quinta-feira, 31 de março de 2011

Formando leitores: o importante papel do PNLL

Matéria publicada em 28/02/2011

Moacyr Scliar [1]

Em meados do século XIX, o Rio de Janeiro tinha apenas dez livrarias, provavelmente sem muitos clientes: um censo realizado à época de Machado de Assis, e na mesma capital federal, mostrava uma porcentagem de analfabetismo em torno de 80%.

Não é difícil explicar essa situação de analfabetismo e de falta de leitores. No Brasil colonial, o ensino era precário e reservado a uns poucos filhos de privilegiados. Universidades não existiam: os jovens que podiam iam estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal. As coisas começaram a mudar quando, em 1808, a corte portuguesa, fugindo à invasão napoleônica, transferiu-se para o Brasil. Foi criada a Biblioteca Real e a primeira gráfica-editora, a Imprensa Régia, que, contudo, tinha o monopólio da edição de livros e só publicava o que era autorizado pela coroa. Quando esta disposição foi revogada (em 1821, às vésperas da independência e provavelmente anunciando-a), multiplicaram-se os jornais, folhetos, revistas. Neste processo tiveram forte papel os franceses Edouard e Heinrich Laemmert e Baptiste Louis Garnier, livreiros que também editavam autores brasileiros: Garnier lançou José Veríssimo, Olavo Bilac, Artur Azevedo, Bernardo Guimarães, Silvio Romero, João do Rio, Joaquim Nabuco; Laemmert tinha em seu catálogo Graça Aranha e Machado de Assis. Suas livrarias, inclusive, tornaram-se célebres pontos de encontro dos escritores. Àquela altura, começo do século XX, começava a surgir um público leitor, às vezes surpreendendo os editores: quando a Laemmert recusou-se a publicar uma obra que parecia “cientificista” e extensa, o próprio autor resolveu financiar a edição. E fez muito bem, Euclides da Cunha: Os sertões, magistral retrato da Guerra de Canudos e do Brasil sertanejo, vendeu, em pouco mais de um ano, 6 mil exemplares. Autêntico best-seller.

O fato de que os escritores não conseguiam viver de literatura (muitos eram funcionários públicos ou profissionais liberais), não impedia a existência de uma vida literária. Em 1897, e por influência de Machado de Assis, era criada a Academia Brasileira de Letras. Com o movimento modernista de 1922 surgiram revistas literárias, a Klaxon, para a qual escreveram Anita Malfatti, Sérgio Milliet, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral.

Nas primeiras décadas do século XX apareceram editoras importantes: a José Olympio, que editou sucessos como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Vidas secas de Graciliano Ramos, além de Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e Guimarães Rosa, sem falar em clássicos da literatura mundial, como Balzac, Dostoiévsky, Jack London, Tolstói. A produção crescia; o número de editoras (a maioria delas no Rio, ainda que o parque gráfico de São Paulo fosse maior) aumentou quase 50% entre os anos de 1936 e 1944. Em meados do século XX o país editava, por ano, cerca de 4 mil títulos, representando 20 milhões de exemplares. Durante o Estado Novo, regime de exceção que ampliou os poderes de Getúlio Vargas (presidente de 1930 a 1945), a atividade cultural passou a ser controlada pelo DIP, Departamento de Imprensa; a censura estava presente no rádio, imprensa, música, ensino. E foi também Vargas que, em 1937, criou o Instituto Nacional do Livro, com o objetivo de desenvolver uma política governamental na área.

Ao mesmo tempo, havia uma descentralização da atividade editorial. No Rio Grande do Sul surgiu a Editora Globo, dirigida por Henrique Bertaso que teria como colaborador ninguém menos que o escritor Érico Veríssimo, grande tradutor e editor familiarizado com o contexto literário mundial. A Globo editava clássicos, best-sellers, e autores gaúchos: Dyonelio Machado, Darcy Azambuja, Pedro Vergara, e o próprio Érico Veríssimo que, com Jorge Amado, formava a dupla de autores mais lida no país.

E os leitores?

Ainda não são muitos. O Brasil tem cerca de 190 milhões de habitantes, dos quais 95 milhões podem ser considerados leitores; mas eles leem, em média, 1,3 livro por ano. Nos Estados Unidos, esta cifra é de 11 livros por ano; na França, 7 livros por ano; na Argentina, 3,2 livros por ano. Não se trata de uma rejeição da leitura; uma enquete mostrou que 75% gostam de ler. Pergunta: por que, então, os brasileiros não leem mais? O argumento mais comum é o do preço do livro, de fato ainda muito caro. Mas isto é o resultado de um círculo vicioso: o livro custa caro porque vende pouco, e vende pouco porque é caro. Dizia-se que brasileiro não gosta de livro de bolso, que prefere edições de luxo, com capa dura, para, das prateleiras, dar a impressão de que o dono da casa era pessoa culta. Agora, porém, vê-se que o livro de bolso tem um público cada vez maior.

Aumentar a venda é uma forma de baixar o preço, mas isto só acontece quando as pessoas têm o hábito da leitura. Este, por sua vez, resulta de um processo que se desenvolve por etapas. A primeira dessas ocorre na infância e depende do ambiente afetivo e cultural em que vive a criança. O conceito de “famílias leitoras”, da Unesco, não é uma realidade no Brasil; 63% dos não leitores dizem que nunca viram os pais lendo – faltou-lhes, portanto, um modelo. A tevê tem sido o centro da vida familiar; aquela cena do passado, a mãe ou o pai lendo para os filhos, é uma raridade. As famílias gastam quatro vezes mais com tevê e som do que com material de leitura.

A etapa seguinte é a da escola. As enquetes mostram que, quanto maior o nível de escolaridade das pessoas, maior é o tempo que dedicam à leitura. Entre os entrevistados com ensino superior, apenas 2% não leem. O problema é que, no Brasil, poucos chegam à universidade; 43% dos jovens de 15 a 19 anos sequer concluem o ensino fundamental. Faltam bibliotecas em 113 mil escolas, ou seja, em 68,81% da rede pública de ensino.

Mas, de novo, as coisas estão mudando. Os últimos governos têm se esforçado para preencher esta lacuna; em 2008, as escolas receberam, em média, 39,6 livros cada uma, através do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares. A par disto, um grande esforço está sendo desenvolvido para estimular o hábito da leitura entre os escolares. No passado, o ensino da literatura era baseado quase que exclusivamente nos clássicos. Autores importantes, decerto, mas que falam de outras épocas, de outros locais, e numa linguagem nem sempre acessível. Hoje, as escolas trabalham também com escritores contemporâneos, e a interação com o texto é a regra. Os alunos fazem dramatizações, escrevem suas próprias versões dos textos, editam jornais na escola. Os eventos literários são frequentes nas cidades brasileiras; as feiras de livros, as Bienais de Literatura (em cidades como São Paulo, Rio, Salvador, Curitiba) e os festivais literários, dos quais o de Paraty, que traz ao país nomes de destaque na literatura mundial, é um exemplo.

A indústria editorial está em franca expansão, acompanhando o crescimento da economia como um todo. De 2006 a 2008, foram lançados aproximadamente 57 mil novos títulos e impressos mais de um bilhão de exemplares. A indústria editorial atrai investidores estrangeiros, e está deixando de lado o elitismo do passado para buscar o público leitor, sobretudo o leitor jovem. Redes de livraria estão em expansão, e também a oferta do livro de porta em porta: em 2009 quase 30 milhões de livros foram assim vendidos, sobretudo para setores mais pobres. O Brasil tem hoje 2.980 livrarias, uma para cada 64 mil habitantes. Abaixo do que é preconizado pela Unesco - uma livraria para cada 10 mil habitantes, mas com aumento de 10% nos três últimos anos.

Muito importante é fazer chegar o texto impresso à população como um todo, e neste sentido o Plano Nacional do Livro e Leitura, PNLL, instituído pelo Ministério da Cultura e Ministério da Educação, desempenha um papel importante. Estamos falando de um conjunto de projetos, programas, atividades e eventos na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas em desenvolvimento no país, empreendidos pelo Estado (em âmbito federal, estadual e municipal) e pela sociedade, visando incrementar a capacidade leitora do Brasil e trazer a leitura para o dia a dia do brasileiro. Um objetivo basicamente democrático, compatível com o progresso que o país atingiu, e que contempla atividades como o fortalecimento da rede atual de bibliotecas, implantação de novas bibliotecas, distribuição de livros gratuitos, e, muito importante, incorporação e uso de tecnologias de informação e comunicação; o fomento à leitura e à formação de mediadores; o desenvolvimento da cadeia produtiva do livro. Sob a segura coordenação de José Castilho Marques Neto, Secretário Executivo, o PNLL tem registrado expressivos êxitos, transformando em realidade aquilo que Castro Alves celebrou em versos famosos: “Oh! Bendito o que semeia/livros, livros à mão cheia”. Se vivo fosse, o poeta aplaudiria de pé o PNLL.
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[1] Moacyr Scliar (Porto Alegre, 1937-2011) é autor de cerca de 90 livros, nos gêneros romance, conto, crônica, ensaio e ficção juvenil, vários traduzidos, vários premiados (recebeu o Jabuti 2009 para melhor livro de ficção). Colabora em vários periódicos no país e no exterior, e é membro da Academia Brasileira de Letras.

Fonte: PNLL

Em cada 10 universitários, dois têm dificuldade de leitura

Sarah Fernandes
sarahfernandes@aprendiz.org.br
Matéria publicada em 23/02/2011

Em cada dez universitários de até 24 anos, quase dois podem ter problemas em acompanhar o curso devido a dificuldades de compreender textos e resolver cálculos complexos. Eles são 18% dos estudantes de ensino superior, que possuem nível de alfabetização considerado básico por especialistas.

Os dados são da organização não governamental Ação Educativa e do Instituto Paulo Montenegro, do Ibope. As instituições analisaram o impacto do analfabetismo funcional no ensino superior, a partir do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf).

O estudo analisou jovens de 15 a 24 anos das regiões metropolitanas de Fortaleza (CE), Recife (PE), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Curitiba (PR), Porto Alegre (RS) e Brasília (DF).

“18% de jovens com nível básico de alfabetismo no ensino superior é um dado bastante preocupante. Isso porque eles vão encontrar limitação no seu desenvolvimento pessoal, cultural e profissional”, analisa coordenadora geral da Ação Educativa, Vera Masagão.

As pessoas com nível básico de alfabetismo leem e compreendem textos de média extensão e resolvem problemas com uma sequência simples de operações. No entanto, têm dificuldade quando as operações envolvem mais elementos e etapas, segundo o estudo.

Eles, “embora tenham condições de prosseguir nos estudos, poderão ter limitações significativas para absorver o conteúdo que lhes seja oferecido ou contam com suprir, na faculdade, as deficiências acumuladas em sua trajetória escolar”, aponta a publicação.

Travados

Pouco mais de um em cada quatro jovens analisados pela pesquisa estão excluídos do ensino superior por não terem concluído etapas da educação básica. Ao todo, 22% podem ser considerados analfabetos funcionais, 36% ainda estavam no ensino fundamental e apenas 56% terminaram ou estão cursando o ensino médio.

“Eles são vítimas de um currículo escolar pobre, da falta de professores e da desmotivação dos profissionais da educação”, analisa Vera. “Em geral, eles não tiveram informações sobre oportunidades como EJA [Educação de Jovens e Adultos] e ProJovem”.

O reconhecimento da dificuldade de leitura é uma das barreiras para avançar os estudos, segundo o levantamento. Metade dos entrevistados pretende estudar em cursos pré-vestibulares gratuitos, sendo que apenas 8% deles têm nível de alfabetização rudimentar, no qual é possível ler anúncios ou cartas pequenas e manusear dinheiro.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Quem lê esquece a dor, o medo e a humilhação, defende livro

ARIADNE ARAÚJO
colaboração para a Livraria da Folha


Após uma desilusão amorosa, a morte de um ente querido, uma demorada doença ou grande crise pessoal, também durante catástrofes naturais, guerras e conflitos. Os livros têm sido companheiros fiéis, ajudando milhares de pessoas a ultrapassarem tempos difíceis. Em "A arte de ler ou como resistir à adversidade" (Editora 34), a pesquisadora francesa Michèle Petit conta como a leitura tem salvado, transformado e reconstruído vidas, seja na Europa, seja em pequenos lugarejos da América Latina.

No Brasil, na Argentina, na Colômbia e no México, a pesquisadora acompanhou as chamadas "experiências literárias compartilhadas". Organizadas por mediadores culturais - professores, bibliotecários, psicólogos, artistas, escritores, editores, livreiros, trabalhadores sociais -, essas experiências literárias têm como foco justamente populações mais distantes dos livros: "crianças, adolescentes, mulheres ou homens, em geral pouco escolarizados, oriundos de ambientes pobres, marginalizados, cujas culturas são dominadas".

Lendo em voz alta e discutindo livros juntos, essas pessoas encontram no prazer da leitura as representações e figurações simbólicas que precisam "para sair do caos, seja ele exterior ou interior". Pois, segundo Petit, os recursos culturais de linguagem, narrativos e poéticos, são tão vitais quanto a água. E, para isso, todas as formas de literatura são válidas: os mitos e lendas, os contos, romances, poemas, teatros, diários íntimos, histórias em quadrinhos, ensaios, livros ilustrados.

Local de acolhida, a leitura proporciona um "esquecimento temporário da dor, do medo e da humilhação". Ela é suporte "para despertar a interioridade, colocar em movimento o pensamento, relançar a atividade de simbolização, de construção de sentido e incita trocas inéditas", diz a pesquisadora. Para realizar essa experiência, os mediadores contam com a curiosidade intelectual de homens e mulheres. Assim, na floresta amazônica, refém da guerrilha na Colômbia, Ingrid Betancourt sonhava com um luxo: um dicionário enciclopédico.

Quando lemos, damos um salto gigantesco no espaço e no tempo. A voz interior do autor faz reviver uma outra. Segundo Petit, "ler, apropriar-se dos livros é reencontrar o eco longínquo de uma voz amada na infância". Nesse reencontro com a voz materna ou paterna, ou ainda da avó ou avô, as "palavras são bebidas como se fossem leite ou mel". Nesse desvio de tempo, de acordo com relatos de mediadores, alguns adolescentes, ao ouvir as narrativas, "se esticam e se curvam em posição fetal, enquanto outros fecham os olhos".

No Brasil, a pesquisadora acompanhou a experiência do projeto Cor da Letra, que forma mediadores de leituras para o trabalho em escolas públicas e privadas, hospitais, bibliotecas, centros sociais e culturais, nos bairros urbanos pobres e interior em várias regiões do país. Apesar da dificuldade em transmitir o gosto pela leitura, as pessoas têm sido tocadas pela "voz" dos livros. Nesta e em outras experiências, não se trata de fuga do real, "mas uma pausa, um intervalo necessário para curar as feridas de uma realidade demasiado dolorosa.

Sinopse:

"Aquele livro me deu a força necessária para enfrentar a virada decisiva de minha vida, aceitar que eu não era mais o mesmo, suportar sê-lo com meus amigos que não compartilhavam o que eu pensava e que tive que enfrentar para defender minha nova maneira de ver a vida..."

O depoimento acima, de um jovem morador de um dos bairros mais pobres de Bogotá, na Colômbia, é apenas um entre as dezenas de testemunhos sobre a importância da literatura - tomada aqui num sentido amplo, que inclui histórias em quadrinhos e relatos orais, além dos gêneros tradicionais da poesia, do conto e do romance - na formação do sujeito, e o papel que ela desempenha em contextos de crise.

Comentando experiências de mediadores de leitura em contextos adversos, especialmente em países da América Latina, entre eles o Brasil, a antropóloga francesa Michèle Petit amplia os temas e aprofunda as análises de seu Os jovens e a leitura, publicado em 2008 pela Editora 34.

Com um olhar interessado e uma sólida bagagem intelectual, a autora investiga as diferentes maneiras pelas quais a forma narrativa pode atuar como educadora da sensibilidade, ao mesmo tempo em que se afirma como um poderoso instrumento de resistência ao caos interior e à exclusão social.

Incentivo à leitura foi fundamental na Colômbia


* MARA BERGAMASCHI é jornalista e escritora
Matéria publicada em  25/12/2010

Nave-mãe da BibloRed, sistema municipal formado por quatro grandes bibliotecas, seis médias e dez menores, de bairros —, a imponente Virgílio Barco, que tanto sucesso faz em Bogotá, tem uma área total que não chega à metade do tamanho da natimorta Cidade da Música do Rio. Comparando-se os espaços construídos, o empreendimento carioca, além de mais sofisticado e caro, é quatro vezes maior. Mas a grande — e óbvia — diferença, além das áreas artísticas (música e literatura), é que a Virgílio Barco, plantada no maior parque de lazer da cidade, o Simon Bolivar, está aberta todos os dias, quase sempre até as 20h, para vários públicos e demandas: o livro é a principal estrela, mas não o único atrativo cultural.

— Não temos nada semelhante no Brasil — resume Beth Serra, secretária-geral da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil (FNLIJ). — Ainda vamos ter de caminhar muito para ter boas bibliotecas públicas e escolares.

Novas bibliotecas do Rio inspiram-se nas colombianas

Na avaliação dos que conhecem a área, o livro e a leitura não estão no centro de nossas políticas de educação e cultura. Não adianta erguer bibliotecas — inexistentes em muitos municípios brasileiros — sem planejamento, pessoal treinado e projeto de ocupação consistente. O problema não se resolve com a construção de equipamentos culturais, por mais belos e monumentais que sejam. A Cidade da Música, que deve funcionar um dia, é só o mais recente exemplo disso. Há muitos outros: inaugurada em 2008, a biblioteca de Brasília, assinada por Niemeyer, ainda é um prédio semifantasma na Esplanada, sem livros para o público e com o atendimento suspenso para crianças.

Escritores colombianos relatam que as conquistas em seu país foram lentas e árduas — e dependeram da reformulação de políticas públicas. Afirmam também que ainda há muito a ser feito.

— Houve uma mudança na educação, um incentivo significativo à leitura, e isso foi fruto do trabalho de professores, bibliotecários, escritores — avalia o escritor e ilustrador Ivar Da Coll.

— O discurso de promoção da leitura ganhou a agenda política nacional pelo esforço da sociedade — reforça Yolanda Reyes, que também escreve para os pequenos.

Ela confere ao Brasil papel importante na renovação da literatura oferecida às crianças de seu país.

— Eu vi nascer nos anos 80 a Associação de Livros Infantis que lançou entre nós, trazidas por Silvia Castrillón, obras maravilhosas de autores brasileiros. Não sei como seria meu trabalho sem Lygia Bojunga — confessa.

Com IDH próximo do Brasil — apesar de ter metade de seus 44 milhões de habitantes abaixo da linha da pobreza —, a Colômbia ostenta hoje índices de leitura superiores ao nosso e taxas de analfabetismo inferiores. Além da BibloRed, há outras redes públicas, como a capitaneada pela histórica biblioteca Luis Ángel Arango, que alcançam várias cidades. Nos últimos anos, das 360 escolas municipais da capital, 120 ganharam novas salas de leitura ou tiveram seus espaços reformados. “Vamos querer tudo igualzinho”, era o que repetiam as professoras brasileiras. A experiência do país vizinho já está inspirando a instalação de bibliotecas-parques no Brasil. No Rio de Janeiro, são três projetos: a de Manguinhos, em funcionamento, a da Rocinha e a do Morro do Alemão. Um bom começo para a gente não morrer tanto de inveja dos hermanos.

Fonte: O Globo

Entre árvores e livros

No Sítio Boa Liga, em Pedro do Rio, Monteiro Lobato, Cecília Meireles e Ruth Rocha são velhos conhecidos das crianças. Três vezes por semana, a garotada encontra esses e outros escritores, antes de ir para escola, e brinca com suas prosas, enquanto se diverte tomando banho no rio, pegando frutas do pé e encenando histórias.

A brincadeira com jeito de coisa séria faz parte do projetos “Paiol de histórias”, da Fundação Lygia Bojunga, que completa cinco anos em 2011. A instituição surgiu quando a escritora ganhou o prêmio sueco Astrid Lindgren Memorial Award, considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. A partir daí, Lygia decidiu dar o troco a tudo que o livro proporcionou.

A escritora Lygia Bojunga conhecia Pedro do Rio, e já tinha lá o Sítio da Boa Liga. Adaptou então um paiol e construiu aqui e ali alguns espaços, tudo bem simples, para trazer as crianças da região. A ideia era nutrir uma relação mais próxima entre os pequenos e os livros, estimulando a leitura.

— Era importante para mim casar tudo com a natureza, por isso o sítio. Eles fazem caminhadas, tem a praça da poesia e a praça da música. Quase todas as atividades buscam casar literatura e natureza — conta a autora.

Para coordenar o projeto, Lygia chamou a professora Francisca Valle, que pesquisava literatura infanto-juvenil. É ela que orienta as escolhas literárias de cada criança. Se uma mais novinha insiste em uma obra mais densa, como a de Clarice Lispector para jovens, a professora sugere outra mais adequada. Francisca também já conhece os gostos de cada um. Cecília Meireles, por exemplo, foi tema de um trabalho durante o ano passado e fez sucesso com as meninas. A própria Lygia Bojunga, que escreveu o clássico “A bolsa amarela”, é uma das preferidas. Mas Francisca admite que esse gosto pela leitura nem sempre pega fácil.

— As crianças que participam do projeto são de áreas muito humildes. Muitas vezes, nem os pais nem parentes e nem vizinhos têm o hábito da leitura. É algo fora da realidade deles. Então vemos que, no começo, eles estão lendo, chegam a uma palavra mais complexa e desistem. Não tem a compreensão completa, daí a importância de estarmos mediando a leitura nesse projeto.

Fonte: O Globo