quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Campanha "George, o curioso"

A Biblioteca do Congresso Americano em parceria com o Ad Council, Universal Partnerships & Licensing and Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company para desenvolver campanhas de interesse público que caracterizem os personagens da série "George, o Curioso" para incentivar os pais a lerem com os filhos. Na imprensa, televisão e outdoors com os recursos de George e seu melhor amigo e mentor, "O Homem do Chapéu Amarelo", ler os livros juntos e pedindo aos pais para "Ler para seu filho hoje e inspirar o amor pela leitura."


Animação na leitura:

Dê ao seu filho a opção de ler o que eles querem. Isso ajuda-os a criar sua própria identidade e o interesse na leitura.

  • Encontrar os autores que o seu filho goste, e construa as conexões e emoção sobre a leitura;
  • Escolha todos os tipos de livros, tais como não-ficção, ficção e determinados temas. Exponha a vários tipos de literatura e também ajude a determinar a sua preferência pessoal;
  • Sugerir livros que se baseiam em experiências pessoais, como amizade, família, viagens, animais de estimação ou esportes;
  • Pense nos três I's: Interesse, Integração e Invenção
  • Descubra a lista dos livros mais procurados de sua biblioteca.
Faça a leitura juntos:
  • Leia em voz alta para seu filho e com seu filho. Revezem lendo os livros com eles - que promovam a confiança e o relacionamento com a literatura;
  • As crianças mais velhas se beneficiam com a leitura em voz alta - ouvir um adulto ler com fluência e discutir um livro traz grandes benefícios;
  • A pesquisa mostra que a leitura em voz alta para seu filho:
    - Aumenta o seu vocabulário,
    - Melhora a sua capacidade de atenção,
    - Melhora o desenvolvimento emocional,
    - Estimula a imaginação,
    - Cria a compreensão de outras culturas e estilos de vida,
    - Melhora a habilidade de resolução de problemas e críticas.
 Sugestões para leitura em voz alta:
  • Escolha um livro que sirva para a leitura em voz alta - contos, livros engraçados ou assustadores são sempre divertidas;
  • Fazer da leitura uma hora especial. Encontre um lugar aconchegante e confortável para ler;
  • Ser versátil. Você lê pra eles, ou eles leiam para você. Revezem;
  • Apresente o autor e ilustrador. Discutir o que fazer com seu filho. Dizer o nome do autor e ilustrador, mostrando que os livros são criados por pessoas reais;
  • Fale sobre o livro - faça perguntas sobre o que gostou e não gostou, o que achou interessante, etc.;
  • Mostrar as fotos, enquanto você lê.
  • Leia com expressão.
  • Leia juntos todos os dias!
O que se pode esperar de uma criança a ler um livro?

Os 3 I's:

  • Interesse: Quando uma criança quer um livro de informação e / ou diversão.
    - Construa os seus interesses, hobbies, atividades favoritas ou uma viagem que você fez, pedindo-lhes se eles gostariam de um livro sobre um desses temas. 
  • Integração: usar a leitura como uma conexão com outras disciplinas - matemática, ciências, artes, esportes, música e muito mais.
    - Descubra o que seu filho está interessado e sugerir livros desse assunto disponíveis na biblioteca ou livraria. Conecte a leitura com as experiências de sua casa. Por exemplo, encontrar um livro sobre as máquinas que ajudam a explicar porque um brinquedo ou um relógio não está funcionando.
  • Invenção: criação de algo que se relaciona a um livro.
    - A leitura que estimulam as criações ou invenções das crianças. Por exemplo, uma criança que tenha lido o livro, "Cachinhos Dourados e os Três Ursos" pode querer criar mingau que Papai Uso iria comer. A criatividade motivam as crianças ainda mais os seus interesses pela leitura.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Poema "Aula de leitura"

Ricardo Azevedo
Escritor e ilustrador paulista nascido em 1949, é autor de mais cem livros para crianças e jovens

A leitura é muito mais
do que decifrar palavras.
Quem quiser parar pra ver
pode até se surpreender:
vai ler nas folhas do chão,
se é outono ou se é verão;
nas ondas soltas do mar,
se é hora de navegar;
e no jeito da pessoa,
se trabalha ou se é à-toa;
na cara do lutador,
quando está sentindo dor;
vai ler na casa de alguém
o gosto que o dono tem;
e no pêlo do cachorro,
se é melhor gritar socorro;
e na cinza da fumaça,
o tamanho da desgraça;
e no tom que sopra o vento,
se corre o barco ou vai lento;
também na cor da fruta,
e no cheiro da comida,
e no ronco do motor,
e nos dentes do cavalo,
e na pele da pessoa,
e no brilho do sorriso,
vai ler nas nuvens do céu,
vai ler na palma da mão,
vai ler até nas estrelas
e no som do coração.
Uma arte que dá medo
é a de ler um olhar,
pois os olhos têm segredos
difíceis de decifrar.

Poema extraído do livro: AZEVEDO, Ricardo
.
Dezenove poemas desengonçados. São Paulo: Ática,1999.

Assista a declamação do poema "Aula de leitura" pelo próprio autor.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ler para o bebê aumenta vínculo entre mãe e filho

Estudo realizado com recém-nascidos internados em UTIs mostra que as crianças podem ser beneficiadas pelo hábito da leitura desde os primeiros dias de vida

Fernanda Tambelini


Se você não vê a hora de o seu bebê crescer para ler todos aqueles lindos livros infantis com ele, saiba que não precisa esperar. Um estudo feito com 116 famílias no Montreal Children's Hospital, no Canadá, e publicado no Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics mostra os benefícios da leitura para as crianças já nos primeiros dias de vida: aumenta o vínculo com os pais, tem efeito tranquilizador e ajuda no desenvolvimento cerebral.

Conduzida com pais de bebês internados na unidade de tratamento intensivo, a pesquisa apontou que a situação estressante de ir para casa sem o recém-nascido pode dificultar a ligação entre os pais e a criança. Mas o simples ato de ler um livro em voz alta para o bebê facilita essa aproximação.

De acordo com o relatório, a leitura traz benefícios para toda a família: 69% dos pais sentiram-se mais próximos dos filhos, além de ter a sensação de controle, intimidade e normalidade – mesmo no ambiente hospitalar. Para os bebês, a voz dos pais tem efeito tranqüilizante. “É como se fosse um acalanto. Você está embalando seu filho com palavras”, diz Ilan Brenman, escritor e doutor em educação, que coordenou o projeto Biblioteca viva em hospitais, da Fundação Abrinq, em hospitais de todo o Brasil no início dos anos 2000.

O contato cedo com os livros também ajuda no desenvolvimento da linguagem e facilita, no futuro, a criança aprender a ler. Além disso, a qualidade dos sons que o bebê ouve afeta o funcionamento da audição e a linguagem usada nos livros geralmente é mais rica do que a linguagem do dia a dia. “Ao ler, usamos voz, ritmo e tom diferentes da conversa diária. Isso prende a atenção da criança e, mais para frente, chega na formação do leitor”, completa Brenman.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Como nosso cérebro lê?

Descubra como vemos as formas, percebemos os movimentos e distinguimos as cores neste artigo da neurocientista Simone Bittencourt

Por Simone Bittencourt*

Matéria publicada em 15/09/2010

O cérebro “vê” formas, movimentos, profundidade e cores usando estratégias de modo que nenhum computador atual é capaz de processar. Pesquisas em humanos e animais demonstram que cada área do córtex cerebral visual é responsável por determinada função. Assim, enquanto uma área “vê” distância e profundidade, outras áreas “veem” posição, movimento, tamanho, cor ou formato do objeto. Uma hipótese sobre o processo eletrofisiológico e bioquímico que envolve a nossa capacidade de enxergar e identificar letras e objetos é: os disparos elétricos dos neurônios, na área responsável por identificar objetos, são específicos para cada imagem. Ou seja, os neurônios têm a capacidade de disparos elétricos que oscilam entre 30 e 70 vezes por segundo - um disparo específico é responsável por identificar um objeto particular, quando há disparos na área de identificação de objeto. Dessa forma, enxergamos a letra “A” porque ondas elétricas que identificam a letra “A” na nossa mente são disparadas na área de identificação de objetos. Cada objeto possui a sua ativação elétrica, e, assim, nossa mente “lê” cada letra durante uma leitura. Nesse sentido, podemos dizer que conseguimos ler por meio de impulsos elétricos disparando em certo compasso de tempo e ritmo.

Durante o processo da visão, outras áreas do cérebro também são ativadas; quando enxergamos um objeto, automaticamente lembramos fatos, histórias, paladar, tato etc. Essa complexidade do sistema é o que o torna ainda pouco entendido.

Como enxergamos?

Enxergamos porque existe luz. A luz penetra no cristalino do olho e é projetada para a retina, que é composta por um conjunto de células fotoelétricas que transformam a luz em sinais elétricos. Por meio de nervos ópticos, esses sinais elétricos são transportados até o córtex visual, região responsável pela tradução dos estímulos elétricos em imagens dentro de nossas mentes. Nos deficientes visuais totais, os sinais elétricos não chegam até o córtex visual pelo estímulo luminoso. No deficiente visual que utiliza o sistema de leitura por meio de Braille, durante o processo de aprendizado da identificação dos sinais pelas pontas dos dedos, os neurônios localizados apenas na área do tato começam a fazer novas conexões para áreas da visão - o deficiente adquire uma “visão tátil”. Assim, durante a leitura por Braille, áreas visuais, táteis e da linguagem são ativadas simultaneamente, podendo transmitir palavras, pensamentos, ideias e emoções para a mente do deficiente visual da pessoa.

Quanto mais jovem o indivíduo, mais fácil treinar o cérebro, mais fácil formar novas conexões. O cérebro é dinâmico e ativo, adapta-se incessantemente às necessidades do organismo, se treinado para isso.

Qual o mecanismo de interpretação utilizado por nossa mente para conseguir ler e compreender um texto?

“De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em
qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a
piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol
bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo”

Essa é a versão em português da frase contida numa tese de doutorado defendida na Universidade de Nottinghan na Inglaterra, na qual o pesquisador sugere que o cérebro é flexível no processamento da leitura e, assim, não precisa da ordem das letras nas palavras para que haja compreensão do texto, só importando a ordem da primeira e última letra de cada palavra. Todavia, não parece ser totalmente verdade se o contexto não for familiar ou a maioria das palavras tiver 8 letras ou mais.

Abaixo está um texto que construí com base na mesma técnica de letras aleatórias dispostas no meio das palavras:

Snietlao que a ntsialarepuocdide é um fônnmeeo itaesstnerne e iuensátoivnqel, cumonteme euddsato no detmnarteapo de nsoglooifirieua, odne iamcsestntnenee pssuqoaiems fmoôneens ismpncieovírenes, mas de eraándxtrioiro iamctpo madniul.

A leitura não parece ser tão fácil agora. Isso porque as palavras são maiores, o que leva nosso cérebro a gastar um tempo maior tentando compreender qual a ordem correta das letras. Talvez uma razão pela qual não escrevemos tão rapidamente quanto podemos pensar seja porque nossa mente escolhe a gramática correta para a comunicação, a gramática aprendida. É importante uma ordem de letras para que nosso cérebro consiga ler de forma mais rápida. Mas ainda não temos respostas para várias questões sobre o processo de linguagem, devido a sua complexidade.

A propósito, a frase acima grafada de maneira correta seria:

Saliento que a neuroplasticidade é um fenômeno interessante e inquestionável, comumente estudado no departamento de neurofisiologia, onde incessantemente pesquisamos fenômenos incompreensíveis, mas de extraordinário impacto mundial.


* Simone Bittencourt é doutora em neurofisiologia e pesquisadora do departamento de fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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Referências Bibliográficas:

Burton H, Diamond JB, McDermott KB (2003) Dissociating cortical regions activated by semantic and phonological tasks: a FMRI study in blind and sighted people. J Neurophysiol 90:1965-1982.

Burton H, Snyder AZ, Conturo TE, Akbudak E, Ollinger JM, Raichle ME (2002) Adaptive changes in early and late blind: a fMRI study of Braille reading. J Neurophysiol 87:589-607.

Elbert T, Sterr A, Rockstroh B, Pantev C, Muller MM, Taub E (2002) Expansion of the tonotopic area in the auditory cortex of the blind. J Neurosci 22:9941-9944.

Gougoux F, Zatorre RJ, Lassonde M, Voss P, Lepore F (2005) A functional neuroimaging study of sound localization: visual cortex activity predicts performance in early-blind individuals. PLoS Biol 3:e27.

Kandel ER, Schwartz JH, Jessell TM (2000) Principles of Neural Sciences, Fourth Edition Edition: McGraw-Hill.

Lessard N, Pare M, Lepore F, Lassonde M (1998) Early-blind human subjects localize sound sources better than sighted subjects. Nature 395:278-280.

Merabet LB, Rizzo JF, Amedi A, Somers DC, Pascual-Leone A (2005) What blindness can tell us about seeing again: merging neuroplasticity and neuroprostheses. Nat Rev Neurosci 6:71-77.

Merabet LB, Hamilton R, Schlaug G, Swisher JD, Kiriakopoulos ET, Pitskel NB, Kauffman T, Pascual-Leone A (2008) Rapid and reversible recruitment of early visual cortex for touch. PLoS One 3:e3046.

Pascual-Leone A, Amedi A, Fregni F, Merabet LB (2005) The plastic human brain cortex. Annu Rev Neurosci 28:377-401.

Rawlinson GE (1976) The significance of letter position in word recognition. In: Psychology. Nottingham UK: University of Nottingham.

Sadato N, Pascual-Leone A, Grafman J, Ibanez V, Deiber MP, Dold G, Hallett M (1996) Activation of the primary visual cortex by Braille reading in blind subjects. Nature 380:526-528.

Theoret H, Merabet L, Pascual-Leone A (2004) Behavioral and neuroplastic changes in the blind: evidence for functionally relevant cross-modal interactions. J Physiol Paris 98:221-233.

Fonte: Univesp

A leitura como experiência humana

“Palavras existem em contextos; é nos contextos que elas fazem sentido, que apelam para a nossa imaginação, mobilizam nossas emoções, ensinam-nos coisas que não sabíamos”, diz o médico e escritor Moacyr Scliar

Por Moacyr Scliar*

Matéria publicada em 15/09/2010

Em 1959, o cientista e escritor britânico Charles Pierce Snow ministrou uma conferência na Universidade de Cambridge, Inglaterra, que levava o título de The Two Cultures - As Duas Culturas. A palestra teve enorme repercussão; acabou sendo publicada em livro que fez sucesso no mundo todo. É que, talvez sem o querer, Snow havia detectado um problema que é cada vez mais atual: o fosso existente entre as chamadas duas culturas da contemporaneidade. Diz Snow: “intelectuais e literatos de um lado, cientistas de outro: entre os dois lados um abismo de mútua incompreensão, às vezes até de hostilidade. Cada lado tem uma imagem distorcida do outro. Os não-cientistas tendem a pensar nos cientistas como seres arrogantes, otimistas ingênuos, ignorantes da condição humana. Os cientistas acham que escritores e intelectuais não têm qualquer visão do futuro, que não estão preocupados com seres humanos.” E exemplifica: “muitas vezes estive presente em eventos de pessoas consideradas cultas; com deleite, demonstravam seu assombro diante da ignorância de muitos cientistas. Provocado, uma ou duas vezes perguntei-lhes quantos deles conheciam a segunda lei da termodinâmica; obtive respostas negativas e hostis. No entanto, minha indagação equivalia, do ponto de vista científico, a perguntar: você já leu alguma obra de Shakespeare?” Ou, podemos acrescentar, uma obra de Machado de Assis, de Mário de Andrade, de Clarice Lispector? Não tenho tempo para isso, responderão muitos profissionais da área técnica-científica, uma desculpa frequentemente esfarrapada. Mas tal situação está, felizmente, mudando.

Tomem como exemplo a medicina. No início da modernidade, esta era uma profissão praticada por gente culta; os médicos não raro eram também filósofos. Mas isso resultava do fato de que, conhecendo muito pouco do organismo e de suas doenças, eram forçados a recorrer às especulações das mais variadas. Na medida em que foram surgindo dispositivos como o microscópio, o eletrocardiógrafo, o aparelho de Raios X, e na medida em que a indústria começou a produzir medicamentos capazes de curar doenças, a visão tecnológica e científica foi se afirmando. A medicina diagnosticava cada vez melhor, curava cada vez mais. Mas houve um preço a pagar. Muitos pacientes queixam-se de que a dimensão humana do atendimento, expressa nas longas conversas do passado, se reduziu; e também surgiram problemas no processo de comunicação entre médicos e pacientes. Em recente levantamento realizado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) em nosso país, verificou-se que, no norte do Brasil, 64% dos entrevistados têm dificuldades para entender a linguagem utilizada pelos profissionais da saúde. Por outro lado, os técnicos encontram problemas também na comunicação com o público em geral quando são solicitados, por exemplo, a escrever um texto ou a dar uma entrevista para a mídia em geral.

Como resolver essas questões? As universidades têm tomado algumas interessantes iniciativas. No caso da medicina, surgiu um conjunto de disciplinas conhecido como humanidades médicas, que abrangem História da Medicina, Antropologia Médica, Ética Médica, Comunicação em Saúde, Literatura e Medicina, já introduzidas em muitas universidades do país e do exterior. Mas, ainda que a pessoa não passe por um treinamento formal, há uma maneira de desenvolver o lado humanístico que existe em qualquer profissão e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar a capacidade de comunicação oral e escrita. Esta maneira é a leitura.

Muitas coisas acontecem quando estamos lendo um livro. Em primeiro lugar, estamos diante de palavras, algumas conhecidas (mas usadas de maneira original), outras desconhecidas; em ambos os casos a experiência nos é extremamente benéfica. A melhor maneira de ampliar o nosso repertório vocabular é exatamente através dos livros, sobretudo aqueles escritos por mestres da palavra. Claro, poderíamos pegar um dicionário e tentar memorizá-lo; mas isso, em primeiro lugar, seria muito chato e certamente não daria bom resultado. Palavras existem em contextos; é nos contextos que elas fazem sentido, que apelam para a nossa imaginação, mobilizam nossas emoções, ensinam-nos coisas que não sabíamos. Assim como o cérebro funciona mediante a conexão entre células nervosas e a psicanálise mediante a associação de idéias, as palavras buscam umas às outras - um processo que os escritores facilitam com a imaginação e o domínio da técnica literária. Essa técnica, em maior ou menor grau, está ao alcance de todo o mundo; todos nós podemos nos comunicar pelo texto escrito (e cada vez nós o fazemos mais pela internet).

Mas a literatura não é só isso. A literatura também é uma experiência poderosa, tanto a ficcional como a não ficcional. No primeiro caso nós nos identificamos com personagens e mergulhamos fundo na condição humana. Quem quer saber o que é sentir ciúmes deve ler “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. E a literatura de ideias nos informa e nos ensina a pensar.

Não é de estranhar, portanto, que a leitura seja uma das grandes coisas da vida, um hábito que passa a ser indispensável. Ler é viver. Viver de maneira muito melhor, mais intensa e mais generosa.


* Moacyr Scliar é escritor, autor de 80 obras em diversos gêneros; traduzido em numerosos países, recebeu vários prêmios literários, incluindo o Jabuti de 2009 para melhor livro de ficção. É médico e membro da Academia Brasileira de Letras.

Fonte: Univesp