quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Era uma vez uma boa história

Júnior Milério,12/09/2010

Em entrevista, a contadora de histórias Alessandra Giordano fala sobre os segredos e o poder das narrativas: “A história é a coisa mais barata do mundo e é amor puro e verbalizado”

Foto: Getty Images
Contar histórias fortalece o vínculo entre pais e filhos
e é uma forma eficaz de transmitir ensinamentos

Fadas, bruxas e monstros encantam crianças, adolescentes e até mesmo adultos. E a contadora de histórias Alessandra Giordano vem despertando a atenção de ouvintes há mais de 20 anos. Ela acredita que histórias podem colaborar para um ambiente familiar mais harmonioso e que, juntos, pais e filhos podem trabalhar a criatividade.

Para a autora do livro “Contar Histórias, Um Recurso Arteterapêutico de Transformação e Cura” (Artes Médicas), a história tem o poder de fortalecer e ajudar a criança a querer ser melhor. “E não custa nada, é a coisa mais barata do mundo e é amor, amor puro, amor verbalizado”, define.

Alessandra ainda afirma que, no momento de contar e ouvir um conto, os pais se fortalecem no filho – que, por sua vez, encontra força nos pais. “Nunca nos esquecemos das histórias que nossos pais nos contaram ou ainda contam. E os pais jamais se esquecem do olhar atento de um filho”, diz. “E só assim – olhando no olho, falando, abraçando e contando histórias sobre coisas boas – é que a gente se fortalece”

Um ambiente intimista, personagens e histórias adequadas desenvolvem um elo de afeto e respeito. Para a contadora de histórias, isso “é de uma grandeza que a gente não tem noção do sentido que faz na vida de uma pessoa”.
Foto: Arquivo pessoal
Para Alessandra Giordano, histórias têm o poder de curar

Veja abaixo a conversa que o iG Delas teve com a contadora de histórias Alessandra Giordano

iG: No seu livro Contar Histórias, a senhora esclarece que a origem dos contos orais está nas cantigas de ninar. Qual a importância de se contar histórias para bebês?

Alessandra Giordano: As informações que temos sobre a origem dos contos de tradição oral explicam que, na realidade, eles são as primeiras histórias que povoaram a mente do ser humano, ou seja, eles vêm das cantigas de ninar. Isso mostra a importância de se contar histórias para bebês., pois além do contato físico entre o contador e o ouvinte, a história contada cria um elo de afeto, fundamental para o desenvolvimento da criança.

iG: Quais são as características de um conto oral e o que ele tem de diferente de uma história escrita?

Alessandra: Os contos de tradição oral são os que não têm autores. Nasceram de crenças em comunidades tradicionalmente orais e existem desde antes da palavra escrita. Normalmente tratam do passado, não têm idade ou país de origem. São documentos históricos de uma comunidade, retratando o percurso de evolução de um povo, e colaboram também com as transformações necessárias nas relações humanas. Já os atuais têm autores que considero verdadeiros artistas da palavra.

iG: Com uma carreira como contadora de histórias, como a senhora define sua experiência?

Alessandra: Estou estudando a importância de se contar histórias na atualidade, a necessidade que o homem moderno tem de ouvir contos. Sou a quarta geração de contadora de histórias da minha família, vivo de narrar boas histórias. No meu consultório, utilizo esse recurso para auxiliar no desenvolvimento da criatividade. Já tive ouvintes em asilos e praças. Participei de um projeto que levava contos de fadas para meninos de rua. Para que eles pudessem ter acesso ao sonho, à fantasia, acreditarem que são capazes de construir a própria felicidade. É uma caminhada de muita satisfação. O conto adequado, na hora certa, despertando o interesse no ouvinte, é muito eficaz. Tenho percebido isso atuando no consultório. A melhor forma de ilustrar conhecimentos para as crianças também é contando histórias. É através de metáforas que elas compreendem melhor questões do dia a dia.

iG: Que função têm os contadores de histórias atualmente?

Alessandra: O mundo atual está muito frenético, o computador te coloca em contato com qualquer outro canto do mundo em segundos e isso rouba a quietude das pessoas, deixando tudo acelerado. Hoje a função do contador de histórias é a de resgatar a paz interna. A roda de contação de histórias serve para resgatar valores, respeito e solidariedade. Ainda ajuda na construção da própria comunidade. A necessidade de histórias hoje é mais que urgente, é preciso entender o por quê de se contar histórias, sua importância na sociedade como troca mútua de conhecimentos.

iG: Os pais podem assumir essa função para seus filhos?

Alessandra: Temos que pensar em um princípio básico. O ser humano precisa , antes de mais nada, cuidar de si mesmo. Um pai ou uma mãe que tem sua criança interna bem cuidada vai realizar uma troca com seus filhos. Ultimamente estamos escravos do relógio. Precisamos nos permitir tirar uma tarde para sentar e ler um conto. Pais e mães são sempre nossos heróis, tudo que eles ensinam são de primeira grandeza. É atribuída a Einstein uma frase sobre isso: “Se quiser que seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que seus filhos sejam mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas.”

iG: Onde, para quem, por que e qual história contar são alguns pontos esclarecidos no seu livro. Como as pessoas podem contar uma boa história?

Alessandra: Contar histórias é uma arte e, como toda arte, possui segredos e técnicas. Estudando o poder da linguagem, a gente sabe que existem técnicas que podem ser facilitadoras para uma boa narrativa. É preciso convidar o ouvinte para ouvir uma história. É preciso instigar a imaginação das crianças, tentando despertar o interesse dela pela trama da história. O narrador precisa conhecer o público que vai ouvir aquela história para oferecer uma mensagem que faça sentido para o ouvinte. Não é fácil, pois para ouvir uma boa história é preciso concentração e o narrador precisa ter propriedade do que está falando, conhecer as informações que estão nas entrelinhas do conto. A história deve fazer parte do narrador até o momento em que ele não conta mais a história, mas canta. A mensagem flui de uma forma cantada, harmonizada, tocando o coração da sua audiência. É nesse momento que percebemos a sabedoria do contador, ao definir qual a mensagem que ele deseja transmitir para um público específico, naquele momento da narração.

Ler para os bebês aumenta vocabulário

Cáren Nakashima, 18/09/2010

A partir dos seis meses, hábito de ler para os bebês ajuda a formar melhor vocabulário e facilita alfabetização mais tarde

Foto: Getty Images
A partir dos seis meses, bebês já se beneficiam da leitura de livros

Quem pensa que ler livros e contar histórias é importante só para crianças maiores se engana. Ler para os bebês os deixa receptivos a palavras e sentenças mais complexas, além de apresentá-los aos livros como objetos e à ideia da linguagem escrita. No futuro, eles desenvolverão melhor linguagem, capacidade de interpretar histórias, começarão a ler com facilidade e associarão os livros a uma imagem positiva – e não à obrigação de estudar. “Bebês que ‘leem’ com os pais crescem entendendo que livros são fontes de prazer e informação, porque estão com eles em uma situação gostosa – seja nos seus braços ou no colo, ouvindo a sua voz favorita”, resume a americana Perri Klass, pediatra, jornalista e escritora.

A Academia Americana de Pediatria recomenda a leitura diária para as crianças desde os seis meses de idade. Na última Bienal do Livro, o impacto da leitura sobre o desenvolvimento cognitivo e da linguagem dos bebês foi tema de um seminário, que apontou conclusões de estudos internacionais. Entre os dados, ao entrar na escola, as crianças de três anos que já possuem o hábito de leitura em família apresentam um vocabulário 300% maior que aquelas que não cresceram entre as brochuras.

“Embora ainda não existam pesquisas nacionais sobre o tema, os estudos que vêm sendo desenvolvidos em outros países se aplicam para o Brasil, afinal a natureza humana e o processo de desenvolvimento são universais”, diz o psicólogo e educador João Batista Oliveira, presidente do IAB (Instituto Alfa e Beto), que dissemina e promove políticas e práticas de educação. João fala de evidências científicas que provam que o hábito da leitura, se desenvolvido desde cedo, tem influência positiva não apenas sobre a alfabetização, mas também sobre o desenvolvimento cognitivo em geral – o que é fundamental para o sucesso na escola.

Vantagens

Ler desde cedo para o seu filho o ajuda na familiarização com as letras, características da escrita, sons, segmentação das palavras em sílabas. “Mais adiante, a criança identificará fonemas e compreenderá como funciona o sistema alfabético”, diz.

Os benefícios não param por aí. Cultivar o hábito da leitura desde cedo estreita os laços entre mãe e filho. “Os laços se fortalecem por meio de interações regulares, sensíveis e amorosas. Esta aproximação positiva reforça a saúde emocional, o que ajudará a criança, no futuro, a se empenhar na escola”, conta o professor e pesquisador americano da Universidade de Vanderbilt, David Dickinson.

Para o especialista, quanto mais cedo a capacidade de linguagem é desenvolvida por leituras regulares, mais cedo os pequenos começarão a ler. “Além do mais, com a leitura frequente a criança aprende a ter foco e concentração, uma vez que a mãe a mantém prestando atenção no livro”, completa.

Para seu filho gostar de ler

Camila de Lira, 04/12/2010

Foto: Getty Images
Pais devem ler para seus filhos e para eles mesmos, indicam autores

Autores consagrados de livros infantis defendem: para incentivar a leitura nas crianças, é preciso deixar que elas escolham

O que Pedro Bandeira, Angela Lago e Ana Maria Machado tem em comum? Além de todos serem autores infantis de sucesso, eles concordam em uma coisa: só se pode incentivar crianças a ler se os adultos também lerem. E para eles a criança precisa descobrir qual forma e por qual meio prefere ler. “Não conheço uma criança que não goste de histórias”, diz a ocupante da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras Ana Maria Machado, autora de mais de cem livros – entre eles “Menina Bonita do Laço de Fita” (Editora Ática).

Os autores ressaltam a importância de se contar histórias para as crianças antes mesmo que elas aprendam a ler. Ângela Lago, autora de “Cenas de Rua” (Editora RHJ), destaca que uma criança que compreende uma história consegue entender os diálogos da vida.“Os pais que contam histórias para as crianças vão formar leitores. Leitores de tudo: da vida, do dia a dia, do outro, do teatro, do cinema, da TV, da internet”, afirma Ângela.

Nesse ponto, Ana Maria diz que a leitura de quadrinhos pode ajudar em muito. “É mais difícil ler quadrinho que livro. O quadrinho exige que você saiba quem está falando, e a criança tem que perceber as relações temporais, é uma narrativa muito mais complexa”, diz. Pedro Bandeira, autor de “O Fantástico Mistério de Feiurinha” (Editora FTD), diz que os pais precisam deixar que a criança leia tudo, sem preconceitos. Só assim a sua curiosidade vai ser saciada.

De acordo com Ângela, é importante que as crianças escolham os livros por si mesmas. “Todo o livro pode ser fechado na página 2 ou 3, não tem importância. Há livros demais, e as crianças irão encontrar algum que goste”, diz. “Não existem maus livros. Mal faz não ler”, completa Pedro. Por isso, é bom que os pais deixem que os filhos entrem em contato com livros diferentes.

Como é complicado que os pais saibam e até tenham os um grande número de títulos, a escola se torna fundamental. Os autores afirmam que o papel da escola é tanto pré-selecionar alguns livros para as crianças, quanto prover um ambiente de leitura. Ângela Lago destaca a importância da biblioteca na formação de leitores. “A leitura não está presa ao consumo, ela requer uma escolha de qualidade e um tempo grande para absorver. As crianças aprendem isso na biblioteca”, diz.

Assim, a internet também pode servir como uma plataforma para que as crianças tomem gosto pela leitura. “A internet é mais um meio escrito. Meio bastante rápido. Antigamente, tinha que procurar numa enciclopédia, que normalmente estava desatualizada”, diz Pedro Bandeira. A preocupação de que ela vai substituir o livro, segundo Ana Maria, é descabida. “A internet vai substituir o livro de consulta, o dicionário, mas não a ficção”, completa.

Segundo os autores, de nada valem todos esses esforços se os pais não lerem para eles mesmos. “Uma criança tem a tendência de comer com a mão. Ela só usa talheres porque vê os pais usando. É a mesma coisa com os livros”, resume Ana Maria.

Ziraldo: “Fora do livro não há salvação!”

Camila de Lira, 04/12/2010

Os vários livros de Ziraldo atravessaram gerações e isso não é nenhum mistério. Outra coisa que não é um mistério para o autor é o segredo para fazer com que as crianças leiam. “Para que a criança goste de ler, leia com ela, leia para ela”, afirma.

 Foto: Ismar Ingber
"O homem só chegou à lua porque, depois de Gutemberg,
todo mundo teve acesso ao livro", afirma o autor

O criador do “Menino Maluquinho” defende que as escolas fundamentais deveriam se preocupar apenas em ensinar a leitura, a escrita e a compreensão dos textos, como ponto de partida para o aprendizado contínuo. “O resto, a vida, o ginásio e a universidade depois organizam e ensinam”, diz. Quando o assunto é internet, Ziraldo não se opõe, mas afirma temer que a tecnologia substitua os livros.

Confira a entrevista concedida ao iG Delas.

iG: O que os pais podem fazer para incentivar a leitura nas crianças?

Ziraldo: Passei mais de vinte anos atrás desta resposta. Até encontrá-la. Juro! Para que a criança goste de ler, leia com ela, leia para ela. Histórias para crianças eram chamadas – na época em que não havia televisão, cinema e rádio (pelo menos na Inglaterra, um país de leitores) – de bedtime stories. Eram os pais que liam os livros que estimularam, por exemplo, as Irmãs Brönte a se transformarem em grandes escritoras. Os pais e os educadores não podem fazer ideia de como é importante a presença do que se pode chamar de literatura na vida de seus filhos e alunos.

iG: E o que a escola pode fazer?

Ziraldo: A leitura é a minha preocupação imediata. É quase uma obsessão do locutor que vos fala. Eu acho que a escola fundamental brasileira devia largar tudo e ensinar só quatro coisas às crianças brasileiras, até que elas estivessem equipadas para receber o ensino curricular e aquilatar informações recebidas. As quatro coisas são: ler, escrever, contar e entender o que é ser cidadão. O resto, a vida, o ginásio e a universidade organizam e ensinam depois. O Brasil devia decidir o seguinte: a partir de hoje nenhuma criança brasileira cresce sem dominar esses quatro temas. No final do século não teríamos um só analfabeto no Brasil. E teríamos um povo capaz de escolher com lucidez o seu destino.

iG: Qual a importância dos livros?

Ziraldo: Vamos deixar de falar em literatura e falar de livros. Livros de histórias, livros que contam casos, que despertam a curiosidade das crianças para o mundo. Para fazer um país justo e feliz, bom para os filhos e os filhos dos filhos, um povo tem que saber escolher. E só se aprende isto através da palavra escrita. O homem só chegou à lua porque, depois de Gutemberg, todo mundo teve acesso ao livro e ao conteúdo que eles preservam. Fora do livro não há salvação!

iG: E a internet: facilita ou dificulta que as crianças leiam mais? Por quê?

Ziraldo: A internet é o espaço de comunicação universal de mais fácil acesso que existe no mundo. Não existe o usuário de internet, assim como existe o flamenguista, o corintiano, o comunista ou os religiosos. Não é uma categoria. Trata-se de um pedaço da humanidade que navega ali, sem aproveitar o que ela tem de melhor: a capacidade de nos passar toda e qualquer informação que procuramos.

iG: A internet pode ser usada a favor da leitura? Como?

Ziraldo: Existem sites especializados em leitura online. Alguns excelentes, onde é possível encontrar grandes obras de grandes autores. Acredito que seja uma forma de estilmular a leitura, você não acha? Apenas espero que o livro não perca, para a tecnologia, sua importância na história.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Importância da Leitura - João Scortecci

Ler é importante.

Até os que não praticam o “ler é importante” reconhecem o seu valor como modelo eficiente na busca do conhecimento individual e também coletivo, essencialmente universal.

Hoje existem diversas outras maneiras também eficazes para a obtenção do conhecimento, mas a leitura é ainda o melhor dos caminhos. O hábito, do qual tanto se fala como necessidade para o gosto pela leitura, lembra o de um corpo que aos poucos vai ganhando, com exercícios, o que chamamos de condicionamento físico.

Ler também é divertido. Ou não é? A leitura de um bom livro lembra paixão. Um bom livro não se larga, não se abandona, não se esquece. É assim que paixão vira amor.

O início – como tudo na vida – não é fácil. É preciso vontade. Opções mais sedutoras acabam nos levando para o menos trabalhoso. O pecado da preguiça opera desculpas e faltas disso e daquilo, provocando em nós o aparecimento do que chamamos de silêncio cultural. Silêncio cultural é a mesma coisa que falta de conteúdo. Corremos o risco de uma geração que só lê manchetes e links, que nem sempre, em sínteses, expressam o cerne da questão.

Antes que eu esqueça, do que deve ser lembrado, é que o tal hábito da leitura passa pelo esforço das partes (mercado, profissionais do livro e governo) e de todos os agentes (professores, intelectuais e leitores). Não há educação quando a ignorância habita a família, a escola, o trabalho, os governos. Não há leitura sem o comprometimento do livro com suas mais diversas ferramentas. O livro precisa colocar-se aos olhos. Ele é mágico, oportuno e pluriapto. A inclusão cultural pela leitura deve, e precisa, passar pela coragem política do mundo real e virtual.

O livro pode até acabar, na forma como hoje o conhecemos, na plataforma papel, mas a leitura não. Exclusão tem cura quando não é doença. Adentrar em uma livraria não precisa ser um desafio incomum.

Outro dia – ainda na minha adolescência – quando descobri que “ler é importante” alguém desavisado me disse: Um país se faz com homens e livros. Foi Lobato quem me disse do papel para o meu profundo despertar. Naquela tarde incomum atendi ao seu chamado.

Depois escutei também os segredos de Alencar, Sabino, Clarice, Machado, Bandeira, Cecília, Drummond, Graciliano, Lygia, Cabral, Bilac, Rachel, Callado, Gullar e todos os outros Amados.

João Scortecci