sábado, 3 de julho de 2010

Livros digitais criam novas chances de acesso à leitura

Sucesso depende ainda da solução de gargalos ligados ao custo e hábito

Publicado em 01/07/2010


A chegada dos livros digitais abre um novo potencial de popularização da leitura no Brasil. O País, que segundo levantamento Retratos da Leitura, realizado em 2008 pelo IPL (Instituto do Pró-Livro), tem cerca de 45% da população fora de contato qualquer tipo de leitura, poderia aproveitar a nova tecnologia para mudar o panorama. A chance, entretanto, esbarra em alguns gargalos que as novas tecnologias carregam, como adaptação aos novos formatos, aceitação dos escritores e público, reformulação do modelo de negócio e acesso aos aparelhos necessários para a leitura.

Marco Simões, coordenador pedagógico da Faculdade de Computação e Informática da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) é taxativo em relação ao livro virtual como grande ponto de virada para o cenário de leitura no Brasil. "Os leitores digitais não modificarão o atual panorama brasileiro, até porque a vontade de ler não depende do que às pessoas tem em mãos", diz ele, que é autor do livro "História da Leitura: do papiro ao papel digital". O hábito, segundo Simões, depende da família, da escola e do incentivo dos pais.

Ainda que o estímulo da leitura não esteja diretamente relacionado à sedução que aparelhos modernos com alta capacidade de armazenamento de dados despertem, Antonio Luiz Basile, professor de Ciência da Computação da Universidade Mackenzie, enumera uma série de vantagens que podem aproximar os brasileiros dos livros. "Com a exclusão dos gastos com papel e encargos gráficos, a tendência é que o custo da publicação seja mais baixo", aponta ele. Embora os valores dos livros digitais sejam menores, será necessário o investimento na produção em massa e conseqüente barateamento do custo do leitor digital, a menos que se decida usar um computador normal para ler os livros adquiridos. Mas essa saída eliminaria a portabilidade do livro digital.

Hoje, o aparelho custa no Brasil em média R$ 1.000. O valor deverá delimitar a leitura digital às classes mais altas da sociedade e não resolverá o problema dos brasileiros que alegam não ler por causa dos altos custos das publicações. A pesquisa Retratos da Leitura aponta que 7% da população de não-leitores no País se encaixam nesse contexto. A tendência, no entanto, segundo Basile, é que o valor do leitor digital caia pelo menos pela metade. "Hoje é muito caro por causa das novas tecnologias empregadas e pela falta de concorrência. Depois que o custo de fabricação diminuir e aparelhos de diferentes marcas forem lançados, a opção se tornará mais acessível", aposta ele.

A vantagem da nova tecnologia, para Jézio Gutierre, editor executivo da Editora UNESP (Universidade Estadual Paulista), é a mobilidade, bem como a comodidade de carregar inúmeros textos num único aparelho. Ele afirma que essa possibilidade poderá ser bem aproveitada, principalmente, pelos estudantes. A conexão com a Internet sem fio, segundo Basile, também permitirá maior interatividade com o livro. Opção que, segundo ele, levará o leitor a se informar não apenas pela obra e incentivará o aprofundamento em outros assuntos descritos nela.

"A tecnologia possibilita que o leitor obtenha informações complementares e até mesmo traduções simultâneas durante a leitura", cita Basile. O benefício poderá ser testado no próximo livro de Laurentino Gomes, previsto para ser lançado em setembro de 2010. De acordo com o autor de "1808", obra terá uma versão digital com uma linha do tempo interativa. "O leitor poderá explorar os acontecimentos da época, além de ter acesso a mapas, por exemplo", conta Gomes.

A partir do uso das tecnologias também será possível enviar e receber obras na velocidade do clique de um mouse. Fato que, segundo o autor, poderá aumentar o leque de opções na hora de escolher as obras. "Será possível ter acesso aos livros estrangeiros muito mais rápido que antes, já que não será preciso esperar que ele chegue até nós por qualquer tipo de transporte que seja", prevê Gomes.

Preservação do papel

Embora as vantagens do livro digital sejam bastante animadoras, não deverão ser suficientes para substituir o papel. Para Simões, o motivo é bem simples. "Enquanto o papel existe há mais de mil anos, o digital não completa nem uma década de existência", compara Simões, que diz que as leituras não são substituídas, tampouco podem ser comparadas. "O manuseio, a sensação de segurar um livro e até mesmo seu cheiro nunca poderão ser reproduzidos por nenhum aparelho", dispara ele.

A tendência, na opinião de Gomes, é que os dois modelos passem por transformações. "Nenhum deles, no entanto, desaparecerá", garante o autor, que aposta na sincronia e no intercâmbio entre papel e leitor. Para ele, a novidade poderá incentivar o leitor a procurar uma mesma obra em diferentes formatos. "As novas tecnologias não competem entre si, apenas se complementam", acredita ele. Basile acrescenta que o impulso pelo uso do leitor digital será grande. "Mas com o tempo, as pessoas saberão a hora certa de usar cada um deles", conta o professor da Mackenzie.

Adaptação mercado editorial

Assim como a indústria fonográfica precisou pensar em formas de se reinventar quando o formato de compressão MP3 e os programas de compartilhamento invadiram a rede mundial de computadores, a indústria e o meio editorial se veem numa situação muito parecida com a chegada dos leitores digitais. Embora ainda em estado embrionário, muito já é discutido quanto às mudanças que esses leitores trarão no processo de produção dos materiais digitais.

Jézio Gutierre, editor executivo da Editora UNESP, acredita que a indústria e os autores ainda não sabem ao certo qual será o futuro dessa nova tendência tecnológica e literária. Ainda sim, afirma que o papel das editoras dentro desse contexto é muito claro. "É preciso preparar os profissionais da área, experimentar fontes e tamanhos de letras, além de novos meios de diagramação necessários para a leitura em tela, já que estamos acostumados com séculos de leitura em livros", explica ele.

A própria editora UNESP já entrou nesse novo ramo digitalizando parte do seu acervo. São 44 obras concluídas e outras 55 que estão em fase de preparação para o começo do ano que vem. Para Gutierre, essa iniciativa, além de oferecer títulos acadêmicos de maneira fácil e rápida para quem se interessar por elas, serve também como ponto de partida para descobrir o que o mercado espera dessas obras. "São atitudes como essas, de pesquisa de mercado e técnicas de edição, que mostrarão o tipo de livro digital que será consumido no futuro", diz ele.

Para o editor o importante nesse momento é criar textos e obras que se adequem aos leitores digitais. "As possibilidades do papel digital são muito mais vastas do que a do papel normal, por isso é hora de criar livros em que o leitor possa interagir com o tema e que o prendam cada vez mais à história", afirma.

Fonte: Universia

Sobre leitura

Fernanda Mariano

Jovens e crianças formam a faixa etária com maior índice de leitura no Brasil. A informação pode surpreender muitos adultos, principalmente os que não perdem a chance de dizer que "a juventude e o estudo de hoje são muito diferentes de épocas passadas" e que não vêem os filhos lendo.

O fato é que uma pesquisa divulgada recentemente pelo Instituto Pró-Livro, realizada pelo Ibope Inteligência, mostra que quase 40% dos 95,6 milhões de leitores de livros no Brasil estão na faixa etária de 5 a 17 anos e outros 14% possuem entre 18 e 24 anos.

Contudo, o alto índice de leitura entre os jovens está ligado à fase escolar, quando são cobrados pelos professores. O desenvolvimento do hábito de leitura, porém, depende de ações que promovam o interesse constante e proporcionem uma formação para um adulto leitor - e essas atividades não devem ser restritas à escola.

"O que promovemos é estudo, não é leitura", comenta o professor Hélio Consolaro, que defende que o desenvolvimento do hábito de ler acontece por meio do contato das obras que estão além do currículo escolar. Para ele, a cobrança pelo conhecimento dos livros indicados pode "tirar o sabor" da leitura entre as crianças e jovens. A indicação é tida, simplesmente, como tarefa. "É claro que a oferta em sala de aula causa o estímulo, mas é preciso mais do que isso para formar leitores."

A dificuldade em entender uma obra precisa ser enfrentada. "Os estudantes perdem o interesse por livros que não entendem, e isso acontece muito com os clássicos; por isso, o ideal é oferecer algo contemporâneo, que tenha relação com a realidade deles", diz a professora de Literatura Márcia Lorca.

Ela lembra que, atualmente, alguns alunos procuram na internet os resumos e resenhas de obras apresentadas para estudo, o que limita a compreensão e o desenvolvimento crítico.

"Normalmente, eles se desinteressam por aquilo que não entendem; perdem a oportunidade de desenvolver o vocabulário e a capacidade de interpretação."

Já o professor de Literatura Carlos Eduardo Brefore Pinheiro destaca que "o papel da escola é entregar para a sociedade um cidadão que consiga interpretar aquilo que lhe dizem e escrevem, que consiga fazer críticas aos problemas sociais. Para isso, ele precisa ter desenvolvido e trabalhado a interpretação". De acordo com o profissional, não basta ler, é preciso entender, assimilar e transformar aquele conhecimento.

Criar estímulos, relacionar as obras com a atualidade e buscar a interdisciplinaridade são papéis dos professores, pais e responsáveis. A chance de assistir a filmes baseados em obras literárias, por exemplo, é um modo de instigar a criança ou o jovem a procurar o livro.

Relacionar obras de arte, músicas e situações do dia-a-dia com livros também pode despertar a curiosidade do estudante em procurar a literatura. O universitário Diego Costa Assunção, apaixonado por cinema, lembra que muitas vezes um longa-metragem lhe atraiu a atenção para a obra literária original sobre o fato ou personalidade. "Vendo filmes, entrei em contato com outras artes que talvez eu não conheceria sem o auxílio do cinema. Por meio dos filmes baratos de terror dirigidos por Roger Corman, travei contato com a literatura de Edgar Allan Poe. Pela atuação de Mickey Rourke como Henri Chinaski, procurei conhecer os contos e poemas de Charles Bukowski".

O assunto é fundamental

De acordo com a pesquisa do Instituto Pró-Livro, para dois terços das crianças e adolescentes com menos de 15 anos, o tema é o fator mais importante na hora de escolher um livro para ler. O estudo aponta que, dos 4,7 livros lidos por ano, 3,4 obras são indicadas pela escola e apenas 1,3 é uma escolha espontânea.

"É importante deixá-los ler aquilo que têm vontade. Diferente do que os intelectuais dizem, não é porque a pessoa lê Paulo Coelho ou Harry Potter é um 'leitor ruim'", alerta o professor Hélio Consolaro.

O universo da pesquisa sobre leitura foi de 172,7 milhões de pessoas, das quais 95,6 milhões foram consideradas leitoras, o que significa ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses. Desse total, 54% deles são estudantes que lêem as obras indicadas pela escola.

Outra constatação interessante da pesquisa é o papel das famílias, em especial a mãe. A função dos pais mostra-se mais relevante ainda quando são feitas comparações entre leitores e não-leitores. Entre as crianças de 5 a 10 anos, 73% delas citam as mães como quem mais as estimularam a ler, elas aparecem acima dos professores.

De acordo com o estudo, um em cada três leitores tem lembranças da mãe lendo algum livro, e 87% afirmam que os pais liam para eles quando estavam iniciando na prática da leitura. "O aprendizado acontece pelo exemplo", comenta a professora de Literatura Márcia Lorca. "Os pais precisam ser leitores para causar identificação". Presentear as crianças com livros, ler em conjunto e comentar sobre obras que estão sendo lidas suscitam o interesse nas crianças e adolescentes.

Pesquisa constata que as mulheres costumam ler mais que os homens

O estudo encomendado pelo Instituto Pró-Livro mostra que a média nacional é de 4,7 livros ano/habitante. Depois das crianças e jovens, as mulheres saem na frente em relação à leitura: lêem 5,3 livros por ano, enquanto o índice entre eles é de 4,1. A maioria dos entrevistados diz que o livro é uma fonte de conhecimento. Somente 8% relacionam a leitura como atividade prazerosa ou interessante.

Depois das crianças e dos jovens, as mulheres são as maiores freqüentadoras da Biblioteca Pública Rubens do Amaral, em Araçatuba. Segundo a bibliotecária, Marlene Umbelina Martinez Rodrigues, as senhoras, principalmente as aposentadas, têm grande participação na locação de obras na instituição. "Elas buscam por romances e também clássicos", diz.

A "Bíblia" é considerada o livro mais importante, com dez vezes mais referências em relação ao segundo colocado, "O Sítio do Pica-pau-amarelo", de Monteiro Lobato, apontado como o escritor mais lido no Brasil.

Após Lobato, líder disparado, a lista dos dez escritores brasileiros mais lidos inclui, pela ordem, Paulo Coelho, Jorge Amado, Machado de Assis, Vinícius de Morais, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, José de Alencar e Maurício de Souza, autor de histórias em quadrinhos.

Dos leitores que declararam gostar da atividade e realizá-la com freqüência, 79% têm formação superior, 78% têm renda familiar acima de 10 salários-mínimos e 69% são moradores de regiões metropolitanas.

Em algumas regiões, a leitura é mais habitual. É o caso do Sul, onde foram apurados 5,5 livros lidos por habitante/ano. Em seguida, vem a região Sudeste (4,9), o Centro-Oeste (4,5), o Nordeste (4,2) e o Norte (3,9). Os leitores lêem mais nas grandes cidades (5,2 livros por habitante/ano) do que nas pequenas localidades do interior (4,3 em municípios com menos de 10 mil habitantes).

Essa média sobe entre os que possuem maior escolaridade. Entre aqueles que possuem formação superior, ela é de 8,3 livros/ano. Esse número é de 4,5 livros para quem tem ensino médio completo, 5 para quem cursou entre 5ª e 8ª série do ensino fundamental e 3,7 para quem tem até a 4ª série.

A pesquisa também constatou que, apesar dessa média de leitura, os brasileiros não compram muitos livros: 1,1 livro adquirido por ano. O Brasil possui 36 milhões de compradores de livros e, entre eles, a média é de 5,9 livros exemplares adquiridos por ano.

O estudo foi realizado entre novembro e dezembro de 2007, ouviu 5.012 pessoas com mais de cinco anos, inclusive analfabetos, em todos os estados do País e no Distrito Federal. A margem de erro é de 1,4 ponto percentual, para mais ou para menos.

Araçatuba - Educação fala sobre "Lei das bibliotecas"

O presidente Lula sancionou e foi publicada no dia 25 de maio a Lei 12.244/10, que estabelece que todas as escolas devem ter uma biblioteca e as que já existem devem se ajustar às normas exigidas. A lei define como biblioteca escolar a coleção de livros, materiais videográficos e documentos destinados à pesquisa, estudo ou leitura. O acervo deverá ter no mínimo um título para cada aluno matriculado. As escolas terão um prazo de 10 anos para se adequarem à lei.
Estér com alunos da Emeb

Para o coordenador de projetos de leitura da Secretaria de Educação de Araçatuba, professor Antônio Luceni, a Lei é um grande agente para fortalecer o hábito da leitura e incentivar novos leitores nas escolas. “A criação das bibliotecas incentiva a leitura dos alunos, possibilitando que eles levem os livros para a casa, para que os pais possam ler também e adquirir o hábito de comprar livros para seus filhos. É um grande estímulo ao aprendizado e pode transformar vidas”, argumenta o professor, que reforça a importância de cada biblioteca ter um profissional formado em biblioteconomia, que fique responsável por coordenar o local e pelo empréstimo dos livros, além de indicar boas leituras.
... desde cedo com os livros

Em agosto de 2009, a Prefeitura já havia iniciado um levantamento com os profissionais da rede municipal de ensino para futuramente implantar as bibliotecas nas escolas municipais de Araçatuba. Estes estudos consistem em avaliar as condições das escolas para receber uma biblioteca, analisando o espaço a ser construído ou reformado, se existe iluminação apropriada, se o lugar é arejado, entre outros pontos. De acordo com a secretária de Educação, professora Beatriz Soares Nogueira, ao montar bibliotecas em todas as Emebs do município projetos de leitura que já estão acontecendo se fortalecerão. “Todas as unidades possuem um espaço reservado para a leitura e também desenvolvem projetos relacionados aos livros. Nossa intenção é, com as bibliotecas, ampliar o atendimento também para a comunidade ao redor da escola”, diz Beatriz.

PROJETOS EM ANDAMENTO

Alguns projetos de incentivo a leitura já foram adotados pela Secretaria da Educação, como o Projeto Fazer Em Cantos, destinado aos alunos de Educação Infantil, onde as salas são divididas em cantos, como o canto da leitura e do “Faz de Conta”, onde o objetivo é despertar desde cedo nesses alunos o gosto pela leitura. Há também grupos de estudos, destinados aos diretores, coordenadores e professores, como o Programa Ler e Escrever, o PAE (Programa de Alfabetização Especial), a Olimpíada de Língua Portuguesa, os Concursos de Redação para alunos e professores, entre outros.

EXEMPLO DE EMEB

Há sete anos é desenvolvido na EMEB Sônia Maria Corrêa um projeto de incentivo à leitura, onde os alunos levam toda semana para casa um livro diferente e uma vez por mês um DVD educativo ou filme infantil. A diretora Estér Brito de Paiva Castro diz que após a leitura os alunos fazem um desenho para ilustrar a história. “Os pais não compravam livros para as crianças e a partir desse projeto eles perceberam que os filhos gostam de ler. O nosso objetivo é estimular os alunos a ler e consequentemente os pais”, disse a diretora. Estér acrescenta que este processo de incentivo à leitura desencadeou nos alunos uma responsabilidade, pois eles aprenderam a conservar os livros.

Leitura - Exercício para mente e alma

VISITA: Fernanda e Letícia Biagi frequentam
semanalmente a biblioteca municipal acompanhadas
 pela mãe, Ester, que estimula a leitura diariamente
 com meia hora do exercício todas as noites

Ler é uma atividade que requer dedicação; alguns projetos estimulam a prática e facilitam o contato com obras diversificadas

Fernanda Mariano
fernanda.mariano@folhadaregiao.com.br

Em tempos de páginas virtuais e downloads de obras literárias completas, as bibliotecas mantêm fiéis frequentadores. Não têm mais o mesmo número de adeptos que já a procuraram um dia, mas está entre as tradicionais alternativas que estimulam e mobilizam para o exercício de ler. Especialistas frisam que a leitura é um hábito a ser desenvolvido. Precisa ser exercitado! As bibliotecas surgem como as academias próprias para o desenvolvimento desta habilidade, mas muitos outros projetos que priorizam a literatura podem ajudar neste processo.

Pessoas como Ester Alves Domingues Biagi e as filhas Fernanda, 8 anos, e Letícia, 11, visitam religiosamente a biblioteca Rubens do Amaral, em Araçatuba, pelo menos uma vez por semana. "Todos os dias, antes de dormir, temos um momento para a leitura, quando lemos por pelo menos meia hora", conta a mãe. "Com isso, sempre estamos em busca de novas obras", diz.

"A biblioteca tem, hoje, condições de atender públicos diversificados; e ainda é procurada por estudantes que querem complementar pesquisas e por pessoas que gostam do ambiente tranquilo para o estudo", afirma a responsável pela biblioteca Rubens do Amaral, Marlene Umbelina Martinez Rodrigues.

De acordo com dados atualizados desta biblioteca, 21.138 araçatubenses - aproximadamente 10% da população - estão cadastrados, somente nesta unidade, para o empréstimo de obras. Marlene afirma que cerca de 5 mil pessoas passam, por mês, pelo lugar, para consultas e busca por livros.

Uma procura que poderia ser maior se houvesse mais consciência sobre a importância da leitura. "Trata-se de uma atividade que engrandece a pessoa intelectualmente e emocionalmente", comenta o professor de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, Carlos Eduardo Brefore Pinheiro, coordenador de uma escola particular de ensino fundamental e professor de gradução.

O especialista destaca a necessidade de empenho e dedicação no ato de ler. "A leitura é um exercício, precisa ter metas, a curto e longo prazos", destaca. "Sabemos que existem vários níveis de leitura e para alcançar o estágio no qual ela se torna um prazer, é preciso praticar", ensina.

Por isso, o professor ressalta, é necessário especial estímulo na infância, para o desenvolvimento de adultos leitores. "Vale lembrar que essa habilidades capacita o indivíduo para ações do dia a dia, para leituras nas entrelinhas, percepções diferenciadas e o exercício da cidadania", destaca Carlos Pinheiro.

LEIA

Hoje, Dia Nacional do Livro, é uma boa data para dar início a um programa de aperfeiçoamento à leitura. Existem várias opções de projetos de responsabilidade social que podem contribuir para esse propósito. Algumas entidades mantêm espaços para essa atividade e disponibilizam obras literárias e periódicos para a população.

O projeto "Livro para todos", coordenado pela Secretaria Municipal de Cultura de Araçatuba, conta com 19 pontos de distribuição. Neles, os responsáveis deixam obras diversificadas à disposição da população. A ideia do projeto é que os leitores levem o livro para casa e, depois, devolvam no mesmo local, que deve ser de seu fácil acesso.

Entre os pontos estão algumas das UBSs (Unidades Básicas de Saúde), como a do Jardim Planalto; o 1º Cartório de Notas e Protestos, empresas comerciais de vários pontos da cidade além da própria secretaria de Cultura.

O "Livro para todos" precisa, permanentemente, de doações de livros, que podem ser feitas na própria Secretaria Municipal de Cultura (rua Anita Garibaldi, 75, Centro) ou nos pontos de distribuição, identificados com um cartaz que destaca o nome do projeto. O telefone para informações é o (18) 3636-1270.

A leitura e consulta a obras literárias também podem ser realizadas por meio do projeto "Leitura livre", do Sesc (Serviço Social do Comércio). A entidade disponibiliza revistas e jornais em sua sede em Birigui e na sala de leitura do Polo Avançado em Araçatuba. Neles, há uma estante que reúne as publicações disponíveis, inclusive livros. A consulta pode ser realizada de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. Em ambas as cidades, não é permitido retirar as obras da central de atendimento. O Pólo Avançado do Sesc em Araçatuba fica na rua José Bonifácio, 39, no centro. Em Birigui, o Sesc fica na travessa Sete de Setembro, 05, Vila Xavier. Informações (18) 3608-5400 ou (18) 3642-7040.

O Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial) permite que a população utilize os serviços de sua biblioteca. Basta fazer uma inscrição para realizar o empréstimo. O local fica aberto de segunda a sexta-feira, das 13h às 21h, na sede da instituição, na avenida João Arruda Brasil. 500.

Em Araçatuba também há iniciativas de empresas privadas que fomentam a leitura. Os interessados devem buscar informações nas bibliotecas de escolas, entidades e empresas particulares.

Matéria publicada em 29 de outubro de 2009

Fonte: Folha da Região

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Acervo portátil

A onda começou lá fora. Os Estados Unidos, maiores consumidores de tecnologia do Ocidente, arriscaram: e se transformássemos um acervo imenso de livros em arquivos pequenos que pudéssemos carregar por aí? Nasceram daí os formatos de eBooks.

À época, por volta de 2004, o mundo ainda não estava preparado para tanto avanço e a ideia adormeceu um pouco. Só um pouco. Hoje, cinco anos depois daqueles momentos iniciais da “biblioteca portátil”, o livro eletrônico volta à baila.

A inovação é apenas mais um desdobramento da constante digitalização dos meios de consumo de cultura. O MP3, o compartilhamento de filmes, a transformação da internet em 2.0... Todos os sinais foram emitidos pela tecnologia da informação para os próximos passos a serem dados e o mais perfeito design [ref. Umberto Eco] foi digitalizado para fazer surgir o eBook. Seguindo o curso do riacho – que apostam os entusiastas, há de virar caudaloso rio –, a digitalização de livros tem atingido bibliotecas seculares, sendo vendida como a solução para enormes volumes. “Os eBooks estão se espalhando de maneira mais rápida e eficiente do que na primeira onda de sua disseminação. Não ficarão restritos somente a consumidores ávidos por novidades eletrônicas. Hoje, eles têm maior poder de penetração”, indica Daniel Pinsky, editor que estudou os livros eletrônicos para seu mestrado.

Agora em abril, a Livraria Cultura passa a vender livros eletrônicos em seu site, cerca de 120 mil títulos na primeira etapa, entre nacionais e importados. “Estamos caminhando com as tendências do mercado digital. Não podemos negar que é um teste. Veremos como vai funcionar, até porque é algo recente, que vai se moldando aos poucos. Queremos aprender com o nosso pioneirismo”, explica o diretor de operações da Cultura, Sergio Herz.

O campo livre para crescimento deste mercado não é só a quantidade de títulos lançados, mas também o serviço mais amplo e acessível. “A gente trabalha com dois formatos: o PDF e o ePub. Este é mais indicado para os leitores de eBook, porque é um formato que se rediagrama com o tamanho da letra, diferente do PDF, que mantém uma diagramação física e isso demanda navegar pela página para a leitura”, esclarece Mauro Widman, coordenador do departamento de eBooks da Livraria Cultura. O formato ePub é, também, o mais recorrente entre os leitores, que já chegam a 30 modelos. “Assim que um desses modelos for fabricado no Brasil, passaremos a vender leitores também”, prevê Herz.

O temor da extinção dos livros físicos com o crescimento dos eBooks, no entanto, perde força quando se pensa no prazer tátil de segurar um volume preferido, que não quebra nem depende da bateria. “O interessante é que teremos no site a correspondência do livro físico e do eBook. Se você vê o livro em eBook, e se existir o mesmo físico, ele oferece a compra do outro como opção”, revela Widman. Os trabalhos para tamanha oferta de títulos vêm se desenrolando desde outubro de 2009, quando os contratos começaram a ser fechados com as editoras nacionais e os primeiros livros foram convertidos. “Algumas editoras já estão mandando os livros pra gente em formato ePub ou no próprio formato PDF, já que podemos proteger os dois contra cópia. Nem copy paste nem impressão”, informa Widman. No lançamento, serão cerca de 500 títulos em português.

E os smartphones? Grande atrativo atual, os celulares turbinados também estão na mira de ofertas da Livraria Cultura. “Por enquanto, os smartphones ainda não têm o programa para apresentar os livros eletrônicos protegidos, mas isso deve ser resolvido em dois ou três meses”, garante Widman. Agora, é escolher o seu leitor, baixar os títulos escolhidos e se deliciar com a leitura.