segunda-feira, 18 de abril de 2011

Hora da história, hora de dormir

E quando a criança associa a hora da história com algum tipo de rotina que ela não está mais a fim de executar?


A gente vive dizendo e contando e lendo pesquisas sobre a importância da rotina para criança. E isso é bem forte quando o assunto é leitura, pois é fundamental que a criança entenda que para se tornar um bom leitor é preciso esforço, vontade e tudo mais. Talvez ela entenda isso mais tarde, mas o papel dos pais acaba sendo o mesmo.

Mas veja a conversa que tive com a Daniela Tófoli novamente sobre a pequena Helena, de 2 anos. Elas tinham o hábito de ler sempre uma história antes de dormir. Mas, como típico de sua idade, a menina começou a notar que ao dormir ela perdia uma infinidade de atividades incríveis como brincar mais, dançar mais, pular mais, ficar com os pais mais, muito mais. E quando ouvia o ‘vamos ler um livro?’ ela já se apavorava e, claro, protestava. Antes de entrar em pânico – Daniela é uma devoradora de livros e se arrepia com a ideia de Helena também não ser, rs – ela investiu em uma tática: começou a sugerir um livro em vários momentos do dia que estava com ela e jogou a associação rotina-livros para longe. Foi ótimo. Helena agora se interessa pela história, seja qual for a hora que ela chegue. Está aberta e curtindo cada vez mais os livros.

Quando o assunto é educar os filhos, o binômio tentativa e erro é fundamental. Como você se interessou por livros pode não ser a fórmula que irá funcionar com o seu filho. Cada um tem seu jeito e suas surpresas (ufa! Ainda bem!) e isso precisa ser respeitado e valorizado. E nunca, nunca desista. Se você curtir com ele, ele vai criar uma ótima relação com as histórias para a vida toda.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

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Fonte: Revista Crescer

Internet desperta para o prazer de ler, diz pedagoga

17 de abril de 2011

Entrevista com Cybele Meyer, psicóloga e autora do livro 'Menina Flor'

A internet é capaz de despertar o interesse pela leitura?

Sim. Os jovens leem e escrevem muito na internet, abrindo um canal para a leitura de livros no papel. Infelizmente, as pessoas têm o hábito de querer substituir e não somar. Quando surgiu a TV, disseram que era o fim do rádio e do cinema. E com o passar do tempo o que vemos foi que a televisão é mais um recurso para o entretenimento das pessoas.

O jovem está lendo mais?

O jovem de hoje lê muito mais do que o jovem de décadas passadas. Ele iniciou o hábito com a internet de forma motivadora, sem imposição. No passado, a leitura era imposta de forma punitiva. Aquele que não soubesse falar sobre determinado clássico tiraria nota baixa. Ele era obrigado a ler os livros que o professor indicava, normalmente clássicos com linguagem erudita, se deparando com inúmeras palavras que não conhecia, gerando uma "repulsa" pela leitura em geral. Agora, o jovem lê toda a coleção do Harry Potter sem que ninguém precise mandar.

Muitas bibliotecas estão disponibilizando livros mais populares, como os de autoajuda. Isso é bom?

A pessoa que procura um livro de autoajuda está querendo se tornar uma pessoa melhor. E essa é a principal intenção do livro: acrescentar algo em sua vida e te levar à reflexão. Quem se torna leitor vai navegar em outros mares para formar sua opinião. Quem inicia a leitura pela autoajuda vai abrindo para outros focos à medida que se sentir motivada para isto.

Adultos podem começar a gostar de ler sem nunca terem esse incentivo desde cedo?

Sim. Acredito mesmo nisso e já presenciei vários exemplos de mulheres que, tendo os filhos criados e lhe sobrando mais tempo para fazer o que gosta, leem muito tentando recuperar o tempo perdido. O incentivo à leitura é válido para qualquer idade.

Quais são os benefícios para quem desenvolve o hábito de ler, tanto na vida pessoal quanto na vida profissional?

Nos livros o leitor enxerga lugares, pessoas, situações que muitas vezes não teria oportunidade de vivenciar no seu cotidiano. O hábito da leitura faz com que a pessoa passe a se expressar melhor tanto na linguagem oral quanto na escrita. Seu vocabulário aumenta e seu raciocínio é estimulado. O melhor é que todas estas mudanças são espontâneas.

Fonte: Estadão

Este livro é bom?

"A gente lê, relê, se farta de resenhas (as da CRESCER, hein?), tenta conhecer os escritores e ilustradores, mas a pergunta sempre nunca nos deixa: afinal, o que é um bom livro para criança?

Desde que nascemos passamos a experimentar produtos culturais, seja na música, na literatura, cinema, artes plásticas, etc. Se nos for permitido, muito cedo já podemos ter opiniões sobre assunto e começar a trilhar nossas escolhas. E você, pai e mãe “modernos”, ficam na maior dúvida: sigo aqui a dica da Cristiane Rogerio para escolher os próximos livros do meu filho ou deixo que ele compre aquele lá do final da prateleira, que eu nem acho tão bom mas, tem o tal bicho que ele adora.

Faça-se perguntas, antes. O que você espera de um livro para o seu filho? Que ensine algo didaticamente? Que tenha moral no final? Será que ele tem que ser “bonitinho” ou fácil à primeira olhada? Poderia falar apenas de “coisas” boas e alegres?

Ou será que o livro bom para o seu filho deveria ser um que o emocione, que o divirta, que seja inesquecível, que não subestime a capacidade de discernimento, compreensão e sensibilidade da criança, seja de qual idade for.

Para mim, livro bom para criança é livro de boa qualidade. Agora, como a gente descobre isso? Fuçando. Você e seu filho. Desde bebê. Pode começar por uma mordida ou uma boa molhada nele durante o banho. Depois ele pode aprender a ler com as mãos, sentindo a textura das páginas, o contorno dos desenhos, abraçando. Mais tarde, ele se envolverá com as letras, a junção delas, o ritmo, a dança que elas fazem pelas boas edições. E tudo isso sempre guiado por você que, lendo desde cedo para o seu filho, vai fazer esta descoberta pelos gostos e preferências se transformar em um prazer contínuo.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Da capa para dentro do livro: estratégias para enredar o leitor na história...

Peter O’Sagae
Mestre em letras pela Universidade de São Paulo (USP)

Tem coisas que descobrimos aos poucos — e isso é bom, porque é garantia de que vamos continuar aprendendo... Mas tem coisas que aprendemos tão rapidamente que até mesmo se torna complicado para descobrir o que fizemos para fazer tudo o que fazemos! E com a leitura também acontece assim. Um dos objetivos da nossa oficina é, então, tentar driblar o tempo, congelá-lo, quem sabe fotografá-lo, para entender o que vai acontecendo quando estamos soltos, lendo um texto.

Esse exercício nasceu de minhas experiências como professor de Literatura Infantil e de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e como leitor dessa mesma literatura e de algumas teorias que existem por aí. Um leitor que se sente participativo, responsável pela construção de sentidos de um texto, um co-autor. Quem pensa tudo isso, poeticamente melhor do que eu, é Bartolomeu Campos Queirós (1999)

Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar o homem para tomar da sua palavra. Ter a palavra é, antes de tudo, munir-se para fazer-se menos indecifrável. Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento. Ler é evadir-se com o outro, sem, contudo, perder-se nas várias faces da palavra. Ler é encantar-se com as diferenças.

Ensinar e aprender a leitura, a gente aprende e ensina toda vez que nos encontramos com a diversidade de textos que existem ou, como educadores, ao promovermos o “abraço” da criança com o texto.

Embora ninguém vá suspeitar que os olhares não sejam, aqui, para o próprio texto de literatura para crianças, é bom lembrarmos a variedade existente de textos não-literários, às vezes classificados como utilitários: textos de circulação social, como o panfleto e os anúncios publicitários de rádio, televisão e revista; a notícia e a reportagem do jornal; tabelas e listas enumerativas; o bilhete, a carta e o ofício das tramas epistolares; receitas e regras de jogos da tipologia instrucional; os informativos por natureza, como o verbete de dicionário, de enciclopédia, artigos de revista especializada em um assunto; e os velhos didáticos também. São todos textos que se escrevem e se lêem, que pedem aproximação e abraço específicos, bem como a literatura. Hoje vivemos sob o signo (e o sonho) do letramento.

Vamos pensar leitura enquanto prática de interação através da linguagem, uma construção de sentidos que vai sendo erguida e confirmada ao longo do próprio processo de descortinar e desvendar o texto e que seja, de preferência, uma prática de colaboração participativa, um jogo entre adultos e crianças, em sessões de leitura compartilhada.

Nessas ocasiões, certas estratégias de leitura entram em ação pelas mãos, pelos olhos e pelas bocas do professor e do aluno, “denunciando” até mesmo como cada participante fez e faz para alcançar a compreensão do texto. Além de compreender o que diz e como diz o texto, a criança aprende, exercita e revisa suas próprias estratégias de leitura quando entra na brincadeira. O encontro com o livro, para abraçar a literatura, pode ser pensado e dividido em dois momentos, contínuos e sem interrupção: pré-leitura e pós-leitura, sempre em uma atmosfera afetiva e efetiva — quando nos ocupamos com a formação do leitor e de nós mesmos. Bem seja, diz Marisa Lajolo (2001), que

.... como você já sabe, a escola não pode se contentar com uma leitura mecânica e desestimulante. A escola pode e precisa comprometer-se com muito mais do que isso. Ela pode e precisa comprometer-se com uma leitura abrangente, crítica, inventiva. Só assim estará ensinando seus alunos a usar a leitura e os livros para viver melhor.

De todo esse circuito, nossa oficina enfoca boa parcela de estratégias de leitura, mas concentradas sobre a leitura de capa de livros para crianças. Estaremos, assim, refletindo sobre a pré-leitura do texto literário, buscando caminhos e preparando condições para a recepção da literatura.

O que ler?

Essa é a primeira pergunta-desafio para todos nós, educadores/leitores que desejamos conduzir a criança na aventura da leitura. Encontrei uma resposta (aposto que existem outras mais...) na época em que trabalhei junto ao Instituto Qualidade no Ensino. Transcrevo, compartilho:

Ler é sempre uma atividade complexa, pois envolve a conjugação de uma grande variedade de ações, admitindo até mesmo a interferência de atividades não propriamente específicas do ato de ler, mas que estão implicadas toda vez que se usa a linguagem. Atividade de conhecimento por excelência e condição para o trabalho intelectual, a leitura é o processo de compreensão multifacetado, multidimensionado, envolvendo diversas operações, como: percepção, decodificação e processamento de informações; memória, predição (antecipação), inferência, dedução, evocação, analogia, síntese, análise, avaliação e interpretação. Portanto, saber ler não é apenas conseguir decodificar, “traduzir” automaticamente um conjunto de sinais, mas mobilizar um conjunto de estratégias, fazendo interagir diversos níveis de conhecimento para construir significados.

Essa definição tem me acompanhado, partindo de um referencial cognitivista de aprendizagem. Estratégias de leitura são ações que os leitores desenvolvem, e, por força do hábito pedagógico que também trago na bagagem, essas ações correspondem aos objetivos a serem alcançados e cumpridos pelas crianças, em termos de habilidades, nas atividades em sala de aula. Porém, que a seriedade da pauta escolar não comprometa o prazer próprio da leitura literária. Ler é fazer, e mais: é fazer-se. Outra vez, a voz de Bartolomeu Campos Queirós (1999) alinhava meus pensamentos, ao afirmar que “A leitura acorda no sujeito dizeres insuspeitados, enquanto redimensiona seus entendimentos”.

Redimensionar o humano — eis o projeto da leitura! Como administrar as ações, nosso desafio... Mas antes de parecer um receituário, rígido em regras, gostaria de oferecer pontos de reflexão sobre a prática de leitura que promovemos na escola.

· Como acompanhamos o aprendizado e o encantamento da criança?
· O quanto permitimos a ela sair da esfera de reprodução da linguagem, esbaldando-se com a alegria de uma razão aventureira, produzindo sentidos por entre textos e livros?
· De que maneira laçar as vozes dos leitores co-autores para que todos sejam ouvidos e envolvidos pela leitura e pelos diálogos que se articulam antes, durante e depois dos encontros com o texto?

É importante que o professor, leitor e formador de leitores, instrua, oriente e dirija uma sessão de leitura compartilhada; que se sinta livre e seguro ao explicar como conseguiu construir sua própria leitura, apontando as pistas que foi juntando e, quanto mais solicitado, demonstrando e exemplificando o seu jeito de jogar com o texto e que saiba dar oportunidade para a criança exercitar suas estratégias de interpretação e falar sobre elas, ao monitorar as jogadas e passes livres dos alunos, negociando os sentidos, conduzindo breves atividades de releitura para a confirmação do que foi anteriormente estimado. É essencial, entre os participantes, circular uma variedade de perguntas (questionamento, e não questionário): que a dúvida do adulto seja a resposta da criança, e vice-versa, fazendo viver e reviver uma elaboração criativa de abordagens e aproximações com o texto...
Que o jogo-leitura de capa seja uma
aventura rumo à; obra, uma leitura a
quatro mãos - ou a dez, treze, vinte
mãos, olhos, bocas... - que faça brotar
cumplicidades, leituras em co-auditoria.

O livro na capa?

Já dissemos que a leitura da capa do livro é uma pré-leitura do texto e, por isso mesmo, não é uma atividade que tenha fim em si mesma nem poderá substituir a leitura literária propriamente dita. Também não é um exercício a ser realizado a todo momento, com todos os livros que serão divididos em uma leitura compartilhada. Se favorece a aprendizagem da criança quanto ao domínio das estratégias de leitura, essas ações, reciprocamente, deverão favorecer outras aprendizagens textuais.

Vamos pensar a leitura de capa como missão de espionagem, na qual o leitor/espião busca intuir relações de coerência com o texto que virá.

Assim, o título de um livro e a imagem da capa passam a compor um jogo — a leitura articula-se no desvelamento de senhas verbais, pistas visuais... Nesse processo de interação com o objeto-livro, abre-se um horizonte de expectativas em relação à história que vamos encontrar logo mais... De tal modo, a leitura de capa exige um olhar desperto e inquieto, dado à própria fantasia e ao raciocínio lógico. É, por isso, um exercício de percepção, curiosidade e imaginação sobre o material da capa em que o leitor não pode trapacear consigo mesmo, mas permitir que dúvidas, perguntas, certezas e apostas surjam, sem ceder à vontade de entrar no livro apressadamente. As pistas, isoladamente, já compõem um conjunto de significados que, ao serem somados, justapostos, confrontados pela fricção das possibilidades combinatórias, começam a produzir razões cintilantes, descobertas pela intuição e à espera de confirmação.

Título e imagem dialogam. Mas podem ser segmentados, analisados em separado, em um momento, para serem sobrepostos em outro.

O título é a nossa senha verbal, poderá ajudar tanto a revelar a imagem que se vê quanto a história que se desconhece até então. Operar sobre ele é proceder a uma rápida e ágil atividade de análise lingüística ou de epilinguagem, quando se busca interpretar o significado mais literal ou sua ambigüidade, o quanto há de sentido fechado ou traços incompletos para o leitor preencher, atualizá-lo, correlacioná-lo com outros títulos, textos, experiências vividas.

A imagem, igualmente, pode estar pronta e acabada, em plena consonância com o título, quer reproduzindo-o sem espaços generosos para uma visitação, quer tentando explicitá-lo, como sempre ocorre quando é intencional levar o leitor a um gesto associativo direto entre o texto e a imagem. Bem melhor é quando a ilustração da capa, à primeira vista, intriga o leitor, provoca-lhe um estranhamento — seja na esfera da apresentação, flagrando uma cena incomum, não rotineira, enigmática, prenhe de sugestões sobre o que acontecera pouco antes ou de expectativas sobre o que aconteceria em sua seqüência; seja em sua natureza plástica, a presença admirável da técnica.

Respeitando sempre as características e as configurações de linguagem presentes em cada exemplar da literatura para crianças, é importante que o professor crie condições favoráveis para a criança fazer–aprender–refazer o processo da leitura que se tece. Toda obra, pensada como um todo significativo, sempre revela uma intencionalidade comunicativa e estética, e esta pode vir muito bem expressa em sua capa, sintetizando os principais aspectos da narrativa que o livro transporta, ao mesmo tempo em que tenta fisgar o leitor para sua leitura.

Mas também deve ser dito: nem toda capa produz boas leituras, coisa que não depende totalmente do livro e não compromete a qualidade do texto que contém nem a invenção do ilustrador. Descobrir a boa leitura ou as possibilidades dela acontecer é outro jogo: ao selecionar uma obra, o professor deve ser apenas leitor, pesquisador e espião.

Que o jogo-leitura de capa seja uma aventura rumo à obra, uma leitura a quatro mãos — ou a dez, treze, vinte mãos, olhos, bocas... — que faça brotar cumplicidades, leituras em co-autoria. Essa seria a conduta e a condição para que todos, crianças e adultos, desenvolvessem habilidades e estratégias de leitura, como saber inferir relações, levantar hipóteses, antecipar acontecimentos, evocar outros textos de sua bagagem literária, explicitar as marcas e deduzir o obscuro, intuir sentidos, entrelaçar conhecimentos... Adiante, o projeto humano: o leitor proficiente.

Afinal, pra que livros?

15 de abril de 2011

Marcelo Carneiro da Cunha

"Livros nos tornam melhores", defende escritor, que reivindica mais bibliotecas no País (foto: Getty Images)

Estimadíssimos leitores, fui a Belo Horizonte e voltei, com escala no aeroporto de Confins, que como o nome diz, fica em lugar algum. Lá, participei do evento Beagalê, em um debate sobre o filme do meu livro, Antes que o Mundo Acabe, junto com Eduardo Moreira, do ótimo grupo Galpão e que atua no filme. Para uma platéia atenta pude explicar o que eu sei do filme e o que autores pensam de atores: a gente se esforça pra criar a história e quem acaba no Castelo de Caras, sempre, são eles. Em outro momento do mesmo evento participei de um debate sobre a literatura e o seu espaço nesse mundo pop em que todos, menos o Bolsonaro, vivemos.

A platéia era formada por educadores, bibliotecários, gente que se importa, e muito, com o que acontece com a literatura e com os livros, e uma das questões mais presentes era "Como fazer para as pessoas lerem?".

Eu não estudei o suficiente para ser educador e admiro bibliotecários tanto quanto admiro o genial inventor do dulce crema de leche; a pergunta me pegou de lado e ao mesmo tempo em que não compreendi exatamente o sentido dela, me esforcei ao máximo para dizer algo que soasse inteligente na hora, e não consegui, como nunca consigo.

A minha pergunta inicial seria: para que ler? Por que isso seria realmente importante, e para quem? Será que eu ajudo o mundo quando convenço pessoas a ler? Quando escrevo algo que elas se disponham a ler? Elas não seriam mais felizes vendo novela da Globo? Elas não são mais felizes vendo novela da Globo?

Bons livros não fazem a gente mais feliz, estimados leitores. Eles não são feitos para isso. Eles fazem a gente mais gente, claro. Mas isso é bom? Pra todo mundo?

Nessa era pós-industrial não somos mais importantes, ou tão importantes, como quem produz coisas. Nesse sistema, somos mais úteis consumindo. Consumidores precisam ler alguma coisa além de propaganda e manual de operação de celular? Não muito.

E então acho que compreendi o que sentem aquelas pessoas tão legais reunidas em BH. Elas não querem que sejamos apenas consumidores. Elas acreditam que existe um outro projeto, maior, onde seres humanos ocupam um lugar mais central do que televisores de LCD. Elas acreditam que existe, ou deve existir um mundo onde somos o sujeito e os objetos são o objeto. Deve haver um mundo onde somos importantes, e nele, livros são importantes porque eles nos fazem pensar, sentir, ser, coisas que não são nada importantes para objetos, mas são essenciais para quem se vê como sujeito. É isso.

Então sim, livros são importantes, ler é muito importante, porque ler é o maior exercício da nossa humanidade que existe, porque ele une o que sabemos e sentimos com o que não sabemos exatamente que existe. Livros unem partes fundamentais de nossas vidas, que são o nosso imediato com o nosso essencial. E livros, diferentemente de filmes ou romarias até Aparecida, acontecem dentro da gente. Eles se constroem dentro de nós, e, ou interagem com a gente ou não acontecem. Livros dependem de nós, de nossas mãos e nossas mentes, ou eles mesmos não existem. A interdependência é plena.

Então, se livros são importantes e essenciais, se ler é o caminho mais curto entre os milhares de quilômetros que separam nós de nós mesmos, como fazer para as pessoas lerem mais e melhor? Pensei nisso em todo o trajeto desde BH até Confins, o que levou séculos. Acho que do mesmo jeito de sempre. Com bons e ótimos livros, daqueles que a gente começa e quando vê até as moléculas dos nossos ossos querem saber o que vai acontecer na página 122. Dando a cada livro 20 páginas de chance, indo além e até o final se isso parecer bom ou ótimo, dando 20 páginas a mais de chance caso a gente fique em dúvida, largando aquele e pegando outro, caso a gente se convença nas primeiras 20 que o resto vai ser igualmente tão ruim quanto um bom Paulo Coelho. Simples. Azar que somente me dei conta dessa resposta quando já estava em Confins, a capital do lugar algum, onde nem meu celular funciona.

Com mais e mais bibliotecas, para remover o obstáculo que o custo de um livro representa para muita gente. Com mais bibliotecários apaixonados como eles. Com bibliotecas nas estações do metrô e nos pontos de ônibus, com vendedores da Avon indo de casa em casa. Com os novos livros digitais aproximando as pessoas dos textos e depois, espero, das páginas em papel, que ainda são mais gostosas ao tato do que um Ipad.

Uma sugestão? Meu amigo Michel Laub acaba de lançar um livro ótimo, Diário da Queda, desses que estragam o dia, a semana da gente e por isso são tão bons. Experimentem.

Agora lembrei que aprendi a ler sozinho, apenas para impressionar uma pessoa. A consequência foi que passei a ler tudo que via pela frente, o que me impressionou muito. A pessoa para quem eu aprendi a ler é a minha maravilhosa mãe, eu sabia que ela gostava muito de ler. "A gente precisa viver grandes amores", dizia a minha mãe, aferrada a um bom romance. Hoje ela completa invisíveis 85 anos de idade e, se alguém aí precisa de mais alguma demonstração de que ler faz bem, eu posso apresentar a saltitante dona Zilah Carneiro da Cunha como prova.

Ler nos faz indestrutíveis, é o que eu penso, enquanto mando pra ela um beijo do tamanho da emoção que eu senti quando ela me viu lendo pela primeira vez, do que eu vi naquele olhar, que representa pra mim o tamanho possível da literatura. Que nos faz maiores do que somos, que nos torna melhores do que somos, e assim e por isso mesmo, melhores.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br
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