segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Por que ler é fundamental?

Carla Caruso é escritora, pesquisadora e realiza projetos de capacitação de professores no Estado de São Paulo.

“A leitura da palavra é sempre precedida da leitura do mundo.” Paulo Freire

Afinal por que se afirma que é tão importante ler? Para responder a essa questão, vamos lembrar que o texto – seja de que natureza for – está sempre pronto a ser compreendido, decifrado e interpretado. O processo da leitura exige um esforço que garante uma compreensão ampliada do mundo, de nós mesmos e da nossa relação com o mundo.

Na Roma antiga, o verbo “ler” – do latim legere – além de ler, também podia significar “colher”, “recolher”, “espiar”, “reconhecer traços”, “tomar”, “roubar”. Para os romanos, então, ler era muito mais do que simplesmente reconhecer as palavras e frases dos outdoors de uma avenida, dos índices de desempregos noticiados nos jornais, do discurso político de um candidato à presidência da República, de um poema ou de um conto, de um romance ou de um filme.

Ler é compreender os discursos, mas também é completá-los, descobrindo o que neles não está claramente dito. Talvez “recolher” seja buscar as pistas que o texto tem, “espiar” seja distanciar-se um pouco e não de imediato aquilo que está sendo proposto, “tomar” e “roubar” talvez queira dizer estar prontos a captar, capturar, se apropriar daquilo que está escondido nas entrelinhas de um texto.

Um desfile de palavras vazias?

É assim que a leitura se torna criativa e produtiva, pela descoberta dos sentidos do texto e a atribuição de outros. Do contrário, ela se torna apenas assistir a um desfile de letras, palavras e frases vazias, diante de olhos tão passivos, quanto sonolentos.

O mundo simbólico se amplia diariamente. A maior parte dos fenômenos, seja de natureza política, econômica, social ou cultural, faz parte de um registro contínuo do homem. Também a reinvenção da realidade por meio dos textos literários, que constroem uma nova linguagem, nos dá a dimensão das emoções, sentimentos, críticas e vivências do homem, na sua busca de sentido para a existência. Nos contos, crônicas, romances, poemas, nos mais variados textos criados, há sempre um universo interior e exterior de pessoas que vivem ou viveram num determinado tempo e espaço. Ler os textos escritos e as diversas linguagens inerentes ao ser humano é ampliar o nosso próprio mundo simbólico, é desenvolver nossa capacidade de comunicar e criticar, enfim, é um ato contínuo de recriação e invenção.

Fonte: Portal UOL

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Formação de leitores a domicílio

Gilberto Scofield Jr. e Márcia Abos
20.08.2011


"Não saber ler é como ser cego. Precisamos ser guiados”, diz Maria Alves ao descobrir um mundo novo após ser alfabetizada aos 73 anos. Sua metáfora da cegueira foi confidenciada a Célia Moura Rantzi, uma cabeleireira de 27 anos cuja vida também foi transformada pela leitura e por histórias como a de Maria.

Há quatro meses, Célia trabalha como um dos Agentes de Leitura, programa de formação de leitores do Ministério da Cultura em parceria com governos estaduais e municipais. São Bernardo do Campo, a cidade onde vive, na Grande São Paulo, foi a primeira a colocar o projeto em prática, em maio. São 185 agentes treinados há um ano para atuar como estimuladores de leitura — e divulgadores de livros — em bairros carentes da cidade. Nos próximos meses, o programa começa em mais 14 estados, incluindo o Rio de Janeiro (as inscrições estão abertas para a seleção de agentes) e a expectativa do MinC é ter 15 mil agentes de leitura trabalhando em todo o Brasil até 2014.

O programa segue um modelo implementado em menor escala em 2005 pelo governo do Ceará, seguindo uma ideia do educador Fabiano dos Santos Piuba.

— Martelava na minha cabeça a ideia do agente. Pensava nos da saúde, que vão de casa em casa praticando medicina preventiva. Daí veio a ideia dos agentes de leitura, cujo objetivo principal é formar leitores — afirma Piuba, hoje diretor do Livro, Leitura e Literatura no Ministério da Cultura.
Acervo composto por livros clássicos e de autores da região

O resultado foi tão positivo que o MinC o convidou para aperfeiçoar o programa e torná-lo nacional. O modelo atual, desenvolvido em parceria com a Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio, selecionou e está formando 3.142 agentes em 15 estados brasileiros.

Podem ser agentes de leitura os jovens que tenham ensino médio completo e idade entre 18 e 29 anos. Eles são selecionados por meio de concurso público, com prova escrita, oral e entrevista. Têm preferência jovens cujas famílias recebam o Bolsa Família. Depois de aprovados, o grupo passa por um processo de formação antes de ir a campo. Recebem uma bolsa de R$ 350 ao mês. Usam um boné e uma camiseta para serem facilmente identificados e são guardiões de um acervo de até 100 livros, metade composto por clássicos da literatura brasileira e universal, metade de obras e autores da região onde atuam.

— O agente é uma biblioteca itinerante. O acervo é escolhido em parceria com o município ou estado. Clássicos como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade ou Ruth Rocha dividem espaço nas mochilas com autores de cada região. O Rio Grande do Norte, por exemplo, escolheu muita literatura de cordel. Já no Rio de Janeiro, a literatura de temática urbana contemporânea tem destaque — explica Nilza Rezende, responsável pela coordenação do projeto na PUC-Rio.

Cada agente atende a no máximo 25 famílias que vivem perto de sua casa. São todas cadastradas no Bolsa Família e escolhidas em parceria entre as secretarias da Cultura e do Bem Estar Social. Além das visitas semanais às casas, onde realizam rodas de leitura, contam histórias e emprestam livros, os agentes também atuam em bibliotecas, escolas, centros culturais e comunitários, promovendo saraus literários ou contação de histórias.

— No Ceará, observamos que as crianças das famílias atendidas por agentes apresentaram melhora no rendimento escolar. Muitos adultos analfabetos buscaram cursos de alfabetização estimulados pelos agentes — conta Piuba, que negocia com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) uma parceria para poder medir os resultados do projeto no Brasil.

Quem olha o trabalho dos agentes não deixa de se surpreender com a receptividade à iniciativa, a animada algazarra de crianças e adultos diante do contador de histórias. Afinal, não deixa de ser irônico a festa em torno de uma mídia tradicional num momento em que se discute o futuro do próprio livro num mundo cada vez mais digitalizado. Mas esta realidade ainda é um sonho distante nas comunidades carentes do país, onde o velho e bom livro — e o contador de histórias — são os protagonistas de um projeto que pode ser transformador.

Uma das principais pesquisadoras da formação de leitores no Brasil, Marisa Lajolo, da Unicamp, elogia o formato do Agentes de Leitura, mas diz que a existência do programa expõe as deficiências do sistema educacional brasileiro.

— Se tivéssemos bons professores não precisaríamos de agentes da leitura. O melhor exemplo disso é que todas as escolas bem avaliadas não precisam de gente de fora para promover a leitura. Ela mesma se encarrega disto — afirma.

Lembrando a instabilidade no repasse de verbas para outro programa de estímulo à leitura, o Proler, da Fundação Biblioteca Nacional (criado em 1992), ela diz ainda que um desafio da área é garantir a continuidade das ações.

— Para isto é preciso algo mais do que vontade política. Neste momento, há um capital grande interessado nisso: a indústria livreira, ameaçada pelo livro digital — constata.

Em São Bernardo do Campo, por exemplo, a previsão é de que o programa seja renovado por mais um ano e o número de agentes passe de 185 para 400 — mas a falta de bibliotecas em bairros carentes como Baeta Neves e Alvarenga levanta uma interrogação sobre como os leitores formados pelo programa poderão manter o hábito de ler.

Fabiano dos Santos Piuba, criador do programa e diretor do Livro, Leitura e Literatura no Ministério da Cultura, pretende acompanhar o desempenho das crianças atendidas por agentes em avaliações como a Prova Brasil. Também negocia uma parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para produzir pesquisas sobre o projeto.

Medir os resultados é um desafio. Números positivos podem estimular governos estaduais e federais a investir, em parceria com o governo federal, no programa ou em iniciativas semelhantes. No momento, a maior parte da verba vem do Ministério da Cultura, via Fundo Nacional de Cultura. A contrapartida é de 1/3 por parte de estados e 20% pelos municípios.

Cada agente de leitura custa R$ 7 mil reais por ano, incluindo seleção, material e capacitação. Em um ano, o projeto em 15 estados com 3.142 agentes custará R$ 22,2 milhões.
Para o escritor Francisco Gregório Filho, um dos fundadores do Proler, hoje há por parte do governo e da sociedade civil uma preocupação maior em relação à leitura.

— Há uma determinação política para investir em formação de leitores. Daí a criação de novos programas, como o Agentes de Leitura, capaz de complementar outros como, por exemplo, o Proler, que teve seus percalços, mas voltou a se fortalecer — diz.

sábado, 20 de agosto de 2011

Formar jovens leitores

MÁRCIA LORCA

Uma das buscas constantes do trabalho do professor é manter o gosto pela leitura nos alunos. É fato que, no início do ensino fundamental, essa competência se forma motivada pelas atividades desenvolvidas pelo professor em sala de aula. Entretanto, o problema emerge na passagem para os quatro últimos anos do mesmo ensino fundamental, momento em que o adolescente deixa de gostar de ler, abandonando os livros ao pó das prateleiras.
 
 
Nessa fase, o aluno passa a ter novos focos de interesse e a escola, que antes recebia a maior parte de sua energia curiosa, fica em segundo plano. Em consequência, a leitura, especialmente de obras literárias, diminui consideravelmente. Eis a grande inquietação de professores, pais e demais  educadores: por que a leitura é abandonada? O que motiva o aluno a criar,em alguns casos, aversão a isso?

Várias são as pesquisas em busca de identificar os fatores que incentivam o aluno à leitura. Elas apontam normalmente as influências da família, com a presença de pais leitores; o acesso direto aos livros; o trabalho pedagógico da escola e do professor; entre tantas outras. O que pouco se discute são as causas desse distanciamento entre o adolescente e o livro literário.

Como ponto de partida para tal discussão, seria ingênuo desconsiderar a fase de desenvolvimento por que passam os adolescentes. O momento é de busca da autocompreensão, da independência e da escolha de suas ideologias e filosofias vitais, isso sem contar as interferências tecnológicas muito mais atraentes. A energia passa a se concentrar em novos focos, especialmente no conhecimento do outro e da descoberta das emoções no envolvimento com o outro. E aqui ler não é, nem faz parte do gasto dessa energia.

Para acalorar a discussão, trago para a cena desse embate o trabalho docente com a leitura literária. Com raras exceções, o professor é quem mutila qualquer desejo de ler ao escolher as leituras obrigatórias que serão trabalhadas em sala de aula. A escolha não parte de um diagnóstico a respeito do gosto literário do aluno, mas é direcionada pela preocupação essencialmente pedagógica e, nos casos do ensino médio, fundamentada pelo vestibular. Buscar livros que eduquem moralmente nossos alunos ou pautar-se nas famosas listas de vestibular não é estímulo para a formação de leitores.

O que um educador deixa de lado é o fato de que, pela passagem ao longo dos anos escolares iniciais, o aluno forma gostos muito individuais sobre o que quer ler, sobre os temas que lhe são pertinentes determinados pela idade, crença ou sexo. Pesquisar esses gostos e investir neles pode ser um caminho na busca de, não apenas formar, mas ir além da construção de leitores críticos e vorazes por livros.

Dar as costas para os livros recém-lançados também não pode ser postura de formadores de leitores. É preciso lembrar que as obras não nasceram velhas, houve época em que se configuravam também como novas produções e que, muitas vezes, foram tomadas como expressões não artísticas, fora dos cânones estabelecidos pela crítica.

Ampliar nossas visões sobre livros e literatura é condição imprescindível para transformar mal  “ledores” em leitores. Quem sabe a aversão à leitura literária não seja reflexo da faltade criatividade nas formas de avaliar, responsáveis por destituir o livro como fonte de vivências e experiências que ampliam o horizonte de quem lê?

Márcia Lorca é mestre pela Unesp de Assis, pesquisadora da área de Literatura Infantil e Juvenil e professora de Literatura do ensino médio em Araçatuba

Professores e pais estimulam jovens a ler em Rio Preto

Depois de uma nota baixa na escola, estudante adquiriu prazer pelos livros

Suelen Silveira / TV TEM



Atrair os jovens para a leitura se tornou um desafio para os pais e professores. Como mostrar que um livro é interessante com acesso tão fácil à internet, por exemplo, cheia de fotos, sons e vídeos?

Na Biblioteca Municipal de São José do Rio Preto, é possível retirar bons livros sem pagar nada. É por meio da leitura que conhecemos novas palavras e ampliamos o vocabulário. Os livros também estimulam a criatividade, ajudam a formar opinião, ter um posicionamento sobre diferentes temas.

Uma das formas encontradas foi aliar as duas ferramentas, como as histórias de Harry Potter, que já atraíram milhões de telespectadores aos cinemas e já venderam mais de 400 milhões de livros.

Os recursos para incentivar a leitura estão cada vez mais fascinantes. Os tradicionais livros de papel dão lugar para outros bem diferentes; por exemplo, há publicações que podem ser levadas para piscina ou para o banho, porque as páginas são impermeáveis.

Em outro caso, a criança pode contar sua própria versão, com o fantoche que vem com o livro. Desta forma, os pequenos aprendem como a leitura pode levar a conhecer mundos bastante interessantes.

De algumas caixas, saem histórias fantásticas. Basta soltar a imaginação. Cada aluno interpreta o conto do jeito que quiser e mostra o resultado com as maquetes. Crianças e jovens brasileiros estão lendo mais. No ano passado, foram lançados 12 mil novos títulos no país, sendo 2,5 mil direcionados ao público mais novo.

E ao contrário do que muita gente imaginava, o computador não substitui o livro na vida dos jovens. Aliás, pode ser um bom aliado. Luis Antonio Gonçalves Neto é um leitor que surpreende: já leu mais de 2 mil livros. No blog, ele exercita outra paixão: a escrita. O estudante lê em média dois livros por dia, e o responsável por esse resultado é o pai. Depois de uma nota baixa na escola, ele obrigou o filho a ler dez livros. Aí, o adolescente não parou mais.

Alunos de Cesário Lange saem pelas ruas para contar histórias



Histórias como ferramentas de ensino. É assim que a cultura popular é tratada numa escola municipal de Cesário Lange. Os alunos não só conhecem o folclore regional, como saem pelas ruas da cidade contando causos.

Só mesmo uma boa história consegue deixar as crianças hipnotizadas. São contos, fábulas, crônicas, lendas e até piadas. Textos diversificados que incentivam, principalmente, a pesquisa e a leitura.

Das escolas, as crianças também saem as ruas e contam histórias para todo mundo ouvir. Seja para quem está na janela de casa, na fila dos correios e na Praça de Cesário Lange.

Contar histórias incentiva a escrita, a leitura, proporciona a interação com as pessoas e leva, crianças e adultos, ao mundo da imaginação.

Fonte: Tem Notícias