sexta-feira, 30 de julho de 2010

RPG & Educação : Projeto "RPG Leituras" - A Importância do RPG na Leitura e Escrita

Diversos estudos sobre o desenvolvimento social de um país comprovam que o domínio da leitura e da escrita está intimamente ligado à melhora da qualidade de vida dos cidadãos. Sólidos investimentos em educação resultam em melhoria significativa em diversos aspectos da sociedade, tais como saúde, cultura e lazer, além de aumentar a expectativa de vida, etc.

No que diz respeito ao desenvolvimento pessoal, saber ler e escrever dá, ao indivíduo, os subsídios necessários para que ele possa desempenhar adequadamente o papel dele esperado pelo grupo social em que vive. Além disso, o domínio desses códigos contribui, também, para enriquecer o conhecimento e desenvolver o senso-crítico da pessoa frente à realidade, tirando, assim, o sujeito de uma condição passiva perante o mundo.

A leitura e a escrita são, assim, capacidades indispensáveis para que o indivíduo se adapte e interaja com o meio social. Exatamente por serem uma forma de comunicação e de expressão do homem é que, por meio destes processos, ocorre à compreensão de mundo, a transmissão de valores sociais e culturais, a formulação de sentimentos, sensações e valores, a recepção e transmissão de informações, ou seja, a leitura e a escrita auxiliam e fomentam o processo de desenvolvimento do individuo socialmente. (OLIVEIRA, 1997).

Entre os fatores constantemente apontados entre os principais motivos do atraso do Brasil está a ausência do hábito da leitura na população em geral. Não é de hoje, no entanto, que observamos que, entre os jogadores de RPG, a realidade é bem diferente.

As oficinas de criação de Live-Actions, realizadas pela Confraria das Idéias em bibliotecas do município de São Paulo com apoio da Secretaria Municipal de Cultura, tiveram importante papel na sensibilização de pais e funcionários quanto a esse assunto. As experiências revelaram que, por meio do RPG, os jovens participantes dessas oficinas desenvolveram o gosto pela leitura, pesquisa e escrita, o que resultou no incremento do repertório e das notas escolares desses jovens, além do desenvolvimento de uma postura mais madura e crítica diante de si e da sociedade. Essa situação já foi, inclusive, apontada por educadores e agentes culturais em conferências e simpósios, tais como o I Simpósio de RPG e Educação, organizado pela Ludus Culturalis com apoio da Devir Livraria e da Confraria das Idéias, entre outros.

O RPG exige o exercício constante da imaginação e o contato com o universo das palavras, além da interação com outros indivíduos. Com suas características discursivas, lúdicas e sensoriais, o RPG leva os participantes a desenvolver a imaginação, o raciocínio e a interpretação de fatos e enigmas, além de promover a colaboração não só entre os jogadores, mas também com a comunidade em que vive. Com isso, resgata o gosto pela leitura e ainda promove uma participação direta do jogador de RPG na história, tirando-o de uma postura passiva diante dos fatos.

Ainda não existem estudos científicos que determinem o impacto do RPG sobre o desenvolvimento dos participantes ou possam comprovar o que esses educadores e agentes culturais vêm percebendo ao longo dos últimos 20 anos. Pensando nisso, a Confraria das Idéias dá, agora, início ao projeto “RPG Leituras” que, supervisionado pela psicóloga Tábata de Mello, entrevistará jogadores de RPG e não-jogadores, formando um estudo importante e dimensionando o papel do RPG no universo da leitura e escrita, especialmente no dia-a-dia dos jovens.

Texto: Confrade Tábata
Confrade Godoy

Revisão: Confrade Piu

OLIVEIRA, G. C. Psicomotricidade: educação e produção num enfoque psicopedagógico. 9ª edição. Petrópolis, Editora Vozes, 1997.

Matéria Publicada em 26/06/2008

Fonte: Rede RPG

Contar histórias vira profissão requisitada

Por Amanda de Santa

A atividade exige, além de técnica, bagagem cultural e imaginação

“Era uma vez uma galinha que nasceu de cara pra trás. Jerusa, como era chamada, andava pra frente como se fosse pra trás, ou pra trás como se fosse pra frente. Era muito engraçado.” Este é um trecho de uma das obras de Sebastião José Narciso - mais conhecido como “Tião Balalão” -, sociólogo e escritor londrinense, que trabalha dando vida a histórias tiradas das páginas de seus livros infantis. Ele, que cresceu ouvindo histórias, hoje leva educação, fantasia e encantamento a crianças e adultos. “Trabalho rindo, brincando. Faço porque gosto, porque é assim que eu sei”. A atividade se tornou profissão em 2001, quando Tião foi convidado a participar de uma oficina de narração de histórias durante o Festival Internacional de Londrina (Filo). O escritor, que perdeu a visão em um acidente automobilístico, se espelhou na própria superação para escrever duas coleções de livros infantis – Engenho da Imaginatião I e II – financiadas pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). “Em todos os livros existem personagens que possuem alguma diferença. São histórias cômicas, de superação”, explica. Para o professor de literatura, doutor em Educação e diretor das bibliotecas de Londrina, Rovilson José da Silva, as histórias são alimento para imaginação, fantasia e espírito. Ele diz que o homem é um ser narrativo por natureza. “Sempre existe algo a contar, seja vivido ou imaginado. Faz parte da busca da nossa essência”, afirma. Segundo Silva, a tendência é que a profissão de contar histórias cresça cada vez mais no Brasil, devido às perspectivas de ampliação das bibliotecas e incentivo a leitura. “Hoje a profissão tem sido muito requisitada, porque é uma ferramenta da educação”, confirma Tião Balalão. O que mais o deixa feliz é o reconhecimento. Se engana quem pensa que o único público dos contadores são as crianças. A atividade de narrar histórias se tornou negócio de gente grande e tem atraído e agradado muitos adultos. “Muitas empresas me convidam para contar aos funcionários histórias de motivação”, revela Tião. O diretor das bibliotecas de Londrina, Rovilson da Silva, diz que o contador profissional prende a atenção de seus ouvintes pela oralidade e habilidade de conduzir a palavra. “Técnica, roupa ou objeto algum suplanta o talento do contador”, garante. Ele afirma que Londrina já tem profissionais realizando este trabalho com eficiência e maturidade.

A bibliotecária e professora do departamento de Biblioteconomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Sueli Bortolin, ministra cursos de narração de histórias, mas diz que mais do que técnica, o profissional precisa de uma boa bagagem cultural e de imaginação. “Narrar é sentir o texto, gostar e vibrar com ele. Passar calor, emoção, permitir flexibilidade e interação com a plateia. Falar com os olhos e com o corpo”, descreve. Serviço: Tião Balalão – 3341-6106 / 9991-3284. www.engenhodaimaginatiao.com.br

Histórias têm o poder de humanizar Histórias são capazes de despertar diversas sensações nos ouvintes. Emoções e sentimentos variam desde alegria, tristeza, susto e alívio. Para a professora pedagoga, Silvia Bortolin Borges, a história amadurece, transforma e faz o espectador entrar em contato com situações da realidade. “Tem histórias que continuam comovendo as pessoas. O tempo não consegue apagar o brilho”. Ela aponta que, recursos como bonecos e teatro de sombra, ajudam enriquecer a narrativa.

Silvia e a irmã, Sueli Bortolin, bibliotecária e professora da UEL, cresceram ouvindo histórias e levaram adiante a tradição familiar. Sueli vê a literatura como uma forma de humanização. Para ela, conviver com personagens de todo o tipo estimula o próprio auto-conhecimento e a preocupação com o outro. “As pessoas não se sentem sozinhas quando comparadas aos personagens”.

Fantasia

A professora, Jaqueline Pucci, é responsável pela “Hora do Conto” - do projeto “Bibliotecas Escolares: Palavras Andantes” da prefeitura de Londrina – na Escola Municipal Eurides Cunha. Ela afirma que nem crianças nem adultos devem ser privados da fantasia. “Tem histórias que até hoje eu conto e me emociono”, confessa. Jaqueline diz que narra a mesma história para crianças do pré a quarta-série. Após a narração, professora e alunos conversam sobre o tema. “É uma realização muito grande, experiência enriquecedora”.

Mercados de atuação e remuneração

Os valores de remuneração do contador de histórias variam muito de acordo com o tempo de duração da apresentação e também da platéia. A média, segundo o contador Tião Balalão, é de R$ 200 por apresentação de uma hora e meia. Este profissional pode atuar em qualquer espaço coletivo que não tenha sons capazes de intervir na narração: em eventos culturais, escolas, creches, empresas. Tião Balalão diz que pretende atuar também em hospitais, mas de forma filantrópica. “Já cheguei a cumprir um cronograma de 20 narrações por mês.”

Matéria publicada em 07/06/2010

Galeno Amorim - Uma vida em meio a livros

Galeno Amorim fez dos livros e do incentivo à leitura uma meta de vida. Nesta entrevista, ele comenta seus projetos, o perfil dos leitores no Brasil e o que ainda falta ser feito.
Galeno Amorim é diretor do Observatório do Livro e da Leitura. Especialista em políticas públicas do livro e leitura, liderou a criação, entre 2004 e 2006, do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), dos ministérios da Cultura e da Educação, do qual foi seu primeiro coordenador. Presidiu o Comitê Executivo do Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Caribe (Cerlalc/Unesco) e foi consultor de políticas públicas do livro e leitura da Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) para a Educação, Ciências e Cultura, com sede na Espanha. Atuou na Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura e foi membro dos conselhos estaduais de leitura dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Foi secretário de Cultura de Ribeirão Preto (SP).

É autor de 12 livros, entre ensaios e literatura infantojuvenil, cujas tiragens ultrapassam 350 mil exemplares. Entre as obras publicadas, estão Políticas Públicas do Livro e Leitura (OEI/Editora Unesp) e Retratos da Leitura no Brasil (Imprensa Oficial do Estado de SP e Instituto Pró-Livro), com os resultados e análises da pesquisa do mesmo nome, que ele coordenou.

Galeno criou e dirigiu diversas instituições ligadas à área do livro e leitura: Fundação Palavra Mágica, Fundação Instituto do Livro, Fundação Feira do Livro, Observatório do Livro e da Leitura e Instituto de Desenvolvimento e Estudos Avançados do Livro e Leitura (IDEALL), entre outros. Também esteve à frente de inúmeros projetos e programas no Brasil: Ano Ibero-americano da Leitura Vivaleitura (100 mil ações em 2005); Fome de Livro (para zerar o número de cidades brasileiras sem bibliotecas); Câmara Setorial do Livro e Leitura; Desoneração Fiscal do Livro, Prêmio Vivaleitura (10 mil ações catalogadas); Ribeirão das Letras (implantação de 80 bibliotecas em 3 anos em Ribeirão Preto e criação da Feira Nacional do Livro e da primeira Lei do Livro em um município brasileiro). Também foi responsável pela criação da agência de notícias Brasil Que Lê e do Blog do Galeno.

Conhecimento Prático Literatura - Você está engajado em diversos projetos de incentivo à leitura. Como foi sua vida profissional e esse envolvimento com as causas literárias?

Galeno Amorim - Desde muito cedo me vi envolvido com os livros e a literatura. Como não existiam livros em casa, quando criança eu andava alguns quilômetros por dia para ir ler os livros do Monteiro Lobato, até que descobri a biblioteca pública da cidade. Depois, adolescente, organizava saraus e prêmios literários. No fundo, os livros e a literatura entraram muito cedo na minha vida. Minha mãe adotiva era analfabeta, mas enfatizava o tempo todo que o estudo e os livros eram tudo na vida. Mas meus primeiros contatos com a literatura foram por meio da oralidade: meu pai adotivo, que herdou dos ancestrais africanos o gosto pelos causos, me colocava sentado no colo e contava histórias durante horas e horas. Quase todo mundo ali trabalhava na roça.

Mas a mais nova dos oito filhos gostava muito de ler e me apresentou aos livros. Nunca mais me afastei deles: primeiro, fui jornalista: comecei a trabalhar aos 13 anos em jornais de Sertãozinho e Ribeirão Preto, no interior paulista. Atuei 20 anos na grande imprensa e fui dar aulas na universidade. Mas comecei a escrever livros por acaso: de tanto que lia histórias infantis para meus filhos à noite, um dia acabei escrevendo uma. Abri uma pequena editora e como, no início, quase não havia recursos, eu mesmo acabei escrevendo os primeiros livros. Mas a editora acabou ganhando alguns prêmios importantes (inclusive o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano) e recebi um convite para ser secretário de Cultura em Ribeirão Preto em 2001.

Fiz lá a primeira Lei do Livro de uma cidade brasileira, abrimos 80 bibliotecas em três anos e uma Feira Nacional do Livro. Em pouco tempo, o índice de leitura subiu de 2 para 9,7 livros por habitante/ ano. Desde então, me dedico às políticas públicas de incentivo à leitura. No governo federal, criei o Plano Nacional do Livro e da Leitura, que já tem contribuído para os brasileiros lerem mais (era 1,8 livro por ano no início da década e, agora, já é 4,7 livros). Foi quando teve início um novo esforço para zerar o número de cidades brasileiras sem bibliotecas (eram 1.300 em 2003, número que deve chegar a zero em meados de 2010). Passei, então, a atuar em organismos internacionais que atuam principalmente nos países de língua portuguesa e espanhola.

Atualmente dirijo o Observatório do Livro e da Leitura, que mantém uma agência de notícias sobre o tema e um blog, que se tornou uma espécie de referência no mundo do livro. No fundo, acho que foi a causa do livro e da leitura que me achou primeiro, muito antes que eu pudesse descobri-la. E é bom! Afinal, leitura é essencial para o ser humano: além de assegurar o acesso ao conhecimento, é o caminho para a conquista do trabalho, da cidadania e para sua própria realização pessoal.

CP Literatura - Como foi a realização do estudo "Retratos da Leitura no Brasil"?

GA - Esse estudo tornou-se uma referência obrigatória para quem atua na área. Gestores, especialistas, pesquisadores, editores, livreiros e até escritores vão buscar nos resultados e nas análises da pesquisa, a maior já feita no País, entender a quantas anda a leitura no Brasil e o que passa pela cabeça dos leitores e também dos não leitores.

O Brasil foi quem sugeriu e acabou sendo, em seguida, o primeiro país a utilizar da metodologia desenvolvida pelo Cerlalc/Unesco para os países da América Latina. Incluímos nas amostras a população entre 5 e 14 anos, os recém-alfabetizados e mesmo analfabetos e os não leitores assumidos. Foi feita um piloto, em 2004, em Ribeirão Preto (SP), e outro, em 2006, no Rio Grande do Sul. A ideia é que, a partir de agora, a pesquisa também venha a ser realizada nos outros países da América Latina, o que pode dar origem a um banco de dados extraordinário.

A pesquisa confirma, entre outras coisas, que escolaridade e renda estão intimamente associadas aos índices de leitura. Os resultados analisados estão em um livro do mesmo nome, que eu organizei, publicado pelo Instituto Pró-Livro e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Ele também está disponível, gratuitamente, como livro digital (http://www.observatoriodolivro.org.br/ler.php?modo=material&id=27).

CP Literatura - Qual foi o dado do estudo que mais te surpreendeu?

GA - Os brasileiros já estão lendo mais. É menos do que precisamos e podemos; porém, é bem mais do que se imaginava. Outro dado é que as crianças e os adolescentes estão lendo mais do que os adultos. Além disso, o estudo mostrou que as políticas públicas dão resultados em menos tempo do que se pensa: os leitores que estão na escola chegam a ler duas vezes mais do que aqueles que já pararam de estudar. O dado negativo é que ainda estamos falhando na tarefa de formar leitores que gostem de ler e que continuem a fazer isso mesmo distantes da sala de aula: com a idade e o afastamento da escola, a leitura cai muito. Outra boa surpresa foi o fato de Monteiro Lobato, mesmo tendo ficado tantos anos sem ser reeditado, aparecer como o escritor brasileiro mais admirado. Ou, ainda, a poesia figurar entre os cinco gêneros mais lidos pelos brasileiros.

CP Literatura - Você comentou que os índices de leitura no Brasil podem ser diretamente relacionados com o nível de renda da população. Há como tornar o livro mais barato e, portanto, mais acessível a grande parte da população e, ao mesmo tempo, incentivar o mercado editorial do País para estimular o surgimento de novos autores?

GA - Tornar os livros mais baratos é algo que interessa a muita gente, inclusive ao próprio mercado, mas não é tão simples porque envolve vários aspectos. Temos que pensar, por exemplo, que pouco mais da metade da população se declaram leitores de livros, algo como 95 milhões. Desses, apenas 36 milhões consomem livros. Seja porque faltam livrarias, por causa do preço acima da sua capacidade de compra ou porque simplesmente não são levados a comprar um livro. A primeira grande tarefa, agora que o País caminha para zerar seu déficit de cidades sem bibliotecas, é criar um amplo programa de revitalização da rede de 6 mil bibliotecas existentes, boa parte das quais em situação bem precária. Isso permitiria, por exemplo, ampliar as tiragens - além, naturalmente, de estimular os leitores a voltarem às bibliotecas e a lerem mais.

A desoneração fiscal que fizemos em 2004 teve algum reflexo no preço, mas só a ampliação da massa de leitores e, entre eles, de consumidores de livros é que vai permitir tiragens maiores e preços mais baixos. E as políticas públicas devem ajudar a acelerar esse processo. Um exemplo disso foi o fim da cobrança do Pis-Cofins: muitas editoras se animaram, naquele momento, a retomar investimentos engavetados e lançaram coleções de livros de bolso, com preços de capa bem menores. O mercado, de seu lado, também deu passos importantes, como, por exemplo, investir mais em produtos para todo tipo de consumidor, e não apenas só os de classe média e média alta como algumas editoras vislumbravam no passado.

CP Literatura - Como você analisa a entrada dos livros no mundo digital? Você acha que a tecnologia pode ajudar na democratização da leitura?

GA- No Brasil, o livro digital ainda é um conceito novo. Por ora, há certa resistência porque os leitores brasileiros associam muito o livro digital àquela leitura feita na tela do computador (quando isso acontece, já que a maioria dos 4,6 milhões de leitores de livros digitais do País prefere imprimir e depois ler no papel). Um estudo recente que acabo de coordenar mostrou, no entanto, que os leitores brasileiros vão se encantar com as novas possibilidades, as atuais, e, sobretudo, as futuras, trazidas pelo e-reader. Essa democratização do acesso à leitura pode efetivamente acontecer, mas, antes, dependeremos muito da eficiência das atuais políticas de inclusão digital.

Como a grande maioria da população ainda não tem acesso a computadores e menos ainda à internet, há uma lição de casa enorme para ser cumprida. Essa é, sem dúvida, uma condição. Se isso vier a ocorrer - e é muito possível que no futuro isso aconteça, de fato! - então poderemos ter não só livros mais baratos como até novos modelos de negócio que permitam o acesso gratuito a alguns livros, como é o caso daqueles que estão esgotados e, portanto, fora do mercado atual. As políticas do livro escolar, por exemplo, vão, inevitavelmente, caminhar nessa direção. Mas o mercado terá, sempre, um papel fundamental nisso tudo.

CP Literatura - O crítico norte-americano Harold Bloom criou polêmica ao condenar o fenômeno Harry Potter e classificá-lo como prejudicial ao leitor pela falta de qualidade e densidade. Ele defende que as crianças precisam ser apresentadas a obras de qualidade para cultivarem a cultura literária e se tornarem leitores efetivos. Você considera que "qualidade" e "quantidade" são conceitos válidos no que se refere ao hábito da leitura?

GA - O grande desafio no Brasil e em países como o nosso, e mais ainda nos subdesenvolvidos, é outro. Precisamos, antes, de mais gente lendo. Primeiro, dominando as técnicas e habilidades leitoras mínimas; depois, lendo. No princípio, tínhamos raríssimos, ainda que muito bons, leitores.. Aos poucos, esse universo foi se ampliando e provavelmente a média desses leitores já não foi a mesma. Diria que nossa maior tarefa é fazer as pessoas lerem. E os especialistas, enquanto isso, têm sua tarefa: mediar e apoiar de forma que esses leitores sejam formados e tenham fome, cada vez mais, de crescer e se aperfeiçoar como tal. Mas isso é como aprender a andar: damos alguns passos, depois outros e, então, vem uma vontade irresistível de andar mais depressa ou mesmo correr. É preciso respeitar o momento, as dificuldades e as preferências de cada um. Isso vale pra tudo na vida.

Dissertação: Sueli Bortolin - A leitura literária nas bibliotecas Monteiro Lobato de São Paulo e Salvador

BORTOLIN, Sueli. A leitura literária nas bibliotecas Monteiro Lobato de São Paulo e Salvador. 2001. 233f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) - Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília.

RESUMO

As bibliotecas públicas infanto-juvenis são agências mediadoras da leitura; portanto, têm um importante papel a desempenhar na sociedade, em especial num país em desenvolvimento. Elas têm realizado cotidianamente inúmeras atividades no sentido de promover a leitura, porém observamos que nem tudo que se faz em nome da leitura, leva à leitura. Assim, esta pesquisa analisou as ações das Bibliotecas Monteiro Lobato de São Paulo e Salvador quanto à promoção de leitura. As informações para análise, foram obtidas por intermédio da literatura pertinente, e também de entrevistas in loco nas referidas bibliotecas. Após a coleta das informações cotejamos estes dados com os pareceres de especialistas em leitura e em bibliotecas infanto-juvenis quanto à eficácia e à pertinência das atividades para a promoção de leitura. Concluímos que as bibliotecas pesquisadas têm ações semelhantes quanto as atividades de promoção de leitura; demonstramos também que em ambas os funcionários não têm clareza de quais atividades realmente levam à leitura. Esperamos que este estudo, venha trazer subsídios a todos os que, de uma forma ou de outra, estejam envolvidos e/ou interessados na formação de leitores e na otimização do uso de bibliotecas e de seus respectivos acervos por meio das atividades culturais desenvolvidas.



Leituras e prazer na escola

Como horas na biblioteca podem fazer a diferença na vida do aluno

por Galeno Amorim*

Passar uma hora inteira, ao menos uma vez por semana, dentro de uma biblioteca folheando e lendo livros, ou simplesmente de papo pro ar, é tão fundamental para o desenvolvimento dos alunos que deveria fazer parte da grade curricular das escolas. A ideia, que ainda arrepia muita gente, ganha, no entanto, cada vez mais adeptos. E também o apoio, dentro e fora dos estabelecimentos de ensino, de especialistas e de gente importante do mundo dos livros e da educação, mas também de pais, gestores de projetos e, naturalmente, educadores.

Mas a verdade é que não é tão simples assim. A inclusão de pelo menos uma hora semanal na grade das escolas do Ensino Médio e Fundamental consta até da Lei do Livro, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003. Mas, em função das controvérsias em torno do assunto, até hoje a legislação não foi regulamentada.

Há quem diga, por exemplo, que não se pode estipular uma hora única e obrigatória para ler. Isto porque, de acordo com esses argumentos, os livros devem estar presentes durante todo o período escolar e em todas as disciplinas, e não haver uma só matéria para a leitura. Na essência, está absolutamente correto. Só que na vida real não é bem assim que as coisas acontecem.

Os defensores da criação de um espaço permanente no horário escolar para aproximar livros e possíveis leitores e fomentar o hábito e, sobretudo, o gosto e o prazer de ler, pensam diferente. Não se trata, de acordo com esses, de abrir uma nova e única disciplina para confinar e concentrar ali tudo o que for leitura na vida de uma escola.

Mesmo porque, concordam, os livros são fundamentais em qualquer projeto pedagógico e caminho poderoso para a apropriação do conhecimento acumulado pela humanidade. Assim, estão, evidentemente, presentes em todas as disciplinas.

A grande preocupação desses adeptos de maior presença da leitura de literatura na educação brasileira é que, por ausência de políticas mais claras nesse sentido, milhares de escolas brasileiras ainda mantém suas portas fechadas para os livros em geral. A única exceção, naturalmente, fica por conta dos livros didáticos, que são distribuídos gratuitamente pelo governo e costumam ancorar os projetos pedagógicos e as próprias aulas nas diferentes redes de ensino.

Porém, aprender a ler e a gostar de ler livros – ou, no mínimo, tornar essa prática um hábito permanente – continua passando ao largo de boa parte das nossas escolas.

Isso talvez ajude a compreender o atual comportamento da população brasileira, que, com o passar dos anos, simplesmente foge dos livros. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, os maiores índices de leitura estão justamente entre crianças e jovens em idade escolar. Chegam a ser três ou quatro vezes maiores do que na fase adulta, assim como a frequência às bibliotecas, que despenca, até praticamente inexistir, acima dos 30 anos. Este é o caso de nove entre cada dez brasileiros, que deixaram de ir a alguma delas.

Esse mesmo estudo – uma iniciativa do Instituto Pró-Livro e coordenado pelo Observatório do Livro e da Leitura – mostrou, ainda, que os leitores que estão nas escolas chegam a ler duas vezes mais do que aqueles que já saíram de lá. O que mostra que as escolas estão, de certa forma, cumprindo o papel de facilitar o acesso de parte da população aos livros e o de fomentar a leitura entre seus alunos. E, surpresa: enquanto leem, esses leitores acabam associando o ato de ler muito mais a prazer do que propriamente à obrigação, como o senso comum costuma dizer.

Qual é, então, o problema?
Ao mesmo tempo em que tem contribuído, verdadeiramente, para aumentar os índices nacionais de leitura – os brasileiros liam, no início da década, 1,8 livro por habitante/ano, número que saltou para 4,7 em 2008 – a educação brasileira ainda não consegue enfrentar um dilema. Um dilema, por sinal, muito simples e direto, porém de respostas aparentemente nada fáceis: como as escolas, afinal, podem formar leitores que gostem de ler e façam isso pela vida afora, mesmo quando estiverem distantes delas?

Com ou sem obrigação legal, a verdade é que muitas escolas estão, de fato, tentando. E toda diferença, nos mais diversos casos, tem sido feita por uma pequena legião de educadores que acreditam pra valer no valor social da leitura e mesmo nos livros como ferramentas eficazes para seu trabalho na sala de aula e na vida futura de seus alunos.

Não por outra razão, estão sempre animados e dispostos a criar ações simples, porém ousadas, para mudar o quadro atual. E – ainda bem! – eles estão por toda parte. Por sinal, tenho visto muitos deles tanto no site que mantenho sobre esse tema – o http://www.blogdogaleno.com.br/, cuja revista eletrônica é enviada, semanalmente, para 80 mil educadores, escritores, jornalistas, editores, livreiros, bibliotecários e outros interessados no assunto – e em todas as regiões do país onde tenho feito palestras em escolas sobre o poder extraordinariamente transformador da leitura na sociedade.

Sempre com muita criatividade e o esforço pessoal dos professores e dirigentes, um bom número de escolas vem inventando, nos quatro cantos do país, variadas formas para ampliar o acesso aos livros e outros materiais de leitura e, sobretudo, para que esses leitores – no mínimo, leitores em potencial – se sintam estimulados e com vontade de ler. O próximo passo, quem sabe, pode ser aprenderem a gostar de ler – é isso fica pra vida toda.

Em Sinop, no interior do Mato Grosso, por exemplo, uma escola estadual do Ensino Médio motivou a comunidade escolar com uma medida aparentemente simples, e que não exigiu nenhum investimento suplementar. Uma vez por semana, ela simplesmente interrompe as aulas e demais atividades para que todo mundo leia.

Não importa o que estejam fazendo: todo mundo para e, por instantes, entra no mundo mágico da leitura. Para uns, é um mergulho inicialmente raso, para outros, às vezes mais profundo – mesmo porque cada um encontra-se em um estágio e muitos ainda nem aprenderam a nadar.

Sejam professores ou alunos, funcionários ou mesmo pais e outras pessoas que estiverem por lá. Vale tudo: todo e qualquer gênero da literatura, e revistas, jornais, gibis... Seja lá o que for. O que importa, afinal, é ler. Ainda que alguns torçam o nariz, dar os primeiros passos nessa direção é algo sempre muito bem-vindo.

O que se diz por lá é que tudo ficou melhor: o desempenho escolar, a autoestima dos estudantes, funcionários e professores e as próprias relações pessoais entre eles. Até a leitura fora da escola teria evoluído. Ao que parece, as pessoas entenderam a mensagem: que ler é mesmo um valor, e tanto é assim que a escola inteira até para tudo por causa disso.

Os depoimentos que tenho ouvido em outras cidades sobre esse tipo de experiência são igualmente positivos. É bem verdade que os livros de literatura disponíveis nas escolas ainda são insuficientes. Ou que para cada escola que possui uma biblioteca escolar, há outras duas que não têm nada disso – isto vai ser objeto de uma outra conversa, para tratar, de forma específica, da necessidade de uma vigorosa e urgente política nacional de bibliotecas públicas, sejam elas municipais, estaduais, escolares, universitárias ou comunitárias.

Afinal, a leitura tem papel fundamental na formação do ser humano. A capacidade de ler, compreender e processar as informações de um texto é adquirida de uma maneira: lendo. Proporcionar o aprendizado dessa atividade com prazer depende de todos nós – começa na família, em casa (as mães, por sinal, são vistas pelas crianças como aquelas pessoas que mais influenciam no gosto de ler). O resultado de todos os esforços e investimentos será, com toda certeza, uma sociedade de cidadãos plenos.

Com a implantação do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), do governo federal, em 2006, passou a existir maior articulação entre Ministério da Cultura e Ministério da Educação para fortalecer as políticas públicas nos estados e municípios para investir mais na formação de leitores e, para tanto, na formação dos chamados agentes mediadores de leitura: professores, bibliotecários, gestores de projetos de leitura. Afinal, quem não gosta de ler, dificilmente conseguirá fazer alguma outra pessoa gostar.

Esta década talvez entre para a história como aquela em que, até hoje, mais se avançou no sentido de tornar esse tema uma política de estado no Brasil. Agora, no entanto, é preciso avançar mais, para que nos estados e municípios exista uma maior percepção por parte de autoridades e lideranças políticas e comunitárias sobre a função social e estratégica dos livros na sociedade. E que podem fazer um grande bem para suas cidades e estados e para seus próprios governos.

Os livros já foram, um dia, objeto sagrado cujo acesso era permitido a poucos. Mais tarde, passou a ser tratado como fonte de prazer e lazer de qualidade. Sem perder uma e outra condição, a verdade é que a leitura também é um meio eficaz para o desenvolvimento pessoal e profissional do indivíduo e para ampliar sua visão de mundo e suas possibilidades de intervenção no lugar em que vive. Mas também para melhorar seu emprego e renda.

Dessa forma, tem um novo e importante papel na educação e na sociedade de forma geral, algo que nunca foi muito claro na cabeça das pessoas. Se houve um tempo em que, na economia primitiva, a água e, mais tarde, o petróleo, na era da industrialização, possuíam importância estratégica para as nações, hoje é o conhecimento que faz toda a diferença. É o conhecimento que se constrói com as várias leituras: dos livros, jornais e das diferentes estéticas culturais, com o tempero e fermento das vivências e experiências do cotidiano.

Os livros fazem toda a diferença!

*Galeno Amorim (http://www.blogdogaleno.com.br/) é diretor do Observatório do Livro e da Leitura e foi o criador e primeiro coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). É autor de 12 livros, entre os quais Retratos da Leitura no Brasil.