sábado, 7 de maio de 2011

Projeto de leitura para bebês internados ajuda a fortalecer vínculo dos recém-nascidos com suas famílias

Thais Leitão
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Os bebês internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Instituto Fernandes Figueira (IFF), no Rio de Janeiro, são pequenos, têm baixo peso ou precisam ser monitorados por profissionais capacitados por causa de alguma má-formação. Mesmo nesse ambiente, cercado por pequenas incubadoras, medicamentos e com a presença dos pais limitada, uma experiência vem trazendo novos olhares sobre os recém-nascidos e oferecendo a eles estímulos variados.

É o projeto Biblioteca Viva, do Ministério da Saúde, que prevê a leitura de histórias por voluntários e é realizado em diversos hospitais públicos, entre eles o vinculado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Na unidade neonatal do IFF, referência no tratamento de bebês prematuros, a ação completa cinco anos e é pioneira no país, com o enfoque em recém-nascidos. Neste período, mais de mil bebês já ouviram os contos.

A coordenadora da ação, a pedagoga Magdalena Oliveira, afirma que, embora ainda não haja estudos científicos que comprovem a eficácia do programa, as pequenas reações das crianças e o retorno das mães garantem que existem inúmeros benefícios. Para ela, a experiência ajuda a transformar a internação num processo menos doloroso e mais aconchegante, colaborando para o fortalecimento do vínculo dos bebês com suas famílias.

“Há vários indícios de uma troca muito intensa durante os momentos de leitura que certamente estimula o desenvolvimento deles. Até os batimentos cardíacos dos bebês é modificado quando há a leitura”, disse Magdalena, acrescentando que a primeira pesquisa científica sobre o projeto terá início este ano, por meio de uma dissertação de mestrado na própria Fiocruz.

A pedagoga contou que, a princípio, resistiu à ideia de levar a leitura, que já era realizada para pacientes mais velhos, para os bebês. Após pesquisar e conversar com vários profissionais, no entanto, ela concluiu que quanto mais os recém-nascidos fossem estimulados, menores seriam os prejuízos da prematuridade.

“A leitura estimula muito a questão auditiva deles. Além disso, temos a possibilidade de ressignificar a criança para as mães. Algumas comentam que não conseguiam enxergar o recém-nascido como uma pessoa cheia de características ainda, mas que por meio da leitura estabeleceram um vínculo muito forte e rico”, explicou.

A voluntária Selma Segal, que trabalha no projeto desde o início, garante que percebe a reação dos pequenos pacientes, como a atenção voltada para o livro ou até um esboço de sorriso nos mais velhos. Segundo ela, a iniciativa também é capaz de formar novos apaixonados pela leitura.

“É muito emocionante perceber que o carinho que a gente têm por eles tem retorno. As mães ficam muito gratas e muitas crianças desenvolvem também uma paixão pelos livros que ajudamos a construir”, disse.

Para Jussara Xavier, mãe de Kyra Xavier, de 1 ano e 1 mês, internada na unidade de saúde, as trocas realizadas no ambiente são fundamentais para o desenvolvimento das crianças.

“Elas chegam a esquecer que estão em um hospital quando participam da atividade. Além disso, a atenção com que ouvem a historinha é tão grande que parece mesmo que estão entendendo tudo”, afirmou.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mães costuram leitura para os filhos

Matéria publicada em 24/04/2011


Projeto-piloto em Arapiraca incentiva mulheres a produzir livros de pano para alunos de escolas públicas e creche

David Salsa
Repórter

Arapiraca (Sucursal) – O gosto pela leitura é incentivado cada vez mais cedo em Arapiraca. Um projeto-piloto está despertando nas mães dos alunos o amor pela leitura através de um ofício que a maior parte delas aprendeu com suas avós, a arte de costurar.

A iniciativa tem o objetivo de envolver as mães dos alunos com a produção de livros de panos e de materiais acessíveis às crianças que estudam nas escolas da rede municipal de ensino e, também das creches mantidas pela prefeitura.

As oficinas tiveram inicio no último mês de março, com a participação de 33 mães de alunos que estudam na Escola de Tempo Integral Zélia Barbosa Rocha, localizada no bairro Nova Esperança, na periferia da cidade.

No estabelecimento estudam cerca de 500 alunos e a idéia é que as mães das crianças aprendam a produzir os próprios livros.

ETAPAS

Nessa primeira etapa do projeto, duas educadoras-monitoras repassam os conhecimentos nas oficinas técnicas, enquanto uma contadora de estórias estimula a criatividade das alunas.

Como parte do trabalho, a prefeitura adquiriu três máquinas de costura e todo material, incluindo tecidos, linhas, agulhas e outros produtos necessários para a viabilização do projeto.

“Nossa proposta é incentivar a prática da leitura entre mães e alunos, com muita criatividade e imaginação, além, de , num futuro próximo, estimular a criação de uma cooperativa para a geração de renda com as mães que residem na comunidade”, revela a bibliotecária Wilma Nóbrega.

Ela também adianta que o projeto inclui a instalação de bebetecas em cada escola e nas creches, com o objetivo de estimular o gosto pela leitura em crianças de até cinco anos de idade.

Para Wilma Nóbrega, o projeto vai além do ato de costurar e produzir livros.

“ Essa iniciativa permite que as mães possam interagir com a educação de seus filhos e os filhos de outras pessoas, fortalecendo ainda mais o gosto pela leitura e, conseqüentemente, a qualidade do ensino e do aprendizado”, acrescenta.

À MÁQUINA

Arte da costura já está mudando histórias de vida em Arapiraca

A dona-de-casa Cicera Souza Moraes, 28, casada e mãe de um filho menor de nove anos, acredita que o projeto pode mudar a sua própria história.

Ela conta que, antes de fazer parte do projeto, sabia pouco da arte da costura. Cicera Souza Moraes também revela que os afazeres domésticos tomavam todo o seu tempo e não sobrava tempo para ler livros ou ouvir estórias.

“Agora, resolvi mudar a minha história. Estou aprendendo novidades e quero aproveitar essa oportunidade para fazer mais coisas e ganhar algum dinheiro com a arte da costura em livros e ajudar no sustento de minha família”, comenta a dona-de-casa.

Toda a produção de livros de pano, confeccionada pelas 33 mães da Escola Zélia Barbosa Rocha, será apresentada à sociedade de Arapiraca, no próximo sábado(30), em solenidade marcada para a Praça Luiz Pereira Lima, no centro da cidade.

Após o lançamento oficial do projeto, a idéia é levar a iniciativa para as outras sete escolas de tempo integral que funcionam na área urbana e, também, na zona rural do município.

Hábito da leitura pode ser adquirido em qualquer idade; quer tentar?

Ligia Sanchez

Experiências de programas de incentivo à leitura mostram que o primeiro passo é cativar o potencial leitor, o que se faz com uma proposta desafiadora. "Depois da aproximação, as pessoas são capazes de apreciar a leitura e se interessar por diferentes gêneros”, afirma Maria Alice Armelin, do Cenpec - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.

Para aqueles que acabaram criando aversão a ler, Silvia Colello afirma que é possível reverter este quadro com a própria magia da leitura. “Um exemplo foi o fenômeno que aconteceu há pouco tempo, da série de livros do Harry Poter, que atraiu milhões de crianças que não liam para a leitura. O importante é embarcar na grande aventura de ler”. Silvia é professora da Faculdade de Psicologia da USP e autora do livro “Textos em Contextos – Reflexões sobre o ensino da língua escrita".

Incentivo na infância é importante

Adquirir o hábito da leitura é um investimento a longo prazo, que se inicia muito cedo na vida das pessoas. "Sem prejuízo da atividade oral de se contar histórias sem livros, é importante ler para crianças desde muito pequenas. E não deve ser abandonada quando ela aprende a ler na escola", afirma a família tem papel crucial na formação do hábito de leitura. A maioria das pessoas que gostam de ler dizem que os pais foram quem mais as influenciou a tomar gosto pela coisa, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. “Isso nos leva a explorar a importância do exemplo, lendo na frente das crianças e para elas, mostrando os conhecimentos que foram adquiridos e a contribuição para sua formação profissional”, afirma Zoara Failla, gerente de projetos do Instituto Pró-Livro.

A pesquisa também mostra que as pessoas preferem ver TV, ouvir música ou simplesmente descansar em seu tempo livre. Como estimular a leitura em um ambiente dominado pela televisão, rádio e internet? Segundo Silvia Colello, a leitura não concorre com outras linguagens, é complementar. “Mesmo na TV aparecem coisas escritas. A leitura acaba enriquecendo e é enriquecida pelas outras linguagens, isso faz parte da pluralidade em que aparece no cotidiano.”

Confira dicas para estimular o hábito da leitura
  • Escolha um assunto que seja interessante para você. Não adianta brigar com as nossas preferências - se você não tem o costume de ler, não adianta tentar começar com O Banquete, de Platão. Gosta de futebol? Que tal começar pela biografia de um grande jogador? Se você ama gatos, talvez um belo exemplar sobre a vida e os hábitos dos bichanos seja sua melhor pedida 
  • Não gostou do livro que começou? Troque! Por que insistir num título que já desagradou nas primeiras páginas. Não se force a nada - pelo menos quando estiver tentando entrar no mundo da leitura
  • Se você prestar atenção, a escrita está em todo canto. É importante mostrar para as crianças o que os educadores chamam de ''função social da escrita''. Faça a lista de supermercado, deixe bilhetes, mostre o letreiro dentro do elevador...
  • Revista de fofoca, bula de remédio, embalagem de alimento, gibi, manual de celular. Vale tudo para iniciar o hábito de ler: a dica não é apenas para os temas, mas também para os tipos de ''obras''
  • Descubra quando, onde e como você gosta de ler. Toda forma é válida: em silêncio, deitado, no ônibus, ouvindo música... Cada um tem uma preferência. Pode ser até um exercício de autoconhecimento
  • É de pequenino... que se forma o hábito da leitura. Se você tem filhos ou convive com crianças, dê uma forcinha: leia com elas, leia para elas, peça para elas lerem. Tudo isso, lógico, de acordo com o conhecimento delas, a idades e os temas que interessem
  • Essa é para os educadores: na escola, a leitura não pode ser apenas por obrigação. Reserve espaço no cronograma para que os estudantes possam escolher os livros que preferem (adequando o grau de complexidade). Você vai perceber que eles começarão a desenvolver critérios para as escolhas e tendem a ser tornam bons leitores quando adultos
  • Frequente bibliotecas. Livro de papel é caro e ocupa espaço - pegar títulos emprestados pode ser uma boa opção para quem está começando. Outra dica são sites que disponibilizam obras para serem baixadas (de graça), como o Cult Vox 

A nova classe leitora

Matéria publicada em 26 de abril de 2011

Willian Vieira

Maria josé Rodrigues, de 48 anos, e as amigas da associação de mães do Parque Santa Rita, na zona leste de São Paulo, descobriram que são o retrato da nova classe média – os 20 milhões de brasileiros que testemunharam, nos últimos dez anos, o avanço da renda e do crédito e agora são perfilados como classe C. Elas ganham de dois a quatro salários mínimos, têm cartões de crédito e três, quatro tevês. Mas há um item a mais nessa lista que aponta para uma ascensão social diferente, incomum a quem vem de famílias com pouca formação escolar. Elas leem. E compram os próprios livros.

“Um dia eu ia comprar um cosmético, vi o livro no catálogo e me interessei”, diz Maria. Ela comprou o exemplar da revendedora que bateu na porta de casa, fenômeno recente que traduz uma nova situação para o mercado livreiro. O bairro dela não tem livraria. Quando a opção chegou tão perto, Maria aceitou. “O título me atraiu, sobre como lidar com pessoas difíceis. Era o que eu precisava. Então comprei.”

Em um país onde a leitura é somente a quinta atividade de lazer nas pesquisas e três em cada quatro pessoas não vão a bibliotecas, a compra de Maria mostra que as coisas começam a mudar. Como o índice de leitura acompanha o aumento da educação formal, que caminha com a alta da renda, a leitura surge para esses novos consumidores. O número de livros lidos por habitante saltou de 1,8, em 2000, para 3,7, em 2007, segundo a pesquisa Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro, de 2008.

O Brasil já é o 11º mercado de livros do mundo, de acordo com pesquisa divulgada nesta semana na Feira do Livro de Londres. E, segundo o mais recente levantamento da Fipe para a Câmara Brasileira do Livro, do ano passado, o mercado editorial cresceu 13,5% em volume de exemplares entre 2008 e 2009. Faturou quase o mesmo. Os livros é que estão mais baratos, graças à política de desoneração do governo e à queda do dólar.

A demanda é óbvia: segundo a pesquisa, 43% dos que dizem ler livros são da classe C, mas só 48% deles compram livros. Na classe A, são 73%. Se os outros 52% da classe C passarem a comprar, a mágica está feita. O mercado já percebeu isso. A Paulus, por exemplo, lançou uma coleção de infantis a 5 reais,- em razão “do aumento da procura- por essa classe C”, segundo o presidente, Zolferino Tonon. Fora o boom de livros de bolso e edições mais simples que a maioria que as editoras tem lançado, de olho em gente com formação e renda cada vez mais sólidas.

“Tome-se o universitário de faculdade barata: ele não vai comprar A Bíblia do Marketing, que custa 169 reais, mas, com certeza, vai comprar um livro para ajudar na carreira por 15 reais”, diz Ednil-son Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias. Juliana da Costa, de 26 anos, confirma a tese. Moradora da zona leste, a 40 quilômetros das maiores livrarias da cidade, a estudante de Administração passou a comprar livros a pedido do professor. “Não tenho tempo de ir à livraria, então compro no catálogo mesmo.” Ela comprou O Monge e o Executivo, adorou e quer mais.

“O que importa é que estamos conseguindo contemplar esse público”, afirma Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros. Dois elementos sinalizam isso. Primeiro, os filões que mais cresceram foram o religioso, o de autoajuda e os técnicos, além dos infantis – acessíveis e comprados- em massa pelo governo. Segundo, o tipo de venda que mais se expandiu foi o porta a porta, que cresceu perto de 13% em três anos, superando a internet.

Como as livrarias ainda se concentram nas áreas nobres das cidades, esse público compra livros em feiras, no porta a porta, em supermercados e nos catálogos, para alegria da Avon, que descobriu no clássico público que adquire seus produtos de beleza mulheres sedentas por leitura barata e com temas afins. Com fonte menor e papel simples, os livros são mais baratos. Caso do Crepúsculo nas mãos de Valdenice Barca, de 37. “Só compro em livraria se for no shopping. Mas quando abro o catálogo e acho algo, compro.” Já foram nove livros, que ela troca com as amigas, num improvisado clube de leitoras.

O que a classe C busca? “São livros de autoajuda, religiosos, receitas, romances femininos e cada vez mais literatura, mais best-sellers”, conclui Jardim.

Mas o impacto dessa nova classe de leitores no país ainda não é claro. O governo aposta que o aumento da escala barateará os livros, incentivando a leitura. Ao implantar o programa do livro popular, o objetivo é chegar a títulos abaixo de 10 reais. Seria algo como a Farmácia Popular. O MinC estuda linhas de crédito para tais livrarias. A contrapartida seria exigir, nos editais de compras para bibliotecas, o fornecimento dos títulos pelos mesmos preços no mercado. “Assim traremos o livro para a cesta básica da classe C”, diz Galeno Amorim, à frente da Fundação Biblioteca Nacional. “Mas o governo não vai interferir no que as pessoas devem ler. É o mercado que decide o que quer vender e as pessoas, o que comprar.”

Amorim contemporiza. “Claro, quando o Estado compra títulos, leva em conta critérios do que deve haver na biblioteca, incentivando a qualidade do que chega ao mercado. Mas o kit é variado e inclui a demanda dos leitores.” E tem o vale-cultura, incentivo de 50 reais aos trabalhadores para gastar com cultura, cuja aprovação no Senado é esperada pelo MinC. A cifra alcançaria 7 bilhões de reais ao ano. Se uma parte for endereçada a livros, já seria um novo boom.

Nem todos, porém, são tão ufanistas. “Existe um mercado potencial enorme, mas não há garantia de que o aumento de renda vai se refletir em leitura”, diz Milena Duchiade, diretora da Associação de Livrarias do Rio de Janeiro. “Uma livraria pequena tem 5 mil livros no catálogo. A Avon tem dezenas. Como ficam as escolhas?” Dona de livraria, Duchiade dá um exemplo da pouca diversidade da demanda. Com os vouchers recebidos pela prefeitura, professores cariocas podem comprar livros. “Mas é sempre autoajuda ou religiosos. Isso não é ruim. Mas precisamos diversificar a leitura.”

Para o antropólogo Felipe Lindoso, é natural o boom de livros religiosos. Como o tema agrada e eles são vendidos em livrarias, igrejas e supermercados, garantem-se escala, preço e acesso. “O bom livro é o que a pessoa quer ler.”

Que o diga a assistente social Giane Gouveia, de 40 anos. Quando ela entra numa livraria, busca livros sobre a profissão, autoajuda e espíritas. “Busco coisas que atendam às minhas inquietações. Já cheguei a gastar 400 reais com livros, mas eram de áreas que me interessavam.” O que importa, diz, é que as pessoas buscam respostas para seus problemas na leitura. “Assim, ganham uma perspectiva mais ampla”, diz Lindoso, autor de O Brasil Pode Ser um País de Leitores? “E pode ser, com certeza. Só não vai ser dos livros que os intelectuais querem.”

terça-feira, 26 de abril de 2011

Iniciação à leitura

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 26 de abril de 2011

ROSELY SAYÃO

'Criar o hábito da leitura' já perdeu o sentido. Queremos que as crianças leiam por prazer ou por costume?

CRIANÇA PODE adorar livros e histórias, desde que os adultos não atrapalhem. E como temos atrapalhado o que poderia ser uma verdadeira paixão pelos livros!

Ler é bom, precisamos formar leitores, a vida sem a literatura não teria graça, temos de incentivar o hábito da leitura nas crianças e nos jovens etc. Afirmações como essas brotam da boca de pais e de professores assim, sem mais nem menos.

Temos gosto em pegar frases e repeti-las muito, até que elas percam seu sentido, não é verdade? Assim aconteceu com essas e outras afirmações que tratam da importância da leitura na vida dos mais novos: tanto fizemos que conseguimos esvaziar o que elas dizem.

Primeiramente quero falar dessa expressão horrorosa: "Criar o hábito da leitura". Ah! Vamos aproveitar e lembrar outra semelhante: "Criar hábito de estudo".

Nós queremos que as crianças tenham prazer com livros e histórias ou queremos que adquiram um hábito?

Leitura, tanto quanto estudo, não deve ser tratada assim. Um hábito se instala e pouco -quase nada- acrescenta à vida de uma pessoa.

Já o amor, o prazer, o gosto verdadeiro pela leitura ou pelo estudo são capazes de mudar a nossa vida. Ler e estudar devem ser uma escolha, uma vontade, uma busca por algo que não se tem.

O bebê já pode ser introduzido ao mundo dos livros e da leitura. Pais e professores podem começar contando histórias e oferecendo livros para que ele manuseie, explore, se entretenha com esse objeto. E não precisa ser livro de plástico, que produza som ou coisa semelhante. Livro de verdade mesmo, de papel, com figuras bonitas e letras, encanta o bebê.

O escritor Ilan Brenman, apaixonado pela literatura, afirma que um requisito importante para iniciar as crianças no universo da leitura é a beleza do livro. Sim: uma capa bonita já chama a atenção da criança, tanto quanto as ilustrações. Aliás, muitos livros sem palavras são lidos pelas crianças com a maior atenção.

Ainda falando de bebês e crianças muito pequenas: o papel do livro, suas diferentes texturas, odores e cores também já são alvo da curiosidade delas e objeto de pesquisa concentrada.

E o que dizer de livros de histórias que crianças já conhecem e adoram -"Peter Pan" e "Alice no País das Maravilhas", por exemplo- com adaptação em "pop-up"? Imperdíveis, já que encantam crianças e adultos.

Não devemos menosprezar as crianças quando o assunto é história: elas não gostam apenas daquelas que foram escritas para as crianças. Toda a literatura, principalmente a clássica, pode ser oferecida, sem censura.

Tornar a leitura um ato obrigatório é uma dessas manias que nós adotamos com as crianças que prejudicam a descoberta que elas poderiam fazer do prazer da leitura. Tudo bem: isso pode ser feito como tarefa escolar, mas depois, bem depois de oferecer a elas a oportunidade de ler por gosto e não por obrigação, no fim do ensino fundamental, por exemplo.

Finalmente: a literatura não deve servir para moralizar a vida dos mais novos.

Nada de contar histórias que só servem para tentar "ensinar" a criança a ter bons modos, escovar os dentes etc. A educação moral e para a higiene, por exemplo, deve usar outros recursos.

Que tal um programa com seu filho? Visitar uma biblioteca ou uma livraria para procurar um livro bonito e gostoso de ler e de ouvir?

Certamente você e seus filhos irão aprender muito sobre a vida e sobre vocês mesmos nesse programa. E boa viagem!