sábado, 11 de setembro de 2010

Livros a serviço da paz



Por Lis Horta Moriconi, para o Comunidade Segura

Uma iniciativa de política penal e – de modo surpreendente e muito mais ambicioso – uma alternativa ao encarceramento. É isso que pretende o programa “Changing lives through literature” (“Mudando vidas através da literatura”, em tradução livre), que começou de forma modesta em 1991 e cuja expansão, do estado de Massachusetts para sete outros estados dos EUA, tem chamado atenção de toda a imprensa norte-americana.

Através do Changing Lives, juízes podem sentenciar criminosos a assistirem aulas de literatura, como uma alternativa à prisão. Um estudo feito por uma organização da área de Justiça Criminal concluiu que, após o período de um ano, o programa reduziu significativamente a taxa de reincidência criminal para 18% – abaixo da média nacional norte-americana de 45%.

“Como professor de literatura, acredito profundamente no poder que ela tem. Se as pessoas prestassem mais atenção à leitura, à profunda concentração e à boa literatura, muitos dos grandes problemas de política pública estariam, se não resolvidos, pelo menos em parte solucionados. As pessoas nunca pensaram de fato na literatura. O que me faz procurar sempre oportunidades para mostrá-las isso”, diz o professor Robert Waxler (o primeiro à esquerda na foto), da Universidade de Massachusetts, que criou o Changing Lives no início da década de 1990.

A inspiração de Waxler para o programa surgiu de conversas com um amigo juiz, Robert Kane, que sempre se mostrou preocupado com uma espécie de ‘porta giratória’ na justiça – o entra e sai das prisões causado pelas altas taxas de reincidência.

Juntos, Waxler e Kane criaram um modelo simples, no qual detentos têm a oportunidade de participar de um curso de literatura em caráter de experiência, em vez de serem encarcerados. As aulas são dadas para grupos de no mínimo oito pessoas, em uma universidade local ou um colégio da comunidade, com a participação de um juiz, de um oficial da condicional e um facilitador – geralmente professores universitários.

Waxler aproveita para explicar que quase sempre os professores são preferidos, em vez dos facilitadores, não necessariamente por sua experiência, mas por seus contatos com as universidades, o que os ajuda a garantir um local no campus universitário onde possam acontecer as aulas.

Fora das ruas

Segundo Waxler, foi realizado um estudo longitudinal por pesquisadores de Justiça Criminal em que foi feito o acompanhamento de 32 pessoas que participam do Changing Lives e outras 32 com antecedentes similares, um ano após terem cumprido as penas e sido soltos.

O professor conta que a taxa de reincidência daqueles que não passaram pelo programa, de acordo com o estudo, foi de 42%, quase a média do país. Já os detentos familiarizados com a literatura através da iniciativa apresentaram um índice muito menor, de 18%. O professor ressalta que o programa faz sentido financeiramente, uma vez que custa muito pouco se comparado ao encarceramento. “Em Massachusetts, por exemplo, o programa custa aos cofres públicos US$ 500 por detento, enquanto o custo de se manter uma pessoa na prisão por um ano chega a US$ 30 mil,” afirma.

No entanto, o programa já sentiu o impacto da pressão para cortar custos. Jean Trounstine (foto), coordenadora do Changing Lives e cofundadora da versão para mulheres, afirma que o programa perdeu o apoio na atual administração. “Nós passamos por um período bastante difícil nos dois últimos anos porque a atual legislatura não nos apoia. No auge do programa, tínhamos 12 turmas em Massachusetts e conseguíamos pagar as pessoas”, lamenta.

O programa contrata facilitadores mas não paga os juízes nem os oficiais da condicional e, atualmente, segundo Jean, muitos facilitadores estão fazendo trabalho voluntário. Ela espera implementar entre seis e oito programas em Massachusetts em 2011.

O programa de Massachusetts é realizado dentro do campus universitário mas, segundo Jean, já existem outras versões. Em alguns casos, as reuniões são realizadas dentro das celas, as aulas já foram oferecidas a jovens em regime fechado, em centros de reabilitação para dependentes de drogas e em escolas alternativas para jovens em risco. Atualmente, o programa é aplicado em sete outros estados norte-americanos e no Reino Unido.

Na versão para mulheres, elas podem ter a pena diminuída se participarem do programa ou utilizá-lo em terapia de gerenciamento da raiva. A adesão é voluntária, o que significa que a participação depende da vontade do detento ou da detenta. “Uma vez comprometido, o participante tem que ir até o fim ou perderá os privilégios, voltando ao banco dos réus ou à prisão”, explica Jean.

O público-alvo do Changing Lives são os detentos que cometeram crimes graves, conforme explica Waxler. “De outro modo, não poderíamos testar a eficácia do programa”. Na versão para mulheres, ao contrário da masculina, não são incluídas presas que cometeram homicídio ou crimes sexuais, mas é comum a presença de mulheres condenadas por roubo, assalto, violência doméstica e tráfico de drogas. “Nós buscamos pessoas que não são réus primários e que têm uma história de reincidência no crime”, afirma Jean.

Mas o que faz com que o Changing Lives funcione? Para Waxler, parece que ele tem algum poder e que o fato de as reuniões serem realizadas dentro da universidade ou na biblioteca, tem importância, pois tira os presos das ruas. “E rua, para eles, significa crime”.

“Um conclusão a que chegamos é que grande parte da eficácia do programa se deve ao fato de a literatura afastar os detentos da sua vizinhança, literal e metaforicamente. Ler e discutir boas histórias pode ser uma atividade bastante empolgante e, mais que isso, pode mostrar a eles que são capazes de pensar. Esse é o maior desafio”, conclui Waxler.

De acordo com o professor, muitos dos que aderem ao programa só têm o Ensino Fundamental. Ele conta o caso de um dos participantes condenado por tráfico de drogas que, após frequentar algumas sessões, disse que as discussões eram tão emocionantes quanto a vida nas ruas.

Leitura profunda

A filosofia de ler e discutir afasta o Changing Lives do mundo da terapia. Para Waxler, quando lê um bom livro, o leitor se projeta em um personagem e o segue, revivendo a sua própria história e repensando-a. Ele ressalta que a discussão é tão improtante quanto a leitura em si, porque cada um tem um ponto de vista sobre o texto. “O resultado é que o leitor se conecta com outras pessoas e percebe que não está sozinho e que o diálogo ajuda a juntar as pessoas”, explica.

Ele resume a abordagem do Changing Lives à literatura como sendo uma leitura profunda. “Esse é um termo usado por muitos críticos literários. Para mim, sugere que as pessoas se tornam mais engajadas e com maior foco na história”, explica.

O processo começa com a leitura de uma história, momento em que as pessoas fazem uma correlação entre o texto e a sua história de vida. Depois, elas refletem sobre o texto lido e sobre a sua própria história. No fim, são realizadas discussões que aprofundam as impressões e permitem uma autorreflexão.

Os livros são escolhidos de acordo com as questões que os detentos estão lidando no momento, temas como identidade masculina, violência doméstica e outros. Os livros utilizados no grupo feminino são sempre escritos por mulheres, como romances e crônicas cujos personagens são mulheres que enfrentam dilemas de relacionamento, dinheiro ou violência. “Temas com os quais elas possam se relacionar de alguma forma”, explica Jean Trounstine.

Jean ressalta as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que querem participar do programa. “As mulheres são um grupo muito mais vulnerável e que recebe muito pouco apoio dos seus companheiros. Os homens não se sentem confortáveis com a possibilidade de as mulheres estarem aprendendo mais do que eles”, afirma Jean.

Ela gosta sempre de repetir o que um juiz que participou durante muito tempo do programa contou: “Você não acreditaria na quantidade de pessoas que encontro nas ruas e que me dizem ‘eu continuo lendo’”.

Publicado em 26/08/2010

Do que depende a sobrevivência da leitura?

Lucio Carvalho

O término da 21ª Bienal do Livro de São Paulo mais uma vez colocou em evidência um espectro que ronda o mercado editorial e o universo de leitores já há alguns anos: o fantasma do livro digital. É bom lembrar, antes de mais nada, que um fantasma não é essencialmente uma entidade maléfica, assim como não o é, em essência, o livro digital, ou e-book. Mas algumas leituras muito apressadas e propagandas mais apressadas ainda tem causado reações precipitadíssimas, para o bem ou para o mal mas, sobretudo, por uma compreensão parcial de tudo o que envolve o livro digital, o próprio livro, a leitura e até mesmo a educação como ela é, pois ainda trata-se da principal fonte de formação de novos leitores.

Muitas pessoas tem confundido o conceito de livro digital com os aparelhos leitores, ou e-readers. Ao contrário do livro convencional, vendido em exemplares únicos, o livro digital tem outra forma de distribuição. Depois de adquirido, poderá ser lido nos aparelhos leitores, equipamentos portáteis capazes de reproduzir o conteúdo escrito, seja qual for o seu gênero, em telas com tecnologias diversas e alguns outros recursos como conexão remota a redes, internet, entre outros. Portanto o livro digital não é um livro, é meramente um conjunto digital de dados decodificado e exibido em um equipamento. No plano comercial, os aparelhos leitores não estão atrelados a editoras, mas a empresas de tecnologia que podem arbitrar formatos tecnológicos específicos e proprietários impedindo, inclusive, que um determinado conteúdo possa ser lido em qualquer outro dispositivo que não aquele através do qual foi comercializado. Diferentemente dos volumes impressos, cujo suporte é único, os livros digitais trazem à seara da informação escrita um fantasma ainda muito pouco conhecido no meio editorial, mas que tem poderes muito significativos. O fantasma atende por DRM, ou digital rights management, e já revela-se mesmo que disfarçadamente em muitos destes equipamentos, principalmente nos mais vendidos entre eles: o Kindle, da Amazon e o iPAD, da Apple.

DRM e o futuro dos direitos autorais

De acordo com a Free Software Foundation, o DRM seria mais apropriadamente denominado por digital restrictions management, uma vez que sua funcionalidade está muito mais para a gestão das restrições de uso do conteúdo digital do lado do usuário que do fabricante. Tratam-se de parâmetros inseridos nos conteúdos digitais com capacidade para coletar dados do uso bem como determinar padrões de durabilidade, acesso a cópias e intercâmbio de formatos. Desenvolvido inicialmente por demanda dos fabricantes e distribuidores de música, é um tipo de tecnologia utilizada na transferência de vários tipos de conteúdo digital, inclusive na transmissão televisiva em formato digital.

Ao passo em que muitos avanços e iniciativas tem ocorrido em função de ampliar e não restringir os direitos do lado dos consumidores e a sociedade procurado garantir o acesso universal à informaçao principalmente em ambientes educacionais, o mercado editorial tem se movido fundamentalmente em torno das iniciativas que podem lhe garantir a sobrevivência e sustentabilidade. A discussão recente em torno da reforma da Lei de Direitos Autorais e os interesses que aí tem se debatido comprovam que muitos rounds serão travados no sentido de deitar à lona as possibilidades concretas de um avanço num curto espaço de tempo. Como o movimento de livre distribuição e licenciamento não deixa de crescer, é de esperar que o mercado venha obrigatoriamente a reconfigurar-se em função do novo habitus de acesso à informação, e não vice-versa. A novíssima sociedade da informação, que acostumou-se a ver na informação e em sua circulação um mercado a ser explorado, tem necessitado redimensionar-se constantemente, sob pena de inadequar-se aos novos meios de troca e acesso que são criados de forma incessante.

Consumidores no lugar de leitores

Criadas como peças fundamentais na geografia urbana das cidades desde antes da idade moderna, as bibliotecas públicas encarnam desde então um espírito democrático como poucos espaços públicos tem conseguido. Seja pelo acesso franqueado como por suas características elementares, como o empréstimo domiciliar, seria muito ingenuidade imaginar que as corporações empenhadas na criação de aparelhos leitores de livros guardam esse tipo de preocupação ou, acaso, seria imaginável que a Amazon ou o iTunes venham a emprestar gratuitamente seus conteúdos digitais?

Por isso, a grande diferença entre os serviços de bibliotecas públicas e o negócio dos conteúdos digitais está em que a perspectiva lucrativa aqui se instala em definitivo entre editores e leitores. Mesmo as iniciativas de implantação de grandes bibliotecas digitais, patrocinadas muitas vezes por gigantes tecnológicos como HP ou a Google, não visam alterar em praticamente nada as relações de acesso ao conteúdo da informação. Sua revolução está nos meios e na sempre presente perspectiva de oferta de serviços comerciais agregados. Assim, tais iniciativas assentam-se sobre obras em domínio público ou criadas já dentro do espírito de livre reprodução, como as obras licenciadas através da Creative Commons. Para novas edições e conteúdos presentes e futuros não há um projeto descrito ou tão benevolente a ponto de imaginar-se que a intenção edificante destas corporações visa exclusivamente a universalização do acesso à informação.

Iniciativa pioneira e que se mantem há 40 anos de forma voluntária, o Projeto Gutenberg é o exemplo vivo de que iniciativas não comerciais emperram em limites de expansão por falta de investimento. Contando com donativos e sem o apoio de grandes bibliotecas ou de seus consórcios, mesmo assim guarda a semente de um plano ousado: reinventar em formatos não-proprietários o sonho de uma fonte livre de consulta e leitura. Mesmo iniciativas que contam com o apoio do governo no caso brasileiro, e destinado a pesquisa de ponta, como a produção científica da pós-graduação patinam ainda em dificuldades técnicas para levar a idéia de uma Biblioteca Digital de Teses a ser popularizada entre instituições menores, como faculdades do interior do Brasil.

Em 2003, o jornalista Élio Gaspari já advertia ironicamente que o único banco que não dá certo no Brasil é o banco de teses. Passados sete anos, nem o MEC nem a CAPES forneceram sequer uma explicação remota acerca das razões pelas quais o projeto mantem-se sem acesso a conteúdo integral e é realizado em separado a outras iniciativas particulares de divulgação científica. Talvez sejam razões semelhantes as que levam a Google manter indefinidamente em versão beta seu projeto Schoolar. O que pode estar custando a ser percebido é a necessidade de democratizar as fontes antes de fomentar-se o acesso e de o meio acadêmico comprometer-se a dar o exemplo abrindo mão de direitos comerciais e a sociedade, por sua vez, desconsiderar propostas que visam o monopólio ou uso terciário da informação, oferecida como subproduto de iniciativas essencialmente comerciais.

Um desenho universal para os e-readers

Reclamado principalmente pelas pessoas com deficiência visual, que vêem os livros em braille sendo progressivamente relegados à edições especiais e a perspectiva de que novos recursos tecnológicos venham a possibilitar seu acesso a conteúdos de outra maneira indisponíveis, os recursos de acessibilidade dos e-readers são duramente criticados por esta parcela da população. No Brasil, iniciativas como o MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil , são pertinazes na denúncia de práticas editoriais discriminatórias e realizam um trabalho que procura garantir que o acesso à informação, como um direito universal, seja efetivado através de compromissos sociais que atendam às especificidades humanas como um todo, como recomenda o conceito de desenho universal. Nessa perspectiva, tem chamado atenção quanto a algumas dificuldades de uso dos e-readers, como a inacessibilidade das telas de toque (touchscreen) e incapacidade de conversão texto-áudio, fatores limitantes do acesso por pessoas com deficiência visual ou mobilidade reduzida.

Umberto Eco e a obsessão terminativa

O semiólogo e escritor italiano Umberto Eco lançou no começo deste ano o livro-entrevista “Não contem com o fim do livro” no qual discute algumas questões como a segurança de dados dos conteúdos digitais, a fidedignidade e a história da humanidade e seus registros. Em dado momento da entrevista, Eco comenta que não entende as razões pelas quais iniciou-se o que ele chamou de “obsessão” pelo fim do livro. Para ele os livros continurão a existir porque não trata-se de uma experiência, mas de um produto com uma credibilidade de 500 anos, ao passo em que os recursos tecnológicos tem sido substituidos pelo menos a cada cinco anos. No seu caso, diz que não trocaria sua biblioteca por outra digital pela simples razão de que nada o asseguraria de que as informações estivessem disponíveis a qualquer momento e a salvo de bugs. Uma leitura sem risco de bugs ou perdas maiores para Eco continua a ser um privilégio exclusivo dos impressos.

Do hipertexto à hipoleitura

É possível que estas palavras, cada uma delas, jamais sejam gravadas na celulose do papel, matéria-prima dos impressos de um modo geral, sejam livros, revistas ou jornais. A bem da verdade, nem uma prova em rascunho para revisão será impressa numa simples impressora doméstica. Seu único registro estará no meio digital, no código binário e na memória de quem, ao lê-las, decida por utilizá-las em algum tipo de raciocínio que possa somar ou contestar alguma informação previamente assimilada. O registro da informação é uma necessidade que a capacidade de atenção e memória humana exigem. A medida em que evoluiu, a humanidade foi criando mecanismos acessórios para estes fins. Dicionários, enciclopédias e outras formas sistematizadas de informação que hoje convergem, aparentemente de forma inexorável, para os recursos digitais.

A internet é formada essencialmente por recursos digitais interconectados e multiplicados em uma desrazão. Muitas das pessoas que afirmam tratar-se de bilhões de páginas não erram, mas não acertam jamais em saber o quanto de informação repetida ou informação incompleta é armazenada e acessada permanentemente. Por muito tempo soube-se que a Bíblia e o Manifesto Comunista foram os livros mais impressos do mundo. Hoje sabe-se que muitas páginas da internet superam este número em n vezes. Por muito tempo soube-se que quem lia o Novo Testamento ou o Manifesto Comunista teriam conhecido a vida de Cristo ou as idéias centrais do comunismo. Hoje é impossível saber o que todas as pessoas que acessaram determinada página da internet, como por exemplo a página de pesquisa do Google, foram até lá buscando, o que leram e o que conheceram efetivamente a partir daí. A distinção fundamental entre os exemplos supra são os suportes de inscrição. No primeiro, o texto e a estrutura convencional, circunscrita. No outro, o hipertexto e a estrutura aberta, diametral.

Seria um tipo de limite absurdo imaginar um novo recurso tecnológico capaz de fazer o processamento e exibição de um texto e ao mesmo tempo compartilhar uma conexão com a internet que não contasse com esse tipo de recurso e que não tivesse por base alguma forma derivada de hipertexto. Quando pensa-se em dispositivos capazes de ler o livro digital somente um purismo radical pensaria num dispositivo que imitasse o livro em papel. Já houve quem sugerisse que os e-readers devessem inclusive emitir o odor produzido pelos ácaros, para preservar-se a leitura como se tratassem de brochuras antigas. São devaneios curiosos mas que não interessam ao principal, que é sobrevivência da leitura, apesar das tecnologias.

Antes que o livro mudasse, a própria leitura mudou. Em uma época marcada pelo exagero do uso da imagem, a palavra está em decadência e o discurso fragmentado e cada vez mais dissociativo. Mesmo assim, o desafio da leitura continua a ser como uma busca por consistência no acesso aos bens culturais. Maiores ainda são as dificuldades de concretizar uma leitura on-line porque há sempre uma forma de que anúncios publicitários resolvam sacudir as telas de leitura e inúmeras portas de saída convocando a atenção do incauto leitor. As pessoas que estão atualmente preocupadas em saber qual tecnologia vai consolidar-se em lugar do livro nos próximos cinco anos poderiam parar de pensar um pouco em aparelhos e pensar mais em como a leitura e seu acesso poderão ser garantidos e ampliados a todas as pessoas porque, do contrário, não haverá evolução a encontrar neste processo, mas uma ainda maior elitização do que a já existente.

Publicado em 26/08/2010

Fonte: Inclusive

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Projeto Leitura Nota 10

O Projeto Leitura Nota 10 inicialmente foi idealizado pela autora infantojuvenil Patrícia Barboza e desde 2007 realiza palestras em escolas do Rio de Janeiro, de ensino público e particular, incentivando a leitura. Visando uma melhor qualidade na elaboração dos livros, a autora realizou cursos de especialização em Literatura Infantojuvenil e Produção Editorial.


O Projeto agora recebe a realização da Editora Carrossel, com o apoio da Editora Ciranda Cultural.

A Feira do Livro na Escola, de iniciativa da Editora Carrossel, tem como objetivo incentivar a leitura, levando o livro ao aluno para que este possa ter um contato mais próximo com ele e adquiri-lo a um preço mais acessível.


A Editora Carrossel coloca ao seu dispor a sua longa experiência na distribuição de livros para crianças e jovens, tornando esse evento um sucesso junto de toda a comunidade escolar.

As sessões com os autores e o trabalho com os alunos sobre as sua obras – que naturalmente antecede a sessão – revelam-se muito importantes no fortalecimento do interesse das crianças e jovens pelo livro e pela leitura, bem como no sucesso das próprias Feiras do Livro. Assim, sempre que possível, aconselhamos que a Feira do Livro seja realizada simultâneamente com a visita de um(a) autor(a).


Conheça o vídeo institucional da Editora Carrossel:


Projeto Ler para Crer

 Parabenizo a iniciativa Professora Doutora Lídia Eugenia Cavalcante e aos alunos do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Ceará.

Desejamos muita prosperidade ao Projeto Ler para Crer.
A marca visual do Ler Para Crer foi inspirada na história de “Dom Quixote”. E não poderia haver história melhor para ilustrar esse projeto que visa, acima de tudo, formar bons leitores. Afinal, Dom Quixote é um grande leitor que traz para a realidade os personagens da sua imaginação.

O Projeto Ler Para Crer surgiu com o objetivo de levar aos municípios cearenses a semente da leitura em forma de biblioteca. No ano de 2009 foram premiados três municípios cearenses para participar do Projeto: Aquiraz, Itaitinga e Redenção. Os municípios receberam dos professores da UFC dois dias de oficinas preparatórias para a implantação do Projeto. Após esse momento, surgiram as movimentações das comunidades para a criação das bibliotecas comunitárias como procura por espaço, doação de livros, participação de voluntários, dentre outros. A partir daí aos poucos a comunidade cria mecanismos para movimentar a biblioteca.

Aquiraz - Profª Lídia com bolsistas trabalhando no acervo
da Biblioteca da comunidade de Patacas
--------------------------------------
O que é o Projeto:
Universidade Federal do Ceará / Departamento de Ciências da Informação
A/C Profª Dra. Lídia Eugênia Cavalcante - E-mail: lidia@ufc.br  - Fone: (85) 3366-7696 - Endereço e FAX: Av. da Universidade, 2853 - Benfica, CEP 60020-180, Fortaleza-Ceará-Brasil
http://projetolerparacrer.blogspot.com/

Aquiraz - Chegada do Projeto

Descrição Sumária:
O Projeto Ler para Crer - oficinas itinerantes para a implantação de bibliotecas investe na formação de mediadores de leitura da região e também na implantação de novas bibliotecas comunitárias em municípios cearenses.

Data/Início: 02/01/2009

Descrição:
O Projeto Ler para Crer - oficinas itinerantes para a implantação de bibliotecas desenvolve metodologias para a gestão participativa e formação de mediadores de leitura, mediante a implantação de bibliotecas comunitárias em municípios cearenses. Acontece atualmente em três municípios: Aquiraz, Redenção e Itaitinga. É um projeto do Departamento de Ciências da Informação, da Universidade Federal do Ceará, aprovado pelo Edital ProExt Cultura 2008 e conta com a participação de seis professores e uma equipe de aproximadamente 25 estudantes, entre bolsistas e voluntários.

Estudantes de Biblioteconomia da UFC e voluntárias

Justificativa:
Sabe-se que nos últimos anos muitas foram as iniciativas populares de criação de bibliotecas comunitárias no Brasil. Empiricamente ações individuais e coletivas vão se constituindo, visando o enfrentamento das dificuldades surgidas no cotidiano pela falta de acesso à informação e à leitura. De certa forma, é no compartilhamento das dificuldades enfrentadas que os moradores se unem para potencializar recurso, cultura, talento, criatividade e força política para o empoderamento comunitário. A criação de bibliotecas comunitárias é, portanto, movimento colaborativo de partilha e convivência entre seres plurais, de rica competência cultural e humana, para o combate à exclusão informacional. Mediante a constituição de acervos, com a face de cada um e o reconhecimento de que a leitura de livros, histórias, imagens, textos, sons e movimentos é capaz de transformar o cotidiano e a vida daqueles que vivem em comunidade, pode-se desenvolver mecanismos de combate às desigualdades sociais a partir da articulação local. Neste contexto, a presença da universidade, em suas vertentes técnicas, socioculturais e pedagógicas, pode contribuir no que tange ao desenvolvimento de metodologias para o aprimoramento das ações, principalmente com relação à elaboração e implementação de projetos a médio e a longo prazo. Em consonância com essas motivações comunitárias, surge o Projeto Ler para Crer, desenvolvido por professores e estudantes da UFC, com o intuito de fortalecer as iniciativas das comunidades, mediante competências metodológicas e técnicas acadêmicas e do potencial existente em cada localidade.

Objetivos:
- Desenvolver metodologias para a implantação de bibliotecas comunitárias, mediante movimento colaborativo e de gestão participativa dos indivíduos em suas comunidades, universidade e poder público municipal;
- Dar subsídio para a formação profissional dos estudantes do curso de Biblioteconomia, de modo a fortalecer o papel sociocultural do futuro bibliotecário junto à sociedade, ampliado as relações entre ensino, pesquisa e extensão;
- Capacitar os moradores de cada município atendido para tornarem-se mediadores de leitura, compreendendo o papel que a biblioteca comunitária deve exercer em relação à democratização do conhecimento e a formação cidadã do indivíduo e do grupo no qual está inserido.

Parte do acervo reunido nas bibliotecas após
trabalho de restauração e catalogação

Estratégias:
Todo o trabalho desenvolvido no projeto parte de metodologias geradoras de processo dinâmico para a realização das ações, mediante competências que vão se constituindo de modo reflexivo, articulado, político e técnico para o desenvolvimento local e em âmbito sociocultural. Em cada município, realizou-se seminário para sensibilização e explicação da metodologia do projeto, de três dias cada, com as comunidades e apoio das prefeituras locais. Após a realização dos encontros, democraticamente as comunidades se manifestavam sobre o interesse em implantar bibliotecas em suas localidades, discutindo possibilidade de espaços, formação dos acervos, reuniões entre os moradores e constituição de grupos de trabalho. A organização do acervo e a realização de atividades nas comunidades, para a efetiva implantação das bibliotecas, ocorreram por meio de mutirões. Semanalmente, agenda-se uma visita da equipe da Universidade Federal do Ceará, constituída por docentes e alunos do Curso de Biblioteconomia, com aproximadamente 15 pessoas, para cada uma das bibliotecas. Ao final de cada dia, contabilizara-se aproximadamente 300 livros prontos para o empréstimo e a formação dos colaboradores da biblioteca.

Parte do acervo reunido nas bibliotecas após
trabalho de restauração e catalogação

Público Alvo:
O Projeto é destinado a todos os moradores das comunidades onde encontra-se inserido, no caso, moradores dos municípios de Aquiraz, Itaitinga e Redenção no Estado do Ceará.

Beneficiados:1.500 pessoas.

Realizadores:
- Departamento de Ciências da Informação / Universidade Federal do Ceará.
- Moradores das comunidades atendidas.

Patrocinadores:
- ProExt - Edital 2008
- Pró-Reitoria de Extensão - Universidade Federal do Ceará
- Secretaria de Educação de Aquiraz - CE
- Secretaria de Cultura de Itaitinga - CE
- Secretaria de Cultura de Redenção - CE
- Parceiros Secretaria de Cultura do Estado do Ceará.

Fonte: Projeto Ler para Crer

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Livros que puxam outras histórias

Cristiane Rogerio

Ler um livro é mesmo como puxar um novelo de lã. Mas eu penso mais como um novelo de lã que está amarrado a outro novelo, de outra cor, que por sua vez está enganchado em outro, e em outro, até ir nesse embalo para sempre.

Uma história puxa outra. A gente lê uma frase e lembra de outra em outro livro. Ou lembra de um livro do mesmo escritor ou ilustrador. E corre para a estante, doido de vontade de rir de novo ou emocionar-se com a releitura. É como ouvir uma boa música no rádio: você é pego pela memória que transporta você a outro momento da vida, ótimo para mergulhar na lembrança. Acontece comigo o tempo todo. E isso só é possível por termos referências. E as referências só ocorrem quando temos oportunidades.

Tive esta reflexão lendo o A Cicatriz, o novo livro do escritor Ilan Brenman, ilustrado pela Ionit Zilberman e lançado pela Companhia das Letrinhas. Ilan conta a história de uma menina que levou um tombo, preciso ir ao hospital levar pontos e, claro, ganhou uma bela de uma cicatriz. Poderia ser apenas um relato de cotidiano, mas por meio da cicatriz a menina descobre que outras pessoas que ela conhece também carregam cicatrizes e, que – lembrem-se todos! – cicatrizes são o quê??? HISTÓRIAS!

A gente tem por cultura dar peso às palavras. Minha mãe, por exemplo, não me deixava pronunciar nem a palavra “maldita”, nem a “inveja”. Cicatriz é uma destas que têm um peso pelo significado que nos carrega, nos transmite. A filha de um amigo meu ao invés de dizer “cicatriz” dizia “cicatriste”! A palavra vem da dor. Mas a dor traz também a história, a maturidade, a experiência. O mais bonito desse livro é ver a menina indo atrás das histórias das cicatrizes das pessoas e dar valor a isso. Porque uma história puxa outra, que puxa sentimento, puxa referência, opinião, conversa. É para isso que livro está entre nós. Para ficarmos juntos, o mundo todo, por suas histórias.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.