sábado, 31 de julho de 2010

DIREITO À LEITURA - Lei manda uma biblioteca em cada escola

Para atingir a meta no prazo determinado, que é de 10 anos, será preciso construir 25 bibliotecas por dia no País

Ana Paula Nascimento

Parecia ser o óbvio, mas só agora o País ganha uma lei determinando que todas as escolas públicas e privadas tenham uma biblioteca e um acervo mínimo de pelo menos um livro por aluno matriculado. A Lei 12.244, de autoria do deputado federal Lobbe Neto (PSDB-SP), foi publicada no dia 25 de maio no Diário Oficial e prevê o prazo de 10 anos para as instituições se adequarem. Com a estimativa do Ministério da Educação de que 37% das 200 mil escolas brasileiras de educação básica ainda não têm biblioteca (Censo/2008), o desafio é grande: seria necessário construir 25 bibliotecas por dia para atingir a meta.

Na biblioteca da Escola Municipal Carlos
da Costa Branco o acervo de mais de 3 mil
livros inclui dicionários, enciclopédias, revistas e gibis

Em Londrina, praticamente todas as 80 escolas municipais (incluindo as rurais), que atendem aproximadamente 37 mil alunos, possuem um bom acervo de livros, mas a Secretaria Municipal de Educação não soube precisar quantas ainda não têm um espaço adequado para biblioteca. É o caso da Escola Municipal América Sabino Coimbra, no Jardim Paulista (Região Norte). Com 110 alunos atendidos em dois turnos, o pequeno espaço improvisado de cerca de nove metros quadrados não comporta de forma confortável mais do que seis crianças por vez.

O local é um dos espaços preferidos dos alunos,
com boa iluminação, mesas, cadeiras e prateleiras
adequadas ao tamanho das crianças

Em prateleiras altas, o acesso aos 600 livros do acervo não é facilitado e a professora regente de biblioteca, Kátia Valéria Rodrigues Monteiro, se desdobra para atender as crianças. A Hora do Conto é feita na sala de aula, assim como o empréstimo dos livros, que são levados em baús. ‘‘Sabemos que isso não é o ideal, que os alunos perdem por não terem um espaço adequado para a leitura, o acesso ao computador e um ambiente mais lúdico’’, lamenta a diretora Marly Guagnini Sander. Recentemente, devido a um problema de infiltração no telhado, cerca de 500 livros novos ficaram estragados.

Por causa da falta de espaço, a Hora do
Conto é feita na sala de aula, assim como o
empréstimo dos livros, que são levados em baús

Segundo a assessoria de planejamento da Secretaria Municipal da Educação, está prevista para o ano que vem a reconstrução da escola – que ainda mantém a estrutura de madeira da sua fundação em 1968 – com a instalação de uma biblioteca adequada.

Ao ser informado sobre esta possibilidade, os olhos do aluno Rafael Alves da Silva, 7 anos, brilharam. ‘‘Sério? Que legal! Eu estava querendo mesmo isso’’, comemora. A aluna Gabriela Moraes Guise, 8 anos, também aprova a iniciativa: ‘‘Eu gosto muito de ler e seria muito bom ter uma biblioteca maior e mais confortável, onde nós mesmos pudéssemos pegar os livros nas prateleiras’’.

Em época de Copa do Mundo, a professora
Maria de Cássia lê um livro que fala das
riquezas da cultura africana

Na Escola Municipal Professor Carlos da Costa Branco, no Jardim Piza (Região Sul), esse sonho já é realidade há seis anos. Inaugurada em 1977, a pequena escola de madeira com cinco salas foi reconstruída em 2004 e, desde então, tem mais salas de aula e uma biblioteca bem estruturada. O acervo de mais de 3 mil livros infantis e infantojuvenis, ainda conta com 14 enciclopédias, 74 dicionários ilustrados, revistas e gibis para o deleite dos 450 alunos que frequentam a instituição.

Na Escola Municipal América Sabino Coimbra a
biblioteca ainda está em um espaço apertado e improvisado

Arejada, com boa iluminação, ventiladores, mesas, cadeiras e prateleiras adequadas ao tamanho das crianças, o local é um dos espaços preferidos delas. A professora regente de biblioteca Maria de Cássia Zamaia Zendrini confirma que o local é ideal para a contação de histórias. Em época de Copa do Mundo ela está trabalhando com os alunos o livro ‘‘A África, Meu Pequeno Chaka...’’ (Cia das Letrinhas), que explora de forma afetiva, através do diálogo entre um avô e seu neto, as riquezas da cultura africana. ‘‘Procuro complementar nas leituras o conteúdo que está sendo trabalhado em sala de aula e também aspectos da vida cotidiana dos alunos através das mensagens dos livros. Eles prestam atenção, gostam da atividade, lêem mais e ficam curiosos’’, comenta a professora.

Na opinião do diretor de bibliotecas do município Rovilson José da Silva a nova lei é um passo importante para a valorização das bibliotecas escolares. ‘‘O ideal é que não fosse necessário ter uma lei para isso, mas ela ajuda a reforçar o compromisso do Estado, da União, com esse intrumento de educação. Não é só mandar livros; é preciso ter espaços adequados para o incentivo à leitura, à educação’’, ressalta.

Segundo ele, até pouco tempo a biblioteca escolar era considerada o ‘‘patinho feio’’ e a prioridade dos investimentos ficava por conta das bibliotecas públicas e universitárias.

A nova lei prevê ainda um bibliotecário atuando nas bibliotecas escolares. ‘‘Isso pode gerar uma mudança até na grade curricular do curso de Biblioteconomia. É preciso um olhar diferenciado na capacitação desse profissional que vai atuar diretamente com crianças. Há todo um processo de mediação da leitura, que é fundamental e vai além do aspecto técnico da manutenção do acervo’’, avalia.

Ao saber que sua escola vai ganhar uma biblioteca nova,
Rafael se anima: ‘Sério? Eu estava querendo mesmo isso

Lançado em 2002, o projeto Palavras Andantes, idealizado por Silva, conseguiu modernizar mais de 60% das bibliotecas municipais e impulsionou o incentivo à leitura na rede municipal – de 72 mil livros emprestados em 2002 passou para 650 mil em 2008 (último levantamento realizado). O projeto prevê formação continuada de professores, contação de história e empréstimos de livros semanais, além de revitalização de acervo e infraestrutura das bibliotecas. Há um ano sem coordenadoria, depois que Silva assumiu seu cargo atual, uma nova coordenação deverá ser confirmada ainda nesta semana.

Matéria publicada em 22/06/2010

Sacolas que ensinam e aproximam

Projeto que começa a ser desenvolvido em escolas rurais é um estímulo para famílias se unirem em torno da leitura

Silvana Leão

Sacolas de pano, feitas de tecido reciclado e recheadas de livros, revistas, gibis e de exemplares da Folha de Londrina, é a estratégia de duas escolas rurais de Londrina para aproximar pais e filhos. O projeto, batizado de ''Sacola de Leitura'' foi iniciado na última semana nas escolas municipais Luís Marques Castelo, do Distrito do Espírito Santo, e Francisco Aquino Toledo, do Distrito de São Luís, ambos na Zona Sul.

Vitor Lima: ‘‘Achei legal porque
sentei com minha mãe para ler’’
Os alunos contemplados pela primeira ''visita'' da sacola em suas casas estão empolgados com a ideia. ''Achei legal porque sentei com minha mãe para ler, foi gostoso ficar ali com ela. A gente leu tudo o que foi dentro da sacola'', contou o pequeno Vitor Emanoel Trajano de Lima, de 9 anos, da Escola Luís Marques Castelo. Além do precioso momento desfrutado junto da mãe, ele disse que gostou de poder treinar a leitura, pois sonha com o dia em que será convidado para interpretar passagens da Bíblia na igreja que frequenta com a família. ''Vou querer levar sempre a sacola para casa'', avisou.

Willian José Givigier, 9 anos, da mesma instituição, também viveu uma experiência gratificante. ''Eu sempre levo livros da biblioteca da escola para ler, mas desta vez foi diferente porque eu sentei com meu pai e com a minha mãe para ler. E no final a gente ainda fez um relatório do que mais gostou'', relatou o garoto.

Willian Givigier e Ana Beatriz Terciotti:
experiência gratificante
Já Ana Beatriz Terciotti, que aos 7 anos já sabe que a leitura ''é muito importante'', gostou de ter o pai, a mãe e o irmão para ajudá-la nas pequenas dificuldades ainda enfrentadas para decifrar as letras. Como os demais, ela garantiu que levará o kit para casa sempre que puder.

Termômetro

Segundo o diretor da escola, Rogério Gil Kosteski, foram confeccionadas 24 sacolas, feitas de tecido que já foram as cortinas das salas de aula. A mãe de uma professora se encarregou de confeccioná-las e as educadoras ficaram responsáveis pela decoração das bolsas, que receberam pinturas e colagens. ''Optamos por não padronizar as sacolas, deixando que cada professora imprimisse nelas a sua marca. Isso gera um maior comprometimento com o projeto e estimula maior cuidado'', argumentou o diretor.

Kosteski explicou que além de promover a maior união da família, a iniciativa pretende estimular a participação dos pais no processo de aprendizagem dos filhos, dando-lhe condições de avaliar o seu desenvolvimento na escola. ''Se a criança tem alguma dificuldade de leitura, os pais têm a chance de perceber o problema por contra própria. É uma espécie de termômetro.''

A satisfação das crianças foi sentida também pela comerciária Júlia Kristina Viegas Tosin, mãe de Gabriel, de 6 anos, e de Jéssica, de 10 anos. ''Acima de tudo, foi um momento de união. Foi muito gostoso porque desligamos a TV e cada um leu o que encontrou de mais interessante na sacola. Depois comentamos com os outros o que lemos'', contou Júlia.

Ela revelou que a família faz muita coisa junta, mas nunca pais e filhos tinham se reunido para ler. ''Acho que daqui para frente vamos fazer isso mais vezes. E nem vamos esperar pela próxima sacola'', prometeu, para alegria dos filhos.

Matéria publicada em 27/06/2010

Livros no canteiro de obras

‘‘Era ele que erguia casas/ Onde antes só havia chão./ Como um pássaro sem asas/ Ele subia com as asas/ Que lhe brotavam da mão.’’ Assim começa o poema ‘‘Operário em Construção’’, de Vinicius de Moraes* (1913-1980), que mostra um trabalhador sendo construído através de - suas ideias e ideais.

No poema, o homem adquire força através de sua razão. Assim também o "Plantão Sorriso"** mostrou, em uma apresentação no canteiro de obras do edifício Brisas Igapó, na Gleba Palhano, que as dezenas de operários ali presentes podem crescer através da leitura. A apresentação, ocorrida na semana passada, foi promovida pelo projeto ‘‘Clube da Leitura’’, que a construtora A. Yoshii mantém em três obras.

Em cada canteiro, uma caixa com cerca de 50 livros e revistas é disponibilizada para os funcionários, que desta forma têm acesso a obras de literatura, autoajuda, livros técnicos e outros conteúdos sem nem sair do trabalho. Periodicamente, os exemplares são trocados por outros, como forma de diversificar o acervo oferecido.

Segundo Adriana Castro dos Santos, responsável pelo projeto, o objetivo da iniciativa é simplesmente criar o hábito de leitura nos operários. Porque ela sabe que as consequências dessa mudança vão longe. ‘‘O hábito de ler, mesmo que uma embalagem, um jornal, já faz a diferença em relação a quem apenas executa as coisas e não lê. O raciocínio se desenvolve e os benefícios se refletem não só no trabalho, mas na vida, porque eles crescem como pessoas’’, argumenta.

**Foi um diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor brasileiro

**Organização cultural criada em 1996 formada por atores especializados na arte do palhaço e treinados para atuar em hospitais. Semanalmente visitam seis hospitais em Londrina e um em Cambé

Matéria publicada em 29/06/2010

Em defesa dos círculos de leitura

A instituição tem 450 alunos e um acervo de 2.500 livros,
que estão sempre à disposição das crianças
 
A criadora do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) no Brasil, Eliana Yunes, sugere a criação de círculos de leitura nas salas de aula, a fim de intensificar a experiência com as palavras. Yunes participa da Coleção Mundo de Ideias com o livro ''Tecendo um leitor: uma rede de fios cruzados''. Na obra ela diz que a oralidade no círculo de leitura se ampara na voz dos colegas e se desdobra numa interatividade entre o texto e os diversos ouvintes. O propósito é fixar na memória o que o autor quis dizer.

Para Eliana, a prática pedagógica do círculo de leitura é um passo para dentro da leitura, que busca resgatar até mesmo os espaços de solidão da ''nossa modernidade''.

Para a autora, o professor precisa entender a dimensão do mundo para mediar uma aula. Para incentivar a leitura, Yunes julga que o professor deve entender que a narratividade não está só nas palavras mas na expressão da arte, nos quadros, na música popular, inclusive na roupa que se veste.

SERVIÇO

- Os doze livros da série Mundo das Ideias estão disponíveis nas principais livrarias do País. Os preços variam de R$ 29 a R$ 49. Maiores informações: http://www.aymara.com.br/

Matéria publicada em 29/06/2010

Formando leitores - como ensinar o gosto pelos livros ?

Faça chuva ou faça sol, de dia ou de noite, há uma biblioteca permanente em espaço aberto no pátio central da Escola Municipal Nympha Peplow, de Curitiba. Localizada no bairro Vista Alegre, a escola possui 450 alunos e duas agentes de leitura, dedicadas a estimular o contato com os livros e a narração de histórias.
A Hora do Conto fica mais interessante com a ajuda de dois
 alunos, que se encarregam da narração utilizando figuras e fantoches

Quarta-feira é o dia em que os alunos sentam-se no tapete da biblioteca e formam uma roda. Logo após o recreio é hora de dar início ao círculo de leitura e contação de história. No canto esquerdo do espaço há um imenso baú de madeira que armazena dezenas de exemplares de livros, pequena fatia das 2.500 obras que compõem o acervo da escola. Ao lado do baú, encabeçando o círculo de leitura, ficam dois alunos com livros nas mãos narrando em mímicas com bichos de pelúcia, numa espécie de teatro de bonecos, o enredo da obra. Assim finalizam o registro da história vivida pelos personagens do livro. Adelfe Santina, professora de Literatura, acredita que é interessante trabalhar a continuidade da leitura, na sala e inclusive em casa, com a família dos alunos.
Toda quarta-feira, depois do recreio, é tempo de contação de
história na Escola Municipal Nynpha Peplow, em Curitiba

Influenciar pai e mãe a ler também é uma das estratégias para estimular o hábito nas crianças. A escola lançou um projeto chamado Mala de Leitura, cujo recheio conta com ao menos sete obras, sobre os mais diversos temas, dedicados a todos da família. Dentro da mala, que cada aluno leva para casa, tem até CD de música popular brasileira e DVD com filmes para a família assistir junta. Toda semana os alunos trazem a mala para a escola e trocam os títulos a fim de criar trocas de experiências.

Jéssica Correia, de 8 anos, e Otávio Bressan, 9 anos, ambos da terceira série, levam a mala para casa e foram premiados pelo colégio pela quantidade de livros que leram durante o mês. Ela conheceu todos os tipos de medos no ''O grande livro dos medos''; Otávio leu a história de Sansão e Dalila na Bíblia.

As crianças e professores que mais leem recebem prêmios no
final do mês, tornando-se exemplos para a comunidade escolar
 
O sucesso dos projetos é percebido pelo fluxo de empréstimos dos livros na biblioteca, pela presença interessada de pais e pelas pessoas que param para ler as poesias transcritas pelos alunos no muro da escola. Quem agradece são os professores, que sentem o quanto o aprendizado da criança evolui quando amplia o seu repertório cultural.

Matéria publicada em 29/06/2010