisando-se, na página virtual da Abecin, o cenário dos demais cursos de biblioteconomia ministrados no país, encontrou-se a oferta de disciplinas, tais como Leitura e Sociedade (UFG); Literatura Infanto-juvenil (UFPE); Leitura, Biblioteca e Inclusão Social (UFRGS); Biblioterapia (UFSC); Leitura, Acervos e Ação Cultural e Orientação de Leitura (UFF); Leitura e Biblioteca (UFAL); História da Leitura (FURG); Leitura e Literatura Infanto-juvenil (Udesc) e Processos de Leitura e Ação Cultural (Fatea).

Essas ações, mesmo que em pequeno número, demonstram a preocupação dos organizadores dos currículos em preparar os bibliotecários para desenvolver essa tarefa, a fim de garantir um lugar nesse tão nobre nicho da formação dos brasileiros.

Espera-se que outras reflexões, como as apresentadas neste artigo, possam servir de motivação para inclusão de disciplinas com os objetivos descritos, nos cursos de biblioteconomia do país, que em sinergia com as ações emanadas do Estado venham modificar o cenário apresentado pela última pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2008. A pesquisa aponta, entre outros resultados, que o brasileiro lê em média 5 livros por ano (caso sejam considerados os livros didáticos nesse cômputo), o que coloca o país muito distante dos índices ideais para chegar ao crescimento tão almejado.

Conclama-se que bibliotecários, educadores, políticos e demais interessados se unam para transformar o Brasil em um país de leitores.

Mariza Russo é professora do Curso de Bibliotecomia e Gestão de Unidades de Informação (CBG/FACC/UFRJ). 

O mundo que lê

Entrevista - Roger Chartier | Edição 177
Matéria publicada em 20/12/2011

Historiador francês afirma que alfabetização crescente e maior disponibilidade de textos na era digital aumentaram o interesse pela leitura

Carmen Guerreiro

A humanidade nunca leu tanto quanto hoje. Por um lado, a era digital faz com que os textos estejam mais disseminados. De outro, a população mundial é cada vez mais alfabetizada. Nesse cenário, descrito pelo historiador francês Roger Chartier, é papel da escola ensinar aos jovens que existem diferentes formas de ler para diferentes necessidades. E, se as salas de aula devem incorporar a presença de computadores, internet e tablets como ferramentas, também é fundamental que os professores continuem a trabalhar a leitura de livros clássicos. "Não porque eles são 'clássicos', mas porque, com outros, mas talvez melhor do que outros textos, ajudam a pensar sobre o mundo, natural ou social, a compreender as relações com os outros, a fazer as perguntas essenciais da existência e a desenvolver uma crítica às instituições, às informações, às autoridades", defende Chartier. Profundamente respeitado e estudado no Brasil e no mundo, Chartier é professor da Universidade da Pensilvânia e do Collège de France, diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Ehess), uma das mais importantes faculdades de história do mundo, e é considerado atualmente um dos principais pensadores no que se refere à história do livro e dos hábitos sociais de leitura. Em entrevista à repórter Carmen Guerreiro, o historiador francês fala sobre a importância das diferentes plataformas digitais para a leitura no mundo de hoje, e também frisa sua tese de que o texto muda de acordo com o meio no qual foi publicado - porque mudam também a formatação, a maneira de folhear ou fazer referências, a atenção que se exige. Além disso, o texto está sujeito ao próprio contexto de quem o lê. Para ele, classe social, idade, sexo, religião e outras características são fundamentais para determinar que tipo de leitura uma pessoa fará de um texto. Chartier lembra, no entanto, que na escola a leitura não pode ser reduzida a "exigências utilitárias". "Os livros devem também fazer sonhar, divertir, permitir a reflexão, desenvolver o espírito crítico", afirma.


O senhor defende que a leitura é muito pessoal e que seu significado depende do formato em que ela se apresenta e da interpretação que se dá ao texto. O que isso significa?

Toda leitura é um encontro entre um texto e um leitor. Mas, por um lado, o texto lido está sempre em um meio físico de escrita (um livro, uma revista, uma tela), o que contribui para o seu significado. Neste sentido, podemos dizer que formas materiais de escrita afetam o significado dos textos. Esta é a forma do objeto escrito, do formato do livro, do layout, da presença ou não da imagem, etc. Por outro lado, a liberdade de interpretação de cada leitor depende das habilidades, hábitos, normas e práticas de leitura que ele ou ela compartilha com outros leitores que pertencem à mesma "comunidade de leitura", definida por classe social, idade, sexo, religião, etc. A partir daí, surge a ideia de que um texto se transforma. Mesmo que ele não mude em sua literalidade, ao mudar de formas materiais e ao mudar seus leitores - ou leituras.

Como isso funciona na escola, em que se cobra a aquisição do mesmo conhecimento de todos os alunos?

Aplicada à classe, esta perspectiva deve levar à compreensão de como a materialidade dos textos lidos (no livro, na sala de aula ou na tela do computador) ajuda a indicar o seu status, seu uso, seu significado. E também para compreender o que se espera dessa leitura particular que é a leitura na escola, diferente em suas exigências e seus ensinamentos de outras leituras, feitas em casa ou em um espaço público.

O senhor defende que a revolução do livro eletrônico é talvez mais importante do que a descoberta de Gutenberg. Por quê?

Johannes Gutenberg inventou uma nova técnica para a reprodução de texto, acrescentando ou substituindo a imprensa para a cópia do manuscrito. Mas o livro antes ou depois de Gutenberg manteve suas mesmas estruturas fundamentais: as folhas dobradas, contidas em uma encadernação ou capa, e que distribui o texto em folhas e páginas. Este tipo de livro, que nomeamos códex (ou códice), estabeleceu-se no Ocidente entre os séculos 2 e 4 d.C., quando substituiu os rolos, que foram os livros dos gregos e romanos. Com o códice permitiu-se fazer ações antes impossíveis, como escrever lendo, fazer a paginação, um índice definido, folhear um livro, comparar facilmente diferentes passagens. Mas esta primeira revolução do livro não alterou a técnica de reprodução do texto, ainda atribuída somente à cópia do manuscrito. A revolução do e-book é uma revolução técnica (como a invenção da imprensa), uma revolução da plataforma da escrita (como a invenção do códex) e uma revolução na leitura, que desafia as categorias e práticas que definem a relação com a escrita desde o século 18.

Diz-se que os jovens de hoje são desinteressados pela leitura. Como a escola pode reverter esse quadro, levando em conta que precisa trabalhar os "clássicos" da literatura?

É seguro dizer que o diagnóstico que afirma a rejeição da leitura entre os jovens deve ser corrigido, tanto pelo sucesso de certas obras ou séries como pelo fato de que telas de computador são telas de texto. A humanidade nunca leu tanto quanto agora. Porque os textos estão em toda parte, porque a alfabetização se tornou necessária devido ao comércio e à administração, porque o mundo digital é basicamente um mundo por escrito. A questão é, portanto, a das práticas que não são mais da tradição literária ou de ensino. Daí o papel da escola. Ela deve ensinar as habilidades necessárias para nossos futuros cidadãos ou consumidores que serão confrontados com a escrita. Deve mostrar que existem diferentes maneiras de ler para diferentes necessidades. Também deve organizar a ordem dos discursos e, assim, manter o lugar dos "clássicos", não porque eles são "clássicos", mas porque, com outros, mas talvez melhor do que outros textos, ajudam a pensar sobre o mundo, natural ou social, a compreender as relações com os outros, a fazer as perguntas essenciais da existência e a desenvolver uma crítica às instituições, às informações, às autoridades.

A forma de dar aula vai mudar por conta das mudanças às quais os livros foram submetidos com o advento da plataforma eletrônica?

Não sei. O que eu sei é que as escolas devem ensinar todas as formas da cultura escrita (manuscrita, impressa, eletrônica), conscientizar os alunos de suas diferenças, e os acostumar a usar uma ou outra forma de escrever, para navegar no mundo dos textos como se faz em uma floresta. Sei também que os objetos eletrônicos inventados todos os dias representam um avanço técnico, mas também são mercadorias, que têm um custo abusivo para muitos e que geram lucros (nem sempre justificáveis por sua utilidade). É também uma lição que as escolas devem ensinar em uma crítica sobre a sociedade de consumo. Mas, é claro, um dos deveres das políticas públicas é tornar essas novas oportunidades acessíveis e familiares. Uma última coisa: nas palavras de Emilia Ferreiro, a presença de computadores ou de tablets em sala de aula não resolve por si só os problemas de aprendizagem e transmissão de conhecimentos - e, ao mesmo tempo, pode trazer a "tentação" de reduzir ou excluir o papel essencial dos professores.

Existem hoje experiências digitais com literatura, a exemplo do escritor norte-americano Robert Coover, que encabeça o movimento de "cave writing", no qual o "leitor" imerge em um ambiente 3D e interage com o cenário e personagens da história como se vivesse em seu mundo. Isso muda para sempre a forma como se faz literatura?

As experiências de escrita eletrônica, com ou sem 3D, ainda são marginais. E isso porque, provavelmente, se um autor espera de seu leitor a compreensão da obra que ele escreveu em sua coerência, sua identidade, sua totalidade (mesmo sem ler todas as páginas), o livro impresso continua até hoje o objeto material mais adequado para permitir este reconhecimento. Como sabemos, a leitura na frente da tela é fragmentada, descontínua, combina texto e hipertexto, mas não foca a obra em si. Daí a importância ainda marginal (menos de 10% das vendas nos Estados Unidos, menos de 5% nos países europeus) do mercado do livro eletrônico no negócio de venda de livros. Mesmo os autores que praticam amplamente a escrita eletrônica (aquela de blogs, sites, redes sociais) permanecem fiéis à publicação impressa. As experiências que você menciona vão mais longe porque o texto desaparece ou pode desaparecer em favor de um espaço habitado tanto pelos personagens da ficção quanto pelo leitor. O risco não é o de matar por esse realismo do irreal um dos mistérios da literatura, ou seja, o trabalho da imaginação a partir das palavras na página? O leitor parece ser mais livre na medida em que pode intervir na história, mas o preço dessa liberdade aparente não é o da mutilação de sua imaginação, inteiramente sujeita ao espaço definido para ele pelo autor?

Qual é a importância de livros que envolvam experiências digitais hoje para a cultura da leitura?

Uma das maiores mudanças no mundo eletrônico é a possibilidade, pela primeira vez, de associar em uma única produção textos, imagens e até sons e celulares, letras ou música. A cultura escrita deve aproveitar esta oportunidade para inventar "livros" novos, tanto de ficção quando para o saber. Não devemos deixar apenas ao mercado de entretenimento, por exemplo aquele dos jogos eletrônicos, a capacidade inédita de articular diferentes linguagens em um mesmo projeto estético ou intelectual, como fazem, por exemplo, as artes do espetáculo.

No Brasil, há certa desconfiança dos professores em relação aos e-books e a outros meios de leitura eletrônica. Por que o senhor acha que isso acontece?

Esta relutância ou resistência é muito compreensível (e ela é em parte minha também), já que o texto eletrônico desafia as categorias que definem a escrita, o livro, a obra. Quando ele é livre, gratuito, imediato, o texto eletrônico é muitas vezes coletivo, apaga o nome do autor, é fora da propriedade literária, e justapõe fragmentos. Quando se trata de escrever em forma de e-books, com textos publicados por edições que não permitem a cópia ou a impressão e que os "fecham" aos leitores, a relação é mais forte com o livro impresso, e não com a leitura descontextualizada de fragmentos, sem poder ou querer relatá-los na totalidade da qual eles fazem parte. A ruptura com a ordem da escrita que herdamos é forte e brutal, pois ela faz vacilar as noções de autor singular, de obra original e de propriedade intelectual. A consequência é, portanto, que se a escola não deve ignorar as plataformas de leitura eletrônica, ela deve ensinar seus usos e mostrar o que pode ser esperado em relação a formas mais convencionais de comunicação e publicação.

O que países como o Brasil, que ainda lutam com questões básicas como a alfabetização, podem fazer para transformar a leitura em uma prioridade?

O Brasil e outros países comparáveis fizeram ou fazem da entrada na cultura escrita de todos os seus cidadãos uma prioridade justa e necessária. Esta é a chave para que seja estabelecida uma cidadania verdadeira e a possibilidade de um desenvolvimento social e econômico. Mas saber ler e escrever não pode se reduzir a exigências utilitárias. Os livros devem também fazer sonhar, divertir, permitir a reflexão, desenvolver o espírito crítico. A escola deve mostrá-lo, assim como devem acontecer campanhas públicas de instalar o livro e a escrita no coração da cidade, por meio de feiras de livro, encontros nas livrarias, programas nos meios de comunicação visual.

Como um estudioso das tendências de leitura, qual é a sua previsão de como as crianças de hoje vão interagir com a leitura e com os livros como adultos?

Os historiadores são os piores profetas, estão sempre errados. Por isso, vou abster-me de qualquer previsão. Prefiro formular um desejo ou um sonho. Com a era digital e os textos eletrônicos, a humanidade possui uma terceira forma de composição, transmissão e apropriação da escrita, em adição aos dois precedentes: a impressão e a escrita manuscrita. Então, só podemos esperar que se estabeleça a coexistência entre essas três formas, que não correspondem nem aos mesmos hábitos de leitura, nem às mesmas necessidades da escrita. A impressão não removeu a publicação manuscrita, que sobreviveu até o século 19, e talvez mais tarde. A invenção do códice não fez os rolos desaparecerem totalmente nos tempos medievais. Por que a escrita eletrônica ou, mais genericamente, o mundo digital, deveria acabar com o controle manual da escrita, ou com as lógicas que controlam a publicação impressa de um livro, uma revista, um jornal, e que não são da web? A resposta depende, também, da nossa vontade coletiva.

Fonte: Revista Educação UOL

Viagem Literária

Projetos associam o prazer da leitura ao turismo para ampliar a experiência do conhecimento e o contato com os locais visitados



A literatura e a viagem proporcionam a ampliação de horizontes. No contato com um livro ou com uma cultura e uma geografia diferentes das que tem acesso cotidiano, a pessoa é levada a questionar e interpretar novas realidades. Essa relação com o outro ajuda a conhecer novos pontos de vista e renovar as ideias.

Com o objetivo de enriquecer a experiência do viajante, o Sesc desenvolveu o projeto Meus Livros de Viagem, que oferece uma seleção de obras literárias que podem ser consultadas durante as excursões rodoviárias do Programa de Turismo do Sesc (veja boxe Democratização do Turismo).

Criada na unidade Consolação, em 2008, a atividade também acontece em Araraquara e São Carlos e será ampliada em 2012. Assim que as pessoas se acomodam no ônibus, o guia turístico apresenta o acervo e organiza a retirada e devolução dos volumes, que ficam disponíveis em uma mala.

Há livros, guias turísticos, histórias em quadrinhos e CDs que abordam o tema de destino, o universo da viagem, além de outras obras da literatura brasileira e estrangeira de assuntos variados. “Se a viagem tem um caráter mais socioambiental, colocamos títulos nessa linha.

Podem ser livros de ficção que se relacionem aos espaços por onde a excursão vai passar, de pesquisa histórica, de arquitetura, costumes, inclusive livros de ilustração”, afirma o coordenador de programação do Sesc Araraquara, Thomas Castro.

O objetivo da atividade é incentivar a leitura, oferecer informações complementares sobre o destino, além de servir como uma forma de entretenimento durante o trajeto rodoviário. “Há pessoas que retiram dois ou três títulos durante a viagem; em um universo de cerca de 45 pessoas, isso resulta em aproximadamente 130 atendimentos da mala”, diz Castro.

De acordo com a guia de turismo do Sesc Sonia Rosa Alcala, todos se interessam pelos livros, das crianças aos idosos, já que há obras para todas as idades. “O projeto vai ao encontro da expectativa do passageiro porque a pessoa se entretém e troca ideias com quem está do lado sobre o que leu”, diz ela. “Eles acabam fazendo duas viagens, a viagem física para o lugar que estão conhecendo e a viagem através da leitura.”

De acordo com a Assistente de Turismo Social da Gerência de Programas Socioeducativos (Gepse) Denise Kieling, o projeto está ligado à concepção de turismo de experiência, que pretende marcar o viajante de maneira significativa, aprofundando seus conhecimentos. “Os guias abordam muito a cultura de cada local, falam sobre as festas populares, as principais personalidades; então a pessoa desenvolve um olhar diferente sobre aquele ambiente, a experiência vai além do sol e da praia”, afirma a técnica do Programa de Turismo Social da unidade Consolação Ana Cristina de Souza.

Outras viagens 

O Sesc também promove outras ações que relacionam turismo e literatura sem necessariamente envolver locomoção, como bate-papos com escritores, jogos, contação de histórias, oficinas e expedições virtuais pela internet. Entre os destaques da programação está o recital poético Rota Literária em Santos, que apresenta um panorama da produção literária sobre o porto de Santos, com textos de Pablo Neruda, Elizabeth Bishop, Narciso de Andrade, entre outros.

Existem ainda as viagens temáticas que abordam a literatura, como o Caminhos de Machado no Rio de Janeiro. O objetivo é estimular os participantes a imaginarem a sociedade do século 19 a partir da comparação de locais da cidade com a leitura de trechos da obra do escritor organizados em uma apostila desenvolvida para a excursão. No ônibus, além de obras de Machado de Assis disponíveis para consulta, são exibidos os filmes O Rio de Machado de Assis e Quanto Vale ou é Por Quilo, baseado no conto Pai contra Mãe.

Democratização do Turismo

As excursões rodoviárias e os passeios de um dia apresentam aos viajantes aspectos da natureza e cultura do país

Desde a década de 1990, a média anual de participantes do Programa de Turismo Social do Sesc varia entre 75 e 80 mil, sendo que cerca de 60% desse total corresponde a hóspedes do Centro de Férias Sesc Bertioga, onde as atividades do programa tiveram início em 1948. Realizadas durante o ano, as viagens estimulam o contato com a natureza e cultura das regiões visitadas e são divididas em passeios de um dia e excursões rodoviárias.

A primeira explora trajetos mais curtos, como um bairro, uma rua ou uma cidade vizinha, e tem como objetivo incentivar um olhar diferente sobre aspectos do cotidiano. Exemplo dessa modalidade, a expedição São Paulo – Capital Nordeste inclui passeio à rua Paulo Afonso, no Brás, para conhecer o comércio popular de produtos nordestinos, almoço em restaurante típico e ida ao Centro de Tradições Nordestinas.

Já as excursões ?rodoviárias contemplam diversos estados do país e têm duração de 2 a 12 dias. Um dos roteiros é o Imigração e Natureza, Litoral e Interior – Blumenau-SC, que inclui passeio de barco pela baía da Babitonga, no trecho de Joinville a São Francisco do Sul, e visita a locais que revelam a influência da imigração italiana e alemã no estado.

De acordo com a Assistente de Turismo Social da Gerência de Programas Socioeducativos (Gepse) Denise Kieling, um dos aspectos explorados nas viagens é a vivência da pessoa com a gastronomia, danças e músicas locais, os ofícios artesanais, a tradição oral e narrativa e a religião. “Nesse processo, os turistas são estimulados a encontrar um novo universo de referências, apreendendo conhecimentos enquanto experimentam o local visitado e fazem sua própria leitura de mundo”, diz.

Fonte: Revista E