quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Literatura, muito prazer

A escola é um ambiente privilegiado para garantir muito contato com os livros. Conheça, passo a passo, os caminhos para ir além dos resumos e questionários de leitura e incentivar na garotada o gosto pelas obras literárias - mesmo que você não tenha familiaridade com esse tipo de texto


Muito se fala do poder da literatura - e de como a escola é um lugar privilegiado para estimular o gosto pela leitura. Infelizmente, porém, as salas de aula brasileiras estão longe de ser "celeiros de leitores". Salvo exceções, o contato dos estudantes com os livros costuma seguir um roteiro no mínimo enfadonho: alguns títulos (quase sempre "clássicos") são indicados (leia-se empurrados goela abaixo) e viram conteúdo avaliado (perguntas de interpretação de texto com uma única resposta correta). E só. A experiência que deveria ser desafiadora vira uma tarefa burocrática e sem graça. Os jovens se formam sem entender os benefícios da leitura e acabam não lendo mais nada. Pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e o Instituto Pró-Livro mostra que 45% da população não lê nenhum exemplar por ano (desses, 53% dizem simplesmente "não ter interesse" e outros 42% admitem "ter dificuldade").

Mas, obviamente, é possível mudar esse quadro. Esta reportagem especial se propõe a ajudar você com dicas de especialistas e novidades do campo da didática. Para começar, é preciso compreender que, antes de analisar e refletir sobre os aspectos formais da literatura (história, linguagem etc.), os estudantes têm de gostar de ler. E isso só se faz de uma maneira: lendo, lendo, lendo. Porém ninguém nasce sabendo. Cabe à escola dar acesso às obras e ensinar os chamados comportamentos leitores: "entrar" na aventura com os personagens, comentar sobre o enredo, buscar textos semelhantes, conhecer mais sobre o autor, trocar indicações literárias. Tudo pelo prazer que a literatura proporciona, de nos levar a outros lugares e épocas. Um percurso que idealmente começa na infância - mas também pode ser iniciado mais tarde (nunca é tarde para abrir o primeiro livro).

Nas próximas páginas, você encontra um guia com sugestões para despertar esse gosto pelos livros e ensinar os comportamentos leitores, dividido em Educação Infantil, 1º ao 5º ano e 6º ao 9º ano (e também os erros mais comuns que são cometidos na escola). Em seguida, mais três páginas com uma reflexão sobre o papel do professor nessa caminhada - e como fazer para você se encantar pela literatura e/ou ampliar seu repertório. "Quando existe um espaço para discutir as leituras, com a possibilidade de inúmeras interpretações, começamos a desenvolver a curiosidade e o desejo de ir além", explica Mónica Rubalcaba, professora de Letras da Universidad Nacional de La Plata, na Argentina. Com isso, os alunos vão passar a ver a leitura não como uma tarefa escolar, mas como um hábito cotidiano. E você também.

Publicado em Agosto 2010

Fonte: Nova Escola

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O mapa da leitura no Brasil

Revista CP Geografia - 30/08/2010


Todos os estabelecimentos de ensino do Brasil – os públicos e os privados – devem ter uma biblioteca. Isso, que até pouco tempo atrás era só um desejo, agora virou lei, sancionada em maio pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e já está em vigor. A aplicação da nova lei pode mudar o mapa brasileiro da leitura, traçado pela pesquisa Retratos da Leitura do Brasil. O levantamento, no qual 77 milhões de brasileiros admitem que não são leitores (enquanto outros 95 milhões, ou 55% dos brasileiros, declaram ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses), mostra uma situação terrivelmente desigual.

De acordo com esse mapa da leitura, elaborado a partir do estudo encomendado pelo Instituto Pró-Livro, 45% dos leitores brasileiros estão na região Sudeste, onde seis em cada dez habitantes se confessam leitores. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste estão os menores números de leitores do país – 8%, 25% e 7%, respectivamente. Na região Sul, estão 14% dos leitores brasileiros.

Os índices de leitura – 4,7 livros lidos por habitante/ano pela população acima de cinco anos de idade, em contraste com a média de 1,8 encontrada em 2001 entre os brasileiros acima de 15 anos e pelo menos três de escolaridade – também se diferenciam de acordo com as regiões do Brasil. O Sudeste e o Sul aparecem na frente, enquanto que o Nordeste e Norte ficam na rabeira. Também estão nessas regiões, proporcionalmente aos índices verificados por pesquisas do IBGE e um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a pedido do Ministério da Cultura, os piores déficits de bibliotecas públicas.

“As mesmas desigualdades sociais encontradas em outras áreas infelizmente se reproduzem na questão da leitura, o que é, sem dúvida, uma grande dificuldade para combater as desigualdades verificadas em quesitos como renda per capita, nível de salários e qualidade de vida”, afirma o diretor do Observatório do Livro e da Leitura, Galeno Amorim, que coordenou a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil.

O escritor gaúcho Jéferson Assumção observa que os atuais retratos da leitura do Brasil resultam da história da colonização do País. Ele lembra que autores como Sérgio Paulo Rouanet e Renato Ortiz já apontavam problemas educacionais e de valor simbólico na prática da leitura entre os brasileiros.

No capítulo que escreveu para o livro Retratos da Leitura do Brasil, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Instituto Pró-Livro, e organizado por Galeno, Assumção descreve que a relação dos brasileiros com o livro é recente e “herdeira de uma história bastante problemática”.
“Enquanto na França de 1890 cerca de 90% dos habitantes eram alfabetizados, e na Inglaterra de 1900 este número chegava a 97%, em Portugal havia apenas de 20% a 30% de alfabetização no mesmo período, ou seja, pouco menos de cem anos”, descreve ele. Na última década do século 19, o índice de analfabetismo no Brasil era de 84%.

Atual secretário de Cultura de Canoas (RS), Assumção observa que a miscigenação proporcionada pela colonização dá riqueza cultural expressa em cores, sons e movimentos. No Brasil só a pouco mais de 200 anos deixou de ser proibida a impressão de livros. A imprensa, aliás, desembarcou com a família real, em 1808, e restringia-se à fabricação de documentos e livros oficiais.

Além da herança histórica, a formação de leitores sofreu o impacto da ditadura militar, na avaliação de David Plank, autor da obra Política Educacional no Brasil: Caminhos para Salvação da Pátria. A reforma educacional daquele período eliminou dos currículos escolares disciplinas como francês, latim, filosofia e sociologia – as duas últimas voltaram a ser ministradas em 2007.

“A educação virou ensino, adestramento para a formação de mão de obra para aquecer o desenvolvimentismo capitalista brasileiro”, complementa Jerfferson Assumção. Esse perfil da educação brasileira fez a formação de leitores depender exclusivamente de esforços individuais, que não têm força para produzir o volume de leitores críticos dos quais o Brasil precisa.

Direito

Para Galeno Amorim, que coordenou a criação, em 2006, do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), do Ministério da Cultura e Ministério da Educação, é fundamental que o Estado brasileiro trate a questão da leitura um direito de cidadania. “O acesso aos livros e a outros suportes de leitura, via bibliotecas públicas, deve ser encarado como um serviço público de natureza essencial”, defende Galeno, ao apontar a necessidade de enraizar mais as políticas públicas do livro e leitura, a partir da instituição de Planos como o PNLL, nos estados e municípios.

Galeno Amorim também aponta a necessidade da criação urgente de uma ampla e vigorosa política nacional de revitalização das bibliotecas públicas, sejam elas municipais, escolares, universitárias ou comunitárias. “Somente políticas públicas permanentes, a partir de uma mobilização da sociedade e a pressão dos agentes sociais, é que podem enfrentar esse quadro da desigualdade no acesso e na prática da leitura, que perpetua e mesmo aprofunda das outras desigualdades sociais”, afirma Galeno.

“O conhecimento, a autonomia intelectual e a capacidade transformadora que gera fazem da prática de leitura uma questão de cidadania”, observa o diretor do Observatório do Livro e da Leitura, que em 2005 comandou no Brasil as comemorações do Ano Ibero-americano da Leitura, o Vivaleitura, que mobilizou 100 ações, entre projetos e programas, e é considerado um marco na virada que está ocorrendo nesse tema nesta década no País.

A questão, adverte Galeno, no que é apoiado pelo ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci, de quem foi secretário municipal da Cultura em Ribeirão Preto (SP), é que o País dificilmente conseguirá alcançar bons índices econômicos sem investir em conhecimento. “Nem um país do mundo, entre os desenvolvidos, chegou a esta condição sem ter resolvido, antes, a questão do acesso à cultura e à educação de qualidade”, observa Palocci. “O acesso aos livros, portanto, é um direito que o Estado tem de garantir”, defende Galeno.

Segundo o IBGE, no início da década, existiam 1300 bibliotecas públicas no país. A lei que determina a implantação das bibliotecas é fruto dos esforços empreendidos por meio do PNLL, que conseguiu ampliar os recursos destinados pelo Ministério da Cultura de R$ 6 milhões, em 2003, para os cerca de R$ 180 milhões atuais. “Para alterar o mapa da leitura no Brasil é necessário muito investimento, sobretudo em educação”, diz Galeno Amorim.

Afinal, uma parcela considerável das pessoas que não leem no País justifica que não o fazem por não serem alfabetizadas. Esses – 15% segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil – não conhecem as letras. Outros 7% são analfabetos funcionais, ou seja, declaram que não leem por não compreenderem a maior parte do que está escrito. O levantamento também revelou que a dificuldade de acesso está entre as principais razões para não lerem entre aqueles que já são leitores. 18% justificaram falta de dinheiro e 15% falta de bibliotecas.

Na cidade de Passos (MG), foi justamente a existência de uma biblioteca pública que fez de Benedita Imaculada Bastos uma leitora voraz. Ela vive em Divisa Nova, cidade de apenas 5 mil habitantes, no Circuito das Águas, em Minas Gerais, e já perdeu a conta de quantas vezes foi a uma biblioteca. A Ilha do Tesouro foi o primeiro livro que leu, há 40 anos. E nunca mais parou.

“Leio no quarto, antes de dormir e quando acordo de madrugada, pego o livro de novo”, diz. Ela vê novelas, mas lê nos intervalos comerciais. “Sou muito caseira, minha companhia são os livros”, afirma a mulher, que trabalha como doméstica há mais de três décadas para a mesma família e estudou até a 4ª série do ensino fundamental.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Leia para seu filho

Essa brincadeira gostosa, que estreita os laços familiares, também ajuda no desenvolvimento pedagógico e psicológico da criança e deve ser encarada com seriedade

por Camila Carvas

O vendedor paulista Wellington Medeiros, de 32 anos,
sempre lê para sua filha, a pequena Laura, de 2 anos e meio

Era uma vez” é o começo de uma história que pode fazer toda a diferença no desenvolvimento infantil. Quando papai e mamãe — professores e até irmãos mais velhos — se sentam com os pequenos para ler um livro ou contar uma historinha, mais do que um mundo encantado de fantasia, eles estão descortinando uma verdadeira experiência de aprendizado. Par acompletar, essa aula ainda pode ser transformada em momento de intimidade e amor familiar que, muitas vezes, se perde em meio ao caos do dia a dia. Mas, como toda brincadeira de criança, a “contação” é coisa séria.

Ao lado de bonecas e carrinhos, ela funciona como um mediador da relação entre a meninada, os adultos e o mundo. E, apesar da sua importância pedagógica e psicológica, deve ser mantida sempre no campo da arte, e não no do exame, como é comum acontecer na escola. A atividade deve ser lúdica e divertida, sem imposições, cobranças, tarefas ou castigos. “Tudo o que é feito com e para as crianças precisa ser envolvente e realizado com afeto”, diz Christine Fontelles, responsável pelo Programa Ler É Preciso, do Instituto Ecofuturo. Não há motivos, então, para ser diferente com as histórias.

Contar e ler um relato deve ser algo prazeroso. É por meio dessas atividades, e do contato com o imaginário e com a ficção, que meninos e meninas descobrem e expressam sentimentos que não conheciam ou ainda não eram capazes de compreender. “Devido ao próprio estágio de desenvolvimento, as crianças não possuem muitos recursos para administrar esse lado emocional”, conta a psiquiatra Marisol Montero Sendin, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Como a linguagem verbal ainda é incipiente, a forma natural de expressão são a imagem, o jogo e o faz de conta. “Na falta de outras possibilidades, a dificuldade de lidar com as emoções se manifestará por meio da agressividade, problemas de aprendizado, de sono ou alimentares”, diz Marisol. Enquanto os personagens enfrentam coisas estranhas, a garotada tem contato com o medo, o ciúme e o luto. Em um diálogo interno, adquirem conceitos e vivenciam experiências valiosas. Cada conto que a criança conta contribui para a construção de um autorretrato para o qual ela pode olhar, pensar e mudar.

O famoso “senta que lá vem história” não tem momento certo ou idade mínima para começar. A paulistana Laura Volponi Medeiros, de 2 anos e meio, já era uma ouvinte atenta mesmo antes de nascer. “Quando estava grávida de Laura, minha mulher se sentava na cadeira e, enquanto namorava a barriga, lia um monte de livros”, conta o pai da menina, o vendedor Wellington Medeiros, de 32 anos. Hoje, mesmo sem ter sido alfabetizada, a menina adora “ler”. Nos semáforos, sempre que possível pede para Medeiros pegar jornais gratuitos e propagandas e os folheia do alto de sua cadeirinha de segurança.

Como uma esponja, a criança tende a absorver tudo que os adultos ao seu redor fazem. É assim que ela aprende, por imitação e repetição. Portanto, se os pais leem, as chances de os filhos se tornarem leitores é enorme. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, uma associação sem fins lucrativos cuja missão é fomentar a leitura e a difusão de livros, revela que um em cada três leitores brasileiros se lembra de ter visto a mãe lendo alguma coisa. O levantamento mostra também que 49% do público adulto considerado leitor, ou seja, que leu pelo menos um livro nos últimos três meses, se refere à figura materna como a pessoa que mais o incentivou. Entre garotos e garotas, esse número sobe para 73%. Mas os pais também têm um papel de destaque nesse cenário. Afinal, 30% dos leitores os consideram como maiores responsáveis por incutir neles o prazer de conjugar o verbo ler.

Por falar em verbos, não importa se se trata de ler ou de contar histórias, ambos desenvolvem a criatividade, imaginação e o raciocínio lógico da meninada. Estudos indicam, inclusive, que a leitura em voz alta na primeira infância melhora o desempenho escolar. Permitir que os pequenos inventem novos finais deixa a brincadeira ainda mais estimulante. “Aqui no Brasil, onde os livros infantis são muito caros, vale recortar figuras de jornal e revista, fazer colagens, pintar com o dedo e criar sua própria obra”, sugere Maria Ângela Barbato Carneiro, professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O mais importante é a interação: ao desenhar, modelar ou recontar uma história, a criança põe para fora fatos do seu próprio mundo.

Para os pequeninos, comprar livros de plástico, que possam ser usados até no banho, ou mesmo mordidos, é uma boa sugestão. Os de pano, laváveis à máquina, também são interessantes. “Os livros têm que ser de posse”, explica Maria Ângela. “Deve-se ensinar à criança que é preciso tomar cuidado com eles, que não se pode rasgá-los, mas sem impor nenhum tipo de obstáculo a seu acesso”, explica. Quando ela estiver cansada e dispersa, por exemplo, é possível contar uma história em capítulos, como nas novelas. Assim, no dia seguinte, continuará curiosa e disposta a ouvir um pouco mais.

Outra estratégia é guar dar os livros junto com os brinquedos. Na casa da Laura, nossa futura leitora, os livros estão todos ao seu alcance. “Ela mesma escolhe e pega a história que quer ouvir”, diz Wellington Medeiros. A literatura também pode colaborar no tratamento de traumas, doenças e dificuldades psicoemocionais (veja o quadro "Contação" terapêutica). No final das contas, isso ajuda a melhorar a imunidade e até a cicatrização. Ler ou ouvir histórias traz benefícios ao corpo e à mente infantis.

Fases da leitura

›› O bebê apenas responde ao ritmo e ao tom da voz do leitor. Frases ritmadas, como cantigas e poemas, dão o estímulo certo.

›› Quando a criança já balbucia, jogos rítmicos sonoros são perfeitos. Experimente frases como “janela, janelinha, porta e companhia”.

›› Se ela já fala algumas palavras e mantém a atenção por mais tempo, conte histórias ligadas às experiências dela. Depois, entram em cena relatos com fenômenos naturais e bichos.

›› Mais para a frente, temas como medo, ciúme, raiva, amor e amizade são bem-vindos.

›› Com a ampliação de seus horizontes, histórias fantásticas, de outros países e planetas passam a gerar mais curiosidade.


“Contação” terapêutica

Para a psicanálise, as histórias têm um caráter mais simbólico e ajudam a elaborar as emoções dos pequenos. Já na terapia cognitivo-comportamental — muito usada em casos de abuso físico ou sexual — elas também oferecem sugestões de enfrentamento. Quando se trata de uma doença física, os relatos acolhem o sofrimento psicológico. “Como uma pessoa não pode manifestar dois tipos de humor ao mesmo tempo, a ‘contação’ a tira de um estado depressivo e a transporta para a euforia, o que diminui a produção de hormônios corticoides”, explica a psiquiatra Marisol Montero Sendin. Segundo a Associação Viva e Deixe Viver, que desenvolve um trabalho voluntário de leitura para crianças com problemas mentais no Instituto de Psiquiatria do HC paulistano, cerca de 60% dos garotos e garotas atendidos pelos contadores passaram a se alimentar melhor. E, graças aos valores de coragem e força transmitidos pelas histórias, se socializam mais com médicos e enfermeiros.

Como contar um conto

›› O livro deve ser usado conforme a necessidade de desenvolvimento da criança. Para cada fase, um modelo diferente: para morder, para mexer, para olhar, para ver as figuras e, claro, para ler.

›› A “contação” pode ocorrer em casa, na creche, na escola, no hospital, na faculdade, em encontros literários. Ela faz parte da nossa natureza.

›› Guardar os livros junto com os brinquedos e deixá-los ao alcance das crianças não cria obstáculos nem transforma a literatura em algo sério e chato.

›› Inventar histórias, mudar os finais, cortar e colar figuras, montar cenários, encenar, moldar massinha e desenhar também é divertido. Crie o seu próprio livro.

Foto Omar Paixão - Ilustração Mariana Coan
 

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Especialistas defendem que pais leiam para filhos a partir dos 6 meses, porque melhora a cognição e o desempenho escolar

Livros com abas, que abrem janelas e são mais resistentes são
os ideais para os bebês pequenos / Foto: Simone Marinho.

Simone Intrator

Ler ou não ler para o bebê, eis uma questão que David Dickinson, doutor em educação pela Universidade de Harvard, e Perri Klass, pediatra, escritora e professora de pediatria e jornalismo da Universidade de Nova York, garantem saber responder. Sim, deve-se ler e muito, a partir dos 6 meses de vida, mas sem deixar os olhinhos do neném arregalados com a maluquice de Hamlet ou as desgraças de Rei Lear. A recomendação dos super-especialistas é incluir, em meio à troca de fraldas, a mamadeiras, passeios e choros, o folhear diário das páginas de um livro apropriado para aquela faixa etária, cheio de cores e figuras (hoje não faltam opções nas prateleiras). Para eles, esta é a melhor forma de desenvolver a inteligência da criança e a sua linguagem oral e escrita, preparando-a para a alfabetização e aprimorando sua capacidade de aprender.

Que fique claro: a ideia não é transformar o bebê num minigênio. Os especialistas, que apresentaram pesquisas científicas na Bienal de São Paulo na semana passada provando como a leitura interfere no desenvolvimento cognitivo da criança, querem prazer e interação ao som da narrativa dos pais. Os benefícios desse ritual são insubstituíveis. Não adianta só conversar com a criança ou passear descrevendo as paisagens nem inventar aventuras. Tem que ler, mostrar formas e cores e fazer perguntas ao bebê o tempo todo, estimulando sua participação.

Dickinson e Perri vieram para cá a convite da ONG Instituto Alfa e Beto (IAB), em São Paulo, e abraçaram a iniciativa da criação de uma biblioteca para bebês e o lançamento de uma cartilha com dicas das técnicas de leitura mais adequadas para cada fase. O objetivo é tornar os livros mais acessíveis também às classes sociais mais baixas, porque Oliveira acredita que o ciclo vicioso da pobreza também passa pelo ciclo vicioso da transmissão da linguagem. O IAB também criou um catálogo com 600 títulos (sim, 600!, uma média de dois por semana, dos 6 meses aos 6 anos, cerca de 100 por cada faixa etária) para serem lidos antes do ingresso ao ensino fundamental. O objetivo não é listar os melhores livros, mas, sim, dar uma ideia para os pais dos tipos de publicação adequados para a idade de seus filhos.

- O texto escrito possui uma variedade de vocabulário e uma complexidade sintática que não é encontrada na linguagem oral, nem mesmo na fala informal de adultos com curso superior - explica o fundador do IAB, João Batista Oliveira, psicólogo com PhD em Educação. - Todos os estudos mostram que expor a criança desde cedo aos livros contribui para o desenvolvimento da linguagem e, consequentemente, para o seu sucesso escolar. A formação do hábito de leitura também é importante para que a criança se torne um ávido leitor, outro fator fortemente associado ao sucesso escolar.

Mas, para tranquilizar quem perdeu o primeiro bonde, Oliveira garante que nunca é tarde para começar. Só ressalta que, quanto antes o hábito fizer parte do dia a dia da criança, melhor:

- Além de desenvolver diversas competências ligadas à alfabetização e à linguagem, a leitura também fortalece o vínculo das crianças com os pais: eles gostam de ler com os pais porque gostam dos pais. Mas a leitura deve ser participativa. Um dos aspectos mais importantes é envolver a criança, desde cedo, no processo de escolha de livros. Pergunte sempre qual a criança prefere, deixe que ela manifeste seus interesses ou crie novos. A escolha leva ao compromisso - garante o fundador do IAB.

Pelas pesquisas americanas apresentadas, das 12.500 crianças que fizeram teste de vocabulário aos 5 anos, as de famílias mais pobres tinham quase um ano de atraso; as que já tinham hábito da leitura em família aos 3 anos aumentaram o vocabulário em pelo menos 2 meses; e visitas mensais à biblioteca aumentaram o vocabulário de todas elas em 2,5 meses. Essa riqueza no repertório vai se refletir no desempenho escolar e no comportamento social. "Crianças que se atrasam nas séries iniciais correm o risco de permanecerem atrasadas ao longo do processo escolar", definiu Perri em sua apresentação. Além disso, para a pediatra, "ler para os filhos desde cedo ajuda a criança a ver os livros como fonte de prazer e de informação".

O neurofisiologista Mario Fiorani, do laboratório de Fisiologia da Cognição do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, com pós-doutorado no National Institutes of Mental Health do National Institutes of Health, nos EUA, não é, de forma alguma, contra o incentivo à leitura. Mas acredita que não é só a educação formal que molda as pessoas.

- Só as habilidades linguísticas não bastam, mas a leitura pode ampliar horizontes de forma inimaginável. Isso depende, porém, de senso crítico, que pode ser inato (natural do indivíduo) ou aprendido informalmente no convívio familiar. Caso contrário, a leitura pode produzir um leitor 'compulsivo', sem grandes ganhos.

Sobre o desenvolvimento da cognição, Fiorani diz que a leitura amplia o horizonte no campo da linguagem:

- Mas os aspectos cognitivos dependem de muitos outros fatores, tanto inatos quanto adquiridos. A leitura é um bom estímulo cognitivo para melhorar o conhecimento do mundo que nos cerca. Estimula a imaginação e o leitor pode parar para pensar no que está lendo quando quiser, o que permite uma melhor elaboração do conteúdo. Mas as pessoas podem desenvolver o hábito de leitura e aprimorá-lo em qualquer idade. O estímulo precoce só vai tornar tudo mais fácil. A leitura não é um fim mas, sim, um meio. O conhecimento é uma meta.

Fonte: O Globo

sábado, 21 de agosto de 2010

Projeto Mudando a História - Mediadores de Leitura

O Projeto
O Projeto Mudando a História faz parte do programa mundial Make a Connection, promovido pela Nokia International Youth Foundation ( IYF ) e, no Brasil, é uma parceria com a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. O projeto nasceu do interesse comum dos envolvidos em contribuir para a ampliação da participação juvenil na sociedade.
O Projeto Mudando a História forma jovens de 13 a 25 anos para atuarem como mediadores de leitura e multiplicadores dessa ação. Esses jovens, estudantes de escolas públicas e particulares, universitários, participantes de projetos e organizações não-governamentais vão mediar a leitura para crianças que freqüentam creches, escolas de educação infantil ou instituições de atendimento direto à infância em situação de risco.
Para ser mediador de leitura, o jovem participa de uma formação de 40 horas e de supervisões mensais. Dessa forma, ele aprende a planejar sua ação com um grupo de crianças e passa a ler semanalmente para elas, acompanhando o seu desenvolvimento.
O multiplicador é o jovem que já tem experiência como mediador de leitura e deseja formar novos mediadores. O Projeto Mudando a História oferece a esse jovem uma formação específica para que se torne multiplicador. Depois de formado, o multiplicador elabora um projeto de formação e de acompanhamento e planeja as ações necessárias para mobilizar outros jovens e instituições.

Participando do projeto, o jovem contribui para a formação de crianças leitoras e ampliar seu universo cultural. Atuando solidariamente, o jovem poderá redefinir sua participação na comunidade, contribuindo para a sua formação.
Objetivos
O projeto tem como objetivo fortalecer e disseminar a concepção de jovem como agente de intervenções e transformações sociais positivas. Através dos seguintes objetivos específicos:  

  • Aprofundar o conhecimento dos jovens e organizações parceiras sobre a formação de grupos de mediadores de leitura.

  • Fortalecer a relação entre os jovens, suas organizações e sua comunidade.

  • Promover intercâmbio e a identificação entre grupos de jovens de diferentes contextos sociais.

  • Contribuir com conhecimento para a formação de políticas e propostas na área da juventude.

  • Oferecer oportunidade de engajamento aos jovens;

  • Integrar indivíduos de diferentes contextos sociais e culturais;

  • Ampliar o acesso à leitura e ao livro de qualidade; mobilizar a sociedade para as questões da juventude.
 Instituições parceiras 
Em 2002 a Prefeitura Municipal de Manaus, através da Secretaria Municipal da Infância e Juventude - SEMINF, assinou um termo de compromisso com a Fundação Abrinq, tornando-se parceira do Projeto Mudando a História. Em março de 2005 a Fundação Abrinq inaugurou em Manaus o primeiro Pólo do Projeto Mudando a História em parceria com a SEMINF tendo sua sede localizada no CIACA Centro Sul, Av Darcy Vargas nº 378, Cep: 69050-020.  

O Pólo visa articular diferentes instituições parceiras para realizar as atividades formadoras de jovens voluntários nas situações de leitura para crianças da comunidade, ser um pólo de discussão e construção de conhecimento sobre o trabalho com a juventude, ser um centro de informações sobre o projeto, inclusão dos jovens nos processos de discussão do projeto, entre outras atribuições.
Em janeiro de 2005, já formou 46 jovens voluntários de Manaus como multiplicadores desta ação e são das seguintes instituições parceiras: 
  • SEMINF - Secretaria Municipal da Infância e Juventude 
  • Escola Estadual Professora Diana Pinheiro 
  • Escola Estadual Desembargador André Vidal de Araújo 
  • Fundação Nokia de Ensino 
  • Cia de Teatro Metamorfose 
  • INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia 
  • Biblioteca Pública do Amazonas 
  • FEPI ? Fundação Estadual de Políticas Indigenistas 
O pólo já realizou uma nova capacitação de mediadores de leitura, tem mantido o acompanhamento dos grupos de jovens mediadores formados, organizou reuniões com a comissão organizadora do Projeto em Manaus (com representantes de todas as instituições); num trabalho conjunto tem sido uma representante para a organização dos eventos promovidos pelo projeto.
Nesta visita, também acompanhou as atividades o prof. Élie Bajard , que ficou muito bem impressionado e fez as seguintes observações:
O grupo de jovens apresenta uma capacidade de análise grupal sobre o trabalho, como por exemplo:  

  • Diante das dificuldades encontradas apresentam uma preocupação em articular as diversas instituições, criam soluções diante da escassez do material.

  • A capacidade de elaborar novas propostas para ampliação do projeto no futuro. 

  • O entusiasmo manifestado em participar do projeto. 

  • O contato realizado com as crianças 

  • A construção do vídeo sobre o projeto em Manaus ? que pode servir para sensibilização de outros jovens, a capacitação e para informar os políticos pela ação desenvolvida.

  • A preocupação de relacionar o projeto com todas instituições. 
O Pólo vem desenvolvendo as atividades que consideramos necessárias para a construção mais sólida e crescente do Projeto Mudando a História.
Élie Bajard, doutor em lingüistica, professor convidado da Universidade de São Paulo, construiu uma experiência internacional de formação de professores no campo da aprendizagem da escrita através de vários países como a França, Argélia e Marrocos. No Brasil, como adido lingüistico da Embaixada da França, criou com o Ministério da Educação o Projeto Pró-Leitura. Élie está desenvolvendo uma abordagem da escrita enraizada na prática da literatura infantil e juvenil que está detalhada nos seus livros: Ler e dizer (Cortez Editora) e Caminhos da Escrita (Cortez Editora). Esta experiência entrou em convergência com o Projeto Mudando a História, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente, para a construção da avaliação das aprendizagens da escrita construídas pelas crianças e jovens beneficiados neste projeto.
Mediadores de Leitura  
A Secretaria Municipal da Infância e da Juventude Seminf, tornou-se parceira do Projeto Mudando a História em junho de 2002. 270 agentes jovens foram capacitados a mediadores de leitura sendo que 43 tornaram-se multiplicadores do projeto. A Seminf beneficia através das mediações de leitura realizado pelos agentes jovens mediadores as seguintes instituições:  
Onde estamos mediando?  

  • Escola Municipal Amine Daou Lindoso ( Zona Sul ) ás quintas-feiras

  • Centro Educacional Francisca Gomes Mendes ( Zona Oeste ) ás quartas e quintas-feiras

  • Escola Estadual Machado de Assis( Zona Sul ) ás terças e quintas-feiras

  • Escola Municipal Maria Fernandes ( Zona Oeste ) ás quartas-feiras

  • Centro Municipal de Educação Infantil. Padre Cláudio Dalbon ( Zona Norte ) ás quintas-feiras

  • Escola Estadual Roxanna Pereira ( Zona Sul ) ás terças-feiras

  • CEMEI - Centro Municipal de Infantil Humberto Calderaro Filho ( Zona Leste ) ás segundas e terças-feiras

  • CEMECRE - Centro Educacional Maria Edna Cantoário Reis ( Zona Oeste ) ás quartas-feiras

  • Centro Municipal de Educação Infantil Tancredo Neves ( Zona Leste ) ás terças e quintas-feiras

  • Escola Municipal Beatriz Swerner ( Zona Leste ) ás quartas-feiras

  • Pastoral da Criança Menino Jesus Praga ( Zona Centro Sul ) aos 3º sábados de cada mês

  • Secretaria Municipal de Educação ? SEMED / Parintins aos sábados

  • Largo São Sebastião (atividade Pólo) aos domingos