sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Na era da globalização, o que deveríamos ler?

Umberto Eco
Professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão "O Nome da Rosa" e o "Pêndulo de Foucault".

“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?

Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?

Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?

Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.

Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.

Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista). Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”
Tradução: Lana Lim

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quando o livro faz parte da vida e rotina dos funcionários

12/12/2011

Programas empresariais educam o funcionário e combatem o déficit de leitura no país


Em um país onde a leitura é um hábito pouco praticado, principalmente entre a população adulta, empresas do setor privado começam a tomar para si a responsabilidade de estimular a leitura entre seus funcionários para elevar o valor intelectual do capital humano e prover um benefício e incentivo aos colaboradores.

Segundo um levantamento o Instituto Pró-Livro referente ao ano de 2007, na ocasião 48% dos adultos brasileiros de 30 a 69 anos se autodeclaravam “não leitores”.

Entre os principais motivos dados pelos entrevistados estão a falta de tempo, o desinteresse, falta de dinheiro e de bibliotecas foram as principais alegações para a ausência do hábito, revelando a necessidade de medidas sociais para impulsionar o desejo e o gosto pela leitura.

Sensíveis a essa necessidade, algumas empresas já têm desenvolvido programas que facilitam o acesso aos livros, oferecem aos colaboradores a possibilidade da troca de conhecimentos e do desenvolvimento pessoal e profissional através do hábito da leitura.

Fonte de motivação

No grupo Cometa, por exemplo, os livros entraram no dia a dia dos funcionários aos poucos. O presidente Francis Maris Cruz, começou a comprar exemplares de alguns títulos para compor as prateleiras de cada unidade da empresa.

Mas o que começou despretensiosamente, se tornou há seis anos um programa estruturado, batizado de Cometa Leitura, com 15 bibliotecas (uma em cada loja do grupo), cerca de 300 livros cada, voltados para temas profissionais como liderança, gestão, relação interpessoal e autoajuda.

A cada mês, os funcionários devem ler ao menos um livro e entregar um resumo do que foi lido ao departamento de RH. Em um evento mensal, alguns leitores sorteados contam sobre o enredo e tema do livro e debatem com colegas possibilidades de aplicar os conhecimentos adquiridos no dia-a-dia da empresa.

“O programa tem ajudado funcionários tímidos a serem mais participativos nas reuniões e melhorou, inclusive, seu relacionamento com colegas, amigos e família”, afirma Cristinei Rodrigues Melo, diretor administrativo do Grupo Cometa.

A participação é voluntária, mas já conta com a participação de 90% dos dois mil colaboradores do grupo. Como incentivo, a leitura de 2400 páginas ao final do ano se tornou uma das metas para que o funcionário possa receber o 14° e até o 15° salário.

Caráter social e apoio público

Desde o ano passado empresas do ABC paulista têm disponibilizado aos funcionários espaços de leitura e empréstimos de livros dentro das fábricas. O projeto chamado Leitura nas Fábricas faz parte do programa Mais Cultura do Governo Federal e tem o apoio do Ministério da Cultura, prefeituras de Diadema e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.

Ao todo, a cidade possui oito pontos de leitura instalados e inaugurará mais sete em 2012. Além disso, o projeto já conta com apoios para se estender às empresas da cidade de São Bernardo do Campo e posteriormente para todo o Brasil.

Cada ponto conta com um agente de leitura que, além de cuidar do local, têm a missão de incentivar o empréstimo dos livros e a utilização do espaço para leitura nos horários de descanso e refeição.

“O processo de formação de um leitor é muito difícil e deve ser construído aos poucos, até a leitura se tornar um hábito”, explica Lucineide Guimarães, coordenadora do programa em Diadema.

“Estratégias como bilhetinhos nos murais, cartazes e até mesmo a instalação em pontos de maior movimento, são importantes para lembrar ao trabalhador que os livros estão à disposição dele”.

O empresário Nelson Miyazawa é presidente da Legas Metal, uma das primeiras empresas a aderir ao programa e além de novos livros, investe na assinatura de jornais e revistas para o espaço.

“Muitos funcionários começam a frequentar a biblioteca para levar livros para seus filhos e acabam encontrando novamente o interesse pela leitura que haviam perdido há muito tempo ou que nunca tiveram”, diz o empresário.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mais Livros Mais Livres RBS TV

Campanha Mais Livros Mais Livres de 2007, da RBS TV de Santa Catarina. Vale a pena rever

Anúncio Mais Livros Mais Livres RBS TV
Redação: Moises Dias Neto, André Timm
Direção de Arte: Moises Dias Neto
Ilustração: Éder Minetto






sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Para Isabel Solé, a leitura exige motivação, objetivos claros e estratégias

"Leitura exige motivação, objetivos claros e estratégias"
Rodrigo Ratier - Nova Escola - 08/12/2011

Foto: Sérgio ScripillitiProfessora do Departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha, Isabel Solé afirma que a leitura exige motivação, objetivos claros e estratégias. Para a especialista, o professor ajuda a formar leitores competentes ao apresentar, discutir e exercitar as principais ações para a interpretação.

Pesquisas sobre como o leitor interage com o texto circulam no ambiente das universidades desde a década de 1970. Coube à espanhola Isabel Solé, professora do departamento de Psicologia Evolutiva e da Educação na Universidade de Barcelona, na Espanha, trazer a discussão para as salas de aula. Publicado originalmente em 1992, seu livro Estratégias de Leitura esmiúça o papel do professor na formação de leitores competentes (leia a resenha do livro). "O ensino das estratégias de leitura ajuda o estudante a aplicar seu conhecimento prévio, a realizar inferências para interpretar o texto e a identificar e esclarecer o que não entende", explica. De sua casa, em Barcelona, Isabel apontou caminhos para a atuação prática.

Qual a maior contribuição do livro Estratégias de Leitura para a aprendizagem em sala de aula?
ISABEL SOLÉ Eu diria que o maior mérito foi colocar ao alcance dos professores de Educação Básica uma forma de pensar e entender a leitura que já era bastante conhecida no âmbito acadêmico, mas ainda não tinha muito impacto na prática educativa. Afinal, são os docentes que de fato contribuem para a melhoria da aprendizagem da leitura.

O que a escola ensina sobre a leitura e o que deveria ensinar?
ISABEL Basicamente, a escola ensina a ler e não propõe tarefas para que os alunos pratiquem essa competência. Ainda não se acredita completamente na ideia de que isso deve ser feito não apenas no início da escolarização, mas num processo contínuo, para que eles deem conta dos textos imprescindíveis para realizar as novas exigências que vão surgindo ao longo do tempo. Considera-se que a leitura é uma habilidade que, uma vez adquirida pelos alunos, pode ser aplicada sem problemas a múltiplos textos. Muitas pesquisas, porém, mostram que isso não é verdade.

Hoje em dia, o que significa ler com competência?
ISABEL Quando o objetivo é aprender, isso significa, em primeiro lugar, ler para poder se guiar num mundo em que há tanta informação que às vezes não sabemos nem por onde começar. Em segundo lugar, significa não ficar apenas no que dizem os textos, mas incorporar o que eles trazem para transformar nosso próprio conhecimento. Pode-se ler de forma superficial, mas também pode-se interrogar o texto, deixar que ele proponha novas dúvidas, questione ideias prévias e nos leve a pensar de outro modo.

Ensinar a ler é uma tarefa de todas as disciplinas?
ISABEL Sim. Não apenas para aprender, mas também para pensar. A leitura não é só um meio de adquirir informação: ela também nos torna mais críticos e capazes de considerar diferentes perspectivas. Isso necessita de uma intervenção específica. Se eu, leitora experiente, leio um texto filosófico, provavelmente terei dificuldades, pois não estou familiarizada com esse material. É preciso planejar estratégias específicas para ensinar os alunos a lidar com as tarefas de leitura dentro de cada disciplina.

Como os professores das diferentes áreas devem se articular entre si?
ISABEL O que aprendi em minhas conversas com professores é que os da área de línguas têm um papel importantíssimo para ajudar os alunos a melhorar a leitura e a composição de textos no campo de ação da própria língua e da literatura. Os responsáveis pelas demais disciplinas, por sua vez, podem lidar com textos mais específicos. Aliás, como assinalam muitos especialistas, quem leciona também deve aprender progressivamente a compreender e produzir os textos próprios de suas áreas. Em seguida, uma assembleia de professores ou a coordenação podem planejar que, digamos, o titular de História ensine a resumir textos como relatos, que o de Ciências ajude a produzir relatórios e a entender textos instrucionais e assim por diante. Outra proposta é, sempre que possível, trabalhar com enfoques mais globalizantes, com toda a equipe reforçando procedimentos de leitura e produção escrita.

Como é possível motivar os alunos para a leitura?
ISABEL Uma boa forma de um docente fomentar a leitura é mostrar o gosto por ela - quer dizer, comentar sobre os livros preferidos, recomendar títulos, levar um exemplar para si mesmo quando as crianças forem à biblioteca. Os estudantes devem encontrar bons modelos de leitor na escola, especialmente aqueles que não possuem isso em casa.

E como despertar o interesse para a leitura para aprender?
ISABEL O fundamental é que os alunos compreendam que, se estão envolvidos em um projeto de construção de conhecimento ou de busca e elaboração de informações, é para cobrir uma necessidade de saber. Muitas vezes, o problema é que que eles não sabem bem o que estão fazendo. Nesse caso, é natural que o grau de participação seja o mínimo necessário para cumprir a tarefa. Quando os objetivos de leitura são claros, é mais fácil estar disposto a consultar textos ou a procurar algo numa enciclopédia.

De que forma as estratégias realizadas antes, durante e depois da leitura podem auxiliar a compreensão?
ISABEL Elas ajudam o estudante a utilizar o conhecimento prévio, a realizar inferências para interpretar o texto, a identificar as coisas que não entende e esclarecê-las para que possa retrabalhar a informação encontrada por meio de sublinhados e anotações ou num pequeno resumo, por exemplo.

Se pudesse modificar algum ponto em seu livro, qual seria?
ISABEL Eu insistiria muito mais na conexão profunda que existe entre leitura e escrita quando o objetivo é aprender. Essa tarefa híbrida entre a leitura e a elaboração do que se lê por meio de resumos, sínteses e notas tem um impacto muito importante na aprendizagem. Algo que tenho visto nas investigações mais recentes do grupo de pesquisa de que faço parte é que muitos alunos, quando têm de fazer um resumo depois de ler, cumprem a tarefa sem voltar ao texto original para ver se o que se destacou é fiel ao que se leu. Creio que é preciso romper com a sequência "primeiro ler depois escrever". Em vez disso, é melhor pensar que se faz uma leitura já com o propósito de escrever, num processo que envolve a revisão do escrito.

Fonte: Revista Nova Escola

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Sobrevida para o hábito de ler

05/11/2011

Mesmo com tanta tecnologia, ferramentas e meios digitais de disseminação da informação, os livros ainda são apreciados por muitos na busca pelo conhecimento

Patrícia Emiliano

Desde o final do último século, especialistas ao redor do mundo vêm prevendo o sumiço dos livros e o declínio do hábito da leitura em impressos. O apego ao cinema, televisão, videogames e o fascinante mundo da internet são alguns dos elementos responsáveis por essa “profecia”. Aliados a essa tendência, o pouco apreço à instrução como valor social, a pobreza e a falta das bibliotecas públicas, além do corre-corre da vida cotidiana, poderiam conspirar para que o livro como objeto de desejo estivesse fadado ao desaparecimento. Mas, contrariando as expectativas, jovens e crianças itabiranas cultivam o prazer da leitura e reconhecem que um bom texto ainda é imprescindível para o crescimento na vida pessoal e profissional.

Aarão Moreira de Castro Almeida, 10, apesar da pouca idade, rapidamente tomou gosto pelos livros. O garoto já perdeu a conta de quantos leu. Atualmente, lê “Coração de Tinta”, da escritora alemã Cornelia Funke, de 456 páginas. A vontade de devorar histórias começou graças aos pais, que o incentivavam dando livros de presente, mesmo antes de ele saber ler. “Eles traziam livros com histórias curtas e liam para mim e eu fui gostando”, lembra o pequeno leitor.

Em casa, Aarão tem um balcão de livros. Quando há algum de que goste mais, logo pede para os pais toda a coleção do autor. “Às vezes, leio o mesmo livro mais de uma vez. Se começo um e não gosto, troco para outro e depois volto nele, mas nunca deixo um livro pela metade. Muitas vezes eu prefeito ler do que ver televisão ou ficar no computador”. Para Aarão não importa o tamanho do livro, mas o conteúdo que ele oferece. Se lhe interessar, com certeza será lido. O estudante, de dez anos, pega emprestado um livro por semana na biblioteca da escola e o maior livro lido por ele até hoje foi “Ilíadas: Odisseia Original”, de 1.003 páginas.

Para o pai de Aarão, o técnico de automação industrial, Antônio Rubens de Castro Almeida, ter apresentado a leitura ao filho desde criança fez com que hoje ele entenda e tenha uma percepção melhor da vida e do mundo. “O hábito de ler ajuda as crianças a se relacionar melhor com os outros, a aprender mais facilmente e a gostar de descobrir coisas novas”, diz o pai.

Além do incentivo dos pais, o garoto também recebe incentivo na escola onde estuda. Para a professora e coordenadora de Português da Fide, Maria Ruth de Castro Almeida, é dever de todas as instituições de ensino investir em livros e impressos. Ambos requerem habilidades que favorecem o foco, leitura linear, concentração e conhecimento de mundo. “A linguagem é rica e, através da leitura, a pessoa adquire poder de argumentação, melhora a escrita e sabe se expressar melhor. Nada que a tecnologia substitua”, opina a professora.

Na escola em que Ruth trabalha, os alunos do 2º ano, com idade de 7 anos, levam livros para casa semanalmente. Eles também têm, uma vez por semana, aula de Literatura. Os alunos ainda trabalham com as obras de Carlos Drummond de Andrade e de outro autor que escolherem. Ruth considera imprescindível que o hábito de ler seja incentivado na base e tenha início em casa, sendo complementado e reforçado na escola.

Outra amante da leitura é Beatriz Leite Pessoa, também de dez anos. Assim como o menino Aarão, ela teve o incentivo à leitura em casa, por meio dos pais. Hoje, o hábito é continuado e estimulado pelos projetos literários da escola que constantemente apresenta novidades aos alunos. “O livro distrai, me ensina e imagino tudo o que leio. Às vezes leio até no recreio”, conta Beatriz. A garota entende que a leitura a ajuda na escola, principalmente quando precisa usar a imaginação para fazer redações. Entre os preferidos estão os romances e obras de ficção, como as sagas Crepúsculo e Harry Potter. Todos já foram lidos.

Já a colega Amanda, de 11 anos, gosta de ler de tudo. O seu interesse se estende a revistas, jornais, livros e impressos em geral. Como a mãe é professora, em casa sempre tem acesso a livros e a assinaturas de revistas e jornais. Começou a ler por curiosidade e logo se apaixonou. Amanda diz que hoje tenta influenciar o irmão mais novo, de sete anos, “mas ele prefere mesmo é ficar no computador”. No entanto, ela não desiste e quer aproveitar junto do irmão os três armários repletos de livros que a família tem em casa. Hoje, ele só é usufruído pela irmã mais velha, de 16 anos.

Conhecimento à disposição

A biblioteca Luiz Camillo de Oliveira Netto, da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, única biblioteca pública de Itabira, conta, atualmente, com um acervo de cerca de 30 mil livros. Lá podem ser encontradas obras de literatura infanto-juvenil e para adultos, obras de referência e obras informativas de todas as áreas do conhecimento. Tem também acervo em Braille, que inclui obras de diferentes escritores, como Machado de Assis, Victor Hugo e também de autores de Best Sellers, como Dan Brown. Nela também é possível ter acesso a periódicos, como jornais e revistas, e também à internet.

Segundo a bibliotecária Elisabete Tércio dos Santos, os livros disponíveis são bastante utilizados e a biblioteca frequentada, ao contrário do que muita gente pensa. O público, em sua maioria, é formado por estudantes e jovens em geral. Os adultos procuram mais livros de auto-ajuda e romance. Por semana, de acordo com Elisabete, passam pelo local cerca de 600 usuários. Somente em agosto foram emprestados, exatamente, 1.089 livros.

Como forma de incentivar a leitura na cidade, a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade promove alguns projetos como o “Pegue, leia e repasse”, e “Leia mais”, no qual um lote de 913 livros é distribuído em sete pontos da cidade. Quem queira ter acesso aos livros da Biblioteca Pública deve fazer um cadastro mediante taxa única de R$ 2,00.

Livros e cinema

A proprietária de uma livraria em Itabira, Juliana Cássia Naves Araújo, atribui o resgate do interesse dos jovens pela leitura aos livros cujos roteiros basearam filmes no cinema. É o caso das sagas Harry Potter, Crepúsculo, Percy Jackson, Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia, verdadeiros fenômenos de vendas. “Muitos jovens que não gostavam de ler adquiriram o hábito por meio dos livros de Harry Potter, por exemplo. Foi uma febre de vendas”, conta a empresária.

De acordo com Juliana, as pessoas compram mais os livros divulgados pela mídia. O que escapa dessa onda de mercado são os livros infantis, escolhidos, normalmente, por um impulso afetivo das crianças. “É importante que os pais deixem seus filhos optar pelo que eles querem ler. Claro que é necessário orientar naquilo que é adequado para a idade. No entanto, vejo aqui muitos pais querendo que os filhos leem literatura, obras que eles consideram de qualidade. Neste momento cria-se uma antipatia entre a criança e o livro”, explica Juliana.

Com o know how de quem vive do mercado literário, a empresária avalia, ainda, que em Itabira falta incluir o hábito de ir a uma livraria como cultura e como forma de lazer. “Nos grandes centros, levar os filhos à livraria é uma forma de diversão. Hoje, os livros também estão evoluindo, ganhando maneiras, texturas, formas diferenciadas, sons, línguas estrangeiras. Ele deve ser dado como presente, incentivando a leitura. Um livro pode ser muito mais divertido que um brinquedo e é muito mais barato e didático”.

Livros para educar

Há quem tenha paixão por livros e não abra mão de estar sempre atualizado frente às novidades oferecidas no mercado, como é o caso da empresária Carolina Lage e Silva, de 33 anos. Toda semana, ela vai à livraria em busca de novidades previamente pesquisadas. Ela conta que sua casa se tornou uma biblioteca para amigos e parentes e exibe entusiasmada a estante com centenas de livros.

O seu amor pelos livros surgiu na escola, quando ainda estava na 4ª série. Toda semana, a professora pedia que os alunos levassem um livro para casa e, assim, ela se apaixonou por eles. “Quando comecei a trabalhar, passei a comprar livros. São meus companheiros. Não consigo dormir sem ler. E, como viajo muito a trabalho, sempre tem um na minha bolsa. Até nas viagens de férias sempre levo um comigo”, diz a empresária.

O hobby de Carolina já influencia a filha Luíza, de três anos e meio. De tanto receber livros de presente, a pequena já se sente confortável transformando o cenário de casa em biblioteca. No momento em que a mãe era entrevistada, Luíza se mantinha entretida com livros aos montes, espalhados pela sala, e contando histórias para a coleguinha Laura a partir das gravuras que via em seus livrinhos.

Para a pedagoga Leir Lage, quando os pais leem para os filhos pequenos, mais que um incentivo, o gesto representa um ato de carinho. “A criança se sente acolhida e associa essa sensação a coisas boas. É um ganho para a vida toda, fazendo com que ela sinta essa relação com o livro. A criança só se tornará um leitor no futuro se conseguir adquirir o hábito desde cedo”, conclui a pedagoga.