sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O leitor e a leitura: Entreveista com Flavia Goulart Mota Garcia Rosa

O leitor e a leitura: presidente da ABEU, fala a respeito dos problemas envolvendo a leitura e o consumo de livros no país

Por Enio Rodrigo

Matéria publicada em 15/09/2010

Falar sobre o hábito da leitura no Brasil parece uma questão complexa. A média anual de leitura por brasileiro acima dos 15 anos e com pelo menos três anos de estudo (4,7 livros) é abaixo da média de países vizinhos, como a Argentina (5,8 livros por ano), de acordo com dados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, feita pelo Instituto Pró-Livro. Ainda, parte desses leitores é composta por estudantes que leem as obras indicadas pelos professores (e não é uma leitura espontânea, como no caso dos argentinos). Além disso, 17% dos leitores não compreendem o que leem.

Para Flávia Goulart Mota Garcia Rosa, diretora da Editora da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e presidente da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU), as dificuldades passam pela escola, pela falta de bibliotecas, pelo baixo poder aquisitivo – que atinge também os professores – e pela dificuldade da indústria editorial em cativar um público sem um perfil definido, que no Brasil varia entre o consumidor do livro digital e aquele que não tem acesso a livrarias em sua cidade.


Pré-Univesp: Quais são os fatores que influenciam o hábito de leitura no país e o que deve ser feito para mudar esse cenário?

Flavia Goulart Mota Garcia Rosa: A questão da leitura é um reflexo também da questão socioeconômica do país. Temos uma população muito grande com um baixo poder aquisitivo – que é o maior contingente da população brasileira –, para a qual o livro não é um objeto incorporado na sua lista de compras. Se tivéssemos ações de bibliotecas públicas de uma forma satisfatória, o quadro poderia ser diferente, no entanto o país não tem ainda um projeto nacional consolidado para mudaressa situação . Estamos começando a ter algumas ações efetivas, mas não é suficiente abrir uma biblioteca, no sentido estrito, ou seja, construir um prédio e abarrotá-lo de livros. É necessária uma ação mais ampla, de criar um hábito de leitura pelo lazer, e não apenas pela obrigatoriedade de ler algo que a escola pediu. Em um projeto assim, o bibliotecário e o profissional da educação são importantes, pois eles vão se configurar como uma espécie de (ou “intermediar a relação entre o leitor ...”) ponte entre o leitor e o livro. Eles não podem ser passivos, apenas cadastrando o livro ou replicando opiniões alheias.

Hoje nós vemos algumas poucas ações na formação daqueles que chamamos de “agentes de leitura”, focando na capacitação dos bibliotecários, dos auxiliares de biblioteca, professores, ou seja, em todos os atores que contribuem para a criação do hábito de leitura. Tal capacitação é importante, pois a maior parte da população do país está na zona de baixo poder aquisitivo, em que comprar o livro é difícil, e as bibliotecas deveriam ser a saída natural para ter contato com as obras literárias.

Pré-Univesp: Como você vê o impacto da internet no hábito da leitura entre os mais jovens?

Flavia: Eu acho que não se pode pular etapas. Não é possível falarmos de ir direto para a leitura pelo computador. Todas as fases precisam ser vivenciadas. Hoje temos uma convivência entre o analógico e o digital, o que é bom para esses iniciantes na leitura. Concordo também que existe uma geração se iniciando no computador, mas o acesso ao ambiente digital está longe de ser realidade nacional. Novamente entramos na questão socioeconômica. Imagine, se temos pessoas que não compram nem o livro, existe toda uma população que não tem acesso ao computador e à internet. As pesquisas apontam o aumento das residências com computador, e um aumento de crédito também, mas nem todos têm a possibilidade de comprar um computador. A maioria da população mais carente tem acesso a ele por intermédio da escola ou de lan houses.

Pré-Univesp: A tecnologia exclui o público com menor poder aquisitivo?

Flavia: Temos uma população diversa, com tantas particularidades, que variam de região para região. O ideal é isto que estamos vendo: quem tem acesso ao livro digital, tem uma determinada opção. Outras pessoas podem preferir o livro impresso – por questão de custo, facilidade, costume etc. Então, ter várias plataformas convivendo é extremamente rico. E, voltando às bibliotecas, é preciso que elas se adaptem a esse tipo de variedade de plataformas também. O fato de que os públicos que podem compartilhar o mesmo ambiente é extremamente interessante, já que a biblioteca é um ponto de troca de informações entre as pessoas também.

Pré-Univesp: Qual deve ser o papel da escola, dos professores e das bibliotecas públicas nesse cenário?

Flavia: Temos de pensar na biblioteca como espaço público disponível para a sociedade e cujos funcionários são capacitados para ajudar. Isso porque os usuários de internet nem sempre sabem das potencialidades que taltecnologia traz. Não se trata de apenas acessar as redes sociais e softwares de comunicação, mas de ver uma forma de agregar valor a essa “navegação”, ou seja, ir até o computador, acessar a internet e sair com informação de lá, e não ser apenas um espectador passivo. É preciso mostrar as possibilidades de acessar o jornal, ou mesmo livros digitais, como é o caso dos livros disponíveis no Portal Domínio Público, que conta com diversas obras da literatura nacional.

Além disso, as universidades também estão disponibilizando os acervos das teses e dissertações na internet. O material online fica disponível ao cidadão, mas é preciso que exista uma figura para intermediar, capacitar o usuário para lidar com essa tecnologia. Não basta ter o computador; são necessários também profissionais que auxiliem os alunos e os usuários de bibliotecas a fazer um uso mais rico dos computadores. Mesmo entre os alunos universitários, é preciso fazer tal capacitação. Eles também são agentes multiplicadores do uso das tecnologias disponíveis.

Pré-Univesp: Os indivíduos em idade universitária muitas vezes deixam a leitura por prazer em função da necessidade de leitura técnica. Existe alguma preocupação para fazer com que esse público retome o hábito de ler livros?

Flavia: Baixar os capítulos dos livros que eles precisam para acompanhar as aulas não supre a formação desses indivíduos. É uma leitura fracionada, focada no resultado de que ele precisa no final do semestre. Em um ambiente universitário, deveria se expandir o conhecimento de um determinado tema nas diversas visões e de diversos autores. Para tanto , as bibliotecas precisam estar bem equipadas, com número suficiente de volumes para atender à demanda, e, mais do que isso, são necessárias ações que estimulem o aluno a voltar a ter o hábito da leitura como prazer. Isso porque ele veio de um processo, como o vestibular, no qual os livros são indicados apenas como material para fazer a prova. Eles acabam perdendo o prazer da leitura. É preciso trabalhar para inverter esse processo.

Pré-Univesp: Você participou da última Bienal Internacional do Livro (realizada em São Paulo de 12 a 22 de agosto), um dos principais eventos literários do país, representando a ABEU. Você percebeu alguma mudança no perfil do público e dos representantes das editoras?

Flavia: Foi possível notar um aumento da representatividade entre as editoras universitárias. Praticamente todos os estados brasileiros estavam representados. Tal dado é interessante de ser observado, pois mostra que a produção de livros não está mais centralizada em alguns estados, e que pode estar se iniciando um movimento em direção a novas regiões. Isso é extremamente positivo para a produção intelectual local, que passa a ter novos canais de distribuição.

No caso do público visitante, é interessante ver os eventos – seja a Bienal do Livro, seja a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) – como “festividades”. O livro é tão excepcional para algumas pessoas que elas se mobilizam para visitar e comprar. Do ponto de vista socioeconômico, é uma oportunidade também. As pessoas esperam encontrar preços mais convidativos, o que também contribui para a visitação. Além disso, ter contato com os autores, vê-los pessoalmente, também motiva bastante.

Pré-Univesp: Em sua opinião, qual o futuro do livro e da leitura?

Flavia: Tudo dependerá da continuidade dos trabalhos e políticas públicas instauradas até agora. Se isso não for prioridade, infelizmente o trabalho pode ser interrompido. O Ministério da Cultura e o Ministério da Educação precisam se aproximar cada vez mais. A educação, as bibliotecas, o hábito de leitura, a aquisição de livros, o treinamento de profissionais fazem parte do mesmo problema. Essas ações precisam ser conjuntas e em longo prazo. Um projeto deve prever uma projeção, em termos de tempo, e não apenas números de criação de bibliotecas, quantidade de livros disponíveis, ou vendagem das editoras. Para mudar tal cenário são necessários anos ; nada ocorrerá de forma imediata.

Fonte: Univesp

Testemunha imortal

Ao longo do tempo os livros assumiram formatos diferentes, foram lidos e escritos de modo diverso

Por Patrícia Mariuzzo


Matéria publicada em 15/09/2010

“Pequenas marcas pretas sobre a folha branca ou caracteres na tela do computador capazes de nos levar ao pranto, abrir nossa mente a novas ideias e entendimentos, inspirar, organizar nossa existência e nos conectar ao universo”; assim o linguista norte-americano Steven Fischer define a escrita. Tão antigas quanto o próprio homem, a escrita e a leitura surgiram para complementar a comunicação oral. O homem de Neandertal [1] e os primeiros Homo sapiens liam entalhes em ossos. A arte rupestre, gravada nas paredes das cavernas da pré-história, era também um tipo de leitura pleno de significado. Leitura e escrita surgiram para comunicar e perpetuar o pensamento humano. Como nos diz Fischer em seu livro História da Leitura (Unesp, 2006), para transformar o pensamento em pedra.

Formas de ler

Pouquíssimas pessoas dominavam a cultura da escrita na Antiguidade. Segundo Fischer, até o século V a.C., a prática de leitura abrangia, na maior parte, registro de contas, embarques de mercadorias e documentos jurídicos. Textos literários existiam em número bastante limitado. Aliás, um dos motivos para textos antigos nos parecerem repetitivos, dispersos e repletos de divagações se deve ao fato de serem a literatura de uma sociedade apoiada no discurso oral e não no texto. A Ilíada e a Odisséia, do século VIII a.C. e atribuídas ao poeta grego Homero, são poemas para serem declamados, e não lidos. Mesmo durante toda a Idade Média, leitura e oralidade conviviam, se chocavam e se entrelaçavam.

Outra diferença reside nos suportes para os textos. Os rolos [2], uma das formas de apresentação dos livros na Antiguidade, determinavam uma relação totalmente diferente com a leitura. Eles tinham que ser desenrolados da esquerda para direita conforme a leitura avançava, deixando o leitor com as duas mãos ocupadas. Liam-se pequenas partes de cada vez e recuar no texto era difícil. Uma questão fundamental, apontada por André Belo no livro História & Livro e Leitura (Autêntica, 2002), era que o rolo tornava impossível escrever apontamentos ao mesmo tempo em que se lia. Por conta disso, muitas vezes a leitura era feita em voz alta e outra pessoa fazia anotações.

Além do rolo, existiram diversos outros suportes para a escrita na Antiguidade. Na Mesopotâmia (região onde hoje fica o Iraque), tabuinhas de argila eram usadas desde o terceiro milênio antes de Cristo. Tecidos, conchas, cerâmica, marfim, folhas de palmeira também já foram utilizados para escrever. Isso sem falar na escrita em pedra, abundante na arquitetura das cidades romanas antigas. “Cada uma dessas diferentes formas de livro implicou diversos modos de escrever e ler. Obrigou ao uso de determinado tipo de instrumento, certa postura corporal, um modo de organizar o texto (ou a imagem), dependendo da textura do suporte ou do seu formato”, enumera André.

O livro, como o conhecemos hoje, apareceu entre os séculos II e IV da Era Cristã. “Era escrito e copiado à mão, era menos portátil do que os livros atuais, mas era já um códice [livro, em latim], isto é, um conjunto de cadernos costurados uns aos outros e encadernados”, afirma André Belo. “Quando o códice se generalizou, ele trouxe consigo novos hábitos intelectuais e posturas corporais. O corpo do leitor ficou mais livre para manusear o livro. A possibilidade de avançar ou recuar livremente, folheando o livro, permitiu comparações ágeis entre seções, contribuindo para o aparecimento da paginação, para a criação de índices e para o estabelecimento de comparações entre as diversas partes da obra”, detalha o historiador. Essa foi, segundo ele, uma das razões pelas quais o novo formato se desenvolveu rapidamente entre as comunidades cristãs. “O códice era muito adaptado à consulta e à pregação do texto sagrado, um livro composto de diversos ‘livros’, exigindo saltos frequentes entre eles”, complementa.

A grande difusão

Por volta de 1439 [3], o inventor alemão Johannes Gutenberg cria a prensa mecânica com tipos móveis, modificando radicalmente a forma de publicar livros. O primeiro livro impresso por ele foi a Bíblia. Boa parte dos estudiosos do livro e da leitura aponta a invenção da imprensa como a grande revolução cultural nos meios de comunicação e na leitura, multiplicando o número de textos em circulação e tornando os livros mais baratos e acessíveis. Em um livro clássico nos estudos de comunicação – A Galáxia de Gutenberg (1962) - o pesquisador canadense Marshal Mcluhan defende que a invenção da imprensa constituiu uma ruptura fundamental na história da cultura, dando origem a um novo modo de percepção – a do homem tipográfico, no qual o sentido da visão substitui a voz na comunicação. Para o historiador francês Roger Chartier, no entanto, o que permanece no livro depois de Gutenberg é mais importante do que o que muda: características herdadas do livro manuscrito, como a estrutura de páginas, colunas e linhas, capítulos etc. não se modificam. Para ele, a impressão de Gutenberg não cria um objeto novo nem estabelece uma nova relação com a leitura, como aconteceu com o aparecimento do códice.

Mais ou menos revolucionário, o livro impresso consagrou-se como a principal forma de transmitir textos. Uma das consequências da invenção da imprensa, entre tantas, foi a capacidade de preservação dos registros escritos. Os manuscritos, muitas vezes edições únicas, eram mais vulneráveis. Segundo André Belo, a produção de vários exemplares de um mesmo livro criou, pela primeira vez, a sensação de uma vitória sobre o tempo e o espaço. A partir dali tudo que se criava poderia ser escrito, reescrito e dado à posteridade.

Súditos da palavra

A imprensa conhece outra grande modificação no século XIX, quando surge a tipografia mecânica a vapor. Seu impacto maior, no entanto, não foi nos livros, mas na produção de grandes tiragens de jornais e outras publicações de baixo custo, entre elas os livros de bolso. Tais mudanças implicam, por sua vez, o aumento do número de leitores e os tipos de gêneros publicados. É nessa época que surgem os subgêneros literários: romance policial, ficção científica, terror, tentando suprir as demandas de uma sociedade que se transforma pela industrialização. É também nesse período que surge a literatura infantil, que se tornaria, no final do século XX, o grande filão do mercado editorial. Para André Belo, tamanha difusão não acontece unicamente por motivos técnicos. Existe um conjunto de motivos culturais e econômicos envolvidos nas mudanças, entre eles o desenvolvimento da escolarização. “A leitura transcende a página impressa da Bíblia, dos hinos, dos romances, das revistas ou dos jornais, passando a fazer parte de sinais das ruas, letreiros de lojas, rótulos de produtos, propagandas. Para onde quer que se olhasse, havia algo para ler”, explica.

O fim do livro?

Com a popularização dos jornais no século XIX, vários autores acreditavam que o livro seria substituído pelos periódicos, mais baratos e acessíveis ao grande público. Diante da popularização da internet, dos jornais e livros em formato eletrônico, a preocupação com o futuro do livro cresce novamente. André Belo não vê oposição imediata entre computador e internet e livro e leitura. “Já se fala há várias décadas na ‘morte do livro’, à qual estaria associada uma crise da leitura. Mas isso não pode ser entendido no sentido literal. Não só a produção de livros em papel no mundo aumentou muito ao longo da segunda metade do século XX — o que deve continuar a ocorrer —, como aumentou o número de textos impressos, sob múltiplas formas, e o de leitores em todos os países”, diz ele. “O temor do desaparecimento do livro exprime mais uma forma de angústia difusa — que em geral vem das pessoas que leem mais do que a média e que vivem em países onde se lê mais do que a média — sobre as possibilidades de transmissão do saber letrado, considerado clássico, às novas gerações. Essa angústia é compreensível porque vivemos num tempo acelerado, de mudanças tecnológicas vertiginosas, que afetam toda a economia da edição, do livro ao jornal, e afetam também os modos concretos como lemos e recebemos a informação”, sentencia.

Nesse sentido, uma das mudanças importantes apontadas pelo pesquisador é a perda da influência do saber transmitido pelo livro, principalmente a partir da segunda metade do século XX. “Há outra maneira de considerar a ‘morte do livro’, que é vê-la em um sentido mais metafórico, em que o livro é como um símbolo de uma ordem do saber, ao qual corresponderia uma leitura mais lenta e mais protegida de interferências exteriores. Acredito que aí a discussão é mais interessante porque menos concentrada na nostalgia do livro como objeto”, finaliza.

Leitura como espaço de poder

Nem sempre a leitura foi vista como algo positivo. Houve momentos da história em que se tentou afastar as pessoas da leitura. Nos séculos XV e XVI, logo após a invenção da imprensa, proliferam a criação de instituições de censura prévia e a elaboração de listas de livros proibidos. Segundo Roger Chartier, no livro A aventura do livro: do leitor ao navegador (Unesp, 1999), durante muito tempo a leitura das mulheres e das crianças foi controlada. Pode-se comparar essa obsessão com o medo que a Igreja sentia diante da leitura da Bíblia por todos os cristãos. Conclui-se daí que a difusão dos livros promovida pela imprensa não teve como efeito imediato tornar a leitura uma prática solitária como conhecemos hoje. Bibliotecários, padres e professores intermediavam o acesso aos livros, procurando desviar o público de certas obras, como os romances ou os livros de quadrinhos.

Em artigo no livro Leitura, História e História da Leitura (ALB/Fapesp/Mercado das Letras, 1999), Márcia Abreu, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, explica que, em certa altura do século XVIII, imaginou-se que a leitura oferecesse perigo para a saúde. Por conta do esforço continuado, ela prejudicaria a vista, o cérebro, os nervos e o estômago. “Maior cuidado inspiravam as leituras que apresentavam ‘perigos para a alma, aquelas que colocavam em risco a moral ao divulgarem ideias falsas, estimulando demasiadamente a imaginação e combatendo a honestidade e o pudor’”, afirma a pesquisadora. Os romances pareciam ser os mais ameaçadores. Há também a questão do poder político. De acordo com Márcia, ler e ter acesso à instrução escolar poderia gerar descontentamento e insubordinações entre os pobres. “A leitura não é prática neutra. Ela é campo de disputa, é espaço de poder”, conclui.

Saiba mais:

A aventura do livro: do leitor ao navegador. Roger Chartier. UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 1999.

História & livro e leitura. André Belo. Autêntica, 2002.


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[1] O Homem de Neadertal é classificado pela maioria dos antropólogos como uma subespécie do Homo sapiens (Homo sapiens neanderthalensis). Sua provável existência certamente compreendeu o período entre 70.000 e 40.000 anos atrás, habitando a Europa e a Ásia. Contudo há quem considere que essa subespécie não é o ancestral direto do homem moderno, mas uma subespécie que se extinguiu há cerca de 40 mil anos, certamente em razão de eventos de competição com o homem atual (Homo sapiens), surgido por volta de 90 mil anos, a partir do Homo erectus. A partir da descoberta de fósseis como o Homo sapiens de Steinheim e o Homo sapiens Rodesiano, cujos cérebros possuíam 83% do volume do cérebro atual; podemos estimar que os primeiros Homo sapiens surgiram há mais de 300.000 anos. Eram caçadores hábeis, cozinhavam carne, usavam roupas de pele de animais e construíam lanças e cabanas. (http://www.brasilescola.com/).

[2] Os livros eram guardados na forma de rolos na famosa Biblioteca de Alexandria, considerada uma das maiores referências culturais da Antiguidade. Foi organizada no início do século III a.C., durante o reinado de Ptolomeu II, no Egito. Estima-se que a Biblioteca tenha abrigado mais de 500 mil rolos, o que representava um número muito menos significativo, já que uma obra podia ocupar, sozinha, dez, vinte, até 30 rolos.

[3] Para a imprensa se constituir em uma revolução, ela dependeu de muitos fatores culturais e econômicos, como, por exemplo, da disponibilidade de papel. Um fato que atesta isso é que na China, no século XI, e na Coreia, no século XIII, os caracteres móveis já eram conhecidos, feitos de terracota ou de metal. No entanto, por razões políticas e culturais, a escala de sua produção era reduzida.

Fonte: Univesp

Leitura na era digital

Como os novos modos de ler na atualidade afetam os hábitos de leitura no Brasil e o público jovem

Por Flávia Gouveia


Matéria publicada em 15/09/2010

A primeira das quatorze definições do dicionário Houaiss da língua portuguesa para o verbete “ler” é bastante objetiva: ‘percorrer com a vista um texto, interpretando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os sinais linguísticos próprios de uma língua natural’. Assim definido, esse processo elementar de comunicação humana parece imutável. Mas, do ponto de vista dos desenvolvimentos (e dos entraves) relacionados à vida em sociedade, à economia e à tecnologia, o ato de ler sofre variações importantes de acordo com as pessoas, localidades e tempos considerados. “No Brasil, o processo de letramento sistematizado atrasou pelo menos um século. Hoje a situação da leitura no país é muito melhor, mas essa defasagem ainda se faz sentir”, afirma a professora de Sociologia da Cultura e da Literatura da Universidade Federal de São Carlos, Tânia Pellegrini.

Assim, o perfil do “leitor médio” no Brasil difere daqueles observados em outros países, da mesma forma que os hábitos de leitura de um brasileiro diferem dos de outro leitor de diferente classe social ou faixa etária, também nascido no Brasil. De acordo com a pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, lançada em maio de 2008 e coordenada pelo Observatório do Livro e da Leitura (OLL), a maior parcela de brasileiros não-leitores (que não leram um livro nos três meses anteriores à pesquisa) está entre os adultos de 30 a 39 anos (15%) e de 40 a 49 (15%). A pesquisa constatou também que o número de não-leitores diminui quanto maior é a renda familiar e mais alta é a classe social. Quase não se encontram não-leitores na classe A, e há apenas 1% de não-leitores quando a renda familiar é de mais de 10 salários mínimos. Mas, no que se refere à dimensão tecnológica, houve uma mudança importante observável através do tempo.

Texto e hipertexto

A leitura na atualidade também não é como no passado, quando não se imaginava que um dia leríamos na tela de um computador, por onde se acessa um labirinto cibernético de textos e hipertextos, ou de um artefato próprio para leitura de livros digitais. Para o linguista, poeta e professor titular de semântica argumentativa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Carlos Vogt, há hoje uma dispersão da leitura causada pelas novas tecnologias e a forma eletrônica de tratamento do texto. “No meio eletrônico, de textos permeados por hipertextos, o leitor passa a ter diante de si várias ‘portas’ que levam a outros textos. A progressão linear da leitura tradicional dá lugar a uma miríade de mosaicos de fontes novas e inesperadas de informação”, comenta.

A professora Tânia Pellegrini lembra que já presenciamos uma grande mudança nos modos de ler no passado, quando foi inventada a imprensa. “Se na Idade Média tínhamos os imensos códices (manuscritos gravados em madeira), o advento da imprensa tornou o livro portátil. E bem antes disso, no Egito antigo, inventou-se o papel, suporte até hoje insuperável. Com os computadores, criou-se um suporte técnico antes inimaginável”, diz.

Vogt e Pellegrini concordam que o presente seja de revelação de uma transformação crucial e de certo modo arriscada nos modos de ler. “Ler em uma tela é muito diferente de ler em um livro, muitíssimo diferente de ler pergaminhos ou papiros. A leitura na tela tende a ser mais rápida, apressada e fragmentada, pois a organização dos textos obedece às possibilidades que o suporte oferece: procurar relações com outros textos, imagens, sons”, afirma a professora. Carlos Vogt aponta dois riscos que aumentam com a leitura de textos na internet: a limitação da imaginação e a dispersão da concentração. Para o linguista, “a leitura no computador leva ao esmaecimento da tensão entre a horizontalidade dispersiva e a verticalidade da semântica que leva à concentração, invertendo assim a ‘planitude’ do texto”.

Mercado tecnológico

Da perspectiva do mercado, a digitalização de livros e a venda de livros digitais têm crescido constantemente, ganhando adeptos que parecem não se importar com os possíveis riscos da leitura digital, mas sim com seus atrativos e funcionalidades, como a possibilidade de “aproximar” o texto e a imagem por meio de recursos de zoom, entre tantas outras. O livro digital também não é um produto caro, se comparado ao livro em papel. Muitas vezes é até mais barato. Mas sua leitura é mais apropriada se realizada em aparelhos desenvolvidos para essa finalidade - os chamados e-readers - e esses sim são bastante caros, comparativamente ao preço dos livros tradicionais. Ainda pouco conhecidos no Brasil, os aparelhos para leitura do livro digital conferem à palavra escrita oportunidades de acesso inéditas, permitindo ao leitor carregar na palma da mão uma biblioteca inteira.

Mas as opiniões sobre o futuro do livro digital não convergem para sua supremacia. Pelo menos não no curto prazo. Para Vitor Tavares, presidente da Associação Nacional de Livrarias, o livro digital é mais uma alternativa para quem gosta de ler, e pode incentivar a criação de novos leitores. “Mas não vai substituir o livro em papel, que ainda é bem mais acessível e democrático”, afirma. Pellegrini também não aposta na superação do livro em papel: “o novo suporte digital é volátil, evanescente, fungível e talvez não possa durar tanto. Mas isso ainda não se sabe”.

A revista Panorama Editorial, em sua edição de fevereiro e março de 2010, fez um levantamento dos aparelhos e-readers e compilou dezoito tipos (marcas) diferentes (com informações sobre preços). O mais conhecido é o Kindle, vendido na livraria digital Amazon e exclusivo leitor de seus livros digitais. Entre os mais cobiçados está o i-Pad, da Apple, que agrega múltiplas funções (como operações de notebook e telefone), além da leitura eletrônica.

Existe ainda outra forma de associação entre livros e tecnologia: os totens de produção instantânea de livros em papel, que já existem em livrarias na Europa. “O cliente escolhe o livro que vai comprar, faz seu pedido numa máquina, e, enquanto toma um café, seu livro é impresso e encadernado. É o fim dos estoques”, diz Tavares. Mas essa alternativa ainda parece distante do Brasil, onde a maioria das livrarias, embora tenha diversificado seus atrativos com a venda de outros produtos e serviços, afora os livros, ainda sequer oferece vendas pela internet (56%, segundo pesquisa da ANL).

Jovens leitores

No que diz respeito ao público leitor, Pellegrini e Tavares compartilham a opinião de que os leitores dos livros digitais serão, em princípio, majoritariamente os jovens, por sua familiaridade com as novas tecnologias. Mas há que se ressaltar uma mudança no hábito de leitura dos jovens brasileiros que não tem relação direta com a digitalização de textos ou conteúdos de livros. Na atualidade, muitos jovens percorrem com empolgação volumes grandes, com quatrocentas, quinhentas páginas, quando se trata de séries de aventuras surrealistas, com personagens fabulosos em lugares fantásticos. Os exemplos mais marcantes são Harry Potter e Crepúsculo, que se tornaram também filmes de grande sucesso.

Fenômenos como esses não eram comuns até pouco tempo atrás. A boa adesão do jovem à prática da leitura já é observada na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, segundo a qual crianças e jovens de até vinte e quatro anos leem mais que os leitores mais velhos, conforme ilustra o gráfico abaixo (para detalhes sobre gêneros lidos e faixa etária, ver infográfico nesta edição).


A relevância do público jovem também ficou evidente na 21ª Bienal do Livro de São Paulo, que aconteceu na capital entre os dias 12 e 22 de agosto. Segundo a pesquisa do Datafolha, contratada pelos organizadores da feira, grande parte do público era formada por jovens (33% com até 25 anos; 33% de 26 a 40 anos; 25% de 41 a 55 anos, e 8% de pessoas com 56 ou mais anos).

Vitor Tavares chama de “geração Harry Potter” os jovens que leem preferencialmente livros com temas de bruxarias e vampiros, que aguçam seu imaginário. Mas a leitura das obras literárias clássicas ainda fica por conta da pressão dos vestibulares, que nem sempre é acompanhada dos efeitos esperados sobre a compreensão de textos em geral ou o estímulo ao ‘prazer’ pela descoberta de seus possíveis significados por parte do jovem leitor (ver artigo de Vera Bastazin nesta revista). No tocante às preferências de leitura de forma geral, sem considerar alguma segmentação etária, o destaque fica com os livros de autoajuda (ver box a seguir).

Livros de autoajuda entre os mais vendidos

O pesquisador Arnaldo Cortina, da Faculdade de Ciências e Letras, da Unesp de Araraquara, tentou estabelecer um perfil do leitor brasileiro a partir de um levantamento nas listas de livros mais vendidos do Jornal do Brasil e do jornal Leia entre 1966 e 2004. “O que pude constatar é que os livros de autoajuda foram ganhando força a partir dos anos 1980”, afirma. O crescimento desse tipo de literatura, segundo ele, faz com que o “estilo de autoajuda” se dissemine em diversos campos de leitura, como a literatura médica, a psicológica, a nutricional, a de administração de negócios etc. “Chegamos a um ponto em que não conseguimos mais distinguir o que é ou o que não é aquilo que chamávamos inicialmente de ‘autoajuda’, tal como ela apareceu nos anos 1960 nos EUA, quando se voltava para a questão do ‘mentalismo’, do ‘pensamento positivo’ etc”. Arnaldo encaixa na categoria de autoajuda livros como O alquimista e Brida, ambos de Paulo Coelho, Amar pode dar certo, de Roberto Shinyashiki, e O sucesso não ocorre por acaso, de Lair Ribeiro. “Essa foi a grande mudança no panorama da leitura de massa contemporânea”, diz. Para ele a autoajuda cresce porque as pessoas perderam as certezas. As grandes crenças religiosas e políticas entram em crise, e o homem contemporâneo precisa se apegar a algo que substitua isso. “Por essa razão temos o esoterismo, a afirmação de valores de determinados grupos sociais, o individualismo, a aceleração do consumo nessa atual fase do capitalismo”, finaliza.

Motivos e motivações

O leitor no Brasil lê, em média, menos de dois livros por ano (1,3), sem contar os livros didáticos usados nas escolas, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Bem menos que na Argentina (5), no Chile (3) e na Colômbia (2,5). E a explicação para o ainda baixo índice de leitura passa por questões tanto socioculturais quanto econômicas.

“Ainda hoje temos um índice de analfabetismo não desprezível [no Brasil], sem mencionar os chamados analfabetos funcionais, que leem, mas não sabem explicar o que leram”, diz Tânia Pellegrini. Outra questão colocada pela professora é a do preço dos livros. “O livro no Brasil sempre foi muito caro em relação aos salários”, diz. Para Tavares, no entanto, o problema de hábito de leitura no país não é justificado pelo preço dos livros, pois há alternativas à compra, como bibliotecas, feiras, livrarias, e mesmo a internet, onde se pode ler de graça. “É a família a grande incentivadora do hábito”, comenta.

Para os leitores que desejam ler e veem o preço dos livros como um obstáculo, vale lembrar que muitos livros estão disponíveis gratuitamente (e legalmente) na internet. Sites de bibliotecas digitais, como o Domínio Público e o Brasiliana USP, oferecem milhares de obras para download gratuito, de importantes autores, como Machado de Assis, Eça de Queiroz, Lima Barreto, José de Alencar, Fernando Pessoa, Shakespeare, Dante Alighieri e muitos outros (box a seguir).

O Portal Domínio Público, lançado em 2004 pelo Ministério da Educação (MEC), já conta com um acervo de mais de 171 mil obras. Até agosto de 2010 já foram baixadas 31,3 milhões de cópias, entre textos, imagens, sons e vídeos. Já a Brasiliana, uma iniciativa da Universidade de São Paulo, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e com o Ministério da Cultura (MinC), já disponibiliza de forma online parte do acervo de 17 mil títulos doado pelo bibliófilo José Mindlin em 2006. Entre os dias 13 e 15 de outubro, durante o Seminário Mindlin 2010 – O Futuro das Bibliotecas, será lançada a versão 2.0 da Brasiliana Digital.


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Saiba mais:


•Associação Nacional de Livrarias: www.anl.org.br/web/index.php
•Câmara Brasileira do Livro: http://www.cbl.org.br/
•Revista Panorama Editorial: http://www.panoramaeditorial.com.br/
•Biblioteca Brasiliana USP: http://www.brasiliana.usp.br/
•Portal Domínio Público: http://www.dominiopublico.gov.br/

Fonte: Univesp

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A leitura como agente do conhecimento


Matéria publicada em 14 de outubro de 2010

Ricardo Azevedo

É lendo que desenvolvemos nosso pensamento crítico. Sem ele, os jovens serão sempre presa fácil da propaganda enganosa e da alienação


Recentemente, no rádio, um locutor falava em liberdades individuais, no direito de cada cidadão ser o agente de suas próprias decisões e na importância da diversidade de opiniões. Imaginei que fosse alguma ONG em defesa da democracia. Nada disso. O texto era patrocinado por um fabricante de cigarros! A liberdade a que se referia, no fundo, era uma só: a de optar por ser fumante, contrariando todas as informações médicas disponíveis.

São complexos os desafios da educação nos dias de hoje. Creio que alguns deles nem sempre são lembrados. É preciso formar nossas crianças e jovens de maneira que sejam capazes de perceber que discursos válidos e civilizadores podem ser utilizados como ações de marketing e propaganda (e também por políticos corruptos e regimes autoritários).

Fazer com que compreendam o funcionamento das sociedades fundadas em economias de mercado, para que saibam, por exemplo, separar consumo de consumismo ou propaganda de propaganda enganosa. Que discutam o que é autoridade (a confiança conquistada legitimamente), autoritarismo (a obediência obtida à força) e omissão (a desresponsabilização diante, por exemplo, de pessoas inexperientes ou dependentes e, num outro patamar, diante da sociedade).

Que tenham claro que a liberdade é muito boa, mas tem limites: ninguém tem direito de desrespeitar o direito dos outros. Que compreendam que são responsáveis também pela sociedade em que vivem.

Que aprendam a estudar (poucas escolas ensinam isso) e tenham o melhor preparo técnico possível sem esquecer de certas características de qualquer ser humano: somos incapazes de viver sem uma sociedade; somos capazes de construir linguagens e símbolos; temos dificuldade de distinguir a subjetividade da objetividade; somos efêmeros (morremos), corporais e passíveis de prazer e sofrimento; podemos pensar em assuntos abstratos como justiça, moral, política e estética; transformar a natureza e a sociedade e, ainda, fazer projetos para, com sorte e competência, construir um futuro melhor.

É importante que saibam respeitar, conviver e ser capazes de se identificar com hábitos, valores e crenças diferentes dos seus. Que discutam sobre por que têm sido levados a escolher suas profissões sem um mínimo de autoconhecimento (considerando apenas salários e a profissão da moda em detrimento de vocações). Que debatam formas alienantes e sub-reptícias de exclusão, como o “culto da celebridade” (que valoriza a pessoa “descolada” e sua “imagem”, desprezando a pessoa “comum”). E também os hábitos culturais que misturam o público e o privado, para que possam analisar as práticas que transformam vidas e relações humanas em ações de marketing e pessoas em produtos de consumo.

Que conheçam os extraordinários avanços da modernidade, mas também suas inúmeras contradições. Que tenham acesso à multifacetada cultura de nosso país. Que estejam conscientes das desigualdades de nossa sociedade (por serem imorais e injustificáveis, elas costumam deixar nossas crianças e jovens confusos e céticos).

E ainda que sejam levados a compreender que não são a plateia, mas sim os protagonistas do futuro e que, na escola, estão se preparando para construí-lo e ressignificá-lo.

Não sou pedagogo e conheço pouco os diferentes métodos educacionais. Sejam quais forem, a meu ver, deveriam ter por base assuntos como esses. Eis por que a leitura sempre terá um papel fundamental: desenvolvemos nosso pensamento crítico, principalmente, por meio dela. Sem ele, nossas crianças e jovens, tanto faz de que classe social, serão presa fácil da propaganda enganosa, da alienação e do niilismo.

A leitura como aventura e paixão

Matéria publicada em 8 de novembro de 2010

Moacyr Scliar

O professor nunca deve proibir um livro. Mesmo que a obra seja ruim ou inadequada, a missão do educador é fazer o aluno entender os motivos disso.

O romance de Ray Brad-bury, Fahrenheit 451, publicado em 1953, fala-nos de um futuro em que opiniões pessoais e o pensamento crítico são considerados coisas perigosas e no qual todos os livros são proibidos e queimados: o número 451 do título refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) na qual o papel pega fogo. Trata-se, obviamente de ficção, mas houve momentos em que essa ficção expressou a realidade. A censura acompanhou como um sombrio espectro boa parte da história da humanidade. O próprio termo “censor”, que é latino, data do século quinto antes de Cristo, quando o Império Romano delegou a funcionários a tarefa de moldar o caráter das pessoas. Mas não só em Roma acontecia isso; na Grécia clássica, em 399 a.C., o filósofo Sócrates foi condenado à morte por difundir entre jovens ideias consideradas perigosas. Desde então, não foram poucos os regimes totalitários que prenderam ou mataram aqueles que ousavam contestá-los.

A partir da invenção da imprensa, por Johannes Gutenberg, no século XV, o livro impresso passou a ser um alvo preferencial nesse processo. Já em 1559, a Igreja estabelecia o Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros que os fiéis não podiam ler, e que teve mais de 20 edições, antes de ser definitivamente suprimida em 1966. As autoridades civis exerciam poder semelhante; em 1563, o rei Carlos IX, da França, baixou decreto estabelecendo que nenhuma obra podia ser impressa sem permissão do rei. Nos séculos que se seguiram, e sob várias formas e pretextos, livros foram proibidos e até queimados, como aconteceu na Alemanha nazista. Os motivos, ou pretextos, eram de várias ordens: morais, políticos, militares. Nos Estados Unidos, em vários lugares e por várias instituições, foram censurados livros como Chapeuzinho Vermelho (numa das versões a menina oferece vinho para a sua avó), Alice no País das Maravilhas (os animais falam com linguagem humana), a coleção Harry Potter (supostamente promove bruxaria). Numa época, direções de escolas no Rio Grande do Sul proibiram os livros de Erico Verissimo, porque achavam ser imorais.

No Brasil, tivemos um período de censura severa, quando do regime autoritário (1964-1985). As razões apresentadas não raro beiravam o ridículo; numa exposição de “material subversivo” apreendido em Porto Alegre, havia um livro com a seguinte legenda: “Obra esquerdista em chinês”. Era uma Bíblia em hebraico. Mais recentemente, e nas escolas, surgiram problemas com livros que narravam cenas de sexo e de violência, às vezes selecionados por técnicos da área educacional. Por outro lado, sabemos que a disseminação da pornografia e da violência é cada vez mais frequente. E isso sem falar na questão do politicamente correto, que procura evitar palavras ou expressões potencialmente ofensivas a grupos étnicos ou religiosos, ou a opções sexuais. Pergunta: o que devem fazer os pais e educadores diante dessa situação?

Creio que uma expressão consagrada pela saúde pública aqui se aplica perfeitamente: é melhor prevenir do que remediar. E isso por uma simples razão: é tão grande o volume de informações atualmente disseminadas, não só por livros, mas também pela internet, por vídeos, pela própria tevê, que é impossível evitar o acesso de crianças e jovens a esse material. O melhor é prepará-los para que possam identificar os potenciais riscos que estão ocorrendo. Mas há um aspecto adicional. Esses riscos não são como os do fumo ou das drogas, substâncias sempre nocivas, e que, em qualquer dose, envenenam o organismo. O material veiculado pelos meios de comunicação pode se transformar numa fonte de aprendizado. É como vacinar uma pessoa: ela é inoculada com germes inativos e seu organismo preparará anticorpos que vão defender essa pessoa de doenças. Isso exige um estreitamento dos laços entre pais e professores, de um lado, e os jovens de outro. No caso da tevê, por exemplo, é muito bom que o pai ou a mãe sente ao lado da criança e converse com ela sobre o que aparece na tela. Também é muito bom que os pais leiam para os filhos quando esses ainda são pequenos. Isso, além de introduzir a criança ao mundo dos livros, representará um vínculo emocional que persistirá por toda a vida. O menino e a menina associarão o livro à imagem protetora do pai ou da mãe.

Em relação à escola, vale o mesmo raciocínio. Quando um jovem me pergunta que livros deve ler, respondo: “Em primeiro lugar, aqueles que os professores indicam; eles conhecem o assunto, eles têm condições de fazer boas recomendações”. Mas nunca digo que o jovem não deve ler tal ou qual obra, tal ou qual autor. Meu aprendizado como leitor passou por livros que depois considerei tolos ou ruins. Mas isso foi útil para que eu pudesse aprender a formar o meu juízo crítico. Na leitura, a gente avança pelo método de tentativa e erro, de aproximações sucessivas.

Em resumo, proibir ou censurar, não. Recomendar, debater, ensinar, sim. Vivemos num mundo cheio de imperfeições e perigos, e o que podemos fazer com nossos filhos e alunos é ensiná-los a navegar por esse mar turbulento, em navios cujas velas são as páginas da grande literatura. Ler é aventura, ler é paixão.