quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Projeto Entre na Roda visa a capacitação de professores

Professor que não lê não consegue passar para o aluno o prazer da leitura. O Entre na Roda permite que os professores reaprendam a gostar dos livros.

O Entre na Roda é coordenado pelo CENPEC - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária. Participam professores de escolas públicas, bibliotecários e voluntários.

"Se uma criança lê e não entende o que ela lê, ela não pode ir bem na aula de português. Nas outras matérias também porque ela não consegue entender o exercício de matemática, não consegue entender uma prova de ciências", afirma Conceição Mirandola, diretora da Fundação Volkswagen.

São oito encontros, de oito horas cada um. Quem explica a oficina é América Marinho, formadora do CENPEC. "Cada oficina, cada encontro, a gente enfoca um gênero. A gente trabalha com conto literário, com novela, romance, teatro, poesia, jornal e com textos de divulgação científica, que é a sétima oficina. A oitava é uma mostra dos trabalhos, do que eles fizeram nas escolas ou nas instituições em que eles trabalham."

O programa já capacitou mais de 7,5 mil professores de Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e de São Paulo. "Uma vez formado, uma vez preparado, durante toda a vida útil dele enquanto professor esteja naquele município onde ele recebeu a formação, ou se ele está concursado em outro município, ele leva o conhecimento”, completa Conceição.

A professora Ana Carolina Escobar aprova o projeto. "Eu queria passar o encantamento que já veio da minha família, com aqueles primeiros contatos com livros e todo aquele encantamento, e eu percebi, na primeira escola que eu entrei que as crianças não tinham contato com o livro, e que a biblioteca era uma sala trancada."

"Nós precisamos também que os nossos professores sejam cada vez mais bons leitores”, diz Vanda Romanha, professora.

"Eu acho que a gente tem que deixar de apresentar a leitura como uma obrigação, como uma tarefa. Muitas vezes, você dá um autor, um livro fantástico, só que você apresenta um questionário. Então, ao invés de você absorver aquela arte, aquela criação, aqueles personagens, aquela história, em outro momento, em outro contexto cultural, em outro país, não, você tem um questionário pra responder de que escola literária é aquele autor, o que determinado personagem representa dentro da história... Então o jovem ao invés de ser despertado pra isso, ele passa a ter aversão”, explica Zoara Failla, coordenadora do Instituto Pró-Livro.

No segundo encontro, os professores ganham um baú de livros. Cem títulos para o ensino fundamental, e duzentos para a educação infantil. "Sentir prazer de fato. De pegar, de ler um livro, e ver como um tesouro, que é o que a gente fala do baú, que é o nosso tesouro. Identificar e reconhecer. Segundo, pela própria escrita repertoriar as crianças, elas entenderem, compreenderem o quão importante é essa leitura, não só hoje como até o resto da vida delas”, fala Vivian Netcer, professora.

“Para os meus próprios alunos, foi riquíssimo, porque eu já tenho alunos que estão escrevendo o seu poema. Eles não têm nem sete anos ainda e já fazem poemas. Foi uma grande satisfação”, enfatiza Fátima Pazzini.

Edição do dia 09/10/2010
Fonte: Ação

Mais sobre o Projeto Entre na Roda

O que faz

O Projeto Entre na Roda, em duas modalidades Educação Infantil e Ensino Fundamental, oferece apoio a secretarias municipais, estaduais e a instituições para formar orientadores de leitura, entre educadores, bibliotecários e voluntários da comunidade, para que atuem em diferentes espaços – escolas, bibliotecas, associações, hospitais, asilos etc. –, estimulando o gosto pela leitura.

Com quem faz

O projeto é uma iniciativa da Fundação Volkswagen e integra o Programa Território Escola. O Cenpec elabora e distribui os materiais de apoio, faz o acompanhamento das ações nas escolas e em outros espaços de leitura onde o projeto foi implantado e encarrega-se do programa de formação para profissionais e voluntários que exercem o papel de orientadores.

Algumas fotos do Projeto Entre na Roda


Vídeo sobre o Projeto Entre na Roda


Fonte: Cenpec

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um país em busca de leitores

Matéria publicada em 01 de Agosto de 2010

O Brasil tem cerca de 190 milhões de habitantes, dos quais 95 milhões podem ser considerados leitores; mas eles leem, em média, 1,3 livro por ano. Não se trata de rejeição à leitura; uma enquete mostrou que 75% gostam de ler. Pergunta: por que, então, os brasileiros não leem mais?

por Moacyr Scliar

 No começo do século XIX, o Rio de Janeiro tinha apenas duas livrarias e, provavelmente, sem muitos clientes: um censo realizado no final daquele século, na mesma cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, mostrava uma porcentagem de analfabetismo girando em torno de 80%.

Não é difícil explicar essa situação de analfabetismo e de falta de leitores. No Brasil colonial, o ensino era precário e reservado a uns poucos filhos de privilegiados. Universidades não existiam: os jovens que podiam, iam estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal. As coisas começaram a mudar quando, em 1808, a corte portuguesa, fugindo à invasão napoleônica, se transferiu para o Brasil. Foi criada a Biblioteca Real e a primeira gráfica editora, a Imprensa Régia, que tinha o monopólio da edição de livros e só publicava o que era autorizado pela Coroa. Quando esta disposição foi revogada (em 1821, às vésperas da independência e, provavelmente, anunciando-a), multiplicaram-se os jornais, folhetos e revistas.

Já as livrarias foram o resultado da enorme influência cultural que a França sempre teve sobre o Brasil. Muito importantes foram os irmãos Laemmert, Edouard e Heinrich, e Baptiste Louis Garnier. Sediados no Rio de Janeiro (a Garnier tinha filial em São Paulo), esses livreiros importavam obras da Europa e editavam autores brasileiros: Garnier lançou José Veríssimo, Olavo Bilac, Artur Azevedo, Bernardo Guimarães, Silvio Romero, João do Rio, Joaquim Nabuco; Laemmert tinha em seu catálogo, Graça Aranha e Machado de Assis. Suas livrarias tornaram-se célebres pontos de encontro de escritores. Àquela altura, começo do século XX, começava a surgir um público leitor, às vezes surpreendendo os editores: quando a Laemmert se recusou a publicar uma obra que parecia “cientificista” e extensa, o próprio autor resolveu financiá-la. E fez muito bem, Euclides da Cunha: Os sertões, magistral retrato da guerra de Canudos e do Brasil sertanejo, vendeu, em pouco mais de um ano, 6 mil exemplares. Autêntico best-seller.

O fato de que os escritores não conseguiam viver de literatura (muitos eram funcionários públicos ou profissionais liberais), não impedia a existência de uma vida literária. Em 1897, e por influência de Machado de Assis, era criada a Academia Brasileira de Letras. Com o movimento modernista de 1922 surgiram revistas literárias, como a Klaxon, para a qual escreveram Anita Malfatti, Sérgio Milliet, Mário de Andrade e Tarsila do Amaral.

Nas primeiras décadas do século XX apareceram editoras importantes: a José Olympio, que editou sucessos como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e Vidas secas, de Graciliano Ramos, além de Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e Guimarães Rosa, sem falar em clássicos da literatura mundial, como Balzac, Dostoievsky, Jack London e Tolstoi. A produção crescia; o número de editoras aumentou quase 50% entre os anos de 1936 e 1944. Em meados do século XX o país editava, por ano, cerca 4 mil títulos, representando 20 milhões de exemplares. Durante o Estado Novo, regime de exceção que ampliou os poderes de Getúlio Vargas (presidente de 1930 a 1945), a atividade cultural passou a ser controlada pelo DIP, Departamento de Imprensa; a censura estava presente no rádio, na imprensa, na música, no ensino. E foi também Vargas que, em 1937, criou o Instituto Nacional do Livro, com o objetivo de desenvolver uma política governamental na área.

A qualidade editorial melhorou muito; não era raro que as edições fossem ilustradas por artistas famosos, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Santa Rosa. Novas revistas surgiam, a Brasiliense, para a qual colaboravam intelectuais de esquerda (Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Sérgio Milliet, Josué de Castro e Florestan Fernandes), a Civilização Brasileira, dirigida por Enio Silveira, a Tempo Brasileiro, dirigida há 50 anos por Eduardo Portella e contando com a colaboração de Sérgio Paulo Rouanet, Marcílio Marques Moreira e José Guilherme Merquior.

E OS LEITORES?

Ainda não são muitos. O Brasil tem cerca de 190 milhões de habitantes, dos quais 95 milhões podem ser considerados leitores; mas eles leem, em média, 1,3 livro por ano. Nos Estados Unidos, esta cifra é de 11 livros por ano; na França, 7 livros por ano; e na Argentina, 3,2. Não se trata de uma rejeição à leitura; uma enquete mostrou que 75% gostam de ler. Pergunta: por que, então, os brasileiros não leem mais? O argumento mais comum é o do preço do livro, de fato ainda muito caro. Mas isso é o resultado de um círculo vicioso: o livro custa caro porque vende pouco, e vende pouco porque é caro. Dizia-se que o brasileiro não gostava de livro de bolso, que preferia edições de luxo, com capa dura, para, das prateleiras, darem a impressão que o dono da casa era pessoa culta. Agora, porém, vê-se que o livro de bolso tem um público cada vez maior.

Aumentar a venda é uma forma de baixar o preço, mas isso só acontece quando as pessoas têm o hábito da leitura. Este, por sua vez, resulta de um processo que se desenvolve por etapas. A primeira dessas etapas ocorre na infância e depende do ambiente afetivo e cultural em que vive a criança. O conceito de “famílias leitoras”, da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), não é uma realidade no Brasil: 63% dos não leitores dizem que nunca viram os pais lendo – faltou-lhes, portanto, um modelo. A TV tem sido o centro da vida familiar; aquela cena do passado, a mãe ou o pai lendo para os filhos, é uma raridade.

A etapa seguinte é a da escola. As enquetes mostram que, quanto maior o nível de escolaridade das pessoas, maior é o tempo que dedicam à leitura. Entre os entrevistados com ensino superior, apenas 2% não leem. O problema é que, no Brasil, poucos chegam à universidade: 43% dos jovens de 15 a 19 anos nem sequer concluem o ensino fundamental. Faltam bibliotecas em 113 mil escolas, ou seja, em 68,81% da rede pública de ensino.

Mas, de novo, as coisas estão mudando. Os últimos governos têm se esforçado para preencher esta lacuna; em 2008, as escolas receberam, em média, 39,6 livros cada uma, por meio do Programa Nacional de Bibliotecas Escolares. A par disto, um grande esforço está sendo desenvolvido para estimular o hábito da leitura entre os escolares. No passado, o ensino da literatura era baseado quase que exclusivamente nos clássicos. Autores importantes, decerto, mas que falam de outras épocas, de outros locais, e numa linguagem nem sempre acessível. Hoje, as escolas trabalham também com escritores contemporâneos, e a interação com o texto é a regra. Os alunos fazem dramatizações, escrevem suas próprias versões dos textos, editam jornais na escola. Os eventos literários são frequentes nas cidades brasileiras: as feiras de livros, as bienais de literatura (em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba) e os festivais literários, dos quais o de Paraty, que traz ao país nomes de destaque na literatura mundial, é um exemplo.

A indústria editorial está em franca expansão, acompanhando o crescimento da economia como um todo. O ano de 2010 mostra-se muito promissor para o mercado editorial e para o crescimento do hábito de leitura no Brasil, diz a presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Rosely Boschini. Os números dão apoio a seu otimismo: de 2006 a 2008 foram lançados, aproximadamente, 57 mil novos títulos e impressos mais de um bilhão de exemplares. A indústria editorial atrai investidores estrangeiros, e está deixando de lado o elitismo do passado para buscar o público leitor, sobretudo o leitor jovem. Redes de livrarias estão em expansão, e também a oferta do livro de porta em porta: em 2009, quase 30 milhões de livros foram assim vendidos, sobretudo para setores mais pobres. O Brasil tem hoje 2.980 livrarias, uma para cada 64 mil habitantes. Abaixo do preconizado pela Unesco – uma livraria para cada 10 mil habitantes –, mas com aumento de 10% nos três últimos anos. E, convenhamos, o número está bem acima das duas livrarias cariocas do começo do século XIX.

“Oh! Bendito o que semeia/ livros, livros à mão cheia”, escreveu, no século XIX, o poeta Castro Alves. Abolicionista, Castro Alves lutou pela libertação dos escravos, um objetivo afinal alcançado. Mas, e com isso o poeta, sem dúvida, concordaria, libertar o povo da escravidão da ignorância não é uma causa menos importante.

Moacyr Scliar médico e escritor, já publicou dezenas de livros e integra a Academia Brasileira de Letras. Seu último romance, Manual da paixão solitária, venceu o Prêmio Jabuti em 2009.

Ilustração: Daneil Kondo

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Médicos e psicólogos receitam livros para tratar doenças físicas e emocionais

Cristina Almeida
Matéria publicada em 14/08/2008

Em um evento como a Bienal do Livro, que começa nesta quinta-feira, em São Paulo, muita gente pode se perguntar: existe público para tanto livro? A resposta seria afirmativa se as pessoas parassem para pensar que não somos nós que lemos os livros, mas eles que nos lêem. Se a arte imita a vida, as obras literárias são nosso espelho e, portanto, uma ferramenta para o autocconhecimento. E isso não tem nada a ver com literatura de auto-ajuda.

Livros têm sido utilizados no tratamento de vários tipos de doenças físicas e emocionais, incluindo dependências, abusos, disfunções e depressão. Embora o termo "biblioterapia" tenha sido cunhado recentemente, suas origens remontam à Antigüidade. Em Tebas, 1200 anos a.C., a inscrição na entrada de uma biblioteca - "O lugar para curar a alma" - sinaliza que os povos antigos já conheciam as propriedades terapêuticas da leitura.

A biblioterapia foi reconhecida nos EUA em 1939, mas somente em 1950 é que passou a ser utilizada como coadjuvante em terapias de grupo. Naquela época, guiadas por um comitê previamente designado pelas autoridades locais, as bibliotecas públicas organizavam encontros para que as pessoas tivessem a oportunidade de discutir suas dificuldades, devidamente guiados por um facilitador.

De acordo com os especialistas, a leitura permite que, através dos personagens e suas histórias, encaremos nossos problemas com maior distância, o que aumenta a possibilidade de compreendermos os sentimentos envolvidos em determinada circunstância dolorosa.

A técnica funciona em três etapas distintas: identificação (momento em que o leitor entra em contato com algum ponto em comum com a sua vida); catarse (ocorrida a identificação, o leitor se libera da tensão emocional); insight (nova perspectiva sobre determinado sentimento que repercute na vida prática, permitindo a mudança necessária).

OS CLÁSSICOS DA LITERATURA 'TERAPÊUTICA

Para mulheres envolvidas nas angústias domésticas e acabam atormentadas pelo desejo de evasão:
"Madame Bovary" (Gustave Flaubert), "Anna Karenina" (Leon Tolstoi), e "Casa de Bonecas" (Henrik Ibsen)

Para pais possessivos:
poema "Os filhos", do livro "O profeta" (Gibran Khalil Gibran)

Para adolescentes aflitos pela incomunicabilidade com os pais:
"Carta ao Pai" (Franz Kafka)

Para os deprimidos:
"Bartleby, o escrivão" (Herman Melville) e "Oblomov" (Ivan Goncharov)

Para quem está desesperançoso:
"As aventuras do Sr. Pickwick" (Charles Dickens)

Para viciados em trabalho que vivem estressados:
"Meditações" (Marco Aurelio) e "Cartas a Lucílio" (Lucio Sêneca)

Para os ansiosos e hipocondríacos:
"O mal obscuro" (Giuseppe Berto, Ed. 34)

Para mulheres que sabem que devem mudar, mas adiam uma decisão:
"Mulheres que amam demais" (Robin Norwood, Ed. Arx), "O despertar" (Kate Chopin, Ed. Paz) e "Mulheres que correm com os lobos", (Clarissa Pinkola Estés, Ed. Rocco)

Para quem não consegue administrar o sofrimento afetivo ligado à solidão e à traição:
"Fragmentos de um discurso amoroso" (Roland Barthes) e "Eros e Pathos" (Aldo Carotenuto, Ed. Paulus)


Um livro, três vezes ao dia

Andrea Bolognesi, psiquiatra italiano especializado em biblioterapia, diz que conheceu a técnica quando ainda era estudante de medicina. Identificando em si mesmo sinais evidentes de hipocondria e neurose, apresentou-se no consultório de um famoso neuropsiquiatra para pedir ajuda. Ao contrário do que esperava, o médico não lhe receitou um remédio, mas escreveu no corpo de seu receituário o título de um livro: "La nevrosi, un doloroso stile di vita" (A neurose, um doloroso estilo de vida, sem tradução para o português). Bolognesi conta que o livro lhe ajudou a entender melhor seus medos e ansiedades.

Agora é ele quem, sentado do outro lado da mesa, receita livros para seus pacientes, acreditando que, em alguns casos, eles têm um efeito mais profundo que o dos remédios. "É importante ressaltar, porém, que se trata de uma técnica coadjuvante que pode potencializar algum tratamento tradicional em curso, mas jamais substituí-lo", explica o psiquiatra.

Em geral as questões que permitem o uso da técnica são aquelas de natureza existencial, como os ritos de passagem do tempo (adolescência, menopausa, velhice e morte). E, para Bolognesi, os clássicos são o melhor remédio. "Eles nunca saem da moda porque prestam algum serviço à alma dos homens", elogia.

Na Itália, a iniciativa de Andrea Bolognesi não é isolada. Várias instituições públicas, como a Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade da Catânia, utilizam a técnica para os casos de depressão. Em outra parte do país, no Hospital Santa Maria Nova (Reggio Emilia), uma biblioteca foi especialmente organizada para oferecer aos pacientes e a seus familiares ajuda psicológica.

Para crianças também

No Brasil, uma das maiores entusiastas da biblioterapia é a psicóloga Lucélia Paiva, que há vinte anos usa a técnica em seu consultório e em hospitais, além de realizar workshops em todo país para médicos, educadores e psicólogos.

Para ela, a biblioterapia facilita a interação por meio do livro, mas também pode ser utilizada como auxiliar de outras técnicas lúdicas: "o objetivo é abrir um canal de expressão para que a pessoa seja capaz de lidar melhor com os sentimentos que a afligem".

Especializada em tratar questões que tenham a ver com a morte (não necessariamente a morte física), a psicóloga prioriza a literatura infantil em seu rol de livros terapêuticos. Ela explica que é na infância que se deve começar a falar sobre certas questões para as quais nem mesmo profissionais da área médica estão completamente preparados para enfrentar: "A nossa cultura é aquela que não fala da morte e, portanto, ninguém sabe realmente como lidar com as perdas em todos os níveis".

Usando livros infantis para discutir temas existenciais tão profundos, Paiva explica que esse tipo de ferramenta na psicoterapia atua como as outras formas de expressão artística: por meio dela, a pessoa consegue desfazer os nós que dificultam a verbalização. "Através da narração literária, vem a possibilidade de falar sobre o que foi lido e que, no final, é o próprio sentimento da pessoa", explica.

Indagada se num país como o Brasil, que conta poucos leitores, os pacientes resistem à sugestão de introduzir a literatura numa sessão de terapia, a psicóloga opina: "As pessoas não lêem porque não encontram eco naquilo que lêem".

LIVROS QUE AJUDAM A EXPLICAR A MORTE PARA AS CRIANÇAS

Sobre a morte na velhice:
"O teatro de sombras de Ofélia" (Michael Ende, ed. Ática)

Sobre a perda de avós:
"Vovô foi viajar "(Maurício Veneza, ed. Compor)

Sobre a perda de pais:
"A montanha encantada dos gansos selvagens" (Rubem Alves, ed. Paulus) e "Não é fácil pequeno esquilo" (Elisa Ramon, ed. Callis)

Sobre a perda de irmãos:
"Emmanuela" ( Ieda Pereira de Oliveira, ed. Saraiva)

Sobre os ciclos de vida:
"A história de uma folha", (Leo Buscaglia, ed. Record); "Caindo morto" (Babette Cole, ed. Ática)

Sobre as características e causas de morte, rituais de despedida e diferentes visões sobre o assunto:
"Quando os dinossauros morrem" (Marc e Laurie Brown, ed. Salamandra - esgotado)

Ler é prazer: os projetos de incentivo à leitura da Biblioteca Comunitária da UFSCar

Trabalho apresentado no XII Seminário Nacional de Bibliotecas Universitárias em 2000


Lígia Maria Silva e Souza scultura@power.ufscar.br
Maria Angélica Dupas srefer@power.ufscar.br
Departamento de Ação Cultural da BCo
Universidade Federal de São Carlos
Rodovia Washington Luís, km 235
Caixa Postal 676
13565-905 - São Carlos - SP - Brasil

Resumo: À partir do pressuposto de que o texto literário tem autonomia de significação pois cria regras próprias de comunicação entre autor e leitor, são analisadas as atividades de incentivo à leitura desenvolvidas pela Biblioteca Comunitária da UFSCar (BCo), junto à comunidade externa de 1º e 2º graus, considerando as diversas modalidades recomendadas na literatura da área, com ênfase na mediação de leitura. A BCo desenvolve vários programas importantes como “Arte na Biblioteca”, “Formação de Contadores de História”, “Uso da Imagem na Sala de Aula”, “Semana do Livro e da Biblioteca”, entre outros, que são regularmente oferecidos sob a forma de cursos e atividades culturais, em parceria com entidades e instituições ligadas a educação e cultura na região e no estado. Destacando a importância da leitura em todos seus programas, propõem explorar o livro e a literatura infanto-juvenil em todos os seus aspectos (forma de narrativa, conteúdo, ilustração, papel, formato), respeitando-se a relação entre texto e imagem. Para isso, a BCo tem utilizado as técnicas de contadores de história e de mediadores de leitura. Através da história contada, em suas diversas modalidades, desde a encenação teatral até o uso de pequenos recursos visuais, como indumentária de personagens e objetos referentes ao tema, a literatura tem sido oferecida como atividade lúdica. Já através da mediação de leitura, procura-se introduzir o livro como rotina no incentivo ao hábito de ler, permitindo ao jovem leitor, amplo acesso ao material impresso, como forma de realização da leitura global, fiel ao texto em toda a sua originalidade e aspectos físicos da obra, com o objetivo de “abrir janelas” e permitir que cada criança seja atraída pelo detalhe de narrativa ou ilustração que a encante na sua própria descoberta.

1 Introdução

Procurando ampliar as oportunidades culturais através do acesso à obras de qualidade, a literatura infantil será abordada, em nossa análise, como informação estética, sem intenções pedagógicas. O livro, apreciado na sua totalidade, deve ser visto como um produto, competindo no mercado e tendo necessidade de se ajustar aos interesses de um público cada vez mais exigente.

Cunha, citado por MARTUCCI (1999, p.3), explicita que:

“na medida em que tivermos diante de nós uma obra de arte, realizada através de palavras, ela se caracterizará pela abertura, pela possibilidade de vários níveis de leitura, pelo grau de atenção e consciência a que nos obriga, pelo fato de ser única, imprevisível, original, enfim, seja no conteúdo, seja na forma. Essa obra, marcada pela conotação e pela plurissignificação, não poderá ser pedagógica, no sentido de encaminhar o leitor para um único ponto, uma única interpretação”.

Tanto a literatura infantil estrangeira como a nacional, constituem objeto de estudo no processo de formação e utilização do acervo. Obras como a de Nelly COELHO (1995), contribuem para o conhecimento da divisão histórico-literária da literatura infantil brasileira, em seus vários períodos, tendo em Monteiro Lobato um marco divisor de épocas:

“- precursora: período pré-lobatiano (1808-1919)

- moderna: período lobatiano (anos 20/70)

- pós-moderna: período pós’-lobatiano (anos 70/...)”

Relata ainda, (ibid, p. 57) que “foi em pleno período de confronto entre o tradicional (formas já desgastadas do Romantismo/Realismo) e o moderno(representado pelo Modernismo de 22) que Monteiro Lobato inicia a invenção literária que cria o verdadeiro espaço da literatura infantil no Brasil”.

Segundo ZILBERMAN (1994), a literatura infantil até Lobato não apresentava uma temática nacional, reproduzindo os padrões vindos da Europa. Ele consegue romper esse círculo, aproveitando nossas tradições folclóricas e seu êxito se deve aos seguintes fatores:

- personagens que se repetem em todas as narrativas;

- emprego de crianças como heróis, promovendo imediata identificação com o leitor;

- ausência de autoritarismo e de imagens adultas repressoras;

- a opinião das crianças personagens é respeitada;

- a curiosidade e a criatividade são estimuladas.
2 Nossa História

Desde agosto de 1995, quando a Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar foi inaugurada, alguns programas e projetos de atividades culturais, visando atender principalmente o público de 1º e 2º graus, começaram a ser implementados com o objetivo primordial de promover o uso do livro e da Biblioteca, de forma agradável, atraente e eficiente. Até então, nossa Biblioteca era uma típica biblioteca universitária, atendendo as necessidades de ensino e pesquisa como tantas outras.

3 Os Novos Programas

Algumas iniciativas, como o Arte na Biblioteca, acabaram se transformando em Laboratório para as atividades de incentivo à leitura, onde começamos a trabalhar com as técnicas de contar histórias. A aceitação e resultados foram surpreendentes pois não só o público infantil começou a ser beneficiado, como professoras da rede municipal e estadual, alunos dos cursos de graduação em Letras, Psicologia, Terapia Ocupacional, Pedagogia e Biblioteconomia, da própria Universidade, que interessados nesse envolvimento prático, foram nos alertando para essa demanda reprimida e necessidade de outros programas de extensão, e nos impelindo a extrapolar nossos limites geográficos. Acabamos saindo da sala de leitura infantil da BCo e nos aventuramos em outros universos: as praças, as escolas, os postos de saúde, atendendo à comunidade externa da cidade e região, atingindo um contingente heterogêneo, um novo público, usuários em potencial dos demais serviços tradicionalmente oferecidos.

Nessas atividades de leitura nos coube o melhor pedaço: a leitura pelo prazer. Sem cobrança pelo conteúdo pedagógico ou informativo do texto. Sem impor barreiras ao manuseio do livro como objeto lúdico. Tentamos retomar a “história em meiguice” descrita por Malba TAHAN (1957), atraindo a criança para o contato com o livro e a leitura, sentando junto, acompanhando as reações, estabelecendo laços de intimidade, que muitas vezes duram pouco, mas são intensos.

Acompanhamos a polêmica na literatura da área sobre as vantagens e desvantagens entre as histórias lidas e as contadas e não tivemos dúvida: ficamos com as duas!

4 O Contar Histórias

4.1 A importância ontem, hoje e sempre

O texto literário, como obra de arte, exerce grande influência no desenvolvimento da humanidade, pois tratando da universalidade dos conflitos e sentimentos inerentes ao crescimento pessoal e compreensão do mundo, desempenha um papel libertador e transformador. Ouvindo histórias, crianças e adultos podem apresentar reações que manifestam seus interesses revelados ou inconscientes e conseguem vislumbrar nas narrativas, soluções que amenizam tensões e ansiedades.

Segundo depoimento de Otília Chaves, colhido por Malba TAHAN (1957, p.124) o uso das parábolas pelo Mestre Jesus, “e o fato de encontrarmos o registro de seus ensinos tão comumente em forma de histórias, se não prova que este foi o método que ele mais usou, parece-nos provar ao menos, que foi este o método que mais impressionou os que o seguiam”.

Assim, além de acreditar no poder da história e na magia e atração que exerce o contador sobre seus ouvintes, muitos estudos relatam sua importância no desenvolvimento infantil, por ser recreativa, educativa, instrutiva, afetiva (alargando horizontes, estimulando a criatividade, criando hábitos, despertando emoções, valorizando sentimentos) e física (ajudando na recuperação de crianças enfermas e hospitalizadas). Estimula também a socialização, desenvolve a atenção e a disciplina.

4.2 O público alvo

“Ler histórias para crianças, sempre, sempre...”(ABRAMOVICH, 1994, p.17)

As impressões e lembranças da infância sempre nos acompanham: a história antes de dormir, as férias na casa da avó que contava “causos”, a leitura gostosa e descontraída à sombra de um árvore.

Histórias sem texto escrito, para bebes; narrativas curtas para crianças pequenas, com bichinhos, objetos do cotidiano para adequar aos interesses, como diz Betty COELHO (1989). Histórias de repetição e movimento para crianças da fase mágica (3 a 6 anos); de encantamento, de fadas, de aventuras para crianças na idade escolar; de ação e amor para meninos e meninas na pré-adolescência e as engajadas com o universo, com os problemas sociais, para adolescentes que sonham em mudar o mundo.

Adultos também se interessam por histórias. Se adulto não gostasse de histórias as novelas não teriam tanto sucesso... . Antes do início de uma reunião de pais, porque não contar uma história que aborde um problema a ser solucionado?

Quantas oportunidades de leitura não são aproveitadas, pelo simples fato do hábito de ler para os outros, em voz alta, não fazer parte de nossos hábitos.

4.3 Como contar histórias?

As técnicas de contar histórias se mesclam com as qualidades necessárias ao contador ou narrador. Podemos citar, apenas enumerando, as que mais se destacam:

- verificar o local, horário e as acomodações;

- conhecer o público a que se destina e ter o dom de encantar e dominar o auditório;

- conhecer o enredo com absoluta segurança;

- narrar com naturalidade, sem afetação, com voz clara e expressão viva;

- enfatizar os pontos emocionantes da história através das variações de tonalidades de voz e pausas oportunas;

- sentir/viver a história, emocionando-se com a própria narrativa;

- não romper o fluxo da narrativa com conselhos e explicações;

- não perder o fio da meada quando estiver fazendo uso do livro ou outro elemento ilustrativo;

- tirar partido de pequenos incidentes, sem interromper a história;

- evitar tiques e cacoetes;

- tratar o ouvinte com simpatia e camaradagem, sem adotar um ouvinte predileto;

- não demonstrar irritação com a presença de ouvintes desinteressados ou irrequietos;

- chegar aos desfecho sem apontar a moral ou aplicar lições;

- estar aberto para comentários após a narrativa.

Contar histórias é saber criar um ambiente de encantamento, suspense, surpresa e emoção, onde enredo e personagens ganham vida, transformando tanto narrador como ouvinte. Deve impregnar todos os sentidos, tocando o coração e enriquecendo a leitura do mundo na trajetória de cada um.

E, como conclui CHIAVINI (1994, p. 473):

“Como é fácil lidar com os pequenos... Eles aceitam incondicionalmente as ofertas sinceras, deixam-se cativar sem medo por tudo aquilo de que possam auferir prazer, e nos contagiam com o gosto com o qual se envolvem nas tarefas propostas. E são reconhecidos”

4.4 Onde a história deve ser contada?

Como a literatura infantil é muito associada à missão pedagógica do livro e da leitura, o primeiro lugar que nos ocorre para que a narração se realize é a escola. E, indiscutivelmente, é o lugar onde ela mais encontra aplicabilidade.

No entanto, temos acompanhado com alegria, a freqüência e diversidade de locais em que a história contada ou lida tem estado presente. Nos hospitais, como lenitivo para as crianças enfermas, nos postos de saúde (como o Projeto: se Maomé não vai à montanha... que a BCo tem desenvolvido), nas Bibliotecas, nas praças, em casa, em eventos especiais e muitos outros.

Independentemente do local, os ouvintes devem estar bem acomodados, em círculo ou colunas, sentados no chão, em tapetes ou almofadas, livres de outros barulhos, em ambiente com conforto térmico, em horário adequado e outros cuidados desse tipo. Contar histórias para crianças cansadas, com fome, com vontade de ir ao banheiro não é nada gratificante!

4.5 Quanto tempo deve durar?

A duração da narrativa também deve ser adequada: 5 a 10 minutos para as crianças menores, 15 a 20 minutos para as maiores. A repetição da mesma história, se solicitada, deve ser sempre atendida. Outra história não deve ser iniciada sem intervalo. Uma conversa preparatória, motivando para a nova vivência é muito desejável.

5 A Mediação de Leitura

É comum o contador de histórias se sentir inibido ou despreparado, por não possuir todas as aptidões ideais para narrar satisfatoriamente uma fábula, história ou poesia.

A mediação de leitura, outra modalidade de incentivo ao hábito de ler utilizada na BCo, transforma a atividade de leitura em rotina, sem exigir do mediador grandes habilidades artísticas. Qualquer pessoa que saiba ler adequadamente e que goste de trabalhar com literatura e pessoas (crianças e adultos), pode e deve participar dessa experiência.

5.1 O Projeto Biblioteca Viva

Em 1999, a Fundação ABRINQ pelos Direitos da Criança aprovou projeto encaminhado pela BCo e além do acervo da Biblioteca Viva, recebemos treinamento para mediação de leitura, com o compromisso de nos tornarmos agentes multiplicadores e de levarmos o livro a lugares onde ele não chega, utilizando as técnicas de mediação, retratadas no texto a seguir:

“Podemos fazer outras coisas com as histórias, mas temos que saber que estas outras atividades não são ‘momento de leitura’. (destaque nosso) Quando dramatizamos uma história com marionetes ou dobraduras, estamos mobilizando nas crianças outro prazer que não é o de leitura. Estamos estimulando outras áreas do seu desenvolvimento e realizando atividades de teatro, artes plásticas ou semelhantes. Se desejamos, verdadeiramente, atuar para a introdução dos livros e das narrativas e despertar o desejo pela apropriação da leitura nas crianças, temos que enfatizar os momentos cotidianos de troca em torno dos livros e da mediação destes, sem utilizar acessórios e atividades. Quando possibilitamos um momento de livre exploração dos livros - olhar, folhear, ler, reler, passear ou ficar na ‘sua’- nos colocamos a disposição das crianças para acompanhá-las ou contar as histórias, podemos observar uma série de aspectos como, por exemplo, que as crianças são capazes de compreender, pensar e criar muito além do que imaginamos”. (p.2)

Através da mediação de leitura a grandiosidade do texto é preservada. A tendência de simplificação das palavras difíceis a fim de facilitar a compreensão, que ocorre no texto narrado, não acontece quando ele é lido na íntegra.

Outro aspecto importante nessa atividade de leitura é a coleta de dados de cada experiência de mediação. Em formulário próprio são anotadas as obras solicitadas pelas crianças, as principais reações observadas e os progressos individuais no comportamento social, no desenvolvimento do vocabulário e no envolvimento com os livros. Graças a esta documentação, temos reunido uma série de relatos de adultos e crianças que contribuem para as discussões da equipe de mediadores, na troca de experiências e planejamento de atividades futuras.

“A rede afetiva que se estabelece entre todos, através dos livros, abre um espaço no qual cada criança pode expressar-se, ouvir e contar histórias ou ainda ficar em silêncio, sem a necessidade de produzir conhecimentos específicos. Nessa situação as crianças, cada uma de sua maneira, está produzindo conhecimentos, mas não os necessariamente pré-determinados pelo adulto. Ou seja, ela está aumentando seu repertório cultural, seu imaginário, sua linguagem; está tendo possibilidade de escolha de livros e de parceiros para a sua leitura e, além disso, pode conhecer outras visões de mundo e estabelecer relações com sua realidade” (ABRINQ, 1999, p.6).

6 Finalizando

Destacamos os Programas “Arte na Biblioteca”, “Projeto Biblioteca Viva e mediação de leitura”, do qual faz parte o projeto de treinamento desenvolvido no Posto de Saúde da Vila São José, em São Carlos, denominado “Se Maomé não vai à montanha”, por terem freqüência regular e atenderem um público diversificado e numeroso. Os demais, não menos importantes, como “Formação de Contadores de História”, “Uso da Imagem na Sala de Aula”, “Semana do Livro e da Biblioteca”, acontecem em intervalos de tempo maior.

Todas as atividades culturais desenvolvidas nesses quase cinco anos, que distinguem a Biblioteca Comunitária e entusiasmam colaboradores e parceiros, estão imbuídas da crença de que é impossível gostar das coisas que desconhecemos. E não queremos que o livro continue sendo um ilustre desconhecido, principalmente da comunidade carente.

7  Referências  Bibliográficas

ABRAMOVICH, F.  Literatura infantil: gostosuras e bobices.  4.ed.  São Paulo : Scipione,   1994.
ABRINQ.  Projeto Biblioteca Viva: a mediação de leitura e as crianças.  São Paulo, 1999.
CHIAVINI, V.L.M.  Contar histórias é fazer arte.  São Carlos : UFSCar, 1994.  Dissertação (Mestrado em Educação) - Centro de Ciências Humanas. Universidade Federal de São Carlos.
COELHO, B.  Contar histórias; uma arte sem idade.  2.ed.  São Paulo : Ática, 1989.
COELHO, N.N.  Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira: séculos XIX e XX.  São Paulo : EDUSP, 1995.
MARTUCCI, E.M.  Aprendendo a contar histórias.  In: _______. Formação de contadores de histórias. São Carlos : UFSCar, 1999.  (Apostila)
TAHAN, Malba.  A arte de ler e de contar histórias.  Rio de Janeiro : Conquista, 1957.
ZILBERMAN, R.  A literatura infantil na escola.  8.ed.  São Paulo : Global, 1994.

Ensino e aprendizagem da leitura - Ensino Fundamental

Como sabemos, ensinar os alunos a ler e escrever é uma das principais tarefas da escola. A leitura e a escrita são muito importantes para que as pessoas exerçam seus direitos, possam trabalhar e participar da sociedade com cidadania, se informar e aprender coisas novas ao longo de toda a vida.

Na escola, crianças e adolescentes precisam ter contato com diferentes textos, ouvir histórias, observar adultos lendo e escrevendo. Precisam participar de uma rotina de trabalho variada e estimulante e, além disso, receber muito incentivo dos professores e da família para que, na idade adequada, aprendam a ler e escrever.

Para garantir que todos os alunos aprendam, a escola precisa ter uma proposta pedagógica com orientações claras para a alfabetização inicial. É na proposta pedagógica que ficam definidos quais os objetivos para cada etapa, que tipo de atividade precisa ser realizado na sala de aula e na escola, como será a avaliação. Orientados por essa proposta é que os professores planejam suas aulas. É muito importante também que os pais conheçam essa proposta e recebam orientações sobre  a melhor forma de acompanhar o aprendizado dos seus filhos.

A leitura e a escrita são fundamentais para o aprendizado de todas as matérias escolares. Por isso, em cada ano/série, o aluno precisa desenvolver mais e mais sua capacidade de ler e escrever. Em sua proposta pedagógica, a escola precisa estabelecer claramente o que os alunos devem aprender em cada etapa, até a conclusão do ensino fundamental. Dessa forma, todos os professores podem coordenar seus esforços para conseguir os melhores resultados. Todas as crianças são capazes de aprender. Por isso, a escola precisa organizar suas aulas e suas atividades pensando em todos os alunos, garantindo que todos eles possam se desenvolver na leitura e na escrita. Esse compromisso com a aprendizagem de todos os estudantes deve ser assumido como uma das principais responsabilidades da equipe de gestão da escola, formada pela direção e pela coordenação pedagógica ou supervisão de ensino. A equipe de gestão deve ajudar os professores em seu trabalho, avaliar o processo de aprendizagem dos estudantes, inclusive comparando os resultados de sua escola com os resultados das escolas do entorno, do município ou Estado, além de sempre conversar com as famílias sobre o desenvolvimento de seus filhos em relação à leitura e à escrita. Os gestores da escola e os professores podem dar dicas para os pais sobre como ajudar seus filhos nesse desenvolvimento, e o Conselho Escolar pode ser um bom aliado nesse sentido.

A existência de uma boa biblioteca e seu bom uso por alunos e professores colabora com o processo de aprendizado dos alunos. Por essa razão, é muito importante que a escola tenha a preocupação de cuidar e melhorar seu acervo, de ter um profissional para atender o público e, principalmente de que a biblioteca ou sala de leitura seja de fato usada pelos alunos no horário das aulas e fora dele. Mas, se uma escola ainda não tem sua biblioteca, enquanto luta para consegui-la, pode fazer uso de salas ou cantos de leitura. Não podemos esperar a situação ideal para, somente a partir daí, permitirmos o acesso dos alunos aos livros.

Nos últimos anos, a informática se tornou central tanto para o trabalho quanto para o acesso à informação, à cultura e ao lazer. A grande maioria dos brasileiros ainda não tem acesso aos computadores, muito menos à Internet. Mas sabemos que hoje em dia muito do que as pessoas lêem e escrevem é por meio de um computador. Por isso, a escola precisa se equipar com computadores e acesso à Internet e, desse modo, possibilitar a crianças e adolescentes que participem de projetos educativos usando a informática, especialmente no que diz respeito à aprendizagem da leitura e da escrita.

Nesta dimensão, os indicadores de qualidade referem-se a todos esses aspectos, que, no conjunto, favorecem a alfabetização inicial e a ampliação da capacidade de leitura e escrita de todas as crianças e adolescentes ao longo do ensino fundamental.


Indicadores e perguntas

Os familiares (pais, mães ou outros responsáveis) recebem orientações dos professores sobre como incentivar as crianças a ler e escrever?

Exemplos de como pais, mães, irmãos, amigos e avós podem exercer sua responsabilidade de incentivar as crianças a ler e escrever: 
  • ler para e com as crianças; 
  • prestar atenção (mesmo!) quando os filhos mostram algo que fizeram;
  • ler com as crianças os textos que fazem parte do dia-a-dia da família (bulas de remédio, pedaços de jornal, receitas de culinária, etc);
  • ter livros infantis em casa estimula o interesse. Livros são caros, mas de vez em quando se compra um presentinho. Esse presente pode ser também um livro infantil;
  • levar os filhos na biblioteca pública se houver alguma na região onde você mora;
  • incentivar os filhos a emprestar livros da biblioteca e levá-los para casa.
Fonte: Dimensão 3 - Ensino e aprendizagem da leitura e da escrita - Indicadores da Qualidade na Educação