sexta-feira, 11 de março de 2011

A cura pela leitura

Literatura: Um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia, a biblioterapia vem ganhando adeptos no Brasil.

“La Lecture”, de Picasso: “Sabemos que o poder da boa literatura é profundo e transformador, mas não nos advogamos como médicos. Somos doutores de livros!”, ressalta a britânica Ella Berthoud

Mariane Morisawa, para o Valor, de São Paulo
Matéria publicada em 25/02/2011

Um relacionamento que termina é sempre um motivo de tristeza ou de pausa para repensar a vida. Para superar a fase difícil, que tal um bom livro? “Flashman”, de George MacDonald Fraser, sobre um soldado britânico pouco recomendável, condecorado por heroísmo, pode distraí-lo de sua autopiedade. “Do Amor”, de Stendhal, pode auxiliá-lo a lidar com a melancolia, e “As Consolações da Filosofia”, de Alain de Botton, pode servir mesmo de consolo. Acabou de perder o emprego? Dureza, mas não se desespere! Uma boa pedida é rir com o conto “Bartleby”, de Herman Melville, sobre um empregado que recebe a solicitação para fazer uma coisa e diz preferir não fazer, mas estranhamente continua dia e noite no escritório. Já quem sofre pelo luto pode encontrar suporte em “Uma Comovente Obra de Espantoso Talento”, de Dave Eggers, baseado na história do próprio autor, que perdeu os pais jovem e precisou cuidar do irmão, ou “Metamorfoses”, de Ovídio, que descreve as transformações de todas as coisas, da vida à morte.

Essas são indicações genéricas de Ella Berthoud, da School of Life de Londres, fundada em 2008. Na prática, as “receitas” são individualizadas. O interessado pode marcar uma consulta pessoalmente, por telefone ou Skype. Depois de responder a um questionário sobre suas preferências literárias e conversar com a especialista, recebe uma lista de livros mais adequados às suas aflições. Usar literatura para ajudar a superar alguma dificuldade ou dor tem nome: biblioterapia. Desde a Antiguidade há relatos de prescrição de livros para enfrentar problemas cotidianos, mas só no século passado a prática ganhou esse nome e os primeiros estudos sobre seus benefícios, principalmente para doentes e presidiários. No Brasil, ela começa a ser difundida, com trabalhos principalmente em hospitais, ainda que não haja grupos fixos até o momento.

A biblioterapia pode ser um ramo tanto da biblioteconomia quanto da psicologia. A bibliotecária Clarice Fortkamp Caldin, autora de “Biblioterapia: um Cuidado com o Ser”, prefere fazer a distinção. “Biblioterapeuta é o psicanalista que se vale da leitura como uma das terapias, pois desenvolve a biblioterapia clínica com o intuito de cuidar das patologias psíquicas”, diz. “O bibliotecário, a seu turno, desenvolve a biblioterapia de desenvolvimento, quer dizer, cuida do ser na sua totalidade, sem fazer julgamento do que é ou não normal. Costumo chamá-lo de ‘aplicador da biblioterapia’. Não é um título tão charmoso quanto o primeiro, mas me parece mais justo.”

Clarice começou a se interessar pelo assunto quando percebeu que o bibliotecário estava muito preso às funções técnicas, esquecendo-se do lado humanista da profissão. Em 2001, defendeu dissertação sobre a leitura como função pedagógica, social e terapêutica. Depois, elaborou um curso de 80 horas na Universidade Federal de Santa Catarina. Na sua opinião, a eficácia vem da falta de cobranças. “O aplicador de biblioterapia não prescreve uma norma de conduta nem um remédio a ser tomado em horários determinados. Dela participa quem quiser, quem tiver vontade de escutar uma história”, afirma. “Essa história agirá no ouvinte do jeito que ele achar melhor ou mais conveniente naquele instante de sua vida. Será digerida lentamente, ficará na sua mente ou no seu subconsciente por tempo indeterminado e poderá ser retomada a qualquer momento.” E, como é grátis, não precisa ser interrompida se o dinheiro estiver curto.

Em sua experiência de quatro meses na ala pediátrica de um hospital em Santa Catarina, na qual se executou a biblioterapia por meio de leitura, contação, dramatização de histórias e brincadeiras, as crianças, segundo ela, esqueceram-se de que estavam em um hospital. Os familiares também se beneficiaram com o alívio do estresse. Num presídio feminino, as sessões de contos e poesias ajudaram as participantes a superar a sensação de impotência e a saudade dos maridos e filhos. Elas saíram do estado de prostração e chegaram até a escrever um jornalzinho interno.

Normalmente, a biblioterapia se dá em grupo. O aplicador seleciona o texto, faz a leitura, narração ou dramatização de uma história e aposta no envolvimento do público. Cuida, ainda, de permitir a liberdade de interpretação, propiciar o diálogo, a catarse, a identificação, a introspecção. “É bom frisar que para esse mister se presta a literatura, quer dizer, a ficção. Textos informativos ou didáticos não são considerados biblioterapêuticos, porque não produzem a explosão e apaziguamento das emoções [catarse], não permitem a identificação com as personagens [experiência vicária], nem induzem à introspecção [reflexão sobre como nosso comportamento afeta o outro].”

Os livros infantis são os geralmente utilizados por Lucélia Paiva, doutora em psicologia escolar e do desenvolvimento pela Universidade de São Paulo e autora da tese “A Arte de Falar da Morte: a Literatura Infantil como Recurso para Abordar a Morte com Crianças e Educadores”. Ela conta que descobriu o valor da biblioterapia intuitivamente. “Sentia que era mais fácil falar sobre certos temas com metáforas, de forma mais suave”, diz ela, que desenvolve trabalho voltado para pessoas em situações de crise e emergência, perdas e luto.

Lucélia começou a usar livros infantis para tratar de assuntos como a morte com seus sobrinhos. Mais tarde, conheceu o termo biblioterapia. Hoje, utiliza o mesmo gênero para adultos e crianças, em sessões em grupo ou individuais. “A Menina e o Pássaro Encantado”, de Rubem Alves, sobre uma garota que aprisiona uma ave numa gaiola por amá-la muito, serve para tratar de relações familiares ou conjugais e de luto. Já “Dona Saudade”, de Claudia Pessoa, ajuda a lidar com o luto e a saudade. “A Aids e Alguns Fantasmas no Diário de Rodrigo”, de Jonas Ribeiro e André Neves, auxilia na superação do estigma da doença.

As histórias, segundo ela, sempre precisam ter começo, meio e fim. “Não precisa ser final feliz, desde que exista uma solução. É ela que minimiza o sofrimento.” É preciso buscar o envolvimento do ouvinte, seja pela identificação com personagem ou história. “Se fizer eco, se fizer sentido, ele vai começar a ter um envolvimento emocional. A partir dessa catarse, pode identificar-se. E o desfecho daquele conflito do livro pode trazer para ele a possibilidade de desfecho de seus conflitos.” Ela afirma ter tido certeza de que dava certo quando soube que uma mãe enlutada tinha lido “Dona Saudade”, presenteada por uma amiga em comum, e espalhado o livro pelas outras pessoas afetadas pela perda de seu filho. Em outro caso, conseguiu, em sessão de psicoterapia, acessar até um trauma maior, fazendo uma senhora falar sobre o abuso sexual sofrido na infância.

Já os especialistas no ramo da biblioteconomia, ou aplicadores de biblioterapia, como descreve Clarice Fortkamp Caldin, deixam claro que a biblioterapia não é científica e não exclui os cuidados médicos. “Como arte, ela é criativa. Assim, o sujeito dela se vale para mitigar pequenos problemas pessoais. Cada um do seu jeito, usando a imaginação e de acordo com suas emoções”, diz ela. Para pessoas com problemas psicológicos sérios, pode ser auxiliar, sem ter a capacidade de cura. Mas dá seus resultados para quem embarca na viagem.

“Sabemos que o poder da boa literatura é profundo e transformador. Temos um feedback positivo de nossos clientes, que frequentemente voltam para mais sessões. Mas nós não nos advogamos como médicos. Somos doutores de livros!”, ressalta Ella Berthoud, da School of Life, que faz apenas atendimento individual. Para ela, funciona porque “você entra na cabeça de outra pessoa e vive outra vida por meio dos personagens do romance”. Essa experiência permite que se entenda melhor seus dilemas, se o livro for bem escolhido. “Você vê um personagem cometendo um erro e pode evitar fazer o mesmo. Outras vezes você vê os personagens superando as dificuldades, e isso dá a você, leitor, a resolução de resolver enfrentar a própria situação.” Fortalecido pela boa literatura ou por uma contação de histórias eficiente, ele tem a chance de estar mais apto a superar as dificuldades e os momentos de desânimo e de tristeza. Como se diz por aí, ler realmente faz bem, para a mente e para a alma.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O nascimento das cidades-leitoras

Especialista em políticas públicas de promoção à leitura e implantação de bibliotecas reflete a respeito da experiência de Iepê

Por Edmir Perrotti*

Pequeno município do interior de São Paulo, Iepê vem há tempos trabalhando para se tornar uma Cidade-Leitora. Com isso, já está obtendo resultados que o destacam em avaliações estaduais e nacionais de Educação. Afinal, ter domínio do código escrito é, sabidamente, condição essencial e primeira de aprendizagem. Daí que apostar na leitura é tiro certo.

Todavia, cidades-leitoras não são obra do acaso, nem se constituem por magia, milagre ou decreto. Elas resultam de uma história, de visões e de opções políticas por educação de qualidade, por inclusão de todos nos circuitos do conhecimento e da cultura.

Não nascemos leitores. A formação de leitores é uma tarefa de vida toda. Ler não é um simples fato biológico. Apesar de envolver visão, neurônios e outros aspectos fisiológicos, é um ato eminentemente cultural, é produção de significados. Daí implicar, necessariamente, opções e ações políticas, mobilização pública, além de recursos que vão dos materiais aos saberes e competências diversas e especializadas. As cidades-leitoras somente podem ser formadas nesse movimento dinâmico e permanente envolvendo, além dos próprios leitores, autoridades, famílias, instituições culturais como bibliotecas, casas de cultura, escritores, livreiros, editores, educadores, agentes culturais e inúmeros outros mediadores.

Os sistemas educativos têm um papel central em tais processos. Assim, do ponto de vista das redes escolares, além da prioridade às aprendizagens necessárias à inclusão e apropriação da cultura da escrita, há que se orientar e preparar as equipes pedagógicas para atuarem nesse sentido. E, por equipes pedagógicas, entenda-se os quadros ligados direta e indiretamente à Educação, de autoridades postadas nas Secretarias de Educação aos professores. Pecam as iniciativas centradas exclusivamente nestes últimos. O ato educativo não é fenômeno isolado.

Insere-se numa trama constituída por diferentes agentes educativos com diferentes formações e funções.

O conhecimento não nos chega de pronto; é fruto de esforços e aproximações permanentes e indispensáveis. Daí demandar a adoção de políticas de formação continuada em leitura, tendo por alvo, como dissemos, os quadros profissionais que atuam na Educação. É preciso envolvê-los, torná-los leitores, antes de mais nada. Sem isto, não haverá solução.

Além disso, é preciso uma consciência clara de que não é possível formar leitores na atualidade sem considerar que a escrita vem ganhando contornos específicos de nossa época. Se continuamos a ler em livros, jornais, revistas, lemos também em outros e novos suportes que abrem possibilidades até então inexistentes para a escrita. Num mundo onde espocam mensagens de todo lado, é preciso aprender a ler os suportes tradicionais, como também, as telas dos computadores, o visor dos celulares, os outdoors nas ruas e muitos outros veículos contemporâneos que alteram a escrita e nossas relações com ela. Por outro lado, como no nosso tempo as mensagens escritas agregam outras linguagens, é preciso estabelecer conexões entre linguagem escrita e as linguagens orais, audiovisuais, gestuais, num processo dinâmico de mobilização e conexão multimidiática. Atentos à especificidade e às exigências de cada tipo de linguagem, é preciso colocá-las, todavia, em relação umas com as outras.

Neste século XXI precisamos colocar nossos estudantes em contato contínuo e vivo com as mais variadas fontes do conhecimento. Precisamos criar espaços múltiplos e dinâmicos de leitura e informação, na escola e fora da escola. Precisamos criar oportunidades diversificadas de aprendizagem, possibilitar experiências culturais alargadas aos estudantes nas chamadas “sociedades do conhecimento”.

Nesse sentido, as crianças e os jovens de Iepê não aprendem apenas a reconhecer os signos e utilizá-los para realizar seus deveres escolares; eles os utilizam nas mais diferentes situações cotidianas, em interações que se espalham da escola para a vida e desta para a escola, num movimento permanente de conhecimento e de reconhecimento do outro. A palavra e o mundo, como queria Freire, se conjugam. Vive-se e respira-se, no dia-adia de Iepê, a experiência da escrita em suas variadas manifestações.

Iepê permite vôos e sonhos altos a seus habitantes e a nós todos. Mais que um exemplo, um desafio é lançado! Que tal, caro leitor, sua cidade tornar-se, ela também, leitora?

* Edmir Perroti, professor aposentado da Universidade de São Paulo com mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação, assessorou projetos de promoção à leitura em diversas prefeituras, como as de Jaguariúna (SP) e São Bernardo do Campo (SP).

Fonte: Revista LeituraS nº 1

Iepê, cidade que lê

No município paulista de sete mil habitantes, livros não ficam em caixas nem param nas prateleiras

Reportagem de Maria Lígia Pagenotto
Fotografias de Luiz Dantas

Quando assumiu, há um ano e meio, a direção pedagógica da Escola Municipal de Educação Fundamental João Antônio Rodrigues, em Iepê, a 540 quilômetros da capital paulista, Ieda Maria Monteiro logo tratou de promover mudanças na biblioteca. Livros dispostos ao acaso em prateleiras escuras, paredes vazias e cores apagadas não combinavam com ela – um lugar assim, na opinião da pedagoga, jamais chamaria a atenção da criançada. “Biblioteca tem de ter vida”, prega.

A mudança começou pelas cores. Móveis escuros foram repintados em tons vivos. A mesa e as cadeiras para leitura foram trocadas de lugar na sala, de modo que o espaço fosse melhor aproveitado. Sofá macio, cortinas para diminuir a luminosidade e um tapete aconchegante terminaram por compor o novo ambiente. As paredes, porém, ainda pediam algo. “Foi então que recebemos uma coleção de arte, e tivemos a idéia de enquadrar os pôsteres”, lembra Ieda. Conta a pedagoga, ela mesma ex-aluna da escola e leitora voraz desde seus tempos de garota, que a Biblioteca Olavo Bilac existe há cerca de 30 anos e foi ela, junto com outros colegas, quem ajudou a criar o espaço.

Em cada classe, do 1º ao 5º ano, há um lugar batizado de “Cantinho da Leitura”, com estantes cheias de livros provenientes do acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE). “Quando chegam as obras, separamos o que pode interessar a cada ano. Uma parte fica na biblioteca enquanto outros livros são espalhados pelos cantinhos das salas de aula, para os alunos manusearem diretamente”, diz Ieda. A professora Marta Atencia, do 2º ano, explica que o sentido do “cantinho” é facilitar ao máximo o acesso da criança ao livro. “É para estimular, mesmo, a curiosidade deles. Deixo-os manusearem à vontade, disputarem o livro”, revela. Quem quiser, leva um para casa, que deve ser devolvido na emana seguinte.

Expressando o que sente

É nesta faixa etária, na qual a criança começa a se alfabetizar, que a professora explora ao máximo o recurso de contar histórias para os pequenos. Ela monta com os alunos fichas das palavras ouvidas durante a narrativa e, depois, pede para eles escreverem essas palavras. “É muito fácil ver os progressos na criança que tem mais estímulo para a leitura e sabe aproveitar isso – ela se diferencia das demais em todas as matérias”, acredita Marta, professora há 17 anos.

A mesma opinião tem Márcia Regina Costa Cardoso, professora do 5º ano. Ela chama atenção para os avanços conquistados nas aulas de Matemática, especialmente. “Os alunos não liam os problemas com atenção ou, se liam, não compreendiam – já queriam logo saber se era conta de ‘mais’ ou de ‘menos’ –, tinham preguiça de tentar entender”, recorda-se. Segundo ela, o quadro começou a mudar quando foi introduzida a pedagogia de projetos na escola. Com ela, a leitura, aos poucos, ganhou mais importância na escola. “No meu cantinho da leitura tem de tudo, estou sempre falando para eles levarem livros para casa, mostrarem para os pais, os amigos”, afirma Márcia. “Acho que com isso eles passaram a ler melhor nas entrelinhas. A Matemática ficou mais clara, o problema ficou mais fácil de ser solucionado”, diz.


A cada semana, a Escola João Antônio Rodrigues promove o projeto Sala de Leitura. Os alunos das diferentes séries escolares se revezam, então, para ouvir histórias contadas pela monitora Débora Adna Palma Rocha, de 20 anos, estudante de letras e ex-aluna da escola.

Ao final da leitura, realizada na biblioteca, eles são estimulados a produzir algum trabalho sobre o que foi lido. “Pode ser um texto, uma dramatização, um desenho, o que quiserem”, explica a jovem. Depois fazemos uma exposição num painel pregado na parede da biblioteca, e renovado semanalmente. “Nossa proposta, com isso, é fazer o aluno perder o medo de expressar o que sentiu com aquela leitura”, explica a pedagoga Ieda Monteiro.

Neste dia também cada aluno escolhe um livro da biblioteca para levar para casa. Depois, na sala de aula, quem quiser comenta sobre o que leu. “Não é uma tarefa obrigatória, mas sim uma forma de estimular o contato com o livro. Penso que se a criança não leu naquela semana, alguém da casa pode ter lido, ao menos folheado o livro”, argumenta Ieda.

Filhos e pais que lêem

 A professora da turma do 3º ano da João Antônio Rodrigues, Elcimara Gomes da Mota, acha que o livro, para os alunos de Iepê, desperta especial interesse porque se destaca na realidade doméstica das crianças. “O município é pequeno, poucos alunos têm computador em casa, o livro chama atenção”, argumenta. Para ela, um diferencial importante da escola está em envolver os pais nas atividades de leitura dos alunos. “Isso é feito nos finais de semana, quando acontecem oficinas de leitura. Os pais são incentivados a pegar livros na biblioteca e a escrever”, explica.

A responsável pela cozinha da João Antônio Rodrigues, Cássia Regina Pelim Damásio, é uma das mãesleitoras de Iepê, além de funcionária da escola. Suas três filhas herdaram o gosto pelos livros. “Adoro revistas e livros. O estilo varia – pode ser Érico Veríssimo, Machado de Assis ou Sidney Sheldon”, diz Cássia.

Sua filha mais velha, Carolina, de 22 anos, estudante de Direito, é responsável pela brinquedoteca de Iepê, que funciona junto à Biblioteca Municipal, na praça mais movimentada da cidade. Quem cuida deste espaço é uma organização não-governamental, a Amigos da Cultura, formada em sua maioria por jovens que curtem saraus literários e musicais – uma irmã de Carolina, Juliana, de 19 anos, também faz parte do projeto. Na brinquedoteca, Carolina promove oficinas de leituras com crianças, entre outras atividades. Ela gosta tanto das letras que, junto com o amigo Anderson Douglas da Silva, estudante de Pedagogia, animou-se a escrever e produzir um livro de poesias e reflexões, publicado com recursos próprios.

Primeiras leituras

Na Escola Municipal de Educação Infantil Dona Juventina Zago de Oliveira, para crianças de zero a seis anos, os alunos fazem poesias e participam de saraus, da mesma forma que os maiores. “Temos leitura todo dia e um cantinho para livros nas classes”, diz a diretora Vera Lúcia Braga Dias. “Eles estão começando a conhecer as letras. Eu leio e eles recontam a história a seu modo, atividade que adoram”, afirma a professora do Pré Eliene Nunes.

Rosicléia Barreto, mãe de dois alunos da escola, está feliz com o método utilizado e acha que se a criança não pega no livro desde pequena não aprende nunca a usá-lo. “Não tenho muito tempo para ler para minhas crianças, meu marido é quem lê. As crianças cobram da gente, trazem sempre livros para casa.”

No município só não tem contato com livros quem não quer mesmo. No Espaço Amigo Casa da Criança, mantido pela prefeitura, destinado a ocupar os pequenos com atividades fora do horário escolar, há uma sala especialmente dedicada aos livros infantis. Lá as crianças se sentam em roda e ouvem histórias, desenham sobre o que ouviram e produzem todo tipo de textos.


Município bem avaliado

Em Iepê parece haver um apreço especial pelas atividades literárias. “A leitura sempre foi bem trabalhada nas escolas aqui”, conta Maria Alves da Silva Ruela, assessora técnica da atual Secretária Municipal de Educação, Aliete Aparecida Bispo da Silva. No dia 24 de junho, data de fundação de Iepê, o município se mobiliza em torno de uma grande festa e os alunos das três escolas – duas municipais e uma estadual – apresentam seus trabalhos. Este ano muitos iriam recitar poemas produzidos ao longo do primeiro semestre nas salas de aula.

O incentivo à leitura já rendeu à cidade resultados quantificáveis, tanto no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), realizado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, quanto no Prova Brasil, avaliação que veio complementar o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica e foi realizada, pela primeira vez, em 2005. Segundo dados da última avaliação, na qual, pela primeira vez, foi divulgado o desempenho de cada escola, a média da Escola Municipal João Antônio Rodrigues, a única administrada pela prefeitura, foi de 183,16 pontos em Língua Portuguesa e 187,33 em Matemática, no nível de ensino equivalente à 4ª série (o total possível era de 350 pontos). Para se ter uma idéia, esta colocação deixaria Iepê em quarto lugar em um ranking com todas as capitais de estado – só perdendo para Campo Grande (MS), Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG). A capital paulista teve médias bem abaixo disso: 160,42 em Língua Portuguesa e 166,86 em Matemática.

As escolas municipais não são obrigadas a participar da avaliação, mas a Escola Municipal de Ensino Fundamental João Antônio Rodrigues, segundo Ieda Monteiro, optou por ser testada já há três anos, com o Saresp. “É importante para nós, porque montamos nossos projetos didáticos baseados nos resultados das avaliações”, argumenta. A diretora da escola, Márcia Regina Maciel, assegura que o bom desempenho no Saresp e no Prova Brasil apenas corroboram os avanços que ela sente no dia-a-dia com as crianças. “Percebo que estão menos tímidos, conversam mais, interrogam. Acho que se realizam diante dos livros e os pais também notam as mudanças, tanto que comentam e procuram ler mais também”.

A mesma satisfação em ver os progressos dos alunos pode ser sentida na Escola Estadual Antônio de Almeida Prado. Em 2005, dois alunos – do 6º e do 7º ano – obtiveram 100% de acertos em Português na avaliação feita pelo governo estadual. “Sabemos que compreendendo o que lê, o aluno se sai melhor em todas as disciplinas”, afirma o diretor da única escola de ensino médio do município, Francisco Régis Zago. Como exemplo, ele cita o desempenho dos alunos na Olimpíada de Química do Estado. A escola foi uma das 100 selecionadas, entre cinco mil, para participar de um evento na capital paulista.

Parte do progresso obtido diante das palavras é creditado na escola ao professor de Português, Sílvio de Lima Rocha. Ele é responsável pelas aulas de leitura e assume que seu entusiasmo pelos livros tem contagiado os alunos. “Ensino a eles que quanto mais concentrados num texto, mais eles viajam, se tornam criativos. Na classe, mantenho uma estante de livros e digo que para aprender é preciso mergulhar no texto.”

Todas as salas de aula da Escola Estadual Antonio de Almeida Prado contam também com uma biblioteca de classe, montada com livros doados pelo MEC. Maria Damásio, responsável pela biblioteca da escola afirma que, embora o local seja muito procurado pelos alunos para pesquisas, sente falta de que os mais jovens retirem mais livros para deleite próprio, com o único objetivo de usufruirem o prazer de uma boa leitura. “Se eles soubessem o que perdem quando não lêem, não é?” Mas, para satisfação de Maria Damásio e outros adultos, os estudantes desta pequena cidade-leitora talvez estejam, aos poucos, descobrindo o que têm a ganhar mergulhando em páginas e mais páginas de boas histórias. É assim que a pequena Iepê já está fazendo a sua própria história.

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Portas e livros abertos à comunidade
Iepê tem uma biblioteca municipal com cerca de nove mil livros catalogados. Mas o trabalho ainda não foi concluído, segundo a responsável pelo lugar, Dorothea Zaganini. Há 10 anos no posto, ela conta que tem conseguido fazer da biblioteca um ponto de encontro importante dos jovens da cidade, seu sonho desde que assumiu.


“Estamos localizados na praça onde eles se reúnem, ao lado da lanchonete principal. Quero que eles gostem cada vez mais daqui”, diz. À frente do trabalho de catalogação está Angelita Maria de Souza, estudante de Letras, também integrante da ONG Amigos da Cultura. “Já fizemos muito sarau de poesias aqui. Sempre temos alguma programação”, explica.


Já a Biblioteca Olavo Bilac, da Escola João Antônio Rodrigues, tem um acervo de cerca de 4 mil obras. A estudante de Letras Débora Rocha, ao lado da pedagoga Ieda Monteiro, é quem ajuda a cuidar do espaço. “Temos um caderno de controle, para marcar que livro saiu, qual o autor, o gênero da obra, quando saiu e para quem foi. Cada pessoa pode ficar uma semana com o livro, mas esse prazo é renovável”, diz Ieda. Ela argumenta que não cobra multa por atraso porque não quer que ninguém tenha medo de pegar livro. “Isso pode assustar as pessoas”.


A biblioteca escolar é aberta a toda comunidade – qualquer pessoa da cidade tem acesso aos livros, revistas e também vídeos e DVDs.

Fonte: Revista LeituraS

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Professora pode tornar-se leitora com formação e prazer

Adriana Maricato | Brasília/DF

É difícil para uma professora que não lê estimular a leitura dos alunos. Se a criança vem de uma família que não lê e encontra na escola uma professora na mesma situação, a professora não saberá como despertar e cultivar a leitura. O ambiente de Educação Infantil promotor da leitura precisa contar com professoras leitoras.

Para Magda Soares, da UFMG, um programa de formação de leitores deve se preocupar também com o desenvolvimento do professor como leitor, “porque se a pessoa não tem prazer no convívio com o material escrito, é muito difícil passar isso para as crianças”. Por isso, Rosana Becker, professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), defende que é preciso trabalhar na formação continuada dessa professora, que precisa se tornar leitora.

Rosana Becker coordena no Paraná o desenvolvimento de cursos e produtos didáticos para a área de Linguagem e Alfabetização. Esse trabalho é feito a partir da Universidade Estadual de Ponta Grossa, que faz parte da Rede Nacional de Formação Continuada de Pro fessores do MEC (Rede).

Com sua experiência na for mação de professores, Rosana acredita que não basta disponibilizar acervos de livros e espaços de leitura como bibliotecas. “A professora deve ser envolvida em práticas de leitura, entrando em contato com outros professores leitores, participando de grupos de es tudo, freqüentando cursos, fazendo trabalhos, encontrando espaços de leitura nas salas de aula e nas escolas”. Segundo ela, a partir dessas vivências, os professores podem perceber a importância da leitura nas suas próprias vidas, avaliar se são leitores ou não, e construirem -se como leitores, buscando formas de romperem com suas histórias de não-leitura.

Para formar alunos leitores, o professor necessita de uma concepção clara de leitura, como as crianças aprendem a ler e saber como constituir o acervo para trabalhar com elas. “Não pode subestimar a capacidade das crianças de receberem o texto. Enquanto elas folheiam, também constroem conhecimento e práticas”, esclarece Rosana Becker. Isso signifi ca ter atividades permanentes de leitura em sala de aula. Lendo para as crianças, o professor simultaneamente constitui-se como leitor. A escrita torna-se uma descoberta coletiva na sala de aula: “não é porque a criança não teve acesso que não pode aprender a gostar desses materiais de leitura”, acrescenta a professora do Paraná.

Os programas de formação de leitores devem levar em conta que a leitura do professor não é a mesma das crianças. De acordo com Rosana, “é preciso conhecer o perfil do professor, saber o que ele lê de fato e estas informações podem ser conseguidas na Associação de Leitura do Brasil”. Os acervos para os professores devem ser diversificados, com leitura informativa - jornais, revistas, periódicos, textos científicos sobre educação e também literatura. “O professor precisa conhecer o universo simbólico da Literatura Brasileira e Universal”, diz ela.

Mas Rosana Becker adverte que a professora não pode estar sozinha neste trabalho de leitura. Ela precisa do apoio da direção. A diretora deve garantir um espaço de leitura dentro da creche ou escola e garantir livros de literatura infantil adequados às turmas de Educação Infantil, deixando o material disponível para ser pego, folheado, trocado, acompanhado, cuidado. "Não é para o livro ficar apenas como enfeite bonito na estante da escola, a criança tem que pegá-lo".

Secretarias estaduais e municipais de educação e instituições de ensino superior podem procurar os centros da Rede/MEC na área de Alfabetização e Linguagem para criar programas de formação de professores leitores. Isto trará ganhos para os profissionais e para as crianças. E muito prazer também. Fazem parte da Rede Nacional de Formação Continuada: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mais informações no telefone (0 xx 61 2104-8672) e no site http://www.mec.gov.br/.
 
 
Fonte: Revista Criança nº 41

Amigo

Texto: Regina Célia Melo
Ilustração: Rachel Dumont*

Numa poltrona macia,
No colo da avó,
Na cama aconchegante,
Debaixo da amiga árvore...
É avião que me leva ao
Japão, Quixadá ou Bagdá!
Se a tristeza vem,
Traz asas ligeiras, verdes de esperanças...
Se a euforia é crescente,
Tece na medida a melancolia boa pra pensar.
Se o sono não vem,
Se o medo quer brincar,
Inventa sonhos azuis
Pra eu acordar
Manhãs de sol e emoções...
Se eu quero entender, desvendar o porquê, pra quê,
Como, onde, cadê?
É você a chave que abre
As gavetas, janelas e portas!
É você: Livro Amigo!

*Regina Célia Melo e Rachel Dumont são professoras do Jardim de Infância da 114 Sul, em Brasília. O material faz parte do Projeto “Livrinho na mão”.