quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Liberdade por meio da leitura

Penitenciária de Joinville arrecada livros e incentiva presos a estudar

Muito mais do que arrecadar livros e deixá-los à disposição dos presos, a direção da Penitenciária Industrial de Joinville quer dar aos detentos a chance de, pela leitura, conhecer novos mundos.

Com mais de dois mil exemplares disponíveis, a biblioteca da penitenciária se tornou um local de aprendizado para os presos. E é por meio da leitura que a comunidade pode ajudar com doações de livros para a instituição.

Segundo o diretor da prisão, Richard Chagas dos Santos, a principal ideia é viabilizar a qualidade penal do indivíduo e aprimorar seu retorno à sociedade. “Essas atividades recreativas e educativas proporcionam ao apenado o desenvolvimento da inteligência, favorecendo o bom comportamento. Assim, é possível alcançar um melhor espaço na sociedade e minimizar o tempo de segregação”.

Ele comenta que os resultados da leitura têm surtido efeito positivo em toda a penitenciária. “Temos como exemplo apenados que começaram com simples leituras e hoje terminaram o ensino médio. Ingressaram até em ensinos superiores”, explica o diretor.

O detento Arnaldo Machado Júnior não abre mão dos livros. “Depois que aprendi a gostar de ler, me tornei uma pessoa muito melhor, mudei meu modo de ser e de pensar. Hoje, sei que sou outra pessoa, graças aos livros”. Ele conta que as pessoas ao seu redor também notaram a mudança. “Família e amigos entenderam que se pode evoluir muito intelectualmente com um simples livro.”

Diretor Richard Chagas entrega livro para um dos detentos.
Incentivo à leitura é uma das atividades da Penitenciária Industrial de Joinville

Fonte: A Notícia

Orientações para leitura - Instituto Alfa e Beto

PARA LER COM CRIANÇAS DE 6 A 12 MESES:
  • Deixe a criança pegar, manusear e brincar com o livro.
  • Vire as páginas com ela e mostre as figuras.
  • Aponte e diga o nome das ilustrações.
  • Chame atenção para detalhes, expressões, cores, formas, rimas e ruídos dos objetos ou animais.
 
PARA LER COM CRIANÇAS DE 12 A 18 MESES:
  • Deixe a criança andar à vontade em torno de você e dos livros.
  • Deixe a criança pegar no livro, manusear e ler à vontade.
  • Mostre as ilustrações. Deixe a criança dizer o que vê.
  • Estimule a criança com perguntas. Responda fazendo novas perguntas.
  • Explore os nomes, ações, cores e formas com perguntas e comentários.
 
PARA LER COM CRIANÇAS DE 18 A 24 MESES:
  • Deixe a criança escolher o livro que você vai ler com ela.
  • Estimule a criança com perguntas sobre os detalhes do livro: "O que é...?", "Onde está...?".
  • Converse sobre os sentimentos e opiniões da criança sobre o livro. Diga o que você sente.
  • Ajude a criança a relacionar o que vê no livro com o que ela conhece, com o que ela faz ou com o que ela possui.
 
PARA LER COM CRIANÇAS DE 24 A 36 MESES
  • Prepare-se para ler e reler o mesmo livro várias vezes. As crianças precisam ler repetidas vezes para aprender.
  • Releia sempre exatamente como está escrito.
  • Deixe a criança escolher o livro que ela quer ler.
  • Deixe a criança ler e brincar com os livros.
  • Faça perguntas: "Onde está... ?", "O que é...?" "O que está acontecendo... ?".
  • Responda às perguntas da criança e faça novas perguntas.
 
PARA LER COM CRIANÇAS DE TODAS AS IDADES
  • Leia conversando, perguntando e estimulando a criança.
  • Durante a leitura: crie um clima afetuoso, coloque a criança no colo, no sofá, toque, abrace, beije a criança, bata palmas e faça movimentos junto com ela.
  • Leia apenas enquanto a criança estiver interessada e participando.
  • Crie o hábito de leitura, sempre nos mesmos horários: depois do almoço, hora do descanso, depois do banho, antes de dormir.
  • Divirtam-se!
 

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Poesia para Crianças - Combina com leitura

A boa poesia rima – e muito bem – com os pequenos leitores, sempre dispostos a se deixar levar pela ludicidade e musicalidade dos versos

O Convite – e esse é o nome do poema cujo trecho foi reproduzido acima – é do poeta, tradutor, crítico e ensaísta brasileiro José Paulo Paes (1926-1998), um dos nomes que está na ponta da língua quando o assunto é poesia para crianças. Estudiosos, poetas, músicos, todos concordam com Paes: a poesia é brinquedo, sim. “Quem perdeu isso foi o adulto”, diz o músico Tim Rescala, diretor musical e artístico do espetáculo Une Dune P... de Poesia, atração do SescTV em setembro (veja boxe Grande brincadeira). “Acho que falta poesia nos próprios adultos. Acho que nós deixamos um pouco a coisa de lado.”

Isso seria, de fato, uma grande perda. Segundo o professor Hélder Pinheiro, do Departamento de Letras da Universidade Federal da Paraíba, quem lê mais poesia pode desenvolver uma sensibilidade mais aguçada para alguns aspectos da língua e da vida como um todo. Pinheiro, autor de Poesia na Sala de Aula (Bagagem, 2007) e organizador da coletânea Pássaros e Bichos na Voz de Poetas Populares (Bagagem, 2004) – recomendada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) –, afirma ainda que, embora “a sensibilidade poética deva ser um projeto para a vida inteira, o ditado ’quanto antes melhor’ – assim como é com a literatura em geral – se aplica também aqui.

“Se o indivíduo começar bem na infância, teremos mais chances de ter um adulto mais sensível”, diz o especialista. “Nesse sentido, acho que a escola e a família têm um papel fundamental: cultivar a leitura ou audição de poesia, se possível, todos os dias.”

Do que ela fala?

No entanto, conforme observa o próprio professor, a escola e os pais ainda não descobriram – salvo honrosas exceções – que poesia rima ricamente com criança. “A escola e a família trabalham pouco com poemas e, quando trabalham, ainda permanece o ranço de usar como pretexto para ensinar alguma coisa”, diz. “Acho que essa pode ser uma explicação para que a poesia ainda não seja muito apreciada pelas crianças.”

No âmbito da presença da poesia nas escolas, o pedagogo e mediador de leitura para crianças e adolescentes José Roberto da Silva, da ONG A Cor da Letra, acrescenta que até há a intenção por parte dos professores de trabalhar o gênero com as crianças em sala de aula, mas na sua opinião muitas vezes faltam títulos. “A quantidade de livros de poesia nas escolas, sobretudo as públicas, localizadas em comunidades de baixa renda, é muito pequena”, declara.

“O que se agrava com o problema de formação dos professores. Muitos acham a poesia importante, mas não tanto quanto a prosa.” O mediador também cita a tradição ?avaliativa das escolas. “Geralmente só se lê em sala de aula para produzir alguma coisa”, avalia. “E com a poesia isso é mais difícil. Então sempre fica no: ‘De quem é a poesia?’, ‘do que ela fala?’. Nunca há um envolvimento com o gênero como bem cultural.”

O músico Tim Rescala conta que presencia isso na educação das filhas, uma de dois e a outra de 14 anos, mesmo se tratando de uma escola particular. “A mais velha tem muito talento para a arte, mas isso não é muito valorizado na escola dela”, conta o artista. “E olha que, apesar de ser católica, é uma escola progressista. Mas não há esse estímulo. São poucas as que valorizam o conteúdo artístico da mesma forma que os demais. Acho que é um preconceito que ainda persiste.”

Livro aberto

Para o escritor Ricardo Cunha Lima – Prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantojuvenil com De Cabeça Para Baixo (Companhia das Letrinhas, 2001) – essa questão é fácil de ser resolvida: basta ler uma poesia para as crianças e elas vão pedir mais. “Eu acho até melhor ler poemas para crianças do que ler prosa, histórias mais longas”, afirma. “Eu mesmo já li para crianças e é bom porque você lê um e ele acaba rapidinho. Às vezes você começa a ler uma história muito comprida e as crianças começam a se inquietar.” E o autor dá a dica para os pais: “Leiam poesias para as crianças à noite”.

Na análise de Lima, a ludicidade e a musicalidade da poesia são grandes trunfos na hora de conquistar o público infantil. “Tem a ver com os sons das palavras, com o jogo que dá para fazer com elas”, diz. “Acho inclusive que é por isso que a rima, que tem ficado fora da poesia contemporânea, persiste na poesia infantil. A criança gosta quando rima.” O músico Tim Rescala concorda com o apelo da música. Para ele, essa é uma ótima forma de apresentar a poesia aos pequenos.

“Uma forma de você trabalhar a poesia é por meio da canção, por mais simples que ela seja”, avalia. Essa simplicidade, no entanto, não pode ser confundida com baixa qualidade. Para Rescala, vale o mesmo quando se fala de criança e música. “A criança é um livro aberto para novas experiências”, diz. “E ela tem uma disponibilidade muito maior do que os adultos para aprender coisas novas, para o lúdico, para brincar. E com a poesia acho que se pode utilizar o mesmo caminho, o mesmo canal, principalmente se considerarmos a poesia como um jogo de palavras.”

Música para os ouvidos...

Para o professor Hélder Pinheiro, a questão da musicalidade é “central”. “E ela se dá dos mais diversos modos: assonâncias, aliterações, rimas e repetições de palavras são alguns dos procedimentos.” Segundo o autor, uma poesia mais conceitual, “com imagens mais abstratas”, tende a não atrair a criança. “No entanto, muitas vezes ela adora o som, embora não entenda nada do sentido. Portanto, tema e forma (ou estrutura) devem sempre vir bem casados, para que a significação seja sempre mais rica.”

Outro ponto ressaltado pelo especialista é o mesmo constatado na prática pelo escritor e poeta Ricardo Cunha Lima nas suas incursões como leitor de poemas para grupos de pequenos: o tamanho. “Poesia para crianças não deve ser muito longa. E há que se ter cuidado também com o vocabulário: palavras muito rebuscadas muitas vezes tornam qualquer poema pernóstico.” Isso explica o fascínio infantil até hoje exercido pelos poemas de Cecília Meireles.

“Uma criança que ouça: ‘A bela bola rola/a bela bola de Raul’, de Cecília, muitas vezes devaneia a partir deste primeiro verso do poema”, exemplifica Pinheiro. “Imagina a bola rolando, o colorido das bolas, a brincadeira. Certamente, o encanto da poesia para criança está, sobretudo, no som.”

Colocar-se no lugar da criança, tentar entender seu ponto de vista sobre o mundo – sem, claro, cair na infantilidade ridícula – também conta pontos na hora de “fisgar” ouvidos pouco experientes. “Acho que é isso o que atrai as crianças na minha poesia”, diz Cunha Lima. “Essa ludicidade, naturalidade, a criança não tem problemas com cavalos azuis, por exemplo.”

Poesia sempre

Assim como acontece com a literatura em geral, a poesia depende muito do hábito para conquistar seu lugar no cotidiano. “Por que gostamos de música?”, pergunta o professor Hélder Pinheiro. “Porque a ouvimos cotidianamente.” O músico Tim Rescala complementa: “Antes até de haver o hábito da leitura, tem que ter a brincadeira”, diz.

“E isso depende muito dos brinquedos, do tipo de brincadeira que você propõe. Então, pode ser uma brincadeira com palavras, um jogo com elas, de inventar palavras novas.”. O pedagogo José Roberto da Silva, de A Cor da Letra, afirma que a poesia exercita mais a abstração do que um texto em prosa. “E isso, de certa forma, ajuda a desenvolver a sensibilidade”, finaliza.

O palhaço atirou-se num poço de marmelada.
De graça
pois a pantera
espera que ele trouxesse suspiros
naquela noite.

Roberto Bicelli


Robalo

peixe marcado
por sua saúde
e beleza.
Não há anzol
que não te queira
no fundo ou
na beira.
Não há sol
que não se prisme
nas tuas escamas
e nadadeiras.
Não há frigideira
que não se excite
com teu caldo
de primeira.
Não há justiça
que se faça
quando te pescam
de graça.

Roberto Bicelli

As Abelhas

A AAAAAAAbelha mestra
E aaaaaaas abelhinhas
Estão tooooooodas prontinhas
Pra iiiiiiir para a festa.
(...)
Vinícius de Moraes

Problemas da jiboia

a palavra jiboia tinha uma bóia
e assim podia boiar no rio da linguagem;
agora os mestres decidiram, porém,
que o seu acento não lhe assenta bem,
e a jibóia se transformou em jiboia
(...)

Geraldo Carneiro

Publicado em Setembro/2010
Fonte: Revista E

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Como criar um ambiente leitor

Para promover a formação de leitores, o espaço da escola precisa estar repleto de textos e a rotina deve contemplar momentos reservados à leitura de qualidade e a conversas sobre livros


"Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone, uma extensão da voz e, finalmente, temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém, é outra coisa. O livro é uma extensão da memória e da imaginação." Foi assim, no ensaio O Livro, publicado em Cinco Visões Pessoais, que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1898-1986) resumiu a importância da literatura. Por meio dela, é possível conhecer personagens e culturas que fazem revelações sobre a natureza humana (e, portanto, sobre nós mesmos). Quem nunca se identificou com o protagonista de um romance e, tomando contato com as emoções vividas por ele, descobriu os próprios sentimentos? Quem, pelas frases de um conto, não viajou para outros lugares - reais ou fictícios - e criou em sua cabeça um mundo novo, único?

Mas não basta folhear as páginas de romances, contos, crônicas, fábulas, novelas e poesias para chorar, rir, recordar. É preciso aprender a ser um leitor literário. Infelizmente, na escola, esse é um conteúdo que vem sendo deixado de lado. Os textos são usados quase exclusivamente como um instrumento de estudo (sobre as figuras de linguagem, a pontuação e outros usos da língua ou a história da literatura, por exemplo). Esses, é claro, continuam sendo conteúdos curriculares importantes, que ajudam a desfrutar dos prazeres da leitura. Só que, sem o trabalho de ensinar a ler textos literários, eles são insuficientes. E como se faz isso? Lendo livros de literatura e mostrando às crianças e aos jovens como agem os adultos que já têm esse hábito. Alguns pontos de partida desse percurso são:

- Garantir o acesso ao acervo de livros,

- Permitir que os alunos possam escolher os gêneros e os autores que desejam ler,

- Mostrar a importância de trocar indicações de leituras e opiniões com amigos e colegas,

- Destacar que é possível ler em qualquer lugar, desde que a pessoa se sinta confortável.

Valorizar a literatura requer mudanças nos espaços e na rotina

Como gestor, talvez você precise mudar alguns aspectos da rotina e dos espaços da escola para oferecer esse aprendizado a todos os estudantes. O ideal é pensar em como criar um "ambiente leitor", envolvendo gestores, professores, funcionários e pais nessa tarefa (afinal, o exemplo dos adultos como modelos de leitor é fundamental para estimular a garotada e atingir os objetivos). Isso não significa que seja obrigatória a montagem de uma biblioteca "oficial", com pelo menos um título por aluno matriculado e um bibliotecário formado cuidando das obras. Ao contrário, qualquer espaço pode ser adaptado para a montagem do acervo. "O que está em jogo é a importância que se dá à leitura. De nada adianta ter um local razoavelmente estruturado se esse valor não é parte da cultura do grupo", resume Roberta Panico, consultora de NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR. Até porque, segundo o Censo Escolar de 2009, apenas um terço das escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio tem biblioteca (nas particulares, esse número sobe para 78%) - razão pela qual o governo federal aprovou, em maio, uma lei que define o prazo de dez anos para que todas as instituições de Educação Básica passem a ter uma (se você já tem uma biblioteca em sua escola, leia o quadro abaixo com dicas para melhor geri-la).

Na reportagem de capa da edição de agosto/setembro de 2010 da revista NOVA ESCOLA GESTÃO ESCOLAR, apresentamos as oito ações mais eficazes para construir e manter viva a cultura de escola leitora. Elas estão divididas em quatro áreas da gestão (espaço, materiais, equipe e comunidade) para ajudar você, gestor, nesse trabalho. Como diz a espanhola Teresa Colomer, professora da Universidade Autônoma de Barcelona e especialista em literatura infantil e juvenil, "as maneiras para chegar lá são variadas, mas o objetivo final é sempre o mesmo: promover um entorno povoado de textos, tempos de leitura e conversações sobre eles".

Biblioteca para todos
De olho na equipe e no horário de funcionamento

Mesmo as escolas que têm biblioteca podem sofrer com outros problemas. Um deles é a falta de bibliotecário, pois há menos profissionais formados do que espaços para eles trabalharem. Nesse caso, é possível preparar um professor para ser o responsável pelo local - ou alunos-monitores e estagiários. Outra atribuição do gestor é manter o espaço aberto em períodos e tempos adequados para melhor atender o público. No CMET Paulo Freire, em Porto Alegre, cinco educadores se revezam para que a sala fique aberta das 8 às 22h30, para as turmas dos três períodos. Vale lembrar que a biblioteca é um lugar de leituras individuais e de interação. "É ali que os alunos vão aprender a pedir indicações e dividir opiniões. Por isso, não se deve exigir o silêncio absoluto", completa Roberta Panico.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

Oito ações para construir uma escola leitora

Garantir acesso a bons livros e criar um ambiente em que a leitura é rotina são maneiras eficazes de formar leitores de literatura. Veja como tornar isso realidade

1 Aproveite os mais diversos ambientes

Não é por falta de sala exclusiva que o acervo deve ficar encaixotado. "Já vi bibliotecas em corredores e até na entrada do banheiro", diz Celinha Nascimento, mestre em literatura brasileira e assessora de escolas públicas e particulares. Entre 2001 e 2009, Anália Fagundes Felipe foi diretora da EM Ivo de Tassis, em Governador Valadares, a 315 quilômetros de Belo Horizonte, e usou um carrinho para facilitar o contato com os livros. Ele passava nas salas e ficava no pátio durante o recreio (as professoras de leitura cuidavam do empréstimo). Depois, a equipe gestora instalou armários nos corredores, com portas que se abrem nos intervalos. "O espaço foi batizado pelas crianças de Ivoteca, em referência ao nome da escola", conta Anália. Perto das prateleiras, há murais com indicações dos títulos mais retirados, dados sobre os turnos que mais buscam obras - incentivando uma saudável competição - e dicas literárias feitas pelos alunos. Outra dica é decorar paredes com poemas, trechos de livros e dados sobre os autores.

PORTAS ABERTAS: Sem lugar para o acervo,
a EM Ivo de Tassis usa armários nos corredores.

2 Invista na organização do acervo

Para garantir que as obras transformem a maneira como crianças, jovens e adultos se relacionam com a literatura, não basta alinhá-las nas estantes da escola. Se o leitor precisa percorrer longas prateleiras sem entender a ordem dos livros, a busca pelo título desejado fica desanimadora. Uma das estratégias para fugir desse problema é separar as obras em literatura infantil, juvenil e adulta - bem como por tema, autor ou gênero. Uma boa inspiração é pensar em como funcionam as livrarias. Assim como elas usam estratégias para incentivar a compra, sua escola pode copiar o modelo com o objetivo de atrair leitores: expor logo na entrada os volumes mais retirados em determinado período, destacar as novidades em murais ou jornais internos, montar caixas com os livros divididos por faixa etária e colocá-las em locais de fácil acesso e deixar tudo sempre ao alcance dos estudantes - as prateleiras baixas, com itens para os pequenos, e as mais altas, para os mais velhos. "Muitas vezes, encontramos coisas maravilhosas e raras quando investimos em uma boa organização", afirma Celinha Nascimento.

3 Busque maneiras de ter (mais) livros

Toda escola tem direito a um acervo variado e atualizado. Desde 1997, o Ministério da Educação (MEC) fornece, por meio do Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), livros de literatura para as instituições públicas. Algumas Secretarias de Educação contam com projetos semelhantes: no Rio de Janeiro, gestores e professores estaduais recebem dinheiro para atualizar o acervo durante o tradicional Salão do Livro. Em Santa Catarina, alunos do Ensino Fundamental ganham da Secretaria Estadual títulos de autores brasileiros. Se o acervo de sua escola está há muito tempo sem ser renovado, os especialistas sugerem organizar campanhas de arrecadação junto à comunidade ou solicitar doações a livrarias. Nesse caso, é preciso ficar atento ao que chega para escolher apenas o que tem qualidade literária e é, de fato, interessante para os alunos.
 
SEM MEDO DE USAR: Na EMEIEF Carlos
Drummond de Andrade, os livros vão até mesmo ao jardim.

4 Faça os livros circularem

Receio de que a capa estrague, as páginas se soltem ou o exemplar desapareça - eis algumas das inquietações que afligem os gestores. Antes de tudo é bom lembrar que, como todos os bens de consumo, os livros têm vida útil e, mais cedo ou mais tarde, precisam ser repostos. Por isso, nenhuma dessas preocupações pode impedir que os livros cumpram sua função: passar por alunos de todas as idades e chegar à comunidade. A equipe gestora da EMEIEF Carlos Drummond de Andrade, em Santo André, na Grande São Paulo, permite que as professoras levem exemplares para o jardim para que as crianças ouçam histórias e leiam num ambiente descontraído. Camila de Castro Alves Teixeira, da central pedagógica da Comunidade Educativa Cedac, em São Paulo, sugere campanhas educativas para ensinar os usuários a preservar os livros. Mais produtivo do que temer perdê-los é investir no controle de retirada (com programas de computador ou cadernos de registro). Um exemplar pode não ser devolvido por esquecimento ou porque o aluno quer ficar com ele. Discutir os direitos e deveres da vida em sociedade e elaborar regras de uso do acervo - prevendo a possibilidade de renovar o empréstimo da obra - pode ser um caminho. Mesmo as punições - sem exageros, por favor - são necessárias: enquanto não houver a devolução do livro atrasado, o usuário pode ficar impedido de realizar novos empréstimos.

5 Desperte o gosto pela literatura

Para formar leitores, é preciso que o professor seja, ele mesmo, um leitor, certo? O que fazer, então, quando ele não lê? Na prática, o mesmo que se faz com os alunos: criar condições para que a literatura vire um hábito. Na UME Antônio Ortega Domingues, em Cubatão, a 55 quilômetros de São Paulo, os educadores começam as reuniões com uma leitura literária coletiva e uma discussão sobre as impressões de todos a respeito do texto lido. O objetivo é aproximar a equipe da boa literatura e oportunizar momentos para que esses profissionais ampliem seu repertório e se interessem em buscar outras leituras. Algumas ações podem ser contempladas num projeto institucional que preveja a montagem de um acervo literário específico para adultos, a produção de um mural com indicações na sala dos professores e a organização de círculos de leitura. Importante: os momentos de formação do professor leitor não eliminam a necessidade de capacitá-lo na didática da leitura - fundamental para ele poder ensinar os alunos a também se tornar leitores.

6 Incentive os funcionários a ler

Fazer com que o gosto pela leitura contamine toda a escola é um desafio que rende ótimos frutos. É essencial, portanto, incentivar os funcionários a frequentar o espaço destinado à leitura. Na EM Professor Luiz de Almeida Marins, em Sorocaba, a 99 quilômetros de São Paulo, todos têm uma carteirinha da biblioteca e é comum ver merendeiras e auxiliares de limpeza escolhendo exemplares para ler em casa. Também é importante convidar os funcionários para participar de momentos de leitura coletiva, em horários previamente acordados entre todos e em local aconchegante. "O ato de ler ainda é visto por muitos como uma experiência solitária. Mas não deve ser assim. A leitura em conjunto estimula o prazer e a familiaridade com os textos", destaca Camila Teixeira, da Comunidade Educativa Cedac. Ações como essa ajudam a despertar no pessoal da equipe de apoio a vontade de se tornar um contador de histórias, por exemplo. Nesse caso, cabe a você, gestor, abrir espaço para que a atividade aconteça (sem tirar dos professores a responsabilidade de ler para as turmas).

DE CARTEIRINHA: Na EM Professor Luiz de Almeida
Marins, os funcionários também frequentam a biblioteca

7 Forme redes literárias
 
Oferecer contato com os livros exige habilidade e jogo de cintura. Mapear na vizinhança as entidades que têm potencial para ser parceiras da escola e procurar os responsáveis por equipamentos urbanos são boas pedidas. Em São João do Oeste, a 676 quilômetros de Florianópolis, duas escolas públicas se valem do acervo da biblioteca pública, no centro da cidade, para ampliar a oferta de títulos. Para atender a um acordo feito com gestoras, a coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esportes, Teresinha Staub, aproveita as visitas semanais para levar alguns livros no carro da prefeitura. As obras são eleitas pela demanda das escolas ou por indicações de Teresinha.

8 Abra as portas para os pais

Finalmente, para formar uma comunidade de leitores, nada melhor do que estreitar o contato com as famílias e oferecer a elas a possibilidade de usufruir da boa literatura. Encontros com autores, saraus e atividades de contação de histórias atraem os familiares e ajudam a tornar a leitura uma prática difundida socialmente. A realização de uma Semana Literária foi o caminho escolhido pela EMEF Professora Maria Berenice dos Santos, em São Paulo. "A experiência foi enriquecedora desde o planejamento, quando alunos e funcionários trocaram indicações de textos e de autores que queriam conhecer", conta a professora Daniela Neves, idealizadora da festa. Já na EE Jornalista Francisco Mesquita, também na capital paulista, os saraus mensais fazem sucesso por contar com um variado repertório de leitura e declamações. Outra ideia, implantada pela EE Professor Astor Vasques Lopes, em Itapetininga, a 165 quilômetros de São Paulo, é incentivar os alunos a levar para casa um livro e um caderno de anotações para que as histórias sejam lidas e comentadas com os parentes. Além disso, o acervo deve estar sempre disponível à comunidade, principalmente nos locais em que a escola é a principal fonte de acesso aos livros.

LEITURA EM FAMÍLIA: Pais e filhos são incentivados a
ler juntos na EE Professor Astor Vasques Lopes

Publicado em Agosto/Setembro 2010