quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O tempo de ler é sagrado

Gabriel Perissé*

Tempo de ler é tempo de eternidade.

Ao ler um livro, transcendemos calendário e relógio.

Ao ler um grande autor, vencemos a miopia de só querer fazer coisas imediatamente úteis. Toda leitura é culturalmente sagrada, na medida em que cultiva o pleno desenvolvimento de uma pessoa.

Toda leitura é vencer a indiferença espiritual, o medo que temos da nossa alma. Toda leitura é sagrada, na medida em que nos abre os olhos para o divino-humano. Como ficar alheio à escatologia depois de ler a Divina Comédia? Como debochar da teologia depois de ler O idiota, de Dostoievsky? Como banalizar os conflitos da consciência religiosa depois de ler um Bernanos, um Murilo Mendes, uma Adélia Prado?

Toda leitura é sagrada, na medida em que nos faz perder o preconceito com relação às questões transcendentais. É possível cultivar esse preconceito depois de sentir a angústia de um Graciliano Ramos ou de um Kafka? Se não houvesse no ser humano uma insatisfação profunda com a sua atual condição, poderíamos passar os dias ganindo, devorando os inimigos, lutando pela sobrevivência, mas nunca escrevendo... O nosso passado cultural e literário está impregnado de reflexão teológica, explícita ou implicitamente. Dar as costas a essa realidade é dar as costas a nós mesmos!

Até os agnósticos e os ateus sabem que o humanismo está impregnado de caráter religioso.

Toda leitura humanizante pode tornar-se uma leitura santificante. E toda leitura é humanamente sagrada, e divinamente humana.

Ler é romper a monotonia, e isto é um ato sagrado.

Ler é lutar contra a violência destruidora do tempo, e isto é um ato sagrado.

Ler é beber da fonte da eterna inquietude, e isso é um ato sagrado.

Ler é suscitar o silêncio interior, caminho de amor e serenidade, e isto é um ato sagrado.

Ler é fazer uma homenagem à inteligência humana, e isto é um ato sagrado.

Ler é procurar, compreender, descobrir, e todos estes são atos sagrados.

A noção de civilização e a idéia que temos da humanidade são inseparáveis do nascimento do livro, da sua multiplicação como pão que nos salva da pior fome.

Não me refiro ao livro reduzido ao livro "prático", aos dicionários, aos manuais.

Refiro-me a todo livro que seja espelho no qual nos vemos, e janela através da qual vislumbramos o Outro.

Publicado em Julho/Agosto de 2010
*Gabriel Perissé é escritor, professor e
Conselheiro Cultural do Viva.
http://www.perisse.com.br/

Fonte: Historiar

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Biblioteca móvel leva leitura e cidadania às comunidades de Araxá

Criado há dez anos pela bibliotecária Maria Clara Fonseca, o projeto Embarque nas Letras disponibiliza um ônibus que circula diariamente os bairros da cidade mineira de Araxá, levando livros e serviços de informação utilitária.

Inaugurada em abril do 2000, a Biblioteca Móvel de Araxá percorre atualmente 24 bairros – visita em média de três bairros por dia – aos quais leva seu acervo com mais de 6.500 livros. Em cada bairro, permanece estacionado de duas a três horas, e retorna ao local a cada dez dias. “O maior número de empréstimos se destina ao público infanto-juvenil”, informa a Maria Clara Fonseca, ao destacar que o projeto, vinculado à Biblioteca Pública Municipal Viriato Correia, foi inspirado no Carro Biblioteca, do Centro de Extensão da Escola de Ciência da Informação (ECI) da UFMG.

Após a implantação do projeto e o acompanhamento dos quatro primeiros anos de funcionamento, a biblioteca móvel tornou-se objeto de pesquisa do mestrado de Maria Clara, intitulado “Biblioteca Pública: da extensão à ação cultural como prática de cidadania”. A pesquisa mostra a experiência de otimização da unidade móvel além da oferta de livros como principal fonte de informação.

Atualmente, o projeto está sendo reavaliado por uma equipe de profissionais do serviço de extensão e da pesquisa do o Centro Universitário do Planalto de Araxá (Uniaraxá), objetivando maior envolvimento dos estagiários e a implementação de novas ações. “O convênio entre Prefeitura Municipal de Araxá e o Uniaraxá está sendo renovado em julho de 2010, por um período de mais quatro anos. A expectativa é que, a partir do segundo semestre, possamos reiniciar uma nova etapa do projeto da biblioteca móvel”, informa.

Ampliação

Ao longo dos anos, o projeto conseguiu abrir novas perspectivas de serviços à comunidade. “A leitura e o empréstimo de livros deixaram de ser exclusivos, pois outros serviços essenciais à cidadania passaram a ser programados e oferecidos pelos estagiários, através da informação oral e utilitária, com o objetivo de esclarecer dúvidas, orientar e encaminhar o cidadão às fontes certas para a solução dos problemas do dia-a-dia”, diz Maria Clara.


Ela explica que o primeiro serviço disponibilizado na Biblioteca Móvel foi a Assistência Judiciária Gratuita do Uniaraxá, com a participação de alunos do curso de Direito. “Em seguida, outras instituições aderiram ao projeto, a exemplo da Agência da Previdência Social, do Sine-Araxá e do Procon. Sempre que solicitadas, essas instituições disponibilizam serviços e treinamentos aos estagiários para atuarem como agentes multiplicadores de informações nas comunidades mais distantes do centro da cidade”.

Atualmente, o projeto está sendo reavaliado por uma equipe de profissionais do serviço de extensão e da pesquisa do Centro Universitário Uniaraxá, objetivando maior envolvimento dos estagiários e a implementação de novas ações. “O convênio entre Prefeitura Municipal de Araxá e o Uniaraxá encontra-se em processo de renovação e a expectativa é que, a partir do segundo semestre, possamos iniciar uma nova etapa do projeto da biblioteca móvel”, informa.

Leitura é carro chefe

Maria Clara destaca que a leitura continua sendo o carro-chefe da Biblioteca Móvel, que leva consigo outros serviços essenciais à cidadania. “Como um importante equipamento cultural que há dez anos circula os bairros da cidade, o projeto contribui de forma significativa para a formação de cidadãos conscientes e participativos. A leitura é um instrumento fundamental para a ampliar o conhecimento e tomar o cidadão um conhecedor de seus direitos, tornando-o mais ativo na sociedade”, avalia.


Maria Clara pondera que a Biblioteca Pública, em sua sede fixa, atende na grande maioria pessoas letradas e que muitos não usufruem desses serviços por não possuírem um nível mínimo de letramento. “Mas é possível criar alternativas de acesso à informação que não está disponível nos livros. A informação oral e interpessoal é uma forma bastante eficaz, principalmente em atendimento a esse 'não público', que carece de maior esclarecimento e orientação nas suas necessidades básicas do dia a dia. Assim, ao oferecer outros meios de atendimento, a Biblioteca passa a ser um espaço de inclusão promovendo a cidadania de forma integral”, afirma.

E completa: “Da tradicional função de ir ao encontro da comunidade para levar a cultura e a educação, surge a necessidade de a Biblioteca Pública tornar-se mais útil socialmente. Para isso, é necessário que o serviço prestado fora de sua sede vá além da oferta de livros e exerça uma ação educativa na comunidade. Essa ação é um processo que envolve a comunicação entre pessoas e estabelece o diálogo”.

Maria Clara explica que o projeto atingido seus principais objetivos, que são: realizar trabalho em parceria com as instituições locais; organizar um serviço de informação utilitária na Biblioteca Móvel; evitar que o cidadão se desloque do seu bairro em busca de informações; descentralizar o posto de atendimento das agências centrais; capacitar estagiários e torná-los agentes multiplicadores de informação; levar o serviço de informação utilitária a todos os bairros da cidade; e criar na comunidade uma cultura informacional para o exercício da cidadania.

Além da Biblioteca Móvel, Maria Clara é responsável pela implantação de outros projetos, tais como a ampliação e melhoria da Biblioteca Pública Municipal de Araxá (1998) – Mudança de sede na “Casa do Poeta”; implantação da Seção Braille “Dona Nemen” (2001); reestruturação e infraestrutura da Biblioteca Pública Municipal de Araxá (2007); e Projeto de Acesso à Informação Digital (2008), os dois últimos em convênio com a Secretaria de Estado da Cultura.

“Agradeço ao CRB-6 pelo convite e pela oportunidade de divulgar o projeto da biblioteca móvel. Espero que a minha experiência possa servir a outras localidades. Assim como vários profissionais nos visitaram para implantar o projeto em suas cidades, podem surgir outros interessados, através da divulgação do Boletim do Conselho”, comenta Maria Clara, ao fornecer seu email para contato: clara@uniaraxa.edu.br.

Matéria publicada em 09/07/2010

A qualidade de nossa leitura

Artigo do leitor Afonso Vieira*

"Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por idéias" - Mario Vargas Llosa

Há tempos vivemos numa época de ostracismo intelectual. Os títulos de livros que fazem maior sucesso entre leitores nada mais são que obras de cunho duvidoso - salvo raríssimas exceções. De nada adianta a leitura se o entendimento e capacidade de estimular a imaginação forem irrisórios.

Na semana passada, li uma reportagem que dizia que a vendas dos chamados e-books superaram a dos livros convencionais, mas - cabe ressaltar - que a comercialização dos livros de capa dura também continua a crescer. Os dados são de um dos maiores sites do gênero no mundo, a Amazon . O crescimento de livrarias em nosso país é mais um dado a ser comemorado pelos ávidos por conhecimento.

Segundo pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, 46% da população brasileira costumam ler jornais. Mas o fato de quase metade da população declarar "ler jornais" não quer dizer muita coisa, haja vista que de nada adianta ler e não entender, ou ler somente o que lhes interessa, de forma míope e superficial.

Jornais e revistas são coisas obrigatórias: mesmo dentre as mais duvidosas das publicações pode-se ter certeza que conseguimos extrair algo para estimular nosso senso crítico. Quanto ao crescimento da leitura de livros e de novas bibliotecas, sei perfeitamente do calvário que é estimular isso, afinal, também sou educador.

Ler qualquer coisa é melhor que não ler nada?

Há oportunidade de se encontrar muito blogueiro culto, que nos transmite coisas muito além da mediocridade convencional, inclusive indicações a publicações estrangeiras e obras que jamais sonharíamos em ver na lista dos "mais vendidos". Curiosamente, há uma massa que pulula na internet, achando que o fato de frequentarem blogs e fóruns, tecendo comentários dos mais variados assuntos - com a profundidade de um pires -, é sinônimo de intelectualidade e cultura. Pessoas que há tempos leem apenas um autor, acreditam em uma única verdade e não possuem o menor senso crítico, pelo menos para enxergar sua infinidade de defeitos.

Não custa dizer que os livros mais vendidos, via de regra, não são perfeitos exemplos de excelência, ao menos os atuais. Quantidade não é qualidade. Mas, em contrapartida, não me preocupo muito com títulos destinados ao público infanto-juvenil. É melhor que eles leiam a saga dos vampiros da moda a nada.

*Afonso Vieira é administrador e professor  

Fonte: O Globo

"Acredito que os jovens leiam mais hoje", diz historiador francês

Roger Chartier defende leitura na internet, mas duvida que livros sumam

André Miranda escreve para “O Globo”:

Diretor do Centro de Pesquisas Históricas na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais da França, o historiador francês Roger Chartier é um dos maiores especialistas do mundo no estudo da prática da leitura.

São de sua autoria os livros “Práticas da leitura” (Estação Liberdade), “História da leitura no mundo ocidental” (Ática) e “Os desafios da escrita” (Unesp), entre outros. Em entrevista ao Globo, Chartier falou sobre as mudanças que as tecnologias podem promover sobre a leitura.

- Um jovem de hoje lê menos do que um jovem de 30 anos atrás?

Parece-me difícil estabelecer um diagnóstico geral. Alternando os países, os meios sociais ou as condições culturais, a resposta poderia ser muito distinta. No caso francês, acredito que os jovens leiam mais hoje, mas eles lêem textos que não são os que tradicionalmente se consideram leituras legítimas. Eles lêem na frente do computador, lêem histórias em quadrinho, revistas, livros escolares, literatura de bolso. O que é verdade é que os jovens não valorizam de forma alguma sua representação como leitor. Mas, como escreveu o sociólogo francês Christian Baudelot, “ainda assim lêem”, indicando que as práticas de leitura são mais freqüentes do que indicam os discursos sobre leitura. Não conheço os dados estatísticos do Brasil, mas a mesma conclusão me parece válida.

- É possível falar sobre a “qualidade” do tipo de leitura? É aceitável que alguém diga que a leitura de blogs ou sites de notícias tem menos valor do que a leitura de um romance?

A leitura frente a uma tela de computador é descontinuada, segmentada, e se atém a um fragmento (uma informação de um banco de dados, um artigo num periódico ou blog, uma voz numa enciclopédia), sem a necessidade ou desejo de relacionar esse fragmento com a totalidade textual de onde foi extraído. Acredita-se que a leitura de textos cuja estrutura é fragmentada pode pôr em perigo o conceito de obra que supõe a compreensão. É a razão pela qual a edição de livros eletrônicos encontrou mais êxito com os gêneros enciclopédicos do que com romances, ensaios ou livros de história. É a razão, também, que explica a inquietude dos jovens leitores que se apropriam desses gêneros com as mesmas práticas de leitura que eles lêem blogs ou websites. Mais do que a qualidade dos textos, o essencial é a relação entre os tipos de textos e a maneira de ler.

- Mas um pai deveria se preocupar com um filho que passe horas lendo blogs e não pegue nunca num livro impresso?

O que é um livro? Para nós, é um objeto específico, diferente de outros objetos da cultura escrita (cartas, periódicas, revistas etc.) e é uma obra que tem sua identidade própria, sua coerência, sua lógica intelectual ou estética. Ainda que a percepção dessa identidade do livro como obra seja mais difícil frente ao computador que em contato com o impresso, não há razão para que a nova forma dos textos destrua a composição e leitura de obras notáveis. A História ensina que as obras do passado sobreviverão às mutações morfológicas e técnicas do livro: desde os rolos da Antigüidade e manuscritos medievais, até depois de Gutenberg com o livro impresso.

- Mas daqui a 40 ou 50 anos, quando a internet fizer parte da formação inicial de todas as gerações, um livro impresso ou um jornal não poderia se tornar obsoleto?

Não desejo e nem acredito nisso, porque ler um “mesmo” texto na frente do computador e num objeto impresso leva a leituras diferentes. A primeira é realizada por rubricas, temas, palavras-chave e dá acesso a informações segundo uma ordem enciclopédica na qual cada fragmento tem como contexto os outros textos que se encontram sob a mesma rubrica de sua origem. Já o sentido da segunda leitura é construído por cada fragmento em relação a todos os textos presentes na mesma página ou publicados no mesmo exemplar. É a intenção editorial, intelectual ou estética que mostra o contexto. As pessoas podem comprovar o que estou dizendo lendo um mesmo artigo num banco de dados de uma revista eletrônica e em seu exemplar impresso. Assim é possível medir a diferença de expectativas, curiosidades ou modalidades de compressão que existe entre as leituras.

- Num país como o Brasil, onde a educação é deficiente e a renda da população é baixa para a compra de livros, projetos de inclusão digital podem ser uma solução de incentivo à leitura?

Acredito que sim. As telas de computador que existem hoje são telas escritas, que podem ajudar a ensinar a ler e escrever, e que podem proporcionar um acesso a uma biblioteca sem limites. Mas acho também que, como disse certa vez a (psicóloga e pedagoga argentina) Emilia Ferreiro, a presença de computadores nas salas de aula não basta para resolver as dificuldades de aprendizado. Para o fomento da leitura, é preciso a mediação de mestres capazes de situá-la em frente ao computador dentro de uma cultura escrita global, que exige o aprendizado de escrever à mão e que propõe outros suportes de comunicação. O livro impresso é um desses suportes e deve estar presente nas classes e em espaços sociais como bibliotecas e livrarias. Como disse Bill Gates: “Quando quero ler um livro, eu o imprimo”.

Matéria publicada em 17/08/2008

Fonte: O Globo

Sim, crianças podem gostar de ler

Ignácio de Loyola Brandão

A cada passo, o espanto. Por fora parecia uma Escola normal, o muro alto vedando a visão. Transposto o portão, o inesperado, a absoluta limpeza. Logo, outro assombro, não há uma só grade. Antes de começar a visita, fui ao banheiro. Imaculado. Desentendi. Não é uma Escola pública em um dos bairros mais afastados da capital do Piauí? Um dos mais violentos, abandonados? Não é uma Escola para alunos carentes, aqueles a quem a vida pouco dá, ao contrário, vai tirando, sugando? Nenhuma grade para proteger do mundo exterior, nenhum grafite nas paredes e nem uma janela quebrada. A admiração cresceria a cada passo, relevando-me a diversidade brasileira, nossas incoerências e contradições.

Levado pelas diretoras Osana Morais e Ruthneia Costa, percorri classes, recebido por alunos sorridentes, de alto-astral, que me cantaram canções alegres. Já fui a muita Escola de periferia em São Paulo e pelo Brasil. alunos tristes, baixa autoestima, professores desiludidos, agredidos, humilhados. Instalações precárias, banheiros porcos, falta de carteiras, de material, paredes repletas de inscrições ininteligíveis, grades para evitar roubos e depredações, cozinhas precárias, merendas destinadas a fomentar subnutrição. Síntese do ensino brasileiro. Não nesta Escola chamada Casa Meio Norte! Tudo é diferente, e como!

Por que decidi vir, abandonando outros compromissos? Recém-chegado de Belém, ainda no aeroporto me disseram: “Nessa Escola, cada aluno lê entre 20 a 30 livros por mês.” Loucura, impossível! Vamos lá, quero ver! Não acreditei, até chegar. Na Casa Meio Norte, na Cidade Leste, as crianças têm paixão por livros e pela escrita. Cada sala de aula tem uma sacola com 50 ou mais livros, não há uma biblioteca central. O livro faz parte do cotidiano. As crianças descobriram que, por meio da literatura, podem escapar da áspera realidade em que estão envolvidos e à qual fatalmente seriam conduzidos. Um presente sem futuro. Tornado futuro pela Escola, pela leitura e pela escrita.

Cidade Leste vive sob o domínio da violência, há todo tipo de foras da lei, do traficante ao ladrão, ao ladrãozinho, ao futuro ladrão. Esses meninos da Casa estariam destinados a se tornarem “mulas”, transportando drogas, ou estariam nas ruas pedindo esmolas, roubando. Estariam soltos, abandonados, enviados à morte prematura. Há pais aqui que são do tráfico, da delinquência. Há quem não conheça o pai, há quem não saiba quem é sua mãe. Todavia, quando entramos e vemos aqueles rostos orgulhosos, sabemos, tudo indica, estão salvos. Nessa Casa comem quatro refeições por dia, quando o normal, fora dessas paredes, seria não comerem nada. Para ajudar a manter a Casa, o jornal Meio Norte, do Grupo de Comunicação Meio Norte, um dos principais de Teresina, entra com apoio, patrocina material e uma série de realizações. Acreditam que responsabilidade social pode gerar mudanças.

Assim que entrei, uma menina de 10 anos, Mariana Garcês apanhou o caderno e leu um poema. Depois me deu a folha. Autografada, claro!

Se você do vício
conseguir sair
feche a porta
para eu não cair.
Se você na Escola
conseguir entrar
deixe a porta aberta
para eu passar.

Contei minha história, a do Menino Que Vendia Palavras, meu livro infantil. Revelei que também fui pobre, lia muito, escrevia. A guarda estava aberta, havia um ponto em comum, as privações da infância. A cada passo, um aluno queria me mostrar um texto. Numa das classes, Anderson, dos mais tímidos da Escola, encontrou coragem, me disse também um poema. Não conseguiu terminar, chorou de emoção. Todos queriam falar dos livros que leram, e foram tantos. A turma – são 680 alunos – lê mais do que muito universitário da USP ou da PUC, do que muito menino de classe média e média alta do ensino privado. Eles gostam de ouvir e de contar histórias. Muitos não sabem se verão o pai no dia seguinte, habituados ao cotidiano de violência que permeia lá fora. Muitos desses pais são aqueles que garantem a “segurança” da Casa Meio Norte. Certo dia, uma gangue de outro bairro roubou equipamentos. Quatro horas depois os equipamentos “estavam de volta”, resgatados. Há um conceito diluído no ar: Não mexam com a Escola!

Muitas vezes, na reunião de pais e mestres, professores deparam-se com homens vestidos corretamente, camisas de mangas compridas para esconder tatuagens ou cicatrizes, participando, dando opinião, perguntando. Eles não querem que os filhos sejam como eles. E os filhos não querem ser. Essa Escola de ensino aplicado, que existe há dez anos, está realizando aquilo que todos desejam, e responde à pergunta que ouvimos pelo Brasil inteiro: como fazer a criança ler? Como tirá-las das ruas, dar identidade, ensinar cidadania? Aquela meninada sabe mais de cidadania do que muito ministro e milhares de parlamentares federais, estaduais, municipais, envolvidos em maracutaias sem fim.

Seminários, convenções, simpósios, debates de “alto nível”, comissões de governo. Não tem adiantado ao longo de décadas. Basta vir a Teresina e conversar com os 28 professores da Casa, um grupo de abnegados apaixonados por livros, histórias, fantasia. Ainda que com o pé inteiro na realidade. Os olhos daquela gente são iluminados. Aqui entra o paradoxo, a estanha maneira pela qual tudo funciona no Brasil e que nenhum ministro, secretário, educador, técnico, profissional consegue alcançar entender. Soluções ao contrário, o mundo funcionando ao reverso. A rebours, diria Huysmans. Há o Brasil aparente e o Brasil oculto com pessoas admiráveis sobre as quais não cai um foco de luz e elas não precisam, são alimentadas por sonhos e ideais. Brasil que caminha.

Matéria Publicada em 24/04/2009