sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A leitura, outra revolução

O encontro de quem escreve e de quem lê
Dezembro 2011

POR María Teresa Andruetto
Teresa AndruettoEscritora argentina das mais premiadas e reconhecidas, desenvolve, há décadas, trabalhos em torno da leitura e literatura para crianças e jovens. Participou da elaboração de vários planos de leitura em seu país, assim como fez parte de equipes de capacitação de docentes em leitura e escrita criativa com crianças, adolescentes e jovens em situações de risco.  No prelo A menina, o coração e a casa, editora Global. Para saber mais sobre a autora visite o site www.teresaandruetto.com.ar


“As palavras tiram as coisas do esquecimento e as colocam no tempo; sem elas, desapareceriam.”
Daniel Moyano



A história

1.
Durante muito tempo pensou-se que a primeira tipografia do Rio da Prata havia sido a Imprenta de los Niños Expósitos, instalada em Buenos Aires por Vierry Vértiz, onde se imprimiram os livros anteriores à Revolução de Maio de 1810. Mas a primeira tipografia dessas terras não foi importada da Espanha: criada e dirigida por guaranis convertidos por jesuítas, nasceu na selva e foi construída ali com tipos de fabricação própria e signos fonéticos novos, invenções para escrever uma língua desconhecida no velho mundo, porque o primeiro livro que se imprimiu e também os dois ou três que o seguiram foram traduções de dicionários, reflexões e evangelizações para o guarani, realizadas por homens de mesma cultura e pelos padres jesuítas. Depois de dez anos de trabalho, em 1705, em Santa María Mayor, na margem ocidental do Uruguai, imprimiu-se o primeiro livro, traduzido pelo Padre Joseph Serrano, que havia pedido aos reis autorização para publicar essas obras, pois “assim, a tipografia, como as muitas lâminas para seu realce, foram obra do dedo de Deus, tanto mais admirável, quando os instrumentos são uns pobres indígenas, novos na fé e sem a direção dos mestres da Europa, para que conste que tudo é favor do céu, que quis, por meio tão inesperado ensinar a eles as verdades da fé”. Oitenta anos depois desse feito, Virrey Vértiz fundou em Buenos Aires uma tipografia cujos primeiros tipógrafos foram os órfãos, filhos de pais desconhecidos, jogados no berçário público de caridade, inaugurado ao mesmo tempo que a tipografia destinada a seu sustento. Nela publicaram os periódicos literários, científicos e sociais e todas as folhas e folhetos anteriores ao estouro da Revolução de Maio. Assim, não foi com a Imprenta de los Niños Expósitos que tudo começou, ainda que tenhamos vivido muitas vezes como órfãos, esperando que os bens e legitimidade chegassem de outros lugares, vangloriando-se do que nos davam, desqualificando o que foi feito em casa, agradecidos pela dádiva


2.
Quis extrair dessa circunstância histórica pelo menos duas questões:
Por um lado a origem americana dessa primeira tipografia realizada, segundo documentos, por uns índios incultos que, contudo... assentaram a pedra angular da letra impressa entre nós, o que nos leva à escura e esquecida presença indígena na construção cultural e na história da letra em nosso país, e coloca as culturas originárias – também elas – no início do livro entre nós. O esquecido, o invisível, o apagamento ou o desaparecimento de nossos bens materiais e simbólicos, assim como a anulação, destruição cultural ou simplesmente a eliminação do outro, traçam uma linha histórica, que vai desde a conquista espanhola, a conquista do deserto, da guerra de reorganização nacional entre civis e a chamada luta da civilização contra a barbárie, até o golpe de Uriburu, a semana trágica ou o 55, desde os golpes de Estado dos anos sessenta até o Golpe de março de 1976, desde o desaparecimento de pessoas nos anos setenta até o desaparecimento do Estado e o empobrecimento social dos anos noventa, como uma recorrência do que se torna nossa sociedade. Assim como poderíamos ver o grito de independência e outros gritos como o de Alcorta, a lei Sáenz Peña, o 45, o voto feminino, a luta dos organismos de direitos humanos, os movimentos indígenas ou as ligas campesinas, como algumas das muitas tentativas de tornar visíveis certos outros, ocultos, pobres, desaparecidos, roubados, assassinados.
Por outro lado, quiseram trazer o caráter mestiço daquela criação levada a cabo pelos guaranis na adjacência, a dependência e o intercâmbio com os jesuítas. O encontro de línguas que isso implica e a tradução como ponte, construção, transformação, subserviência, e como base de uma cultura que resiste à simplificação folclórica e ao pitoresco, porque precisa explorar sua identidade na mistura de textos, de gestos, de visões de mundo e de línguas de diferentes procedências como modo de se fundar. Construção mestiça de nossa cultura e – em última instância de toda cultura – saída da endogamia, como condição necessária para ser e em consequência o rechaço de toda ideia purista de raça, classe, de cosmovisão ou de língua. Essa condição de mestiçagem insistente – sustentada apesar de toda tentativa de destruição – entre diversas zonas, classes, geografia, línguas, atravessa também a literatura argentina, cujos referentes podem ser provenientes de um povoado como Jujuy, ser da aristocracia polaca e se tornar marginal em Buenos Aires, escrever em francês disfarçado com os modismos do Rio da Prata ou em um espanhol com inflexões do inglês, imaginar seus relatos no campo de batalha ou escondido atrás de um nome de homem no amanhecer da pátria, exercer como professores, jornalistas, corretores, telegrafistas, donas de casa ou membros da classe dominante. A nossa literatura provém, talvez mais que a de outros países, de um amplo leque de diversas procedências que se torna visível a partir dos anos cinquenta, quando começam a circular escritores pertencentes aos estratos médios, muitos deles das províncias, que não se dedicam em tempo integral a seus escritos porque têm que trabalhar em outras atividades para viver, o que constitui o coração de nossa diversidade literária e de sua consequente riqueza.


3.
Quem sou?, se pergunta Juan José Castelli em La revolución es un sueño eterno, de Andrés Rivera:
Eu, que me pergunto quem sou, olho minha mão, esta mão, e a palma que sustenta esta mão, e a letra apertada e ainda firme que traça, com a pluma esta mão, nas folhas de um caderno de capa vermelha.
Olho a mesa em que apoiei o caderno de capa vermelha, e olho, na mesa, um tinteiro com base de pedra, e a vela, grossa, que ilumina o caderno, a mesa, minha frente, minha boca e a mão que escreve...
Quem sou?
Esse Castelli literário que evoca o orador da Revolução de Maio enquanto agoniza de um câncer na língua, escreve o que lembra e o que sente em um caderno de capa vermelha. Também descobrimos quem somos à medida que narramos aos outros e a nós mesmos o que nos aconteceu. As palavras, como disse Moyano, “tiram as coisas do esquecimento e as colocam no tempo”, caminham no emaranhado da linguagem, para nomear o mundo e nos permitir encontrar um lugar nele. Palavras nossas e palavras de outros, porque a “presença interpelante do outro... nos torna seres vivos” (Joan-Charles Mèlich. Filosofia de la infinitud), nos tira do autismo, nos torna humanos. A necessidade de sermos ouvidos e a importância de ouvir constroem nossa memória: precisamos alcançar certo sentido do que foi, discutir acerca do que nos acontece e compreender o que aconteceu, se queremos abrir um lugar no presente. Sem uma relação com o que foi, com os homens e mulheres que antes foram, jamais poderíamos responder a pergunta que se faz Castelli de Rivera: Quem sou? Quem somos? De que maneira chegamos até aqui?
Que relação há entre um passado de “manual” e nossa vida de todos os dias? Que relação entre os gestos repetidos dentro de casa e o público fechado em seus sentidos até tornarem-se alheios? A história de cada um de nós, até em seus aspectos mais privados, forma parte de um passado comum, e não é possível reconstruir o passado pessoal sem reconstruir ao mesmo tempo um passado de época. Poder nos olhar na trama do que nos precedeu e reconhecer nela aspectos próprios, constrói nossa identidade e nos sustenta. A memória é um contínuo movimento desde o individual até o social e desde nossas condições presentes de ontem e de amanhã, em um cruzamento de forças, de lutas, por retomar laços perdidos, dialogar com zonas recolhidas e ainda invisíveis, aprender com os erros e acertos dos que vieram antes, com intenção de nos construir individual e socialmente, porque não há futuro individual separado do futuro de todos. Quem somos? De onde viemos? Por que dessa maneira e não de outra? Interessa-me compreender como as políticas econômicas de um país ou do mundo, o liberalismo, a globalização a ditadura ou a guerra, vão repercutir nos cantos mais inesperados de nosso mundo pessoal, em nossa sexualidade, em nossa condição de pais, ou de filhos ou de empregados, ou... De onde vêm nossas contradições, nosso desejo de ser “de outra parte” ou “de outra maneira”, nosso ceticismo, nossa criatividade? De onde esse arquivo de palavras e de imagens que arrastam até nós guerras, miséria, orfandade, mas também profundos gestos de amor, de dignidade, de responsabilidade para com os outros?
Vivemos em um país ainda em construção, com aspectos muito complexos que incluem tanto o desejo de integração como o de destruição do outro, um país onde é, ainda, muito difícil alcançar certos acordos, certos contratos sociais que incluam a todos. Essa construção de identidade, o ponto crucial, se faz, em boa medida, através da memória, mas essa memória coletiva não é unívoca, mas um tecido feito por indivíduos afetados/atravessados de diferentes modos por certos feitos. O olhar atento a um passado recuperado em sua complexidade e, sobretudo em sua diversidade, nos ajuda a compreender que esse trabalho não nos é alheio, que podemos formar parte desse tecido com nossas ideias, experiências e sentimentos, que isso que hoje consideramos “nosso” foi realizado alguma vez por um indivíduo ou uma comunidade ou um setor social e conseguiu sobreviver para além das fronteiras culturais, étnicas ou lingüísticas que os geraram. “Ignoro meu nome, Fábulo antes de me enviar aqui... [...]... apagou tudo o que havia em minha memória, abrindo espaços para por nela a memória de seu povo. E me entregou as palavras, que são minha única realidade, ao menos aqui, neste refúgio”, disse Daniel Moyano em Tres golpes de timbal. Precisamos reler o passado, colocar nele palavras que permanecem invisíveis, compreender, porque se o negamos, “as promessas não cumpridas, os sonhos destruídos e os projetos que naufragaram” (Raúl Vidal, Ciclo de conferencias sobre olvido y memoria. Córdoba, 10/04/2010), o que não teve lugar, regressa e traz sintomas no corpo social, nos adoece.


A escola

1.
Na “Fundação mítica de Buenos Aires”, que Borges incluiu no Caderno San Martín em 1929, se diz que os homens dividiram um passado ilusório, e que “só faltou uma coisa: o lado da rua”. A dificuldade de incluir pessoas diferentes de nós parece ter sido uma constante em nossa história, talvez também nas histórias de outros povos. De escutar, de prestar atenção ao que ouvíamos, de voltar os olhos ao que permanecia excluído, esquecido ou negado, pudemos também compreender e ser compreendido, além de nos tornarmos mais responsáveis. A pergunta que habilita uma escuta tem estatura ética porque dá condições ao outro, nos permite acomodar sua humanidade, posicioná-la nesse relato de todos. Ajudar as novas gerações a se fazer perguntas, a escutar o outro e a si próprio, para que possam compreender quem são e apropriar-se de suas vidas, é uma das questões mais substanciais que a educação pode fazer. Um professor e uma escola predispostos a escutar e a proporcionar que os alunos se escutem e escutem ao outro, constroem um território de atenção horizontal, não só de declínio de um relato instituído, e se constituem ao mesmo tempo em veículos de tradução, pontes de fala entre partes. Qualquer que seja o nível de educação em que esteja inserto, o professor pode – hoje mais que nunca – gerar perguntas acerca do modo em que vivemos, porque apesar de tudo o que possa parecer, ensinar está entre os trabalhos menos alienados, é uma das preocupações humanas em que mais e melhor podemos exercer um olhar crítico, problematizar a realidade, tomar distância do estabelecido.


2.
Que lugar a leitura ocupa nisso? “Os que mais precisam são os que menos podem dizer sua palavra”, disse essa escritora, filósofa, santa que foi Simone Weil. Aproximar a palavra aos que mais carecem dela, fazer que tenham voz e voto em uma espécie de “novo sufrágio universal”, é algo que ainda devemos construir. Quando lemos, ensinamos, escrevemos ou ajudamos outros a ler, a ensinar, a escrever, as palavras nos vinculam ao mesmo tempo ao individual e ao social, porque a leitura é, ademais daquela prática solitária e gostosa a que frequentemente nos referimos, um instrumento de intervenção sobre o mundo que nos permite pensar, tomar distância, refletir, uma esplêndida possibilidade para dar lugar às perguntas, à discussão, ao intercâmbio de percepções e à construção de um juízo próprio. Mas para isso... cito: “no âmbito escolar não pode haver más leituras. Porque não se trata só de formar leitores: trata-se de formar bons leitores. Se não, é como uma espécie de fetichismo da leitura pela leitura, ou da esperança de que, embora leia livros ruins, ‘já o lemos trazidos pela república da leitura’. A escola tem que formar um leitor que rechace um livro quando está mal escrito”, disse Martín Kohan.


3.
Os livros que lemos são manifestações estéticas acerca de outras ficções representativas, em uma forma de memória feita de matéria concreta no imaginário, em que as vozes que acreditamos esquecidas ou perdidas ou impossíveis são trazidas para nos ajudar a ver e a nos construir. Na literatura, na arte, a humanidade encontrou um veículo para transmitir suas representações do mundo, diferentes, segundo a época e as condições sociais, econômicas, culturais. Cada livro – cada novela, cada conto, cada poema – contém, com maior ou menor felicidade, uma leitura do mundo, e ler o que foi escrito é ingressar no registro de memória de uma sociedade, a que essa sociedade considera (e isto não é simples, ao contrário, é um verdadeiro campo de batalha) por alguma razão, perdurável; é entrar nesse imenso tapete tecido diante de diferentes circunstâncias por tantos seres ao longo do tempo. Assim, então, poderíamos dizer que a história da literatura e a arte é também a história da subjetividade humana e das condições materiais e simbólicas em que essa subjetividade se estende. Contra o impulso e a descarga individual, contra o puro entretenimento e o adormecimento da consciência, a arte nos recorda de quem somos, nos propõe uma das imersões mais profundas em nós e na sociedade de que fazemos parte.
Esse tecido é tão intenso quanto heterogêneo, porque é feito de infinitas contribuições singulares. Então, tomar a palavra para que ingressem também nossos fios no tapete, os fios de todos. Múltiplas memórias relativizando-se umas com as outras para que nem o passado nem o imaginário se fechem em um relato único, para que permaneça em um estado de interrogação que nos permita encontrar as palavras necessárias para narrar o que ainda não foi narrado. Na construção desse tecido de subjetividades, se inscreve boa parte da importância da literatura em uma sociedade, já que nossas expectativas e suas manifestações são intensos exercícios de compreensão do que acontece a nós e a outros imaginários, ou do que poderia acontecer.


4.
Assim, ler/escutar/escrever é abrir para nós e para os outros um caminho de liberdade. Mas se trata de algo dado de uma vez e para sempre de um caminho, porque já não é em um livro ou em uma ação, mas no trânsito, na precariedade do que se está deixando de ser para se tornar outra coisa, nesse rio do tempo que vai de uma palavra a outra, de um livro a outro, de um gesto a outro, onde se aprende e onde se ensina. Podemos oferecer livros e traçar estratégias de leitura, mas servirão pouco se desarticularmos a capacidade de disparar a letra, se desativamos sua qualidade de nos transformar, nos incomodar, de nos fazer pensar. Ouvi dizer, uma vez, de uma professora: “quero ser uma simples ponte entre os livros e meus alunos”. Não sei se pode haver definição melhor para um professor, em qualquer nível de educação, que queira ser uma ponte pela qual transita um saber recebido, processado naquilo que existe de mais pessoal, posto em discussão no espelho refratário da própria ideologia, para passá-lo logo como um saber que se deseja deixar para os que chegam, um saber, segundo consideramos, os que nos seguem não deveriam perder, para que a vida se faça mais intensa, de maior espessura, com mais entidade e identidade ou simplesmente mais suportável. Então, um professor como ponte entre o que houve antes e o que virá, uma ponte através da qual se produz um encontro. Mas nos tornarmos ponte não é uma tarefa mecânica e ingênua, tampouco isenta de ideologia. Somos o que vivemos e lemos, e somos o resultado de por em questão isso que vivemos e lemos. Temos para isso certa liberdade para eleger, ainda que não possamos escolher as condições em que fazemos essas escolhas; embora muitas vezes possamos sequer decidir as condições em que ensinamos, porque essas condições estão atravessadas por uma rede social, econômica, política, das quais nem sempre temos consciência.


5.
“Que revolução compensará o sofrimento dos homens?”, se pergunta o Juan José Castelli criado por Andrés Rivera. Que sociedade desejamos para nós e para nossos filhos? O que estamos dispostos a fazer e a que estamos dispostos a renunciar para construir essa sociedade que desejamos? Em que nos compensou a revolução cujo bicentenário celebramos? Que dívidas devemos ainda pagar para ser dignos de dizer liberdade, independência...?
Sempre houve uma vinculação entre a guerra e a palavra, entre as lutas pelo poder e os relatos. Essa tensão entre a letra e o chumbo, e entre ambos e o bronze, nos lembra que a palavra, a imprensa, o livro, a literatura, não são artefatos ingênuos nem estão fora do cruzamento de interesses e ideologias de uma sociedade. Os homens da Revolução de Maio e os homens de letras e em suas obras, tanto quanto em seus atos, revelaram de diversas maneiras os projetos ideológicos. “Com a espada, com a pena e com a palavra”, repetimos esse refrão durante décadas, a letra se tornou pena, a materialização da metáfora do poeta espanhol Blas de Otero acerca da poesia como uma arma carregada de futuro. Pensávamos que Sarmiento, Echeverría, Eduarda Mansilla ou Juana Gorriti não sabiam que estavam, com suas penas, livrando batalhas? Devemos pensar que eram ingênuos e desconheciam a importância e defender suas ideias, de deixá-las por escrito, de gravá-las na pedra, de difundi-las aos quatro ventos?

Faz um tempo visitei a mostra das mulheres na Casa do Bicentenário. Entre tantas visões sobre tantos aspectos que tinham a ver com as mulheres, há imagens sobre as prisioneiras. As cativas do grande relato nacional são brancas em mãos selvagens, descendentes de europeus cujos brutais captores são os indígenas. Uma metáfora que explica essa situação relaciona-se a das lutas entre a civilização europeia, de classe, e a barbárie autóctone, pobre. Tudo isso, que em algumas ocasiões foi verdade, e muitas mulheres brancas foram levadas por indígenas às suas aldeias, contrasta, contudo, com acontecimentos de nossa história conhecidos por todos, o conquistador branco ingressando em territórios aborígenes, matando e destruindo; sabemos que houve, também, muitas prisioneiras indígenas nas mãos de captores brancos, e que a mulher como estopim de guerra é uma constante na história dos povos, contudo, o relato que herdamos e que aceitamos, acriticamente, é o relato dos brancos. Os aborígenes não puderam completar, menos ainda, impor seu relato e o relato de todos, falar das mulheres presas e de seus homens e mulheres aculturados, pobres ou assassinados. O mais terrível de tudo não é sequer isso, e sim que isso se ensina, se transmite destituído de sua brutalidade ideológica, nas escolas onde os alunos são netos, bisnetos daqueles homens e mulheres despidos e assassinados. Não faz muito, em uma atividade que desenvolvi em uma escola da Patagônia, uma professora do planalto que se apresentou como de origem mapuche, disse: “meus alunos, todos indígenas, comparecem todos os dias a uma escola que se chama General Roca e são obrigados a saudar como herói a quem destruiu seus povos; o que diríamos se uma criança de origem judaica tivesse que estudar em uma escola chamada Adolf Hitler? A rua central de mais de uma cidade patagônica, para dar outro exemplo, se chama Primeros pobladores, em referência aos primeiros colonos que chagaram aos vales no início do século XX. Desse modo, devemos pensar que os homens e as mulheres que habitaram antes esses vales não eram povoadores? Ou acaso queremos, inclusive, dizer que não eram homens? Distanciar-nos para pensar e tomar posição com relação ao que ensinamos, processar os acontecimentos de nossa história, revisar esse passado que nos precede para que inclua a todos de um modo digno em nossa particularidade e em nossa diferença é, ainda em muitos casos, nossa dívida. A escola não é só o espaço para instalar a leitura – a grande ocasião, para dizer como Graciela Montes – mas também um espaço para construir consciência acerca de nós mesmos, desenvolver nosso pensamento, não dar o mundo por ordenado. Aprendemos e ensinamos a ler, mas, nem sempre aprendemos e ensinamos a ler entrelinhas, a entrar nos meandros de um relato. Talvez em algum momento possamos voltar a uma ideia de professor e de escola que tenham muito para ensinar, um professor e uma escola que nos ajudem a pensar acerca de nós mesmos. “Meu papel no mundo, [...] não é somente o de quem constata o que acontece, mas também o de quem intervém”, dizia Paulo Freire, para lembrarmos do que, muitas vezes nos esquecemos, ou querem que esqueçamos: a importância transformadora que um professor pode ter.


A literatura

1.
Uma obra é o espaço onde se encontram – no momento único que oferece a leitura – quem escreve e quem lê, duas subjetividades, às vezes, de diferentes séculos, culturas e línguas. Ouvir a voz, o grito, o sussurro, a dor ou o assombro de uma cortesã da dinastia Tang, um funcionário do século de Péricles, um camponês maya k’iché, uma solteirona norte-americana do século XIX ou uma aristocrata russa do início do século XX é um encontro que só a arte nos permite. Lemos devido à nossa necessidade de ensimesmar-nos, mas também porque buscamos – intensa e desesperadamente – nos comunicar. Sempre pensei, enquanto fazia saraus literários em instituições prisionais, em clínicas geriátricas, e também nestes últimos anos, enquanto escrevo na minha casa, que as palavras e os livros não são importantes por si mesmos, mas porque a um extremo e a outro do escrito e do lido, há pessoas que se encontram. Os livros são pontes entre pessoas, pontes para “aprender a pisar, a sustentar-se”, como disse a poeta uruguaia Circe Maia. A literatura não é somente um conjunto de palavras colocadas em harmonia sobre a página, é também pensamento, utilizado para ser a mais complexa construção social, que é a linguagem, e se tenta construir uma língua privada. Por isso a literatura, como todas as artes, mas esta ainda mais, é ao mesmo tempo íntima e social no que diz respeito às ideias, mas mais ainda no modo de utilizar a linguagem e na maneira como ela se mostra na subjetividade. Assim, o cosmos de significação pessoal que construímos ao escrever e que recriamos ao ler, se dirige duplamente à sociedade de onde provém, porque se constrói como um bem social e porque se alimenta dos relatos que essa sociedade gera, o que, duplamente, nos inclui.
O real e o ficcional se fundem nos processo de criação de uma obra. Uma novela, por exemplo, é uma mentira que construímos para dizer uma verdade que ainda não conhecemos: uma verdade mais verdadeira que a verdade. Tudo está no mundo, pronto para ser arrebatado: nossa experiência e a de outros acerca de cada coisa. A arte se alimenta, se apropria do que é de todos. A apropriação que faz a literatura sobre o patrimônio comum – a linguagem – regressa mais tarde ou mais cedo por suas causas e nos pede que voltemos a cabeça para os outros, Pede-nos que olhemos, escutemos, com atenção, com persistência, com imprudência ou desobediência, não para dar respostas, mas para gerar perguntas. Um escritor é como um “cachorro cheirando os rastros que o mundo deixa”, diz o cineasta alemão Alexander Kluge, alguém que, com certo olfato, emoção e muito amor pelo detalhe, imagina o que poderia ter sido.


2.
Para terminar, um breve fragmento da comovedora novela de J. M. Coetzee, A idade do ferro, em que a protagonista, uma mulher sul-africana, branca, professora universitária, velha e doente, escreve sobre uma foto à sua filha que vive nos Estados Unidos:

Aquele dia nos fotografaram em um jardim. Atrás de nós, há umas flores que parecem malva-rosas. À nossa esquerda há uma cama de melões. Reconheço o lugar... Ano passado, a fruta, as flores e as verduras brotavam naquele jardim, lançavam suas sementes, ressuscitavam a si mesmas e nos bendiziam com sua presença abundante. Mas quem atendia tudo aquilo com seu amor? Quem cuidava das malva-rosas? Quem colocava as sementes de melão no solo quente e úmido? Era meu avô que se levantava às quatro da manhã com o frio que fazia para abrir a comporta e deixar que a água entrasse no jardim? E se não era a ele, a quem pertencia, realmente, o jardim? Quem são os fantasmas? E as presenças? Quem, fora da foto, apoiados em seus rastelos e suas pás, esperando para voltar ao trabalho, se apóiam, também, na borda do retângulo, dobram e quebram para dentro?
Dies irae, dies illa
, aqueles em que o ausente está presente e o presente ausente. A foto já não ensina quem estava aquele dia no quadro do jardim mas os que estavam ali. Guardadas todos esses anos em lugares seguros por todo país, em álbuns e em caixas de papelão, esta foto e milhares como ela amarelaram sutilmente, metamorfosearam-se. O banho de fixar a foto não saiu bem, ou bem o revelado foi mais além do que alguém havia sonhado, mas se transformaram em negativos, um tipo novo de negativos em que começamos a ver o que costumava ficar fora da moldura, oculto.
Quem sabe o festejo maior nesse aniversário seja poder olhar com atenção o que ao longo de duzentos anos esteve fora da moldura, oculto. Inclusive descobrir que, muitas vezes, os que não apareciam na foto, os que apoiavam seus rastelos e suas pás na borda do retângulo, esperando que a encenação terminasse para continuar cuidando e regando a plantação, eram não só nossos antepassados, mas nós mesmos.


* Texto apresentado no Congresso Internacional Lectura 2011 “Para ler o século XXI”, Habana, Cuba Outubro 2011.



Referências bibliográficas

Borges, Jorge Luis. “Fundación mítica de Buenos Aires”. Em Obras completas. Buenos Aires: Emecé, 1989.
Castrillón, Silvia. Biblioteca escolar: ¿Un modelo legitimista o una propuesta transformadora? Encuentro de Bibliotecas Públicas y Escolares organizado pela Escuela Interamericana de Bibliotecología de la Universidad de Antioquia de Medellín, setembro, 2009.
Castrillón, Silvia. Presencia de la literatura en la escuela. 4º Congreso Latinoamericano de Lectura y Escritura, 4 a 7 de agosto de 1997, Lima, Perú.
Coetzee, J. M.. A idade do ferro. São Paulo: Siciliano, 1992.
Freire, Paulo. Pedagogía do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2006.
Kluge, Alexander. Entrevista: www.goethe.de/mmo/priv/5128030-STANDARD.pdf
Kohan, Martín. Recorriendo la literatura argentina: blogs.educared.org/guiadeletras/2009/08/13/recorriendo-la-literatura-argentina-martin-kohan/
Larrosa, Jorge. La experiencia de la lectura. México: Fondo de Cultura Económica, 2003.
Maia, Circe. Dossier. Diario de poesía. Nº 43. Primavera 1997.Buenos Aires/Rosario.
McLaren, Peter. Pedagogía, identidad y poder. Rosario: Homo Sapiens, 2003.
Mèlich, Joan-Carles. Filosofía de la finitud. Barcelona: Herder, 2002.
Montes, Graciela. La gran ocasión, la escuela como sociedad de lectura. Plan Nacional de Lectura.planlectura.educ.ar/pdf/La_gran_ocasion.pdf
Moyano, Daniel. Tres golpes de Timbal. Buenos Aires: Sudamericana, 1990.
Rivera, Andrés. La revolución es un sueño eterno. Buenos Aires: Seix Barral, 2005.
Vidal, Raúl. Ciclo de conferencias sobre olvido y memoria. Córdoba: Casa de Pepino, 10/04/2010.
Weil, Simone. La gravedad y la gracia. Madri: Trotta, 1994.

TRADUÇÃO THAÍS ALBIERI


Fonte: Revista Emília

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Imagens tiradas da internet para repensar a leitura





Pesquisador: impresso ainda é melhor meio de estimular a leitura

As histórias em quadrinhos foram o ponto de partida para que a produtora musical Magali Romboli transformasse a filha em uma leitora assídua. Nada de tablets, computadores e outros estímulos eletrônicos - Melissa Romboli Andriole, 9 anos, ainda prefere passar horas folhando as páginas de um livro. "É muito mais legal do que brinquedo", garante. Mãe e filha não são exceção: na hora de introduzir as crianças ao mundo da leitura, muitos pais abrem mão da tecnologia e continuam recorrendo ao tradicional impresso, medida apoiada por especialistas.

 Melissa Romboli Andriole, 9 anos, prefere passar
horas folhando as páginas de um livro
Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Magali conta que começou a estimular a filha ainda bebê, com livros de plástico para brincar na banheira. Aos poucos, o passatempo deu lugar a gibis e livros de história. Recorrer ao impresso foi uma das maneiras que encontrou para evitar que Melissa passasse o dia todo em frente ao computador e à televisão. "Talvez essas ferramentas não façam mal agora, mas como saber seu efeito quando ela tiver 50 anos?", questiona.

A preocupação com a saúde não é o único motivo pelo qual o impresso reina na casa da família. Segundo Magali, uma das grandes vantagens do livro em papel é a possibilidade de compartilhar histórias. De tempos em tempos, elas doam alguns exemplares para crianças carentes. "A Melissa pega livros emprestados da escola, leva o que está lendo em casa, comenta com colegas e com a professora. No tablet, você baixa o arquivo, outra pessoa baixa outro. Não é uma relação entre pessoas, é uma relação entre tecnologias", reflete.

Segundo o professor do Centro de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcello Barra, o livro impresso continua decisivo na formação de crianças e jovens. "Por ter muito mais estímulos, a mídia eletrônica dispersa quem está começando a ler. O saber e a profundidade são maiores no livro convencional", afirma. Barra explica que as possibilidades abertas pelo tablet podem estimular a criança a buscar novos conteúdos, em vez de se ater àquilo que está lendo. "O resultado é um conhecimento superficial. Os eletrônicos são uma raiz muito longa, mas não muito profunda. Eles são complementares. Nessa fase, incentivar a leitura por meio do impresso é o melhor meio de desenvolver a concentração", enfatiza.

Férias são uma boa época para estimular a leitura
Aproveitar o tempo livre é uma boa saída para desenvolver o gosto pelas obras literárias. Vale recorrer desde a séries infantis até ao gibi, aliado de Magali na formação da filha. "A linguagem objetiva das historinhas da Turma da Mônica ajudou a Melissa no início. Depois, para melhorar o repertório, pegamos livrinhos de histórias", conta.

O momento também é bom para fazer passeios culturais. "A melhor coisa é levar os filhos às livrarias, que cada vez mais têm seções voltadas a crianças e adolescentes. Lá, devem ajudá-las a escolher seus próprios livros", aconselha o professor. As bibliotecas públicas também podem estar no roteiro de férias. "Os pais devem dar o exemplo. É muito mais fácil a criança gostar de ler se ela está acostumada a ver os pais lendo", diz.

Outra alternativa para o período e que pode ser levada adiante durante o ano todo são as rodas de história. Segundo Barra, reunir a família é uma das melhores formas de instigar a curiosidade dos pequenos. "O ambiente familiar é muito rico e influencia muito na formação da criança", diz. 

Fonte: Terra

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Cartaz de Incentivo à Leitura - Biblioteca Pública Municipal Prof. Benito Caliman

Gostaria de Parabenizar a Bibliotecária Sandra Küster e sua equipe da Biblioteca Municipal Prof. Benito Caliman pela iniciativa. A Biblioteca é seguidora de nosso blog. Parabéns!!

Fonte: Blog da Biblioteca Prof. Benito Caliman

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Livro, para que te quero?


Foruns de literatura na internet, saraus na periferia e sebos com preços reduzidos tentam promover democratização da cultura e revelam carências da educação

SYLVIA MIGUEL

Bem-vindo ao Bookcrossing, onde 631.184 pessoas em 130 países se encontram para dividir com o mundo a paixão por livros. Essa é a chamada de abertura da página de uma comunidade da internet que se propõe a reunir pessoas que amam livros e amam dividir. Qualquer um pode simplesmente criar um perfil ou mesmo montar uma crossing zone (zona oficial de troca), que funciona como um tipo de prateleira em espaço público na qual é possível pegar ou deixar um livro para que outras pessoas tenham acesso à leitura gratuitamente.

O destino de cada exemplar fica nas mãos do acaso. Mesmo assim é possível seguir suas pegadas e saber um pouco sobre a obra e seu paradeiro através de um número de identificação e, principalmente, dos comentários deixados no site pelo leitor bookcrosser. O mais viajado é escrito em alemão, já passou por 295 pessoas e tem 30 páginas só com figuras: Der seltsame Bücherfreund, de Annetta Hoffnung.

Há exemplares que viajam o mundo. Um leitor pegou um livro na Austrália e acaba de disponibilizá-lo aqui no Brasil. A própria trajetória do livro vira uma história à parte, diz Helena Vitória Diniz Castello Branco, gestora cultural de uma zona oficial de troca de livros do Bookcrossing que começou a funcionar num restaurante da Vila Madalena, em São Paulo.

Enquanto a comunidade virtual funciona como fórum de discussão sobre literatura em geral, o projeto começou a engatinhar no Brasil como forma de democratizar o acesso à leitura. Ex-aluna do curso de Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Helena conta que a idéia de introduzir o Bookcrossing no Brasil foi a maneira que encontrou de aplicar os conceitos aprendidos no curso.

Incentivar a cultura implica promover valores como a cidadania, e não focar apenas o lucro ou dar uma abordagem mercadológica à cultura. Há muitos que se aproveitam dos benefícios de algumas leis apenas para ter abatimento em impostos, diz Helena. Acredito que muita gente não tem contato com a cultura porque um show, um CD ou um livro custam caro. Daí a idéia de promover algo gratuito, que fosse fácil de fazer e que promovesse a troca.

E se um leitor se apropriar do livro ou mesmo vendê-lo e não deixar qualquer comentário no site? É um risco. Há lugares onde as pessoas entregaram o livro em seções de achados e perdidos porque não conhecem o projeto. Por isso, além dos selos de identificação do Bookcrossing, coloquei outro explicando a idéia, afirma a gestora. Para ela, ainda que a pessoa se aproprie do exemplar e não o coloque novamente em circulação, o processo já terá valido para alguma coisa desde que o livro seja lido.

Resistência

Se a internet é um espaço democrático, o que se pode dizer de um bar? Alguns deles têm se transformado em verdadeiros pontos de encontro para saraus de literatura, música e teatro. Essas iniciativas têm proliferado especialmente na periferia de São Paulo. Na segunda-feira da semana passada, o Sarau do Binho agitou um bar na região de Campo Limpo com poesia e música (leia endereços abaixo).

Já o Sarau da Cooperifa tem revelado autores em publicações marginais e também por meio da Global Editora, que, entre outros alternativos, publicou O colecionador de pedras, de Sérgio Vaz. Outra iniciativa vem do Centro Educacional Unificado (CEU) Meninos, na zona sul da capital, que durante dois anos promoveu o Sarau Rap e agora planeja abrir para outras manifestações.

Começamos o projeto pela grande quantidade de grupos de hip hop e rap existentes na região de Heliópolis. Estamos planejando um formato mais aberto a outras linguagens, como literatura, teatro e dança. A idéia é promover um intercâmbio de experiências culturais, diz Fabiano Pedrosa, coordenador de projetos culturais do CEU Meninos.

Contra a fotocópia

Promover o acesso à leitura tem sido também o papel de livreiros de sebos. Pelo menos para aqueles que se consideram militantes culturais. Há vinte e um anos para ser mais preciso, desde 8 de março de 1987. Raul Amaro Piegas abriu sua banca no prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Hoje expõe parte do estoque de 3 mil livros em frente à entrada do Restaurante Central, junto aos blocos do Conjunto Residencial da USP (Crusp).

O que faço é uma campanha contra a fotocópia, pois nenhum livro meu custa mais que R$ 0,05 a página, enquanto uma cópia xerox sai por R$ 0,12. A fotocópia fere o direito do autor e promove a fragmentação da cultura, defende. Morador de um sítio, conta que sua atividade é um trabalho de militância, pois não lhe rende nada. Sobrevivo porque não tenho compromisso com nada nem ninguém. Tudo o que os livros me dão é a liberdade e o conhecimento, diz.

Jornalista formado pela ECA, Silvio Diogo Lourenço dos Santos vende livros num sebo montado no saguão da FFLCH. Considero que essa é uma função de comunicação. Presto um serviço para estudantes, professores e funcionários e, indiretamente, para a Universidade, diz. Os livros e a leitura são ferramentas essenciais ao desenvolvimento da percepção, da sensibilidade, da reflexão e do senso crítico, o que apenas o ensino formal não é capaz de proporcionar. Silvio ressalta que não é contrário à fotocópia, mas acredita que depender dela fragmenta o conhecimento. A pesquisa de um autor ou de um livro subentende autonomia, maior amplitude e profundidade do conhecimento, defende.

O vendedor também milita do outro lado do balcão. É autor do livro de poesias Desenho do chão, que será lançado em breve pela editora Toró (informações pelo e-mail edicoestoro@yahoo.com.br). Essa editora está ligada a um movimento de democratização do acesso à cultura na periferia de São Paulo e já lançou 11 títulos de autores alternativos a preços populares. Acho que é uma forma de o livro circular onde normalmente a cultura não seria acessada, afirma. 

Iniciativas são positivas, mas não abrangentes, diz professor

O poeta gaúcho Mario Quintana dizia que o verdadeiro analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê. Para o professor Vitor Henrique Paro, da Faculdade de Educação da USP, a falta do hábito de leitura entre os brasileiros é mais grave do que parece, pois os potenciais leitores que freqüentaram escolas e são até pós-graduados não lêem. É fato que grande parte da população não tem acesso a bens culturais. Porém, pior é ter acesso e não usufruir.

Vitor Paro: “A escola deveria ser um lugar de brincadeira e prazer. Porém, é onde as pessoas acabam odiando ler e escrever”
Na visão de Paro, esse comportamento reflete uma sociedade que não exige indivíduos cultos. Além disso, as escolas não se ocupam em educar, mas em passar informações e conhecimento. Educar implica ensinar valores, comportamentos e crenças.

Parte do problema está no formato em que se estrutura o modelo educacional brasileiro. A escola deveria ser um lugar de brincadeira e prazer. Porém, é onde as pessoas acabam odiando ler e escrever. O modelo escolar tem cinco séculos de atraso e está mais antenado com a Idade Média, critica. 

As políticas públicas culturais deveriam mudar esse estado de coisas, defende. As iniciativas populares revelam justamente a falta de ação do Estado. As pessoas ou organizações não-governamentais buscam preencher essa lacuna. Essas medidas, embora positivas, são pontuais e têm efeito apenas local. Precisamos de algo mais abrangente. 

Se a ação governamental revela a direção das políticas públicas, por que não criar a obrigatoriedade de salas de leitura em locais públicos, como é o caso das áreas reservadas a fumantes?  pergunta o professor. Salas de consultório médico ou outros locais públicos onde há televisores em volume altíssimo que atrapalham a leitura das pessoas constituem uma ditadura. O empresário de visão deveria dar mais importância para essa realidade.


Sarau do Binho
Às segundas-feiras, às 20h30. Rua Avelino Lemos Jr., 60, Campo Limpo. Fones (11) 5844-6521 e 5844-4532. 

Sarau da Cooperifa
Às quartas-feiras, às 20h. Bar do Zé Batidão. Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Chácara Santana. Fone (11) 5891-7403.

CEU Meninos
Rua Barbinos, 111, São João Climaco. Fones (11) 6945-2552 e 6945-2559.

Sebo do Raul
Espaço de convivência do Crusp, na Cidade Universitária.

Sebo do Silvio
Espaço de convivência do prédio de História, na FFLCH, na Cidade Universitária.

Zona Oficial de Troca de Livros do Bookcrossing
Central das Artes. Rua Apinagés, 1081. Fone (11) 3865-4165. Na internet: www.bookcrossing.com.

Fonte: Jornal da USP