sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Ler para o bebê aumenta vínculo entre mãe e filho

Estudo realizado com recém-nascidos internados em UTIs mostra que as crianças podem ser beneficiadas pelo hábito da leitura desde os primeiros dias de vida

Fernanda Tambelini


Se você não vê a hora de o seu bebê crescer para ler todos aqueles lindos livros infantis com ele, saiba que não precisa esperar. Um estudo feito com 116 famílias no Montreal Children's Hospital, no Canadá, e publicado no Journal of Developmental and Behavioral Pediatrics mostra os benefícios da leitura para as crianças já nos primeiros dias de vida: aumenta o vínculo com os pais, tem efeito tranquilizador e ajuda no desenvolvimento cerebral.

Conduzida com pais de bebês internados na unidade de tratamento intensivo, a pesquisa apontou que a situação estressante de ir para casa sem o recém-nascido pode dificultar a ligação entre os pais e a criança. Mas o simples ato de ler um livro em voz alta para o bebê facilita essa aproximação.

De acordo com o relatório, a leitura traz benefícios para toda a família: 69% dos pais sentiram-se mais próximos dos filhos, além de ter a sensação de controle, intimidade e normalidade – mesmo no ambiente hospitalar. Para os bebês, a voz dos pais tem efeito tranqüilizante. “É como se fosse um acalanto. Você está embalando seu filho com palavras”, diz Ilan Brenman, escritor e doutor em educação, que coordenou o projeto Biblioteca viva em hospitais, da Fundação Abrinq, em hospitais de todo o Brasil no início dos anos 2000.

O contato cedo com os livros também ajuda no desenvolvimento da linguagem e facilita, no futuro, a criança aprender a ler. Além disso, a qualidade dos sons que o bebê ouve afeta o funcionamento da audição e a linguagem usada nos livros geralmente é mais rica do que a linguagem do dia a dia. “Ao ler, usamos voz, ritmo e tom diferentes da conversa diária. Isso prende a atenção da criança e, mais para frente, chega na formação do leitor”, completa Brenman.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Como nosso cérebro lê?

Descubra como vemos as formas, percebemos os movimentos e distinguimos as cores neste artigo da neurocientista Simone Bittencourt

Por Simone Bittencourt*

Matéria publicada em 15/09/2010

O cérebro “vê” formas, movimentos, profundidade e cores usando estratégias de modo que nenhum computador atual é capaz de processar. Pesquisas em humanos e animais demonstram que cada área do córtex cerebral visual é responsável por determinada função. Assim, enquanto uma área “vê” distância e profundidade, outras áreas “veem” posição, movimento, tamanho, cor ou formato do objeto. Uma hipótese sobre o processo eletrofisiológico e bioquímico que envolve a nossa capacidade de enxergar e identificar letras e objetos é: os disparos elétricos dos neurônios, na área responsável por identificar objetos, são específicos para cada imagem. Ou seja, os neurônios têm a capacidade de disparos elétricos que oscilam entre 30 e 70 vezes por segundo - um disparo específico é responsável por identificar um objeto particular, quando há disparos na área de identificação de objeto. Dessa forma, enxergamos a letra “A” porque ondas elétricas que identificam a letra “A” na nossa mente são disparadas na área de identificação de objetos. Cada objeto possui a sua ativação elétrica, e, assim, nossa mente “lê” cada letra durante uma leitura. Nesse sentido, podemos dizer que conseguimos ler por meio de impulsos elétricos disparando em certo compasso de tempo e ritmo.

Durante o processo da visão, outras áreas do cérebro também são ativadas; quando enxergamos um objeto, automaticamente lembramos fatos, histórias, paladar, tato etc. Essa complexidade do sistema é o que o torna ainda pouco entendido.

Como enxergamos?

Enxergamos porque existe luz. A luz penetra no cristalino do olho e é projetada para a retina, que é composta por um conjunto de células fotoelétricas que transformam a luz em sinais elétricos. Por meio de nervos ópticos, esses sinais elétricos são transportados até o córtex visual, região responsável pela tradução dos estímulos elétricos em imagens dentro de nossas mentes. Nos deficientes visuais totais, os sinais elétricos não chegam até o córtex visual pelo estímulo luminoso. No deficiente visual que utiliza o sistema de leitura por meio de Braille, durante o processo de aprendizado da identificação dos sinais pelas pontas dos dedos, os neurônios localizados apenas na área do tato começam a fazer novas conexões para áreas da visão - o deficiente adquire uma “visão tátil”. Assim, durante a leitura por Braille, áreas visuais, táteis e da linguagem são ativadas simultaneamente, podendo transmitir palavras, pensamentos, ideias e emoções para a mente do deficiente visual da pessoa.

Quanto mais jovem o indivíduo, mais fácil treinar o cérebro, mais fácil formar novas conexões. O cérebro é dinâmico e ativo, adapta-se incessantemente às necessidades do organismo, se treinado para isso.

Qual o mecanismo de interpretação utilizado por nossa mente para conseguir ler e compreender um texto?

“De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em
qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é que a
piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser uma ttaol
bçguana que vcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo”

Essa é a versão em português da frase contida numa tese de doutorado defendida na Universidade de Nottinghan na Inglaterra, na qual o pesquisador sugere que o cérebro é flexível no processamento da leitura e, assim, não precisa da ordem das letras nas palavras para que haja compreensão do texto, só importando a ordem da primeira e última letra de cada palavra. Todavia, não parece ser totalmente verdade se o contexto não for familiar ou a maioria das palavras tiver 8 letras ou mais.

Abaixo está um texto que construí com base na mesma técnica de letras aleatórias dispostas no meio das palavras:

Snietlao que a ntsialarepuocdide é um fônnmeeo itaesstnerne e iuensátoivnqel, cumonteme euddsato no detmnarteapo de nsoglooifirieua, odne iamcsestntnenee pssuqoaiems fmoôneens ismpncieovírenes, mas de eraándxtrioiro iamctpo madniul.

A leitura não parece ser tão fácil agora. Isso porque as palavras são maiores, o que leva nosso cérebro a gastar um tempo maior tentando compreender qual a ordem correta das letras. Talvez uma razão pela qual não escrevemos tão rapidamente quanto podemos pensar seja porque nossa mente escolhe a gramática correta para a comunicação, a gramática aprendida. É importante uma ordem de letras para que nosso cérebro consiga ler de forma mais rápida. Mas ainda não temos respostas para várias questões sobre o processo de linguagem, devido a sua complexidade.

A propósito, a frase acima grafada de maneira correta seria:

Saliento que a neuroplasticidade é um fenômeno interessante e inquestionável, comumente estudado no departamento de neurofisiologia, onde incessantemente pesquisamos fenômenos incompreensíveis, mas de extraordinário impacto mundial.


* Simone Bittencourt é doutora em neurofisiologia e pesquisadora do departamento de fisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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Referências Bibliográficas:

Burton H, Diamond JB, McDermott KB (2003) Dissociating cortical regions activated by semantic and phonological tasks: a FMRI study in blind and sighted people. J Neurophysiol 90:1965-1982.

Burton H, Snyder AZ, Conturo TE, Akbudak E, Ollinger JM, Raichle ME (2002) Adaptive changes in early and late blind: a fMRI study of Braille reading. J Neurophysiol 87:589-607.

Elbert T, Sterr A, Rockstroh B, Pantev C, Muller MM, Taub E (2002) Expansion of the tonotopic area in the auditory cortex of the blind. J Neurosci 22:9941-9944.

Gougoux F, Zatorre RJ, Lassonde M, Voss P, Lepore F (2005) A functional neuroimaging study of sound localization: visual cortex activity predicts performance in early-blind individuals. PLoS Biol 3:e27.

Kandel ER, Schwartz JH, Jessell TM (2000) Principles of Neural Sciences, Fourth Edition Edition: McGraw-Hill.

Lessard N, Pare M, Lepore F, Lassonde M (1998) Early-blind human subjects localize sound sources better than sighted subjects. Nature 395:278-280.

Merabet LB, Rizzo JF, Amedi A, Somers DC, Pascual-Leone A (2005) What blindness can tell us about seeing again: merging neuroplasticity and neuroprostheses. Nat Rev Neurosci 6:71-77.

Merabet LB, Hamilton R, Schlaug G, Swisher JD, Kiriakopoulos ET, Pitskel NB, Kauffman T, Pascual-Leone A (2008) Rapid and reversible recruitment of early visual cortex for touch. PLoS One 3:e3046.

Pascual-Leone A, Amedi A, Fregni F, Merabet LB (2005) The plastic human brain cortex. Annu Rev Neurosci 28:377-401.

Rawlinson GE (1976) The significance of letter position in word recognition. In: Psychology. Nottingham UK: University of Nottingham.

Sadato N, Pascual-Leone A, Grafman J, Ibanez V, Deiber MP, Dold G, Hallett M (1996) Activation of the primary visual cortex by Braille reading in blind subjects. Nature 380:526-528.

Theoret H, Merabet L, Pascual-Leone A (2004) Behavioral and neuroplastic changes in the blind: evidence for functionally relevant cross-modal interactions. J Physiol Paris 98:221-233.

Fonte: Univesp

A leitura como experiência humana

“Palavras existem em contextos; é nos contextos que elas fazem sentido, que apelam para a nossa imaginação, mobilizam nossas emoções, ensinam-nos coisas que não sabíamos”, diz o médico e escritor Moacyr Scliar

Por Moacyr Scliar*

Matéria publicada em 15/09/2010

Em 1959, o cientista e escritor britânico Charles Pierce Snow ministrou uma conferência na Universidade de Cambridge, Inglaterra, que levava o título de The Two Cultures - As Duas Culturas. A palestra teve enorme repercussão; acabou sendo publicada em livro que fez sucesso no mundo todo. É que, talvez sem o querer, Snow havia detectado um problema que é cada vez mais atual: o fosso existente entre as chamadas duas culturas da contemporaneidade. Diz Snow: “intelectuais e literatos de um lado, cientistas de outro: entre os dois lados um abismo de mútua incompreensão, às vezes até de hostilidade. Cada lado tem uma imagem distorcida do outro. Os não-cientistas tendem a pensar nos cientistas como seres arrogantes, otimistas ingênuos, ignorantes da condição humana. Os cientistas acham que escritores e intelectuais não têm qualquer visão do futuro, que não estão preocupados com seres humanos.” E exemplifica: “muitas vezes estive presente em eventos de pessoas consideradas cultas; com deleite, demonstravam seu assombro diante da ignorância de muitos cientistas. Provocado, uma ou duas vezes perguntei-lhes quantos deles conheciam a segunda lei da termodinâmica; obtive respostas negativas e hostis. No entanto, minha indagação equivalia, do ponto de vista científico, a perguntar: você já leu alguma obra de Shakespeare?” Ou, podemos acrescentar, uma obra de Machado de Assis, de Mário de Andrade, de Clarice Lispector? Não tenho tempo para isso, responderão muitos profissionais da área técnica-científica, uma desculpa frequentemente esfarrapada. Mas tal situação está, felizmente, mudando.

Tomem como exemplo a medicina. No início da modernidade, esta era uma profissão praticada por gente culta; os médicos não raro eram também filósofos. Mas isso resultava do fato de que, conhecendo muito pouco do organismo e de suas doenças, eram forçados a recorrer às especulações das mais variadas. Na medida em que foram surgindo dispositivos como o microscópio, o eletrocardiógrafo, o aparelho de Raios X, e na medida em que a indústria começou a produzir medicamentos capazes de curar doenças, a visão tecnológica e científica foi se afirmando. A medicina diagnosticava cada vez melhor, curava cada vez mais. Mas houve um preço a pagar. Muitos pacientes queixam-se de que a dimensão humana do atendimento, expressa nas longas conversas do passado, se reduziu; e também surgiram problemas no processo de comunicação entre médicos e pacientes. Em recente levantamento realizado pelo Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) em nosso país, verificou-se que, no norte do Brasil, 64% dos entrevistados têm dificuldades para entender a linguagem utilizada pelos profissionais da saúde. Por outro lado, os técnicos encontram problemas também na comunicação com o público em geral quando são solicitados, por exemplo, a escrever um texto ou a dar uma entrevista para a mídia em geral.

Como resolver essas questões? As universidades têm tomado algumas interessantes iniciativas. No caso da medicina, surgiu um conjunto de disciplinas conhecido como humanidades médicas, que abrangem História da Medicina, Antropologia Médica, Ética Médica, Comunicação em Saúde, Literatura e Medicina, já introduzidas em muitas universidades do país e do exterior. Mas, ainda que a pessoa não passe por um treinamento formal, há uma maneira de desenvolver o lado humanístico que existe em qualquer profissão e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar a capacidade de comunicação oral e escrita. Esta maneira é a leitura.

Muitas coisas acontecem quando estamos lendo um livro. Em primeiro lugar, estamos diante de palavras, algumas conhecidas (mas usadas de maneira original), outras desconhecidas; em ambos os casos a experiência nos é extremamente benéfica. A melhor maneira de ampliar o nosso repertório vocabular é exatamente através dos livros, sobretudo aqueles escritos por mestres da palavra. Claro, poderíamos pegar um dicionário e tentar memorizá-lo; mas isso, em primeiro lugar, seria muito chato e certamente não daria bom resultado. Palavras existem em contextos; é nos contextos que elas fazem sentido, que apelam para a nossa imaginação, mobilizam nossas emoções, ensinam-nos coisas que não sabíamos. Assim como o cérebro funciona mediante a conexão entre células nervosas e a psicanálise mediante a associação de idéias, as palavras buscam umas às outras - um processo que os escritores facilitam com a imaginação e o domínio da técnica literária. Essa técnica, em maior ou menor grau, está ao alcance de todo o mundo; todos nós podemos nos comunicar pelo texto escrito (e cada vez nós o fazemos mais pela internet).

Mas a literatura não é só isso. A literatura também é uma experiência poderosa, tanto a ficcional como a não ficcional. No primeiro caso nós nos identificamos com personagens e mergulhamos fundo na condição humana. Quem quer saber o que é sentir ciúmes deve ler “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. E a literatura de ideias nos informa e nos ensina a pensar.

Não é de estranhar, portanto, que a leitura seja uma das grandes coisas da vida, um hábito que passa a ser indispensável. Ler é viver. Viver de maneira muito melhor, mais intensa e mais generosa.


* Moacyr Scliar é escritor, autor de 80 obras em diversos gêneros; traduzido em numerosos países, recebeu vários prêmios literários, incluindo o Jabuti de 2009 para melhor livro de ficção. É médico e membro da Academia Brasileira de Letras.

Fonte: Univesp

Leitura literária: a escola e a isenção do prazer e da obrigação

A pesquisadora Vera Bastazin explica como a leitura dos clássicos das literaturas brasileira e portuguesa ajuda na formação mais integral do estudante e por que esse tipo de leitura se tornou obrigatória nos principais vestibulares do país

Por Vera Bastazin*

Matéria publicada em 15/09/2010

No âmbito da educação brasileira, o exame vestibular tem sido marcado como um momento de extrema tensão para aqueles que se empenham na conquista de uma vaga em uma boa universidade. Considerado quase um ritual de passagem na vida acadêmica do jovem, o vestibular é visto como um grande desafio ou mesmo um momento de competição cruel.

Afora as questões de desnível socioeconômico que marcam diferenças substanciais entre aqueles que disputam, lado a lado, as vagas oferecidas, há de se destacar também as dificuldades expressivas do estudante brasileiro com relação às habilidades de escrita e leitura de textos e a carência de repertório cultural que a maior parte de nossa população jovem expressa.

Mas o que essas considerações têm a ver com a questão das leituras literárias, hoje obrigatórias, no exame vestibular?

Já está distante o tempo em que, constatado e debatido o fraco desempenho do estudante brasileiro, principalmente em relação à leitura e produção de textos, optou-se pela exigência da leitura de obras literárias no exame de vestibular. A fórmula seria simples: obrigado a ler para enfrentar seus concorrentes na prova de maior valor em número de pontos, o aluno deveria ser preparado, com antecedência, pelas escolas, para que, ao final do ensino médio, estivesse em condições para aproveitar de forma mais substancial a vaga que iria ocupar nos bancos das boas universidades. Sem dúvida, o efeito também deveria vir em cascata, isto é, as escolas, em geral, estariam investindo, desde cedo, maiores esforços na formação de seus alunos. A leitura dos clássicos das literaturas brasileira e portuguesa tornava-se o centro das atenções na ajuda de uma formação mais integral, com o reforço ao acesso ao conhecimento via prática de leitura de bons textos, entendidos também como modelos de escrita.

Parece-nos importante lembrar aqui que a leitura da obra literária, além de melhor habilitar o indivíduo para a compreensão de textos em geral, desperta no leitor a inquietação frente ao objeto literário e a vontade de decifrá-lo, como forma de vencer a obscuridade das palavras e chegar ao que poderíamos chamar de ‘prazer’ pela descoberta de possíveis significados. No contexto linguístico, decodificar a palavra significa vencer um obstáculo que, com o passar do tempo e com a habilidade de leitura, torna-se um procedimento praticamente automatizado. No contexto literário, ao contrário, o processo de decodificação, assim como os resultados atingidos, são sempre distintos e envoltos em certa novidade de procedimentos e informações.

Na literatura, a palavra parece estar sempre pronta a surpreender o leitor; ela pode ter seu significado afirmado, negado ou sugerido em uma direção inesperada. A função do texto literário é surpreender, quebrar com o automatismo da decodificação, exigir do leitor um empenho maior, fazê-lo pensar não em significados seguros, mas em possibilidades. É nesse sentido que a contribuição da literatura pode ir além do desenvolvimento da habilidade de leitura para atingir a plasticidade da mente que arrisca interpretações de forma a aprender a conviver com a dúvida e a instabilidade significativa de um mundo que é cada vez mais plural.

Habilidades mais complexas se desenvolvem. O literário motiva e requisita a leitura intuitiva e perspicaz, aquela que aguça os sentidos, abre-se para a pluralidade de significados. Ela habilita para a leitura de um universo mais amplo, onde todas as áreas do conhecimento podem estar contempladas. Ler o literário é apreender, em concomitância, dentro do universo estético, a pulsação da história, da filosofia, das ciências matemáticas, da mitologia, das religiões, das ciências sociais, da psicologia, enfim, de todo o universo de conhecimento humano. A boa literatura propicia ao leitor a interação consigo mesmo e com o outro, assim como estimula o diálogo, ou melhor, o discurso que se desdobra e se faz crítico-reflexivo.

Os propósitos da inserção de obras literárias no vestibular, não há dúvida, eram os melhores. A realidade, todavia, desconcertou os propósitos.

O que aconteceu entre uma proposta inteligente e uma execução que, passados anos consecutivos, não trouxe resultados benéficos aos nossos jovens e tampouco ao nosso sistema de ensino em qualquer de seus níveis?

Lançar os olhos para a educação básica e fundamental, salvo pouquíssimas exceções, faz-nos perceber que o livro de literatura infantil é bandeira de luta de poucos educadores. Afinal, parece não haver clareza quanto à importância do texto literário para a formação integral do indivíduo. Temos inúmeros índices de que são poucos os que acreditam que estimular o imaginário é permitir à criança uma vivência mais rica de sensibilidade e potencial criativo. Despertar o desejo pela aventura da viagem literária para conhecer outros povos e outros costumes é fazer ver ao jovem possibilidades de experiências que redimensionariam seu olhar e sua própria mente. Incitar o homem para o cultivo permanente de novas ideias e gosto pelo desafio de sentir e pensar o mundo por formas não convencionais é algo ainda pouco associado à aproximação e vivência do literário.

As escolas não assumiram, até hoje, o papel de defensoras dos estudos literários como forma de enriquecimento do processo educativo. Elas continuam ignorando ou omitindo-se no reconhecimento da importância do literário para a formação da sensibilidade estética associada aos mecanismos da razão crítica e criativa. Os professores, com sérias deficiências em sua formação, não se sentem à vontade e nem mesmo seguros para o enfrentamento da instabilidade significativa do texto literário. Eles também, provavelmente, procuram ainda verdades que a literatura não tem para lhes oferecer. Uma alternativa, das mais comuns, encontra-se na derivação dos estudos literários para abordagens biográficas ou de contexto histórico e social. O valor estético da obra é esquecido no meio do caminho.

Os cursinhos preparatórios, por sua vez, veem-se na obrigação de recuperar o tempo perdido. Na engrenagem dos conteúdos, criam mecanismos de informação sobre as obras que, se de um lado sobrecarregam o vestibulando em suas relações extraliterárias, pouco podem investir no trabalho de análise que revela a essência dos projetos poéticos inscritos em cada obra. Os resultados são um aluno que se ilude sobre o conhecimento que tem do texto e dos movimentos estéticos e instituições de ensino que se isentam de maiores comprometimentos.

Afinal, vivenciar a leitura do literário não é função que se cumpre da noite para o dia; ao contrário, é parceria que se realiza em processo, cultivando o gosto pela busca de alternativas no ato de construir a percepção e o próprio conhecimento como objetos sempre inconclusos. Conhecer significa interferir na realidade, crescer e transformar-se com ela. É processo que se constrói a cada passo-palavra, como vivência de algo que atrai e prende nas armadilhas da palavra, tal como uma serpente que, ao movimentar-se, surpreende pela rapidez e magia do próprio movimento.

* Vera Bastazin professora e doutora em Literatura e Crítica Literária no curso de pós-graduação da PUC de São Paulo.

Fonte: Univesp

O leitor e a leitura: Entreveista com Flavia Goulart Mota Garcia Rosa

O leitor e a leitura: presidente da ABEU, fala a respeito dos problemas envolvendo a leitura e o consumo de livros no país

Por Enio Rodrigo

Matéria publicada em 15/09/2010

Falar sobre o hábito da leitura no Brasil parece uma questão complexa. A média anual de leitura por brasileiro acima dos 15 anos e com pelo menos três anos de estudo (4,7 livros) é abaixo da média de países vizinhos, como a Argentina (5,8 livros por ano), de acordo com dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita pelo Instituto Pró-Livro. Ainda, parte desses leitores é composta por estudantes que leem as obras indicadas pelos professores (e não é uma leitura espontânea, como no caso dos argentinos). Além disso, 17% dos leitores não compreendem o que leem.

Para Flávia Goulart Mota Garcia Rosa, diretora da Editora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU), as dificuldades passam pela escola, pela falta de bibliotecas, pelo baixo poder aquisitivo – que atinge também os professores – e pela dificuldade da indústria editorial em cativar um público sem um perfil definido, que no Brasil varia entre o consumidor do livro digital e aquele que não tem acesso a livrarias em sua cidade.


Pré-Univesp: Quais são os fatores que influenciam o hábito de leitura no país e o que deve ser feito para mudar esse cenário?

Flavia Goulart Mota Garcia Rosa: A questão da leitura é um reflexo também da questão socioeconômica do país. Temos uma população muito grande com um baixo poder aquisitivo – que é o maior contingente da população brasileira –, para a qual o livro não é um objeto incorporado na sua lista de compras. Se tivéssemos ações de bibliotecas públicas de uma forma satisfatória, o quadro poderia ser diferente, no entanto o país não tem ainda um projeto nacional consolidado para mudaressa situação . Estamos começando a ter algumas ações efetivas, mas não é suficiente abrir uma biblioteca, no sentido estrito, ou seja, construir um prédio e abarrotá-lo de livros. É necessária uma ação mais ampla, de criar um hábito de leitura pelo lazer, e não apenas pela obrigatoriedade de ler algo que a escola pediu. Em um projeto assim, o bibliotecário e o profissional da educação são importantes, pois eles vão se configurar como uma espécie de (ou “intermediar a relação entre o leitor ...”) ponte entre o leitor e o livro. Eles não podem ser passivos, apenas cadastrando o livro ou replicando opiniões alheias.

Hoje nós vemos algumas poucas ações na formação daqueles que chamamos de “agentes de leitura”, focando na capacitação dos bibliotecários, dos auxiliares de biblioteca, professores, ou seja, em todos os atores que contribuem para a criação do hábito de leitura. Tal capacitação é importante, pois a maior parte da população do país está na zona de baixo poder aquisitivo, em que comprar o livro é difícil, e as bibliotecas deveriam ser a saída natural para ter contato com as obras literárias.

Pré-Univesp: Como você vê o impacto da internet no hábito da leitura entre os mais jovens?

Flavia: Eu acho que não se pode pular etapas. Não é possível falarmos de ir direto para a leitura pelo computador. Todas as fases precisam ser vivenciadas. Hoje temos uma convivência entre o analógico e o digital, o que é bom para esses iniciantes na leitura. Concordo também que existe uma geração se iniciando no computador, mas o acesso ao ambiente digital está longe de ser realidade nacional. Novamente entramos na questão socioeconômica. Imagine, se temos pessoas que não compram nem o livro, existe toda uma população que não tem acesso ao computador e à internet. As pesquisas apontam o aumento das residências com computador, e um aumento de crédito também, mas nem todos têm a possibilidade de comprar um computador. A maioria da população mais carente tem acesso a ele por intermédio da escola ou de lan houses.

Pré-Univesp: A tecnologia exclui o público com menor poder aquisitivo?

Flavia: Temos uma população diversa, com tantas particularidades, que variam de região para região. O ideal é isto que estamos vendo: quem tem acesso ao livro digital, tem uma determinada opção. Outras pessoas podem preferir o livro impresso – por questão de custo, facilidade, costume etc. Então, ter várias plataformas convivendo é extremamente rico. E, voltando às bibliotecas, é preciso que elas se adaptem a esse tipo de variedade de plataformas também. O fato de que os públicos que podem compartilhar o mesmo ambiente é extremamente interessante, já que a biblioteca é um ponto de troca de informações entre as pessoas também.

Pré-Univesp: Qual deve ser o papel da escola, dos professores e das bibliotecas públicas nesse cenário?

Flavia: Temos de pensar na biblioteca como espaço público disponível para a sociedade e cujos funcionários são capacitados para ajudar. Isso porque os usuários de internet nem sempre sabem das potencialidades que taltecnologia traz. Não se trata de apenas acessar as redes sociais e softwares de comunicação, mas de ver uma forma de agregar valor a essa “navegação”, ou seja, ir até o computador, acessar a internet e sair com informação de lá, e não ser apenas um espectador passivo. É preciso mostrar as possibilidades de acessar o jornal, ou mesmo livros digitais, como é o caso dos livros disponíveis no Portal Domínio Público, que conta com diversas obras da literatura nacional.

Além disso, as universidades também estão disponibilizando os acervos das teses e dissertações na internet. O material online fica disponível ao cidadão, mas é preciso que exista uma figura para intermediar, capacitar o usuário para lidar com essa tecnologia. Não basta ter o computador; são necessários também profissionais que auxiliem os alunos e os usuários de bibliotecas a fazer um uso mais rico dos computadores. Mesmo entre os alunos universitários, é preciso fazer tal capacitação. Eles também são agentes multiplicadores do uso das tecnologias disponíveis.

Pré-Univesp: Os indivíduos em idade universitária muitas vezes deixam a leitura por prazer em função da necessidade de leitura técnica. Existe alguma preocupação para fazer com que esse público retome o hábito de ler livros?

Flavia: Baixar os capítulos dos livros que eles precisam para acompanhar as aulas não supre a formação desses indivíduos. É uma leitura fracionada, focada no resultado de que ele precisa no final do semestre. Em um ambiente universitário, deveria se expandir o conhecimento de um determinado tema nas diversas visões e de diversos autores. Para tanto , as bibliotecas precisam estar bem equipadas, com número suficiente de volumes para atender à demanda, e, mais do que isso, são necessárias ações que estimulem o aluno a voltar a ter o hábito da leitura como prazer. Isso porque ele veio de um processo, como o vestibular, no qual os livros são indicados apenas como material para fazer a prova. Eles acabam perdendo o prazer da leitura. É preciso trabalhar para inverter esse processo.

Pré-Univesp: Você participou da última Bienal Internacional do Livro (realizada em São Paulo de 12 a 22 de agosto), um dos principais eventos literários do país, representando a ABEU. Você percebeu alguma mudança no perfil do público e dos representantes das editoras?

Flavia: Foi possível notar um aumento da representatividade entre as editoras universitárias. Praticamente todos os estados brasileiros estavam representados. Tal dado é interessante de ser observado, pois mostra que a produção de livros não está mais centralizada em alguns estados, e que pode estar se iniciando um movimento em direção a novas regiões. Isso é extremamente positivo para a produção intelectual local, que passa a ter novos canais de distribuição.

No caso do público visitante, é interessante ver os eventos – seja a Bienal do Livro, seja a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) – como “festividades”. O livro é tão excepcional para algumas pessoas que elas se mobilizam para visitar e comprar. Do ponto de vista socioeconômico, é uma oportunidade também. As pessoas esperam encontrar preços mais convidativos, o que também contribui para a visitação. Além disso, ter contato com os autores, vê-los pessoalmente, também motiva bastante.

Pré-Univesp: Em sua opinião, qual o futuro do livro e da leitura?

Flavia: Tudo dependerá da continuidade dos trabalhos e políticas públicas instauradas até agora. Se isso não for prioridade, infelizmente o trabalho pode ser interrompido. O Ministério da Cultura e o Ministério da Educação precisam se aproximar cada vez mais. A educação, as bibliotecas, o hábito de leitura, a aquisição de livros, o treinamento de profissionais fazem parte do mesmo problema. Essas ações precisam ser conjuntas e em longo prazo. Um projeto deve prever uma projeção, em termos de tempo, e não apenas números de criação de bibliotecas, quantidade de livros disponíveis, ou vendagem das editoras. Para mudar tal cenário são necessários anos ; nada ocorrerá de forma imediata.

Fonte: Univesp