quarta-feira, 23 de junho de 2010

Os espaços convencionais e alternativos de leitura - 2006 - Dissertação de Ivana Aparecida Lins Gesteira

A dissertação da Ivana foi defendida na Universidade Federal da Bahia - UFBA

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GESTEIRA, Ivana Aparecida Lins.  Os espaços convencionais e alternativos de leitura.

Resumo da dissertação:
Espaços Alternativos de Leitura visa a abordar a questão da leitura como instrumento capaz de contribuir para que os sujeitos tenham a consciência democrática e permaneçam ativos no mundo do trabalho da atual sociedade. O objetivo principal é apresentar um estudo sobre o acesso à informação discutindo questões relativas à disseminação da informação, o papel da biblioteca pública e às redes humanas de leitura. O acesso à informação e ao conhecimento pelas classes sociais menos privilegiadas, através da utilização dos espaços públicos de leitura. Por meio de um estudo exploratório, investiga-se o papel da biblioteca pública, como sendo um espaço convencional de leitura e que não vem atendendo aos seus objetivos primordiais, que é o de contribuir para a compreensão do mundo e ampliação dos horizontes que fortalecem a cidadania, por meio da ação cultural, cedendo espaço para o atendimento aos leitores advindos da rede básica de ensino, que buscam a pesquisa escolar. São estudados os Espaços Alternativos de Leitura – EALs que surgem e se legitimam nas comunidades carentes para dar conta do escasso número de bibliotecas públicas, e que se caracterizam, na sua organização e estruturação, em formato de redes colaborativas ou solidárias. Os resultados apresentados destacam o mapeamento dos Espaços Alternativos de Leitura existentes na cidade do Salvador. Realiza-se um levantamento que identifica 12 desses espaços de leitura, divididos aqui em dois tipos, físicos ou virtuais, e uma investigação no intuito de conferir maior visibilidade e compreensão na sua origem, estrutura e funcionamento.

Acesso ao texto na íntegra:
http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=622

O bibliotecário e a mediação

Ezequiel Theodoro da Silva

Por várias vezes, em diferentes lugares do Brasil e do exterior, afirmei que uma revolução qualitativa da leitura brasileira tem de contemplar, necessariamente, questões relacionadas com a existência de uma rede articulada de bibliotecas e pela ampliação pedagógica do trabalho dos bibliotecários.

Neste texto, retomo, reitero e amplifico esse posicionamento mesmo porque os governos continuamente cometem verdadeiros crimes para escamotear as necessidades de trabalho científico, tecnológico e técnico no âmbito da organização e disponibilização de acervos de leitura para as múltiplas comunidades existentes nas regiões brasileiras.

As duas pesquisas nacionais sobre hábitos de leitura do povo brasileiro, publicadas com o nome "Retratos da Leitura" (ver http://www.prolivro.org.br/ipl/publier4.0/texto.asp?id=48), mostram que 34% da população nunca foi a uma biblioteca; nas classes D e E, esse percentual sobe para 49%. Esses indicadores mostram a imensa distância que existe entre a casa do cidadão e os espaços formais onde se tem acesso à cultura escrita.

Inexistentes ou anacrônicas

Tais "retratos", em verdade, apenas fazem redundar o óbvio no que se refere às bibliotecas: ou elas inexistem ou estão paradas no tempo ou ficaram apenas nas intenções, sem nunca terem sido organizadas e postas a funcionar condignamente. Em que pesem os cursos de biblioteconomia e de ciências da informação, a mostrar, de forma escancarada, que existe profissional graduado e habilitado para atuar na sociedade, a atitude das autoridades tem sido a de fuga ou de esquiva da responsabilidade, deixando que as comunidades "se virem" no que se refere aos suportes profissionais que facilitem a convivência com livros e outros veículos da escrita.

Recentemente, telefonou-me uma repórter de um jornal curitibano para perguntar o que eu achava de uma experiência de formação de uma biblioteca comunitária. Contou-me ela que os catadores de lixo da cidade tinham "catado" livros e revistas e fundado uma biblioteca para o segmento de catadores de lixo. Louvei a iniciativa, informei que os livros poderiam expandir os horizontes de mundo dos catadores de lixo etc., etc., mas, quando disse que era o governo que deveria organizar e manter as bibliotecas, a repórter entrou em parafuso, achando que não dera a devida importância à iniciativa grandiosa daquela comunidade.

Essa experiência com a "biblioteca catada" não é muito diferente de outras que conheço pelo Brasil, como borracharia-biblioteca, baú-biblioteca, peixaria-biblioteca, boteco-biblioteca, jumento-biblioteca etc., enaltecidas e espetacularizadas pela mídia como soluções absolutas para o problema da nossa vergonhosa situação nessa área. Numa análise mais fria e crítica e sem querer de maneira nenhuma desmerecer as iniciativas do borracheiro, do peixeiro e/ou do dono do jumento, o que vemos, de maneira reiterada, é a escamoteação dos governos, no passar dos anos, com aquilo que é mais do que claro, cristalino e evidente: que sem bibliotecas na real acepção da palavra e sem gente especializada, formada em biblioteconomia, para dinamizá-las profissionalmente, continuaremos incentivando os arremedos e, pior, curvando-nos à fuga de responsabilidade pelas esferas governamentais.

"Melhor isto do que nada", dirão as más línguas. E talvez a minha própria língua já tenha dito isto à luz das possibilidades libertárias dos processos de leitura em si: o fenômeno de que a leitura autônoma pode levar à emancipação das pessoas e gerar a consciência das necessidades. Esse processo pode ser mais bem conhecido através da leitura do livro O queijo e os vermes - o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido, de Carlo Ginzburg (Companhia das Letras, 1987). Entretanto, o crescimento do número de livros desses acervos comunitários, a diversificação dos suportes da leitura, a organização, preservação e recuperação das obras, a sofisticação dos serviços de apoio aos usuários, a seleção de livros de interesse da comunidade em seus segmentos (infantil, adulto, 3ª idade,etc.) impõem, necessariamente, a presença de serviços especializados para fazê-los. E daí a esperança de que o profissional bibliotecário possa ser envolvido para cuidar dessas tarefas e encaminhar os trabalhos de maneira objetiva e embasada nos saberes sistematizados, oriundos da área de biblioteconomia.

Os estereótipos em torno da figura do bibliotecário são também escaramuças para se esquivar da responsabilidade de sua contratação para trabalhos em diferentes tipos de bibliotecas, principalmente as escolares e as comunitárias. De fato, ao longo da nossa história e sendo muito fortalecida após a década de 1960, foi construída a imagem do bibliotecário como um trabalhador insensível, normatizado e normativista, catalogador de livros, controlador do silêncio dos espaços, estafeta dos castigos escolares, que em muito contribuíram para a sua "dispensa" no momento de constituição e de desenvolvimento das bibliotecas.

A briga de Darcy Ribeiro

Recordo-me, por exemplo, das grandes escaramuças entre Darcy Ribeiro, trabalhando para o governo Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), e a classe dos bibliotecários, com aquele afirmando que estes nada tinham a contribuir com a educação pública e com os CIEPs então estruturados. Tal estereótipo, infelizmente, ainda está muito presente no imaginário de muitas autoridades brasileiras, mas convém perguntar a quem esse estereótipo está servindo realmente... No meu ponto de vista, ele também serve à política de esquiva que vem sendo adotada pelos governos em relação à implantação de bibliotecas municipais, escolares e comunitárias neste país. Quer dizer, em se tratando de bibliotecas, sempre se dá um jeitinho e dentro desse jeitinho o bibliotecário nunca está incluído!

Para não colocar o bibliotecário como "vítima" de uma história meio ao contrário, acredito ser também importante uma visada crítica para dentro dos cursos de biblioteconomia ou de ciências de informação, oferecidos por diferentes instituições de ensino superior. Com o fim das habilitações, são raros os cursos que desenvolvem uma base adequada de conhecimentos e práticas para atuação que não seja em centros de informações e/ou empresas. A realidade escolar e as realidades comunitárias não são refletidas e discutidas ou então são tangencialmente tratadas, fechando o círculo vicioso de que o governo não contrata bibliotecários para as escolas e comunidades e, portanto, não existe por que tratá-las durante o período de formação básica. Daí que, quando da necessidade de profissionais para trabalhar nas bibliotecas escolares, ajeita-se, às carreiras, uma oficina rápida para que professores ou membros de uma comunidade recebam dois pingos de biblioteconomia para "tomar conta da biblioteca".

Em recente visita que fiz a minha cidade natal, cruzei com a filha de um amigo que, sei, possui tão somente o diploma do ensino fundamental. Portanto, sem ensino médio e muito menos o superior. Depois dos apertos de mãos e dos abraços, perguntei o que ela vinha fazendo. Ela me disse que era a responsável pela biblioteca da faculdade local e me pedia, naquele instante, que eu enviasse os meus últimos livros porque os professores e alunos tinham muito interesse nos meus escritos.

Um navio à deriva

Ora, sem querer desmerecer a escolaridade dessa conhecida e sua dedicação à biblioteca, fiquei perguntando se uma biblioteca de ensino superior poderia ser responsavelmente organizada e dinamizada por uma pessoa tão jovem e com formação leiga ou muito precária. Vê-se, aqui, mais um episódio desta comédia tragicômica chamada "biblioteca brasileira". Sei, também, por exemplo, que falar para muitos prefeitos sobre a necessidade de contratação de bibliotecário é estar disposto a ouvir impropérios de volta.

Finalizando esta reflexão, creio que a melhor imagem da problemática das bibliotecas no Brasil seja a do filme E la nave va, de Federico Fellini. De fato, igual ao infindável problema da leitura no país, "haja paciência" para tanta contradição, para tanto descaso, para tanto cinismo. Se considerarmos uma biblioteca como um lugar para o qual constantemente nos dirigimos a fim de incrementar a nossa humanidade, então cabe indagar se a falta de humanidade em solo nacional, reiterada pela mídia todos os dias, não tem uma relação com a ausência e falta de bibliotecas em solo brasileiro.

De verdura e leitura

Helena Maria Gramiscelli Magalhães

Ao longo dos anos de exercício do magistério, venho ouvindo chavões e máximas que penetram o processo educacional que se impregna dessas sandices e as perpetuam. Ando meio cansada deles, principalmente daquele que se refere ao (desenvolver o) gosto pela leitura.

Como ocorre isso? Não ocorre. Ninguém ensina ninguém a gostar de algo ou de alguém. Não posso, por exemplo, ensinar minha amiga solteira a gostar de um homem maravilhoso que conheço, ou se apaixonar por ele. Sou eu quem o acha galante e gentil cavalheiro, talhado para fazer par com ela. Que técnica poderia eu usar para que ela se interessasse por ele? Nenhuma. Isso não existe. No caso das paixões e dos amores, você troca olhares com uma pessoa e algo ocorre; é o famoso bateu, é o chan, que ninguém entende ou segura. Daí para frente, é só alegria, conquista fácil, se o chan bateu também tiver batido no parceiro.

Minhas netas nunca gostaram dos verdinhos, as decantadas verduras tão necessárias à alimentação de todos para garantir boa saúde; gostar delas é problemas para as crianças, aliás, para alguns adultos, também, crianças que já foram e delas bem se recordam.

Verdade nua e crua é que elas, as verduras, as tais verdinhas, são horríveis mesmo, não têm gosto algum, de nada. Se quisermos que elas tenham sabor, temos de adicionar sal, tempero, azeite, ou molhos, alcaparras, mostarda e, aí, sim, desfrutamos delas, achando que seu sabor é bom, quando esse gosto é proveniente não delas, mas indubitavelmente, dos temperos que a elas adicionamos.

Em função da boa saúde, e para atender às demandas dos ditos populares e dos nutricionistas de plantão, dizemos às crianças que as verduras são gostosas. É isso mesmo, a gente mente para as crianças na tentativa de enganá-las. Ledo engano, o desgosto se reflete em seus rostos, quando elas comem os tais verdinhos que, desacompanhados, não fedem, nem cheiram; são insípidos. E, embora eu admita sempre que elas sejam essenciais à saúde, sou frontalmente contra as mentiras, principalmente as desnecessárias, quando se trata de como lidar com crianças ou adolescentes em seu processo de formação física, moral e psicológica. E, considero mentira desnecessária, tanto dizer às crianças que verduras são gostosas, quanto dizer a quem não gosta de ler, que ler é bom.

Verduras são “gostosas” para quem já se acostumou a comê-las – sim, comê-las é questão de hábito, não de gosto –, sem discutir seu sabor e porque já entende o importante papel que elas desempenham como elementos fundamentais do processo de crescimento físico e mental dos indivíduos e no da manutenção da saúde.

Não discutirei as múltiplas facetas e utilidades dos vegetais em sua contribuição para uma alimentação completa e saudável, pois, muitos profissionais da área de nutrição já o fizeram. Comer verduras, hoje, é consenso, em termos de necessidade. No passado, as crianças não discutiam, comiam o que os pais mandavam e estes ignoravam a importância de se comer tais clorofilados, mas colocavam na mesa as folhinhas colhidas das suas hortas. Questão de desconhecimento científico, de hábito, e de economia.

Por isso, acho estranho, quando leio textos de teóricos do ensino de línguas dizerem que vão sugerir atividades cujo objetivo é desenvolver nos alunos o gosto pela leitura de textos escritos; fico surpresa, pois do mesmo modo como não podemos fazer alguém gostar de alguém, ou de verdinhas, não podemos fazer alguém gostar de fazer qualquer coisa, muito menos de ler textos escritos.

A questão é de dupla ordem. Primeiramente, só se pode desenvolver algo que já existe; é questão de semântica e lógica. Não posso desenvolver aquilo que não existe. Se o aluno não gosta de ler, como vamos desenvolver essa falta de gosto, esse gosto que não existe? Eu teria de esperar que ele nascesse de novo já com tal gosto. Em segundo lugar, mentiras têm pernas curtas – os que não gostam de ler, e eles existem, logo descobrem a fraude – e esta leva ao descrédito de quem a apregoa. Daí o risco que os profissionais do ensino das línguas correm ao repetirem afirmativas desse tipo.

Dizer, então, a um aluno que não gosta de ler textos escritos que vai desenvolver seu gosto pela leitura é mentira de discurso semântico e deslavado achincalhe à lógica filosófica, já que, como afirmei, não se desenvolvem entidades, coisas, objetos inexistentes. Se o aluno tem o gosto pela leitura, posso ajudá-lo a desenvolvê-lo, aprimorar sua capacidade interpretativa, até a chegar ao ponto de ele se tornar um viciado em leitura. Sonhar não é proibido! Porém, se o aluno não tem o gosto, tenho um problema que precisa de solução.

Como, por um lado, creio serem essas mentiras uma das causas de os alunos não acreditarem no ensino do português, que já anda enfrentando problemas sérios para ensinar leitura e escrita, já que o ensino depende do ler e do escrever bem, por outro, sabemos que muito já se discutiu sobre essas questões; acho é hora de enfocar as soluções.


Tanto para a verdura quanto para a leitura a solução é a mesma, única e simples: a verdade pura. Digam às crianças que verdura é horrível e nada tem de gostoso, mas que é remédio e, por isso, elas têm de comê-la, que não podem, a exemplo dos remédios, escolherem tomar ou não; elas têm de tomar. Com a verdura ocorre o mesmo: é preciso comer o remédio. Verdura é remédio contra as doenças.

Quanto à leitura de textos, digam o mesmo: se você acha que ler é ruim (e o é para alguns, assim como é puro encantamento para outros), pode continuar a achar. Digam aos alunos que vocês respeitam seu desgosto pela leitura, mas que precisam ler de qualquer modo, não por gosto ou vontade, mas por necessidade: leitura é remédio contra a ignorância; é medicamento tal qual a verdura. Leitura é antídoto contra o veneno da alienação, da opressão, da inculcação de valores escusos, contra o escamoteamento da verdade social e política. Ler institui um estado do saber tão legítimo que, depois de apropriado, ninguém pode tomar ou deletar.

É preciso que os professores aceitem os alunos que não gostam de ler. Eles não têm culpa de não gostarem de ler. Posso garantir isso, porque eu mesma odeio ler, mas leio e muito, todos os dias, por necessidade de estudo, boa saúde mental e sobrevivência no mundo global. Ninguém, mas ninguém mesmo, nem as mais sofisticadas técnicas utilizadas para desenvolver meu gosto pela leitura nesse mundo de Deus, fizeram-me gostar de ler. No entanto, alguém num passado bem distante, sabiamente, me aceitou como eu era: pária por não gosta de ler textos escritos, já que avaliava minhas outras leituras, as amenas como a de mundo e a das imagens que não costumam causar problemas. Esse alguém me ensinou, não a gostar de ler – tarefa inviável -, mas a formar o hábito de leitura, como remédio contra a ignorância e a maldade do mundo.

É isso mesmo, verdura e leitura (... e elas até rimam!) são remédios, uma contra doenças e a outra contra a ignorância, reitero, que têm de ser aplicados em doses homeopáticas, contínuas e progressivas; às vezes, elas precisam ser empurradas goela abaixo com sabedoria e, se vomitadas, devem ser tomadas de novo. Verdura e leitura exigem formação de hábitos, ou seja, que a gente se habitue a usá-las. Agradeço à mestra que me fez entender isso; acho que ela nunca se deu conta disso.

Helena Maria Gramiscelli Magalhães - Professora aposentada da Faculdade de Educação da UFMG, onde lecionou as disciplinas Prática de Ensino de Português e de Línguas Estrangeiras, Didática de Licenciatura e Fundamentos do Ensino de Língua Materna. Leciona no PREPES, pós-graduação da PUC- Minas, nos cursos de inglês e português, as disciplinas Análise do Discurso IV (O discurso do Humor) e Semântica II (O Discurso do Humor Negro Brasileiro), e Semantics and Translation, Morphosyntax e Metodologia da Pesquisa Científica III (Produção de Monografias).

terça-feira, 22 de junho de 2010

Projeto Cidadão - Jeito criativo de proporcionar leitura

A S.O.S Pequeninos lança biblioteca itinerante com caixas plásticas que se transformam em prateleiras em cada local

Lu Dressano

Uma biblioteca itinerante terá início nas próximas semanas para despertar o desejo de leitura em 3,7 mil meninos e meninas de 25 entidades assistidas pela S.O.S Pequeninos. Uma doação de 600 títulos pelo Colégio Porto Seguro, de Valinhos, resultou na criação do Projeto Conhecer e o inusitado é a forma encontrada para andar com os livros e os filmes didáticos pedagógicos: tudo será acomodado em caixas plásticas que se transformarão em prateleiras no local a ser montado. “Como não temos um carro apropriado, esta foi a forma encontrada para levar e atender toda a comunidade”, resume a presidente da organização não-governamental, Stella Marcondes Martins.

A creche Tia Lea, no Jardim São Pedro, será a primeira a receber a novidade. Durante um mês, crianças com idade entre 3 e 6 anos terão a chance de começar a ampliar o universo de informações.Depois, a biblioteca muda de lugar. E para preparar os monitores de cada entidade, um curso de formação de biblioteca foi ministrado e envolveu 31 participantes. Os voluntários da S.O.S Pequeninos conseguiram ajuda com profissionais da área e até uma apostila foi elaborada para orientar as atividades.

Busca por valores

Há nove anos, quatro mães conscientes da importância da formação moral de seus filhos se juntaram para buscar fortalecimento em valores humanos. Passaram a incluir na rotina das crianças um dia para a discussão de temas como amor, solidariedade, respeito, ajuda e gratidão. Os encontros aconteciam na Igreja Nossa Senhora das Dores, no Cambuí. O grupo começou com sete crianças, em seis meses eram 25 e em um ano já contava com 45. Era o início da S.O.S Pequeninos.

A fundadora e presidente da organização é Stella Marcondes, uma “católica rebelde” como ela mesma se define. Arquiteta e mãe de três filhos explica: “Ajudar só meus filhos não resolvia mais. Em pouco tempo tive a sensação de que a minha família era muito maior e os benefícios que buscava para os meus quis estender a todos”. Para Stella, só a educação não basta para formar uma pessoa, há necessidade de uma busca espiritual, mas direcionada para a aplicação diária. “Isso é imprescindível para toda e qualquer pessoa que se sensibilize com as diferenças sociais e sonhe com um mundo melhor para todos”, acredita.

Noventa voluntários (com idade entre 13 e 60 anos), parcerias com empresas, a contribuição mensal de 40 sócios e mais os eventos promocionais formam a base solidária para atender cada entidade “naquilo que realmente precisam”, diz a fundadora. Este ano, as ações estiveram voltadas para reformas e melhorias nos espaços físicos. As 25 entidades recebem orientação de uma equipe técnica e o grupo voluntário ganha suporte e direção na identificação e consolidação das ações.

O núcleo de voluntariado conta também com a atuação dos jovens, “que desde cedo recebem informações e percebem a importância do social hoje. Eles podem promover mudanças mais rápidas e significativas”, aponta Stella. A participação da moçada gerou o Projeto Recreando, em que mensalmente são realizadas oficinas de teatro, de contadores de histórias, de esporte e de recreação. “Brincadeiras e diversão ajudam a passar valores éticos”, ressalta a fundadora.

Dia dos pequeninos

Para marcar o Dia das Crianças foi lançado em outubro do ano passado o dia dos pequeninos. A comemoração deste ano promete repetir um programa com festas e passeios oferecidos durante dois meses. As crianças até 18 anos são divididas em grupos e participam de atividades bastante diferentes de suas rotinas. “Vamos investir neste projeto para poder a cada ano apresentar algo mais às crianças e jovens e poder transformar em sorrisos uma realidade triste e sofrida”, diz empolgada a fundadora.

A biblioteca itinerante tem data marcada para setembro para iniciar as atividades. As crianças contarão com opções de leitura diversificada e as escolhas passam pela Coleção Pequenos Amigos, em que um dos títulos é O Golfinho; encontram uma fábula indígena recontada em O Melhor de Mim para o Melhor dos Mundos; as tradicionais de La Fontaine, entre outras.

AS ENTIDADES

Instituto Educacional Professora Maria do Carmo Arruda Toledo
Creche Santa Rita de Cássia/Ilce da Cunha Henry
Centro de Formação Semente da Vida
Lar Escola Jesus de Nazaré
Grupo das servidoras, Léa Duchovni de Campinas
Associação Campineira de Recuperação da Criança Paralítica
Instituto Dom Nery
Associação do Pão dos Pobres de Santo Antonio
Fundação Bezerra de Menezes
Serviço Social da Paróquia São Paulo Apóstolo
Serviço Social Nova Jerusalém
Associação Projeto Quero-Quero
Centro Educacional de Assistência Social Menino Jesus de Praga
Creche Gustavo Marcondes
Creche Mãe Luiza
Centro Educacional Integrado
Associação dos Amigos da Criança (AMIC)
Casa da Criança Madre Anastácia
Fundação Douglas Andreani
Grupo Comunitário Criança Feliz
Casa da Criança de Sousas
Associação de Educação do Homem de Amanhã
Creche Mãe Cristina
Núcleo Assistencial Gerônimo Mendonça
Lar Pequeno Paraíso

SAIBA MAIS

S.O.S Pequeninos

Av. Dr. Sílvio de Moraes Salles, 101, Cambuí- Fone: 3294-4772


O jovem brasileiro e a leitura

Graciema Pires Therezo

Para dizer da importância da leitura para o jovem hoje, lembro as palavras de Ezequiel Teodoro da Silva, ao afirmar a natureza transcendental da palavra. Por ter o ser humano uma inteligência lingüística, o ato de ler é que lhe permite conhecer palavras para exprimir seus sentimentos, suas emoções, suas idéias. Permite-lhe estar no mundo como pessoa; pôr-se em contato, pelo poder da escrita, com as idéias dos grandes homens, mesmo que distantes no espaço ou mortos já há séculos. Permite-lhe fruir do belo literário, alcançando, em suas fontes, a expressão do que não pode ser expresso pela oralidade nem exposto pela linguagem denotativa. Por aí se deduz que ler não só propicia o crescimento intelectual do jovem, como o desenvolvimento de sua sensibilidade, sua formação como ser humano. Mas ele não sabe disso.

Contardo Calligaris, em artigo publicado na Folha de São Paulo, conta da alegria de trabalhadores imigrantes italianos, em um curso de alfabetização de adultos, ao conseguirem ler pequenos parágrafos de grandes obras literárias e reconhecer, em situações de vida, conflitos vivenciados por personagens dos grandes clássicos. E não eram crianças em busca de fantasias, nem adolescentes em busca das emoções trazidas por livros de aventuras. Eram homens maduros penetrando nos grandes mistérios da vida humana em suas trágicas dimensões.

Como professora de Leitura e Produção de Textos na Universidade, sinto-me à vontade para fazer algumas reflexões nascidas da experiência e da observação. A resposta de uma aluna sobre suas leituras das férias de julho (“— Eu só li torpedos”), em um primeiro momento extremamente impactante, é a prova de que os jovens modernos, mesmo tendo ingressado em uma Faculdade, continuam a roubar-se das possibilidades de crescimento intelectual pelo desprezo pela leitura. Preferem as mensagens do celular, as conversinhas pelo MSN, os e-mails em linguagem cifrada à página de um livro. Modernidades à parte, idiossincrasias de professora de Português descontadas, o que fica é uma indagação sobre as razões da famosa “falta de hábito de leitura” tão amplamente discutida nos COLES e nas salas dos professores de todas as escolas que se prezam. Por que o brasileiro lê tão pouco?

A justificativa corrente é a de que o nosso é um país pobre, de que as pessoas não têm dinheiro nem mesmo para comprar jornal, quanto mais para gastar em livro; que este é caro, artigo de luxo para a esmagadora maioria da população. Estatísticas mostram que, no Brasil, foram vendidos, em 2005, menos livros que em Buenos Aires, apenas uma cidade da Argentina, país recém-saído de crise econômica, de moeda fraca e política ainda em reestruturação. Será mesmo que o brasileiro não tem condições financeiras que lhe permitam o hábito de ler? Entretanto, as mesmas estatísticas revelam que, no shopping-list dos Estados Unidos, o livro está entre os primeiros dez itens de consumo, enquanto, no Brasil, entre os dez primeiros aparecem cosméticos e produtos para cachorro (veja-se o número de pet shops nas grandes cidades brasileiras...) Será que isso não leva a crer que a questão é cultural e, não, econômica?

Há exemplos maravilhosos de pessoas que freqüentam sebos, tomam livros emprestados de bibliotecas, de parentes, e, até mesmo, exemplos de catadores de papel que lêem livros jogados no lixo. Recentemente os jornais publicaram a notícia de uma biblioteca formada com mais de mil desses exemplares e disponibilizada aos amigos por um morador de favela. E há exemplos de uma elite endinheirada que tem televisão de plasma, computadores de última geração, celulares substituídos a cada novo modelo no mercado, mas que não lê.

O Brasil tem uma cultura da oralidade e, não, da escrita. A criança brasileira fica poucas horas na escola e o resto do dia vê televisão, fala e ouve. A própria escola é oralizante, pois o professor prefere dar aula expositiva, “facilitando” para o aluno, em linguagem coloquial, as explicações que, no manual didático, estão em texto escrito de coesão mais “difícil” e vocabulário “mais complicado”. Até mesmo em cursinhos pré-vestibulares, nota-se que alguns professores acreditam, ingenuamente, que, ao aproximar sua linguagem da do jovem, suas explanações ficam mais claras . E o aluno é imaturo para perceber que a facilitação, até mesmo com o uso de expressões populares e gírias mais comuns, contribui para afastá-lo não só da norma culta das obras que deve ler para suas provas de ingresso na universidade, mas do nível padrão que deve adotar em seus textos escritos. Repertório insuficiente para a expressão escrita clara de suas idéias sobre questões propostas nos vestibulares e pobreza vocabular na hora da redação revelam, claramente, essa falta de leitura.

Graciema Pires Therezo é professora de Leitura e Produção Textual na PUC-Campinas