sábado, 2 de abril de 2011

Roda de leitura: perspectivas para a Educação Infantil

Cristiane da Silva Brandão
Publicado em 14 de julho de 2009

O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil orienta para a importante necessidade de as crianças se apropriarem das diferentes linguagens, dentro do espaço de seu desenvolvimento, a fim de lhe proporcionar verdadeiras experiências significativas ainda na primeira infância. A construção da identidade e da autonomia deve se dar a partir de momentos prazerosos e lúdicos, respeitando sempre a realidade e o interesse de cada um.

Mikhail Bakhtin (2000) destaca a importância do outro na interpretação que fazemos do mundo à nossa volta quando afirma: “tomo consciência de mim, originalmente, através dos outros: deles recebo a palavra, a forma e o tom que servirão para a formatação original da representação que terei de mim mesmo”. O educador, portanto, precisa nortear sua prática pedagógica através dos mais variados recursos que promovam o desenvolvimento de tais competências, como da linguagem, em nossas crianças, por meio da contação de histórias, dos brinquedos cantados, de dramatizações ou do faz-de-conta etc. É imprescindível que as propostas traçadas valorizem sempre o lúdico, pois, brincando (sozinhas, com outras crianças ou adultos) de diferentes maneiras, ao longo do tempo, a criança vai se constituindo como sujeito único, diferenciando-se do outro, compreendendo valores e noções como cooperação, sensibilidade, imaginação e solidariedade, entre outros.

Brincar é fundamental para o desenvolvimento infantil. O psicanalista Winnicott (1975) acredita que através da brincadeira a criança tem a possibilidade de ampliar o mundo supostamente real, reinventar o mundo do faz-de-conta e incorporar elementos significativos à sua vivência. Dessa forma, o educando passa a construir sua própria significação do mundo em que vive, trazendo uma leitura própria para o mundo à sua volta.

O projeto Roda de Leitura foi desenvolvido com uma turma EI 30 (crianças entre três e quatro anos de idade) da Creche Municipal Sonho Feliz, localizada em Campo Grande, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. A constatação do pouco contato que as crianças tinham com livros e da perda paulatina de nosso pequeno acervo, num espaço improvisado dentro do refeitório de nossa creche, trouxe o seguinte questionamento: se a maioria das crianças gosta das histórias contadas e algumas até se interessam em trazer suas próprias histórias (livros ou CD) de casa, por que há crianças que rasgam ou amassam nossos livros? O que fazer para valorizar esse espaço de leitura? Consideramos que, através das histórias, é possível criar oportunidades para desenvolver o caráter da criança, a partir da construção de valores, pois essas oportunidades ajudam a buscar nossa identidade.

Assim, tivemos a ideia inicial de desenvolver o projeto Roda de leitura: significando o mundo da Educação Infantil, com o objetivo de trabalhar, a princípio na rodinha (espaço reservado para o início de nossa rotina, para onde as crianças trazem suas novidades e revelam seus interesses), a preservação de nossos livros e o respeito pelas histórias trazidas pelos colegas, elaborando também regras de boa convivência, visto que, nosso projeto político-pedagógico integra Saúde, higiene e comunidade – uma questão de vida com qualidade. Na verdade, ter saúde, no sentido mais amplo, significa enfrentar e ultrapassar constantes limites, expor-se a desafios utilizando e aprimorando habilidades e potencialidades, inclusive adquirindo bons hábitos que influenciam a saúde física, social e mental.

Por outro lado, idealizamos proporcionar a nossas crianças um espaço singular de interação social através das diferentes linguagens (oral, visual, corporal, musical etc.), buscando novos significados e socializando suas próprias significações. Pretendemos desenvolver, ainda, a partir dessa experiência, a rica linguagem do faz-de-conta, explorando a fantasia e a imaginação das crianças, além de desenvolver o gosto pela leitura (mais que um simples hábito de ler) e a atitude de cuidado com o livro, mostrando que este se constitui um patrimônio cultural de todos.

A cada história, uma estratégia; e, a cada estratégia, uma nova magia trazida pelos diversos recursos utilizados. Descobrir junto com as crianças o prazeroso mundo escondido na literatura infantil, cantar, dançar e interpretar pode ser o caminho mais curto para a fantasia.

Ao brincar com as diferentes histórias, a criança se educa e aprende, pois quem não sabe inventar não sabe transformar. Na Educação Infantil, as crianças precisam participar e se envolver com atividades que enriqueçam seu imaginário.


Após escolher e manusear sozinha os livros, cada criança tinha o cuidado de não danificá-los, levando-os para a sala de aula, onde registrava, em forma de desenho, sua leitura. Depois, elas deixavam a imaginação fruir durante a roda de leitura; noutro momento, as crianças inventavam histórias a partir dos objetos retirados da caixa de histórias, viajando num mundo de fantasia e magia.

Acreditamos que “um bom ouvinte de histórias tem grandes possibilidades de tornar-se um bom leitor, e um bom leitor absorve o conhecimento, ampliando-o em todas as áreas de sua vida” (Martinelli, 2000). Desse modo, pudemos destacar e vivenciar dois princípios fundamentais da história: ela tem que transformar quem conta e deve transformar quem ouve.

Nossas crianças passaram a gostar de contar sua própria história e, principalmente, dramatizá-la com encanto, trazendo novas significações e sua leitura para o mundo da Educação Infantil. Nosso lema passou a ser: “Ler, explorar, imaginar, cuidar e guardar!”

Além dos ótimos resultados obtidos, todos da creche foram contemplados, no final do ano, com a instituição da sala de leitura/videoteca (deixando o espaço improvisado), que contou com a doação de um bom acervo de livros infantis e a compra de outros durante a Bienal do Livro.

Tudo isso fez com que as crianças se sentissem ainda mais motivadas na invenção de histórias e envolvidas na hora de ouvi-las. Portanto, temos certeza de que ler é atribuir significados (Paulo Freire, 1996).

Contudo, sem a ousadia, determinação e interesse das crianças, nossa prática educativa não seria eficiente no desenrolar desta experiência bem-sucedida ao procurar desenvolver as diferentes potencialidades das crianças pequenas e oferecer um espaço de experimentações que permita a reflexão e a criação de múltiplas linguagens.

A Educação Infantil é o caminho para a realização de muitos sonhos. Eduque sempre com prazer!

Referências bibliográficas

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
MARTINELLI, L. C. Um espaço para o imaginário dentro da sala de aula: a arte de contar histórias. Série Espaço Aberto. São Paulo: Espaço Pedagógico, 2000.
WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

Aprender a (gostar de) ler

Alexandre Amorim
Publicado em 03 de agosto de 2010


Um dia, a televisão anunciou que ia passar o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Perto dos onze anos, Alexandre ficou feliz de saber que o programa tinha dois horários e que, depois da escola, ia poder ver aquela história de que sempre ouvira falar, mas nunca tivera coragem de ler. Eram doze livros comprados pelo pai, com letras grandes e cheios de gravuras, mas que pareciam muita coisa para quem ainda tinha os deveres de casa e os livros da escola. As aventuras em ilhas desertas, o escoteiro Bila e as traquinagens de Tom Sawyer eram histórias que faziam Alexandre gostar de ler e até tentar aprender a datilografar na máquina Olivetti Lettera 32 de sua mãe para poder escrever suas próprias histórias de detetives e mistérios. Mas no dia em que a música de Gilberto Gil começou a tocar na televisão, anunciando a transposição da imaginação de Monteiro Lobato de livro para o audiovisual, ele assistiu ao programa inteiro maravilhado. Ficou impressionado com as imagens daquela menina que dormia na beira de um rio e acabava por mergulhar no reino das Águas Claras, onde sua boneca ganharia vida e voz.

Porque ele já gostava de ler, pensou que devia ser bom procurar aquela história no original, e foi assim que, durante meses, o menino lia e via o Sítio do Pica-Pau Amarelo. Meio envergonhado, se achando um pouco velho para aquela literatura infantil, mas devorando cada página e se emocionando a cada sermão de Dona Benta, estranhando poder haver uma boneca tão malcriada que fosse ao mesmo tempo tão querida, desejando ser aquele menino de bodoque que passava as férias inteiras no paraíso. Desejando, não: todo ano ele ia para o interior de Minas, e se imaginava sendo Pedrinho.

Alexandre cresceu e aprendeu a gostar de tantos livros que não havia mais espaço em sua casa para tantas estantes. Mas ele insistia. Quando sua filha nasceu, ele lia Monteiro Lobato e contava histórias inventadas, de piratas que viajavam à noite para a lua e de peixes que falavam e podiam cruzar mares e rios e muitas vezes apareciam nos chafarizes, para encontrar seus amigos humanos. A filha ouvia as histórias, pedia para ouvir as preferidas de novo, pedia para mudar o final de outras e, mesmo depois de aprender a ler, ainda dormia com as narrativas do pai. O tempo passou e a menina já escolhia os livros que queria comprar sozinha. E eles discordam das preferências literárias. Ela coleciona romances açucarados e ele prefere os contos fantásticos. Ela não entende aquelas histórias sem pé nem cabeça, ele não consegue gostar de historinhas que sempre têm o mesmo final. Mas sempre que almoçam juntos discutem a mesma coisa: as histórias que estão lendo.

O engraçado é que pai e filha tiveram influências da televisão, e não sabem por que tanta gente reclama dela como culpada da falta de leitura das pessoas. Eles veem séries de TV juntos, vão ao cinema, conversam, e mesmo assim resta muito tempo para ler seus livros preferidos. E discutir sobre eles.

E, hoje em dia, a menina tem um irmãozinho de três anos. Alexandre também conta histórias para o pequeno, mas ele insiste em saber tudo sobre o lobo mau e o lobisomem, e não resta muito espaço para outras ficções. Às vezes, o pai conta histórias em que os canídeos são bonzinhos, mas incompreendidos. Mas muitas vezes o menino pede a história para valer, com toda a maldade que existe no coração desses monstros. A irmã mais velha gosta de ouvir as histórias, ri das invencionices do pai e de vez em quando ela mesma conta para o irmãozinho uma trama que ela inventa ou se lembra da infância.

E assim o pai se sente orgulhoso de ver que os filhos vão, aos poucos, aprendendo a gostar de ler. Porque gostam de narrativas, de enredos, de histórias que os façam imaginar novas histórias, que os façam ver como o mundo pode se transformar. E porque, aos poucos, eles vão entender que para aprender a gostar de ler não basta abrir um livro, mas saber que aquele livro é mais um caminho que o mundo oferece.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Conversas com leitores

Publicado em 17/08/2010

Cyana Leahy-Dios
Professora universitária (UFF e UGF), escritora, tradutora, PhD em Educação Literária pela Universidade de Londres

O que eu queria aprender de verdade não passava nem perto do quadro-negro. O que me interessava – e me interessa até hoje – eram as relações humanas, e tudo de mágico e de trágico que elas representavam numa vida. No caso, a minha vida... A escola era como um país estrangeiro. Martha Medeiros

Inserida no discurso da democracia social, a leitura tem nos professores-leitores seus agentes preferenciais. Ler de modo consciente e analítico implica o exercício cotidiano da cidadania, responsabilidade sociocultural primordial da escola. As trilhas até a leitura letrada e consciente são árduas, exigindo a transformação de crenças e olhares. Com frequência, na arena pública os próprios atores e espaços de construção do letramento e da leitura dificultam o processo: escolas são mal equipadas, professores não gostam de ler, alunos são desinteressados, suas famílias são indiferentes, o sistema educacional público se encontra permanentemente em estado pré-falimentar. Nada disso é dissociado das discussões sociais e políticas (como a reforma universitária, o sistema de cotas, o processo eleitoral brasileiro, as políticas de proteção ao meio ambiente), que exigem argumentação construída através de leitura, reflexão, análise, interpretação. Raros são os adolescentes e jovens adultos conscientes de sua participação ativa na escrita da história nacional.

Pela lógica cartesiana, o propalado decréscimo do analfabetismo no Brasil deveria corresponder a índices de leitura mais elevados, ao menos nos centros urbanos, onde há livrarias e bibliotecas públicas. Infelizmente, o diálogo com dezenove jovens leitores, abaixo detalhado, não confirma essa premissa. Diversas instituições que exercem papel relevante na disseminação do livro e da leitura oferecem e/ou abrigam congressos, cursos, oficinas, projetos e programas voltados para a área da leitura. Esses encontros são marcados por debates e discussões políticas, com denúncias e apelos, queixas, exigências, atribuições unânimes de culpa (ao aluno, à família, ao Estado, ao sistema).

Em meio a tantas críticas, o processo evolui bem, até que algum palestrante ou coordenador de oficina bem intencionado peça a leitura de textos, documentos ou livros para fundamentar a argumentação, os debates e trabalhos, tentando atingir questões menos superficiais acerca dos dilemas e descaminhos das ações pedagógicas em torno da leitura. Parte considerável do corpo docente envolvido com projetos de leitura efetivamente não lê: sua disponibilidade para a leitura é mínima, e a resistência, máxima. Costuma tratar como leitura a preparação de aulas, através de manuais didáticos pré-prontos, optando frequentemente por ações de caráter prático, técnicas, estratégias, receitas prontas, dicas facilitadoras para copiar e usar em seus espaços de trabalho. Peça-lhe tudo, menos leitura, análise e discussão reflexiva de textos – um exercício cansativo, soporífico, difícil e inadequado. Há escolas cujos professores sequer leram as coleções infantis e/ou juvenis enviadas pelo Governo Federal para distribuição nas escolas. Por motivos e dificuldades diversas, estão mais interessados nos fragmentos e retalhos de informação disfarçados como leitura literária.

Atuando como palestrante e coordenadora de oficinas no interior do país, através do Proler, percebi não se tratar de resistência eletiva à leitura: muitos docentes se sentem desconfortáveis, inseguros quanto à própria competência de ler. Formados precariamente, sem domínio teórico nem metodológico dos fundamentos da análise de textos, falta-lhes o pensamento independente e dialético, a divergência crítica no tratamento do lido (letramento). Carentes de bibliotecas, sem motivos específicos que os incentivem à leitura real e cotidiana, sobrevivendo ao dia a dia pedagógico com experiência de leitura parca e escassa, não podem atuar como vetores genuínos de transformação sócio-histórica e político-cultural através da palavra escrita, criando jovens leitores em suas salas de aula, em seus círculos sociais, em suas regiões. Como, então, estar a par das últimas produções editoriais da literatura juvenil? O que nos resta fazer e o que devemos esperar? A capacidade de ler e refletir sobre o lido é que permite ao indivíduo engajar-se de modo ativo e responsável nas atividades culturais e políticas do grupo, tornando-se mais apto ao desempenho ótimo de suas funções sociais, em condições de opinar e, como dizia Gramsci, de governar – e não apenas obedecer.

Dados obtidos em entrevistas anteriores com adolescentes e jovens adultos de escolas públicas no Rio de Janeiro revelaram que a maioria afirmava “não gostar de ler”; com o fluir da conversa, mais adiante – e mais à vontade – diziam ler gibis, jornais esportivos, revistas femininas, folhetins românticos e até mesmo “alguns livros” (obviamente, best-sellers traduzidos ou livros de autoajuda, não referendados pela crítica acadêmica). Diante da contradição, percebiam a associação mental entre ler e obra indicada pela escola: leitura de fato seriam as obras pré-aprovadas pelos professores como objeto de estudo para prova ou trabalho escolar.

Anos depois, usei como campo de pesquisa a Biblioteca Estadual de Niterói, prédio histórico situado em praça central da cidade. Dado o investimento em programas de leitura, em propaganda nos meios de comunicação, com frequentes doações de coleções literárias às escolas, quis atualizar os dados, verificando a ocorrência de mudanças na relação de jovens do meio urbano com o livro e a leitura: quem estaria lendo na biblioteca, o que lia e por que, a mando da escola ou por diletantismo. Ansiava encontrar uma história de maior competência escolar/docente na mediação de leituras.

A amostragem não foi quantitativamente representativa, mas deu margem a algumas reflexões: 19 jovens foram encontrados na biblioteca em situação de leitura, 16 dos quais se ocupavam de “pesquisa escolar” ou em estudo independente. Os três jovens restantes ali aguardavam um ensaio de teatro amador, com grupo “criado na biblioteca”. Todos concordaram em relatar suas leituras eletivas em processo, seus passatempos prediletos, definindo, por fim, o papel da leitura em suas vidas. Ninguém afirmou ler literatura juvenil, infantil ou adulta; estavam todos na biblioteca a trabalho, e não por prazer/lazer. Ratificaram o discurso oficial acerca da importância da leitura, embora apenas seis tenham se revelado de fato leitores. Era clara a sensação de que leitura, escola e biblioteca pertencem a um mesmo campo semântico, como obrigação, dever, tarefa avaliável.

As falas registraram que a maioria dos jovens esperava contar com o estímulo da escola ou dos professores para ler. “Ler é chato”, “ler seria minha última opção de lazer”, “só leio obrigado/a pela escola” são expressões encontradas entre os jovens, confirmando achados de investigações anteriores. Novamente se confirmou a contradição, não percebida pelos entrevistados: vários têm hábitos de leitura consolidados, embora neguem essa prática. Gilcimar, Renan, André, Luiz Ricardo, Jorge e Natália, autoalegados não leitores, leem com frequência jornais, revistas e/ou mangás (gibis japoneses). Tatiana e Iara leem romances em casa, vão à biblioteca com frequência “buscar conhecimento”, abrir “a visão da vida” (ou seja, estudar, “pesquisar”). Amanda e Pámela veem a leitura apenas como instrumento de pesquisa, “a melhor forma de aprender”, mas “não serve para o lazer”. Marcele e Ana Carolina leem sem gostar, apenas por obrigação escolar/acadêmica. Rosane, por sua vez, leitora assídua na biblioteca e em casa, vê a possibilidade de “viajar pela leitura”, ao passado, ao futuro, ao desconhecido. Também Milena considera ler uma viagem, desde que se tenha a “disponibilidade para viajar”: leu somente dois livros até hoje, apenas para “descarregar a consciência”, pois “não tem disponibilidade” para a viagem da leitura. Paulla é a leitora ideal: apaixonada por livros como lazer, prazer, fonte central de aquisição de conhecimento, a se tornar brevemente seu objeto de estudo e interesse acadêmico-profissional: acabara de ser aprovada no vestibular para Biblioteconomia na UFF. Oriunda de uma família de leitores, Paulla declarou ler cinco livros simultaneamente; afirmou que, para ela, “a leitura é quase tudo: é informação, passatempo, meu meio de comunicação com os outros e com o mundo”.

André, leitor e apreciador do potencial da leitura (“ler abre um novo universo, estimula a mente a pensar, a ter opiniões sobre o mundo e a vida”), lamenta o distanciamento da escola, que raramente orienta a leitura ou manda ler. Luiz Ricardo vai à biblioteca estudar e pesquisar, mas a leitura não entra na sua lista de prioridades ou de prazeres. Renan e Jorge, leitores de gibis e livros que nunca leram uma obra literária, revelam curiosidade por textos literários, uma leitura até então jamais exigida, orientada ou motivada pela escola. Embora suas famílias não possuam livros, intuem ou repetem o chavão de que leitura é aprendizado, estímulo à imaginação, ensinamento moral e solução de problemas existenciais. Natália, uma declarada não-leitora, lê revistas femininas e de fofocas televisivas, já tendo lido na escola livros escolhidos pelos professores, sem significado especial para sua experiência de vida e de leitura. Afirmando “sentir falta de livros e de leitura em família”, pretende “ler para os filhos” que tiver um dia, instaurando o hábito de ler em seu futuro núcleo familiar. Luana frequenta a biblioteca, adora ler e lê de tudo; atribui esse hábito prazeroso ao fato de vir de uma família de leitores, já que a escola nunca pediu, indicou ou orientou leituras. Afirma que ler ajuda a desligar dos problemas, é o melhor lazer. E o recém-chegado Mário, cidadão da Guiné-Bissau, estava na Biblioteca Estadual por conta própria, estudando para prestar exame vestibular no Brasil. Apesar da guerra em seu país, diz-se bom leitor de poesia, ficção e temas culturais em geral, que lê por prazer. Segundo ele, não há bibliotecas públicas nem escolares na Guiné-Bissau; livros são disponíveis apenas nas bibliotecas das Embaixadas de Portugal e do Brasil. Vê a leitura como fonte de alegria e tristeza, aprendizado, informação, crítica.

Melhores futuros para todos?

Não houve a pretensão de originalidade aqui. As respostas informam a inserção socioeconômica dos jovens (bairros e zonas de residência e estudo), a frequência e objetivos ao procurar a biblioteca pública e a relação pessoal com livros e leitura. Opinativos e participativos, pertencem às camadas populares: moram em áreas de baixa renda, estudam (ou estudaram) em colégios públicos de periferia. A relação série-idade está na faixa ideal, indicando serem estudantes no mínimo medianos. A biblioteca é usada preferencialmente como local de “pesquisa” escolar e, em menor escala, de estudo independente. Descontando as poucas exceções citadas, esses jovens não relacionam leitura a prazer e/ou lazer e têm pouca intimidade com a literatura: são episódicos seus eventos de leitura de livros. Há exceções por motivação familiar, inegavelmente o melhor, mais raro e eficaz exemplo para o desenvolvimento do hábito prazeroso de ler.

Pelo visto, a escola continua falhando no cumprimento de sua tarefa mais importante, que é desenvolver a habilidade de ler textos, ler nas entrelinhas, ler eventos, situações, mensagens, de forma literal e literária, até porque falta educação literária na própria formação dos docentes, principais agentes desse processo.

Professores que não leem, alunos que nunca leram na escola são as pontas visíveis das artimanhas que inibem a emancipação e reproduzem “propostas imbecilizantes” (Demo, 2001, p. 74). O medo do argumento também faz parte dessas artimanhas, cerceando diferenças de opinião e divergências conceituais por temê-las, como a toda forma de exercício crítico. Ler, analisar e interpretar em profundidade são instrumentos de contestação da própria leitura, uma intervenção nas circunstâncias de produção dos textos em si. Ler literatura faz parte de uma agenda sociocultural determinada por compromissos ideológicos, papéis e expectativas político-culturais. O texto se esvazia se estiver a serviço da produtividade, com resultados mensuráveis – e não como campo de desenvolvimento de sensibilidades e competências literárias.

As obras literárias mencionadas pelos jovens entrevistados na Biblioteca Estadual de Niterói foram Harry Potter (Tatiana, em casa); Macunaíma e Triste fim de Policarpo Quaresma (Iara, na escola) e O iluminado (em casa); As viagens de Gulliver (Marcele, na biblioteca da escola) e Oliver Twist (em casa); Gota d’água (Ana Carolina, na biblioteca da UniRio); O Guarani (Rosane, na escola); Anjos e demônios, Quem tem medo do escuro, As brumas de Avalon 3, O físico, e Da chibata à terra-mãe (Paulla, em casa); Relato de um náufrago e Robin Hood (Luiz Ricardo, em casa); Dom Casmurro e Lolita (Milena, em casa); Porto dos Milagres (Luana, em casa).

Dessa listagem, constituíram indicações de leitura escolar Macunaíma, Triste Fim de Policarpo Quaresma e O Guarani, obras canônicas clássicas, assíduas nos finados livros didáticos de literatura e que dificilmente seriam classificadas como “literatura juvenil”. A escassez de materiais de leitura é de tal monta que alguns títulos são lidos, relidos, e lidos novamente. A maioria dos professores e os bibliotecários desconhecem as novidades editoriais do país. À escola não chegam notícias da literatura juvenil.

A realidade fica do lado de fora; porém, do lado de dentro falta não apenas leitura, mas também espaço para análise, discussão, confronto, transformação, divergências, emancipação. Se a educação literária – educar para a cidadania através da literatura – é metafórica, uma representação cultural das sociedades, a situação brasileira é preocupante. Permanece a tradição que reza que bibliotecas sejam para as escolas dos abastados e oficinas (quando muito) para as escolas das classes populares, um triste quadro do presente educacional do país.

Todo autor gostaria de fechar seu texto com um toque otimista, ajudando a manter a esperança em melhores futuros para todos. Porém, o quadro da leitura em geral – e da literária em particular – em nosso país continental não permite conclusões utópicas e ufanistas. Não há notícia de movimentação ampla e eficaz no letramento e na educação literária dos jovens das classes populares – ouvimos falar em uma ou outra iniciativa heroica, particular, de sucesso limitado. Não há “perguntas galantes” em nossos jornais e revistas, na televisão ou na internet. Há anos que a avaliação internacional da competência de leitura de nossas crianças e jovens rasteja nos últimos lugares.

Sem querer adotar uma posição extremada ou sectária, acredito que seja urgente rever todo o sistema, desde a formação escolar, acadêmica e continuada de professores-leitores até as políticas livreiras e de leitura literária, lembrando que certos significados e posições não são articulados dentro do discurso oficial. É urgente construir leitores de todas as idades, nas diversas classes socioeconômicas. Dentro e fora desse país estrangeiro, a escola.

Referências bibliográficas

BOAL, Augusto. O arco-íris do desejo: Método Boal de Teatro e Terapia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996.

DEJEAN, Joan. Antigos contra modernos: as guerras culturais e a construção de um fin de siècle. Trad. Zaida Maldonado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 1993.

LEAHY-DIOS, Cyana. Educação Literária como Metáfora Social. Niterói: EdUFF, 2000. 2a edição. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

Gibi ou livro? O que a criança gostar!

Mariana Cruz
Publicado em 31 de agosto de 2010


Na minha infância não existiam todas essas opções de lazer que se veem hoje em dia: bonecas de todos os tipos, formas e profissões; canais de TV especializados no público infantil; jogos eletrônicos (havia somente o Atari) e outras bugigangas. Nada disso. Tínhamos, então, que ocupar nosso tempo inventando brincadeiras, lendo historinhas, ouvindo uns disquinhos coloridos (com a narração de histórias como A formiguinha e a neve, Os Três Porquinhos e o Lobo Mau; A cigarra e a formiga) e, claro, vendo os desenhos animados na TV. Eu tinha também os amiguinhos do clube (já não sou da época em que se brincava na rua) e a companhia constante de livros e gibis. Dos livros aprendi a gostar desde cedo, pois era normal – e ainda hoje é – ver meus pais lendo em diversos lugares da casa. Minha escola também incentivava bastante tal hábito e no clube que frequentava tinha uma biblioteca para Borges nenhum botar defeito, tamanhas as possibilidades que ela oferecia, os mundos aonde ela me levava. Havia um espaço só para crianças, onde líamos sentados em mesinhas, no chão e até mesmo deitados, desenhávamos e nos relacionávamos com as outras crianças (a sala era separada do restante da biblioteca por uma parede de vidro, então podíamos conversar sem atrapalhar os “velhos”, como nos referíamos aos leitores adultos).

A falta de opções de lazer para crianças se estendia aos shoppings: a ausência de parquinhos infantis também fazia com que um passeio por tais lugares se transformasse em programa cultural. No Shopping da Gávea, por exemplo, o point era a Livraria Malasartes. Ficávamos meu irmão e eu lá, folheando um monte de livros. Muitas vezes não levávamos nenhum para casa, mas não tinha problema. Aliás, a livraria existe até hoje e, quase trinta anos depois, continua igual. Não se intimidou com as megalivrarias. Está lá, no mesmo cantinho, com uma mesinha para as crianças lerem, estantes rebaixadas para os pequenos terem acesso aos livros. E nada de pai pegar o livro para eles. E foi assim que eu, nos anos 1980, comecei a ler e escolher meus livrinhos. Foi por esse tempo, não sei se por pedido do meu irmão ou por iniciativa dos meus pais, ganhamos o Shakespeare em Quadrinhos. O livro era grande, de capa dura e vinha com três peças de Shakespeare: Hamlet, Romeu e Julieta e, por último, A Tempestade. Os personagens desenhados na capa pareciam reais. Lembro-me de ficar olhando a Julieta com seus cabelos negros escorridos. Foi quando passei a não mais querer ser loira, e sim ter o cabelo como o da amada de Romeu. Além disso, era fascinada pela figura de Hamlet, com aquela roupa preta colada e suas madeixas douradas esvoaçantes. Meu irmão e eu líamos e relíamos o livro, desenhávamos os personagens e, de quebra, transportávamos as histórias para as brincadeiras de Playmobil. Graças a esse pseudoconhecimento de Shakespeare, meu irmão acabou ganhando fama de gênio por parte de alguns desavisados que achavam que ele conhecia de fato a obra, afinal sabia o enredo, o nome dos personagens, brincava de espada com os amiguinhos dizendo “eu sou o Mercúcio e você é o Tebaldo!”. Não era de se admirar que o achassem precoce. O maior engodo. Era tão natural para a gente ler aquelas histórias como era natural ler Asterix, Tex, Mafalda, TinTin, os gibis da Turma da Mônica e tantos outros. Não importava se vinham da banca de jornal ou se eram comprados na livraria. A única diferença é que os quadrinhos mais sofisticados não podíamos colorir ou desenhar.

Ler Shakespeare em quadrinhos, porém, não me fez ter curiosidade de ler o original. Fui ler muito tempo depois Hamlet e Macbeth por outros motivos. Meu livro de quadrinhos shakespearianos era tão bonito que ele bastava. Não sei até que ponto transformar livros importantes em história em quadrinhos faz com que a criança se interesse em ler o livro original. Com algumas isso pode ocorrer, com outras, não. A história em quadrinhos adaptada de livros, quando é benfeita, isto é, quando mostra um casamento harmônico entre texto e desenho, não precisa servir de meio para estimular a leitura do original. Se ela estimular tal leitura, ótimo. Mas se estimular a leitura de outros quadrinhos, ótimo também.

Digo isso porque há algum tempo foi lançada uma elogiada adaptação dos primeiros volumes do Em busca do tempo perdido para quadrinhos. Para os proustianos puristas, uma profanação. Mas para quem estar a fim conhecer – mesmo que superficialmente – um dos textos mais aclamados da literatura mundial e acha, equivocadamente, que ler os 7 volumes é que é perder tempo, os quadrinhos são uma solução. Mas isso não faz do indivíduo um proustiano. Para ser um entendedor de Proust, há que se comer muito arroz com feijão, digo, muitas madeleines. A transposição do livro para os quadrinhos foi trabalhosa; prova disso é que o responsável por ela, Stéphane Heuet, demorou três anos e meio para concluir o primeiro livro.

Na esteira da adaptação de Proust, temos agora a chance de ler diversos clássicos da literatura mundial em quadrinhos, tais como Drácula, Frankenstein, O médico e o monstro, Os três mosqueteiros, O homem da máscara de ferro e Macbeth.

Se tais adaptações incentivam ou não à leitura do original não importa. Nada impede, porém, que se trabalhe em sala de aula como ambas as fontes. Fiz isso ao estudar o mito da caverna, de Platão. Para não ficarmos apenas no texto do filosofo, usei também a adaptação para quadrinhos feita por Maurício de Souza, intitulada As sombras da vida, que tem semelhanças e diferenças em relação à alegoria criada pelo discípulo de Sócrates. Tais elementos foram trabalhados pelos alunos, que conseguiram observar coisas que eu nem de longe havia imaginado. A intimidade com os desenhos de Maurício de Souza fez com que se apropriassem dos quadrinhos e entendessem perfeitamente o texto de Platão.

Por isso, deixemos de lado a polêmica quanto à utilização dos quadrinhos como estímulo à leitura. Seja gibi, seja livro, o importante é despertar nas crianças e nos jovens o prazer pela leitura.

Site pesquisado:

Ler para quê?

Publicado em 28 de setembro de 2010
Alexandre Amorim

Desde que a pedagogia passou a se preocupar efetivamente com o aluno (e não apenas com o conteúdo da matéria e com a passagem de conhecimento, sem se importar com a qualidade desse conhecimento), existe uma questão incômoda nas salas de aula: o livro a ser escolhido para leitura.

Incômoda pelos dois lados, do professor e do aluno. Entre a tradição inexorável dos sistemas de ensino e a comum negligência do aluno, o professor se esforça para escolher uma literatura ao mesmo tempo interessante e dentro dos modelos educacionais. Porque o modelo a ser seguido deve levar em consideração duas ideias ao mesmo tempo decadentes e resistentes: o vestibular e a importância dada à chamada “literatura clássica”. O professor, ainda que dotado da maior boa vontade, aos poucos nota que os livros indicados pelo sistema educacional não são exatamente os livros que motivariam seus alunos a seguir lendo e se interessando por literatura. Assim, crianças de doze ou treze anos são chamadas a encarar O Mulato ou O Cortiço, respirar uma dura realidade que está longe da vida deles e enfrentar uma linguagem que os espanta quando apresentada também como português. Todo educador sabe que o universo de um aluno está em expansão e que esse universo precisa ser preenchido.

A cultura não pode ser apenas o que o sujeito alcança, mas também o que constitui a ética e a estética da sociedade em que esse sujeito vive. Por isso, os livros de Aluísio Azevedo, José de Alencar, Lima Barreto, Mário de Andrade, Drummond ou de qualquer autor não precisam ser esquecidos ou evitados, nem devem ser impostos sem levar em consideração o preparo intelectual e afetivo de quem os lê.

A notícia de que um livro deve ser lido até uma determinada data e de que nessa data haverá um teste sobre o livro geralmente cai sobre uma turma como uma bomba de aborrecimento e desinteresse. Ouvem-se os protestos de que nunca se ouviu falar de tal autor (mesmo que seja Shakespeare ou Machado de Assis), ouve-se a temida frase “para que ler isso aí? Eu quero fazer engenharia, isso não vai me ajudar em nada” e, por fim, ouve-se o suspiro baixo do professor, quase desistindo de dar aula e pensando em se tornar bolsista em um projeto de dedicação exclusiva no CNPq. As demonstrações de desinteresse são recheadas de ignorância e de falta de visão da formação humanista em que nossa civilização se baseia desde a Grécia Antiga. Mas não podemos deixar de considerar a visão do aluno, ainda que obliterada por preconceitos. O importante é notar que, nessa visão, existe, sim, uma força importante que desloca o interesse e a vontade de ler para o ostracismo: a completa falta de contextualização do livro na vida do aluno.

Existe uma agenda a ser cumprida pelo professor. O aluno precisa ser informado de que existem movimentos literários (mesmo que esses movimentos tenham se provado mais didáticos do que factuais), precisa pelo menos conhecer algumas páginas de nossa história literária. Como essa agenda é formulada e por que determinados livros são escolhidos nas redes públicas é um mistério para a grande maioria dos mortais, professores incluídos. Como não há tempo ou meios de criticar ou ao menos reclamar do processo, o professor chega à turma com a tarefa árdua de vender o peixe que ele nem ao menos pescou. Daí a se criar uma boa expectativa em relação àquele livro e – principalmente – daí a se tentar conscientizar a turma de que aquele livro é o ideal para ser lido naquele momento vai uma distância enorme, quase tão grande quanto a distância entre o simbolismo de Cruz e Sousa e a conta de Twitter do aluno que vai fazer vestibular para medicina.

Temos, então, uma equação interessante: um professor cansado de seguir tarefas premeditadas por pedagogos a que ele não tem acesso, alunos incultos e com pouca vontade de mudar esse status e um tempo tão pequeno em sala de aula que mal daria para estudar um conto da Carochinha. Matematicamente, é uma inequação, já que suas relações não conseguem chegar a uma equivalência. E se, no começo deste parágrafo, eu classifiquei a equação de interessante, posso compreender perfeitamente quem a considere desanimadora. Talvez a única maneira de resolvê-la seja mesmo tentar buscar o prazer que a literatura pode dar.

Acreditando no prazer lúdico que a arte pode nos trazer, vejo a escolha de um livro a ser estudado em uma sala de aula como algo maior do que apenas sua interpretação gramatical e de conteúdo. Um livro pode ser visto como ferramenta de ensino e compreensão da língua, o que só o valoriza ainda mais. Mas, se vamos usar O Cortiço como leitura obrigatória, por que não contextualizar sua história e a moral envolvida nele? Por que não simular em sala o que sempre repetimos aos alunos, que um livro é resultado de uma experiência de vida e que alimenta a vida de quem o lê? A complexa relação de trabalhadores simples, que convivem entre diferenças entre as paredes de uma casa de cômodos, já é o bastante para criar uma minipeça, uma pequena história a ser dramatizada em sala de aula. Uma dramatização que ajuda bastante o adolescente a entender melhor o livro e a compreender por que aquela história pode ser enriquecedora em sua vida, mesmo que ele vá fazer vestibular para, digamos, Administração. Se o aluno se pergunta sobre a razão de ler, o prazer de compreender e vivenciar dramaticamente uma história já o ajuda a perceber que ler é um propósito em si mesmo. As consequências da leitura (cultura, desenvoltura na língua, boa nota no vestibular etc.) são isso mesmo, meras consequências.

Jogos sobre a leitura, ou mesmo histórias criadas a partir do tema do livro a ser analisado, são maneiras de inserir o leitor em potencial no mundo daquela obra. Se um texto é cheio de mesóclises e palavras que não são usadas desde o século XIX, pode-se criar um dicionário das palavras mortas ou uma brincadeira em que todos esses termos seriam subvertidos, reinventados. A obrigação de ler um texto não significa que esse texto deve ser lido de uma forma ou de outra. Literatura é, antes de tudo, o estudo de uma expressão artística, e como tal deve ser vista com a liberdade que a poesia traz em si.

“Leitura obrigatória” é um termo por si só desanimador. Nada obrigatório soa muito bom. Mas deixar que ela se torne apenas isso, uma leitura obrigatória, é relegar a literatura a uma mediocridade a que ela não merece pertencer. Por isso, é preciso um pouco mais do que apenas dar o título do livro e a data da prova para que os alunos se interessem em expandir seu próprio universo. A arte é inerentemente lúdica, não há por que perder essa característica tão sedutora. A próxima vez que um aluno perguntar “ler isso para quê?”, o professor deve responder com uma aula em que o livro seja o centro das atenções. Porque ler é, sim, assunto central de nossas vidas.