sábado, 31 de julho de 2010

Livros no canteiro de obras

‘‘Era ele que erguia casas/ Onde antes só havia chão./ Como um pássaro sem asas/ Ele subia com as asas/ Que lhe brotavam da mão.’’ Assim começa o poema ‘‘Operário em Construção’’, de Vinicius de Moraes* (1913-1980), que mostra um trabalhador sendo construído através de - suas ideias e ideais.

No poema, o homem adquire força através de sua razão. Assim também o "Plantão Sorriso"** mostrou, em uma apresentação no canteiro de obras do edifício Brisas Igapó, na Gleba Palhano, que as dezenas de operários ali presentes podem crescer através da leitura. A apresentação, ocorrida na semana passada, foi promovida pelo projeto ‘‘Clube da Leitura’’, que a construtora A. Yoshii mantém em três obras.

Em cada canteiro, uma caixa com cerca de 50 livros e revistas é disponibilizada para os funcionários, que desta forma têm acesso a obras de literatura, autoajuda, livros técnicos e outros conteúdos sem nem sair do trabalho. Periodicamente, os exemplares são trocados por outros, como forma de diversificar o acervo oferecido.

Segundo Adriana Castro dos Santos, responsável pelo projeto, o objetivo da iniciativa é simplesmente criar o hábito de leitura nos operários. Porque ela sabe que as consequências dessa mudança vão longe. ‘‘O hábito de ler, mesmo que uma embalagem, um jornal, já faz a diferença em relação a quem apenas executa as coisas e não lê. O raciocínio se desenvolve e os benefícios se refletem não só no trabalho, mas na vida, porque eles crescem como pessoas’’, argumenta.

**Foi um diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor brasileiro

**Organização cultural criada em 1996 formada por atores especializados na arte do palhaço e treinados para atuar em hospitais. Semanalmente visitam seis hospitais em Londrina e um em Cambé

Matéria publicada em 29/06/2010

Em defesa dos círculos de leitura

A instituição tem 450 alunos e um acervo de 2.500 livros,
que estão sempre à disposição das crianças
 
A criadora do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler) no Brasil, Eliana Yunes, sugere a criação de círculos de leitura nas salas de aula, a fim de intensificar a experiência com as palavras. Yunes participa da Coleção Mundo de Ideias com o livro ''Tecendo um leitor: uma rede de fios cruzados''. Na obra ela diz que a oralidade no círculo de leitura se ampara na voz dos colegas e se desdobra numa interatividade entre o texto e os diversos ouvintes. O propósito é fixar na memória o que o autor quis dizer.

Para Eliana, a prática pedagógica do círculo de leitura é um passo para dentro da leitura, que busca resgatar até mesmo os espaços de solidão da ''nossa modernidade''.

Para a autora, o professor precisa entender a dimensão do mundo para mediar uma aula. Para incentivar a leitura, Yunes julga que o professor deve entender que a narratividade não está só nas palavras mas na expressão da arte, nos quadros, na música popular, inclusive na roupa que se veste.

SERVIÇO

- Os doze livros da série Mundo das Ideias estão disponíveis nas principais livrarias do País. Os preços variam de R$ 29 a R$ 49. Maiores informações: http://www.aymara.com.br/

Matéria publicada em 29/06/2010

Formando leitores - como ensinar o gosto pelos livros ?

Faça chuva ou faça sol, de dia ou de noite, há uma biblioteca permanente em espaço aberto no pátio central da Escola Municipal Nympha Peplow, de Curitiba. Localizada no bairro Vista Alegre, a escola possui 450 alunos e duas agentes de leitura, dedicadas a estimular o contato com os livros e a narração de histórias.
A Hora do Conto fica mais interessante com a ajuda de dois
 alunos, que se encarregam da narração utilizando figuras e fantoches

Quarta-feira é o dia em que os alunos sentam-se no tapete da biblioteca e formam uma roda. Logo após o recreio é hora de dar início ao círculo de leitura e contação de história. No canto esquerdo do espaço há um imenso baú de madeira que armazena dezenas de exemplares de livros, pequena fatia das 2.500 obras que compõem o acervo da escola. Ao lado do baú, encabeçando o círculo de leitura, ficam dois alunos com livros nas mãos narrando em mímicas com bichos de pelúcia, numa espécie de teatro de bonecos, o enredo da obra. Assim finalizam o registro da história vivida pelos personagens do livro. Adelfe Santina, professora de Literatura, acredita que é interessante trabalhar a continuidade da leitura, na sala e inclusive em casa, com a família dos alunos.
Toda quarta-feira, depois do recreio, é tempo de contação de
história na Escola Municipal Nynpha Peplow, em Curitiba

Influenciar pai e mãe a ler também é uma das estratégias para estimular o hábito nas crianças. A escola lançou um projeto chamado Mala de Leitura, cujo recheio conta com ao menos sete obras, sobre os mais diversos temas, dedicados a todos da família. Dentro da mala, que cada aluno leva para casa, tem até CD de música popular brasileira e DVD com filmes para a família assistir junta. Toda semana os alunos trazem a mala para a escola e trocam os títulos a fim de criar trocas de experiências.

Jéssica Correia, de 8 anos, e Otávio Bressan, 9 anos, ambos da terceira série, levam a mala para casa e foram premiados pelo colégio pela quantidade de livros que leram durante o mês. Ela conheceu todos os tipos de medos no ''O grande livro dos medos''; Otávio leu a história de Sansão e Dalila na Bíblia.

As crianças e professores que mais leem recebem prêmios no
final do mês, tornando-se exemplos para a comunidade escolar
 
O sucesso dos projetos é percebido pelo fluxo de empréstimos dos livros na biblioteca, pela presença interessada de pais e pelas pessoas que param para ler as poesias transcritas pelos alunos no muro da escola. Quem agradece são os professores, que sentem o quanto o aprendizado da criança evolui quando amplia o seu repertório cultural.

Matéria publicada em 29/06/2010

Lei do Direito à leitura

Carla Barcaro*

A reportagem ''Direito à leitura'', (Folha2, pág. 4, 22/06) bem como os comentários publicados por leitores na seção de cartas da FOLHA, me fizeram lembrar de um sonho secreto que alimentava na infância: ganhar uma biblioteca. Das duas escolas estaduais que frequentei até o término do segundo grau, nenhuma possuía biblioteca. Talvez, por isso, me causa tanta inquietação e interesse. Creio na leitura como forma de acesso à cidadania e democracia. Apesar dos índices que mostram avanços nesse setor, o acesso à leitura e às bibliotecas continua sofrível.

Pesquisa encomendada pelo Ministério da Cultura à Fundação Getúlio Vargas (FGV) - o Primeiro Censo Nacional das Bibliotecas Públicas Municipais -, estima que haja cerca de 2,67% bibliotecas para cada 100 mil habitantes no país. Quando olhamos para os índices de distribuição regional, percebemos ainda a discrepância existente entre zonas centrais e áreas mais remotas. Cerca de 86% das bibliotecas escolares estão localizadas em áreas urbanas (Inep, 2004). Alguns projetos desenvolvidos pelo setor privado e pelo governo buscam melhorar esses índices. Além do projeto ''Palavras Andantes'', citado pela FOLHA, há também o projeto ''Arca das Letras'', promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Nesse projeto são montadas bibliotecas para uso comunitário na casa de pessoas pertencentes à comunidade local, os agentes de leitura. Cada casa recebe em torno de 200 obras inicialmente, e os títulos variam entre saúde, agricultura, literatura, didáticos, gibis, etc.

Projetos do gênero são importantes, pois oportunizam aos leitores títulos relevantes às suas necessidades (os moradores indicam os livros que querem no acervo), capacitando-os não apenas para a decodificação de mensagens desconexas de seus contextos, mas na formação de leitores conscientes da comunidade onde vivem. A necessidade de acervos e de construção de salas adequados para a reunião dessas obras (como a intentada pela lei Direito à Leitura) é inquestionável. A biblioteca não é apenas um local de leitura e pesquisa, mas um espaço aberto para várias práticas sociais, dentre as quais a integração social, que deve acontecer em todas as esferas da sociedade e não ser polarizadas nas regiões centrais. Essa integração, a meu ver, pode acontecer por meio de um simples círculo de leitura.

A lei do Direito à Leitura, mesmo que óbvia, tardia e com motivações questionáveis, chega para elevar o valor da leitura entre nós e diminuir os entraves de acesso à informação que marca nossa nação e acentua a exclusão social. A lei coloca a biblioteca sob a tutela do Estado (ótimo!) que, por outro lado, terá poder para fiscalizar e punir as instituições particulares que não se adequem a ela. Quero crer que em dez anos não teremos mais escolas públicas em estado precário no país e que cada uma delas estará devidamente equipada, não apenas com espaços de leitura e acervos, mas com um bibliotecário, com é previsto pela lei.

Entendo ser direito legítimo da sociedade exigir uma agência que fiscalize o governo, quanto ao cumprimento da lei que ele mesmo sancionou. Nada mais justo que o governo receber as mesmas punições caso não atinja a meta de adequação, que de acordo com os cálculos apresentados pela reportagem da FOLHA, implica na construção de 25 bibliotecas por dia. Espero ver diferença nas bibliotecas escolares no setor público. Sou esperançosa e sigo sonhando com a valorização da biblioteca como espaço de acesso à cidadania e formação de leitores críticos e atuantes. Como já reconheceram os europeus, ''investir nas bibliotecas significa investir na democracia'' (Parlamento Europeu, 1998, p.3).

*CARLA BARCARO é professora de Inglês e aluna do programa de pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina

Matéria publicada em 13/07/2010

Projeto possibilita leitura em ônibus

Vinícius Fonseca

Paranavaí - A rotina dos usuários do transporte coletivo de Paranavaí (Noroeste) está mais leve. É que na cidade foi implantado neste mês o projeto ''Leitura Sem Fronteiras'', que distribui livros nos coletivos.

Na próxima semana, haverá estreia de uma nova etapa, com encenações de teatro. As peças poderão ocorrer dentro do terminal do município ou mesmo durante a viagem. Ao todo são 15 atores, divididos em grupos de três ou quatro pessoas. O projeto começou com a distribuição de sacolas com mais de 20 livros em toda a frota viária da cidade. ''Os passageiros podem ler durante a viagem ou mesmo emprestar as obras por até um mês'', comenta Alexandre Costa Santiago, gerente da Viação Cidade de Paranavaí (VCP).

Programa distribui livros nos coletivos de Paranavaí

Segundo ele as sacolas contêm clássicos da literatura, além de revistas e almanaques de palavras cruzadas. Os interessados em continuar a leitura em casa devem preencher uma lista distribuída junto com a bolsa. ''Todas as obras são catalogadas, apenas as revistas e os almanaques não precisam ser devolvidos'', esclarece Santiago.

A campanha conquista cada vez mais adeptos e os empréstimos das literaturas têm sido maior desde seu início. Para o gerente, esse comportamento já era esperado e cumpre com o objetivo do projeto. ''O Leitura Sem Fronteiras tem o objetivo fazer com que a população tenha aceeso há esse livros e o aumento na adesão dos passageiros mostra que isso está acontecendo'', argumenta.

Os livros utilizados no projeto foram doados pela Fundação Cultural de Paranavaí através da Biblioteca Municipal Julia Wanderley. Para o Diretor Presidente da instituição, Paulo Cesar de Oliveira, a campanha tem um impacto positivo sobre toda a população. ''Essas ações de incentivo à leitura são importantes pois contribuem até mesmo para formação dos nossos cidadãos''.

O Rotary financiou a produção das sacalas. Essa união em torno do ''Leitura Sem Fronteiras'', além de seu ineditismo são destacados por Oliveira. ''A gente percebe que todo mundo comprou a ideia e o fato de os livros estarem disponíveis dentro dos ônibus é um atrativo''.

Serviço: As doações de livros e revistas podem ser enviadas para a Biblioteca Municipal Julia Wanderley, em Paranavaí. Mais informações pelo telefone (44) 3902-1019.

Matéria publicada em 23/07/2010