terça-feira, 5 de abril de 2011

Professor inova e cria a ‘Mala de leitura do Tio Juca’, com sucesso de público

Neila Storti


Os alunos do 3° ano do ensino fundamental da Emeb (Escola Municipal de Ensino Básico) Prof. Fausto Perry, de Araçatuba, estão participando de um projeto de incentivo à leitura dentro da sala de aula.

Orientado pelo professor Juscelino Lino Miguelão, que também é autor do trabalho, a "mala da leitura do tio Juca" tem como principal objetivo oferecer leitura de conteúdo não somente para os alunos, como também para a família dos estudantes.

Segundo o professor, em toda aula, um aluno - por ordem alfabética - leva a mala para casa. A mala, em questão, é uma pasta decorada com motivos atraentes para as crianças.

Dentro dela, é possível encontrar diversos autores, histórias diferentes, ilustrações didáticas, além de revistas e jornais.

"Ao chegar em casa, o aluno além de ler as histórias, irá oferecer um livro para o pai e a mãe. Assim, conseguimos alcançar o resultado que queremos, que é a participação dos pais e da família na educação dos estudantes. Se o aluno possui dificuldades de leitura, o pai e a maë podem ajudá-lo e vice-versa", diz o professor.

PARTICIPAÇÃO

Miguelão afirma que assim que o aluno devolve a mala, é necessário que o estudante faça um relatório do que foi visto junto com a família. Além de contar sobre as leituras realizadas, o aluno também pode dar dicas e sugestões de livros que ele gostaria de encontrar dentro da mala de leitura da próxima vez que for pegá-la.

O projeto "Mala de leitura do Tio Juca" faz parte do programa educacional "Cantinho de Leitura e Ciências", que a escola promove.

O projeto, além de incentivar o gosto pela leitura, quer projetar a responsabilidade nos estudantes. "Quando eles levam a mala para casa, é dever deles prezar pelos livros que estão na responsabilidade deles.

O aluno deve saber que ele tem data para entregar e que existem outras pessoas que também lerão os livros. É muito importante que ele não suje os materiais, não perca a mala e a traga no outro dia para que o próximo estudante tenha a mesma oportunidade que ele", ensina Miguelão.

De acordo com o professor, os estudantes receberam bem a atividade e todos, até o momento, têm demonstrado cada vez mais interesse pelo projeto.

sábado, 2 de abril de 2011

Biblioteca escolar: ranços e avanços

Cintia Barreto
Mestra em Literatura Brasileira pela UFRJ, professora da rede pública estadual (RJ) e da Universidade do Grande Rio
Publicado em 08 de julho de 2008

Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do fato estético. O que são as palavras dormindo num livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece algo especial, creio que muda a cada vez. Jorge Luís Borges

Pensar sobre a importância da biblioteca escolar hoje para o processo de ensino-aprendizagem constitui repensar a própria prática de leitura na escola. Isso porque sabe-se que a biblioteca guarda os mais diversos tipos de livros e que, teoricamente, estão todos à disposição do aluno sempre quando precisar. No entanto, não é isso que de fato acontece.

No cotidiano escolar, percebemos a pouca (ou nenhuma) utilização da biblioteca como espaço educativo e informacional que promove leituras, análises, debates e encontros entre livros e indivíduos. A biblioteca, não raras vezes, é palco de punições. Basta um aluno atrapalhar a aula de um professor que logo é enviado, sem aviso prévio, à biblioteca ou à sala de leitura. Por isso, é de suma importância que repensemos o papel da biblioteca dentro da escola e sua significação.

Antes de qualquer proposta que leve os educandos a frequentar a biblioteca escolar, é preciso pensar nos principais problemas que dificultam essa prática. São eles:

1º) O espaço físico – não raras vezes a biblioteca fica num canto escondido da escola. Um local pouco arejado, úmido, mal-iluminado, desconfortável e apertado. Para agravar a situação, muitas escolas dissociam a sala de leitura da biblioteca, apresentando-as como lugares distintos, quando deveriam estar num único espaço. Nesse sentido, a biblioteca em si não passa de um "depósito de livros".

2º) O acervo – geralmente desatualizado; os livros que se encontram na biblioteca diversas vezes estão em péssimas condições de uso. Muitos são doados pelos próprios professores que, querendo se livrar do "entulho", depositam-nos como doação. A falta de recursos para a compra de livros de qualidade contribui para a estagnação e o empobrecimento do acervo.

3º) Organização do acervo – a catalogação do acervo acontece de forma confusa, desorganizada e difícil. O sistema de números e letras dificulta o acesso ao objeto de pesquisa não só para o usuário como para o próprio profissional da biblioteca. Um catálogo mal-organizado e com classificação obscura colabora para a falta de interesse dos usuários pela biblioteca. A verdade é que muitas bibliotecas nem têm seu acervo arquivado de forma que permita a pesquisa dos usuários. Algumas escolas anotam seu acervo num velho caderno que só pode ser consultado pelo próprio funcionário da biblioteca para procurar o material solicitado. Dessa forma, o material não pode ser manuseado pelos usuários. Ou seja: não é permitido fazer descobertas no acervo.

4º) Empréstimo de material – algumas bibliotecas não adotam o sistema de empréstimo, permitindo apenas a consulta do material no local. Alegam que os alunos danificam os livros, arrancam folhas, rabiscam, demoram a devolver ou não devolvem o material. Por conta disso, não ocorre o sistema de cadastro e empréstimo de material do acervo.

5º) Horário de funcionamento – deparar-se com a biblioteca trancada não é pouco comum. O horário de funcionamento nem sempre condiz com os horários que professores e alunos podem e desejam utilizá-la. O fato é que o horário da biblioteca fica a cargo do horário da pessoa que lá trabalha.

6º) Profissional encarregado da biblioteca – infelizmente o que se vê são muitos professores em fim de carreira ou com problemas de saúde encostados nela. Assim, na biblioteca encontram-se muitos profissionais que precisam de um lugar tranquilo, silencioso e vazio para passar os últimos dias, meses ou anos de suas vidas profissionais. Por isso, esses educadores preferem manter a ordem, o silêncio sepulcral e a disciplina no local. O pouco ou nenhum contato com o usuário é, assim, almejado; quando acontece, é frio, técnico e monossilábico. Às vezes, é adotado um sistema de empréstimo no qual o usuário solicita o livro por meio de um envelope. No dia seguinte ao pedido, o bibliotecário, em vez de orientar o consulente, deposita o pedido no mesmo pacote para que o usuário receba sua encomenda. A relação usuário-bibliotecário, nesse sentido, acontece também de forma impessoal. Outro ponto importante a se ressaltar é a condição desse profissional: não-leitor e não-incentivador da prática da leitura no local.

7º) Utilização da biblioteca escolar – é válido atentar para a falta de planejamento pedagógico, de projeto que integre a biblioteca ao projeto político-pedagógico da escola. Muitas vezes os usuários reduzem-se a alunos que vão ao local tão-somente para copiar verbetes de grandes enciclopédias e dicionários antigos e empoeirados. Quando a pesquisa na biblioteca não tem como base a cópia, o lugar é mal-utilizado, servindo como local de descanso ou conversa de alunos ou, o que é pior, como espaço de punição.

Alguns professores exigem que os alunos que não estão em sala de aula sejam castigados na biblioteca. Essa postura contribui para fazer da biblioteca a grande vilã da escola.

Promovendo a leitura na biblioteca escolar

Libere sua criatividade. Deixe-se levar pela criança curiosa que há dentro de você e provoque os leitores, provoque a leitura, promova o prazer de ler o mundo. Ao contrário do que se vê, é necessário pôr em prática todas as estratégias de incentivo à leitura, a fim de aumentar a frequência na biblioteca escolar.

Primeiro, é preciso pensar em sugestões para melhorar todo o quadro descrito. Para promover a leitura, a pesquisa, a frequência, a troca de ideias, o interesse dos usuários (antigos e novos), são necessárias algumas medidas, tais como:

1ª) Proporcionar um agradável ambiente de leitura – com a criação de espaços agradáveis para o convívio com os livros e demais suportes de leitura e diversidade de linguagens, é possível oferecer ambiências de leitura. Para tanto, podemos utilizar:

1.tapetes
2.almofadas
3.cadeiras confortáveis
4.cestos com revistas e jornais
5.baús com gibis e livros
6.quadros
7.cartazes com citações e frases de incentivo à leitura
8.espaço colorido
9.estante ou prateleira com novidades

É preciso criar um ambiente adequado para ler ou ouvir com prazer uma boa história, discutir ideias e trocar experiências. Na verdade, é imprescindível mexer com o preestabelecido. Faz-se mister revitalizar o espaço da biblioteca escolar, a fim de permitir e, inclusive, incentivar a permanência dos usuários no local.

2ª) Atualizar o acervo – é importante que a biblioteca escolar passe a ser seletiva e recuse livros impróprios (desatualizados ou medíocres), a fim de acomodar melhor um material que realmente tenha utilidade e urgência para o usuário.

Para atualizar e melhorar o acervo, é preciso solicitar a ajuda de todos: governo, direção da escola, comunidade, professores, alunos, funcionários e editoras. Todos podem e devem contribuir para a melhoria do acervo da biblioteca escolar, começando pela seleção do que é conveniente doar para o local. Tal doação não ocorrerá porque está atravancando a casa, mas porque será útil e despertará o interesse dos usuários.

Disponibilizar livros de qualidade também é imprescindível. Dessa forma, os usuários poderão escolher entre o que há de melhor e mais atual no mercado editorial. Assim será possível fazer a real democratização do conhecimento e da leitura. O usuário da biblioteca escolar deve ter acesso não apenas a livros didáticos (de qualidade), mas também (e principalmente) a obras literárias clássicas (originais e/ou adaptadas) bem como a obras atuais. Revistas, jornais e histórias em quadrinhos também devem fazer parte do acervo da biblioteca escolar.

3º) Organizar o acervo – é imprescindível que o usuário possa manusear diversos tipos de livros e conhecer diferentes gêneros textuais. Para que seja possível fazer novas descobertas, o usuário deve poder procurar os livros nas estantes. Dessa forma, ele irá não apenas encontrar os livros indicados pelos professores em sala de aula como também poderá descobrir um mundo de possibilidades de leitura.

A organização dos livros nas estantes deve ser facilitada por um sistema simples de catalogação – que deve ser um aliado dos usuários e não mais um empecilho entre o indivíduo e o acesso aos livros. O sistema de cores geralmente é o mais utilizado nas bibliotecas escolares. É preciso também reservar um espaço para a hemeroteca (seção das bibliotecas em que se colecionam jornais e revistas).

4º) Emprestar o material – é necessário que os livros sejam emprestados a toda a comunidade escolar: professores, alunos, funcionários. Os livros da biblioteca escolar compõem um acervo público e, como tal, devem servir ainda à comunidade periférica. Assim, familiares também devem poder solicitar empréstimo de livros e praticar a leitura em casa junto aos filhos.

5º) Adequar o horário de funcionamento com o horário das aulas e com o recreio – a biblioteca é um espaço escolar que precisa estar sempre aberto, pulsante e com novidades. Para isso, é preciso que pessoas fiquem encarregadas de manter a biblioteca aberta praticamente todo o tempo de atividades da escola.

6º) Qualificar o profissional encarregado da biblioteca – o funcionário da biblioteca deve ser, de fato, um leitor voraz e apaixonado por livros. Somente uma pessoa que realmente gosta de ler consegue incentivar a leitura no ambiente escolar. Ele deve ser visto algumas vezes lendo. Além disso, deve ter bom conhecimento a respeito dos gêneros textuais, conhecer um bom número de autores e obras.

Deve ainda ser um sujeito criativo e gostar do contato com o público, alguém que ocupa o espaço para fazer a diferença, para trocar ideias, para orientar o usuário, habilitado a sugerir leituras e a conduzir pesquisas. Dessa forma, será capaz de modificar a atual condição da biblioteca escolar. Um educador comprometido com a prática pedagógica está apto a alterar certos conformismos.

Para uma constante atualização desse profissional, é preciso que a escola disponibilize palestras, cursos e eventos com temáticas relacionadas à leitura, à literatura, à escrita, bem como à organização da biblioteca. Esse profissional deve ir a muitas outras bibliotecas (particulares e públicas) e ser assíduo frequentador de livrarias e sebos. Isso lhe dará mais subsídios para fazer constantes alterações na biblioteca, dinamizando-a e atraindo mais usuários.

Por fim, o funcionário da biblioteca é, acima de tudo, um educador e deve trabalhar em conjunto com os professores regentes de turma, mostrando tendências de pesquisa, de leitura e ainda divulgando os materiais e livros mais procurados. Ele pode ainda apresentar as novidades da biblioteca à comunidade escolar, a fim de que sejam realizadas novas práticas no espaço. Por isso, ele é uma presença imprescindível no conselho de classe e na elaboração do projeto político-pedagógico da escola.

7ª) Promover atividades para dinamizar o acervo e utilizar a biblioteca – aguçar a curiosidade dos usuários e seduzi-los a frequentar a biblioteca é parte da tarefa do profissional encarregado da biblioteca e, em parte, dos professores e coordenadores pedagógicos, da direção e do governo.

Para tanto, é preciso pensar na biblioteca como um espaço de diálogo entre autores e leitores, entre o conhecimento e a autonomia discente. A escola precisa possibilitar o acesso à leitura. Assim, a biblioteca escolar deve promover práticas criativas de leitura, práticas que agucem o desejo de conhecer algo novo. É preciso instigar a curiosidade discente, e o melhor para isso é apresentar textos variados. Quanto mais eclética for a biblioteca, mais ela atenderá à comunidade escolar marcada pela pluralidade.

É curioso notar que é justamente a pluralidade que atenderá à singularidade. Uma biblioteca que atenda essa urgência será capaz de fazer a diferença no desenvolvimento do currículo e proporcionará um avanço no processo de ensino-aprendizagem da comunidade escolar.

Maria Helena Martins, em O que é leitura, aponta três níveis de leitura: sensorial, emocional e racional. A leitura sensorial é manifestada pelo tato, visão, olfato, audição e gosto. A leitura emocional lida com sentimentos. Ela fala à emoção, há identificação do leitor com a obra sem necessidade de analisar como o texto foi elaborado. Já a leitura racional enfatiza o intelectualismo e analisa o texto isolado do contexto e da emoção. Esses três níveis devem ser considerados na hora de propor alguma atividade leitora.

Obrigar alguém a ler algo sem que tenha generosamente seduzido à prática de leitura é, no mínimo, desgastar a relação entre saber e sabor. Não podemos esquecer nunca essa origem comum entre leitura e prazer.

Também devem ser considerados os direitos do leitor, que, segundo Daniel Pennac, são os seguintes:

Direitos imprescritíveis do leitor

1) O direito de não ler.

2) O direito de pular páginas.

3) O direito de não terminar um livro.

4) O direito de reler.

5) O direito de ler qualquer coisa.

6) O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível).

7) O direito de ler em qualquer lugar.

8) O direito de ler uma frase aqui e outra ali.

9) O direito de ler em voz alta.

10) O direito de calar.

Assim, são imprescindíveis atividades como contação de histórias, rodas de leitura, cirandas, concursos de poesias, contos e crônicas, encontros com escritores, ilustradores e especialistas em literatura. É importante também levar os alunos a visitar bibliotecas públicas e livrarias. Isso possibilita a reflexão acerca da organização do acervo, da multiplicidade de autores e estilos e do zelo pelo material da biblioteca, bem como a conduta de liberdade e respeito dentro dela.

Liberdade para fazer encontros entre leitores e livros, gostos e des-gostos. Respeito, traduzido em cuidado, com os livros e com o espaço da biblioteca, a fim de deslegitimar questões como o empréstimo de livros.

Apresentando a biblioteca a seu público

Na biblioteca escolar, podem ser desenvolvidas ainda atividades como estas:

Conhecendo o acervo da biblioteca: os alunos vão à biblioteca escolar e lá são recebidos pelo encarregado. Ele, tal qual um guia turístico, apresenta as seções de livros e indica pelo menos um exemplo de cada gênero, a fim de aguçar a curiosidade do usuário para os diferentes tipos de texto. Essa atividade proporciona ao usuário conhecer o acervo da biblioteca e auxilia a exploração do espaço durante o ano letivo.
Quem procura acha: nesta atividade, o professor distribui algumas indicações de leituras, respeitando o sistema de catalogação da escola e solicita que os alunos as encontrem nas estantes. Isso promove autonomia aos usuários.
Deu rato na biblioteca: os alunos são instigados pelo encarregado da biblioteca a achar livros antigos (de gêneros variados: romances, contos, crônicas, poesia, livros de arte, biografias etc.). Com os livros nas mãos, os usuários farão uma pesquisa mais aprofundada sobre a época em que aquele livro foi escrito, bem como seu autor e a obra. O resultado pode ficar registrado depois num mural dentro da biblioteca. Quem sabe sua biblioteca não possui um livro raro que será descoberto ou redescoberto pelos alunos?! Essa atividade proporciona a valorização do acervo como um todo e possibilita a prática da pesquisa.•Troca-troca literário: os alunos de uma turma levam livros de literatura usados e trocam com colegas de outra turma. O troca-troca é mediado pelo encarregado da biblioteca, que organiza o desenvolvimento da atividade. O educador poderá, antes da sessão de troca, fazer uma pequena introdução sobre a importância da atividade. Isso possibilita a socialização dos alunos e de suas leituras.
Na caixa-postal: o professor solicita que os alunos escrevam cartas com teor crítico a respeito de leituras feitas na biblioteca em dias anteriores. Nas cartas, os alunos indicam ou não indicam a leitura de tais livros e textos, argumentando, ou seja, apresentando justificativas que comprovem sua indicação. As cartas serão depositadas em grandes "caixas de correio" que serão confeccionadas pelos professores e alunos. Serão duas caixas: uma para leituras indicadas e outra para leituras não-indicadas. Essas caixas farão parte dos materiais da biblioteca. Isso estimula a produção de textos críticos, proporcionando ainda a percepção de tendências e gostos de leitura por parte dos alunos.
O meu, o seu, o nosso: o professor pode solicitar que cada aluno compre um livro de uma lista apresentada por ele (ou do gosto de cada um). Os livros circularão pela turma em sistema de empréstimo, de forma que todos leiam os livros até o fim do ano letivo. Ao final, os livros serão doados para a biblioteca da escola, a fim de que todos tenham, no ano seguinte, acesso aos livros sem exceção.
Conheça minha história: o professor (ou o encarregado da biblioteca) solicita que sejam escolhidas biografias de escritores, pintores, cientistas, artistas etc. Após a leitura, em duplas, das biografias, além de um dia de apresentação dos textos, os alunos produzirão suas próprias biografias. Essas biografias serão elaboradas em forma de livro, confeccionado artesanalmente pelos próprios alunos. Nesse momento da confecção, a criatividade será chamada à ação.

Bibliografia sugerida sobre leitura, literatura infanto-juvenil e biblioteca escolar

ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1991.
BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. São Paulo: FTD, 2000.
CAMPELLO, Bernadete et al. A biblioteca escolar: temas para uma prática pedagógica. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.
COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
FARIA, Maria Alice. Como usar a literatura infantil na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler, em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2002.
KLEIMAN, Angela B. Oficina de leitura. São Paulo: Cortez, 1993.
______. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 2ª ed. Campinas: Pontes, 1992.
KUHLTHAU, Carol. Como usar a biblioteca na escola: um programa de atividades para o ensino fundamental. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
LAJOLO, Marisa. Literatura: leitores & leitura. São Paulo: Moderna, 2001.
LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil brasileira — história & histórias. São Paulo: Ática, 2003.
_____________________________ . Um Brasil para crianças: para conhecer a literatura infantil brasileira: história, autores e textos. São Paulo: Global, 1986.
MACHADO, Ana Maria. Balaio: livros e leitura. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
____________. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
MARTINS, Maria Helena. O que é leitura? São Paulo: Brasiliense, 2006.
MEC - Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
MIGUEZ, Fátima. Nas arte-manhas do imaginário infantil: o lugar da literatura na sala de aula. Rio de Janeiro:Zeus, 2000.
PAULO, José Maria & OLIVEIRA, Maria Rosa D. Literatura infantil: voz de criança. São Paulo: Ática, 2003.
PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
PRADO, Janson e CONDINI, Paulo (Org.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999.
SANDRONI, Laura & MACHADO, Luiz Raul (org). A criança e o livro. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1991.
SILVA, Waldeck Carneiro da. Miséria da biblioteca escolar. São Paulo: Cortez, 2003.
VARGAS, Suzana K. de. Leitura: uma aprendizagem de prazer. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

Este texto foi elaborado para o I Encontro Regional de Bibliotecas, realizado maio de 2008 em Araruama-RJ pela Coordenadoria Regional das Baixadas Litorâneas II da Secretaria de Estado de Educação, um evento realizado com diretores, coordenadores pedagógicos e profissionais de biblioteca e sala de leitura.

Fonte: Revista Educação Pública

O prazer de ler

Dôra Monnerat
Escritora e membro da Academia de Letras de Viçosa
Publicado em 09 de setembro de 2008


Este artigo pretende apresentar a importância da leitura para o desenvolvimento do indivíduo e a importância de promover o gosto pela leitura. Fala da magia, da paixão pela leitura, pelas histórias e pelos livros. Leitura... Palavra mágica que proporciona informação, formação, crescimento, atualização do individuo e, sobretudo, prazer.

Sou totalmente a favor da leitura em sala de aula, em biblioteca, sentada na calçada, no pátio, em qualquer lugar! O momento da leitura é um momento especial, acalma, relaxa... É um momento da afetividade, de aproximação, de magia! Uma oportunidade que o professor pode criar não só para ensinar seus alunos a ouvir como também para escutá-los. Mas para alcançar o objetivo de transformar alunos em indivíduos leitores é preciso descobrir o interesse da turma.

É importante começar com um tema de interesse comum. Textos pequenos, para não provocar inquietação naqueles que não estão acostumados a ouvir histórias bem como nos mais falantes, que ainda não estão treinados ao silencio. Isso fará com que fiquem mais atentos.

Se a criança não teve a sorte de nascer e crescer em uma família ou vizinhança que tenha tido ao menos um contador de histórias, cabe ao professor fazê-la despertar para essa prática, ou seja, querer ouvir ou ler e, por fim, gostar de histórias. A sala de aula pode ser o início de um belo trabalho de promoção da leitura.

Não há nada melhor do que começar uma aula com uma boa história bem contada ou lida com atenção pelo professor, com entonação e dicção perfeitas, como se ele fosse parte da própria história..

Um professor leitor apaixonado pela leitura transmite essa paixão. Quando conta ou lê uma história para seus alunos transmite esse sentimento, proporcionando prazer àqueles que o escutam, porque lê com mais emoção. Esse professor educa com mais afetividade, pois a leitura promove esse momento afetivo, de proximidade, faz aflorar a emoção.

Uma pequena discussão entre os alunos sobre o assunto, sobre o autor, ou coisas relacionadas ao texto, caracterizando a leitura social, provocando interação, reflexão e troca de ideias, dará a esses alunos a oportunidade de desenvolver a oralidade e a comunicação. Esse tipo trabalho, como um círculo ou roda de leitura, descontraída, sem cobranças, como uma conversa animada, mas com regras, para que cada um tenha seu momento de falar e todos tenham oportunidade de se expressar, pode tornar-se bastante produtiva.

Precisamos de alunos leitores, para promoção do desenvolvimento intelectual, psicológico e social deles. Queremos formar indivíduos capazes de entender o mundo e de se fazer entender dentro e fora da escola. A leitura possibilitará isso, uma vez transformada a escola em um veículo para a descoberta do prazer de ler. Mas a escola pode ir além, convidando os pais ou outros membros da família para participar do projeto.

Estudos de sociólogos, psicólogos e de outros especialistas no assunto têm mostrado as mudanças que vêm acontecendo na sociedade, principalmente nos papéis exercidos pelas pessoas no que diz respeito ao mercado de trabalho, às famílias, à educação...

A preocupação com o fortalecimento da família passa pela educação dos filhos. Se a escola conseguir atrair a família a dedicar, por exemplo, uma hora por mês para uma leitura social e a partilhar com seus filhos e amigos desse momento agradável e de muito prazer, com certeza estaremos próximos do êxito de nosso objetivo: o aluno leitor e, porque não, família leitora!

Esse trabalho de leitura na escola deve ser atrativo e os textos devem ser adequados. Como ferramentas para atrair o aluno à leitura, podem ser usadas atividades, como o teatro. Para tal, a turma teria que fazer “diversas leituras” de variados livros, sem cobrança, sem o “único” objetivo de fazer o teatro.

A busca de textos em livros da biblioteca da escola ou em livros trazidos pelos próprios alunos poderá levá-los a ler sem perceber que estão praticando a leitura.

Importante também é ter um lugar diferente, porém adequado, fora da sala de aula, onde possam ser propostos alguns encontros mensais ou bimestrais, além das leituras diárias em sala de aula. Se a escola tem biblioteca, ela seria o local ideal para essa saída para o momento da leitura, da afetividade, da aproximação, do ouvir e ser ouvido. Será mais marcante na vida do aluno se for aberto à sua família. Mas a biblioteca escolar tem que ser adequada, aconchegante, um lugar gostoso de ir. Não um lugar frio, com cheiro de poeira ou mofo, cheio de prateleiras apinhadas de livros desordenados e inadequados.

Outro trabalho de promoção da leitura que pode ser proposto é o seminário de leitura, mas este deve se iniciar somente entre os pares, ou seja, na própria turma. Depois pode se propor um intercâmbio entre turmas da mesma escola, de escolas do bairro, de escolas de outros bairros e tudo mais que surgir e for válido, desde que combinado cautelosamente com todos os alunos.

O seminário pode ser organizado de forma simples. Cada aluno faz o empréstimo de um livro por determinado tempo e, combinada uma data, cada um apresentará oralmente o livro que leu. Alguns poderão sentir muita dificuldade no início, mas dificilmente ficarão de fora. Todos irão apresentar, se as regras não forem muito rígidas.

A apresentação deve ser simples, constando do titulo, do autor, do formato do livro, das ilustrações, do tema etc. Como conclusão, detalhes que chamaram a atenção do aluno e a informação e se gostou ou não do livro e o motivo.

Criações e produções de textos maravilhosos certamente surgirão por parte dos alunos, depois de trabalhos como esses. O professor deve ler todos os livros que os alunos estiverem lendo. Está claro que a educação se dá pelo exemplo; não adianta querer que nossos alunos sejam leitores se não o somos. Portanto, temos que dar exemplo, falar dos livros que lemos e comentar trechos com paixão, entusiasmo, levantar curiosidade...

Em hipótese alguma o aluno deve ver a leitura como um artigo de cobrança. A prática da leitura diária não deve ter de preferência, implicação com o conteúdo que se vai trabalhar em sala de aula. Se tiver, pode ser mencionado de forma sutil, como se tivesse sido uma descoberta do momento na leitura, para não caracterizar que se deu aquele texto só para ensinar o que estava previsto para a aula.

Ler é descoberta. Ler é prazer, ler é pura gostosura, como diz nossa querida escritora Fanny Abramovich. Ler é brincar com palavras e situações, como faziam a nossa querida Sylvia Orthof e muitos outros escritores como Ruth Rocha, Neusa Sorrent... São tantos... E, nas poesias, quantas brincadeiras se podem fazer com as rimas, como fazem escritores como Leo Cunha, Pedro Bandeira, Elias José... A magia, omistério, a emoção, tão bem apresentados através de histórias como as de Monteiro Lobato, Marina Colasanti. Álvaro Ottoni, Pedro Bloch... São tantos não dá para citar todos. O Brasil é riquíssimo quando se trata de autores de excelentes histórias, bem escritas, com temas variados... É só sentar, se aconchegar e ler. E as histórias do Andersen... Quem nunca ouviu O Patinho Feio?, A pequena vendedora de fósforo e tantas outras maravilhas criadas por ele, o grande inspirador?

Um professor pode e deve ser um propagador desse hábito do gosto pela leitura. Mas antes é preciso que ele descubra esse prazer e acredite na importância do gostar de ler. É preciso que ele tenha consciência do que a leitura representa em sua vida, assim como na vida de seus alunos ou de qualquer cidadão.

É através das leituras que o aluno cresce, descobre, conhece um mundo muito mais amplo e cheio de coisas diferentes – ou iguais, porém sobre uma ótica diferente. A leitura abre a mente, trabalha a emoção e promove a sabedoria e o raciocínio e... muito mais. Vale a pena essa descoberta! A recompensa maior é levar outras pessoas a descobrir que ler faz muito bem à alma, ao coração e ao ser como um todo, pois melhora a qualidade de nosso viver.

Roda de leitura: perspectivas para a Educação Infantil

Cristiane da Silva Brandão
Publicado em 14 de julho de 2009

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil orienta para a importante necessidade de as crianças se apropriarem das diferentes linguagens, dentro do espaço de seu desenvolvimento, a fim de lhe proporcionar verdadeiras experiências significativas ainda na primeira infância. A construção da identidade e da autonomia deve se dar a partir de momentos prazerosos e lúdicos, respeitando sempre a realidade e o interesse de cada um.

Mikhail Bakhtin (2000) destaca a importância do outro na interpretação que fazemos do mundo à nossa volta quando afirma: “tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formatação original da representação que terei de mim mesmo”. O educador, portanto, precisa nortear sua prática pedagógica através dos mais variados recursos que promovam o desenvolvimento de tais competências, como da linguagem, em nossas crianças, por meio da contação de histórias, dos brinquedos cantados, de dramatizações ou do faz-de-conta etc. É imprescindível que as propostas traçadas valorizem sempre o lúdico, pois, brincando (sozinhas, com outras crianças ou adultos) de diferentes maneiras, ao longo do tempo, a criança vai se constituindo como sujeito único, diferenciando-se do outro, compreendendo valores e noções como cooperação, sensibilidade, imaginação e solidariedade, entre outros.

Brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil. O psicanalista Winnicott (1975) acredita que através da brincadeira a criança tem a possibilidade de ampliar o mundo supostamente real, reinventar o mundo do faz-de-conta e incorporar elementos significativos à sua vivência. Dessa forma, o educando passa a construir sua própria significação do mundo em que vive, trazendo uma leitura própria para o mundo à sua volta.

O projeto Roda de Leitura foi desenvolvido com uma turma EI 30 (crianças entre três e quatro anos de idade) da Creche Municipal Sonho Feliz, localizada em Campo Grande, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. A constatação do pouco contato que as crianças tinham com livros e da perda paulatina de nosso pequeno acervo, num espaço improvisado dentro do refeitório de nossa creche, trouxe o seguinte questionamento: se a maioria das crianças gosta das histórias contadas e algumas até se interessam em trazer suas próprias histórias (livros ou CD) de casa, por que há crianças que rasgam ou amassam nossos livros? O que fazer para valorizar esse espaço de leitura? Consideramos que, através das histórias, é possível criar oportunidades para desenvolver o caráter da criança, a partir da construção de valores, pois essas oportunidades ajudam a buscar nossa identidade.

Assim, tivemos a ideia inicial de desenvolver o projeto Roda de leitura: significando o mundo da Educação Infantil, com o objetivo de trabalhar, a princípio na rodinha (espaço reservado para o início de nossa rotina, para onde as crianças trazem suas novidades e revelam seus interesses), a preservação de nossos livros e o respeito pelas histórias trazidas pelos colegas, elaborando também regras de boa convivência, visto que, nosso projeto político-pedagógico integra Saúde, higiene e comunidade – uma questão de vida com qualidade. Na verdade, ter saúde, no sentido mais amplo, significa enfrentar e ultrapassar constantes limites, expor-se a desafios utilizando e aprimorando habilidades e potencialidades, inclusive adquirindo bons hábitos que influenciam a saúde física, social e mental.

Por outro lado, idealizamos proporcionar a nossas crianças um espaço singular de interação social através das diferentes linguagens (oral, visual, corporal, musical etc.), buscando novos significados e socializando suas próprias significações. Pretendemos desenvolver, ainda, a partir dessa experiência, a rica linguagem do faz-de-conta, explorando a fantasia e a imaginação das crianças, além de desenvolver o gosto pela leitura (mais que um simples hábito de ler) e a atitude de cuidado com o livro, mostrando que este se constitui um patrimônio cultural de todos.

A cada história, uma estratégia; e, a cada estratégia, uma nova magia trazida pelos diversos recursos utilizados. Descobrir junto com as crianças o prazeroso mundo escondido na literatura infantil, cantar, dançar e interpretar pode ser o caminho mais curto para a fantasia.

Ao brincar com as diferentes histórias, a criança se educa e aprende, pois quem não sabe inventar não sabe transformar. Na Educação Infantil, as crianças precisam participar e se envolver com atividades que enriqueçam seu imaginário.


Após escolher e manusear sozinha os livros, cada criança tinha o cuidado de não danificá-los, levando-os para a sala de aula, onde registrava, em forma de desenho, sua leitura. Depois, elas deixavam a imaginação fruir durante a roda de leitura; noutro momento, as crianças inventavam histórias a partir dos objetos retirados da caixa de histórias, viajando num mundo de fantasia e magia.

Acreditamos que “um bom ouvinte de histórias tem grandes possibilidades de tornar-se um bom leitor, e um bom leitor absorve o conhecimento, ampliando-o em todas as áreas de sua vida” (Martinelli, 2000). Desse modo, pudemos destacar e vivenciar dois princípios fundamentais da história: ela tem que transformar quem conta e deve transformar quem ouve.

Nossas crianças passaram a gostar de contar sua própria história e, principalmente, dramatizá-la com encanto, trazendo novas significações e sua leitura para o mundo da Educação Infantil. Nosso lema passou a ser: “Ler, explorar, imaginar, cuidar e guardar!”

Além dos ótimos resultados obtidos, todos da creche foram contemplados, no final do ano, com a instituição da sala de leitura/videoteca (deixando o espaço improvisado), que contou com a doação de um bom acervo de livros infantis e a compra de outros durante a Bienal do Livro.

Tudo isso fez com que as crianças se sentissem ainda mais motivadas na invenção de histórias e envolvidas na hora de ouvi-las. Portanto, temos certeza de que ler é atribuir significados (Paulo Freire, 1996).

Contudo, sem a ousadia, determinação e interesse das crianças, nossa prática educativa não seria eficiente no desenrolar desta experiência bem-sucedida ao procurar desenvolver as diferentes potencialidades das crianças pequenas e oferecer um espaço de experimentações que permita a reflexão e a criação de múltiplas linguagens.

A Educação Infantil é o caminho para a realização de muitos sonhos. Eduque sempre com prazer!

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MARTINELLI, L. C. Um espaço para o imaginário dentro da sala de aula: a arte de contar histórias. Série Espaço Aberto. São Paulo: Espaço Pedagógico, 2000.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Aprender a (gostar de) ler

Alexandre Amorim
Publicado em 03 de agosto de 2010


Um dia, a televisão anunciou que ia passar o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Perto dos onze anos, Alexandre ficou feliz de saber que o programa tinha dois horários e que, depois da escola, ia poder ver aquela história de que sempre ouvira falar, mas nunca tivera coragem de ler. Eram doze livros comprados pelo pai, com letras grandes e cheios de gravuras, mas que pareciam muita coisa para quem ainda tinha os deveres de casa e os livros da escola. As aventuras em ilhas desertas, o escoteiro Bila e as traquinagens de Tom Sawyer eram histórias que faziam Alexandre gostar de ler e até tentar aprender a datilografar na máquina Olivetti Lettera 32 de sua mãe para poder escrever suas próprias histórias de detetives e mistérios. Mas no dia em que a música de Gilberto Gil começou a tocar na televisão, anunciando a transposição da imaginação de Monteiro Lobato de livro para o audiovisual, ele assistiu ao programa inteiro maravilhado. Ficou impressionado com as imagens daquela menina que dormia na beira de um rio e acabava por mergulhar no reino das Águas Claras, onde sua boneca ganharia vida e voz.

Porque ele já gostava de ler, pensou que devia ser bom procurar aquela história no original, e foi assim que, durante meses, o menino lia e via o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Meio envergonhado, se achando um pouco velho para aquela literatura infantil, mas devorando cada página e se emocionando a cada sermão de Dona Benta, estranhando poder haver uma boneca tão malcriada que fosse ao mesmo tempo tão querida, desejando ser aquele menino de bodoque que passava as férias inteiras no paraíso. Desejando, não: todo ano ele ia para o interior de Minas, e se imaginava sendo Pedrinho.

Alexandre cresceu e aprendeu a gostar de tantos livros que não havia mais espaço em sua casa para tantas estantes. Mas ele insistia. Quando sua filha nasceu, ele lia Monteiro Lobato e contava histórias inventadas, de piratas que viajavam à noite para a lua e de peixes que falavam e podiam cruzar mares e rios e muitas vezes apareciam nos chafarizes, para encontrar seus amigos humanos. A filha ouvia as histórias, pedia para ouvir as preferidas de novo, pedia para mudar o final de outras e, mesmo depois de aprender a ler, ainda dormia com as narrativas do pai. O tempo passou e a menina já escolhia os livros que queria comprar sozinha. E eles discordam das preferências literárias. Ela coleciona romances açucarados e ele prefere os contos fantásticos. Ela não entende aquelas histórias sem pé nem cabeça, ele não consegue gostar de historinhas que sempre têm o mesmo final. Mas sempre que almoçam juntos discutem a mesma coisa: as histórias que estão lendo.

O engraçado é que pai e filha tiveram influências da televisão, e não sabem por que tanta gente reclama dela como culpada da falta de leitura das pessoas. Eles veem séries de TV juntos, vão ao cinema, conversam, e mesmo assim resta muito tempo para ler seus livros preferidos. E discutir sobre eles.

E, hoje em dia, a menina tem um irmãozinho de três anos. Alexandre também conta histórias para o pequeno, mas ele insiste em saber tudo sobre o lobo mau e o lobisomem, e não resta muito espaço para outras ficções. Às vezes, o pai conta histórias em que os canídeos são bonzinhos, mas incompreendidos. Mas muitas vezes o menino pede a história para valer, com toda a maldade que existe no coração desses monstros. A irmã mais velha gosta de ouvir as histórias, ri das invencionices do pai e de vez em quando ela mesma conta para o irmãozinho uma trama que ela inventa ou se lembra da infância.

E assim o pai se sente orgulhoso de ver que os filhos vão, aos poucos, aprendendo a gostar de ler. Porque gostam de narrativas, de enredos, de histórias que os façam imaginar novas histórias, que os façam ver como o mundo pode se transformar. E porque, aos poucos, eles vão entender que para aprender a gostar de ler não basta abrir um livro, mas saber que aquele livro é mais um caminho que o mundo oferece.