quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O mundo que lê

Entrevista - Roger Chartier | Edição 177
Matéria publicada em 20/12/2011

Historiador francês afirma que alfabetização crescente e maior disponibilidade de textos na era digital aumentaram o interesse pela leitura

Carmen Guerreiro

A humanidade nunca leu tanto quanto hoje. Por um lado, a era digital faz com que os textos estejam mais disseminados. De outro, a população mundial é cada vez mais alfabetizada. Nesse cenário, descrito pelo historiador francês Roger Chartier, é papel da escola ensinar aos jovens que existem diferentes formas de ler para diferentes necessidades. E, se as salas de aula devem incorporar a presença de computadores, internet e tablets como ferramentas, também é fundamental que os professores continuem a trabalhar a leitura de livros clássicos. "Não porque eles são 'clássicos', mas porque, com outros, mas talvez melhor do que outros textos, ajudam a pensar sobre o mundo, natural ou social, a compreender as relações com os outros, a fazer as perguntas essenciais da existência e a desenvolver uma crítica às instituições, às informações, às autoridades", defende Chartier. Profundamente respeitado e estudado no Brasil e no mundo, Chartier é professor da Universidade da Pensilvânia e do Collège de France, diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Ehess), uma das mais importantes faculdades de história do mundo, e é considerado atualmente um dos principais pensadores no que se refere à história do livro e dos hábitos sociais de leitura. Em entrevista à repórter Carmen Guerreiro, o historiador francês fala sobre a importância das diferentes plataformas digitais para a leitura no mundo de hoje, e também frisa sua tese de que o texto muda de acordo com o meio no qual foi publicado - porque mudam também a formatação, a maneira de folhear ou fazer referências, a atenção que se exige. Além disso, o texto está sujeito ao próprio contexto de quem o lê. Para ele, classe social, idade, sexo, religião e outras características são fundamentais para determinar que tipo de leitura uma pessoa fará de um texto. Chartier lembra, no entanto, que na escola a leitura não pode ser reduzida a "exigências utilitárias". "Os livros devem também fazer sonhar, divertir, permitir a reflexão, desenvolver o espírito crítico", afirma.


O senhor defende que a leitura é muito pessoal e que seu significado depende do formato em que ela se apresenta e da interpretação que se dá ao texto. O que isso significa?

Toda leitura é um encontro entre um texto e um leitor. Mas, por um lado, o texto lido está sempre em um meio físico de escrita (um livro, uma revista, uma tela), o que contribui para o seu significado. Neste sentido, podemos dizer que formas materiais de escrita afetam o significado dos textos. Esta é a forma do objeto escrito, do formato do livro, do layout, da presença ou não da imagem, etc. Por outro lado, a liberdade de interpretação de cada leitor depende das habilidades, hábitos, normas e práticas de leitura que ele ou ela compartilha com outros leitores que pertencem à mesma "comunidade de leitura", definida por classe social, idade, sexo, religião, etc. A partir daí, surge a ideia de que um texto se transforma. Mesmo que ele não mude em sua literalidade, ao mudar de formas materiais e ao mudar seus leitores - ou leituras.

Como isso funciona na escola, em que se cobra a aquisição do mesmo conhecimento de todos os alunos?

Aplicada à classe, esta perspectiva deve levar à compreensão de como a materialidade dos textos lidos (no livro, na sala de aula ou na tela do computador) ajuda a indicar o seu status, seu uso, seu significado. E também para compreender o que se espera dessa leitura particular que é a leitura na escola, diferente em suas exigências e seus ensinamentos de outras leituras, feitas em casa ou em um espaço público.

O senhor defende que a revolução do livro eletrônico é talvez mais importante do que a descoberta de Gutenberg. Por quê?

Johannes Gutenberg inventou uma nova técnica para a reprodução de texto, acrescentando ou substituindo a imprensa para a cópia do manuscrito. Mas o livro antes ou depois de Gutenberg manteve suas mesmas estruturas fundamentais: as folhas dobradas, contidas em uma encadernação ou capa, e que distribui o texto em folhas e páginas. Este tipo de livro, que nomeamos códex (ou códice), estabeleceu-se no Ocidente entre os séculos 2 e 4 d.C., quando substituiu os rolos, que foram os livros dos gregos e romanos. Com o códice permitiu-se fazer ações antes impossíveis, como escrever lendo, fazer a paginação, um índice definido, folhear um livro, comparar facilmente diferentes passagens. Mas esta primeira revolução do livro não alterou a técnica de reprodução do texto, ainda atribuída somente à cópia do manuscrito. A revolução do e-book é uma revolução técnica (como a invenção da imprensa), uma revolução da plataforma da escrita (como a invenção do códex) e uma revolução na leitura, que desafia as categorias e práticas que definem a relação com a escrita desde o século 18.

Diz-se que os jovens de hoje são desinteressados pela leitura. Como a escola pode reverter esse quadro, levando em conta que precisa trabalhar os "clássicos" da literatura?

É seguro dizer que o diagnóstico que afirma a rejeição da leitura entre os jovens deve ser corrigido, tanto pelo sucesso de certas obras ou séries como pelo fato de que telas de computador são telas de texto. A humanidade nunca leu tanto quanto agora. Porque os textos estão em toda parte, porque a alfabetização se tornou necessária devido ao comércio e à administração, porque o mundo digital é basicamente um mundo por escrito. A questão é, portanto, a das práticas que não são mais da tradição literária ou de ensino. Daí o papel da escola. Ela deve ensinar as habilidades necessárias para nossos futuros cidadãos ou consumidores que serão confrontados com a escrita. Deve mostrar que existem diferentes maneiras de ler para diferentes necessidades. Também deve organizar a ordem dos discursos e, assim, manter o lugar dos "clássicos", não porque eles são "clássicos", mas porque, com outros, mas talvez melhor do que outros textos, ajudam a pensar sobre o mundo, natural ou social, a compreender as relações com os outros, a fazer as perguntas essenciais da existência e a desenvolver uma crítica às instituições, às informações, às autoridades.

A forma de dar aula vai mudar por conta das mudanças às quais os livros foram submetidos com o advento da plataforma eletrônica?

Não sei. O que eu sei é que as escolas devem ensinar todas as formas da cultura escrita (manuscrita, impressa, eletrônica), conscientizar os alunos de suas diferenças, e os acostumar a usar uma ou outra forma de escrever, para navegar no mundo dos textos como se faz em uma floresta. Sei também que os objetos eletrônicos inventados todos os dias representam um avanço técnico, mas também são mercadorias, que têm um custo abusivo para muitos e que geram lucros (nem sempre justificáveis por sua utilidade). É também uma lição que as escolas devem ensinar em uma crítica sobre a sociedade de consumo. Mas, é claro, um dos deveres das políticas públicas é tornar essas novas oportunidades acessíveis e familiares. Uma última coisa: nas palavras de Emilia Ferreiro, a presença de computadores ou de tablets em sala de aula não resolve por si só os problemas de aprendizagem e transmissão de conhecimentos - e, ao mesmo tempo, pode trazer a "tentação" de reduzir ou excluir o papel essencial dos professores.

Existem hoje experiências digitais com literatura, a exemplo do escritor norte-americano Robert Coover, que encabeça o movimento de "cave writing", no qual o "leitor" imerge em um ambiente 3D e interage com o cenário e personagens da história como se vivesse em seu mundo. Isso muda para sempre a forma como se faz literatura?

As experiências de escrita eletrônica, com ou sem 3D, ainda são marginais. E isso porque, provavelmente, se um autor espera de seu leitor a compreensão da obra que ele escreveu em sua coerência, sua identidade, sua totalidade (mesmo sem ler todas as páginas), o livro impresso continua até hoje o objeto material mais adequado para permitir este reconhecimento. Como sabemos, a leitura na frente da tela é fragmentada, descontínua, combina texto e hipertexto, mas não foca a obra em si. Daí a importância ainda marginal (menos de 10% das vendas nos Estados Unidos, menos de 5% nos países europeus) do mercado do livro eletrônico no negócio de venda de livros. Mesmo os autores que praticam amplamente a escrita eletrônica (aquela de blogs, sites, redes sociais) permanecem fiéis à publicação impressa. As experiências que você menciona vão mais longe porque o texto desaparece ou pode desaparecer em favor de um espaço habitado tanto pelos personagens da ficção quanto pelo leitor. O risco não é o de matar por esse realismo do irreal um dos mistérios da literatura, ou seja, o trabalho da imaginação a partir das palavras na página? O leitor parece ser mais livre na medida em que pode intervir na história, mas o preço dessa liberdade aparente não é o da mutilação de sua imaginação, inteiramente sujeita ao espaço definido para ele pelo autor?

Qual é a importância de livros que envolvam experiências digitais hoje para a cultura da leitura?

Uma das maiores mudanças no mundo eletrônico é a possibilidade, pela primeira vez, de associar em uma única produção textos, imagens e até sons e celulares, letras ou música. A cultura escrita deve aproveitar esta oportunidade para inventar "livros" novos, tanto de ficção quando para o saber. Não devemos deixar apenas ao mercado de entretenimento, por exemplo aquele dos jogos eletrônicos, a capacidade inédita de articular diferentes linguagens em um mesmo projeto estético ou intelectual, como fazem, por exemplo, as artes do espetáculo.

No Brasil, há certa desconfiança dos professores em relação aos e-books e a outros meios de leitura eletrônica. Por que o senhor acha que isso acontece?

Esta relutância ou resistência é muito compreensível (e ela é em parte minha também), já que o texto eletrônico desafia as categorias que definem a escrita, o livro, a obra. Quando ele é livre, gratuito, imediato, o texto eletrônico é muitas vezes coletivo, apaga o nome do autor, é fora da propriedade literária, e justapõe fragmentos. Quando se trata de escrever em forma de e-books, com textos publicados por edições que não permitem a cópia ou a impressão e que os "fecham" aos leitores, a relação é mais forte com o livro impresso, e não com a leitura descontextualizada de fragmentos, sem poder ou querer relatá-los na totalidade da qual eles fazem parte. A ruptura com a ordem da escrita que herdamos é forte e brutal, pois ela faz vacilar as noções de autor singular, de obra original e de propriedade intelectual. A consequência é, portanto, que se a escola não deve ignorar as plataformas de leitura eletrônica, ela deve ensinar seus usos e mostrar o que pode ser esperado em relação a formas mais convencionais de comunicação e publicação.

O que países como o Brasil, que ainda lutam com questões básicas como a alfabetização, podem fazer para transformar a leitura em uma prioridade?

O Brasil e outros países comparáveis fizeram ou fazem da entrada na cultura escrita de todos os seus cidadãos uma prioridade justa e necessária. Esta é a chave para que seja estabelecida uma cidadania verdadeira e a possibilidade de um desenvolvimento social e econômico. Mas saber ler e escrever não pode se reduzir a exigências utilitárias. Os livros devem também fazer sonhar, divertir, permitir a reflexão, desenvolver o espírito crítico. A escola deve mostrá-lo, assim como devem acontecer campanhas públicas de instalar o livro e a escrita no coração da cidade, por meio de feiras de livro, encontros nas livrarias, programas nos meios de comunicação visual.

Como um estudioso das tendências de leitura, qual é a sua previsão de como as crianças de hoje vão interagir com a leitura e com os livros como adultos?

Os historiadores são os piores profetas, estão sempre errados. Por isso, vou abster-me de qualquer previsão. Prefiro formular um desejo ou um sonho. Com a era digital e os textos eletrônicos, a humanidade possui uma terceira forma de composição, transmissão e apropriação da escrita, em adição aos dois precedentes: a impressão e a escrita manuscrita. Então, só podemos esperar que se estabeleça a coexistência entre essas três formas, que não correspondem nem aos mesmos hábitos de leitura, nem às mesmas necessidades da escrita. A impressão não removeu a publicação manuscrita, que sobreviveu até o século 19, e talvez mais tarde. A invenção do códice não fez os rolos desaparecerem totalmente nos tempos medievais. Por que a escrita eletrônica ou, mais genericamente, o mundo digital, deveria acabar com o controle manual da escrita, ou com as lógicas que controlam a publicação impressa de um livro, uma revista, um jornal, e que não são da web? A resposta depende, também, da nossa vontade coletiva.

Fonte: Revista Educação UOL

Viagem Literária

Projetos associam o prazer da leitura ao turismo para ampliar a experiência do conhecimento e o contato com os locais visitados



A literatura e a viagem proporcionam a ampliação de horizontes. No contato com um livro ou com uma cultura e uma geografia diferentes das que tem acesso cotidiano, a pessoa é levada a questionar e interpretar novas realidades. Essa relação com o outro ajuda a conhecer novos pontos de vista e renovar as ideias.

Com o objetivo de enriquecer a experiência do viajante, o Sesc desenvolveu o projeto Meus Livros de Viagem, que oferece uma seleção de obras literárias que podem ser consultadas durante as excursões rodoviárias do Programa de Turismo do Sesc (veja boxe Democratização do Turismo).

Criada na unidade Consolação, em 2008, a atividade também acontece em Araraquara e São Carlos e será ampliada em 2012. Assim que as pessoas se acomodam no ônibus, o guia turístico apresenta o acervo e organiza a retirada e devolução dos volumes, que ficam disponíveis em uma mala.

Há livros, guias turísticos, histórias em quadrinhos e CDs que abordam o tema de destino, o universo da viagem, além de outras obras da literatura brasileira e estrangeira de assuntos variados. “Se a viagem tem um caráter mais socioambiental, colocamos títulos nessa linha.

Podem ser livros de ficção que se relacionem aos espaços por onde a excursão vai passar, de pesquisa histórica, de arquitetura, costumes, inclusive livros de ilustração”, afirma o coordenador de programação do Sesc Araraquara, Thomas Castro.

O objetivo da atividade é incentivar a leitura, oferecer informações complementares sobre o destino, além de servir como uma forma de entretenimento durante o trajeto rodoviário. “Há pessoas que retiram dois ou três títulos durante a viagem; em um universo de cerca de 45 pessoas, isso resulta em aproximadamente 130 atendimentos da mala”, diz Castro.

De acordo com a guia de turismo do Sesc Sonia Rosa Alcala, todos se interessam pelos livros, das crianças aos idosos, já que há obras para todas as idades. “O projeto vai ao encontro da expectativa do passageiro porque a pessoa se entretém e troca ideias com quem está do lado sobre o que leu”, diz ela. “Eles acabam fazendo duas viagens, a viagem física para o lugar que estão conhecendo e a viagem através da leitura.”

De acordo com a Assistente de Turismo Social da Gerência de Programas Socioeducativos (Gepse) Denise Kieling, o projeto está ligado à concepção de turismo de experiência, que pretende marcar o viajante de maneira significativa, aprofundando seus conhecimentos. “Os guias abordam muito a cultura de cada local, falam sobre as festas populares, as principais personalidades; então a pessoa desenvolve um olhar diferente sobre aquele ambiente, a experiência vai além do sol e da praia”, afirma a técnica do Programa de Turismo Social da unidade Consolação Ana Cristina de Souza.

Outras viagens 

O Sesc também promove outras ações que relacionam turismo e literatura sem necessariamente envolver locomoção, como bate-papos com escritores, jogos, contação de histórias, oficinas e expedições virtuais pela internet. Entre os destaques da programação está o recital poético Rota Literária em Santos, que apresenta um panorama da produção literária sobre o porto de Santos, com textos de Pablo Neruda, Elizabeth Bishop, Narciso de Andrade, entre outros.

Existem ainda as viagens temáticas que abordam a literatura, como o Caminhos de Machado no Rio de Janeiro. O objetivo é estimular os participantes a imaginarem a sociedade do século 19 a partir da comparação de locais da cidade com a leitura de trechos da obra do escritor organizados em uma apostila desenvolvida para a excursão. No ônibus, além de obras de Machado de Assis disponíveis para consulta, são exibidos os filmes O Rio de Machado de Assis e Quanto Vale ou é Por Quilo, baseado no conto Pai contra Mãe.

Democratização do Turismo

As excursões rodoviárias e os passeios de um dia apresentam aos viajantes aspectos da natureza e cultura do país

Desde a década de 1990, a média anual de participantes do Programa de Turismo Social do Sesc varia entre 75 e 80 mil, sendo que cerca de 60% desse total corresponde a hóspedes do Centro de Férias Sesc Bertioga, onde as atividades do programa tiveram início em 1948. Realizadas durante o ano, as viagens estimulam o contato com a natureza e cultura das regiões visitadas e são divididas em passeios de um dia e excursões rodoviárias.

A primeira explora trajetos mais curtos, como um bairro, uma rua ou uma cidade vizinha, e tem como objetivo incentivar um olhar diferente sobre aspectos do cotidiano. Exemplo dessa modalidade, a expedição São Paulo – Capital Nordeste inclui passeio à rua Paulo Afonso, no Brás, para conhecer o comércio popular de produtos nordestinos, almoço em restaurante típico e ida ao Centro de Tradições Nordestinas.

Já as excursões ?rodoviárias contemplam diversos estados do país e têm duração de 2 a 12 dias. Um dos roteiros é o Imigração e Natureza, Litoral e Interior – Blumenau-SC, que inclui passeio de barco pela baía da Babitonga, no trecho de Joinville a São Francisco do Sul, e visita a locais que revelam a influência da imigração italiana e alemã no estado.

De acordo com a Assistente de Turismo Social da Gerência de Programas Socioeducativos (Gepse) Denise Kieling, um dos aspectos explorados nas viagens é a vivência da pessoa com a gastronomia, danças e músicas locais, os ofícios artesanais, a tradição oral e narrativa e a religião. “Nesse processo, os turistas são estimulados a encontrar um novo universo de referências, apreendendo conhecimentos enquanto experimentam o local visitado e fazem sua própria leitura de mundo”, diz.

Fonte: Revista E

Ler é o melhor exercício para o cérebro

Segundo especialista, o cérebro é como um músculo
Preste atenção naquilo que você lê, vê ou ouve.
Isso ajuda a exercitar o cérebro
Foto: Shutterstock / Yakobchuk Vasyl

Aos 69 anos, a ginecologista Loreta de Moraes Napp devora livros por prazer — e também por afinidade, já que é casada com o escritor gaúcho Sérgio Napp. Porém, há outro importante motivo por trás do hábito: ela sabe que o bom desempenho da sua memória depende disto.

— A minha preocupação começou cedo, ao observar que as mulheres que eu atendia se queixavam muito de lapsos de memória após a chegada da menopausa.

Hoje, Loreta recomenda leitura às pacientes como uma poderosa aliada para enfrentar as mudanças que a vida traz.

O cientista Iván Izquierdo é um dos maiores pesquisadores mundiais na área de fisiologia da memória e seus artigos e livros já são parte imprescindível das bibliografias básicas dos trabalhos dedicados ao tema.

Nesta entrevista, concedida ao caderno Vida, de Zero Hora, ele revela que apesar dos avanços na área, não há nada melhor para o cérebro do que devorar livros.

Zero Hora — Qual a grande descoberta sobre a memória nos últimos anos?

Iván Izquierdo — São muitas, principalmente nos últimos 20 anos. Temos conhecido cada vez mais detalhes sobre o mecanismo molecular que leva à formação da memória. Isso também se chama consolidação, porque consolida a informação de diversas procedências da linguagem cerebral na memória, por meio de sinais elétricos e neuroquímicos. Se descobriu, portanto, que comunicação se utiliza, e o que ocorre depois, para a formação da memória e o curso de tempo que leva. Além disso, se estuda hoje que regiões do cérebro participam da extinção, ou seja, a inibição da resposta para que ela não seja usada a qualquer momento. Um exemplo é a memória de medo, que não precisa ser usada toda hora e que serve para ajudar pacientes vítimas de estresse pós-traumático.

ZH — Já é possível, então, apagarmos lembranças desagradáveis? Como é feita essa inibição hoje?

Izquierdo — Não seria bom perdê-las, pois é preciso lembrar de um ocorrido para que o sujeito não repita a situação que a levou ao trauma. Mas os psicoterapeutas já utilizam esse recurso há 30 anos para tratar pacientes vítimas de estresse pós-traumático. Em síntese, é empregada uma técnica que faz com que a pessoa não "acione" a memória em determinados momentos. Ela age assim após ser exposta a estímulos e cenas e a situações que lhe produz medo (uma delas é a cognitivo-comportamental).

ZH — Muitas vezes ficamos nervosos quando queremos lembrar de algo e a coisa está na ponta da língua mas não sai. Quando o "branco" é um problema real?

Izquierdo — O branco é devido à ansiedade, que causa liberação de hormônios suprarrenais chamados corticoides. Eles vão circular no sangue e acabam eventualmente no cérebro, inibindo a memória. Pode acontecer com qualquer um, não é patológico. Ou seja, tem que tratar a ansiedade. Entretanto, o "branco" pode representar um problema real, como a doença de Alzheimer, quando o sujeito passa a esquecer o nome do pai, o ofício que atua.

ZH — Mas se eu estou notando que a minha memória pode ser aperfeiçoada, o que é possível fazer?

Izquierdo — Drogas, como a Ritalina, só são indicadas para quem tem déficit de atenção. Mas quem não tem a doença e quer ter um cérebro saudável, eu recomendo ler. Esse é o melhor exercício que alguém pode fazer com o cérebro. O uso constante da memória a estimula. É como um músculo: quanto mais se usa, melhor funciona. Mas não se deve fazer um uso abusivo da memória. Na hora de dormir, devemos descansar. Cada coisa tem seu momento.

O que ajuda

:: Concentre-se: livre-se das preocupações e preste atenção naquilo que você lê, vê ou ouve.

:: Seja curioso: esteja sempre aberto a receber novas informações e saber o porquê das coisas.

:: Planeje-se: além de dar sentido à vida, ter objetivos nos motiva a ficar atentos.

:: Tenha vida social: ampliar a rede de relacionamentos é um ótimo exercício para o cérebro.

:: Compartilhe: falar sobre o que se viveu treina a memória sobre esses fatos.

O que atrapalha

::Tensão

:: Má alimentação

:: Privação de sono

:: Remédios sem indicação médica

:: Ansiedade

:: Mau funcionamento do organismo

:: Sobrecarga.

Fonte: ZERO HORA

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Escola, leitura e escrita: a necessidade de um olhar externo

Cultura escrita e pensamento crítico

POR Silvia Castrillón


Presidente da Associação Colombiana de Leitura e Escrita (Asolectura), é formada em Biblioteconomia e especializada em Educação. É uma das mais destacadas autoridades latinoamericanas no desenvolvimento de bibliotecas.
Presidente da Associação Colombiana de Leitura e Escrita (Asolectura), é formada em Biblioteconomia e especializada em Educação. É uma das mais destacadas autoridades latinoamericanas no desenvolvimento de bibliotecasEspecialista em políticas públicas de apoio à leitura e escrita, trabalha na concepção e implantação de projetos e campanhas de fomento ao livro e à leitura e bibliotecas públicas e escolares.
Durante sua direção, a Fundação para o Fomento à Leitura (Fundalectura) recebeu em 1995 o premio IBBY-ASAHI, a mais importante distinção outorgada ao trabalho na promoção de leitura. Participa do comitê executivo da IBBY (International Board on Books for Young People) e é consultora de organismos internacionais como a Unesco, a Organização dos Estados Americanos, Organização dos Estados Íbero-Americanos, Cerlalc e ONU, entre outros. Autora do livro O direito de ler e de esrever (Pulo do Gato).

As considerações que apresento a seguir são fruto de uma reflexão mantida com grupos de professoras e professores de Bogotá.

Partimos de uma realidade adversa: as escolas não possuem espaços para uma reflexão que lhes permita tomar distância frente a suas práticas pedagógicas, observá-las “de fora”, de tal maneira que seja possível analisá-las, posicioná-las no contexto histórico e local que as determina, e pensar nelas como processos que têm, ou deveriam ter, consequências em longo prazo.

Isso ocorre, entre outros motivos, porque os modelos educativos que se impõem, “onde a única coisa que conta são os objetivos alcançados e os resultados educativos que se “espera” que os alunos alcancem depois de um período de tempo” (Fernando Bárcena e Joan-Carles Mèlich. La educación como acontecimiento ético) que pretendem formar pessoas competentes para um trabalho – mesmo que incerto –, “deixam a educação sob o domínio do planejamento tecnológico” que não dá lugar ao pensamento nem à reflexão. Tais modelos deixam de lado, de acordo com as palavras de Bárcena e Mèlich, a educação como acontecimento ético.

Os professores conhecem bem sua prática, mas necessitam submetê-la a um olhar externo que propicie o distanciamento ou estranhamento, como propõe a dramaturgia brechtiana. Um olhar externo que, ademais, leve consigo a teoria – que tampouco os professores desconhecem –, mas que, de novo, não contam com as condições que lhes permitam libertar-se dos modismos que regem a circulação da teoria na academia; apropriar-se e ter com ela um contato mais profundo e, sobretudo, fazer uso da teoria para submeter sua prática à observação, e entender melhor os objetivos de seu trabalho e, para o caso da formação de leitores, verificar se suas práticas produzem transformações de sentido que a cultura escrita pode ter para os alunos. A maioria dos docentes não se faz perguntas como: “Por que ler?”; “Que sentido tem a leitura na sociedade atual?”; “O que é ensinar a ler e a escrever?”; “Por que a escola ensina a ler e a escrever?” E outras perguntas orientadas para que se entenda melhor o porquê e o para quê da leitura em um contexto histórico e social.

Nossa visão, então, é externa, que bem reconhece o difícil trabalho dos professores, não é condescendente, pelo contrário trata de rever posturas, lugares comuns, preconceitos arraigados, que funcionam como mecanismo de defesa a críticas e a exigências que a sociedade lhes fazem – sem que tenham muito claro o que se espera deles, professores – e quais são suas limitações no momento de cumprir com o que lhes é exigido.

A primeira pergunta que nos propomos se refere às motivações que os estudantes têm para aprender. “O que os move?”; “O que os convoca?”; “Eles consideram que ler e escrever pode ter algum sentido para suas vidas presentes e futuras?”.

As respostas nos conduzem, em primeiro lugar, ao tema das mediações. É absolutamente claro que quase a única motivação para eles é a nota. Por trás dessa exigência há pressões que provêm do sistema educacional (desempenho dos alunos em diferentes tipos de provas nacionais e internacionais e estímulos que outorgam os colégios, com base nos resultados), o que, por sua vez, está pressionado por toda a sociedade, interessada em resultados utilitaristas, imediatos e pragmáticos.

Parece que o único propósito que motiva toda a ação educativa se encerra na obtenção das notas. As crianças, especialmente a partir do Ensino Fundamental II, quando começam a perder alguns estímulos e a entender que o que se espera deles é uma qualificação, pedem nota; os pais também a exigem, pois partem do pressuposto de que se está “perdendo tempo”.

Considerar a nota como quase a única motivação relaciona-se aos momentos que escapam do pragmatismo e da exigência de avaliação: quando se propõe a leitura como uma prática lúdica e recreativa. Esse é um tema de importantes debates, que envolvem o significado e o sentido que a sociedade e, por fim, a escola dão à leitura. É possível, ainda, pensar a leitura como construção de sentido? A leitura permite um olhar mais crítico e menos superficial da realidade? A escola e a sociedade exercem diferentes papéis na formação de pessoas competentes para o trabalho e de cidadãos aptos e funcionais para a sociedade de consumo? E então, o livro e a leitura deixam de ter sentido na formação de cidadãos críticos e de seres humanos com capacidade para pensar e para escolher, com responsabilidade ética, frente aos demais? Ou definitivamente a escola foi cooptada pelos interesses particulares da sociedade de consumo como uma instituição ao serviço do que o mercado propõe como entretenimento de massa? E o livro e a leitura entram também para formar parte das indústrias culturais que respondem aos interesses particulares e que só têm fins lucrativos?

Não se pode negar o prazer que a leitura produz em uma pessoa que superou a dificuldade de tornar-se leitor, ou melhor, que supera diariamente o enfrentamento com um texto considerado complexo. Porém, o prazer como prerrogativa para atrair a leitura é um dos lugares-comuns mais cristalizados nas instituições em que a leitura e a escrita deveriam ser preocupação central: a escola e a biblioteca. E esta, ou é uma ordem demagógica que pretende destituir a leitura de toda dificuldade e oferecer a possibilidade de acessá-la sem esforço; ou, de fato, destitui-se, com isso, a leitura de sentido que se pode ter na busca pelo significado e se apresenta como uma mercadoria, um bem de consumo, um meio para a evasão, em que a intermediação da escola não faria falta.

O professor Luís Percival Leme Britto afirmava – há alguns anos, a partir de questões suscitadas por Habermas –, em uma conferência apresentada no Rio de Janeiro, que o legado conservador da contracultura dos anos 1960 foi o da subjetividade e do hedonismo, em suma, um idealismo reacionário, uma afirmação da subjetividade absoluta, da felicidade individual plena, que produz uma ilusão de liberdade. As principais formas de alienação se dão através das indústrias da informação e do entretenimento, entretenimento que é contraposto à arte e que propõe o esquecimento, de acordo com as palavras do professor Britto (notas tomadas na conferência apresentada no Simpósio do Salão do Livro Infantil do Rio de Janeiro, em 27 de maio de 2008).

O livro e a leitura foram também colonizados pela indústria do entretenimento e, em minha opinião, somente a escola poderia fazer algo por seu resgate. Dito de outra forma: é necessário que a escola não seja cúmplice dessa colonização e se converta em um espaço – talvez único – de resistência.

A pergunta que se deveria se fazer é: qual é o sentido que a leitura tem para a sociedade e por que é importante que dela se ocupem as instituições como escola e biblioteca?

Voltemos ao tema da nota. A avaliação quantitativa, como única motivação para aprender a ler e a escrever (diga-se de passagem, parece que esse é o único incentivo para todas as aprendizagens, exceto nos casos em que claramente se pode encontrar um sentido prático direto para o trabalho). Nem a escola nem a família oferecem aos estudantes pistas claras acerca da importância que pode ter para eles aprender a ler e a escrever e, muito menos, transformarem-se em pessoas que frequentem a leitura e pratiquem a escrita depois da escola. Na sociedade, a leitura e a escrita não são práticas cotidianas. Por que, então, os estudantes devem se submeter à semelhante esforço se não encontram na leitura utilidade prática para a vida futura? “Professor, para que isso serve?” é uma pergunta frequente em sala de aula. A única resposta que os professores têm a mão é o lúdico.

mediação de leitura/cor da letra
A COR DA LETRA

A NECESSIDADE 

“A ninguém interessa aprender coisas inúteis. Desde que nascemos, nossa necessidade de aprendizagem está ligada ao nosso instinto de sobrevivência. Queremos saber o que nos resulta necessário, e procuramos fora de nós o que existe como um esboço ou uma intuição dentro de nós mesmos”. (Antonio Muñoz Molina. La disciplina de la imaginación, p. 214. Grifo nosso.)

As palavras de Muñoz Molina nos conduzem a um tema de reflexão que considero importante: a necessidade como motivação para a aprendizagem. É possível que a escola produza – na contramão do que a sociedade propõe – uma ideia da necessidade que vá além do cotidiano e da sobrevivência imediata, e além das expectativas de consumo de bens supérfluos impostas pelos meios de comunicação de massa?

John Berger, autor inglês, em seu livro de ensaios El tamaño de una bolsa escreve as seguintes considerações:

“Até pouco tempo, a história, todas as memórias pessoais, todos os provérbios, as fábulas, as parábolas, apontavam o mesmo: a luta perene, atroz e ocasionalmente charmosa de viver com a Necessidade; a Necessidade que é o enigma da existência e que, após a Criação, não deixou de aguçar o espírito humano.
 
A Necessidade produz a tragédia e também a comédia [...].
 
Hoje, deixou de existir o espetáculo do sistema. E, por conseguinte, já não se comunica nenhuma experiência.” (Grifo nosso.)

Tratar da leitura, e especificamente da leitura de literatura, constitui-se numa necessidade, que se associa a outras necessidades do ser humano e que têm sido suplantadas, substituídas, pela sociedade de consumo – o que poderia ser, talvez, uma maneira de resgatar para os meninos, as meninas e os jovens, o sentido da leitura e da escrita e neles criar o desejo de aprender, ainda que a custa de esforços, que estariam dispostos a superar com gosto, se soubessem que o resultado é a satisfação de uma verdadeira necessidade.

Porém, antes de apresentar algumas considerações sobre as necessidades que, a meu ver, são transcendentes para o ser humano, gostaria de esclarecer um ponto, e para isso vou me valer de Henry Giroux, um expoente da pedagogia crítica, que afirma o seguinte em um artigo sobre ideologia e o processo de ensino:

“A interface entre a ideologia e a experiência individual pode posicionar-se dentro de três áreas específicas: a esfera do inconsciente e a estrutura das necessidades; o âmbito do senso comum e a esfera da consciência crítica”. (Henry Giroux. Pedagogía y política de la esperanza, p. 119.)

Creio necessário o esclarecimento anterior, pois não quero me posicionar no âmbito das necessidades inconscientes, determinadas por uma ideologia que se impõe sem resistências, nem no senso comum (que, contrariamente ao provérbio, é o mais comum dos sentidos), mas sim na esfera da consciência crítica. Quero dizer que me interessa apontar a leitura como necessidade, na medida em que contribua para produzir consciência crítica. Giroux, no artigo citado, escreve:

[...] “é essencial a inquietação fundamental de saber como fazer com que a escola signifique para que seja crítica, e como podemos fazê-la crítica para que seja emancipatória.” (p. 112.)

Então, quais poderiam ser as necessidades que, de uma maneira ou de outra, podem se associar com a leitura, e de maneira mais concreta, com a leitura de literatura?

O que se apresenta é uma especulação, que parte de reflexões pessoais acerca do sentido que a leitura pode ter para os seres humanos, no momento presente. Parto do pressuposto de que não existe um ser humano essencial, com necessidades que se sobreponham às suas especificidades históricas, étnicas, geográficas, econômicas, de classe, de gênero etc. Mas, também considero que, atualmente, quando predomina um discurso fragmentador sobre a diversidade, não estamos dispostos a reconhecer que há mais elementos que nos unem do que os que nos separam. De qualquer forma, apresento, somente a título de discussão, as reflexões que se sucedem e que pretendem resgatar o sentido do universal, sem dogmas, e comum aos seres humanos. Por outro lado, tampouco acredito que a leitura e a escrita constituam – somente elas – possibilidades de satisfação das necessidades que enumero a seguir.

1. PENSAR   

Em primeiro lugar, quero me referir à necessidade de pensar, que deveria ser resgatada pela escola, pois é justamente o pensamento uma das condições do ser humano na atualidade que se encontrada assediada de mil formas.

“Começo, talvez, a falar como os mais velhos – disse Yolanda Reyes em uma coluna do jornal El Tiempo, de Bogotá –, mas jamais tinha vivido uma época em que foi tão estranho pensar ou ensinar a pensar, nem havia encontrado tantos olhos vendados, tanto silêncio eloquente e tantas portas fechadas à argumentação.” (Yolanda Reyes. “Prohibido hacer preguntas”. El Tiempo. Bogotá, 15 de junho de 2009.)

Parece absurdo dizer que pensar constitua uma necessidade que se promove e ensine. Porém, não é exagero falar que o pensamento crítico, reflexivo esteja em decadência. Os meios de comunicação de massa impõem um pensamento hegemônico, uma maneira única de pensar e desejar. O italiano Giovanni Sartori, quando trata do retrocesso da civilização e do homem, no que se refere à capacidade de pensar, diz:

[...] “o regresso da incapacidade de pensar (o pós-pensamento) ao pensamento é todo morro acima. E esse regresso não terá lugar se não soubermos defender sobremaneira a leitura, o livro, em uma palavra: a cultura escrita.” (Giovanni Sartori. Homo ludens, p. 149.)

Por um lado, quando a escola pretende formar cidadãos, está mais empenhada em alcançar consensos acerca do que tem valor para a sociedade e para os indivíduos que em criar condições que permitam a formação de um pensamento crítico que conduza a escolhas próprias que não excluam as responsabilidades com os demais. E, por outro, a tecnologia e o pensamento científico positivista oferecem à escola muitas seguranças que se propõem isentas de esforço, de dificuldade, conduzindo ao regresso ao pensamento.
2. APRENDER  

“Não há desejo mais natural que o desejo de conhecer”. Assim inicia o ensaio Da experiência, de Michel de Montaigne. Conhecer, aprender, como algo diferente de acumular informação, entender, compreender, aprender como possibilidade de apropriação do mundo, como meio para se sentir no mundo. A leitura e a escrita podem, de alguma maneira, contribuir para a satisfação dessa necessidade, que se manifesta ao longo da vida e foi substituída, na pós-modernidade, e nas supostas “sociedades da informação e do conhecimento”, pela acumulação de informação, que oferece a sensação de estar inteirado de conhecer, de estar em dia, ou pelo modelo educacional atual, que se trate do eufemismo do life-long learning, pois propõe, para toda a vida, nada mais que um conhecimento que se perde e que impõe uma visão deste, associada à tecnologia e às competências para o trabalho.

3. BELEZA  

“No filme Beleza americana, o jovem Rick Fitts, um dos protagonistas, manifesta sua necessidade de captar, com sua câmera, a beleza que o mundo oferece, encontrando-a em cenas insólitas ou violentas: a dança de uma sacola de plástico com o vento, uma pomba morta. Acumular beleza para confrontar o mundo parece ser uma busca constante entre os adolescentes. O problema é que eles não sabem onde procurá-la e a beleza que a sociedade lhes oferece só os conduz à depressão e, na melhor das hipóteses, à perda de todo interesse” (Silvia Castrillón. “A leitura dos clássicos”. Por que ler e escrever?). É possível que a literatura nos ajude a viver: “viver a vida como obra de arte, prestando atenção ao que nos acontece”, como propõe Fernando Bárcena.
4. CONSTRUÇÃO DE SI MESMO E DA SUBJETIVIDADE  

O ser humano necessita de narrações mediante as quais possa construir sua biografia. A subjetividade se expressa e se configura por meio de relatos e testemunhos. Inúmeros autores se manifestam em relação a isso. A ficção que alimenta a infância e a adolescência na sociedade contemporânea, através, especialmente, da televisão, é uma ficção isenta de complexidade, maniqueísta, estereotipada e não dá conta da diversidade, nem pode ser sustento de uma subjetividade com um senso ético, social e político e de responsabilidade do Outro.

Peter McLaren propõe que:

[...] “é necessário compreender a necessidade humana de dar vida a símbolos, linguagem e gestos. A voz dos estudantes é um desejo nascido da biografia pessoal e do sedimento da história; é a necessidade de construir-se e se afirmar dentro de uma linguagem capaz de reconstruir a vida privada e revesti-la de sentido, de valor e confirmar a própria presença no mundo.” (Peter McLaren. Pedagogia, identidad y poder, p. 23.)

A leitura e a escrita, e de uma maneira muito especial aquelas de literatura, não só oferecem alimento para a construção da subjetividade e dão voz para expressá-la, como também permitem entender que esta construção não se dá de maneira ilhada, sem a responsável acolhida do Outro.
5. ATUAR  

A filósofa alemã Hannah Arendt estabelece uma diferença entre o cultivo, o trabalho e a ação, sendo o cultivo próprio dos processos biológicos para a subsistência como indivíduos e espécie; o trabalho, próprio do ser humano para criar objetos de uso e satisfação pessoal, o que possibilita condições materiais que vão para além da sobrevivência imediata: a produção ou aquisição de utensílios, ferramentas, artefatos, mercadorias etc, que beneficiam o homem, ou lhe dão a ilusão de melhorar sua existência; a ação como própria de um ser humano político, ético e com vistas a transformar sua realidade e que, segundo Joan-Carles Mèlich “se revela através do discurso e da palavra”. A leitura e a escrita permitem uma apropriação e uma tomada da palavra, visando a “uma leitura crítica do mundo”, permitindo a construção de um lugar mais digno para todos e a expressão de desejos e aspirações.

De acordo com McLaren: “É preciso que tanto os docentes como os alunos estejam em condições de se posicionar como ativos agentes sociais, culturais, históricos” (McLaren. Pedagogía crítica, resistência cultural y la producción del deseo.)

Paulo Freire propõe: “O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências.” (Paulo Freire. Pedagogia da autonomia, p. 85) e para isso é necessário “uma séria e rigorosa leitura de textos.” (Paulo Freire. Política e educação, p. 55.)

As considerações anteriores, obviamente, são apenas um esboço das necessidades com as quais se podem associar a leitura. Existem outras.

“A lista é grande. Ler responde a uma necessidade [...] de reparação, de qualificação, de auto-afirmação, de confirmação, de glorificação, de projeção do futuro e do passado, de sublimação, de exploração, de identificação, de educação, de “desidentificação”, de despersonalização, de criação ou, simplesmente, antes de tudo, de jogo, ou seja, de entrada no domínio do mundo em que se vive.” (Marc-Alai Ouaknin. Bibliothèrapie.)

Por fim, não posso evitar a tentação de citar um trecho de Simone Weil sobre “a necessidade da alma”:

“O primeiro estudo a se realizar é o das necessidades, que são a vida da alma, como as necessidades de alimento, de sono e de calor são a vida do corpo. Há que enumerá-las e defini-las.
Não se deve confundir nunca as necessidades da alma com os desejos, caprichos, as fantasias e os vícios.” (Simone Weil. Echar raíces, p. 27.)

O PAPEL DA ESCOLA

As reflexões anteriores levam ao conhecimento dos debates certo desestímulo entre os professores e professoras, pois eles não vislumbram de que maneira poderão oferecer aos alunos as possibilidades para a descoberta das necessidades. Porém, ao fazer uma análise dos desejos, das angústias dos adolescentes, e a maneira como expressam sua indignidade com o mundo, começamos a nos dar conta de que não somente é possível, como também necessário – eu diria urgente – discutir questões relativas à leitura e à escrita, pois os jovens não só são receptivos às propostas que lhes indiquem um caminho emancipador mais humano, como também reclamam ações nesse sentido, mediante diferentes tipos de demandas que, geralmente, não compreendemos.

A reflexão que segue se orienta pela maneira como a escola pode criar as condições para a descoberta da necessidade de apropriação por parte dos alunos, mesmo que seja por alguns deles.

CRIAR AS "CONDIÇÕES DA POSSIBILIDADE"

O PROFESSOR  

A condição de um professor leitor, que se mostre aos seus alunos como tal. Todos os professores leem e escrevem, mas geralmente o fazem em função de seu trabalho como professores: apresentam trabalhos, revisam textos, fazem ditados, anotam questões dos cursos de que participam, em algumas ocasiões escrevem acerca de sua experiência etc. Mas não são essas práticas que poderiam motivar os estudantes a se interessar pela leitura e pela escrita, pois a maioria não tem como projeto de vida o magistério. São outras práticas que oferecem aos alunos ocasião de descobrir a leitura e a escrita como necessidades. Por outro lado, fora da escola, são poucas as ocasiões em que os alunos se apresentam para pessoas como usuários da cultura escrita.

Porém, o que queremos propor não é que o professor seja um exemplo de leitor a ser seguido, posto que estaríamos contradizendo nossa concepção de leitor. Um leitor não segue modelos, não copia. A leitura parte da dúvida, da pergunta, da ignorância. A atitude do leitor não é de “quem tudo sabe”, e, portanto, se encontra satisfeito e complacente com o que já sabe e só lê para retificar o que já conhece. A atitude do leitor é contrária a essa segurança. É por isso que nos parece que o professor ao invés de se apresentar como exemplo, que, de alguma maneira é impositiva, deve oferecer testemunho de sua prática leitora. As práticas de leitura e de escrita do professor não devem somente demonstrar seu interesse por essas atividades, também devem dar conta de sua condição de leitor, como alguém que tem dúvidas, que não sabe tudo, que pode mudar de opinião, que se deixa transformar.

Ou, como disse Michèle Petit, quando trata de seus professores: “[...] tal docente singular tem a habilidade de ter introduzido [a seus alunos] uma relação com os livros diferentes do dever cultural ou da obrigação austera, de ter suscitado neles encantamento, mas também a necessidade de pensar, quando elaboram, frente aos alunos, um pensamento vivo, em movimento, em vez de aplicar um esquema.” (Grifo nosso).

Isso não quer dizer que o papel do professor seja o de retroceder no momento de oferecer opiniões, desenvolver propostas, discutir sua opinião, entrar em debate. Não se trata de ser irredutível, de não intervir, algo que está comum, ante o pretexto de respeitar a suposta autonomia dos estudantes e seu direito ao desenvolvimento da livre personalidade, o que, em última instância se configura como abandono. “Em nome do respeito que devo aos alunos não tenho por que me omitir”, disse Paulo Freire. (Paulo Freire. Pedagogia da autonomia, p. 66.)
OS BONS LIVROS  

Se a escola quer que a leitura responda às necessidades de que tratamos acima (beleza, pensamento, ficção etc.) é necessário que isso aconteça mediante os bons livros. Melhor dito: só os bons livros permitem essa resposta. Livros que mobilizem o pensamento, que permitam verdadeiras experiências estéticas, que ofereçam possibilidades de constituição de uma subjetividade combinada com a complexidade que isso implica e, por sua vez, deem lugar ao reconhecimento do “Outro”; há livros que se leem uma vez e se tornam imprescindíveis, são inesquecíveis, deixam marcas. Porém, a escola é, às vezes, condescendente com o argumento de que se parte do interesse da criança pelo livro, sem fazer uma reflexão acerca da maneira pela qual esse interesse foi criado – ou, melhor, imposto – com fins que não são, precisamente, o de estimular a experiência transformadora e o pensamento crítico. Por trás da proposta de que crianças e jovens se tornem leitores há intenções comerciais que só querem formar consumidores acríticos de livros. O mercado oferece muitos livros que reproduzem o que a televisão propõe enquanto esquemas narrativos, personagens estereotipados, linguagem desprovida de riqueza literária, e livros de autoajuda, que pretende suplantar o leitor do exercício de pensar.

A diversidade de práticas de leitura. Uma terceira condição de possibilidade seria a de multiplicar e diversificar as práticas de leitura, desde que estas se realizem com um sentido associado à natureza da leitura e que permitam o descobrimento das necessidades da leitura e da escrita, ligadas às necessidades reais: em outras palavras: que sejam significativas. Esse debate se enriquece com o que propõe Delia Lerner em seu livro Leer y escribir en la escuela, lo real, lo posible y lo necesario.
FAVORECER UMA VERDADEIRA EXPERIÊNCIA DE LEITURA  

Frequentemente os professores se perguntam: o que posso fazer com esse livro? Ou afirmam, quando da leitura de um livro para crianças ou jovens: esse livro é bom “para trabalhar” determinado tema ou valor. Para o professor, o livro não é válido se não se nele uma relação direta com o trabalho prático em sala de aula. Não se concebe a leitura se ela não se materializa em algo concreto, que se pode ver ou medir.
A escola controla a experiência leitora de múltiplas maneiras: com ativismo, com excesso de informação e, especialmente, com a nota como meta única de qualquer prática de leitura e escrita.

O SILÊNCIO COMO CONDIÇÃO PARA A EXPERIÊNCIA   

George Jan em seu livro Los senderos de la imaginación infantil confessa que gostaria de escrever uma pedagogia do silêncio, mas não sobre o silêncio posterior à ordem. A escola deveria oferecer o silêncio como possibilidade de reflexão, pensamento, diálogo interior, sem os quais não é possível uma verdadeira experiência; mas isso não é feito por duas razões: pela impossibilidade de avaliar esses momentos e porque se acredita responder aos interesses dos alunos quando lhes oferece música e ruído estridente.

Sugiro a leitura de Jorge Larrosa – especialmente seu livro La experiência de la lectura – e de Joan-Carles Mèlich – Filosofia de la infinitud – para aprofundar o tema da experiência.

O que foi dito anteriormente não é mais que um ponto de partida para algumas reflexões que a escola está em vias de empreender para romper com os modelos totalizadores e desumanos, ou como disse Emilia Ferreiro: “modelos hegemônicos de comportamentos (individuais e sociais) por parte dos meios de comunicação de massa e de modelos de organização social de um consumismo voraz de objetos, que se tornam objetos de desejo: automóveis, eletrônicos etc, tudo, absolutamente TUDO, pode se transformar em mercadoria, inclusive AS PESSOAS” (Anotações da palestra de Emilia Ferreiro, “La alfabetización en perspectiva”, apresentada no XXII Congresso Mundial de Leitura, 31 de julho de 2008).

Estamos, por outro lado, conscientes de que a transformação de representações, imaginários e práticas de leitura e escrita como necessidades para todos os seres humanos não se dão em curto prazo, especialmente se pensarmos que já aconteceram grandes modificações no sentido que a leitura e a escrita têm para a sociedade, graças às propostas – por que não dizer às imposições – totalizadoras da sociedade de consumo que se apresentam mediante seu principal instrumento de massificação: os meios de comunicação.

“Dá a sensação de que nosso tempo [...]” – diz a escritora argentina Graciela Montes – “perdeu sua confiança na leitura, não está muito seguro de que para que [a leitura] serve e, envergonhado por haver deixado cair algo tradicionalmente tão valioso, em espaços curtos de tempo, compõe-se elegias sobre ela e a disfarça, e a faz pular como um macaquinho” (Graciela Montes. El espacio social de la lectura.)

Como diria, também, o sociólogo espanhol Enrique Gil Calvo, “a leitura perde o monopólio da construção social da realidade e tampouco se constitui como critério de seleção e de ilustração das elites.” (Enrique Gil Calvo. El destino lector.)

Então, tem sentido ir na contramão do que propõe a sociedade atual e investir esforços e recursos em práticas que ela já não valoriza e que perderam significado, como maneira de entender o mundo e entendermos a nós mesmos?

Creio que essa é uma falsa pergunta. O que se deveria perguntar, a meu ver, é se ainda tem sentido insistir na necessidade de entender, de compreender, de pensar, de participar, na necessidade de atuar – compreendendo – para transformar. Se ainda é possível imaginar um futuro diferente, mais igualitário, menos injusto com a maioria. Se é possível despertar nas crianças a ideia de que ainda podem ter esperança em seu porvir, mas não em um porvir que privilegie o sucesso individual, baseado em algumas competências relacionadas ao trabalho. Se ainda é possível produzir nelas confiança em si mesmas e nos demais, que lhes permita imaginar outras maneiras mais solidárias, menos violentas e mais justas de viver e conviver.

Diante do que foi exposto, não quero dizer que a leitura e a escrita, como práticas sociais, são as únicas vias de construção de sentido e de formas de ação e de transformação, nem que de sua apropriação derivaria uma mudança para a vida da maioria das pessoas. Só queria apontar que a democratização da cultura escrita, e do sentido que ela tem na transformação social, contribui para produzir condições ao pensamento crítico, para a construção de sujeitos com maiores possibilidades de inserção em suas realidades e, especialmente, eticamente responsáveis.


Referências Bibliográficas

Antonio Muñoz Molina. La disciplina de la imaginación. Bogotá: Asolectura, 2008.
Enrique Gil Calvo. “El destino lector”. Em: La educación lectora. Madrid: Fundación Germán Sánchez Ruipérez, 2001.
George Jean. Los senderos de la imaginación infantil. México: Fondo de Cultura Económica, 1990.
Giovanni Sartori. Homo ludens. Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 1998.
Graciela Montes. “El espacio social de la lectura”. Em: La educación lectora. Madrid: Fundación Germán Sánchez Ruipérez, 2001.
Hannah Arendt. “Labor, trabajo y acción: una conferencia”. Em: De la historia a la acción. Buenos Aires: Paidós, 2005.
Henry Giroux. Pedagogía y política de la esperanza. Buenos Aires: Amorrortu, 2003.
Joan-Carles Mèlich. Filosofía de la finitud. Barcelona: Herder, 2002.
John Berger. “Unos pasos hacia una pequeña teoría de lo visible”. Em: El tamaño de una bolsa. Buenos Aires: Aguilar, Altea, Taurus, Alfaguara, 2004.
Jorge Larrosa. La experiencia de la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2003.
Marc-Alai Ouaknin. Bibliothérapie. Paris: Seuil, 1994.
Paulo Freire. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
Paulo Freire. Política e educação. São Paulo: Cortez, 2003.
Peter McLaren. Pedagogía crítica, resistencia cultural y la producción del deseo. Buenos Aires: Aique, 1994.
Peter McLaren: Pedagogía, identidad y poder. Rosario, Argentina: Homo Sapiens, 2003.
Silvia Castrillón. “La lectura de los clásicos”. Em: ¿Por qué leer y escribir? Bogotá: Secretaría de Cultura Recreación y Deportes, 2007.
Simone Weil. Echar raíces. Madrid: Trotta, 1996.

TRADUÇÃO: THAIS ALBIERI

Ler literatura

Foco na leitura literária inspira mudanças no comportamento leitor do brasileiro
Outubro 2011

POR Ana Cristina Dubeux Dourado

Doutora em teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, foi assessora técnica do Ministério da Cultura para a área do livro e leitura até setembro de 2011. Atualmente é coordenadora de programa na Fundação Abrinq-Save the Children.

Gostar de Ler, ter prazer com a leitura, entregar-se a uma viagem pelos livros... são expressões que nos inspiram sentimentos semelhantes. Fazem pensar que a leitura é um processo que depende apenas de uma vontade inicial ou uma experiência vivida de forma livre, espontânea, que, para acontecer, precisa apenas de dois elementos: o livro e o leitor.

No Brasil, a maioria das pessoas vive uma ruptura em sua relação com a leitura ao deixar a escola. Ainda vivemos imersos  numa cultura na qual a oralidade domina grande parte das relações sociais e muitas pessoas sobrevivem e convivem quase exclusivamente recorrendo à fala, sem desenvolver habilidades na escrita. Mas quais são os impactos dessa forma de comunicação, sobretudo num mundo cada vez mais competitivo, globalizado e muitas vezes brutalizado?

Até hoje, a ideia de leitura ainda está associada a rotinas que fazem parte do processo de escolarização. Não é difícil descobrir as razões da permanência da associação entre leitura e hábito. Nas mais recentes pesquisas de análise do comportamento leitor da população brasileira, destaca-se o paralelo entre escolarização e acesso ao livro e à leitura. Retratos da leitura no Brasil, organizada por Galeno Amorim, por exemplo, considerou leitores as pessoas que leram ao menos um livro nos últimos três meses (55% da população estudada). Desses, 50% são estudantes que lêem algo porque foi indicado pela escola e 7% que afirmam ler a Bíblia. Da população total brasileira, estima-se que cerca de um terço lê com frequência e supostamente busca alternativas ou têm seu contato com livros facilitado em escolas,  bibliotecas, livrarias ou pela família. Os leitores considerados com uma relação mais frequente com os livros têm de  11 a 17 anos, justamente por receberem estímulos à leitura por parte do sistema educacional.

Ainda segundo a pesquisa, as crianças e jovens são o público que mais consome livros, mas há queda na taxa de penetração da leitura à medida que se avança em idade. Até 17 anos, os entrevistados responderam ler até três vezes mais livros que as pessoas com mais de 18 anos, tanto no que se refere a livros em geral, como aqueles indicados pela escola.

São dados que revelam  a necessidade de proporcionar à população brasileira – sobretudo às pessoas com acesso limitado ao livro – maior exposição à palavra, para que todos possam criar intimidade com a leitura e, a partir da aquisição de habilidades próprias a quem lê literatura por prazer, possam também  conquistar maior autonomia e um olhar mais crítico diante da realidade.

Fortes indícios mostram que essa mudança para melhor no comportamento leitor do brasileiro parece estar em curso. Recentemente, muitas escolas, professores, organizações não-governamentais, mediadores de leitura, bibliotecários, entre várias instituições e profissionais, estão tentando avançar nessa forma de relação com a palavra, por meio de projetos de leitura dos mais variados.

biblioteca
Biblioteca do Museu Rainha Sofia, em Madri.

Um dos aspectos positivos dessas iniciativas é a incorporação de alguns conceitos e práticas amplamente discutidos no Brasil, sobretudo a partir do processo de criação do Plano Nacional do Livro em Leitura, em 2006. Entre os princípios que têm inspirado ações bem-sucedidas na área está o desenvolvimento de estratégias para tornar os livros elementos permanentemente presentes nos processos educativos e no cotidiano das pessoas nos mais variados espaços, desde a escola até equipamentos de cultura e lazer diversos. Hoje os projetos de leitura encontram-se, em geral, inseridos em processos de aquisição e qualificação da relação com a língua, mas também incorporam objetivos relacionados ao ensino da literatura ou podem mesmo ter como foco o desenvolvimento do gosto, prazer, fruição estética e tudo que envolva a relação lúdica com os livros. No entanto, a opção por priorizar o desenvolvimento do gosto pela leitura não implica em espontaneísmo. Ao contrário, são os marcos teóricos, os instrumentos pedagógicos, o investimento na formação de educadores e a construção de indicadores de acompanhamento de projetos que dão identidade a um bom projeto de promoção da leitura. Como afirma Maria Beatriz Medina:

“A tarefa de formar leitores supõe um trabalho permanente que supera o circunstancial e implica num acompanhamento contínuo. Um trabalho que requer a definição de objetivos, o planejamento de estratégias, a avaliação permanente das ações, a revisão contínua dos objetivos iniciais, seja para reafirmá-los ou para ajustá-los à realidade e assim concretizar novas estratégias necessárias para a consecução das metas traçadas”.

“Las posibles rutas de la lectura”, texto apresentado no evento El Festival de La Palavra, em 2006, na Cidade do México (tradução minha).

Muitas das atuais iniciativas de promoção da leitura no Brasil também têm colocado em prática suas ações partindo do princípio de que não basta distribuir livros, como também não é suficiente ter o espaço físico da biblioteca nem mesmo ter um profissional que assuma a missão de formar leitores, com a competência para a prática da mediação. Nada disso funciona sem o impulso para que as pessoas se sintam parte dos projetos ou práticas de incentivo à leitura, de modo a fazer das bibliotecas espaços vivos, abertos aos interesses e perfis dos seus usuários.

E soma-se a esse conjunto de elementos o papel essencial que o leitor desempenha na leitura de um texto literário. Ao contrário da leitura de textos informativos, talvez o processo que melhor descreva a leitura literária é a diferença de intencionalidade. Ao invés de sairmos cheios de respostas para as dúvidas que temos, como fazemos ao ler sobre algo objetivo, na leitura literária quase sempre saímos com perguntas nas quais nem havíamos pensado antes. Como diz Gabriel Perissé:
“O próprio ato da leitura consiste em aprender a perguntar. Lendo, estamos automaticamente perguntando a nós mesmos, ao livro, à linguagem, à cultura, a tudo e a todos, estamos formulando perguntas que nem sempre temos ocasião de fazer, que nem sempre temos consciência de que precisamos fazer.” (Elogio da leitura)
Na leitura literária, essa interação do leitor com o livro por meio de perguntas de forma nem sempre consciente é algo ainda mais evidente. Na entrega ao deleite, ao prazer, à ludicidade, além da sensação de prazer, podem surgir outras relações entre leitor e narrativa. Nos estudos de teoria literária, algumas das perspectivas mais recentes se reúnem em torno do campo da estética da recepção. Segundo Teresa Colomer, a origem desses conceitos se deu a partir da aplicação de postulados pedagógicos centrados na participação do aluno no processo de ensino-aprendizagem ao campo dos estudos literários. Tal perspectiva, afirma ela em A formação do leitor literário, tende a destacar que “...o leitor literário compreende as obras segundo a complexidade da sua experiência de vida e da sua experiência literária.”

Tudo se inicia a partir de um novo olhar sobre os livros e a leitura. Alguns elementos da nossa cultura e alguns fatores socioeconômicos que ainda hoje influenciam na relação dos brasileiros com o livro e a leitura foram extremamente determinantes para que, até bem pouco tempo atrás, sobrevivessem resquícios de uma visão funcional, utilitária e mesmo superficial da leitura literária. E isso não é algo exclusivo das classes menos privilegiadas. São ainda recentes, mesmo nos espaços culturais e educacionais frequentados pela elite, as iniciativas que buscam garantir lugar de privilégio à leitura literária por meio de estratégias de apreciação estética. O modelo educacional brasileiro até bem pouco tempo mantinha a presença da literatura nos currículos e salas de aula de forma fragmentada, aliada a padrões de interpretação  vinculados à cobrança de aprendizagem de conteúdos gramaticais ou para o ensino da sintaxe.

Na leitura literária, ocorre um processo muito distinto da leitura para aprender algo ou para comprovar conhecimentos concretos. Na verdade, muitas vezes, a leitura literária coloca o que é conhecido num contexto estranho, novo, para confrontar sentidos estabelecidos, brincar com as palavras, de forma a fazer o leitor entrar num processo de criação de seus próprios sentidos. Por isso se afirma que a literatura deve provocar a sensação de estranhamento em relação à realidade. Assim, ampliamos nossa forma de ver, saindo dos padrões de organização do conhecimento útil, científico, real, mas sem nos distanciarmos inteiramente dele, apenas expandindo nossa forma de compreender.

Como diz Jorge Larrosa, a leitura literária está imbuída, de um “gesto às vezes violento de problematizar o evidente, de converter em desconhecido o demasiado conhecido, de devolver certa obscuridade ao que parece claro, de abrir uma certa ilegibilidade no que é demasiado legível.” (em Linguagem e educação depois de Babel).

E Michèle Petit  segue a mesma lógica, ao afirmar que: “... se a leitura desperta o espírito criativo, que é a chave de uma cidadania ativa, é porque permite um distanciamento, uma descontextualização; mas porque também abre um espaço para o devaneio, no qual outras possibilidades são cogitadas...”(em Os jovens e a leitura – uma nova perspectiva).

Os livros produzidos por escritores de ficção, em geral não têm como função confirmar o que é dito de maneira sistematizada pelas ciências ou por áreas do conhecimento que tenham como princípio a confirmação de verdades. Porém, são outros tipos de “verdades” que surgem na literatura, pois cada escritor faz sua leitura de mundo e a compartilha com o leitor, para que novos sentidos sejam construídos. Daí o caráter transgressor da literatura.

O papel dos mediadores que hoje atuam em diversos projetos sociais pelo Brasil tem, portanto, que ser destacado. Esses profissionais têm colaborado para que muitos leitores desenvolvam relações positivas com a leitura, a partir, sobretudo, da construção de um ambiente de troca de idéias, de maneira que todos possam ser capazes de indicar livros, de modo a mergulhar na história e encontrar seus próprios sentidos.

Muitas vezes, a mediação é refletida exclusivamente a partir do planejamento de atividades diárias que um educador elabora para “animar” um espaço de leitura. Nesses casos, a mediação engloba, sim, momentos coletivos que acontecem de formas diversas. Nesses momentos se incluem saraus, roda de histórias, manipulação coletiva de acervos, circulação de bibliotecas itinerantes, como as malas de leitura, por exemplo, entre tantas outras formas de juntar pessoas ao redor de livros. No entanto, uma biblioteca deve ser também um espaço de busca individual. Além de organizar o espaço de maneira a garantir a autonomia do leitor em fazer suas próprias descobertas, o mediador também pode contribuir no processo mais íntimo de cada leitor,  quando este quer algo para ler de maneira mais isolada, discreta, fora do olhar dos demais. Por isso, uma biblioteca deve ser também um local onde o silêncio permita esse distanciamento do mundo agitado, tornando possível o mergulho na leitura como experiência totalmente individual, pois a leitura é também uma forma de: “...escapar do tempo e do lugar em que supostamente se deveria estar; escapar desse lugar predeterminado, dessa vida estática e do controle mútuo que uns exercem sobre os outros”, como afirma Michèle Petit.

O mediador de leitura tem funções múltiplas. É um profissional que vai se constituindo como referência inicial para qualificar a relação das crianças,  adolescentes, jovens e adultos com a literatura. Sua relação próxima com o universo literário é o terreno a partir do qual ele pode vir a exercer vários papéis nas vidas dos leitores que frequentam a biblioteca. A ação de um mediador de leitura, como afirma Petit, vai muito além de atividades de leitura que tenham um teor puramente objetivo. Na grande maioria das vezes, os educadores mediadores de leitura criam vínculos duradouros com os usuários. Ouvem suas sugestões, ampliam o acervo a partir delas, criam situações que façam o leitor ter vontade de voltar a visitar o espaço, ampliando, assim, o público inicialmente planejado. Além disso, a  mediação feita  a partir de encontros individuais entre o leitor e o educador pode se transformar em momentos de cumplicidade e de troca afetiva. Ambos podem compartilhar de descobertas, nesse processo que será revelador, impulsionador de novas reflexões, de maneira a transformar a mediação no que Michèle Petit denomina “relação personalizada”.  Nesses casos, o mediador é alguém que acolhe, que recolhe as palavras do outro e com ele estabelece um vinculo afetivo, sem deslizar-se para uma mediação do tipo pedagógico.

Muitas ações de incentivo à leitura colocam em prática esses princípios que buscam construir novas formas de relação com o livro. São  projetos que hoje reeditam a aprendizagem dialógica proposta por Paulo Freire, para quem “a leitura de mundo precede a leitura da palavra”. São projetos de leitura nos quais a figura do mediador é central não para direcionar um hábito, mas para estar junto, estimular o leitor na muitas vezes árdua trajetória de criar seus próprios sentidos na relação que estabelece com os livros.

Esses projetos sociais contribuem concretamente para que a leitura seja uma prática social capaz de ampliar a democracia. São, por exemplo, bibliotecas especialmente desenhadas para receber públicos diversos e que disponibilizam um acervo diversificado para atender interesses distintos, com acessibilidade para pessoas com deficiência, integradas às iniciativas da comunidade na democratização do conhecimento. Para que isso aconteça, governos e sociedade civil vêm investindo no quadro pessoal das bibliotecas, valorizando os profissionais e estimulando-os a ter acesso à formação em mediação de leitura e em outras habilidades necessárias à ressignificação da biblioteca como organismo vivo e dinâmico.

Acolher todas essas mudanças não é um processo rápido. Mas proliferam iniciativas públicas e privadas em todo o país, que mostram enorme criatividade no desenvolvimento de práticas de leitura. São pontos de venda de livros em metrô, minibibliotecas em paradas de ônibus, troca-troca de livros em meio a bancas de feirantes, bibliotecas que ganham mobilidade por meio de todo tipo de veículo,  além de iniciativas de modernização, dinamização e extensão das atividades das bibliotecas públicas de vários municípios e estados.

O que vem se conquistando por meio da ampliação do acesso ao livro e à leitura vai muito além da melhoria de oportunidades para a aquisição do conhecimento. Projetos de leitura têm potencial muito mais profundo pois, como afirma Michèle Petit, criam a possibilidade de construção de um mundo interno, de uma subjetividade vital às  pessoas no enfrentamento das mais diversas situações e contextos que compõem o viver em sociedade.

O contexto brasileiro tem se mostrado propício à consolidação de conceitos e práticas que podem, efetivamente, contribuir para o fortalecimento de processos de promoção da leitura que incorporam os princípios e procedimentos metodológicos aqui discutidos. Esses processos estão diretamente relacionados à construção de uma sociedade leitora como pressuposto para a democracia. Já possuímos um marco legal e referências concretas para a consolidação do Plano Nacional do Livro e Leitura como política de Estado. Agora é o momento de sedimentar essas bases com a participação de indivíduos e instituições interessados na garantia da leitura e do acesso ao livro como direito de todos. 



Leia também “Leitura e qualidade de ensino: um itinerário possível para formação de leitores” e "A formação do promotor de leitura", reflexões  de Maria Beatriz Medina publicadas na EMÍLIA.


Referências
Galeno Amorim (org.), Retratos da leitura no Brasil. São Paulo: Instituto Pró-Livro e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
Gabriel Perissé, Elogio da leitura. São Paulo: Manole, 2005
Jorge Larrosa, Linguagem e educação depois de Babel. Belo Horizonte: Autêntica, 2004 (pág. 16).
Maria Beatri Medina. “Las posibles rutas de la lectura”, texto apresentado no evento El Festival de La Palavra. Cidade do México, 2006.
Michèle Petit, Os jovens e a leitura – uma nova perspectiva. São Paulo: 34, 2008 (pág. 120).
Teresa Colomer, A formação do leitor literário. São Paulo: Global, 2003.
Zoara Failla, “Os jovens, leitura e inclusão”, em  Retratos da leitura no Brasil.

Fonte: Revista Emilia